300 (2006)

Por André Dick

Na virada do século, o filme Gladiador, de Ridley Scott, retomou a ideia de um cinema épico baseado na ideia de homens lutando em arena. O personagem principal, Maximus, cujo intérprete, Russell Crowe (ganhador do Oscar de ator), faz crer numa volta a um tempo clássico, de Spartacus, é um fiel seguidor de Marcus Aurelius (Richard Harris), imperador de Roma, mas é traído e se torna um gladiador. Roma passa a ser governada por um tirano, Commodus (Joaquin Phoenix), o filho de Marcus Aurelius. Ridley Scott consegue transformar o argumento em imagens antológicas de lutas em arenas, com atuação eficiente de todo o elenco (cada personagem é tratado de forma nada unidimensional). A direção de arte e os efeitos especiais também são de muita consistência, sobretudo porque estamos diante de um filme de época, que leva o espectador por algumas horas numa volta a um tempo histórico, com uma trilha sonora magnífica de Hans Zimmer e Lisa Gerrard, além da fotografia irretocável de John Mathieson.

Em Madrugada dos mortos, a refilmagem do clássico dos anos 70 dirigido por George Romero, que marca a estreia na direção de Zack Snyder, baseado num roteiro de James Gunn, que viria a dirigir Guardiões da galáxia, o diretor não mostra completamente seu estilo, no entanto consegue extrair situações interessantes de um panorama caótico. Seu real estilo viria a partir de 300, que ingressou exatamente nesse universo suscitado por Scott, remetendo também a Os 300 de Esparta.
A mitologia greco-romana sempre atraiu o olhar de cineastas com interesse pelo trabalho narrativo e pela questão visual: tivemos nos anos 80 Fúria de titãs, precursor de muitos elementos do campo de efeitos visuais, assim como sua refilmagem nos anos 2010, e Tróia, o grandioso experimento de Wolfgang Petersen.
Snyder adaptou 300 com fidelidade à HQ de Frank Miller, e o elenco oferece um desempenho dedicado. O filme inicia mostrando a infância do rei Leônidas: aos 7 anos, é afastado de sua mãe para iniciar o agogê, período de privações a que os cidadãos de Esparta são levados.

Depois de 30 anos, um mensageiro persa (Peter Mersah) chega a Esparta falando que Xerxes I (Rodrigo Santoro) quer dominar a território – assim como outros povoados gregos à época. Leônidas (Gerard Butler), casado com a Rainha Gorgo (Lena Headey), decide aniquilar toda a comitiva. Sendo período da festa de Carneia, ele seleciona 300 homens de sua guarda para enfrentar os invasores da Pérsia – levando-se em conta que em Esparta os homens eram treinados para lutar em batalhas. A seu lado, estão Stellios (Michael Fassbender), Dilios (David Wenham), Capitão Artemis (Vincent Regan) e seu filho Astinos (Tom Wisdom). Mas contra está o político Theron (Dominic West). Tudo tem como centro a Batalha das Termópilas de 480 a.C.
Com poucos diálogos (sendo uma obra essencialmente de batalhas) e trama não trabalhada de forma suficiente, na qual o rei Leônidas enfrenta, com seus homens, o exército persa de Xerxes. 300 se sente, mais do que outros filmes de Snyder acusados disso, mais estilo do que substância. A violência prepondera do início até o fim, principalmente na segunda metade em larga escala, e Snyder usa e reusa a câmera lenta para criar cenas de impacto – e ainda assim muitas sem o peso emocional necessário. Há uma tentativa de traçar duelos políticos e uma certa privação da mulher num universo predominantemente masculino, e Snyder faz isso ligando os personagens a uma certa tentação pelo que pode levá-los à queda. O rei Xerxes – com uma voz acentuadamente estranha de Rodrigo Santoro – é o símbolo de uma espécie de avanço do pecado contra uma comunidade que, longe de ser ingênua, ainda tenta conservar seus integrantes.

Como no seu filme de estreia, Snyder tem noção de cenas de ação e da potência dos embates, além do cuidado uso de efeitos sonoros capazes de amplificar a atmosfera, mas ainda lhe falta uma certa reflexão que viria com Watchmen, em sua lentidão. Ainda assim, é um estilo único, e pode-se dizer que os quadrinhos de Miller são traduzidos em perícia visual de um modo que dificilmente seria visto novamente, nem mesmo em sua sequência, quase uma década mais tarde, com Eva Green como a grande vilã. Isso se deve também ao trabalho de fotografia de Larry Fong, que voltaria a trabalhar com Snyder em Batman vs Superman, utilizando os recursos do CGI para iluminar cada cena de maneira grandiosa e tentando buscar comparações diretas da pintura. É aí que a obra de Snyder cresce em retrospectiva, aliando atuações boas num cenário de batalha devastador que não faz o espectador esquecer daquilo pelo qual esses homens estão lutando, colocando em questão diálogos sobre honra, traição, fidelidade e amor cercado pela morte.

300, EUA, 2006 Diretor: Zack Snyder Elenco: Gerard Butler, Lena Headey, David Wenham, Dominic West Roteiro: Zack Snyde, Kurt Johnstad, Michael B. Gordon Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Gianni Nunnari, Mark Canton, Bernie Goldman Jeffrey Silver Duração: 116 in. Estúdio: Legendary Pictures, Virtual Studios, Atmosphere Pictures, Hollywood Gang Productions
Distribuidora: Warner Bros. Pictures

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