O farol (2019)

Por André Dick

Em 2015, quando surgiu à frente de A bruxa, filme de terror bastante elogiado, Robert Eggers tornou-se um dos cineastas a se acompanhar. Particularmente, não apreciei sua estreia, mas era inegável que ele conseguia construir uma atmosfera e, se tivesse às mãos uma história superior, poderia lidar melhor com elementos que já demonstrava. Isso acontece justamente em O farol, cuja estreia aconteceu no Festival de Cannes do ano passado com grande recepção, escrito por ele e seu irmão Max.
Ele acompanha a trajetória de Ephraim Winslow (Robert Pattinson), que vai parar numa ilha da Nova Inglaterra, a fim de guardar um antigo farol, no século XIX, ao lado do estranho Thomas Wake (Willem Dafoe). A premissa é bastante curta, quase desinteressante, ecoando, por exemplo, A luz entre oceanos e o brasileiro A ostra e o vento, mas a diferença é que Eggers entrega aqui um duo espetacular de Pattinson e Dafoe, ambos, talvez, em seus melhores momentos na década passada, o que não é pouco, pois ambos fizeram grandes filmes (para citar apenas um de cada, Cosmópolis e Projeto Flórida).

Eggers utiliza essas figuras taciturnas para desenvolver uma espécie de simbologia ligada ao oceano, com influência da mitologia grega. Ephraim começa a ver imagens oníricas ligadas justamente à figura de uma sereia (Valeriia Karamän), depois de encontrar uma pequena estatueta desse ser, despertando nele também desejos que desconhece. Ele também passa a se deparar com uma gaivota perturbadora, sendo avisado por Wake de que matá-la pode trazer problemas para ambos. Trata-se de uma espécie de Ulisses, aquele homem que ouve encantado o canto das sereias e precisa ser amarrado (embora isso não necessariamente aconteça no filme, o diálogo é explícito).
A chuva incessante sobre a ilha parece levar esses personagens a criar uma redoma em torno concentrada por lances de loucura. Pattinson, para desenvolver seu personagem, recorre certamente a atuações de Von Sydow na fase bergmaniana de loucura particular ou coletiva, principalmente em A hora do lobo e Shame. São esses dois filmes que Eggers incorpora em seu roteiro de maneira acertada, focando a loucura como um símbolo da própria vida que esses personagens passam a levar. Em entrevistas, Pattinson tem dito o quanto teve dificuldades com o diretor: o que transparece, no entanto, por meio de expressões, é uma das atuações mais surpreendentes dos últimos anos, original e impactante.

O personagem de Thomas Wake, além de guardar um segredo, tenta impedir que Ephraim tenha uma autonomia, tentando atraí-lo para sua rotina, incluindo doses etílicas consideráveis. Em algumas sequências, ele lembra um Ahab sem uma obsessão em mente, com a longa barba e a performance enlouquecedora de Dafoe, indo na mesma linha de seu companheiro de elenco. Em determinado momento, o tom conflituoso é tamanho que o espectador parece acompanhar uma espécie de pesadelo kafkiano (nesse sentido, há algo nele também do experimento de Steven Soderbergh do início dos anos 90, com Jeremy Irons no papel do escritor). O cenário da ilha e do vazio que cerca o farol, além da presença da estranha gaivota, colabora decisivamente para isso. Além disso, a fotografia em preto e branco de Jarin Blaschke, em tamanho de tela 1,19: 1 (típico na era do cinema mudo), dialoga com a filmografia de Bergman, incluindo aí outras obras-primas, como O sétimo selo.
Eggers também não utiliza apenas referências esparsas ao clássico diretor sueco: a maneira como ele movimenta a câmera tem muita semelhança, além da necessidade de mesclar um cenário real, dramático, a elementos de terror. Isso era muito presente em A hora do lobo, já referido, no qual um casal morava numa ilha atormentada por estranhas figuras de uma mansão. Também é visível a influência do cinema de Béla Tarr, sobretudo O cavalo de Tuim, com a presença considerável de efeitos sonoros do vento e dos pássaros, além das ondas do mar batendo nos rochedos da ilha, inserindo o espectado no centro da situação que vivem os personagens. Por isso, a partir do terceiro ato e, principalmente, a conclusão tornam a história ainda mais notável, por toda a ousadia e o cuidado em retratar a época. A última cena é tão pictórica que poderia, como outras passagens do filme, ser emoldurada. Poderia ser apenas estilo sobre substância, sem nenhuma história verdadeira a ser contada: não é. Este é um tipo de cinema cada vez mais raro e é preciso dedicar toda a atenção quando ele surge, com alguém disposto a bancá-lo, sem fazer concessões.

The lighthouse, EUA, 2019 Diretor: Robert Eggers Elenco: Willem Dafoe, Robert Pattinson, Valeriia Karamän  Roteiro: Robert Eggers e Max Eggers Fotografia: Jarin Blaschke Trilha Sonora: Mark Korven Produção: Rodrigo Teixeira, Jay Van Hoy, Robert Eggers, Lourenço Sant’Anna, Youree Henley Duração: 110 min. Estúdio: A24, Regency Enterprises, RT Features Distribuidora: A24 (Estados Unidos) e Focus Features (Internacional)

 

O rei (2019)

Por André Dick

Lançado no Festival de Veneza este ano, O rei é uma adaptação não oficial das partes 1 e 2 de Henrique IV e de Henrique V, de Shakespeare, mas certamente seu correspondente mais imediato é a segunda, que teve duas versões consideradas referenciais: uma dos anos 40, com Laurence Olivier, vencedora do Oscar de melhor filme, e a outra do final dos anos 80 dirigida e interpretada por Kenneth Branagh. A trama, passada no século XV, acompanha, desde o início, o conflito de Henry (Timothée Chalamet), ou “Hal”, com seu pai, o rei Henrique IV (Ben Mendelsohn), da Inglaterra. O jovem não demonstra interesse pelo legado do pai, nem por sua compulsão em travar guerras, preferindo andar ao lado de John Falstaff (Joel Edgerton) por tavernas. Trata-se de um veterano de guerra que cuida do príncipe e de suas recorrentes inclinações etílicas, além da constante falta de rumo em sua vida.

Quando seu pai o procura, já adoentado e sem pronunciar direito suas palavras, é para anunciar que Thomas (Dean-Charles Chapman), o irmão mais novo, assumirá o trono, numa espécie de vingança familiar. Para evitar uma nova guerra, Hal vai até o campo de batalha tentar uma manobra, a fim de que seu irmão não sofra, enfrentando o inimigo Hotspur (Tom Glynn-Carney).
David Michôd se revelou no início desta década através do excelente Reino animal, situado em seu país de origem, a Austrália, um thriller que evocava o melhor estilo de Scorsese com uma sensação de estarmos em meio a um faroeste contemporâneo, cercado por uma paisagem urbana desoladora e coberta pelo crime. Roteirista de O rei ao lado de um dos atores daquele seu filme de estreia (assim como lá o vilão era interpretado por Mendelsohn) e aqui fazendo Falstaff, Joel Edgerton, Michôd parece superar a irregularidade de The Rover – uma ficção apocalíptica mais realista e menos nos moldes de Mad Max – e War machine, filme de guerra subestimado tendo à frente Brad Pitt, um dos produtores deste.

Em O rei, ele aposta no talento que tem para o trabalho visual, lembrando, em muitos momentos, os melhores filmes recentes de época, influenciado diretamente pelo Ridley Scott de Robin Hood, mas dialogando também com Legítimo rei, uma espécie de segunda versão de Coração valente. Atento aos designs de época, ao figurino dos soldados e às locações das batalhas notáveis, próprio de um grande diretor, ele possui ainda o auxílio da fotografia de Adam Arkapaw e da trilha sonora de Nicholas Britell, esta bastante discreta quando surgem as cenas de maior tensão, que colaboram para o tom autenticamente histórico de cada sequência. Há, certamente, alguns problemas de transição, de correspondência entre personagens, abrindo espaço para lacunas, correspondentes certamente ao fato de ele ter 140 minutos e muito de seu material ter ficado na ilha de edição.
Ao mostrar Henrique V como uma figura saindo da adolescência, Michôd extrai de Chalamet uma boa atuação, embora ele não esteja à altura de sua presença em Querido menino, em que mostra seu verdadeiro talento. Com uma certa indefinição ainda na composição de seus papéis, oscilando entre nervosismo e uma tentativa de se mostrar um ator capaz de empreender alguns monólogos, Chalamet tem uma presença interessante em O rei, embora seja ofuscado exatamente por Edgerton.

Ou seja, certamente o resultado, embora pareça, não depende apenas dele, e sim do roteiro, que às vezes não transmite seus sentimentos da maneira mais conveniente, fazendo o ator se desdobrar por meio de ações e olhares. É a amizade entre Henrique V e Falstaff a peça que move o roteiro. Quando ela se revela aos poucos, O rei encontra de forma compacta o seu caminho, no entanto isso não ocorre tantas vezes quanto poderia. A ida para a guerra se constitui num momento capaz de lembrar brevemente O resgate do soldado Ryan, apresentando uma iluminação soturna desse período, e há um certo registro de guerra capaz de evocar luminosas sequências de outra obra de Scott, Cruzada, sempre com esmero técnico.
Mchôd coloca esse personagem no centro de muitos outros interessados em criar integras e governar a Inglaterra por meio dele. Um dos que se mostram amigos é William Gascoigne (Sean Harris), mas seu conflito central é com o arcebispo (Andrew Cavill) até chegar ao momento da Batalha de Agincourt, em que se mostra relevante o personagem de Delfim de França.

Este é interpretado de maneira simples e ao mesmo tempo excêntrica por Robert Pattinson, mostrando-se mais uma vez num bom momento e fazendo o que se espera de um coadjuvante: dar a impressão de que sua importância é maior do que aquela que o roteiro lhe oferece, depois de suas colaborações com Eggers (O farol) e Claire Denis (High life). Talvez haja uma falha em colocar dois personagens femininos muito interessantes (interpretados por Lily-Rose Depp e Thomasin McKenzie) de maneira tão rápida e sem tempo para interferir na história como poderiam, porém Michôd não foge ao fato de que, dentro de seus limites, do elo com a história, tudo parece contado de maneira plausível e por vezes emocional. Quando é preciso transportar a narrativa para seu grande momento, o clímax, o espectador é inserido no centro dos acontecimentos.

The king, EUA/AUS, 2019 Diretor: David Michôd Elenco: Timothée Chalamet, Joel Edgerton, Sean Harris, Lily-Rose Depp, Robert Pattinson, Ben Mendelsohn, Thomasin McKenzie Roteiro: David Michôd e Joel Edgerton Fotografia: Adam Arkapaw Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Liz Watts, David Michôd, Joel Edgerton Duração: 140 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Netflix, Blue-Tongue Films, Porchlight Films Distribuidora: Netflix

Bom comportamento (2017)

Por André Dick

Desde sua estreia no Festival de Cannes, Bom comportamento gerava grande expectativa, principalmente pela atuação de Robert Pattinson, cotado ao prêmio de melhor ator antes de serem revelados os vencedores. Ele interpreta Constantine Nikas, que tenta tirar seu irmão Connie (Ben Safdie, um dos diretores do filme, ao lado de Joshua Safdie) da terapia para conduzi-lo a um assalto a banco no Queens. Sua namorada, Corrie (Jennifer Jason Leigh), é chamada a tentar ajudá-lo numa situação que se configura arriscada. Seu interesse em ajudar o irmão é genuíno, mesmo que desperte um conflito com a avó, lembrando, num outro escopo, a relação dos irmãos de Rain Man.
Depois de uma passagem angustiante por um hospital, ele precisa em determinado momento da ajuda de uma senhora, Annie (Gladys Mathon), que mora com sua neta Chrystal (Taliah Webster), quando a história se desenrola de maneira decisiva, e as imagens acabam lembrando, mesmo de forma involuntária, Enter the void, de Gaspar Noé, sobretudo na maneira como são filmados os televisores.

Há filmes que têm um conceito interessante, e este é um. Sua primeira meia hora é muito bem solucionada: a montagem trepidante não dá quase espaço ao espectador recuperar o fôlego, e tudo se interliga de modo eficiente. No entanto, aos poucos, parece que algo na narrativa vai se perdendo. Apesar de elogiada, a trilha sonora de Daniel Lopatin é muito intrusiva, querendo dar uma dimensão especial a cada cena, o que tira o realismo que elas possuem e não está à altura do compositor que lhe serve de inspiração, Cliff Martinez. Perde-se o número de vezes em que a tensão é diluída por sua presença de fundo, extraindo mesmo a energia dos atores, parecendo um filme policial lado B dos anos 90. Ao mesmo tempo, uma certa história paralela se superpõe à principal, e um dos personagens principais se torna coadjuvante. Os close-ups vão tentar emprestar dramaticidade às sequências e algumas vezes conseguem, no entanto eles tentam imprimir muitas vezes expressões faciais que não acrescentam à narrativa.

Os ambientes sujos ou com neons tentam captar um universo em ebulição; faltam, contudo, diálogos e situações mais interessantes. Não raras vezes, a escrita soa forçada, ao contrário do que acontece num filme de Tarantino, a exemplo de Cães de aluguel, uma referência aqui. A atuação de Pattinson é boa, mas não chega perto da competência demonstrada em Cosmópolis, The Rover, Mapas para as estrelas e Z – A cidade perdida, ou mesmo Lembranças, passado na mesma Nova York. Os diretores não conseguem desenvolver um personagem que poderia ser fascinante, assim como desperdiçam Jennifer Jason Leigh, e a própria cidade onde a ação se passa. Uma metrópole sempre é um ótimo cenário para colocar personagens em movimento, guiados por uma perturbação interna ou externa, pois o diálogo é estabelecido de imediato. Em Bom comportamento, isso acontece mais ao início, mas, à medida que a trama progride, vai se sentindo um certo vazio, e não é apenas dos lugares imensos e caóticos que enfoca, sempre com uma câmera acelerada, tentando acompanhar a ação desses personagens.

A impressão que se tem é que, mais do que um drama, é um filme de ação disfarçado de indie. O melhor personagem, mais humano, acaba sendo Connie, numa boa atuação de Ben Safdie, e a revelação Taliah Webster representa bem a solidão e opressão de uma adolescente nesse universo enfocado. Ao mesmo tempo, por ser filmada com uma cor rosa, ela representa um resquício de inocência em meio a um universo marginal. Imagina-se um outro filme dirigido por Scorsese, dos anos 70 e 80, ou mesmo verdadeiramente influenciado pelo ótimo Vivendo no limite, com mais urgência e acerto. Por exemplo, Taxi Driver, uma referência visível, criava um atrito entre o mundo de Bickle, o taxista, e a trilha sonora calma: em Bom comportamento, tudo deve sugerir um mundo de perdição, e isso acaba sendo levado ao exagero. Uma boa aproximação seria com Baby Driver, com tom mais comercial e fotografia mais leve, muito superior em sua despretensão de mostrar o mundo do crime. Enquanto o filme de Wright acelera, o dos irmãos Safdie é de um vazio e pretensão capaz de agradar a quem imagina estar diante de um cinema antimainstream, quando, sem saber muito bem, está mergulhado naquilo que visa aos mesmos prêmios do cinema mainstream.

Good time, EUA, 2017 Diretores: Ben Safdie e Josh Safdie Elenco: Robert Pattinson, Jennifer Jason Leigh, Ben Safdie, Barkhad Abdi, Buddy Duress Roteiro: Josh Safdie, Ronald Bronstein Fotografia: Sean Price Williams Trilha Sonora: Daniel Lopatin Produção: Sebastian Bear-McClard, Oscar Boyson, Terry Dougas, Paris Kasidokostas Latsis Duração: 99 min. Estúdio: Elara Pictures, Rhea Films Distribuidora: A24

Z – A cidade perdida (2016)

Por André Dick

Em seu filme anterior, Era uma vez em Nova York, James Gray parecia deixar de lado a agilidade dramática que havia apresentado em Amantes, talvez seu melhor filme. Mesmo com ótimas atuações de Joaquin Phoenix e Marion Cotillard, a narrativa tinha muitos problemas. No entanto, algumas qualidades suas se mantinham: o cuidado com a reconstituição de época era uma delas. Talvez Gray seja o último cineasta norte-americano a querer recuperar certo cinema de época, inspirado sobretudo em Michael Cimino, de O portal do paraíso. Ele possui uma grande nostalgia em mostrar salões de dança e barcos em portos históricos, sendo recepcionados por milhares de pessoas.
Em Z – A cidade perdida , ele traz Percy Fawcett (Charlie Hunnam), casado com Nina (Sienna Miller), um oficial britânico que é escolhido pela Royal Geographical Society, por meio das figuras de Sir George Goldie (Ian McDiarmid) e Sir John Scott Keltie (Clive Francis), para ajudar na delimitação de terras entre Bolívia e Brasil, prestes a entrar em guerra por causa disso. Estamos em 1906. Ele recebe como companheiro de viagem Henry Costin (Robert Pattinson), que tem conhecimento da Amazônia, e Arthur Manley (Edward Ashley). Em embarcações no rio Amazonas, lembra-se imediatamente de Aguirre, mas Gray não quer emular Herzog: seu interesse é justamente mostrar a solidão desses exploradores, mesmo em sua ausência de relações, não exatamente a loucura provocada pela floresta e pelo distanciamento de tudo.

Na missão, Fawcett é informado por um dos guias de que existe uma cidade perdida com ouro na selva. Ele não leva em consideração a história, mas encontra numa peregrinação restos de cerâmica na mata, o que o leva a acreditar que haveria uma cultura mais evoluída do que imagina. Gray contrapõe esse seu interesse à ameaça que sofre ao longo da peregrinação, principalmente quando há uma chuva de flechas disparadas por tribos (e o realismo das cenas as engrandece).
Fawcett volta à Inglaterra, onde sua esposa deu à luz ao segundo filho. Na Biblioteca do Colégio da Trindade, sua esposa encontra um texto de um conquistador que fala da cidade perdida na selva – seria a mesma já relatada a ele? Ele também discursa sobre a possibilidade de realmente haver uma cultura forte no meio da selva, sendo ridicularizado. Ele volta ao Brasil para tentar encontrar essa cidade, sendo acompanhado novamente por Costin e desta vez por James Murray (Angus Macfadyen). Desta vez, ele está interessado em estabelecer um contato mais estreito com as tribos indígenas da Amazônia, mesmo sabendo do risco que corre nesse embate entre diferentes culturas.

Não há nenhuma tentativa de se vincular a Terrence Malick, de O novo mundo, por exemplo, e sim a um cinema de época mais clássico, padronizado, embora no bom sentido. Gray não está interessado em cenas de ação ou mesmo no misterioso da floresta amazônica e sim com o dilema do personagem, em estar junto à família ou perto daquilo que o move como aventureiro e explorador. O mais instigante nesse personagem é como ele necessita dos companheiros para cumprir sua tarefa de exploração, sem nunca se sentir acima. Gray o mostra como um indivíduo mesmo inseguro, apesar da tenacidade em percorrer determinado rumo contrário ao ritual da sociedade da época. Neste ponto, ele lembra bastante Lincoln, de Spielberg, uma clara referência na reconstituição de determinados cenários, assim como as luzes e figurinos nos salões remetem a Barry Lindon e Mistérios de Lisboa. Também é bastante evidente, na maneira com que Gray usa o horizonte, uma influência do subestimado No coração do mar, de Ron Howard, que trata também do instinto de sobrevivência numa situação complicada: quando os personagens, na mata, ficam sem alimento e precisam caçar animais.

Gray faz dessa história simples não uma homenagem também a Fitzcarraldo, e sim um filme de época realmente convincente, com belas atuações de Hunnam, Pattinson (no seu melhor momento desde Cosmópolis e The Rover) e Sienna Miller (que esteve este ano também no ótimo A lei da noite). Embora nenhum personagem seja realmente desenvolvido, deixando algumas questões subentendidas, todos eles se sentem verdadeiros. Hunnam, especialmente, mostra talento já explorado este ano, embora não tanto, em Rei Arthur. Baseado em livro de David Gann, Z – A cidade perdida possui uma bela fotografia do sempre competente Darius Khondji, conseguindo conciliar as cores de Londres com a da selva amazônica de modo irremediavelmente concentrado. Com uma história contada de forma devagar, procurando mais nuances do que conflitos dramáticos ressaltados, é uma obra realmente interessante na trajetória de Gray. Pode-se apontar semelhanças também com o recente O abraço da serpente, mas Gray é substancialmente mais certeiro ao escolher a maneira de retratar esses exploradores. A narrativa flui também melhor, sem uma necessidade de agradar e ser artístico demais, explorando com cuidado as nuances.

The lost city of Z, EUA, 2016 Diretor: James Gray Elenco: Charlie Hunnam, Robert Pattinson, Sienna Miller, Tom Holland, Edward Ashley, Angus Macfadyen, Ian McDiarmid, Clive Francis, Pedro Coello Roteiro: James Gray Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: Christopher Spelman Duração: 111 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: MadRiver Pictures / MICA Entertainment / Paramount Pictures / Plan B Entertainment

Mapas para as estrelas (2014)

Por André Dick 

Mapas para as estrelas 12

Os filmes do canadense David Cronenberg, desde os anos 70, são vistos sob a análise da estranheza, com experimentos como Calafrios, ou dos anos 80, quando se tornou mais conhecido, com Scanners, Videodrome, A mosca e Gêmeos. Nos anos 90, ele teve uma incursão na literatura adaptada de Burroughs com Mistérios e paixões, assim como fez o provocativo Crash. Foi a partir do início deste século que Cronenberg foi adaptando suas estranhezas a um cenário mais próximo do cotidiano familiar, como em Marcas da violência, Senhores do crime e Um método perigoso. Este antecipou uma nova parceria do diretor, aquela com Robert Pattinson, substituindo a que resultou exitosa com Viggo Mortensen. O resultado foi Cosmópolis, uma espécie de homenagem às avessas à Bolsa de Wall Street, e a parceria é retomada em Mapas para as estrelas. Embora Pattinson aqui não seja o principal nome, trata-se de um dos filmes mais originais de Cronenberg, pois parece tratar dos costumes de Hollywood sem exatamente ser linear ou investir na estranheza evidente, e até rotulada, trazida pelo cineasta. Ou seja, a partir de determinado ponto, a obra do diretor só teria realmente qualidade se mostrasse o que mostra na maioria de seus filmes: coisas estranhas acontecendo como se fossem normais. Nesse sentido, Mapas para as estrelas pode se ressentir de seres humanos se transformando em insetos.
Talvez Cronenberg não goste de ser influenciado claramente por David Lynch, com referências a Billy Wilder, uma vez que Lynch costuma ser visto como um opositor a seu cinema. Mas, se o seu novo filme conta com um roteiro até raso se visto em um nível superficial, assinado por Bruce Wagner, Cronenberg ingressa naquilo que Lynch consegue fazer com qualidade: obter estranheza de momentos a princípio comuns. É interessante saber que Wagner fez antes o roteiro de A hora do pesadelo III – Os guerreiros dos sonhos, em que um grupo frequentava um hospital psiquiátrico para tratar de problemas com os pesadelos em que Freddy Krueger surgia. Isso porque Mapas para as estrelas, com o clima de Hollywood, guarda uma espécie de onirismo – mesmo que em alguns aspectos tenda mais ao pesadelo em si mesmo.

Mapas para as estrelas 8

Mapas para as estrelas 5

Mapas para as estrelas 6

Cada personagem apresenta um mistério a ser solucionado (ou não), de Havana Segrand, atriz quase esquecida feita por Julianne Moore, até a aspirante à atriz Agatha feita por Mia Wasikowska, passando pelo psicoterapeuta Stafford (John Cusack), sua mulher Cristina (Olivia Williams) e seu filho, astro de Hollywood, Benjie (Evan Bird). E temos também o motorista Jerome Fontana (Robert Pattinson), que pretende ser ator e roteirista. Ao chegar a Los Angeles, Agatha conhece Jerome e logo se interessa por ele, mas não consegue rivalizar com seu interesse pelo universo cinematográfico. Para ingressar em Hollywood, ela tem a ajuda de Carrie Fisher – a princesa Leia de Guerra nas estrelas fazendo ela mesma, na porção O jogador de Altman de Mapas para as estrelas – que a indica para Havana, da qual se torna amiga, até onde o limite é uma comemoração à beira da piscina. Por sua vez, Havana é cliente de Stafford, tendo de enfrentar conflitos existenciais que remetem à mãe (que regressa em imagens com a atuação da ótima Sarah Gadon), e enfrenta problemas em sua carreira como atriz. O que não acontece com Benjie, uma espécie de Macaulay Culkin dos anos 90, perseguido por jornalistas. Além das recordações de personagens ligadas ao elemento do fogo, que dialogam diretamente com a narrativa Coração selvagem, em que Lula e Sailor buscavam fugir da família, temos, em Mapas para as estrelas, uma reunião de Benjie com executivos de cinema, cuja estranheza recorda, em parte, a reunião de Justin Theroux em Cidade dos sonhos. Nessa cena rápida e a princípio descompromissada, Cronenberg confere a pressão em relação a este astro infantojuvenil, mas carregado de uma confusão por parte da mãe, Cristina. É uma pressão que Cronenberg reverte às vezes por meio do humor, embora não necessariamente tranquilo. Para o cineasta canadense, Hollywood é antes de tudo um ponto de encontro para a autopromoção, e isso existe sobretudo nas figuras de Havana e Stanfford. Tudo que pode fugir a esta autopromoção se converte em desespero e fuga ao que pode ser visto como normalidade familiar. E dentro dessa normalidade familiar há um passado nebuloso que irá ligar ainda mais as figuras de Agatha e Savana: elas são mais parecidas do que aparentam e, embora o roteiro não esclareça nem mesmo ao final, vítimas de uma mesma explicação baseada naquilo que se desconhece em suas famílias.
Enquanto Agatha e Jerome querem ser atores, Benjie parece já cansado de sua carreira, e Stafford recolhe o que sobra das relações. Todos, no entanto, têm algo em comum: eles são como clichês se movimentando em cena, assim como uma cena em que Agatha e Jerome se encontram próximos do letreiro de Hollywood. Se Jerome de Pattinson pode ser visto como uma extensão do personagem do motorista feito por Ryan Gosling em Drive – e Mapas para as estrelas, como o filme de Refn, consegue destacar os cenários de uma clara Los Angeles, pelo menos aparentemente, na excepcional fotografia do habitual colaborador de Cronenberg, Peter Suschitzky –, Agatha é uma espécie de mescla entre os personagens de Ed Harris em Marcas da violência e Rosanna Arquette em Crash: o seu corpo traz as marcas do seu passado. E mesmo a maquiagem que Jerome usa num determinado momento, apesar de lembrar um klingon, remete mais à estranheza de eXistenZ.

Mapas para as estrelas 14

Mapas para as estrelas 9

Mapas para as estrelas 7

Embora a relação de Savana com o passado de sua mãe seja a que mais marque presença ao longo da narrativa, é interessante como se coloca a presença da referência a um poema de Paul Éluard, ligado ao personagem de Benjie. Este poema, “Liberdade”, foi distribuído aos franceses na época da invasão do nazismo e serviu como compromisso pela busca da “liberdade”: é justamente a sensação que esses personagens não têm na Hollywood de David Cronenberg. Assim como aquela Hollywood de Lynch sustenta uma atriz aspirante dentro de um pesadelo tortuoso, aqui todo o significado das interpretações não esconde a falta de liberdade para desempenhar não um papel verdadeiro, mas aquele amparado justamente por uma realidade.
As atuações do filme não são menos do que excelentes, sobretudo as de Moore e Wasikowska (que já havia mostrado grande evolução em O duplo, ao lado de Jesse Eisenberg), ambas em seu melhor momento no cinema. No entanto, não se deve esquecer das presenças vitais de Cusack, Pattinson e de Evan Bird (excepcional, num papel que parece fácil). Misturando sonhos, alucinações, pretensões artísticas e o passado de famílias,  Mapas para as estrelas, mesmo que seja uma visão pouco idílica sobre Hollywood, não deixe de ser uma homenagem à cidade dos sonhos, avançando naquilo que Cronenberg anuncia em Cosmópolis: uma visão contemporânea corrosiva e cotidiana, mas não por isso comum. Esta visão é acompanhada por uma montagem bastante ágil, feita pelo habitual colaborador de Cronenberg, mas superior às que entregou em Senhores do crime e Um método perigoso, certamente ajudado pelo ritmo empregado na condução deste elenco. Com uma sequência de cenas que se conectam naturalmente, sem o esforço do espectador em retomar explicações e por isso sem excesso de camadas que poderiam estender o filme até seu limite, raramente se vê um filme recente com um elenco tão adequado à proposta do diretor, fazendo com que Mapas para as estrelas seja mais um integrante da lista de filmes que o Festival de Cannes recebeu com uma injusta frieza, apesar de ter escolhido Moore merecidamente como melhor atriz. É Moore, afinal, que consegue, não sem a colaboração direta de Mia Wasikowska, sintetizar Hollywood, assim como Naomi Watts conseguia em Cidade dos sonhos, neste acerto memorável de Cronenberg. 

Maps to the stars, CAN, 2013 Diretor: David Cronenberg Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, John Cusack, Robert Pattinson, Olivia Williams, Sarah Gadon, Evan Bird, Carrie Fisher, Jayne Heitmeyer Roteiro: Bruce Wagner Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: Howard Shore Produção: David Cronenberg, Martin Katz Duração: 111 min. Distribuidora: eOne Films Estúdio: Prospero Pictures / Sentient Entertainment

Cotação 4 estrelas e meia

Cosmópolis (2012)

Por André Dick

Depois de um lançamento sem grande receptividade no Festival de Cannes, Cosmópolis, do cineasta canadense David Cronenberg, trilhou o caminho das produções mais restritas: passou em pouquíssimos cinemas, tanto no exterior quanto no Brasil (a boa notícia é que está sendo lançado logo em DVD e Blu-Ray). Trata-se de uma das obras mais instigantes do ano e, ao mesmo tempo, mais problemáticas, baseada no livro de Don DeLillo, que trata de um dia na vida do jovem milionário Eric Packer. Desde o início, quando ele diz a seu chefe de segurança, Turval (Kevin Durand),  que irá cortar seu cabelo no outro lado da cidade de Nova York, quando esta atravessa um dia conturbado – a passagem do presidente (“Que presidente?”, pergunta Packer), a morte de um rapper, Brutha Fez, que o milionário idolatra, tendo uma de suas canções como música de seu elevador –, Packer é o símbolo das finanças: ele precisa ficar perto dos gênios mais jovens do que ele, para se alimentar da criatividade alheia, mas ao mesmo tempo quer um afastamento de tudo, mesmo das mulheres com quem tem relações na ida para o cabeleireiro. A primeira é Didi Fancher (Juliette Binoche, numa ponta eficiente), que estende, no chão da limusine, suas mãos até os sapatos do amante, e há nesse detalhe uma espécie de síntese do fetiche por objetos. Ela dá conselhos sobre compras no mundo das artes – e Packer quer comprar a Capela Rothko por achar que cabe em sua sala. Paradoxalmente, ele não consegue ter relações com a mulher com quem casou, Elise Shifrin (Sarah Gadon), uma milionária que se diz poeta e imprime ainda mais estranheza ao filme. Ela não deseja Packer, quer apenas se esconder no fundo de uma biblioteca, com um livro, e fala como se recitasse versos – ela quase murmura seus diálogos, num tom enigmático e solene –, além de fumar fazendo pose na frente de um teatro, emulando uma pretensa solidão. É quase um complemento aos diálogos ditos em tom monocórdio por Pattinson (numa surpreendente atuação), que se dirige aos outros com desprezo e cinismo inabaláveis.

Cronenberg filma seu cotidiano na limusine com cuidado especial. Cada computador que se abre dentro do veículo e cada espaço que parece surgir entre os bancos mostra um universo em constante movimento, mesmo que num espaço exíguo. Corresponde-se diretamente com o que teorizam os personagem, falando em faturamentos, nanossegundos, experiências solitárias, ratos como moedas de troca, dinheiro como moeda de troca de vidas e com o que acontece fora dali, como o abalo na moeda chinesa, o yuan – em que  Packer apostou –, depois de um atentado ao vivo, pela TV. Nessa limusine, o milionário também atravessa seu momento mais constrangedor, pelo polêmico exame de próstata. Entretanto, a sequência é tão bem interpretada e efetiva para o andamento da história – sendo seu conceito o que define o próprio personagem –, que parece ser aquela que define a mescla pretendida por Cosmópolis: uma interpretação da realidade, de forma simbólica, e um adensamento de críticas a um certo modo de comportamento. Por que um jovem milionário faria tal exame enquanto conversa com sua chefe de finanças, Jane Melman (Emily Hampshire), que diz sentir uma “tensão sexual” no ar? Depois, ele ainda tem relações com uma segurança, Kendra Hays (Patricia McKenzie), a quem pergunta como é matar alguém, já que por meio de qualquer relação humana ele não sente nada. Há, de um lado, o temor da morte de Packer, e a certeza de que vai morrer, assim como sua juventude e agilidade. Todos os personagens que passam pela limusine são jovens, ágeis, rápidos – como a personagem de Vija Kinsky (Samantha Morton), cuja profusão de falas vem em ritmo quase de pesadelo, dividindo Cosmópolis em duas partes bem definidas –, mas, ao mesmo tempo, carregam uma carga grande de falas (Cronenberg, em certos momentos, não consegue fugir à teatralidade). Vija é uma espécie de versão mais adulta de Shriver (Jay Baruchel), que no início do filme é o nerd que promete a Packer que o sistema informatizado de sua limusine está protegido de qualquer vírus. É este vírus simbólico que atormenta o milionário: um vírus que pode tanto estar dentro do sistema de finanças – e pode levá-lo à bancarrota – quanto estar em seu corpo, fazendo com que submeta a exames completos diários, e em sua maneira de ver o mundo. Cronenberg torna a limusine uma espécie de pele do personagem central (uma ideia que é recorrente em sua trajetória, de Videodrome a Crash), a qual o protege do mundo e o torna indiferente ao que acontece fora, como se tudo estivesse ocorrendo pela televisão, e não ao vivo.

Num dos letreiros do lado de fora da limusine há uma frase de Marx: “Há um espectro que ronda o mundo, o espectro do capitalismo”. O que não se espera, nessa interpretação de Cronenberg aos dias atuais, é que haja, nesse discurso, na verdade um contradiscurso. Os anarquistas de Wall Street mostrados pelo filme – que se fantasiam como ratos e jogam ratos contra os clientes de uma lanchonete –, que dialogam com o Occupy Wall Street, são retratados de forma discreta (no momento em que balançam e picham a limusine de Packer, é como se fossem apenas parte de uma imagem de televisão, numa das sequências mais bem feitas do filme) e ainda mais um líder dos anarquistas, cuja diversão é atirar tortas em celebridades. Para Cronenberg, este não é o contradiscurso. Não é exatamente o poder financeiro de Nova York e os executivos que incomodam Cronenberg (como a Oliver Stone), e sim a falta de saída eficaz para a política que se apresenta, sem considerar o filme como algo panfletário. Segundo transparece por meio de Packer, só há discurso e presença para homens como ele porque o sistema, na verdade, firmado e o que tenta abalá-lo estão fundidos num mesmo discurso ineficaz e que se alimenta da própria mídia que contesta, como o painel luminoso se alimenta da frase de Marx. Nesse sentido, Cosmópolis, mesmo com sua densidade e, por vezes, mal-estar que provoca, é uma comédia de humor negro drástico, capaz de colocar o espectador em reflexão sobre tudo o que se julga contemporâneo demais, como diz uma de suas personagens. São verdadeiramente hilários os momentos em que o chefe de segurança abre o vidro para ficar avisando Packer de algum eminente ataque, como se ele, sim, de fato, fosse o presidente dos Estados Unidos, com sua bateria de proteção. E ao tentar afastar os manifestantes que cercam a limusine, como se estivesse num campo de guerra, ou revistando um médico como se fosse um assassino. Ou quando Packer recebe a visita de um rapper, Kosmo Thomas (Gouchy Boy), para relatar a notícia da morte de Brutha Fez (K’naan), ouvindo dele: “Entendo a sua decepção de ele ter morrido de ataque cardíaco, não de drogas”. Cronenberg, como em sua obra, não parece defender nenhum discurso, apenas colocar tudo num liquidificador, em que o resultado é a consequente estranheza e perturbação. São pessoas que se consideram vitais, e prontas para serem engolfadas pela mídia, seja para a divulgação de seus lucros quanto para mostrar os protestos de pessoas contra elas.

No entanto, Cronenberg gosta, também, de filosofar sobre a violência e os temores, como em Marcas da violência. E talvez seja aí o ponto fraco do filme: entende-se que Packer atravessa a cidade para voltar à sua infância e, diante do que faz na vida adulta, não há saída para ele. Numa sequência estranhíssima numa barbearia – que lembra diretamente Marcas da violência, inclusive com um personagem apresentando uma cicatriz no olho –, em que não sabemos se os personagens continuarão calmos ou explodirão de vez, poderíamos ter um atestado de Cronenberg sobre a atemporalidade das mazelas, mas acaba sendo prenúncio (com um ninho de ratos simbólico no cabelo de Pattinson), para uma sequência final, longa e um tanto cansativa – que, ao mesmo tempo, expõe as qualidades e os defeitos de Cosmópolis –, apesar das belas atuações de Pattinson e de Paul Giamatti.
Cronenberg sai-se melhor quando reprime a violência de seus personagens, como na ótima cena em que Packer e seu segurança estão assistindo a uma festa de jovens, e a música soa tão melancólica quanto o personagem central diante da despedida derradeira da adolescência e da genialidade precoce da qual ele não quer se desgrudar porque significa cair na indigência. Ali, Cosmópolis parece encontrar, sem muitas palavras – seu ponto, ao mesmo tempo, fraco e forte –, o que gostaria de trazer à cena e o que o torna tão contemporâneo.

Cosmopolis, FRA/ITA/CAN/PT, 2012 Diretor: David Cronenberg Elenco: Robert Pattinson, Samantha Morton, Jay Baruchel, Paul Giamatti, Kevin Durand, Juliette Binoche, Sarah Gadon, Mathieu Amalric, Emily Hampshire Produção: Paulo Branco, Martin Katz Roteiro: David Cronenberg Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 106 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Prospero Pictures / Alfama Films

Cotação 4 estrelas