O império contra-ataca (1980)

´Por André Dick

A história do primeiro Star Wars parece seguir uma premissa muito bem costurada: numa galáxia distante, o jovem Luke Skywalker (Mark Hamill), cujo maior sonho é tornar-se um piloto da Aliança Rebelde, vai embora do planeta desértico Tatooine, onde morava com os tios, para resgatar a princesa Leia (Carrie Fisher), capturada por Darth Vader (David Prowse, com a voz de James Earl Jones), o vilão do elmo soturno, que coordena o “império do mal” em sua Estrela da Morte, uma espécie de esfera de metal suspensa no espaço.
Ao lado de Luke, estão o sábio Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness), Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew), que possuem a Millennium Falcon, uma nave com problemas de ignição, e a dupla de robôs R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). A mensagem por trás das palavras de Obi-Wan podem, hoje, parece ingênua– e foi criticada à época principalmente por amigos próximos do diretor –, contudo George Lucas conseguiu sintetizar o panorama de uma geração por meio de suas batalhas estelares e criar um cinema de qualidade para a diversão massificada. Como continuar uma história que parece sintetizar a diversão de uma época muito distante?

Três anos depois, O império contra-ataca surge apontando novos caminhos e expandindo a saga com outros elementos. Com seu início passado no gélido planeta Hoth, onde os rebeldes se escondem no início do filme e que proporciona sequências memoráveis, que valeram o Oscar de efeitos especiais, Irvin Kershner, novo diretor, que havia feito dois anos antes o suspense Os olhos de Laura Mars, introduz Luke numa assustadora caverna onde precisa enfrentar um monstro. A visão é oposta à Tatooine do primeiro filme e a relação entre os personagens avança para uma frente em que Luke e Han Solo entram num embate discreto pela princesa Leia. Há, no entanto, a visão do passado: a imagem de Obi-Wan Kenobi surge num momento derradeiro. Luke, porém, precisa partir para Dagobah, a fim de ter ensinamentos jedi. É o pequeno sábio Yoda (criatura projetada por Lucas e Frank Oz, o mesmo dos Muppets, inspirada em Dersu Uzala, de Kurosawa) , com um direcionamento transcendente, que procura mostrar a ele o caminho da força e do bem, com o objetivo de transformá-lo num guerreiro Jedi. E, embora em Guerra nas estrelas Vader se mostrasse ameaçador, aqui, com a inserção discreta de seu líder Palpatine, ele parece ainda se mover na ameaça, inclusive quando coloca sua nave em perseguição a Millennium Falcon, onde Leia e Solo, graças a Ford e Fisher, revelam uma ótima parceria.

Trata-se de um argumento replicado em Os últimos Jedi, no qual uma caverna pode esconder o outro eu do personagem central, ou seu maior medo. Kershner, por meio de imagens captadas num pântano levantado nos estúdios Pinewood da Inglaterra, transforma Dagobah num lugar fantasmagórico, misterioso e, ao mesmo tempo, acolhedor, por causa da fotografia de Peter Suschitzky, que torna tudo próximo do tátil. São todas as perspectivas da própria série. Ao mesmo tempo, Solo, Leia, Chewbacca e os dos robôs precisam escapar de uma nave do Império, na qual se encontra Darth Vader, rumo à Cidade das Nuvens, onde encontram Lando Calrissian (Billy Dee Williams) – e reservam o design de produção mais próximo da trilogia que Lucas faria depois, a primeira em ordem cronológica.
Luke, após ensinamentos, parte para a Cidade das Nuvens para enfrentar Darth Vader e tem uma revelação surpreendente, essencial para a compreensão da trilogia. Nesse sentido, é como o personagem abandona seu eu antigo e encontra sua nova personalidade, e no mesmo movimento a sequência se estabelece: embora pareça em muitos momentos uma sequência, introduz nela movas ideias.

Talvez o episódio mais instigante da trilogia, O império contra-ataca não desperta a surpresa de Guerra nas estrelas, mas é inovador nos cenários que mostra. Divertido e, em alguns momentos, espetacular, com excelente direção de arte (apresentando detalhes oitentistas em sua concepção de luzes e painéis, mais ao final no duelo), foca a relação existencial entre Luke e Vader, que representa o embate entre o bem e o mal, revelando, por vezes, uma atmosfera sombria, até claustrofóbica em seu labirinto de túneis e passagens, na qual estão presentes razões psicológicas que movem o ser humano, enquanto traz uma vertente mais bem-humorada e, por fim, memorável, da Princesa Leia, de Han Solo, Chewbacca e os robôs. O roteiro de Leigh Brackett e Lawrence Kasdan, baseados numa história de Lucas, consegue delinear de maneira enfática cada personagem – e torna cada figura interessante. Há pelo menos um par de cenas depois de Vader confrontar Han Solo que remete a uma ideia de herói a ser punido para existir uma redenção.
Ao final, O império contra-ataca, ao mesmo tempo, investe numa verdadeira tragédia épica espacial. Nela, tanto o espectador quanto os personagens se defrontam com uma verdade incômoda – mas é o que torna a série mais mitológica e coerente com a sua proposta.. Muitos avaliam que há um acerto maior porque Lucas se manteve mais nos bastidores financeiros do que no espaço criativo, porém a obra diz muito de toda a sua carreira, inclusive antecipando elementos que empregaria com Spielberg em Os caçadores da arca perdida. Ha um misto entre psicologia, vontade de reescrever a história e certa crença numa religiosidade que escapa ao seu próprio universo, tornando-se mais amplo e levando o espectador a lugares inexplorados.

The empire strikes back, EUA, 1980 Diretor: Irvin Kershner Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, David Prowse, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, Frank Oz, James Earl Jones Roteiro: Leigh Brackett, Lawrence Kasdan Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: John Williams Produção: Gary Kurtz Duração: 124 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox

 

Star Wars – A ascensão Skywalker (2019)

Por André Dick

Quando a Disney efetuou a compra dos direitos de Star Wars de George Lucas por uma soma significativa de dinheiro, que retornou praticamente no primeiro filme da nova trilogia, certamente estava querendo, mais do que projetos, expandir um universo com inúmeros personagens. Ela deu a J.J. Abrams a responsabilidade de retomar esse universo em O despertar da força, exatamente 10 anos depois de Lucas ter encerrado a segunda trilogia com A vingança dos Sith – na ordem cronológica, a primeira. Abrams já havia retomado uma franquia estelar com grande êxito, no Star Trek de 2009, rejuvenescendo a tripulação da Enterprise. À frente dos personagens básicos criados por Lucas, mas inserindo novos, ele não parecia se sentir tão à vontade. O resultado ficou num meio-termo entre a refilmagem disfarçada do filme de 1977 e a tentativa de alcançar um novo público.

Rian Johnson assumiu a direção de Star Wars – Os últimos Jedi, a sequência de O despertar, tentando inserir novos elementos na história de Rey (Daisy Ridley), que passa a ser treinada por Luke Skywalker (Mark Hamill) para ser uma jedi e enfrentar Kylo Ren (Adam Driver). Com um visual mais soturno do que o de Abrams, Johnson teria desvirtuado um pouco, para alguns, esse universo. No entanto, isso não chegava se dar de maneira completa: havia muitas semelhanças com O império contra-ataca, com Rey enfrentando a si mesma em cavernas escuras, como Luke em O império contra-ataca, Luke não queria treiná-la (como Yoda em relação a ele) e naves da Aliança Rebelde sendo perseguidas como a Millennium Falcon no filme de 1980, além de um mercenário feito por Benicio del Toro lembrar Lando Calrissian. Escolhido para dirigir a terceira parte, Colin Trevorrow deu espaço a J,J. Abrams novamente, que coescreveu A ascensão Skywalker com Chris Terrio, vencedor do Oscar de roteiro adaptado por Argo e responsável pela escrita de dois trabalhos polêmicos da DC (Batman vs Superman e Liga da Justiça).

Fala-se que Abrams nega o que Johnson acrescentou à série, mas, desde o início, ele adota uma atmosfera mais soturna, chuvosa e mesmo dark, sem a necessidade de destacar as cores habituais e seus lens flare, tentando se adequar visualmente à proposta visual de Johnson. A ascensão Skywalker se afasta em partes definidas do colorido de O despertar da força para acompanhar Rey, Finn (John Boyega), Poe Dameron (Oscar Isaac), BB-8, Chewbacca (Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels) num encadeamento de cenas de ação, com mudança constante de planetas (trazendo uma sensação novamente de aventura no espaço sideral e um senso de distinção no trabalho de direção de arte). Isso fazia falta nos dois episódios anteriores e era uma característica das duas trilogias de Lucas. Abrams reaproveita o estilo de Johnson e o mescla com sua bateria de subtramas: desta vez Kylo Ren vai a um planeta distante tomar ordens de uma figura inesperada, e passa a rastrear, com a ajuda dos generais Hux (Domhnall Gleeson) e Pryde (Richard E. Grant), o trio da Aliança Rebelde, coordenado por Leia (Carrie Fisher), numa busca feita a um objeto já cobiçado por Skywalker.
De fato, este terceiro filme acaba negando pontos suscitados por Johnson, como no início apressado, porém ele confere um humor mais natural e próximo das histórias de Lucas. A chegada dos rebeldes a um planeta desértico lembra tanto Tatooine quanto Marte, de John Carter, com um grupo de criaturas estranhas. Há uma perseguição fantástica de stormtroopers, assim como uma sequência que envolve Rey e Kylo que adquire uma grandiosidade, com efeitos visuais extraordinários.

Abrams se sente à vontade desta vez, construindo uma narrativa menos ligada até determinado ponto aos filmes anteriores, aplicando uma história de investigação, capaz de remeter principalmente à série Indiana Jones (principalmente Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), antes, claro, de oferecer vários serviços para fãs. No entanto, antes de chegar lá, ele proporciona uma das melhores cenas de toda a saga Star Wars, além de finalmente notar que o trio principal, Chewbacca e C-3PO funcionam muito bem juntos e mantê-los separados em Os últimos Jedi não foi exatamente o mais acertado, embora ela tenha se dado também como um diálogo novamente com O império contra-ataca, em que havia o núcleo de Skywalker e o outro de seus amigos fugindo do império. Também mostra que Abrams soube avaliar os méritos do spin-off Rogue One, cujo núcleo de rebeldes era um destaque.
Há um descompromisso aqui em certos diálogos, mais ação e menos tentativa de seguir exatamente à risca um plano, como O despertar da força. Há também uma busca de Abrams em retomar temas de linhagens familiares usados em sua retomada de 2015 e um pouco ignorados por Johnson em Os últimos Jedi para dar espaço a discussões sobre falta de combustível numa nave espacial. É visível que Abrams também ignora personagens incluídos pelo sucessor, a exemplo de Rose Tico (Kelly Marie Train) para aplicar suas ideias, o que pode constituir uma estranheza a princípio, mas se torna autoral. Se nos vinte minutos iniciais a edição é tortuosa, com excesso de acontecimentos, sem a necessária ponderação para cada personagem, aos poucos Abrams, mesmo desperdiçando a retomada de uma conhecida figura, sabe como costurar escala e grandiosidade como em seus dois Star Trek, lembrando também um determinado momento de Interestelar. Ele também deixa de lado o tom infantojuvenil de O despertar da força e se guia por algumas pistas deixadas por Johnson, principalmente na ligação entre Rey e Kylo Ren, muito bem explorada em Os últimos Jedi e que aqui toma um ponto de inflexão interessante.

Pode-se dizer que em nenhum momento esta nova trilogia conseguiu ser original a ponto de se ver como uma obra independente, e também não se pode avaliar que foi um simples exercício de nostalgia. Há pontos interessantes, principalmente quanto a ligações familiares (e nem mesmo uma mais forçada me soou incômoda). A figura de Kylo Ren cresceu muito do primeiro para este, também pelo amadurecimento de Driver, ator que foi se tornando um destaque. Ridley aqui se mostra também em seu melhor momento, afastando-se simplesmente da imagem de heroína juvenil e mostrando real conflito interior. Boyega e Isaac, cada um a seu tempo, se mostram também essenciais para a série se consolidar ao final. A morte de Carrie Fisher, por sua vez, fez com que imagens dela já filmadas fossem reaproveitadas em outro contexto, oferecendo uma certa dificuldade de imersão, porém, diante disso, até que suas cenas se encaixam bem.
O roteiro flui, com alguns problemas inevitáveis em certas transições, e, no terceiro ato, apesar de alguns exageros, é possível mesmo se emocionar em alguns pontos, graças à trilha sonora de John Williams.
Muitas pontas são costuradas e poucas ficam soltas, o que não deixa de ser um mérito para uma obra com o objetivo de concluir uma saga iniciada há mais de 40 anos. Considerado de modo geral um dos Star Wars mais fracos, além de menos arriscado do que o segundo (assim como O retorno de Jedi foi considerado em relação a O império contra-ataca nos anos 80), entendo o contrário: A ascensão Skywalker é um filme que pode ser reavaliado com o tempo. Prós ou contras, ele é o que mais se assemelha com a essência de Star Wars desde O retorno de Jedi, usando a nostalgia, no entanto acrescentando ideias. Em relação a esta saga cada espectador, admirador ou fã possui seus requisitos para avaliar a direção dada a cada filme, rendendo muitos debates. A impressão que se tem é que Abrams buscou unir os três filmes de maneira interessante e aberta a reflexões sobre esse universo fantástico.

Star Wars – The rise of Skywalker, EUA, 2019 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Carrie Fisher, Mark Hamill, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Domhnall Gleeson, Richard E. Grant, Lupita Nyong’o, Keri Russell, Joonas Suotamo, Kelly Marie Tran, Ian McDiarmid, Billy Dee Williams Roteiro: J. J. Abrams e Chris Terrio Fotografia: Dan Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, J. J. Abrams, Michelle Rejwan Duração: 142 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd., Bad Robot Productions Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

 

Guerra nas estrelas (1977)

Por André Dick

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Nove anos antes do lançamento de Guerra nas estrelas, 2001 havia cercado o gênero da ficção científica com uma aura de complexidade. Em 1971, na sua estreia no cinema, Lucas resolveu seguir os passos de Kubrick e fazer uma ficção com fundo subjetivo e um clima de lugar ao mesmo tempo futurista e irreal, materializada em THX 1138, com uma atuação interessante de Robert Duvall. Já em Guerra nas estrelas, ele queria também queria diversão em escala grandiosa – diversão inteligente, que soubesse atrair plateias jovens e adultas. Para chegar ao seu objetivo, mesclou elementos medievais (o caráter heroico e guerreiro de seus personagens do bem) com elementos da “era videogame” (espaçonaves, espadas de luz, armas de raio laser, robôs), de forma que acabou conquistando não só esses dois públicos díspares como uma legião universal de fãs, que idolatrou Luke e trupe como os “trekkers”, como são chamados os fãs de Jornada nas estrelas.

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Steven Spielberg, como conta o livro Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Holywood, de Peter Biskind, estava com expectativa de que Contatos imediatos do terceiro grau não fizesse tanto sucesso quanto o de seu amigo George Lucas, em Guerra nas estrelas – criticado, como relata Biskind, pelos amigos de Lucas, menos exatamente Spielberg. Se há uma semelhança entre os dois filmes, ela está no poder que exerce o interesse pelo que está além das estrelas. Spielberg sempre foi um diretor interessado no afastamento da rotina, mas ainda situado no plano real, mesmo de forma indireta, como vemos não apenas em Contatos, como também em E.T., e Lucas sempre mesclou esse afastamento com a construção de um universo paralelo. Pode-se imaginar o quanto Guerra nas estrelas tem da própria concepção existencial de Lucas.
Luke Skywalker, o jovem guerreiro Jedi; Darth Vader, o lado sombrio da força; o mercenário Han Solo; seu amigo Chewbacca; o sábio Obi-Wan Kenobi; os robôs R2-D2 e C-3PO, entre outros, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos – apesar de a história não passar na Terra, seus cenários e paisagens lembram dela – se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores e os ensinamentos espirituais de luta ganham, na trilogia de Lucas, contornos ao mesmo tempo medievais e futuristas.

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Sua história parece formulaica: numa galáxia distante, o jovem Luke Skywalker (Mark Hamill), cujo maior sonho é tornar-se um piloto da Aliança Rebelde, vai embora do planeta desértico Tatooine, onde morava com os tios, para resgatar a princesa Leia (Carrie Fisher), capturada por Darth Vader (David Prowse, com voz marcante de James Earl Jones), o vilão do elmo soturno, que coordena o “império do mal” em sua Estrela da Morte, uma espécie de esfera de metal suspensa no espaço.
Ao lado de Luke, estão o sábio Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness, ótimo, indicado, na época, ao Oscar de melhor ator coadjuvante), Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew), que possuem a Millenium Falcon, uma nave com problemas de ignição, e a dupla de robôs atrapalhados R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). A mensagem por trás das palavras de Obi Wan podem, hoje, parecer ingênuas – e foi criticada à época principalmente por amigos próximos do diretor –, contudo George Lucas conseguiu sintetizar o panorama de uma geração por meio de suas batalhas estelares e criar um cinema de qualidade para a diversão massificada.

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Mesmo tendo criado os personagens e a história-base da trilogia inicial, Lucas dirigiu apenas Guerra nas estrelas, deixando Irvin Kershner e Richard Marquand a cargo, respectivamente, de O império contra-ataca e O retorno de Jedi. A autoria de Lucas, de qualquer modo, é sentido em todos os capítulos. Se Guerra nas estrelas não apresenta ainda figuras trazidas em O império contra-ataca, como o pequeno sábio Yoda, com um direcionamento transcendente, que procura mostrar a Luke o caminho da força e do bem, com o objetivo de transformá-lo num guerreiro Jedi, nem cenários extraordinários, como a Cidade das Nuvens e o planeta gelado Hoth, tampouco a revelação surpreendente para a compreensão da trilogia, Lucas costura tudo de maneira extremamente simples, mas nunca efêmera.
Nesse sentido, embora talvez seja episódio mais reconhecido da trilogia, O império contra-ataca não desperta a surpresa de Guerra nas estrelas, marcando um início da saga que mostra o embate entre o bem e o mal, revelando, por vezes, uma atmosfera sombria, em que estão presentes razões psicológicas que movem o ser humano inserido num universo fantástico, enquanto traz uma vertente mais bem-humorada e, por fim, memorável, da Princesa Leia, de Han Solo, Chewbacca e os robôs, principalmente por causa das atuações de Fisher e Ford. Vencedor dos Oscars de melhor trilha sonora, montagem, direção de arte, figurino, som, efeitos sonoros e efeitos especiais (também teve indicações, entre outras, a melhor filme e direção, apenas se deparando com Noivo neurótico, noiva nervosa, de Woody Allen), Guerra nas estrelas estabelece um ambiente mitológico e coerente com a sua proposta, capaz de remeter a várias épocas e figuras que o estabelecem como uma referência histórica do seu gênero. Mesmo depois de vários episódios e da nova franquia, ainda parece o mais contemporâneo de todos (ao lado, particularmente, de O retorno de Jedi), o que não deixa de ser um feito.

Star Wars, EUA, 1977 Diretor: George Lucas Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, David Prowse, James Earl Jones, Peter Mayhew, Kenny Baker, Anthony Daniels Roteiro: George Lucas Fotografia: Gilbert Taylor Trilha Sonora: John Williams Produção: Gary Kurtz Duração: 121 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox

 

Shampoo (1975)

Por André Dick

Este filme de Hal Ashby, um dos principais nomes da Nova Hollywood dos anos 70, é do período em que o produtor de La La Land, Jordan Horowitz, não arrancaria o envelope das mãos de Warren Beatty, depois de receber o Oscar de melhor filme de 2017 por La La Land, devido a problemas de organização, para dizer que Moonlight teria ganho. Beatty, então, estava presente em muitos dos principais lançamentos. Se nos anos 60 havia se tornado conhecido sobretudo por Bonnie e Clyde, em 1971 participou de uma obra-prima de Altman, Quando os homens eram homens, e em 1974 do enigmático e instigante A trama, no qual se via em meio a uma conspiração governamental. Faltavam alguns anos para ele ganhar o Oscar como diretor por Reds e dirigir a adaptação das HQs para o cinema que mais influenciou o visual de muitos filmes do gênero, Dick Tracy, indicado a 7 Oscars e vencedor de três. Em 2016, Beatty dirigiu e estrelou o ótimo Regras não se aplicam, em que interpreta o multimilionário Howard Hughes e novamente mostra seu talento para lidar com uma reconstituição de época irrepreensível.

Em Shampoo, Beatty interpreta George Roundy, um cabeleireiro bem-sucedido de Beverly Hills. A 24 horas da eleição cujo resultado seria Richard Nixon como presidente em 1968, Roundy pretende conseguir dinheiro para abrir seu próprio salão. Namorado de Jill (Goldie Hawn), ele recorre à sua amante Felicia Karpf (Lee Grant), casada com um banqueiro, Lester (Jack Warden), com possibilidade de financiá-lo. A questão se intensifica porque Lester é amante de Jackie Shawn (Julie Christie), uma ex-namorada de George e seu caso mais sério. Nesse sentido, o roteiro faz Roundy se encontrar com Shawn exatamente num momento em que Lester chega à sua casa, ou seja, momentos de comédia comicamente previsíveis, mas que se tornam fluidos em razão da narrativa.
Lester acha que George é homossexual e o convida para uma festa do Partido Republicano, a partir da qual se revelam os segredos que o cercam. George, na verdade, é um conquistador, que se deita com várias clientes, e Beatty utiliza a sutileza de não sabermos se ele é apenas um cabeleireiro ou um garoto de programa de luxo. Um personagem a princípio unidimensional, Roundy, na verdade, é a representação de certo universo de Los Angeles em que homens e mulheres dormem juntos como se participassem de negócios.

Indicado aos Oscars de roteiro original (de Beatty e Robert Towne, este de Chinatown, entre outros clássicos), melhor ator coadjuvante (Warden) e direção de arte e vencedor da estatueta de atriz coadjuvante (Grant), Shampoo mostra como alguns filmes não ficam datados. Isto se deve não apenas ao elenco, que inclui uma agradável Goldie Hawn (alguns anos antes de se consagrar com A recruta Benjamin), Christie (uma estrela que uma década antes se destacava em Dr. Jivago), Warden e uma participação especial de Carrie Fisher (antes de Guerra nas estrelas), muito bem, aliás, como ao diretor Hal Ashby, que alguns anos antes fizera Ensina-me a viver. É interessante como Ashby, em parceria com o roteiro, sinaliza a figura de George como a de Nixon: alguém que está prestes a entrar num período nebuloso de sua história. Towne e Beatty adotam essa analogia não por acaso. Shampoo parece simplesmente estar às voltas com a vida de um cabeleireiro em busca de uma conquista financeira capaz de fazer com que ele se torne ainda mais dependente de sua profissão e, por consequência, seu vício. Ele tem uma característica básica de algumas obras dos anos 70, que visavam à definição de uma América escondida, como O dia dos loucos, com Jack Nicholson e Bruce Dern.

As mulheres que o cercam não simbolizam a sua felicidade e sim a sua angústia pessoal de não conseguir ser o que de fato almeja. Nesse sentido, Shampoo, ao ser visto como misógino ou com temas machistas, é um filme legitimamente sobre as falsas aparências para um indivíduo que tenta se esconder de qualquer relacionamento realmente vigoroso. Mais do que qualquer outro personagem de Beatty, este personagem só é vaidoso aparentemente, andando em sua moto pelas ruas de Hollywood: ele é, definitivamente, alguém com rumo indefinido.
A bela fotografia de László Kovács torna os cenários de Los Angeles parecidos com os de uma cidade semiabandonada, nesta comédia que foi um grande sucesso de bilheteria (4 milhões de orçamento para 60 de arrecadação) com bastante justiça, à medida que a obra de Ashby é um exemplo do cinema hollywoodiano dos anos 70 em grande estilo. Shampoo tem um grande final, em que a altura não simboliza necessariamente estar no topo, representa, ao mesmo tempo, a própria Hollywood e a eleição de Nixon. É uma sutileza do roteiro de Beatty e Towne em consonância com seu interesse por mostrar a vida de um núcleo definido de personagens entre o glamour e a política, entre a arte e as festas efêmeras. Se há alguma grande conquista é a do espectador em assisti-lo.

Shampoo, EUA, 1975 Diretor: Hal Ashby Elenco: Warren Beatty, Julie Christie, Jack Warden, Goldie Hawn, Lee Grant, George Furth, Tony Bill, Carrie Fisher Roteiro: Robert Towne, Warren Beatty Fotografia: László Kovács Trilha Sonora: Paul Simon Produção: Warren Beatty Duração: 109 min. Estúdio: Rubeeker Films Distribuidora: Columbia Pictures

 

 

Star Wars – Os últimos Jedi (2017)

Por André Dick

Responsável por um excelente filme de adolescentes em homenagem ao noir, A ponta de um crime, e por uma ficção científica que soava como um quebra-cabeça, Looper, Rian Johnson foi convidado a dirigir e escrever o roteiro de Star Wars – Os últimos Jedi, a continuação de O despertar da força, o reinício da série criada por George Lucas desta vez por meio dos estúdios Disney, que comprou os direitos da franquia. No episódio anterior, dirigido por J.J. Abrams, havia uma necessidade clara de retomar a nostalgia do filme dos anos 70, mas com novos personagens reencontrando alguns dos antigos, Han Solo e Princesa Leia.
Os últimos Jedi mostra a perseguição da Primeira Ordem aos rebeldes liderados pela princesa Leia (Carrie Fischer), entre eles Poe Dameron (Oscar Isaac). O Supremo líder Snoke (Andy Serkis) está raivoso com o general Hux (Domhnall Glesson) por não conseguir impedir a escapada deles do planeta onde foram localizados. Sabe-se o quanto o anterior repetia referenciais de Uma nova esperança, o episódio de 77. Desta vez, as referências são O império contra-ataca e O retorno de Jedi. E não se trata de coibir a nostalgia.

O episódio derivado da série, Rogue One, do ano passado, se fazia em cima disso também, com talento insuspeito por Gareth Edwards. A questão é que aqui Rey (Daisy Ridley) está numa ilha do planeta aquático Ahch-To, onde se esconde Luke Skywalker (Mark Hamill), querendo ser treinada por ele. A aproximação com Yoda em O império contra-ataca não se dá apenas pela argumentação, como por meio de imagens e simbologias: as conversas sobre a individualidade se dão em cavernas e a heroína tem conversas psíquicas com Kylo Ren (Adam Driver), uma interessante opção, enquanto Chewbacca tenta cuidar a Millennium Falcon em meio a uma invasão de determinadas criaturas voadoras.
Entre os rebeldes, Poe (Oscar Isaac), Finn (John Boyega), BB-8 e a mecânica Rose Tico (Kelly Marie Tran) estão envolvidos numa missão para chegar a um rastreador da Primeira Ordem. Rian Johnson divide a ação entre Rey e seus companheiros e isso torna Os últimos Jedi num dos filmes com montagem mais estranha dos últimos anos, tentando, com isso, empregar um ritmo incessante, como Kershner fez em O império contra-ataca.

Enquanto Luke é tratado como um ícone perturbado pelo que lhe aconteceu, e Hamill entrega a melhor atuação do filme com um tom de eremita consciente, ao lado daquelas de Ridley e Fisher (ambas tentando transcender o material que receberam, a segunda em sua despedida), os demais se sentem com conflitos leves demais e com atitudes pouco reflexivas. Não há uma exploração do que torna cada um com identidade própria, como havia mesmo no anterior de maneira superficial. E a impressão é que Johnson, como Abrams, não sabe direito como encaixar os antigos personagens, com novas motivações. Mesmo Chewbacca (Joonas Suotamo), R2-D2 (Jimmy Vee) e C-3PO (Anthony Daniels) não chegam a ser valorizados, cabendo a BB-8 o espaço bem-humorado, que funciona ora sim, ora não. No início, tudo é mais calibrado e coeso, mas no meio do caminho a trama vai dando espaço a excessos.
Johnson tenta retomar elementos de O retorno de Jedi por meio de um cassino no planeta Canto Bight, mas de forma um pouco desajustada e com um tom predominantemente infantojuvenil, mesmo com sua crítica às armas e aos maus tratos a animais (temas que soam deslocados, como muitos outros). Se há algo claro nesta reinicialização de Star Wars é uma obsessão em conversar com o público mais jovem, mais do que os antigos. Johnson está sempre tentando inserir crianças em meio à ação. Edwards conseguiu bom resultado em Rogue One porque era um derivado, com mais liberdade, uma interessante narrativa sobre uma rebelde que quer reencontrar o pai e integra um grupo capaz de arriscar sua vida, mas Os últimos Jedi é uma coleção de frases já ouvidas em outros filmes da saga, com comportamentos e situações idênticas. Por isso, não é frutífera a ideia de que, havendo queixas, é porque se tenta deixar o passado de lado nesses novos Star Wars: o passado está presente o tempo inteiro, só por meio mais de outros personagens. Nem assim a diversão é menor em vários momentos.

O visual tenta um jogo interessante de cores. As batalhas são espetaculares, mesmo sem originalidade, e aqui se insere um slow motion poético com a personagem de Leia. O design de produção é arenoso e ainda assim atrativo, principalmente o da ilha onde está Luke e de uma sala vermelha que remete a Ran e Kagemusha, de Akira Kurosawa. E Adam Driver, apesar de um pouco de dificuldade de desenvolver seu vilão porque seus dilemas apenas repetem os de Darth Vader, tem boa atuação, enquanto Snoke (num CGI desanimador, quando cresceria com uma verdadeira maquiagem) é apenas outro Palpatine, contudo sem nenhum lado verdadeiramente ameaçador (spoiler: o encontro entre Rey, Snoke e Kylo possui diálogos semelhantes aos que vemos em O retorno de Jedi, com Palpatine, Luke e Darth Vader).
Johnson tenta oferecer a seus personagens uma base dramática intensa, principalmente ao focar a relação entre Rey e Luke, que fornece bons momentos, contudo suas tentativas se deparam com uma certa limitação e apresentado como uma coleção de imagens já pertencentes a um imaginário, mas não interessantes como eram. Assim, ele tenta closes e enquadramentos diferentes (aquele em que Rey usa um sabre de luz e Johnson o filma de um determinado ângulo para que se misture à cor do céu é muito belo), zooms inusuais na saga, além de um humor mais acessível, sustentados por uma boa trilha sonora de John Williams. O estranho é que ele deseja ir para a frente, mas retrocede constantemente, em comportamentos já vistos e flashbacks (e não lembro de flashbacks na saga Star Wars, a não ser um rapidamente na obra de Abrams). Isso, no entanto, acaba rendendo a volta de um personagem icônico, depois de uma batalha de sabres na escuridão da ilha, momento mais soturno da saga ao lado do embate entre Vader e Luke em O império contra-ataca e de Anakin e Obi-Wan em A vingança dos Sith.

Os conflitos existentes aqui entre a almirante Amilyn Holdo (Laura Dern, certamente com saudade da peruca que usa em Twin Peaks – O retorno) e Poe Dameron, por exemplo, soam um tanto distantes, e desperdiçam grandes nomes, como Dern e Isaac, este num personagem que era animado no anterior e aqui se aproxima perigosamente de uma falta de empatia. Por sua vez, John Boyega é um ótimo ator (vejamos ele em Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow), mas é bastante subaproveitado. Para compensar, no ato final, nos últimos 30 minutos, Johnson filma uma sequência irretocável. Embora seu estilo visual não tenha o mesmo refinamento mesmo do de Edwards em Rogue One ou de Luc Besson, este ano, em Valerian e a cidade dos mil planetas, a execução dos efeitos visuais é excelente.
Se o episódio de Abrams era uma espécie de serviço para os fãs, pelo menos ele tinha um senso de espaço e movimentação, o que falta a Johnson em algumas passagens como aquela do cassino, embora ele apresente densidade em algumas cenas, sendo muito mais nebuloso, indefinido, o que faltava na peça de Abrams. Tratar as prequels de Lucas como um desserviço ao cinema e este filme como o melhor da saga, segundo alguns, é, por outro lado, no mínimo questionável. Há uma evidente desproporção no que se refere a como os novos Star Wars são recebidos: sem se basear na nostalgia, mas nenhuma dessas obras recentes tem o peso e a intensidade da trilogia original. Havia um nome que conduzia tudo, mesmo sem dirigir algumas vezes: George Lucas, aquele que para alguns teria arruinado a série com a segunda trilogia, mas pelo menos não tentava reviver a trilogia original tentando fazê-la passar por uma nova, mesmo tendo em vista a qualidade. Basta comparar A vingança dos Sith, por exemplo, com esta obra para notar que muitas coisas devem ser revistas e reconsideradas. O que permanece em Os últimos Jedi tem qualidades verdadeiras e, ao final, atrai uma terceira parte, mas se espera que com elementos mais originais.

Star Wars – The last jedi, EUA, 2017 Diretor: Rian Johnson Elenco: Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio del Toro, Joonas Suotamo, Jimmy Vee Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Ram Bergman Duração: 152 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

Star Wars – O despertar da força (2015)

Por André Dick

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Depois de O retorno de Jedi, em 1983, George Lucas resolveu fazer uma segunda trilogia, contando a origem de Darth Vader, e os filmes que conhecemos (de 1999, 2002 e 2005) alternaram bons e maus momentos, mas não chegando a capturar novamente a magia da saga inicial. Era de se esperar, a partir daí, que não houvesse mais filmes envolvendo a família Skywalker nem suas gerações futuras. Não era o que pensava George Lucas quando vendeu os direitos de sua criação para os estúdios Walt Disney pela bagatela de 4 bilhões de dólares. Naturalmente, os estúdios Disney passaram a conceber uma nova trilogia, que desse sequência a O retorno de Jedi e trouxesse de volta os personagens que arrebataram fãs entre o fim dos anos 70 e o início dos anos 80 e constituem uma mitologia à parte dentro do cinema. Para lidar com mitologias cinematográficas, o nome mais acessível nos últimos anos é o de J.J. Abrams. Criador da série Lost, ele fez a terceira parte de Missão impossível e, em seguida, produziu uma espécie de mistura entre Godzilla e Alien em Cloverfield. Mas foi justamente com a retomada de Star Trek, mostrando os personagens em sua juventude, que elevou Abrams ao status de diretor de franquias. Super 8 e a segunda parte de Star Trek apenas antecederam o que ele entrega de melhor: a nostalgia de se reviver um cinema que parecia perdido no tempo.

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O seu Star Wars – O despertar da força é baseado justamente nessa configuração que o levou a ser o cineasta predileto para retomadas de um universo. Ao contrário de Star Trek, no entanto, percebe-se que em Star Wars Abrams não teve a mesma disponibilidade e segurança para empregar o seu próprio universo, que alterna um humor quase desleixado, se não fosse também bastante elaborado. Sua parceria com Lawrence Kasdan – roteirista de O império contra-ataca e O retorno de Jedi – na elaboração da história (a presença de Michael Arndt não parece tão grande) mostra que ele quis retomar alguns caminhos já entregues na primeira trilogia. Desta vez, quem vive no deserto – de outro planeta, Jakku, reservado a ferro-velho – é Rey (Daisy Ridley), em busca de sucata para conseguir mantimentos e sobreviver, que determinado dia encontra um androide perdido, BB-8, que pode trazer, como o R2-D2 no filme inaugural, dados importantes para localizar um determinado personagem. Ao mesmo tempo, temos o dilema de Finn (John Boyega), um stormtrooper que não pretende seguir os mandamentos do novo senhor do lado escuro, Kylo Ren (Adam Driver) – que age ao lado de General Hux (Domhnall Gleeson, nunca antes tão vilão) – e pretende ter uma nova vida.
Abrams tem um grande cuidado ao introduzir esses novos personagens, com o carinho que George Lucas tinha com os seus na primeira saga. Rey é, inicialmente, uma personagem já bastante próximo do público, por sua personalidade cercada de um heroísmo sem o lado espetaculoso. Sua intérprete, Daisy Ridley, é uma descoberta, também por sua semelhança com os registros mais recentes de Keira Knightley, em Anna Karenina e Mesmo se nada der certo, quando sua porção como atriz melhorou muito. Por sua vez, Finn é decisivamente firmado pela interpretação de Boyega, que consegue despertar uma empatia imediata com o espectador. Suas ações vão se encontrar – e isso não é um spoiler – com os personagens antigos, Han Solo (Harrison Ford, em bela atuação) e Chewbacca (Peter Mayhew), num emaranhado de situações que podem lembrar desde o recente Guardiões da galáxia até os filmes antigos da saga, principalmente O império contra-ataca e O retorno de Jedi.

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Abrams tem um cuidado visual muito grande em sua obra, e com Star Wars não é diferente. As partes que alternam lugares com árvores remetem a O retorno de Jedi e as paisagens geladas recordam imediatamente O império contra-ataca. Ainda assim, sente-se que Abrams realmente quer dar um toque autoral ao filme quando escolhe, nesse caminho, focar no conflito trazido pelo vilão Kylo Ren. Não lembro de outra atuação tão efetiva de Adam Driver em sua curta trajetória, mais conhecido pelas peças que fez com Noah Baumbach e nos quais não chega a ter um brilho especial. Como vilão, Driver potencialmente consegue mostrar um componente trágico e que leva a narrativa a uma situação realmente devastadora. Ele não tem a mesma contundência daquela que mostra Benedict Cumberbatch no segundo Star Trek, mas não deixa a dever em termos de ameaça quando finalmente tem um roteiro para trabalhar.
Ainda assim, Abrams fornece ao espectador alguns problemas que não eram encontrados em Star Trek: vejamos como ele elabora rapidamente as ligações de alguns personagens, mas não consegue dar o mesmo fluxo emocional, em razão, principalmente, de estar preso à continuação de uma linhagem. Em Star Trek, ele tinha liberdade porque estava subvertendo o imaginário de Roddenberry, oferecendo uma nova roupagem a Kirk e a Spock. Ele não pode fazer o mesmo com Han Solo ou Princesa Leia, personagens icônicos e que os admiradores da série ligam aos filmes originais. De qualquer modo, ele consegue, principalmente com Han Solo e Chewbacca, mais uma parceria baseada em certo bom humor que consegue agradar ao espectador. E Carrie Fisher surpreende com segurança, sendo, em certa medida, desperdiçada, pelo menos quanto ao potencial que seu personagem apresenta para o núcleo da história.

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Abrams também tem um olho muito atento para os cargueiros e as naves imperiais, além das naves dos rebeldes (novamente), assim como com os stormtroopers, como se ele pudesse reviver parte da infância brincando com esses objetos e efeitos especiais. Há sequências de batalha muito bem filmadas, principalmente uma em que se pronuncia sobre as ruínas de um determinado local, bastante longe do CGI apresentado por Lucas na sua segunda trilogia – é visível como Abrams tentou realmente construir os cenários e evitar a computação gráfica. Existe uma imponência maior no que se refere ao tamanho das naves e aos detalhes que elas carregam, quase inexistentes nos originais. Em alguns momentos, há cenários e figurinos um pouco desajeitados na tentativa de atingir a atmosfera dos originais, sobretudo de clubes esfumaçados com criaturas estranhas, em que surge Maz Kanata (Lupita Nyong’o, por trás da maquiagem e dos efeitos especiais), contrabalançado por uma fantástica concepção de paisagens invernais ao som do que o espectador deseja presenciar nessa continuidade da saga. Abrams não é tão cuidadoso quanto Lucas ao mostrar criaturas horrendas: se Lucas quer focar seu lado cômico, Abrams as emprega com ameaça, como em Super 8 e Cloverfield (não há humor, e sim violência nelas). Há uma certa dose desmedida de violência atípica para uma produção da Disney e mesmo em relação aos episódios anteriores de Star Wars, mais distante da fantasia.
Em termos de visão política, se George Lucas quis carregar todas as tintas na analogia de sua segunda saga com o Senado norte-americano do período de George W Bush, aqui em Star Wars o novo império surge quase como um Terceiro Reich, principalmente numa sequência grandiosa, parecida com o que veríamos num filme sobre a Alemanha nazista. Este elemento destoa, em parte, do universo fantástico que vemos – e Lucas não arriscou sequer em seu segundo filme –, mas não tira o mérito de Abrams.

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Ele, na verdade, parece querer reprisar o que Lucas fez em Guerra nas estrelas com um olhar moderno. Em certos momentos, consegue atingir isso: mostra como os destroços podem constituir uma linguagem. Em outros, apenas se confunde, não dando a importância necessária a personagens como os de Poe Dameron (uma boa criação de Oscar Isaac, ainda que ligeira, pelo menos neste primeiro capítulo da nova trilogia) e Lor San Tekka (Max von Sydow), além do ótimo androide BB-8. É difícil dizer, mas Abrams não consegue a mesma imponência de Kershner e Marquand nos filmes que seguiram ao primeiro Guerra nas estrelas porque lhe falta, aqui, em parte, a liberdade que necessitava, que era justamente empregar sua visão mais pessoal ao universo de Lucas. Sem o grande criador, parecia que estava sendo mais livre, no entanto o contrário acontece algumas vezes: Abrams se apega demais à arquitetura original, sem acrescentar muito da sua, o que se apresenta, principalmente, no terceiro ato. Ele, de certo modo, acerta mais quando cria uma certa aura de mistério, entregando os personagens de modo enviesado. Em alguns momentos, por outro lado, as ações deles não parecem ter a devida ênfase e a interação mais possível. Isso não tira seus méritos na recuperação desse universo, na sua tentativa explícita de se declarar a ele, como quando se busca a mesma força dos novos personagens centrais, que atraem grande parte da energia dessa história e realmente guardam para o espectador um universo grandioso. É muito bom estar de volta a esse universo e à continuação de uma linhagem extraordinária.

Star Wars: The force awakens, EUA, 2015 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Max von Sydow, Peter Mayhew, Gwendoline Christie, Ken Leung, Greg Grunberg Roteiro: J.J. Abrams, Lawrence Kasdan, Michael Arndt Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Bryan Burk, J.J. Abrams, Kathleen Kennedy Duração: 136 min. Estúdio: Bad Robot / Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas

Mapas para as estrelas (2014)

Por André Dick 

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Os filmes do canadense David Cronenberg, desde os anos 70, são vistos sob a análise da estranheza, com experimentos como Calafrios, ou dos anos 80, quando se tornou mais conhecido, com Scanners, Videodrome, A mosca e Gêmeos. Nos anos 90, ele teve uma incursão na literatura adaptada de Burroughs com Mistérios e paixões, assim como fez o provocativo Crash. Foi a partir do início deste século que Cronenberg foi adaptando suas estranhezas a um cenário mais próximo do cotidiano familiar, como em Marcas da violência, Senhores do crime e Um método perigoso. Este antecipou uma nova parceria do diretor, aquela com Robert Pattinson, substituindo a que resultou exitosa com Viggo Mortensen. O resultado foi Cosmópolis, uma espécie de homenagem às avessas à Bolsa de Wall Street, e a parceria é retomada em Mapas para as estrelas. Embora Pattinson aqui não seja o principal nome, trata-se de um dos filmes mais originais de Cronenberg, pois parece tratar dos costumes de Hollywood sem exatamente ser linear ou investir na estranheza evidente, e até rotulada, trazida pelo cineasta. Ou seja, a partir de determinado ponto, a obra do diretor só teria realmente qualidade se mostrasse o que mostra na maioria de seus filmes: coisas estranhas acontecendo como se fossem normais. Nesse sentido, Mapas para as estrelas pode se ressentir de seres humanos se transformando em insetos.
Talvez Cronenberg não goste de ser influenciado claramente por David Lynch, com referências a Billy Wilder, uma vez que Lynch costuma ser visto como um opositor a seu cinema. Mas, se o seu novo filme conta com um roteiro até raso se visto em um nível superficial, assinado por Bruce Wagner, Cronenberg ingressa naquilo que Lynch consegue fazer com qualidade: obter estranheza de momentos a princípio comuns. É interessante saber que Wagner fez antes o roteiro de A hora do pesadelo III – Os guerreiros dos sonhos, em que um grupo frequentava um hospital psiquiátrico para tratar de problemas com os pesadelos em que Freddy Krueger surgia. Isso porque Mapas para as estrelas, com o clima de Hollywood, guarda uma espécie de onirismo – mesmo que em alguns aspectos tenda mais ao pesadelo em si mesmo.

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Cada personagem apresenta um mistério a ser solucionado (ou não), de Havana Segrand, atriz quase esquecida feita por Julianne Moore, até a aspirante à atriz Agatha feita por Mia Wasikowska, passando pelo psicoterapeuta Stafford (John Cusack), sua mulher Cristina (Olivia Williams) e seu filho, astro de Hollywood, Benjie (Evan Bird). E temos também o motorista Jerome Fontana (Robert Pattinson), que pretende ser ator e roteirista. Ao chegar a Los Angeles, Agatha conhece Jerome e logo se interessa por ele, mas não consegue rivalizar com seu interesse pelo universo cinematográfico. Para ingressar em Hollywood, ela tem a ajuda de Carrie Fisher – a princesa Leia de Guerra nas estrelas fazendo ela mesma, na porção O jogador de Altman de Mapas para as estrelas – que a indica para Havana, da qual se torna amiga, até onde o limite é uma comemoração à beira da piscina. Por sua vez, Havana é cliente de Stafford, tendo de enfrentar conflitos existenciais que remetem à mãe (que regressa em imagens com a atuação da ótima Sarah Gadon), e enfrenta problemas em sua carreira como atriz. O que não acontece com Benjie, uma espécie de Macaulay Culkin dos anos 90, perseguido por jornalistas. Além das recordações de personagens ligadas ao elemento do fogo, que dialogam diretamente com a narrativa Coração selvagem, em que Lula e Sailor buscavam fugir da família, temos, em Mapas para as estrelas, uma reunião de Benjie com executivos de cinema, cuja estranheza recorda, em parte, a reunião de Justin Theroux em Cidade dos sonhos. Nessa cena rápida e a princípio descompromissada, Cronenberg confere a pressão em relação a este astro infantojuvenil, mas carregado de uma confusão por parte da mãe, Cristina. É uma pressão que Cronenberg reverte às vezes por meio do humor, embora não necessariamente tranquilo. Para o cineasta canadense, Hollywood é antes de tudo um ponto de encontro para a autopromoção, e isso existe sobretudo nas figuras de Havana e Stanfford. Tudo que pode fugir a esta autopromoção se converte em desespero e fuga ao que pode ser visto como normalidade familiar. E dentro dessa normalidade familiar há um passado nebuloso que irá ligar ainda mais as figuras de Agatha e Savana: elas são mais parecidas do que aparentam e, embora o roteiro não esclareça nem mesmo ao final, vítimas de uma mesma explicação baseada naquilo que se desconhece em suas famílias.
Enquanto Agatha e Jerome querem ser atores, Benjie parece já cansado de sua carreira, e Stafford recolhe o que sobra das relações. Todos, no entanto, têm algo em comum: eles são como clichês se movimentando em cena, assim como uma cena em que Agatha e Jerome se encontram próximos do letreiro de Hollywood. Se Jerome de Pattinson pode ser visto como uma extensão do personagem do motorista feito por Ryan Gosling em Drive – e Mapas para as estrelas, como o filme de Refn, consegue destacar os cenários de uma clara Los Angeles, pelo menos aparentemente, na excepcional fotografia do habitual colaborador de Cronenberg, Peter Suschitzky –, Agatha é uma espécie de mescla entre os personagens de Ed Harris em Marcas da violência e Rosanna Arquette em Crash: o seu corpo traz as marcas do seu passado. E mesmo a maquiagem que Jerome usa num determinado momento, apesar de lembrar um klingon, remete mais à estranheza de eXistenZ.

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Embora a relação de Savana com o passado de sua mãe seja a que mais marque presença ao longo da narrativa, é interessante como se coloca a presença da referência a um poema de Paul Éluard, ligado ao personagem de Benjie. Este poema, “Liberdade”, foi distribuído aos franceses na época da invasão do nazismo e serviu como compromisso pela busca da “liberdade”: é justamente a sensação que esses personagens não têm na Hollywood de David Cronenberg. Assim como aquela Hollywood de Lynch sustenta uma atriz aspirante dentro de um pesadelo tortuoso, aqui todo o significado das interpretações não esconde a falta de liberdade para desempenhar não um papel verdadeiro, mas aquele amparado justamente por uma realidade.
As atuações do filme não são menos do que excelentes, sobretudo as de Moore e Wasikowska (que já havia mostrado grande evolução em O duplo, ao lado de Jesse Eisenberg), ambas em seu melhor momento no cinema. No entanto, não se deve esquecer das presenças vitais de Cusack, Pattinson e de Evan Bird (excepcional, num papel que parece fácil). Misturando sonhos, alucinações, pretensões artísticas e o passado de famílias,  Mapas para as estrelas, mesmo que seja uma visão pouco idílica sobre Hollywood, não deixe de ser uma homenagem à cidade dos sonhos, avançando naquilo que Cronenberg anuncia em Cosmópolis: uma visão contemporânea corrosiva e cotidiana, mas não por isso comum. Esta visão é acompanhada por uma montagem bastante ágil, feita pelo habitual colaborador de Cronenberg, mas superior às que entregou em Senhores do crime e Um método perigoso, certamente ajudado pelo ritmo empregado na condução deste elenco. Com uma sequência de cenas que se conectam naturalmente, sem o esforço do espectador em retomar explicações e por isso sem excesso de camadas que poderiam estender o filme até seu limite, raramente se vê um filme recente com um elenco tão adequado à proposta do diretor, fazendo com que Mapas para as estrelas seja mais um integrante da lista de filmes que o Festival de Cannes recebeu com uma injusta frieza, apesar de ter escolhido Moore merecidamente como melhor atriz. É Moore, afinal, que consegue, não sem a colaboração direta de Mia Wasikowska, sintetizar Hollywood, assim como Naomi Watts conseguia em Cidade dos sonhos, neste acerto memorável de Cronenberg. 

Maps to the stars, CAN, 2013 Diretor: David Cronenberg Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack, Robert Pattinson, Olivia Williams, Sarah Gadon, Evan Bird, Carrie Fisher, Jayne Heitmeyer Roteiro: Bruce Wagner Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: Howard Shore Produção: David Cronenberg, Martin Katz Duração: 111 min. Distribuidora: eOne Films Estúdio: Prospero Pictures / Sentient Entertainment

Cotação 4 estrelas e meia

O retorno de Jedi (1983)

Por André Dick O retorno de Jedi 5 Uma das séries de ficção científica mais conhecidas do cinema, Guerra nas estrelas foi relançada no início de 1997, depois de ser revista pelo diretor, produtor, roteirista e mentor George Lucas. Era formada, até aquele momento, por Guerra nas estrelas (1977), O império contra-ataca (1980) e O retorno de Jedi (1983), respectivamente quarto, quinto e sexto capítulos de uma saga planejada por Lucas para ter três trilogias. Tal relançamento se devia, então, ao fato de Guerra nas estrelas estar comemorando vinte anos e, acima de tudo, pelo fato de Lucas estar planejando os novos capítulos da série (na verdade, o início de uma nova trilogia), intitulados A ameaça fantasma, O ataque dos clones e A vingança do Sith. No entanto, passados todos esses anos, parece que o episódio da primeira trilogia que mais ganha vitalidade é O retorno de Jedi (o famoso capítulo que seria dirigido por David Lynch, que o preteriu em favor de Duna), apesar de ser menos lembrado e muito criticado. 2001 havia cercado o gênero “ficção científica” com uma aura de complexidade. Ao contrário de Stanley Kubrick, George Lucas também queria diversão. Mas diversão inteligente, que soubesse atrair, em escalas iguais, plateias jovens e adultas. Para chegar ao seu objetivo, Lucas mesclou elementos medievais – o caráter heroico e guerreiro de seus personagens do bem – com elementos da de ficção científica – espaçonaves, espadas de luz, armas de raio laser, robôs –, de forma que acabou conquistando não só esses dois públicos como uma legião de fãs, apesar da surpresa inicial (em sessões-teste, Lucas teria visto o primeiro da série ser desaprovado por amigos, com exceção de Spielberg). Em O retorno de Jedi, Lucas apresenta a síntese dessas misturas, por meio da direção de Richard Marquand (O fio da suspeita), com personagens que não são unidimensionais, apesar de aparentarem, e ganham novo ânimo, num roteiro de Lawrence Kasdan (diretor de filmes como O reencontro e O turista acidental), que consegue equilibrar a mitologia de ficção com ensinamentos orientais. O retorno de Jedi 20 O retorno de Jedi 6 O retorno de Jedi 16 Trata-se de um segmento que prefere a diversão à psicologia (fundamental para a série) de O império contra-ataca, amarrando as pontas soltas deixadas por este, sobretudo no que se refere ao triângulo Luke-Leia-Han Solo, mostrando basicamente a mesma história dos anteriores: a Aliança de rebeldes e os companheiros de Luke Skywalker (Mark Hamill) pretendem destruir, de uma vez por todas, o “império do mal” e Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones). Na jornada, Luke e companhia – Princesa Leia (Carrie Fisher) e Lando Calrissian (Billy Dee Williams) – enfrentam o monstruoso Jabba  the Hutt no deserto Tatooine, quando tentam salvar Han Solo (Harrison Ford, desta vez menos aproveitado) e Chewbacca (Peter Mayhew), aprisionados por ele. Esta sequência, impressionante pela grandiosidade dos cenários e da ambientação cavernosa, delineia o contato de George Lucas com o primeiro filme da série e cria uma ponte com o primeiro da segunda trilogia: Tatooine tem todos os perigos que podem se apresentar, e Jabba não é controlado pelos poderes do jedi Luke, nem abre espaço para os robôs R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). Pelo contrário, esses, como a princesa Leia, seminua, tornam-se escravos, servindo apenas à sua tirania, enquanto Han Solo, carbonizado, é apenas um enfeite na sala do trono, que lembra, pela coleção de bizarrices, uma espécie de cabaré espacial. Depois de uma passagem pelo deserto, onde Jabba pretende matar os adversários com requientes de crueldade, Luke vai até Dagobah, reencontrar-se com Yoda, a fim de completar o treinamento, quando se depara com o espírito de Obi Wan-Kenobi (Alec Guiness). Em seguida, na armada contra o império, Luke e seus companheiros se deparam com os ursinhos Ewoks na lua florestal de Endor e partem para atacar a nova Estrela da Morte, ainda sendo construída, desligando seu campo de energia, embora tudo possa ser apenas um plano para atrair Luke e a Millenium Falcon de Han Solo para a destruição. O retorno de Jedi 11 O retorno de Jedi 12 O retorno de Jedi 13 Considerado surpreendentemente o mais fraco da primeira trilogia – com uma “linha narrativa praticamente inexistente”, conforme Vincent Canby, e “exemplo de cinema impessoal”, com “personagens de quadrinhos vagando num pastiche piadístico das lendas arturianas”, para Pauline Kael –, O retorno de Jedi expande o universo de Lucas, lidando com centenas de figuras num espaço curto de tempo (pouco mais de duas horas) e oferece instantes de magia que me parecem ainda atuais, além de trazer uma direção de arte fascinante de Norman Reynolds (indicada ao Oscar), o mesmo de Os caçadores da arca perdida e Império do sol, assim como algumas das melhores trilhas sonoras de John Williams (também nomeada ao prêmio). Não me parece feito exclusivamente para agradar ao público infantojuvenil, mas material raro de ficção científica – desde a ida de Luke a Tatooine, tentando resgatar Han Solo, ao duelo de motos voadoras na floresta. As cenas revistas por George Lucas na edição especial são poucas, mas essenciais: um número musical no palácio de Jabba (brincando com os musicais de Hollywood dos anos 30), o monstro do deserto, mais detalhado. Elas acompanham a batalha derradeira entre a Aliança rebelde (com a presença dos Ewoks, como se fosse o primitivo contra a tecnologia) e o império, além do duelo definitivo entre Vader e Luke, diante do Imperador, naquele que apresenta um dos momentos mais impactantes da série. Os conflitos familiares de Luke, quando precisa enfrentar o pai e contar a verdade a Leia, são trabalhados num plano mais íntimo. No momento em que são capturados pelos ewoks, eles ficam nas árvores, como se concentrassem ali o mundo fabuloso dos outros dois, e a própria base que os forma. Quando C-3PO é confundido como uma espécie de xamã, de curandeiro, pelos ewoks, isso se comprova ainda mais, fazendo com que conte histórias a essas criaturas de Endor. As histórias, numa espécie de metalinguagem, são sobre as aventuras de Luke e companhia, e a recordação, aqui, é colocada como uma espécie de revitalização dos personagens antes do ato derradeiro. Ao mesmo tempo, há humor que não existia em igual quantidade nos demais, estabelecendo uma ligação direta com a série Indiana Jones, parceria entre Lucas e Spielberg do mesmo período, e os ewoks são fundamentais para isso – para alguns, certamente irritantes e uma desculpa para vender bonecos; dentro do filme, curiosamente primitivos. Eles são o vínculo  entre o passado de Luke – Tatooine – e o futuro – depois do império. Conservam as fábulas e os mitos da floresta, antes das espaçonaves, e anunciam uma derrota para o poderio da tecnologia e da força militar do império, com pedras e troncos de árvores, arcos e flechas, e pendurados em cipós ou galhos. O retorno de Jedi 4 O retorno de Jedi 8 O retorno de Jedi 9 Como os personagens da série, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Por isso, os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores, os ensinamentos espirituais de luta, ganham, na trilogia de Lucas, e  definitivamente em O retorno de Jedi, contornos ao mesmo tempo passadistas e futuristas. A maioria dos cenários parece constituído in loco – e não frutos de tecnologias excessivas, que prejudicaram a segunda trilogia de Guerra nas estrelas. Mas Marquand e Lucas conseguem ainda mais: um clímax no qual três sequências de ação ocorrem ao mesmo tempo, o que confere à meia hora final substancialmente um grande momento. Nesse sentido, o conflito de Luke passa a ser enfrentar o seu passado, fazendo com que o filme não reprise Star Wars ou O império contra-ataca, e sim avance significativamente. A figura de Palpatine (Ian McDiarmid), o Imperador, que comanda Darth Vader, é este elo que liga Luke a uma tentativa de reinserir a família na personalidade do pai e com os três primeiros episódios de Star Wars. O passado e o futuro se interligam por meio de sua figura, e é preciso recorrer a Yoda e Obi-Wan para enfrentá-lo, pois Lucas está tratando, acima de tudo, de uma genealogia desses personagens. Isto está bem claro na luta final, quando Luke Skywalker parte realmente para o duelo quando Vader diz que tentará trazer sua irmã, Leia, para o lado negro da força. A câmera de Marquand se aproximando do rosto de Luke embaixo da escada, em meio às sombras, querendo evitar a destruição de Darth Vader, é antológica, assim como a sensação de proximidade e receio quando eles se encontram em Endor. Não há equilíbrio sem que haja o real fato que cerca tudo, explicado depois, embora de modo capenga, pela segunda trilogia. O retorno de Jedi, desse modo, consegue ao mesmo tempo trazer discussões apresentadas em O império contra-ataca, mas com uma leveza que o primeiro da série possuía, com uma linha de efeitos especiais espetaculares, os melhores da série, produzindo um universo que ainda hoje, vinte anos depois, continua a suscitar admiração pela competência com que foi criado. Para alguns, Star Wars pode ser uma mera antecipação da era dos video games e dos bonecos que acompanham fast-foods; para quem consegue ver na série o que ela traz, pode ser uma entrada num universo de grande criatividade.

Return of the Jedi, EUA, 1983 Diretor: Richard Marquand Elenco: Mark Hamill, Alec Guinness, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, Peter Mayhew, David Prowse, Ian McDiarmid Produção: Howard G. Kazanjian, Rick McCallum Roteiro: George Lucas, Lawrence Kasdan Fotografia: Alan Hume Trilha Sonora: John Williams Duração: 133 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Lucasfilm Ltd.

Cotação 5 estrelas