Melhores filmes de 2018 (até agora)

Por André Dick

Abaixo, a primeira lista dos melhores filmes de 2018 do Cinematographe, seguida por menções honrosas, que será atualizada à medida que forem sendo lançados ou vistos novos filmes. Conta-se a data de lançamento internacional deles, não apenas no país de origem ou em festivais. Por isso, há obras nela que foram lançadas, por exemplo, no Festival de Cannes e Festival de Berlim de 2017. São incluídos lançamentos realizados também em VOD e na Netflix.

1. Foxtrot (Samuel Maoz)
2. Hereditário (Ari Aster)
3. Colo (Teresa Villaverde)
4. O amante duplo (François Ozon)
5. Você nunca esteve realmente aqui (Lynne Ramsey)
6. Outside in (Lynn Shelton)
7. Thoroughbreds (Cory Finley)
8. Deixe a luz do sol entrar (Claire Denis)
9. Arábia (João Dumons e Affonso Uchoa)
10. Sicario – Dia do soldado (Stefano Sollima)

***

11. Custódia (Xavier Legrand)
12. Mudo (Duncan Jones)
13. Corpo e alma (Ildikó Enyedi)
14. As aventuras de Paddington 2 (Paul King)
15. Noviciado (Margaret Betts)
16. Ilha dos cachorros (Wes Anderson)
17. Jogador Nº 1 (Steven Spielberg)
18. Tully (Jason Reitman)
19. 15h17 – Trem para Paris (Clint Eastwood)
20. Like me (Robert Mockler)
21. Deadpool 2 (David Leitch)
22. Em pedaços (Fatih Akin)
23. O conto (Jennifer Fox)
24. Baseado em fatos reais (Roman Polanski)
25. Os incríveis 2 (Brad Bird)

Menções honrosas: As boas maneiras (Juliana Rojas, Marco Dutra), Damsel (David e Nathan Zellner), The rider (Chloé Zhao), Missão: impossível – Efeito Fallout (Christopher McQuarrie), Permission (Brian Crano), Who we are now (Matthew Newton), Princess Syd (Stephen Cone), Summer of 84 (François Simard, Anouk Whissell, Yoann-Karl Whissell), What keeps you alive (Colin Minihan), Pérolas no mar (Rene Liu), A noite do jogo (John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein), Sem amor (Andrey Zvyagintsev), Você e os seus (Hong Sang-soo), Não vai dar (Kay Cannon), Felicité (Alain Gomis), Homem-Formiga e a Vespa (Peyton Reed), Rastros (Agnieszka Holland), Fútil e inútil (David Wain), Espectador profissional (Dito Montiel), Vende-se esta casa (Suzanne Coote e Matt Angel), Newness (Drake Doremus), Jurassic World – Reino ameaçado (J. A. Bayona), Tudo que quero (Ben Lewin), Hostis (Scott Cooper), Alfa (Albert Hughes), Rampage – Destruição total (Brad Peyton), Desobediência (Sebastián Lelio), Cargo (Ben Howling e Yolanda Ramke), Flower (Max Winkler), Almas secas (Liz W. Garcia), Blame (Quinn Shepard), Together (Terrence Malick), Distúrbio (Steven Soderbergh), Becks (Daniel Powell, Elizabeth Rohrbaugh), Fullmetal alchemist (Fumihiko Sori), Perigo na montanha (Lin Oeding), Frost (Šarūnas Bartas), The ballad of Lefty Brown (Jared Moshe), Submersão (Wim Wenders), Aniquilação (Alex Garland), O ritual (David Bruckner), Um lugar silencioso (Joseph Krasinki), A sombra da árvore (Hafsteinn Gunnar Sigurðsson), Todas as razões para esquecer (Pedro Coutinho), O plano imperfeito (Claire Scanlon), O mercador (Tamta Gabrichidze), Utoya, 22 de julho – Terrorismo na Noruega (Erik Poppe), O rei da polca (Maya Forbes), Vingança (Coralie Fargeat), The Cloverfield Paradox (Julius Onah), Woman walks ahead (Susanna White), Lean on Pete (Andrew Haigh), Maria Madalena (Garth Davis), A câmera de Claire (Hong Sang-soo), Christopher Robin – Um reencontro inesquecível (Marc Forster), Golden exits (Alex Ross Perry), Tal pai, tal filha (Lauren Miller), O predador (Shane Black), Destination wedding (Victor Levin)

A serem vistos/lançados:  Wildlife (Paul Dano), The miseducation of Cameron Post (Desiree Akhavan), The Irishman (Martin Scorsese), Leave no trace (Debra Granik), Eight grade (Bo Burnham), Skate kitsch (Crystal Moselle), Blaze (Ethan Hawke), We the animals (Jeremiah Zagar), The death & life of John F. Donovan (Xavier Dolan), Boy erased (Joel Edgerton), Bohemian Rhapsody (Dexter Fletcher), Acrimony (Tyler Perry), O dia depois (Hong Sang-Soo), The kindergarten teacher (Sara Colangelo), Mary, queen of scots (Josie Rourke), Detona Ralph 2 (Rich Moore, Phil Johnston), Creed 2 (Steven Caple Jr.), Suspiria (Luca Guadagnino), Don’t worry, he won’t get far on foot (Gus Van Sant), Life & nothing more (Antonio Méndez Esparza), Todos lo saben (Asghar Farhad), At war (Stéphane Brizé), Dogman (Matteo Garrone), Le Livre d’image (Jean-Luc Godard), Asako I & II (Ruysuke Hamaguchi), Sorry Angel (Christophe Honoré), Girls of the Sun (Eva Husson), Ash is purest white (Jia Zhang-ke), Shoplifters (Hirokazu Koreeda), Capernaum (Nadine Labaki), Burning (Lee Chang-Dong), BlacKkKlansman (Spike Lee), Under the Silver Lake (David Robert Mitchell), Three faces (Jafar Panahi), Cold War (Pawel Pawlikowski), Lazzaro Felice (Alice Rohrwacher), Yomeddine (Abu Bakr Shawky), Leto (Kiril Serebrennikov), Border (Ali Abbasi), Sofia (Meyem Benm’Barek), Little tickles (Andréa Bescond e Eric Métayer), Long day’s journey into night (Bi Gan), Manto (Nandita Das), Werk ohne autor (Florian Henckel Von Donnersmarck), The nightingale (Jennifer Kent), The favourite (Yorgos Lanthimos), Peterloo (Mike Leigh), Sextape (Antoine Desrosières), Meu ex é um espião (Susanna Fogel), Girl (Lukas Dhont), Best f(r)iends (Justin MacGregor), O retorno de Mary Poppins (Rob Marshall), Lizzie (Craig Macneill), Nasce uma estrela (Bradley Cooper), The seagull (Michael Mayer), An evening with Beverly Luff Linn (Jim Hosking), Ayka (Sergei Dvortsevoy), The spy gone north (Yoon Jong-Bin), 10 years in Thailand (Aditya Assarat, Wisit Sasanatieng, Chulayarnon Sriphol e Apichatpong Weerasethakul), The state against Mandela and the others (Nicolas Champeaux e Gilles Porte), The wild pear tree (Nuri Bilge Ceylan), O grande circo místico (Cacá Diegues), La traversée (Romain Goupil), Capri-Revolution (Mario Martone), What you gonna do when the world’s on fire? (Roberto Minervini), Sunset (Laszlo Nemes) Frères ennemis (David Oelhoffen), Nuestro tiempo (Carlos Reygadas), At eternity’s gate (Julian Schnabel), Acusada (Gonzalo Tobal), Killing (Shinya Tsukamoto), To the four winds (Michel Toesca), Dead souls (Wang Bing), Pope Francis – A Man of His Word (Wim Wenders), Mosaic (Steven Soderbergh), Freakshift (Ben Wheatley), The mercy (James Marsh), Welcome the stranger (Justin Kelly), The Ballad Of Buster Scruggs (Ethan Coen, Joel Coen), Vox lux (Brady Corbet), 22 july (Paul Greengrass), O homem que matou Dom Quixote (Terry Gilliam), The son (Denis Villeneuve), Aquaman (James Wan), The week of (Robert Smigel), The war with Grandpa (Tim Hill), O primeiro homem (Damien Chazelle), Uma dobra no tempo (Ava DuVernay), Tom Raider – A origem (Roar Uthaug), The mountain (Rick Alverson), Doubles vies (Olivier Assayas), The sisters brothers (Jacques Audiard), Operação Red Sparrow (Francis Lawrence), O passageiro (Jaume Collet-Serra), Círculo de fogo – A revolta (Steven S. DeKnight), The favourite (Yorgos Lanthimos), Oito mulheres e um segredo (Gary Ross), Mamma Mia – Lá vamos nós de novo (Ol Parker), Light of my life (Casey Affleck), Robin Hood – Origins (Otto Bathurst), The house with a clock on it’s wall (Eli Roth), Bad times at the El Royale (Drew Goddard),  Jungle Book – Origins (Andy Serkis), The girl in the spider’s web (Fede Alvarez), X-Men – A fênix negra (Simon Kinberg), The professor and the madman (Farhad Safinia), Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald (David Yates), Desejo de matar (Eli Roth), Widows (Steve McQueen), A pequena sereia (Chris Bouchard, Blake Harris), Chris The Swiss (Anja Kofmel), Roma (Alfonso Cuarón), The old man & the gun (David Lowery), Máquinas mortais (Christian Rivers), Diamantino (Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt), Egy Nap (Zsófia Szilágyi), Fuga (Agnieszka Smoczynska), Kona Fer I Stríð (Benedikt Erlingsson), Sauvage (Camille Vidal-Naquet), Sir (Rohena Gera), Angel face (Vanessa Filho), White boy Rick (Yann Demange), City of lies (Brad Furman), Euphoria (Valeria Golino), My favorite fabric (Gaya Jiji), Friend (Wanuri Kahiu), The Harvesters (Etienne Kallos), In my room (Ulrich Köhler), Um pequeno favor (Paul Feig), Papillon (Michael Noer), El Angel (Luis Ortega), The gentle indifference of the world (Adilkhan Yerzhanov), Le grand bain (Gilles Lellouche), Arctic (Joe Penna)

A lista atualizada pode ser verificada também aqui.

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Han Solo – Uma história Star Wars (2018)

Por André Dick

O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de SplashCocoonWillow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da VinciO Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repetiu em No coração do mar, sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.

Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti,  Howard foi chamado a ocupar o posto de diretor de Han Solo – Uma história Star Wars quando a dupla Cristopher Miller e Phil Lord, dos dois Anjos da lei e de Uma aventura LEGO, foi demitida pela produtora Kathleen Kennedy por divergências de concepção – e quando, ao que se sabe, já havia sido rodada boa parte do filme.
A narrativa começa com Han Solo (Alden Ehrenreich) e sua amante Qi’ra (Emilia Clarke) em Corellia, um centro de construção naval da galáxia, tentando escapar de uma gangue local. No despiste de tropas imperiais, acaba acontecendo uma separação, o que vai levar Han, três anos depois, a uma batalha num planeta chamado Mimban. Ele conhece um grupo de criminosos que têm à frente Tobias Beckett (Woody Harrelson), que age com a esposa Val (Thandie Newton) e o alienígena Rio Daurant (voz de Jon Favreau). No meio do caminho, isso vai levar o personagem central a uma cela onde conhecerá seu amigo Chewbacca (Joonas Suotamo). Han tem a sorte de falar a língua do companheiro, Shyriiwook. A partir daí, a história envereda por um roubo de carga liderado pelo mesmo Beckett, a serviço de Dryden Vos (Paul Bettany, usando uma camisa social), líder do clã criminoso Crimson Dawn. Claro que, depois de algumas peripécias, Solo se encontrará com Lando Calrissian (Donald Glover), afinal esta é uma prequela das aventuras localizadas na trilogia de George Lucas.

Howard é um diretor talentoso e sabe lidar, a maior parte do tempo, com os atrasos impostos pela primeira filmagem de Miller e Lord. Ele tem um talento para a técnica de efeitos especiais, o que já mostrou em outras obras. No entanto, é certo que o roteiro de Jonathan e Lawrence Kasdan não é o mais interessante. Lawrence é autor de Os caçadores da arca perdida e O império contra-ataca, clássicos dos anos 80, e, a partir da década passada, quando dirigiu O apanhador de sonhos, não teve mais acertos. Sua parceria com J.J. Abrams em O despertar da força rendeu novos personagens até certo ponto sólidos, porém nunca instigantes como os da trilogia original.
A tarefa de dar vida à juventude de Solo esbarraria em duas coisas: o ator obviamente não seria Harrison Ford e este personagem tinha mais justificativa com Luke Skywalker e Princesa Leia a seu lado. Seu início de amizade com Chewbacca é uma coleção de momentos previsíveis, sem nenhum traço do humor que constituiria a dupla na trilogia de Lucas – e talvez este pudesse ter sido melhor explorado por Lord e Miller, que teriam entendido o filme como uma comédia, ao contrário da Disney.

Por mais que consigamos vê-lo de maneira autônoma, Han Solo não é um personagem suficientemente complexo para receber uma história à parte, ao menos não com um roteiro disperso. Talvez se imaginasse que ele, se Ford fosse mais jovem, rendesse um novo Indiana Jones. Sua participação não foge ao esquema de um personagem apaixonado que conhece novos amigos e precisa antecipar várias referências do que aparece na trilogia de Lucas principalmente.  Ehrenreich tem boa vontade e certo talento, demonstrado antes em Ave, César! e Regras nãos e aplicam, mas não supre a ausência de mais carisma, independente do fato de acertadamente não tentar uma imitação de Ford.
Também se percebe que a atenção visual dada ao restante da série não comparece aqui, pelo menos não depois da satisfatória primeira meia hora. O filme de Howard, além de se basear numa fotografia inadequada de Bradford Young – responsável pelo trabalho primoroso de O ano mais violento –, centrada demais na cor marrom (a mesma do uniforme de Han e do pêlo de Chewbacca), variando com o cinza e um azul esmaecido, não tem assessoria de um figurino e direção de arte ricos (uma sala em que ocorrem alguns dos momentos-chave é particularmente desinteressante). No segundo ato, é visível a falta de criatividade para a criação de lugares múltiplos para esse mundo estendido, numa configuração eterna de paisagens desérticas e rochosas sem o mínimo de atrativo. A falta de criatividade parece repercutir nas atuações pouco inspiradas do habitualmente ótimo Harrelson e de Glover, levando-se ainda em conta que Emilia Clarke não tem carisma o suficiente para sustentar sua personagem, embora pareça a mais centrada no que está acontecendo a seu redor. Do mesmo modo, os personagens – mesmo Chewbacca – se sentem apenas componentes de um universo forçadamente estendido. Esse não era um traço de Rogue One, um semiépico espacial despretensioso e muito eficaz em sua construção de novos personagens capazes de anteceder a obra de 1977 sob um viés até mesmo trágico.

A trilha sonora de John Powell tem o incômodo de ser uma mescla de acordes novos com outros extraídos do trabalho icônico de John Williams: nos momentos de ação, surge a trilha de Williams em meio aos estilhaços de tentativa de fazer uma nova. É uma tentativa de se aproveitar da nostalgia do espectador em todos os momentos, principalmente numa sequência praticamente semelhante a uma que acontece em O império contra-ataca. Isso faz crer que não apenas a nova trilogia Star Wars se baseia demais na antiga, como Han Solo se nutre das aventuras do personagem já vistas anteriormente em outra companhia. Esse caminho causa um incômodo eficaz para que o espectador nunca se desvencilhe do fato de que essa é apenas uma introdução a algo mais importante – e talvez quem se contente com o que se convencionou chamar de fan service saia mais satisfeito da sessão. Nem mesmo algumas referências ao gênero do faroeste, na parte final, sustentam o fato de que todas as sequências de ação soam por demais genéricas, embora muito bem feitas e com uma parte técnica praticamente irreparável. Sob esse ponto de vista, é lamentável que Howard nunca consiga inserir seu ritmo de ação em meio ao drama, já comprovado em Willow, Rush e No coração do mar, por exemplo. Ele sempre parece aqui apenas um nome para conduzir uma obra iniciada por outros diretores e que tentou consertar ao máximo o estrago, como profissional competente. Do mesmo modo, o elenco visivelmente sentiu o peso das refilmagens. Se a Millennium Falcon sempre atinge um poder de recuperação, Howard, infelizmente, não conseguiu o mesmo.

Solo – A Star Wars history, EUA, 2018 Diretor: Ron Howard Elenco: Alden Ehrenreich, Joonas Suotamo, Woody Harrelson, Emilia Clarke, Donald Glover, Thandie Newton, Phoebe Waller-Bridge, Paul Bettany, Jon Favreau, Linda Hunt, Ian Kenny, John Tui, Warwick Davis Roteiro: Jonathan Kasdan, Lawrence Kasdan Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: John Powell e John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Allison Shearmur, Simon Emanuel Duração: 135 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

2010 – O ano em que faremos contato (1984)

Por André Dick

Filme 2010 11

Dar continuidade a uma das maiores obras de ficção científica não apenas de todos os tempos, mas também a uma obra-prima cercada por conceitos e enigmas não seria fácil de qualquer modo. Se tentasse se manter o mesmo estilo, ainda mais. Por isso, 2010 – O ano em que faremos contato, dirigido por Peter Hyams a partir de uma obra de Arthur C. Clarke, é visto, não por poucas pessoas, como uma decepção do tamanho do monólito negro que navega pelo espaçotempo de 2001, justamente por ter procurado seu caminho próprio. Hyams teria ligado ao próprio Kubrick, e este teria lhe dito para fazer a obra que quisesse. O diretor de Capricórnio Um, que trabalha com a ideia de que a chegada à Lua foi, na verdade, uma grande criação governamental, e de Outland – Comando Titânio, uma espécie de faroeste de ficção com Sean Connery de 1981, seguiu o conselho de Kubrick.

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E, como Kubrick, Hyams assumiu mais do que o posto de diretor: é também roteirista, diretor de fotografia e produtor. De 2010, lembro mais exatamente a capa do livro original, quando ia a uma livraria com meu pai quando criança, parecida com a do material de marketing do filme: no entanto, havia naquela capa um mistério que o filme tenta carregar consigo. Trata-se de uma ficção científica de bastante qualidade, que surgiu em meio a um período em que vigoravam as séries de Guerra nas estrelas e Star Trek, não encontrando público – conseguiu apenas cobrir seus custos –, e, apesar de comparado a 2001, pode-se dizer que certamente inspirou Gravidade e Interestelar e merece ser reavaliado, sobretudo na sua versão em Blu-ray, com cores notáveis.

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Se tudo inicia (possíveis spoilers a partir daqui) com as palavras do astronauta Dave Bowman (Keir Dullea), o roteiro mostra norte-americanos, comandados pelo doutor Heywood Floyd (Roy Scheider, substituindo William Sylvester, do original), que têm o objetivo de reencontrar a nave Discovery, desaparecida no final do primeiro filme, localizada pela última vez perto da lua de Saturno. A União Soviética tem o plano de ir também atrás da nave, e para isso preparam a Leonov. Essa informação é levada por Dimitri Moisevitch (Dana Elcar) a Floyd. Com receio de sua esposa Caroline (Madolyn Smith) e do filho, Cristopher (Taliesin Jaffe), Floyd acaba concordando em partir numa missão conjunta, ao lado de Walter Curnow (John Lithgow), responsável pela construção da Discovery, e do Dr. Chandra (Bob Baladan), criador do HAL 9000. Na missão, entre os russos, estão a capitã Tanya Kirbuk (Helen Mirren), Vladimir Rudenko (Savely Kramarov), Irina (Natasha Schneider) e Maxim Brailovsky (Elya Baskin). Interessante a maneira como Hyams compõe a vida de Lloyd antes da viagem, com seu filho alimentando golfinhos numa piscina dentro de casa, e a luminosidade remete a um futuro solitário e vago – como, por exemplo, quando Lloyd está à frente da Casa Branca ou correndo numa estrada ao lado do filho, num carrinho.

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Já no espaço, há um conflito entre norte-americanos e soviéticos, entre o comando feminino e Floyd, além de certo patriotismo na trama, no entanto a narrativa, embora com ar de Guerra Fria, é interessante. Perto de Júpiter, eles localizam o monólito, assim como logo chegam à Discovery. A narração de Floyd se constitui principalmente em pedaços de mensagem para sua esposa e filho – ele está ali para proporcionar um amanhã diferente. A partir daí, Hyams explica vagamente por que o computador HAL 9000 enlouqueceu no primeiro e parte do mistério do monólito negro, ou seja, chega a ser didático, ao contrário do filme de Kubrick, o que também corresponde à continuação em livro, escrita por Arthur C. Clarke. Não surpreende que o filme seja apontado simplesmente como inferior ao primeiro, sem a devida análise e percepção de que se trata de uma obra com outro estilo. Existe, aqui, uma tentativa clara de aproximar mais o público de uma aventura espacial, e a primeira ida de Curnow e Chandra até a Discovery revela isso, com um apuro visual de Hyams e um trabalho na movimentação de câmera e no som que colocar o espectador em meio à sensação de estar no espaço sideral.

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Enquanto Kubrick sugeria mais por meio de imagens até poéticas, Hyams cria elementos de ligação mais evidentes para que a história se esclareça sem desvios. Pode-se apontar mais exatamente onde a obra envelheceu – principalmente por sua temática envolvendo norte-americanos e soviéticos –, no entanto existe aqui uma tentativa de ressoar uma real ficção científica. O conjunto de peças de Hyams é mais imersivo do que várias outras que viriam a seguir, sem a mesma força. O mais notável é que os efeitos especiais supervisionados por Richard Edlund (o mesmo de Indiana Jones e Guerra nas estrelas) não tenham sido premiados com o Oscar (conta também com excelente direção de arte, efeitos sonoros, som e figurino elaborados, igualmente indicados ao prêmio). Mantendo a parte técnica excelente do clássico de Stanley Kubrick , 2010 conta ainda com um visual futurista de Syd Mead (Blade Runner) e um elenco com bastante diversificação, em que Scheider é a peça principal, mas assessorada por um Baladan e Lithgow compenetrados e uma Helen Mirren discreta.

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Esse visual e elenco chegam ao limiar do tema abordado por Clarke: o de que o espaço e o monólito guardariam todas as fases da vida humana, e quando ressurge David Bowman em diferentes períodos de sua existência, Hyams oferece um toque quase surreal e fantasmagórico, como o encontro virtual com sua esposa, Betty Fernandez (Mary Jo Deschanel) no hospital. Não apenas o fantasma de Bowman surge na Terra, como avança sobre os espaços da Discovery. Tudo em 2010 é mais evidente. Não apenas nesse sentido, como na maneira como os astronautas, a exemplo de Floyd, atuam – num instante de perigo ele se abraça a uma colega soviética de jornada. É uma cena pouco imaginável em 2001. Em Kubrick, a sensação é de que estamos diante de um grande painel de mistério sobre a humanidade, em ritmo de ópera; em 2010, o ponto de equilíbrio é a discussão política e científica que surge por trás das ações dos personagens. Ainda assim, Hyams é capaz de elevar suas imagens a algo que remete a 2001 no trabalho de cores e visões. Cada uma delas lembra uma grande pintura espacial: eis o que esses filmes parecem ter de melhor.

2010, EUA, 1984 Diretor: Peter Hyams Elenco: Roy Scheider, John Lithgow, Helen Mirren, Bob Balaban, Keir Dullea, Betty Fernandez, Madolyn Smith, Savely Kramarov, Nastasha Schneider, Elya Baskin Roteiro: Peter Hyams Trilha Sonora: David Shire Fotografia: Peter Hyams Produção: Peter Hyams Duração: 116 min. Distribuidora: Metro Goldwyn-Mayer

Deadpool 2 (2018)

Por André Dick

O grande filme de super-heróis de 2016, na opinião de grande parte do público e da crítica, foi a produção modesta de um personagem da Marvel, Deadpool. Com Ryan Reynolds em seu papel principal, ele tenta fazer o mesmo que Ben Affleck: se este passou de Demolidor a Batman, Reynolds passou de Lanterna Verde a um herói mais cômico. A continuação começou a ser planejada logo em seguida, devido ao grande sucesso de bilheteria. E o diretor do original, Tim Miller, nesse meio tempo acabou se desentendendo com Reynolds e deu lugar a David Leitch. Ele teria pretendido fazer um filme como o primeiro, simples em termos de orçamento, indo contra a vontade do ator. Leitch dirigiu anteriormente duas peças de ação destacáveis, John Wick e Atômica. Ambos têm, além de uma ação dosada, um visual muito interessante, sobretudo o segundo.

Reynolds volta a fazer aqui um bom super-herói. Mais à vontade com a carregada maquiagem que exibe quando não está com a máscara, quando aparece como Wade Wilson, ele vem conseguindo se destacar até dramaticamente, em À procura, e parece ter entendido ainda melhor o timing do humor. As grandes qualidades de Deadpool 2 se devem, como no primeiro, à sua presença. Ele já começa em grande movimento, com o herói tendo de se enfrentar bandidos. Em seguida, ele reencontra a namorada Vanessa (Morena Baccarin), e logo adiante seu melhor amigo, Weasel (T.J. Miller), que trabalha num pub.
Se o primeiro filme tinha um bom ritmo até o fim de sua primeira metade, Deadpool 2, pela utilização de cenários variados e exatamente mais grandiosidade (que teria causado o desentendimento entre Reynols e o diretor do original), é uma obra de ação que retoma elementos de um humor despretensioso, apesar de sua variedade infinita de referências ao universo cultural (particularmente engraçada a analogia entre Frozen e Yentl, filme dos anos 80 com Barbra Streisand, e a lembrança de Instinto selvagem), além de voltar a mostrar o super-herói como uma peça menos importante do universo X-Men, na mansão Xavier, levando novamente à quebra da quarta parede, em gags que funcionam em boa parte. Para que Wade possa descobrir um lado que desconhecia (o de querer uma família), ele conhece o jovem mutante Russell Collins (Julian Dennison, outra vez mostrando o talento que exibiu em A incrível aventura de Rick Baker), revoltado com o diretor (Eddie Marsan, em breve participação, mas convincente) do orfanato onde vive.

Domino, alter ego de Neena Thurman (Zazie Beetz), é a personagem que surge para acompanhar Deadpool no terceiro ato inevitavelmente voltado a cenas de ação, ainda assim melhor dosado do que aquele do primeiro filme. O interessante é que o roteiro dos mesmos autores do original, apesar de previsível, principalmente depois da entrada do vilão Cable (Josh Brolin, muito bem em uma persona maquiada, mas sem digitalização), se mostra muito superior ao primeiro, em que havia um salto do primeiro para o segundo ato sem o preparo necessário.
O filme já inicia com uma referência a uma determinada influência que Deadpool teve no universo da Marvel. Estão de volta Colossus (Stefan Kapicic) e o taxista Dopinder (Karan Soni). O diretor Tim Miller buscava contato com o humor violento de Kick-Ass, mas Leitch, por ter mais apuro visual, consegue concentrar a violência sob um ponto de vista menos impactante e verdadeiramentes engraçado. Uma passagem em que Deadpool tenta guiar uma equipe é uma das mais cômicas do cinema recente. As sequências de ação têm ritmo próprio, porém não se apresentam de maneira a investir num exagero desproporcional; privilegiam a técnica e o embate corpo a corpo, uma especialidade do diretor já demonstrada principalmente numa longa sequência de luta de Charlize Theron em Atômica. O diretor de fotografia Jonathan Sela, o mesmo desse filme anterior de Leitch, desenha uma movimentação interessante com a câmera.

No primeiro, a impressão é que a aparente crítica corrosiva apenas procurava encobrir a ideia de que todos os filmes acabam tendo elementos parecidos o vilão, a mocinha a ser resgatada, o herói abalado por sua criação. Aqui o filme brinca exatamente em cima da própria metalinguagem: “segue uma cena de efeitos especiais”. É simples e funcional, e o personagem funciona sem a autoimportância de ser aquele que critica a indústria sob um ponto de vista bem-humorado: ele já explicita que faz parte dessa mesma indústria e suas gags são bem mais discretas e verdadeiramente sarcásticas. Deadpool 2, como o anterior, ainda deve bastante ao que Homem-formiga fez com precisão e agilidade, mas tem personagens à altura de seus objetivos. Se o primeiro arrecadou um valor extraordinário nas bilheterias, talvez este segundo não chegue ao mesmo. Com quase o dobro de custo do original, visto plenamente na tela, de qualquer modo, há algo decisivamente substancial nesta peça, uma espécie de visão familiar buscada pelo super-herói em diferentes passagens, até quando está tentando ser engraçado.

Deadpool 2, EUA, 2018 Diretor: David Leitch Elenco: Ryan Reynolds, Josh Brolin, Morena Baccarin, Julian Dennison, Zazie Beetz, T.J. Miller, Brianna Hildebrand, Jack Kesy Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick, Ryan Reynolds Fotografia: Jonathan Sela Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Simon Kinberg, Ryan Reynolds, Lauren Shuler Donner Duração: 119 min. Estúdio: Marvel Entertainment, Kinberg Genre, The Donners’ Company Distribuidora: 20th Century Fox

O mito da liberdade (2010)

Por André Dick

O diretor David Robert Mitchell se tornou conhecido por seu brilhante suspense Corrente do mal. No entanto, sua estreia atrás das câmeras havia acontecido alguns anos antes com este O mito da liberdade, uma tradução um pouco problemática em relação ao original. Se há algum filme que soube conservar alguns elementos das experimentações de Linklater de início de carreira (em Jovens, loucos e rebeldes) e trazer sua própria visão, chegando a antecipar algumas abordagens, como as de As vantagens de ser invisível e Palo Alto, mais do que exatamente Harmony Korine, é este. Numa semana em que o filme mais recente de Mitchell, Under the Silver Lake, foi o mais vaiado até agora do Festival de Cannes, é importante retomar uma trajetória que parte do cinema underground dos Estados Unidos com talento poucas vezes visto. Há oito anos, O mito da liberdade estreava justamente no Festival de Cannes.
A história segue um grupo de jovens de um subúrbio de Detroit, que pretende aproveitar seu último dia de verão para, principalmente, chegar a algumas conquistas. Nada muito diferente dos filmes sobre jovens, adolescentes e a dificuldade de entrar na vida adulta. Mas Mitchell, como em Corrente do mal, possui uma visão poética dos detalhes que cercam a adolescência: em seu filme, tudo é discreto (talvez o contrário do que vemos em Linklater) e mesmo sem humor, fazendo com que o espectador nunca chegue muito próximo dos personagens (há poucos diálogos), no entanto nunca deixe de senti-los como reais.

Amanda Bauer é Claudia, uma corredora, um tanto interessada em provocar o namorado de uma amiga; Marlon Morton é Rob Salvati, que se apaixona por uma menina no supermercado e passa a procurá-la depois disso; Brett Jacobnsen é Scott Holland, irmão de Jen (Mary Wardell), que, ao olhar alguns álbuns de fotos, redescobre subitamente um interesse por duas irmãs gêmeas do colegial, Ady Abbey (Nikita Ramsey) e Anna Abbey (Jade Ramsey); e Claire Sloma é Maggie, uma menina que se interessa pelo rapaz que trabalha na piscina onde vai durante o verão, enquanto se dedica à dança. Todos esses personagens serão mostrados vagando à noite pelas calçadas do subúrbio, entrando e saindo de casas onde há reuniões, seja de rapazes ou moças.
Interessante como Mitchell privilegia um olhar melancólico, diferente do olhar de John Hughes em seus projetos iniciais, embora Clube dos cinco antecipe parte dessa reflexão juvenil, e mais ainda Superbad, embora Mottola desenhe para seus personagens uma descaracterização do adolescente comum. É um diretor que consegue extrair boas atuações, discretas e concisas, de um elenco inexperiente e que consegue ser efetivo. Ele tem uma ambientação muito bem feita, assim como Corrente do mal, até mesmo com elementos do outro filme (os lugares são quase sempre escuros e abandonados). Trata-se de uma espécie de despedida de uma fase, com mais sensibilidade do que costumamos ver. O último dia de verão e a noite que segue a ele podem definir o rumo de cada um.

O roteiro não tem um desenvolvimento complexo, mas a maneira como Mitchell filma essa noite (com a “festa do pijama” a que remete o título original) parece traduzir a sensação do verão e das descobertas de uma maneira que leva ao comedimento, não apenas com Maggie dançando em meio a uma festa, como também Scott tentando reviver uma nostalgia do colegial, e Rob querendo encontrar a menina que pode ser a sua futura namorada. Os olhares e toques importam mais do que a sensação de envolvimento, e pode-se ver também o quanto há cenas que inspiraram filmes mais pop, como Cidades de papel e Homens, mulheres e filhos (o casal se encontrando à janela). A fotografia de James Laxton, que se tornaria mais conhecido por seu trabalho em Moonlight – Sob a luz do luar, é verdadeiramente delicada, alternando a claridade ofuscante do dia com o mistério da noite que significa um rito de passagem para esses jovens enfocados.
O cenário do subúrbio dialoga, desse modo, com o sentimento dos personagens: as ruas vazias, algumas meninas andando de bicicleta, o barulho da festa, alguns adolescentes nadando num lago, meninas reunidas ao redor de uma mesa de sala, os rapazes jogando papel higiênico nas árvores (lembrando o videoclipe “1979”, do Smashing Pumpkins), o jovem que aprecia uma menina (Amy Seimetz) limpando o carpete da casa para depois encontrá-la, surpreso, numa banheira, o seu amigo que não consegue entender por que ele busca a mesma menina do supermercado. Mesmo em relação a uma série sobre essa fase, Freaks and geeks, O mito da liberdade se sente introspectivo, como se apenas mostrasse detalhes do cotidiano que irremediavelmente irão marcar a vida dos personagens-chave, mesmo que eles não deem a importância necessária ou mesmo não queiram saber. Mitchell se apresenta como um diretor e roteirista à altura desta visão realmente importante para o gênero.

The myth of the american sleepover, EUA, 2010 Diretor: David Robert Mitchell Elenco: Claire Sloma, Marlon Morton, Amanda Bauer, Brett Jacobsen, Nikita Ramsey, Jade Ramsey, Amy Seimetz Roteiro: David Robert Mitchell Fotografia: James Laxton Trilha Sonora: Kyle Newmaster Produção: Justin Barber, Michael Ferris Gibson, Adele Romanski, Cherie Saulter Duração: 93 min. Distribuidora: IFC Films

Karatê Kid – A Hora da Verdade (1984)/Cobra Kai (2018)

Por André Dick

Um dos grandes sucessos dos anos 80, que deu origem a três continuações (uma inclusive com Hilary Swank), um remake e uma série lançada este ano pelo YouTube Red – constituindo um universo amplo, em diferentes mídias, que lembra os de Arquivo X e Twin Peaks –, Karatê Kid – A hora da verdade é uma das obras que representam o imaginário infantojuvenil de uma época fundada por filmes de fantasia. É preciso, antes de tudo, gostar de histórias simples, ou seja, que coloquem os personagens de maneira humana, como já havia feito o mesmo diretor John G. Avildsen em Rocky – O lutador, pelo qual recebeu um surpreendente Oscar, para gostar da narrativa. Como o filme de Stallone, esse tem uma mensagem válida, cenas de luta interessantes e personagens acessíveis. Esses elementos estariam presentes em suas duas sequências com os mesmos personagens principais, uma de 1986 e outra de 1989, mas sem a mesma autenticidade (possíveis spoilers a partir daqui).

O jovem Daniel LaRusso (Macchio, bom ator) chega com a mãe, Lucille (Randee Heller), a uma nova cidade, Reseda, em Los Angeles, vindos de Newark, New Jersey. Depois de um dia na praia com novos amigos, ele desperta a raiva de uma gangue de motoqueiros e que luta karatê, cujo líder, de família rica, é Johnny Lawrence (William Zabka), isso porque Daniel se envolve com a ex-namorada de Johnny, Ali Mills (Elizabeth Shue). Após um baile de Halloween, no qual tenta se vingar de Johnny e gangue, vestidos com um figurino de esqueleto, LaRusso é perseguido por eles, até que o Sr. Miyagi (Noriyuki “Pat” Morita), um zelador do condomínio onde mora, resolve ensiná-lo a lutar também. Para impedir que a turma de Johnny continue a cercá-lo, Miyagi combina com o dono do dojo Cobra Kai, o sensei John Creese (Martin Kove), que Daniel vai enfrentar seus desafetos no torneio de karatê de All Valley. É exatamente Creese aquele que movimenta esses jovens em direção a uma ideia de que o esporte deve servir para o ataque e a vingança pessoal.

Por vezes, Karatê Kid parece um conto de fadas bem-humorado e possui uma narrativa simples e linear, mas inteligente. Parte da funcionalidade reside não apenas no fato de a amizade de Daniel evoluir depois de uma sessão em que poda um bonsai sob o olhar de Miyagi, mas o treinamento que recebe, por meio de atividades alheias ao esporte, como pintar cercas ou encerar carros. Enquanto Creese incentiva seus alunos a um karatê violento, os ensinamentos do Sr. Miyagi se baseiam num contato com a natureza, seja no mar ou num lago. Do mesmo modo, o relacionamento de Daniel com Ali é eficiente, não apenas pela química entre os personagens, como pelas atuações de Macchio e de Shue. Agora que a série Cobra Kai traz alguns desses personagens de volta e mostra LaRusso e Johnny sob um novo ponto de vista, mesclando uma nova versão para a vida do segundo, Karatê Kid revela que não era um filme comum e sim à frente de sua época. Daniel obviamente era um jovem que sofria bullying, mas tentava enfrentá-lo do seu modo: ele encarava seus opositores como fazem os jovens na série Cobra Kai.

Lawrence, pela nova ótica da série, parece um injustiçado, quando, na verdade, ele teve apenas sua complexidade acentuada. Nem os ensinamentos de Miyagi passaram a ser ultrapassados, nem os de Johnny ou de seu mestre Creese passaram a ser mais modernos ou aceitáveis – a violência continua violência, o bullying apenas se espalhou para novas plataformas, no caso o mundo digital moderno, especificamente com Samantha (Mary Mouser), filha de LaRusso. O que se destaca é Johnny também fazer trabalhos manuais como fazia o Sr. Miyagi e morar num condomínio de periferia, assim como Daniel no original, em Reseda. LaRusso, por sua vez, é dono de uma concessionária famosa de automóveis e mora no bairro padrão de vida sofisticada. É como se as vidas de ambos andassem em círculos complementares. Ao ver o dojo Cobra Kai reaberto por Johnny, Daniel não lembra apenas dos problemas de sua chegada, mas os posteriores, quando foi ludibriado por um amigo de John Creese, Terry (Thomas Ian Griffith), na terceira parte da série de cinema.
Ao retornarmos a este Karatê Kid dos anos 80, é justamente esse olhar sobre a perseguição de um grupo a um jovem que acentua o interesse pela história dele. O Miguel (Xolo Maridueña, ótimo) da série Cobra Kai é uma espécie de LaRusso ensinado sob os dogmas da Cobra Kai. O filho de Johnny, Robby Keene (Tanner Buchanam), possui o temperamento que tinha o pai na juventude e se transforma também numa espécie de LaRusso, mas sob os ensinamentos propagados por Miyagi. Johnny não era a figura maléfica – e sim seu sensei. No entanto, como mostra a história de Cobra Kai, é desvirtuado por um padrasto de instinto violento e a localização nos preceitos do dojo do antigo mestre como um mapa para suas escolhas de vida.

É interessante como os limites entre o que é certo e o que é errado se tornam um pouco menos claros. As vidas de LaRusso e Johnny se cruzam como aquelas que vemos no ótimo filme O lugar onde tudo termina, sobre a ligação entre diferentes gerações. Se os conhecíamos jovens, a sua versão mais velha  e experiente leva a uma reavaliação do que os levou aonde estão. O momento em que dividem uma mesa de bar, superados vários desentendimentos (o primeiro na loja de carros de LaRusso), é especificamente revelador do apego a um passado: mais do que a nostalgia, a juventude representou o que os levaria até ali. Do mesmo modo, a ligação entre Samantha e Miguel remete à de LaRusso e Ali, inclusive com os dois indo ao mesmo parque de diversões do original. Daniel agora é casado com Amanda (Courtney Henggeler), sua parceira de negócios, que lembra Ali em certos termos.
De maneira geral, a série do cinema de Karatê Kid não existiria sem a figura do Sr. Miyagi. Indicado merecidamente ao Oscar de ator coadjuvante, Pat Morita, escolhido para o papel fundamental do mestre, ocupou o lugar que seria de Toshiro Mifune, grande ator japonês de filmes de Kurosawa. Se Mifune tem um humor acentuado, como em Sanjuro, é certo que o roteirista Robert Mark Harmen, que não o queria no papel, deve ter gostado do acerto com a escolha de Morita. Ele parece frágil também como Daniel, além de mais baixo do que Macchio, e isso cria um diálogo entre os dois também neste quesito. A maneira como os ensinamentos são apresentados se situa entre o bom humor e a conquista pessoal. Avildsen tem um olhar muito bom para a relação entre aluno e mestre, como em Rocky mostrava o lutador sendo treinado por Mickey, e demonstraria esse talento ainda mais no ótimo Meu mestre, minha vida, com Morgan Freeman, curiosamente no mesmo ano em que apresentou a fraca terceira parte de Karatê Kid.

Miyagi, apesar de ausente em Cobra Kai, é a referência em todos os momentos desse crescimento já na vida adulta de Daniel. Josh Heald, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg, que criaram a série Cobra Kai a partir do filme original, colocam não apenas LaRusso com a complexidade do antigo mestre, como também Johnny Lawrence. Este, envolto por problemas alcóolicos (na obra de 1984, Miyagi, especialmente, se embebedava ao lembrar da antiga namorada de Okinawa) e fixado nas reprises de Águia de aço na TV (exatamente sobre a ligação entre um filho piloto da Força Aérea e seu pai sequestrado), não deixa de representar um ponto de superação – a família de Miguel se torna aquela que nunca teve. E se torna também uma superação para o ator: William Zabka, reduzido nos anos 80 a participações de fundo em filmes como De volta às aulas e Férias frustradas na Europa, se mostra surpreendente. No fundo, Karatê Kid fala de indivíduos constituindo, por meio do esporte, uma família que não possuem e talvez nisto resida sua universalidade e interesse. E Cobra Kai investe nessa ideia com rara autenticidade e êxito, resultando tão atraente quanto o filme original.

Karate Kid, EUA, 1984 Diretor: John G. Avildsen Elenco: Ralph Macchio, Noriyuki “Pat” Morita, Elisabeth Shue, Randee Heller, William Zabka, Martin Kove Roteiro: Robert Mark Kamen Fotografia: James Crabe Trilha Sonora: Bill Conti Produção: Jerry Weintraub Duração: 127 min. Estúdio: Delphi II Productions, Jerry Weintraub Productions Distribuidora: Columbia Pictures

 

Cobra Kai, EUA, 2018 Diretores: Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Jennifer Celotta, Josh Heald, Steve Pink Criadores: Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg Roteiristas: Jason Belleville, Stacey Harman, Josh Heald, Jon Hurwitz, Robert Mark Kamen, Joe Piarulli, Hayden Schlossberg, Michael Jonathan Smith, Luan Thomas Elenco: Ralph Macchio, William Zabka, Courtney Henggeler, Xolo Maridueña, Mary Mouser, Tanner Buchanan Fotografia: Cameron Duncan Trilha Sonora: Leo Birenberg e Zach Robinson Duração: entre 22-36 minutos (10 episódios) Distribuidora: YouTube Red

A noite do jogo (2018)

Por André Dick

As comédias sobre casais do subúrbio nos Estados Unidos envolvidos com problemas têm o seu principal referencial em Meus vizinhos são um terror, de Joe Dante, dos anos 80. Recentemente, tivemos Vizinhos nada secretos, um bom momento para a parceria entre Galifianakis e Gal Gadot, embora com muitos problemas de roteiro. Os diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein, responsáveis pela nova versão de Férias frustradas, bastante subestimada, fizeram o roteiro de Homem-Aranha – De volta ao lar e dos dois Quero matar meu chefe.
A noite do jogo tem, de certo modo, elementos de todos seus filmes anteriores, mas principalmente dos dois Quero matar meu chefe, por se passar quase totalmente à noite, o que ajuda a construir um clima específico. Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) adoram jogos e se conhecem num deles. Acabam se envolvendo e no momento atual pensam em ter um filho. Eles gostam de se reunir com os amigos Ryan (Billy Magnussen), Sarah (Sharon Horgan) e o casal Kevin (Lamorne Morris) e Michelle (Kylie Bunbury). No entanto, seu vizinho, Gary Kingsbury (Jesse Plemmons), não é mais convidado aos jogos depois de ter se separado da mulher, talvez pelo seu jeito curiosamente estranho. E Max também tem conflitos de rivalidade com o irmão Brooks (Kyle Chandler).

A partir de uma noite de jogo, Max os convida para que a próxima seja em sua casa. É quando ele explica que planejou um jogo diferente: um dos integrantes será sequestrado e os demais terão de encontrá-lo. Trata-se de uma premissa um pouco absurda, mas como nos demais filmes de Daley e Goldstein há uma preocupação principalmente com fazê-la funcionar, a cabo de muitas situações de humor absurdas e diálogos ultra-rápidos. Para isso, a colaboração dos atores é notável. Bateman é um dos atores mais subestimados de Hollywood: ele não tem nenhum talento interpretativo notável, mas é eficaz quando está em cena quase sempre, assim como em Quero matar meu chefe, além de ser um diretor competente (a julgar por Palavrões, por exemplo). Sua mania de nunca sorrir ou exagerar é justamente o que lhe oferece diversão. E McAdams, depois de uma sucessão de obras dramáticas, volta aqui ao que fez tão bem em Uma manhã gloriosa, no qual interpretava a produtora principal de um programa matinal nos Estados Unidos e precisava lidar com uma dupla de apresentadores egocêntrica interpretada por Harrison Ford e Diane Keaton.

O que chama a atenção no trabalho de John Francis Daley, o Sam Weir, personagem principal da exitosa série de TV Freaks and geeks (que aparece no início de A noite do jogo), e Jonathan Goldstein é justamente a habilidade em lidar com situações paralelas, a rapidez das cenas sem cair numa narrativa descartável e um espantoso maneirismo de colocar uma simples movimentação de câmera como algo essencial para se entender um filme (movimentação que se dá numa festa com referências a Django livre e Clube da luta). Eles trabalham com um roteiro de Mark Perez que parece ter sido feito por eles. De maneira geral, ambos sempre homenageiam lances do cinema, e há uma quantidade de gags nesse sentido em Quero matar meu chefe, mas também marcava presença no mais recente Homem-Aranha, com suas referências à filmografia de John Hughes, sobretudo Curtindo a vida adoidado e O clube dos cinco. Uma homenagem em forma de sátira a Denzel Washington é uma das melhores, no clima mais intensificado de Saturday Night Live. O cinema se torna uma metalinguagem, mas sem cair na obviedade, sendo ajudado pela trilha sonora eficiente do habitual colaborador de Nicolas Winding Refn, Cliff Martinez, o mesmo de Drive (e as cenas de perseguição de carro aqui são muito boas).

O personagem feito por Jesse Plemmons é significativo justamente por isso: ele é como se fosse o espectador que não está exatamente inteirado do que está acontecendo. O roteiro investe em reviravoltas que soam plausíveis dentro do contexto sem nunca apelar a uma necessidade de chamar a atenção para o fato de que o roteiro nunca explica devidamente seus pontos-chave, embora os personagens sejam pouco desenvolvidos e algumas soluções caiam planas. A história tem como principal base uma determinada obra de David Fincher, à qual não me refiro para evitar spoiler, e o diálogo é criativo e intenso na maior parte do tempo. Por outro lado, o filme com o qual A noite do jogo mais dialoga é Uma noite fora de série, com Steve Carell e Tina Fey, dirigido por Shawn Lewy, uma diversão descompromissada e arrasada pela crítica no início da década. A elaboração minuciosa de cada cenário noturno e a rota ente humor e ação é típica da obra de Lewy, hoje consagrado como um dos diretores e produtores de Stranger things. A química entre Bateman e McAdams funciona como a do casal dessa comédia de 2010, nos melhores momentos de uma comédia norte-americana dos últimos anos. Embora certamente dissociado de pretensões e uma elaboração hermética, A noite do jogo é um daqueles filmes agradabilíssimos aos quais se irá rever em reprises na TV.

P.S.: Tem uma cena pós-crédito.

Game night, EUA, 2018 Diretores: John Francis Daley e Jonathan Goldstein Elenco: Jason Bateman, Rachel McAdams, Billy Magnussen, Sharon Horgan, Lamorne Morris, Kylie Bunbury, Jesse Plemons, Michael C. Hall, Kyle Chandler Roteiro: Mark Perez Fotografia: Barry Peterson Trilha Sonora: Cliff Martinez Produção: John Davis, Jason Bateman, John Fox, James Garavente Duração: 100 min. Estúdio: New Line Cinema, Davis Entertainment, Aggregate Films, Access Entertainment Distribuidora: Warner Bros.

15h17 – Trem para Paris (2018)

Por André Dick

Este é considerado por muitos o pior filme da carreira de Clint Eastwood. No entanto, há filmes de Eastwood considerados obra-primas e que sequer são bons, embora a média geral seja de grande qualidade. Sua obra mais recente se baseia numa história real, envolvendo Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, soldados dos Estados Unidos que viajam pela Europa, a fim de buscar diversão e descanso.
A história de 15h17 – Trem para Paris começa um pouco antes, mostrando-os desde a infância, quando tinham interesse por armas e eram mandados para a sala do diretor do colégio onde estudavam. Stone (interpretado então por William Jennings) e Alek eram mais próximos; depois, Sadler (Paul Mikél-Williams) se aproxima de ambos. Do mesmo modo, desenha-se a ligação de Stone com sua mãe Joyce (Judy Greer) e de Alek (Bryce Gheisar) com sua mãe Heidi (Jenna Fischer).

Esta interligação com eles ainda crianças mostra uma certa simpatia de Eastwood pela construção do herói improvável e seu filme é uma obra filmada como ficção, mas que poderia ser um documentário, já que conta com as figuras reais em ação na vida adulta. Inicialmente, se o espectador desconhece a história, a sensação é de Eastwood mostrar a cultura armamentista já visualizada no belíssimo Elefante, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Ao mesmo tempo, se quer mostrar a criação religiosa principalmente de Stone. Trata-se de um clima pouco visto na filmografia do diretor: o da infância, com alguns recursos nostálgicos de imagens no bosque, o contato com a natureza, diminuído depois pelos corredores do exército.
Afirma-se que, por isso, o elenco tem um tom amador, entretanto é justamente essa despretensão que torna a narrativa de Eastwood interessante. Há elementos de Sniper americano aqui, um movimento elegante de câmera e intensifica sua tensão no ato final com perícia de um grande diretor. Baseado no livro The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Heroes, de Jeffrey E. Stern, Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, o roteiro de Dorothy Blyskal se caracteriza pela agilidade. A naturalidade dos acontecimentos dialoga muito bem com obras recentes sobre jovens militares, a exemplo de A longa caminhada de Billy Lynn e Honra ao mérito.

É possível apontar algum reducionismo na maneira como algumas situações são enfocadas, no entanto é inegável que Eastwood tem talento. O ambiente militar trazido por este filme e Sniper de certo modo se espalha pela trajetória do diretor. Temos, por exemplo, Firefox e O destemido senhor da guerra nos anos 80, assim como Cartas para Iwo Jima e A conquista da honra. Nesses filmes, Eastwood visualiza seus personagens de maneira a nunca tratá-los como uma extensão do discurso que existe por trás deles.
Talvez seja mais interessante desconhecer a história verdadeira antes de assistir a 15h17 – Trem para Paris, assim como não ver o trailer e ler críticas, que basicamente sintetizam o que ocorre. Não sabia o que iria acontecer (talvez eu tenha visto matérias na época do acontecimento, mas há fatos divulgados em tanta quantidade nos tempos modernos que notadamente acabamos não lembrando de todos) – e isso aumentou a tensão. O fato de ter sido demolido pela crítica diz muito mais desta do que da qualidade do filme, e talvez decorra do fato de o roteiro não trabalhar também o ponto de vista de quem leva a ação às consequências finais da narrativa. E do elenco Sadler é um inevitável destaque; mesmo interpretando a si mesmo, ele confere mais dramaticidade do que os outros.

O final pode se sentir muito formal e previsível, principalmente em relação à sequência-chave da história (com uma crueza bem trabalhada e uma sensação de combate iminente), no entanto poucos filmes falam de como uma pessoa comum pode se tornar verdadeiramente importante num determinado momento em que é requisitada a agir. Esse tema acaba dialogando diretamente com a bela obra anterior do diretor, Sully – O herói do Rio Hudson, com uma atuação magistral de Tom Hanks e um tom documental que não se deixava abater pela neutralidade ou alguma frieza diante dos acontecimentos. Eastwood, acostumado a faroestes clássicos no início de sua carreira e até especialmente a obra-prima Os imperdoáveis, deixa que as figuras enfocadas falem por si, e isso é raro no cinema norte-americano.

The 15:17 to Paris Diretor: Clint Eastwood Elenco: Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Spencer Stone, Judy Greer, Jenna Fischer,William Jennings, Paul Mikél-Williams, Bryce Gheisar Roteiro: Dorothy Blyskal Fotografia: Tom Stern Trilha Sonora: Christian Jacob Produção: Clint Eastwood, Jessica Meier, Tim Moore, Kristina Rivera Duração: 94 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Village Roadshow Pictures, Malpaso Productions, RatPac-Dune Entertainment Distribuidora: Warner Bros. Pictures