Star Wars – Os últimos Jedi (2017)

Por André Dick

Responsável por um excelente filme de adolescentes em homenagem ao noir, A ponta de um crime, e por uma ficção científica que soava como um quebra-cabeça, Looper, Rian Johnson foi convidado a dirigir e escrever o roteiro de Star Wars – Os últimos Jedi, a continuação de O despertar da força, o reinício da série criada por George Lucas desta vez por meio dos estúdios Disney, que comprou os direitos da franquia. No episódio anterior, dirigido por J.J. Abrams, havia uma necessidade clara de retomar a nostalgia do filme dos anos 70, mas com novos personagens reencontrando alguns dos antigos, Han Solo e Princesa Leia.
Os últimos Jedi mostra a perseguição da Primeira Ordem aos rebeldes liderados pela princesa Leia (Carrie Fischer), entre eles Poe Dameron (Oscar Isaac). O Supremo líder Snoke (Andy Serkis) está raivoso com o general Hux (Domhnall Glesson) por não conseguir impedir a escapada deles do planeta onde foram localizados. Sabe-se o quanto o anterior repetia referenciais de Uma nova esperança, o episódio de 77. Desta vez, as referências são O império contra-ataca e O retorno de Jedi. E não se trata de coibir a nostalgia.

O episódio derivado da série, Rogue One, do ano passado, se fazia em cima disso também, com talento insuspeito por Gareth Edwards. A questão é que aqui Rey (Daisy Ridley) está numa ilha do planeta aquático Ahch-To, onde se esconde Luke Skywalker (Mark Hamill), querendo ser treinada por ele. A aproximação com Yoda em O império contra-ataca não se dá apenas pela argumentação, como por meio de imagens e simbologias: as conversas sobre a individualidade se dão em cavernas e a heroína tem conversas psíquicas com Kylo Ren (Adam Driver), uma interessante opção, enquanto Chewbacca tenta cuidar a Millennium Falcon em meio a uma invasão de determinadas criaturas voadoras.
Entre os rebeldes, Poe (Oscar Isaac), Finn (John Boyega), BB-8 e a mecânica Rose Tico (Kelly Marie Tran) estão envolvidos numa missão para chegar a um rastreador da Primeira Ordem. Rian Johnson divide a ação entre Rey e seus companheiros e isso torna Os últimos Jedi num dos filmes com montagem mais estranha dos últimos anos, tentando, com isso, empregar um ritmo incessante, como Kershner fez em O império contra-ataca.

Enquanto Luke é tratado como um ícone perturbado pelo que lhe aconteceu, e Hamill entrega a melhor atuação do filme com um tom de eremita consciente, ao lado daquelas de Ridley e Fisher (ambas tentando transcender o material que receberam, a segunda em sua despedida), os demais se sentem com conflitos leves demais e com atitudes pouco reflexivas. Não há uma exploração do que torna cada um com identidade própria, como havia mesmo no anterior de maneira superficial. E a impressão é que Johnson, como Abrams, não sabe direito como encaixar os antigos personagens, com novas motivações. Mesmo Chewbacca (Joonas Suotamo), R2-D2 (Jimmy Vee) e C-3PO (Anthony Daniels) não chegam a ser valorizados, cabendo a BB-8 o espaço bem-humorado, que funciona ora sim, ora não. No início, tudo é mais calibrado e coeso, mas no meio do caminho a trama vai dando espaço a excessos.
Johnson tenta retomar elementos de O retorno de Jedi por meio de um cassino no planeta Canto Bight, mas de forma um pouco desajustada e com um tom predominantemente infantojuvenil, mesmo com sua crítica às armas e aos maus tratos a animais (temas que soam deslocados, como muitos outros). Se há algo claro nesta reinicialização de Star Wars é uma obsessão em conversar com o público mais jovem, mais do que os antigos. Johnson está sempre tentando inserir crianças em meio à ação. Edwards conseguiu bom resultado em Rogue One porque era um derivado, com mais liberdade, uma interessante narrativa sobre uma rebelde que quer reencontrar o pai e integra um grupo capaz de arriscar sua vida, mas Os últimos Jedi é uma coleção de frases já ouvidas em outros filmes da saga, com comportamentos e situações idênticas. Por isso, não é frutífera a ideia de que, havendo queixas, é porque se tenta deixar o passado de lado nesses novos Star Wars: o passado está presente o tempo inteiro, só por meio mais de outros personagens. Nem assim a diversão é menor em vários momentos.

O visual tenta um jogo interessante de cores. As batalhas são espetaculares, mesmo sem originalidade, e aqui se insere um slow motion poético com a personagem de Leia. O design de produção é arenoso e ainda assim atrativo, principalmente o da ilha onde está Luke e de uma sala vermelha que remete a Ran e Kagemusha, de Akira Kurosawa. E Adam Driver, apesar de um pouco de dificuldade de desenvolver seu vilão porque seus dilemas apenas repetem os de Darth Vader, tem boa atuação, enquanto Snoke (num CGI desanimador, quando cresceria com uma verdadeira maquiagem) é apenas outro Palpatine, contudo sem nenhum lado verdadeiramente ameaçador (spoiler: o encontro entre Rey, Snoke e Kylo possui diálogos semelhantes aos que vemos em O retorno de Jedi, com Palpatine, Luke e Darth Vader).
Johnson tenta oferecer a seus personagens uma base dramática intensa, principalmente ao focar a relação entre Rey e Luke, que fornece bons momentos, contudo suas tentativas se deparam com uma certa limitação e apresentado como uma coleção de imagens já pertencentes a um imaginário, mas não interessantes como eram. Assim, ele tenta closes e enquadramentos diferentes (aquele em que Rey usa um sabre de luz e Johnson o filma de um determinado ângulo para que se misture à cor do céu é muito belo), zooms inusuais na saga, além de um humor mais acessível, sustentados por uma boa trilha sonora de John Williams. O estranho é que ele deseja ir para a frente, mas retrocede constantemente, em comportamentos já vistos e flashbacks (e não lembro de flashbacks na saga Star Wars, a não ser um rapidamente na obra de Abrams). Isso, no entanto, acaba rendendo a volta de um personagem icônico, depois de uma batalha de sabres na escuridão da ilha, momento mais soturno da saga ao lado do embate entre Vader e Luke em O império contra-ataca e de Anakin e Obi-Wan em A vingança dos Sith.

Os conflitos existentes aqui entre a almirante Amilyn Holdo (Laura Dern, certamente com saudade da peruca que usa em Twin Peaks – O retorno) e Poe Dameron, por exemplo, soam um tanto distantes, e desperdiçam grandes nomes, como Dern e Isaac, este num personagem que era animado no anterior e aqui se aproxima perigosamente de uma falta de empatia. Por sua vez, John Boyega é um ótimo ator (vejamos ele em Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow), mas é bastante subaproveitado. Para compensar, no ato final, nos últimos 30 minutos, Johnson filma uma sequência irretocável. Embora seu estilo visual não tenha o mesmo refinamento mesmo do de Edwards em Rogue One ou de Luc Besson, este ano, em Valerian e a cidade dos mil planetas, a execução dos efeitos visuais é excelente.
Se o episódio de Abrams era uma espécie de serviço para os fãs, pelo menos ele tinha um senso de espaço e movimentação, o que falta a Johnson em algumas passagens como aquela do cassino, embora ele apresente densidade em algumas cenas, sendo muito mais nebuloso, indefinido, o que faltava na peça de Abrams. Tratar as prequels de Lucas como um desserviço ao cinema e este filme como o melhor da saga, segundo alguns, é, por outro lado, no mínimo questionável. Há uma evidente desproporção no que se refere a como os novos Star Wars são recebidos: sem se basear na nostalgia, mas nenhuma dessas obras recentes tem o peso e a intensidade da trilogia original. Havia um nome que conduzia tudo, mesmo sem dirigir algumas vezes: George Lucas, aquele que para alguns teria arruinado a série com a segunda trilogia, mas pelo menos não tentava reviver a trilogia original tentando fazê-la passar por uma nova, mesmo tendo em vista a qualidade. Basta comparar A vingança dos Sith, por exemplo, com esta obra para notar que muitas coisas devem ser revistas e reconsideradas. O que permanece em Os últimos Jedi tem qualidades verdadeiras e, ao final, atrai uma terceira parte, mas se espera que com elementos mais originais.

Star Wars – The last jedi, EUA, 2017 Diretor: Rian Johnson Elenco: Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio del Toro, Joonas Suotamo, Jimmy Vee Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Ram Bergman Duração: 152 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

Post anterior
Deixe um comentário

6 Comentários

  1. André ótima critica, só consegui assistir o filme ontem e vim direto ler sua critica. Realmente a montagem do filme é muito estranha, e concordo com todo que você levantou. Eu pessoalmente me decepcionei com o filme, esperava muito mais, mas minha maior decepção foi com Luke, apesar da interpretação de Mark ser excelente, acho que faltou um maior destaque(talvez seja só o amor pela saga falando). Enfim esperava mais e como fã sai com um gostinho amargo. Vamos esperar o próximo e ver em qual caminho irão conduzir, mesmo minhas esperanças estando minadas. Abraço e até a próxima.

    Responder
    • André Dick

       /  16 de março de 2018

      Spoilers abaixo

      Prezado Ranieri,

      agradeço novamente por sua mensagem generosa e seu comentário sobre o filme. Talvez Os últimos Jedi tenha a montagem mais estranha de toda a série. É como se várias cenas tivessem sido deixadas na sala de edição, de um filme que facilmente, no original, teria 3 horas. Não posso dizer que algumas resoluções não me incomodaram, principalmente, igual a você, o espaço dado a Luke Skywalker, símbolo da série. Antes de essa nova trilogia ser rodada, ninguém imaginava que Luke teria tão pouca presença, e isso não foi um acerto de Abrams (o responsável) e da Disney. Não haver nenhuma cena dele com Han Solo e apenas uma breve com Leia é lamentável. Eu tendo a considerar o derivado Rogue One ainda mais filme, e espero que Han Solo também o seja. Que o terceiro traga os rebeldes de volta à Lua de Endor; seria um bom desfecho para uma trilogia que, ao querer ser tão diferente, mas, na verdade, usando o tempo todo uma nostalgia atualizada com alta tecnologia, esqueceu em parte o que fez os originais tão marcantes.

      Volte sempre!

      Abraços,
      André

      Responder
  2. Paula Rocha

     /  21 de outubro de 2018

    Assisti o filme ontem e fiquei muito decepcionada. Como você aponta em seu texto há uma evidente falta de originalidade neste filme e a falta de George Lucas mostra-se notável, já que ele é o grande responsável pela história original.
    Em relação aos filmes de 1999 a 2005 que contam a história do início da saga, embora tenham seus problemas, a narrativa é muito melhor desenvolvida. Os personagens são ótimos e há originalidade (o que falta nestes novos filmes).
    Acredito também que Rogue One mostra-se superior, o que soa, no mínimo, contraditório por ser um spin-off da saga.

    Responder
    • André Dick

       /  23 de outubro de 2018

      Prezada Paula,

      agradeço por seu comentário e parece que nossa decepção foi parecida. Realmente não há originalidade pelo menos nesses dois primeiros da nova trilogia, trilhando os mesmos temas (e até diálogos) dos filmes clássicos dos anos 70 e 80. George Lucas faz realmente muita falta. A segunda trilogia podia ter vários problemas, mas ainda assim arriscavam, principalmente nos cenários e na narrativa. O terceiro, A vingança dos Sith, está no nível dos momentos clássicos e possui uma grandeza na tentativa de oferecer novos elementos que se ausenta quase completamente nas obras de Abrams e Johnson. E os dois anteriores melhoraram com o tempo, e me refiro especialmente a O ataque dos clones. Também considero Rogue One melhor do que O despertar da força e Os últimos Jedi, enquanto Han Solo é uma decepção quase inalcançável. Pena que, pelo seu fracasso, dificilmente a Disney expandirá esse universo, que, com bons roteiristas, poderia ser tão instigante quanto as duas trilogias de Jackson sobre a obra de Tolkien. O grande equívoco desta nova trilogia é, a meu ver, se basear demais na nostalgia, por meio dos temas, e esquecer praticamente os personagens que são icônicos. Talvez a nova geração aprecie mais.

      Volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder
      • Paula Rocha

         /  23 de outubro de 2018

        Concordo com você. Semana passada fiz uma maratona dos 6 primeiros filmes e realmente apreciei ainda mais O ataque dos clones e A vingança dos Sith. O ator que faz Anakin apresenta muito bem essa ambiguidade do bem e do mal dentro dele e conseguimos captar muito bem isso através do seu semblante. Gostei muito da atuação dele. Sem esquecer também do ótimo Ewan McGregor no papel de Obi Wan Kenobi! Ainda não assisti Han Solo e mesmo amando a saga estou desanimada em vê-lo, já que as críticas negativas foram tantas.

      • André Dick

         /  25 de outubro de 2018

        Prezada Paula,

        Agradeço novamente por sua mensagem. Gostaria de fazer essa maratona novamente 🙂 Revi dia desses A vingança dos Sith e achei do mesmo nível de O retorno de Jedi, meu predileto da primeira trilogia. Quanto a Hayden Christensen, não chego a apreciar sua atuação em O ataque dos clones, prejudicado também pela direção e por algumas escolhas da narrativa, mas no capítulo que fecha a trilogia ele mostra o que você aponta muito bem. Seu papel é difícil, afinal é alguém se transformando num vilão. E, embora não seja grande admirador de McGregor, sua presença vai se acentuando bem durante a trilogia e termina com impacto. Não sei o que vai achar de Han Solo, mas se prepare para confirmar que não se pode fazer um filme do personagem sem Harrison Ford.

        Volte sempre!

        Grande abraço,
        André

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: