Shampoo (1975)

Por André Dick

Este filme de Hal Ashby, um dos principais nomes da Nova Hollywood dos anos 70, é do período em que o produtor de La La Land, Jordan Horowitz, não arrancaria o envelope das mãos de Warren Beatty, depois de receber o Oscar de melhor filme de 2017 por La La Land, devido a problemas de organização, para dizer que Moonlight teria ganho. Beatty, então, estava presente em muitos dos principais lançamentos. Se nos anos 60 havia se tornado conhecido sobretudo por Bonnie e Clyde, em 1971 participou de uma obra-prima de Altman, Quando os homens eram homens, e em 1974 do enigmático e instigante A trama, no qual se via em meio a uma conspiração governamental. Faltavam alguns anos para ele ganhar o Oscar como diretor por Reds e dirigir a adaptação das HQs para o cinema que mais influenciou o visual de muitos filmes do gênero, Dick Tracy, indicado a 7 Oscars e vencedor de três. Em 2016, Beatty dirigiu e estrelou o ótimo Regras não se aplicam, em que interpreta o multimilionário Howard Hughes e novamente mostra seu talento para lidar com uma reconstituição de época irrepreensível.

Em Shampoo, Beatty interpreta George Roundy, um cabeleireiro bem-sucedido de Beverly Hills. A 24 horas da eleição cujo resultado seria Richard Nixon como presidente em 1968, Roundy pretende conseguir dinheiro para abrir seu próprio salão. Namorado de Jill (Goldie Hawn), ele recorre à sua amante Felicia Karpf (Lee Grant), casada com um banqueiro, Lester (Jack Warden), com possibilidade de financiá-lo. A questão se intensifica porque Lester é amante de Jackie Shawn (Julie Christie), uma ex-namorada de George e seu caso mais sério. Nesse sentido, o roteiro faz Roundy se encontrar com Shawn exatamente num momento em que Lester chega à sua casa, ou seja, momentos de comédia comicamente previsíveis, mas que se tornam fluidos em razão da narrativa.
Lester acha que George é homossexual e o convida para uma festa do Partido Republicano, a partir da qual se revelam os segredos que o cercam. George, na verdade, é um conquistador, que se deita com várias clientes, e Beatty utiliza a sutileza de não sabermos se ele é apenas um cabeleireiro ou um garoto de programa de luxo. Um personagem a princípio unidimensional, Roundy, na verdade, é a representação de certo universo de Los Angeles em que homens e mulheres dormem juntos como se participassem de negócios.

Indicado aos Oscars de roteiro original (de Beatty e Robert Towne, este de Chinatown, entre outros clássicos), melhor ator coadjuvante (Warden) e direção de arte e vencedor da estatueta de atriz coadjuvante (Grant), Shampoo mostra como alguns filmes não ficam datados. Isto se deve não apenas ao elenco, que inclui uma agradável Goldie Hawn (alguns anos antes de se consagrar com A recruta Benjamin), Christie (uma estrela que uma década antes se destacava em Dr. Jivago), Warden e uma participação especial de Carrie Fisher (antes de Guerra nas estrelas), muito bem, aliás, como ao diretor Hal Ashby, que alguns anos antes fizera Ensina-me a viver. É interessante como Ashby, em parceria com o roteiro, sinaliza a figura de George como a de Nixon: alguém que está prestes a entrar num período nebuloso de sua história. Towne e Beatty adotam essa analogia não por acaso. Shampoo parece simplesmente estar às voltas com a vida de um cabeleireiro em busca de uma conquista financeira capaz de fazer com que ele se torne ainda mais dependente de sua profissão e, por consequência, seu vício. Ele tem uma característica básica de algumas obras dos anos 70, que visavam à definição de uma América escondida, como O dia dos loucos, com Jack Nicholson e Bruce Dern.

As mulheres que o cercam não simbolizam a sua felicidade e sim a sua angústia pessoal de não conseguir ser o que de fato almeja. Nesse sentido, Shampoo, ao ser visto como misógino ou com temas machistas, é um filme legitimamente sobre as falsas aparências para um indivíduo que tenta se esconder de qualquer relacionamento realmente vigoroso. Mais do que qualquer outro personagem de Beatty, este personagem só é vaidoso aparentemente, andando em sua moto pelas ruas de Hollywood: ele é, definitivamente, alguém com rumo indefinido.
A bela fotografia de László Kovács torna os cenários de Los Angeles parecidos com os de uma cidade semiabandonada, nesta comédia que foi um grande sucesso de bilheteria (4 milhões de orçamento para 60 de arrecadação) com bastante justiça, à medida que a obra de Ashby é um exemplo do cinema hollywoodiano dos anos 70 em grande estilo. Shampoo tem um grande final, em que a altura não simboliza necessariamente estar no topo, representa, ao mesmo tempo, a própria Hollywood e a eleição de Nixon. É uma sutileza do roteiro de Beatty e Towne em consonância com seu interesse por mostrar a vida de um núcleo definido de personagens entre o glamour e a política, entre a arte e as festas efêmeras. Se há alguma grande conquista é a do espectador em assisti-lo.

Shampoo, EUA, 1975 Diretor: Hal Ashby Elenco: Warren Beatty, Julie Christie, Jack Warden, Goldie Hawn, Lee Grant, George Furth, Tony Bill, Carrie Fisher Roteiro: Robert Towne, Warren Beatty Fotografia: László Kovács Trilha Sonora: Paul Simon Produção: Warren Beatty Duração: 109 min. Estúdio: Rubeeker Films Distribuidora: Columbia Pictures