Star Wars – A ascensão Skywalker (2019)

Por André Dick

Quando a Disney efetuou a compra dos direitos de Star Wars de George Lucas por uma soma significativa de dinheiro, que retornou praticamente no primeiro filme da nova trilogia, certamente estava querendo, mais do que projetos, expandir um universo com inúmeros personagens. Ela deu a J.J. Abrams a responsabilidade de retomar esse universo em O despertar da força, exatamente 10 anos depois de Lucas ter encerrado a segunda trilogia com A vingança dos Sith – na ordem cronológica, a primeira. Abrams já havia retomado uma franquia estelar com grande êxito, no Star Trek de 2009, rejuvenescendo a tripulação da Enterprise. À frente dos personagens básicos criados por Lucas, mas inserindo novos, ele não parecia se sentir tão à vontade. O resultado ficou num meio-termo entre a refilmagem disfarçada do filme de 1977 e a tentativa de alcançar um novo público.

Rian Johnson assumiu a direção de Star Wars – Os últimos Jedi, a sequência de O despertar, tentando inserir novos elementos na história de Rey (Daisy Ridley), que passa a ser treinada por Luke Skywalker (Mark Hamill) para ser uma jedi e enfrentar Kylo Ren (Adam Driver). Com um visual mais soturno do que o de Abrams, Johnson teria desvirtuado um pouco, para alguns, esse universo. No entanto, isso não chegava se dar de maneira completa: havia muitas semelhanças com O império contra-ataca, com Rey enfrentando a si mesma em cavernas escuras, como Luke em O império contra-ataca, Luke não queria treiná-la (como Yoda em relação a ele) e naves da Aliança Rebelde sendo perseguidas como a Millennium Falcon no filme de 1980, além de um mercenário feito por Benicio del Toro lembrar Lando Calrissian. Escolhido para dirigir a terceira parte, Colin Trevorrow deu espaço a J,J. Abrams novamente, que coescreveu A ascensão Skywalker com Chris Terrio, vencedor do Oscar de roteiro adaptado por Argo e responsável pela escrita de dois trabalhos polêmicos da DC (Batman vs Superman e Liga da Justiça).

Fala-se que Abrams nega o que Johnson acrescentou à série, mas, desde o início, ele adota uma atmosfera mais soturna, chuvosa e mesmo dark, sem a necessidade de destacar as cores habituais e seus lens flare, tentando se adequar visualmente à proposta visual de Johnson. A ascensão Skywalker se afasta em partes definidas do colorido de O despertar da força para acompanhar Rey, Finn (John Boyega), Poe Dameron (Oscar Isaac), BB-8, Chewbacca (Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels) num encadeamento de cenas de ação, com mudança constante de planetas (trazendo uma sensação novamente de aventura no espaço sideral e um senso de distinção no trabalho de direção de arte). Isso fazia falta nos dois episódios anteriores e era uma característica das duas trilogias de Lucas. Abrams reaproveita o estilo de Johnson e o mescla com sua bateria de subtramas: desta vez Kylo Ren vai a um planeta distante tomar ordens de uma figura inesperada, e passa a rastrear, com a ajuda dos generais Hux (Domhnall Gleeson) e Pryde (Richard E. Grant), o trio da Aliança Rebelde, coordenado por Leia (Carrie Fisher), numa busca feita a um objeto já cobiçado por Skywalker.
De fato, este terceiro filme acaba negando pontos suscitados por Johnson, como no início apressado, porém ele confere um humor mais natural e próximo das histórias de Lucas. A chegada dos rebeldes a um planeta desértico lembra tanto Tatooine quanto Marte, de John Carter, com um grupo de criaturas estranhas. Há uma perseguição fantástica de stormtroopers, assim como uma sequência que envolve Rey e Kylo que adquire uma grandiosidade, com efeitos visuais extraordinários.

Abrams se sente à vontade desta vez, construindo uma narrativa menos ligada até determinado ponto aos filmes anteriores, aplicando uma história de investigação, capaz de remeter principalmente à série Indiana Jones (principalmente Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), antes, claro, de oferecer vários serviços para fãs. No entanto, antes de chegar lá, ele proporciona uma das melhores cenas de toda a saga Star Wars, além de finalmente notar que o trio principal, Chewbacca e C-3PO funcionam muito bem juntos e mantê-los separados em Os últimos Jedi não foi exatamente o mais acertado, embora ela tenha se dado também como um diálogo novamente com O império contra-ataca, em que havia o núcleo de Skywalker e o outro de seus amigos fugindo do império. Também mostra que Abrams soube avaliar os méritos do spin-off Rogue One, cujo núcleo de rebeldes era um destaque.
Há um descompromisso aqui em certos diálogos, mais ação e menos tentativa de seguir exatamente à risca um plano, como O despertar da força. Há também uma busca de Abrams em retomar temas de linhagens familiares usados em sua retomada de 2015 e um pouco ignorados por Johnson em Os últimos Jedi para dar espaço a discussões sobre falta de combustível numa nave espacial. É visível que Abrams também ignora personagens incluídos pelo sucessor, a exemplo de Rose Tico (Kelly Marie Train) para aplicar suas ideias, o que pode constituir uma estranheza a princípio, mas se torna autoral. Se nos vinte minutos iniciais a edição é tortuosa, com excesso de acontecimentos, sem a necessária ponderação para cada personagem, aos poucos Abrams, mesmo desperdiçando a retomada de uma conhecida figura, sabe como costurar escala e grandiosidade como em seus dois Star Trek, lembrando também um determinado momento de Interestelar. Ele também deixa de lado o tom infantojuvenil de O despertar da força e se guia por algumas pistas deixadas por Johnson, principalmente na ligação entre Rey e Kylo Ren, muito bem explorada em Os últimos Jedi e que aqui toma um ponto de inflexão interessante.

Pode-se dizer que em nenhum momento esta nova trilogia conseguiu ser original a ponto de se ver como uma obra independente, e também não se pode avaliar que foi um simples exercício de nostalgia. Há pontos interessantes, principalmente quanto a ligações familiares (e nem mesmo uma mais forçada me soou incômoda). A figura de Kylo Ren cresceu muito do primeiro para este, também pelo amadurecimento de Driver, ator que foi se tornando um destaque. Ridley aqui se mostra também em seu melhor momento, afastando-se simplesmente da imagem de heroína juvenil e mostrando real conflito interior. Boyega e Isaac, cada um a seu tempo, se mostram também essenciais para a série se consolidar ao final. A morte de Carrie Fisher, por sua vez, fez com que imagens dela já filmadas fossem reaproveitadas em outro contexto, oferecendo uma certa dificuldade de imersão, porém, diante disso, até que suas cenas se encaixam bem.
O roteiro flui, com alguns problemas inevitáveis em certas transições, e, no terceiro ato, apesar de alguns exageros, é possível mesmo se emocionar em alguns pontos, graças à trilha sonora de John Williams.
Muitas pontas são costuradas e poucas ficam soltas, o que não deixa de ser um mérito para uma obra com o objetivo de concluir uma saga iniciada há mais de 40 anos. Considerado de modo geral um dos Star Wars mais fracos, além de menos arriscado do que o segundo (assim como O retorno de Jedi foi considerado em relação a O império contra-ataca nos anos 80), entendo o contrário: A ascensão Skywalker é um filme que pode ser reavaliado com o tempo. Prós ou contras, ele é o que mais se assemelha com a essência de Star Wars desde O retorno de Jedi, usando a nostalgia, no entanto acrescentando ideias. Em relação a esta saga cada espectador, admirador ou fã possui seus requisitos para avaliar a direção dada a cada filme, rendendo muitos debates. A impressão que se tem é que Abrams buscou unir os três filmes de maneira interessante e aberta a reflexões sobre esse universo fantástico.

Star Wars – The rise of Skywalker, EUA, 2019 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Carrie Fisher, Mark Hamill, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Anthony Daniels, Naomi Ackie, Domhnall Gleeson, Richard E. Grant, Lupita Nyong’o, Keri Russell, Joonas Suotamo, Kelly Marie Tran, Ian McDiarmid, Billy Dee Williams Roteiro: J. J. Abrams e Chris Terrio Fotografia: Dan Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, J. J. Abrams, Michelle Rejwan Duração: 142 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd., Bad Robot Productions Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

 

Guerra nas estrelas (1977)

Por André Dick

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Nove anos antes do lançamento de Guerra nas estrelas, 2001 havia cercado o gênero da ficção científica com uma aura de complexidade. Em 1971, na sua estreia no cinema, Lucas resolveu seguir os passos de Kubrick e fazer uma ficção com fundo subjetivo e um clima de lugar ao mesmo tempo futurista e irreal, materializada em THX 1138, com uma atuação interessante de Robert Duvall. Já em Guerra nas estrelas, ele queria também queria diversão em escala grandiosa – diversão inteligente, que soubesse atrair plateias jovens e adultas. Para chegar ao seu objetivo, mesclou elementos medievais (o caráter heroico e guerreiro de seus personagens do bem) com elementos da “era videogame” (espaçonaves, espadas de luz, armas de raio laser, robôs), de forma que acabou conquistando não só esses dois públicos díspares como uma legião universal de fãs, que idolatrou Luke e trupe como os “trekkers”, como são chamados os fãs de Jornada nas estrelas.

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Steven Spielberg, como conta o livro Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Holywood, de Peter Biskind, estava com expectativa de que Contatos imediatos do terceiro grau não fizesse tanto sucesso quanto o de seu amigo George Lucas, em Guerra nas estrelas – criticado, como relata Biskind, pelos amigos de Lucas, menos exatamente Spielberg. Se há uma semelhança entre os dois filmes, ela está no poder que exerce o interesse pelo que está além das estrelas. Spielberg sempre foi um diretor interessado no afastamento da rotina, mas ainda situado no plano real, mesmo de forma indireta, como vemos não apenas em Contatos, como também em E.T., e Lucas sempre mesclou esse afastamento com a construção de um universo paralelo. Pode-se imaginar o quanto Guerra nas estrelas tem da própria concepção existencial de Lucas.
Luke Skywalker, o jovem guerreiro Jedi; Darth Vader, o lado sombrio da força; o mercenário Han Solo; seu amigo Chewbacca; o sábio Obi-Wan Kenobi; os robôs R2-D2 e C-3PO, entre outros, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos – apesar de a história não passar na Terra, seus cenários e paisagens lembram dela – se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores e os ensinamentos espirituais de luta ganham, na trilogia de Lucas, contornos ao mesmo tempo medievais e futuristas.

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Sua história parece formulaica: numa galáxia distante, o jovem Luke Skywalker (Mark Hamill), cujo maior sonho é tornar-se um piloto da Aliança Rebelde, vai embora do planeta desértico Tatooine, onde morava com os tios, para resgatar a princesa Leia (Carrie Fisher), capturada por Darth Vader (David Prowse, com voz marcante de James Earl Jones), o vilão do elmo soturno, que coordena o “império do mal” em sua Estrela da Morte, uma espécie de esfera de metal suspensa no espaço.
Ao lado de Luke, estão o sábio Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness, ótimo, indicado, na época, ao Oscar de melhor ator coadjuvante), Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew), que possuem a Millenium Falcon, uma nave com problemas de ignição, e a dupla de robôs atrapalhados R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). A mensagem por trás das palavras de Obi Wan podem, hoje, parecer ingênuas – e foi criticada à época principalmente por amigos próximos do diretor –, contudo George Lucas conseguiu sintetizar o panorama de uma geração por meio de suas batalhas estelares e criar um cinema de qualidade para a diversão massificada.

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Mesmo tendo criado os personagens e a história-base da trilogia inicial, Lucas dirigiu apenas Guerra nas estrelas, deixando Irvin Kershner e Richard Marquand a cargo, respectivamente, de O império contra-ataca e O retorno de Jedi. A autoria de Lucas, de qualquer modo, é sentido em todos os capítulos. Se Guerra nas estrelas não apresenta ainda figuras trazidas em O império contra-ataca, como o pequeno sábio Yoda, com um direcionamento transcendente, que procura mostrar a Luke o caminho da força e do bem, com o objetivo de transformá-lo num guerreiro Jedi, nem cenários extraordinários, como a Cidade das Nuvens e o planeta gelado Hoth, tampouco a revelação surpreendente para a compreensão da trilogia, Lucas costura tudo de maneira extremamente simples, mas nunca efêmera.
Nesse sentido, embora talvez seja episódio mais reconhecido da trilogia, O império contra-ataca não desperta a surpresa de Guerra nas estrelas, marcando um início da saga que mostra o embate entre o bem e o mal, revelando, por vezes, uma atmosfera sombria, em que estão presentes razões psicológicas que movem o ser humano inserido num universo fantástico, enquanto traz uma vertente mais bem-humorada e, por fim, memorável, da Princesa Leia, de Han Solo, Chewbacca e os robôs, principalmente por causa das atuações de Fisher e Ford. Vencedor dos Oscars de melhor trilha sonora, montagem, direção de arte, figurino, som, efeitos sonoros e efeitos especiais (também teve indicações, entre outras, a melhor filme e direção, apenas se deparando com Noivo neurótico, noiva nervosa, de Woody Allen), Guerra nas estrelas estabelece um ambiente mitológico e coerente com a sua proposta, capaz de remeter a várias épocas e figuras que o estabelecem como uma referência histórica do seu gênero. Mesmo depois de vários episódios e da nova franquia, ainda parece o mais contemporâneo de todos (ao lado, particularmente, de O retorno de Jedi), o que não deixa de ser um feito.

Star Wars, EUA, 1977 Diretor: George Lucas Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, David Prowse, James Earl Jones, Peter Mayhew, Kenny Baker, Anthony Daniels Roteiro: George Lucas Fotografia: Gilbert Taylor Trilha Sonora: John Williams Produção: Gary Kurtz Duração: 121 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox

 

Star Wars: Episódio III – A vingança dos Sith (2005)

Por André Dick

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Seria difícil que George Lucas, após 22 anos afastado das câmeras, como diretor, conseguisse criar uma obra equivalente à primeira trilogia, no primeiro episódio da segunda franquia de Guerra nas estrelas, intitulado A ameaça fantasma. Não querendo oferecer seu novo projeto a outros diretores, como fez com O império contra-ataca e O retorno de Jedi, ele tentou evitar aquilo que os fãs mais fiéis temiam: que o estilo e magia da saga se perdessem pelos corredores de sua empresa ILM. O mais interessante nesse filme é, dessa maneira, a maneira como Lucas não chega a congelar os personagens, que, mesmo não substituindo o carisma dos originais, conseguem, num primeiro momento, agradar: por exemplo, interpretando o mestre Jedi Qui-Gon Jinn, Liam Neeson comprova ser um bom ator, substituindo o estilo sábio de Alec Guiness do primeiro Guerra nas estrelas e, entre excessos de efeitos especiais, as paisagens de Tatooine tinham o mérito de dialogar com a saga original.
O descompromisso de A ameaça fantasma não anuncia o estilo do segundo, O ataque dos clones, cujo tom interno é mais melancólico e mesmo arriscado, contrariando, ao contrário do primeiro desta trilogia, a franquia antiga, mesmo com a habitual trilha de John Williams. Continuam nele os problemas de A ameaça fantasma, em que existia pouco humor, mesmo mostrando R2-D2 e C-3PO, mas se anuncia a base da história que repercutirá em A vingança dos Sith. Percebe-se que Annakin Skywalker (agora Haydeen Christensen) quer tomar o lugar do mestre Obi-Wan Kenobi (McGregor) e confrontar Yoda – em movimento –, assim como Mace Windu (Samuel L. Jackson).

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A questão política envolvendo a princesa Amidala (Natalie Portman), por quem Annakin se apaixona, continua presente, e Palpatine tenta organizar o jogo. No entanto, nem os cenários diferentes e a presença de Jango Fett (Temuera Morrison), pai de Boba Fett (da série antiga), acabam conferindo ao filme uma ação interessante. Outro vilão, Conde Dooku (o ótimo Cristopher Lee), não chega a ter uma relação direta com a ação, e os personagens estão constantemente passando em frente a cenários magníficos, ou trocando ideias com fundo político, mas parecem não fazer parte deles. Ou seja, o chroma-key, aqui, é desgastante. No entanto, há algumas qualidades: há um bom ritmo, com uma perseguição inicial que remete a Blade Runner, as paisagens reproduzem um visual fascinante e tudo se encaminha para uma grande luta de jedis numa caverna do deserto.
A segunda trilogia de George Lucas precisava encerrar com um filme pelo menos superior aos dois primeiros, sobretudo o segundo Suas cenas de ação ininterruptas e o excesso de acontecimentos não chegam a cansar e, em A vingança dos Sith, Lucas entrega uma obra à altura da saga original, embora sempre sem o mesmo humor e sem os mesmos personagens expressivos (apesar de Yoda e da reaparição, por momentos, de Chewbacca). O cineasta, na verdade, não quis abrir a concessão de que a tecnologia da nova trilogia não substitui um elenco interessante e interessado. Embora Lucas ainda continue um diretor com dificuldades para lidar com atores, Christensen, McGregor e Portman, desperdiçada em diálogos sem muito vigor nos filmes anteriores, passam por acontecimentos que merecem destaque e conseguem diminuir a distância emocional que havia entre eles. Na pele da rainha Amidala, especialmente Portman, alguns anos depois da atuação em O profissional, sem sinais do futuro Cisne negro, não desaponta, apresentando uma atuação conflitante. Parece ser de Ewan McGregor, como Obi-Wan Kenobi, a atuação menos convincente, levemente deslocado, mesmo em comparação a Christensen, que consegue fugir um pouco ao estilo consagrado em Jumper – mas o final surpreende quando finalmente ele adquire uma ressonância que faltou à trilogia.

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A vitalidade também resulta dos efeitos especiais, mas pertence muito mais a uma montagem que não deixa de amarrar a história da traição de Palpatine (o excelente Ian McDiarmid) e a transformação consequente em mestre de Annakin (e Andersen, que parecia apático no segundo, transmite uma expressão pessoal de desespero), a um passo de se tornar Darth Vader. E o jedi Mace Windu finalmente tem uma participação decisiva na história.
A revolta de Annakin tem um lado bastante obscuro, aqui, pela primeira vez, aliada a um grande sentimento de perda, em relação a seu próprio futuro; mais do que uma fantasia, o comportamento dele decisivamente é perturbador. Annakin, portanto, quando viaja para outro planeta, a fim de deflagrar o domínio da galáxia, leva todos os personagens ao que seria a antiga trilogia, com figuras estranhas, robôs mais inovadores do que os dois primeiros episódios da nova trilogia e cenas de batalha realmente notáveis, sobretudo no início do filme e na investida contra os jedis da República. Existe, no personagem, um conflito com a imagem da infância, e é esta torna o olhar de Lucas mais compenetrado e negativo. Ao contrário da primeira trilogia, O ataque dos clones já tinha uma tristeza impenetrável, mas este, sem negá-la, consegue inseri-la numa narração, tornando alguns dos momentos interessantes e de significado para a ligação com a primeira trilogia, e a sensação é uma mescla de perda e nostalgia. Há um trabalho elaborado de fotografia tanto no que diz respeitado ao jogo de luzes (a chegada de Annakin à Terra e o reencontro com Amidala ganha um tratamento específico de Lucas) quanto ao uso de cores (a primeira batalha antecipa boa parte dos efeitos usados hoje em produções recentes) e de movimentação de câmeras que remetem ao talento inicial de Lucas para uma visão futurista, entregue em THX 1138, seu filme ainda mais experimental.
A vingança dos Sith ganha elementos próprios mesmo em relação aos outros da série, com uma certa ambiguidade na ação dos personagens, tornando-o talvez o mais denso. Com direção de arte impressionante, figurino rebuscado, lutas com certo impacto – quase ausentes no segundo, por exemplo –, o episódio faz esquecer, em parte, o desapontamento visível na comparação com a primeira trilogia. Uma das poucas ficções interessantes deste início de século. Lucas realmente demonstra interesse em finalizar a trilogia e nos guarda uma peça a ser revista, forte o suficiente para não ter o impacto reduzido dez anos depois.

Star Wars: episode III – Revenge of the Sith, EUA, 2005 Diretor: George Lucas Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Frank Oz, Anthony Daniels, Christopher Lee, Keisha Castle-Hughes, Silas Carson, Jay Laga’aia, Bruce Spence, Wayne Pygram, Temuera Morrison, David Bowers, Oliver Ford Davies  Roteiro: George Lucas Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 140 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas e meia

Apocalypse now (1979)

Por André Dick

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O cineasta Francis Ford Coppola foi sempre reconhecido, desde o início da saga de O poderoso chefão, como muito próximo da megalomania. Apesar disso, ele teve uma função de destaque ao ajudar novos talentos da Nova Hollywood, como George Lucas, com quem brigou e fez as pazes algumas vezes e que quase realizou Apocalypse now. Se hoje Coppola realiza produções mais discretas (como Tetro e Twixt), ficaram na memória dos produtores os riscos dos anos 80, com O fundo do coração e Cotton Club, e o grandioso Drácula de Bram Stoker, do início dos anos 90. Ainda assim, as filmagens de Apocalypse now, adaptação do livro de guerra “O coração das trevas”, de Joseph Conrad, que podiam aproximá-las de um retrato próximo do inferno, foram as mais conturbadas em muitos anos, e Cimino tentou copiá-las (com êxito) em O portal do paraíso.
Um ator principal substituído depois de cenas rodadas (Harvey Keitel por Martin Sheen, conhecido por Terra de ninguém, de Malick, e que sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens), no período mais chuvoso das Filipinas, a equipe atacada por doenças de todos os tipos, e Marlon Brando fazendo inúmeras exigências e cachê milionário para fazer quase uma participação (embora especial) são os principais elementos dessa produção que se atreveu a desafiar o próprio desastre anunciado pela Guerra do Vietnã, tornando-se, por si só, um desastre financeiro. Continua atual a saga do capitão Benjamin Willard (Sheen), convocado por superiores para tentar encontrar o Coronel Walter E. Kurtz (Brando), que abandonou o exército e se embrenhou nas matas do Camboja com uma espécie de seita a segui-lo como um messias. Homem exemplar do exército, a única razão para suas atitudes seria: a guerra o enlouqueceu.

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Imerso no álcool, o comandante fica impassível diante do pedido, mas segue com um grupo para ajudá-lo. Todos inexperientes e pouco adequados ao cenário da guerra, como um conhecido surfista, Lance (Sam Bottoms). Quando eles chegam a um campo de batalha, e Willard pergunta quem manda ali, sem que se saiba realmente, eles encontram o Tenente Coronel Bill Kilgore (um Robert Duvall antológico), que logo se encanta com a presença do conhecido surfista. Seu hobby é justamente surfar (ou tentar surfar) nas águas do Vietnã. Depois de um ataque orquestrado pela “Cavalgada das Valquírias” e cercado de bombas, ele diz: “Adoro o cheiro de napalm pela manhã”. Com um chapéu de caubói, não há mais índios para matar, e sim vietcongs.
Tudo em Apocalypse now é simbólico, mesmo quando o helicóptero desce num acampamento carregado de coelhinhas da Playboy, e imaginamos não muito diferente o set de filmagem de Coppola, com uma série de rebeldes típicos dos anos 70 (não apenas Brando, como também o “sem destino” Dennis Hopper e, claro, Coppola), sendo possível ver uma atmosfera de show de Jim Morrison no The Doors. Esta primeira parte de Apocalypse now, com seu ritmo entre o violento e o meditativo, é clássico, pois acompanhamos a emoção de Coppola ao adentrar na floresta, com as curvas sinuosas dos rios, as palmeiras e cabanas construídas milimetricamente para sequências de ação grandiosas e que mesmo hoje parecem superar muitos filmes de guerra (os helicópteros em cadeia e em fúria martelam os ouvidos). Ele realmente consegue examinar a guerra como um lugar da loucura forçada, sobretudo na figura de Bill Kilgore. À medida que a selva vai ficando densa, Coppola parece carregado, e carrega o espectador, para o próprio “coração das trevas”. “É o horror, é o horror”, vai repetir mais tarde o coronel Kurtz para um impassível Willard.

Apocalypse now

Apocalypse now, que dividiu o prêmio principal do Festival de Cannes com O tambor, é resultado de idiossincrasias misturadas com genialidade e, à medida que o espectador se torna mais familiarizado com o ambiente, é como se também não conseguisse sair dele. Ainda estamos longe dos humores de Forrest Gump correndo para salvar seus companheiros em meio a bombas de napalm, e a meditação constante de Willard vai se perdendo, como os vultos de seus companheiros, na própria loucura que gerou também a seita de Kurtz e os fez reféns de uma espécie de paraíso perdido em meio à mata. Coppola também evidencia seu cansaço, ao se entregar e entregar sua equipe à própria insegurança do cenário. “Por que Kurtz fez isso?”, vem sempre à mente de Willard, e para o espectador isso passa a exigir não apenas expectativa de um reencontro, inclusive também aversão a ele ter de existir, assim como da compreensão de que ele também, afinal, inserido no mesmo contexto, pode vir a ficar louco. Pois o Coronel Kurtz é Marlon Brando, um ator que um ano antes havia feito o pai de Superman e antes foi o Dom Corleone supremo. Ele é a própria metáfora de Coppola para a guerra do Vietnã: ele fala em ritmo trôpego, e não sabemos exatamente por que há tantas pessoas a segui-lo (Brando se negou a contracenar com Hopper, que faz um fotógrafo seguidor que nunca encontra o mestre, ou melhor, este anuncia o que o próprio ator acaba enfrentando no filme). Mas entendemos toda a atmosfera. Quando surge o território de Kurtz, detrás da neblina, o espectador parece chegar a um espaço habitado pelos povos indígenas, e o cheiro de napalm se mistura com outros.
Atrás das sombras, com a água gotejando da careca, Brando olha para Sheen como Coppola olha para o espectador: por trás de uma possível genialidade, há um vulto precário. Nesse sentido, Coppola metaforiza a guerra do Vietnã como o fracasso de um homem para enfrentar uma guerra e sua busca por aquilo que pode ser capaz de reverter sua expectativa diante do outro. O contraponto não podia ser mais exato do que Willard. Ele viaja para cumprir uma missão. Será que, de fato, ele conseguirá entender esse homem que acaba buscando no material de pesquisa que leva junto consigo? É possível manter uma esperança e uma fidelidade àquilo que se imagina conhecer?

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As respostas não estão dentro do filme, mas em sua moldura. Por mais que surjam novos fotógrafos, é importante lembrar que um dos trunfos de Apocalypse now, para que se conte esta história terrível da guerra, é o italiano Vittorio Storaro, vencedor do Oscar pelo trabalho. Imaginam-se as dificuldades pelas quais a equipe tenha passado, mas não interfere, em nenhum momento, no trabalho brilhante de Storaro, que consegue iluminar e encobrir as cenas com névoa e fumaça da maneira mais adequada – ele consegue destacar filmes como O céu que nos protege e Dick Tracy de forma iniguavável. A fotografia, nesse sentido, é um personagem tão forte quanto os que circulam no filme, sustentando, por exemplo, boa parte da atuação de Brando e mesmo de Sheen, um ator mais introspectivo (para não dizer exatamente limitado, pois deve ter sido uma dificuldade chegar ao fim das filmagens), e que, por isso, é filmado de maneira discreta. No entanto, o mérito dessa escolha é de Coppola, o qual consegue, em seu filme, antecipar o que Oliver Stone e Kubrick fariam tão bem, em Platoon e Nascido para matar, retratando o calor da selva como motivo para a loucura e a transgressão, embora não seja o motivo para que esta guerra seja enfrentada. Para Coppola, a guerra traz a síntese do povo que dela faz parte. É muito difícil, diante dessa verdade, não enlouquecer.

Apocalypse now, EUA, 1979 Diretor: Francis Ford Coppola Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Frederic Forrest, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Albert Hall, Harrison Ford, Dennis Hopper, Scott Glenn, Bo Byers, Linda Carpenter Produção: Francis Ford Coppola Roteiro: Francis Ford Coppola, John Milius, Michael Herr Fotografia: Vittorio Storaro Trilha Sonora: Carmine Coppola, Francis Ford Coppola Duração: 153 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Zoetrope Studios

Cotação 4 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

O retorno de Jedi (1983)

Por André Dick O retorno de Jedi 5 Uma das séries de ficção científica mais conhecidas do cinema, Guerra nas estrelas foi relançada no início de 1997, depois de ser revista pelo diretor, produtor, roteirista e mentor George Lucas. Era formada, até aquele momento, por Guerra nas estrelas (1977), O império contra-ataca (1980) e O retorno de Jedi (1983), respectivamente quarto, quinto e sexto capítulos de uma saga planejada por Lucas para ter três trilogias. Tal relançamento se devia, então, ao fato de Guerra nas estrelas estar comemorando vinte anos e, acima de tudo, pelo fato de Lucas estar planejando os novos capítulos da série (na verdade, o início de uma nova trilogia), intitulados A ameaça fantasma, O ataque dos clones e A vingança do Sith. No entanto, passados todos esses anos, parece que o episódio da primeira trilogia que mais ganha vitalidade é O retorno de Jedi (o famoso capítulo que seria dirigido por David Lynch, que o preteriu em favor de Duna), apesar de ser menos lembrado e muito criticado. 2001 havia cercado o gênero “ficção científica” com uma aura de complexidade. Ao contrário de Stanley Kubrick, George Lucas também queria diversão. Mas diversão inteligente, que soubesse atrair, em escalas iguais, plateias jovens e adultas. Para chegar ao seu objetivo, Lucas mesclou elementos medievais – o caráter heroico e guerreiro de seus personagens do bem – com elementos da de ficção científica – espaçonaves, espadas de luz, armas de raio laser, robôs –, de forma que acabou conquistando não só esses dois públicos como uma legião de fãs, apesar da surpresa inicial (em sessões-teste, Lucas teria visto o primeiro da série ser desaprovado por amigos, com exceção de Spielberg). Em O retorno de Jedi, Lucas apresenta a síntese dessas misturas, por meio da direção de Richard Marquand (O fio da suspeita), com personagens que não são unidimensionais, apesar de aparentarem, e ganham novo ânimo, num roteiro de Lawrence Kasdan (diretor de filmes como O reencontro e O turista acidental), que consegue equilibrar a mitologia de ficção com ensinamentos orientais. O retorno de Jedi 20 O retorno de Jedi 6 O retorno de Jedi 16 Trata-se de um segmento que prefere a diversão à psicologia (fundamental para a série) de O império contra-ataca, amarrando as pontas soltas deixadas por este, sobretudo no que se refere ao triângulo Luke-Leia-Han Solo, mostrando basicamente a mesma história dos anteriores: a Aliança de rebeldes e os companheiros de Luke Skywalker (Mark Hamill) pretendem destruir, de uma vez por todas, o “império do mal” e Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones). Na jornada, Luke e companhia – Princesa Leia (Carrie Fisher) e Lando Calrissian (Billy Dee Williams) – enfrentam o monstruoso Jabba  the Hutt no deserto Tatooine, quando tentam salvar Han Solo (Harrison Ford, desta vez menos aproveitado) e Chewbacca (Peter Mayhew), aprisionados por ele. Esta sequência, impressionante pela grandiosidade dos cenários e da ambientação cavernosa, delineia o contato de George Lucas com o primeiro filme da série e cria uma ponte com o primeiro da segunda trilogia: Tatooine tem todos os perigos que podem se apresentar, e Jabba não é controlado pelos poderes do jedi Luke, nem abre espaço para os robôs R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). Pelo contrário, esses, como a princesa Leia, seminua, tornam-se escravos, servindo apenas à sua tirania, enquanto Han Solo, carbonizado, é apenas um enfeite na sala do trono, que lembra, pela coleção de bizarrices, uma espécie de cabaré espacial. Depois de uma passagem pelo deserto, onde Jabba pretende matar os adversários com requientes de crueldade, Luke vai até Dagobah, reencontrar-se com Yoda, a fim de completar o treinamento, quando se depara com o espírito de Obi Wan-Kenobi (Alec Guiness). Em seguida, na armada contra o império, Luke e seus companheiros se deparam com os ursinhos Ewoks na lua florestal de Endor e partem para atacar a nova Estrela da Morte, ainda sendo construída, desligando seu campo de energia, embora tudo possa ser apenas um plano para atrair Luke e a Millenium Falcon de Han Solo para a destruição. O retorno de Jedi 11 O retorno de Jedi 12 O retorno de Jedi 13 Considerado surpreendentemente o mais fraco da primeira trilogia – com uma “linha narrativa praticamente inexistente”, conforme Vincent Canby, e “exemplo de cinema impessoal”, com “personagens de quadrinhos vagando num pastiche piadístico das lendas arturianas”, para Pauline Kael –, O retorno de Jedi expande o universo de Lucas, lidando com centenas de figuras num espaço curto de tempo (pouco mais de duas horas) e oferece instantes de magia que me parecem ainda atuais, além de trazer uma direção de arte fascinante de Norman Reynolds (indicada ao Oscar), o mesmo de Os caçadores da arca perdida e Império do sol, assim como algumas das melhores trilhas sonoras de John Williams (também nomeada ao prêmio). Não me parece feito exclusivamente para agradar ao público infantojuvenil, mas material raro de ficção científica – desde a ida de Luke a Tatooine, tentando resgatar Han Solo, ao duelo de motos voadoras na floresta. As cenas revistas por George Lucas na edição especial são poucas, mas essenciais: um número musical no palácio de Jabba (brincando com os musicais de Hollywood dos anos 30), o monstro do deserto, mais detalhado. Elas acompanham a batalha derradeira entre a Aliança rebelde (com a presença dos Ewoks, como se fosse o primitivo contra a tecnologia) e o império, além do duelo definitivo entre Vader e Luke, diante do Imperador, naquele que apresenta um dos momentos mais impactantes da série. Os conflitos familiares de Luke, quando precisa enfrentar o pai e contar a verdade a Leia, são trabalhados num plano mais íntimo. No momento em que são capturados pelos ewoks, eles ficam nas árvores, como se concentrassem ali o mundo fabuloso dos outros dois, e a própria base que os forma. Quando C-3PO é confundido como uma espécie de xamã, de curandeiro, pelos ewoks, isso se comprova ainda mais, fazendo com que conte histórias a essas criaturas de Endor. As histórias, numa espécie de metalinguagem, são sobre as aventuras de Luke e companhia, e a recordação, aqui, é colocada como uma espécie de revitalização dos personagens antes do ato derradeiro. Ao mesmo tempo, há humor que não existia em igual quantidade nos demais, estabelecendo uma ligação direta com a série Indiana Jones, parceria entre Lucas e Spielberg do mesmo período, e os ewoks são fundamentais para isso – para alguns, certamente irritantes e uma desculpa para vender bonecos; dentro do filme, curiosamente primitivos. Eles são o vínculo  entre o passado de Luke – Tatooine – e o futuro – depois do império. Conservam as fábulas e os mitos da floresta, antes das espaçonaves, e anunciam uma derrota para o poderio da tecnologia e da força militar do império, com pedras e troncos de árvores, arcos e flechas, e pendurados em cipós ou galhos. O retorno de Jedi 4 O retorno de Jedi 8 O retorno de Jedi 9 Como os personagens da série, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Por isso, os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores, os ensinamentos espirituais de luta, ganham, na trilogia de Lucas, e  definitivamente em O retorno de Jedi, contornos ao mesmo tempo passadistas e futuristas. A maioria dos cenários parece constituído in loco – e não frutos de tecnologias excessivas, que prejudicaram a segunda trilogia de Guerra nas estrelas. Mas Marquand e Lucas conseguem ainda mais: um clímax no qual três sequências de ação ocorrem ao mesmo tempo, o que confere à meia hora final substancialmente um grande momento. Nesse sentido, o conflito de Luke passa a ser enfrentar o seu passado, fazendo com que o filme não reprise Star Wars ou O império contra-ataca, e sim avance significativamente. A figura de Palpatine (Ian McDiarmid), o Imperador, que comanda Darth Vader, é este elo que liga Luke a uma tentativa de reinserir a família na personalidade do pai e com os três primeiros episódios de Star Wars. O passado e o futuro se interligam por meio de sua figura, e é preciso recorrer a Yoda e Obi-Wan para enfrentá-lo, pois Lucas está tratando, acima de tudo, de uma genealogia desses personagens. Isto está bem claro na luta final, quando Luke Skywalker parte realmente para o duelo quando Vader diz que tentará trazer sua irmã, Leia, para o lado negro da força. A câmera de Marquand se aproximando do rosto de Luke embaixo da escada, em meio às sombras, querendo evitar a destruição de Darth Vader, é antológica, assim como a sensação de proximidade e receio quando eles se encontram em Endor. Não há equilíbrio sem que haja o real fato que cerca tudo, explicado depois, embora de modo capenga, pela segunda trilogia. O retorno de Jedi, desse modo, consegue ao mesmo tempo trazer discussões apresentadas em O império contra-ataca, mas com uma leveza que o primeiro da série possuía, com uma linha de efeitos especiais espetaculares, os melhores da série, produzindo um universo que ainda hoje, vinte anos depois, continua a suscitar admiração pela competência com que foi criado. Para alguns, Star Wars pode ser uma mera antecipação da era dos video games e dos bonecos que acompanham fast-foods; para quem consegue ver na série o que ela traz, pode ser uma entrada num universo de grande criatividade.

Return of the Jedi, EUA, 1983 Diretor: Richard Marquand Elenco: Mark Hamill, Alec Guinness, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, Peter Mayhew, David Prowse, Ian McDiarmid Produção: Howard G. Kazanjian, Rick McCallum Roteiro: George Lucas, Lawrence Kasdan Fotografia: Alan Hume Trilha Sonora: John Williams Duração: 133 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Lucasfilm Ltd.

Cotação 5 estrelas