A qualquer custo (2016)

Por André Dick

a-qualquer-custo-5

Há alguns filmes que procuram revitalizar um gênero nos tempos modernos, e A qualquer custo é um dos mais interessantes. Não parece, mas este é um legítimo faroeste. O que mais o aproxima deste gênero é certamente uma história que parece simples apenas na superfície, quando possui muitos detalhes narrativos capazes de mostrar personagens em evolução, com uma complexidade inesperada e por vezes comovente. Aqui, um pai divorciado, Toby Howard (Chris Pine), e seu irmão Tanner (Ben Foster), começam a roubar vários bancos no oeste do Texas. Enquanto Toby parece mais tranquilo, Tanner encarna uma faceta mais raivosa, tentando canalizar o que resolveria dívidas da família. Não se sabe muito bem por que eles agem desta maneira, sem procurar outra opção, mas esta passa a ser uma das qualidades de quem assiste à história.
Dois Texas Rangers, Marcus Hamilton (Jeff Bridges) e Alberto Parker (Gil Birmingham), saem à busca da dupla de assaltantes. De origem indígena, Parker é admirado por Hamilton de maneira que este é um faroeste moderno em que as figuras do homem branco e daquele que perseguiu durante um longo tempo se unem para tentar impedir a escalada de roubo e violência proporcionada por dois irmãos a princípio inofensivos.

a-qualquer-custo-2

a-qualquer-custo-7

a-qualquer-custo-6

Pela amizade entre os rangers, há mesmo uma espécie de admiração no que se refere ao modo como os irmãos se dedicam a seus planos. Não chega a haver nenhum humor excessivo como existia em Arizona nunca mais e Coração selvagem, embora as ameaças aos caixas de banco soem mais do que verossímeis.
A história quase não possui diálogos e ainda assim todos funcionam exemplarmente, com cada cena construída de maneira que reflete na seguinte, sem deixar sobras, uma qualidade da direção de David Mackenzie, nunca dando a entender, por isso, que o filme é simplesmente rápido. A linguagem de cada personagem soa quase como específica, mesmo pertencendo a um lugar mais vasto: o modo como um se dirige ao outro caracteriza também suas ações. Por exemplo, a sequência em que Toby conversa com uma garçonete, Jenny Ann (Katy Mixon, mais conhecida por suas participações em séries de humor, numa bela atuação), antes de praticar um dos assaltos combinados com o irmão, mescla um desejo de fuga desse universo e um ingresso em outro ambiente, que não parece viável, porque, afinal, ele e seu irmão precisam fazer o que estão realizando. E o Texas é visto não como um lugar apenas semiabandonado, como também aquele em que as pessoas entram em ajuste umas com as outras de forma assustadora, ou mesmo entram em estado de negação diante de uma ameaça.

a-qualquer-custo

a-qualquer-custo-3

a-qualquer-custo-12

A qualquer custo dialoga com Terra de ninguém e Onde os fracos não têm vez, com elementos ainda do grande Cianfrance de O lugar onde tudo termina – a agilidade com que são filmados os assaltos –, do setentista Corrida contra o destino e possui um ritmo quase perfeito, com atos bem definidos e ótimas atuações de todo o elenco, principalmente Pine, surpreendentemente numa atuação madura e envelhecida no bom sentido, e Bridges, este claramente revivendo o cowboy grosseiro de Bravura indômita, principalmente quando decide buscar algumas cervejas na geladeira. Ainda assim, Birmingham e Foster não ficam distantes dessas atuações: Foster consegue trabalhar mais ao final um traço de impacto nas ações de seu Tanner.
O roteirista Taylor Sheridan é o mesmo de Sicario e aqui a paisagem é tão deserta quanto no filme de Villeneuve, além do sentimento familiar ser acompanhado de certa melancolia. Esta é uma paisagem em que os poços de petróleo da comunidade não concedem imunidade contra ameaças econômicas externas, e onde os personagens tentam preservar suas famílias longe da violência, a qual, no entanto, jamais evitam em sua jornada. O tema das finanças familiares se estende ao longo de toda a narrativa, sempre acompanhado por uma dúvida: para que existe toda uma riqueza secular numa terra abandonada se ela não reverte para as pessoas da comunidade? Sheridan aproveita o roteiro para criar quase uma sátira ao sistema bancário, sem meios termos nem grandes explicações.

a-qualquer-custo-14

a-qualquer-custo-4

a-qualquer-custo-10

Tudo é mostrado como uma grande sequência longa em que os acontecimentos se passam quase no tempo que concede o filme. Dificilmente há alguma pausa para descanso – o momento em que os acontecimentos são vistos parece ser o mesmo em que foram filmados. Para isso, os personagens de Pine e Bridges contribuem com eficácia, assim como a fotografia exuberante de Giles Nuttgens, embora a direção deixe o terceiro ato se tornar mais plano e o final, de certo modo, soe abrupto em demasia em comparação com o que acontece antes, de maneira tão fluida e intensiva. Talvez seja este o impasse trazido pela obra de Mackenzie: como ele aponta de forma direta o que está criticando, não resta muito espaço para possíveis nuances. Isso, de qualquer modo, não diminui os personagens ou os afasta de uma determinada combinação de fatores que os tornam, inclusive, complexos. As famílias aqui se mostram distantes entre si, mas é o núcleo para o qual esses personagens solitários se voltam no momento-chave. A investigação passa a ser não apenas de quem se saiu melhor num cenário em que os duelos predominam, nem quem conseguiu ganhar mais, e sim quem conseguiu sobreviver ao status de ser, afinal, um solitário.

Hell or high water, EUA, 2016 Diretor: David Mackenzie Elenco: Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges, Gil Birmingham, Katy Mixon Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Giles Nuttgens Trilha Sonora: Nick Cave, Warren Ellis Produção: Julie Yorn, Peter Berg, Sidney Kimmel Duração: 102 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Film 44 / Sidney Kimmel Entertainment

cotacao-4-estrelas

Anúncios

Beleza oculta (2016)

Por André Dick

beleza-oculta-14

Depois de dois sucessos de bilheteria, O diabo veste prada e Marley e eu, o diretor David Frankel se tornou uma espécie de representante daquele nicho que mistura drama e comédia, potencializando essas características em Um divã para dois, com Meryl Streep, Tommy Lee Jones e Steve Carell em ótimas atuações. Talvez por isso ele tenha desapontado tanto a crítica em geral quando resolveu ingressar no drama em Beleza oculta, visto em geral como um filme que desperdiça seu grande elenco.
A história de Beleza oculta apresenta um publicitário, Howard Inlet (Will Smith), em dificuldades pessoais depois de perder a sua filha ainda criança. Seus parceiros Whit Yardshaw (Edward Norton), Claire Wilson (Kate Winslet) e Simon Scott (Michael Peña) não se preocupam apenas com Howard, mas com o destino da agência onde trabalham, na qual ele só aparece para montar dominós em escala gigante. Os três decidem contratar uma detetive particular, Sally Price (Ann Dowd), para colher provas de que Howard está mentalmente desequilibrado.
A investigadora descobre que ele escreve cartas para o Amor, o Tempo e a Morte, conceitos com que lidava na agência durante seu período mais tranquilo. Então, seus colegas contratam três atores – Raffi (Jacob Latimore), Brigitte (Helen Mirren) e Amy (Keira Knightley) – para atuarem como Tempo, Morte e Amor, respectivamente. Amy está especialmente em dúvida se seguirá o que estão solicitando, mas é Brigitte que toma a dianteira para tentar provar que, além do dinheiro a ser recebido, este pode ser um real trabalho de interpretação.

beleza-oculta-16

beleza-oculta-5

beleza-oculta-3

Whit, Claire e Simon também enfrentam seus problemas pessoais: Whit quer estabelecer uma ligação com sua filha Allison Yardshaw (Kylie Rogers), Simon tem um segredo sobre sua vida; e Claire está atrás de doadores para que possa engravidar. Enquanto isso, Howard não sabe se frequenta um grupo de apoio, em que Madeleine (Naomie Harris) é a organizadora. Ele simplesmente não consegue dizer o nome da filha nem elaborar o que aconteceu a ela com os amigos. Frankel coloca os três colegas de Howard dando conselhos aos atores para que possam interpretar seus papéis de maneira convincente. Mais do que Howard, é eles, por outro lado, que necessitam dos conselhos do Tempo, do Amor e da Morte – e nisso o filme se justifica, colocando-os em diferentes situações.
São justamente esses personagens que gostariam que sua vida fosse transportada para o teatro, a fim de que não precisassem enfrentar a realidade, que inclui a depressão de Howard. Todos, de certa maneira, enfrentam o luto em suas vidas de algum sonho não realizado, e a agência de publicidade se projeta como o símbolo disso. Você vai ver Kenneth Lonergan trabalhar isso de maneira crua em Manchester à beira-mar; aqui, o tratamento é claramente apelando para a fuga da realidade.

beleza-oculta-7

beleza-oculta-12

beleza-oculta-6

Esta é uma história claramente implausível, feita em cima de conceitos sobre a vida, mas Frankel não deixa de colocar um interesse em cada ação dos personagens e faz atingir um sentido de grandeza em muitos momentos. Assim como em seus outros filmes, ele sabe construir uma atmosfera, e em Beleza oculta o pano de fundo é a época natalina, uma época justamente em que vêm à tona lembranças familiares mais do que em outros períodos. Os seus personagens interagem com esse ambiente: por exemplo, mesmo enfrentando essa fase difícil em sua vida, Howard tenta se reanimar pedalando por Nova York, na contramão de carros ou sobre pontes. Registrada pela fotografia excelente de Maryse Alberti (responsável por dois ótimos trabalhos, em Creed e A visita), a atmosfera contrasta com os sentimentos dele, que não consegue nunca ser colocados à prova. Pode-se dizer, por um lado, que ele é discreto ao revelar sentimentos dos personagens, mas, ao mesmo tempo, contundente: sobretudo quando coloca Helen Mirren na figura da Morte.
De qualquer modo, é Will Smith, do elenco, que apresenta a melhor atuação, como em Esquadrão suicida: apesar de seu personagem ter alguns comportamentos estranhos, o ator estabelece um padrão interpretativo que lembra seus melhores momentos em Ali. Pode-se sentir a angústia de Howard por causa de Smith, mas num nível mais extremo daquele que vemos em À procura da felicidade e mais efetivo do que em Um homem entre gigantes, quando tentava emular um sotaque etíope e muitas vezes não dava certo. Ele não seria também individualista e egoísta vendo seus amigos numa situação complicada? Smith trabalha essa faceta muito bem. Não muito longe, fica Naomie Harris, de Moonlight, no papel da delicada Madeleine.

beleza-oculta-2

beleza-oculta-11

beleza-oculta-9

Apesar do tom francamente dramático, não escapa à narrativa certo senso de humor, por exemplo na conversa de elevador que Whit procura ter com ele ou naquele momento em que Howard quer desvencilhar do Tempo, e Jacob Latimore aparece para importuná-lo. Helen Mirren tem uma atuação também comovente como a atriz que interpreta a Morte, embora Knightley e Norton sejam especialmente subaproveitados numa ligação cuja intensidade fica subentendida e logo é deixada de lado por Frankel e pelo roteiro.
Em alguns momentos, Beleza oculta evoca Simplesmente amor, pela ligação entre os personagens, mas sua proximidade é maior de filmes de James L. Brooks, principalmente Como você sabe, principalmente pelos cenários nova-iorquinos. E, claro, não é isento de falhas: em algumas resoluções simplistas, na tendência, algumas vezes, a querer que o espectador se comova, independente do que está assistindo. Ainda assim, ele possui uma humanidade interessante e particularmente tocante, mais do que outros projetos que se alimentam dessa ideia. Não é mais tão comum mais obras que tratam da sensibilidade em relação aos outros e das oportunidades que surgem e devem ser seguidas: Beleza oculta é uma delas.

Collateral beauty, EUA, 2016 Diretor: David Frankel Elenco: Will Smith, Edward Norton, Helen Mirren, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Kate Winslet, Jacob Latimore, Ann Dowd Roteiro: Allan Loeb Fotografia: Maryse Alberti Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Allan Loeb, Anthony Bregman, Bard Dorros, Kevin Scott Frakes Duração: 97 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Anonymous Content / Likely Story / Overbrook Entertainment / PalmStar Media / Village Roadshow Pictures

cotacao-4-estrelas

Até o último homem (2016)

Por André Dick

ate-o-ultimo-homem-12

Depois de 10 anos ausente da direção, ou seja, desde o impactante Apocalypto, Mel Gibson regressa ao posto com este filme de guerra. Para um astro que recebeu o Oscar de diretor em sua segunda obra, Coração valente, ter quase desaparecido do meio cinematográfico, cercado de polêmicas, não deve ter sido exatamente fácil. E esta volta surge com um filme bem orçado em 40 milhões que vem conseguindo uma bilheteria boa para seus padrões de exigência e êxito em indicações a prêmios importantes, como o Oscar.
Em Até o último homem, ele mostra a trajetória de Desmond Doss (Andrew Garfield), que cresce em Lynchburh, Virginia, e se torna seguidor do Antigo Testamento após passar por algumas experiências em família. Doss salva um homem ferido e, no hospital, acaba se apaixonando por Dorothy Schutte (Teresa Palmer). No entanto, assim como seu irmão, Hal (Nathaniel Buzolic), ele se alista para Segunda Guerra Mundial. A memória que ele tem do irmão é talvez a parte mais comovente da história, principalmente quando lembra dos passeios pelas montanhas da região. Isso vai contra seu pai, Tom (Hugo Weaving, excelente), um veterano da Primeira Guerra Mundial, ainda atormentado, enquanto sua mãe Bertha (Rachel Griffiths) apenas não quer se envolver em conflitos.

ate-o-ultimo-homem-3

ate-o-ultimo-homem-2

ate-o-ultimo-homem

Doss, porém, deseja atuar como médico na guerra. Indo para o treinamento, ele conhece o sargento Howell (Vince Vaughn) e o Capitão Glover (Sam Worthington), que não conseguem convencê-lo a treinar com armas como os demais de seu pelotão. Este é o mote para Mel Gibson mostrá-lo como um homem que resiste às intempéries. Esta parte do treinamento lembra bastante Nascido para matar, com Vince Vaugh atuando bem como uma espécie de R. Lee Ermey, mas é Teresa Palmer, como o interesse amoroso do personagem central, que é o elo de ligação dele com a possível volta da guerra e o faz com a tranquilidade que ela exibe em obras como Cavaleiro de copas e Quando as luzes se apagam. Todos esses personagens que cercam Desmond parecem falar mais dele do que de si próprios: eles querem ou aceitar a maneira do jovem agir, no caso de sua namorada, ou modificar os seus conceitos sobre a vida. Ele não é simplesmente um deslocado, como Mel Gibson gostaria de interpretar, a exemplo de personagens de sua carreira, como Martin Riggs ou Mad Max, e sim alguém pronto para provar que sua visão sobre a vida deve ser respeitada. Andrew Garfield, depois de uma trajetória exitosa iniciada principalmente a partir de A rede social, já interpretou o Homem-Aranha em um momento irregular do personagem e aqui apresenta a melhor atuação que teve até hoje, superior àquela que apresenta em Silêncio.

ate-o-ultimo-homem-16

ate-o-ultimo-homem-14

ate-o-ultimo-homem-5

Gibson, quando parte para a guerra, não evita mostrar uma sequência de batalhas espetaculares, feitas com raro esmero técnico que ele sempre mostrou como diretor, auxiliado pela fotografia excepcional de Simon Duggan. Se havia uma faceta espetacular na maneira como Spielberg fez toda a sequência de abertura de O resgate do soldado Ryan, pode-se dizer que Gibson a potencializa em Até o último homem. As imagens do filme são terrivelmente fortes em certos momentos, mostrando literalmente a barbárie de uma guerra. O roteiro de Andrew Knight e Robert Schenkkan não chega a aproveitar totalmente seu potencial, principalmente na segunda metade e quando há alguns flashbacks, mas Garfield supera tudo com um desempenho extraordinário. Seu personagem passa por um sofrimento físico que Gibson mostrou em A paixão de Cristo e em Apocalypto, além de, claro, em Coração valente. E por trás há o fundo religioso e a tentativa de o personagem realmente enfrentar a guerra sem fazer nenhum disparo com armas, apenas auxiliando os colegas a enfrentarem a dor no campo de batalha. Ele também sofre a desconfiança de alguns colegas de companhia, a começar por Smitty (Luke Bracey), previsivelmente desrespeitoso, e tenta resistir até o limite diante da convicção que o move. Quando o cenário de guerra se expande a seu redor, pode-se ver que Gibson procura não a lentidão sóbria de um Cartas a Iwo Jima, de Clint Eastwood, e sim uma certa adrenalina, como se o espectador estivesse em meio ao combate.

ate-o-ultimo-homem-4

ate-o-ultimo-homem-3

ate-o-ultimo-homem-15

Existe algo em Até o último homem que evoca Overlord, filme dos anos 70 sobre um jovem que ia para a guerra e conhecia uma moça durante ela, e Invencível, experimento de Angelina Jolie subestimado. Na sua primeira parte, é visível a tendência de Mel Gibson em querer equivaler a narrativa que apresenta com alguns clássicos de guerra dos anos 50, quando mostra a relação entre os irmãos caminhando juntos pelas montanhas Blue Ridge em 1929, de uma família prestes a aceitar os dois filhos na guerra. Temos também, ao mesmo tempo, uma história quase paradoxal: nunca uma mensagem pacifista foi registrada com tantos recursos de violência e impacto visual sobressalente. Pode-se, em alguns instantes, na reprodução seca, lembrando quase um estilo documental, o excepcional Além da linha vermelha, de Malick. Contudo, Até o último homem segue linhas básicas de direção, evocando relações num tempo conturbado e às vezes parece ter uma mensagem muito objetiva. No entanto, é por meio dela que Gibson eleva seu material a um patamar de grandiosidade histórica.

Hacksaw ridge, EUA/AUS, 2016 Diretor: Mel Gibson Elenco: Andrew Garfield, Hugo Weaving, Vince Vaughn, Sam Worthington, Rachel Griffiths, Teresa Palmer, Luke Bracey Roteiro: Andrew Knight, Robert Schenkkan Fotografia: Simon Duggan Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams Produção: Bill Mechanic, Brian Oliver, Bruce Davey, David Permut, Paul Currie, Terry Benedict, William D. Johnson Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Argent Pictures / Cross Creek Pictures / Demarest Media / Hacksaw Ridge Production / Icon Productions / Pandemonium / Permut Presentations / Vendian Entertainment

cotacao-4-estrelas

Indicados ao Oscar 2017

Por André Dick

indicados-oscar-2017

Em outubro de 2016, fiz um texto sobre 10 possíveis candidatos ao Oscar de melhor filme:

oscar-2017

Dos que apontei, apenas três chegaram às indicações de melhor filme: A chegada, La La Land e Manchester à beira-mar. Nas alternativas, eu colocava Moonlight, Até o último homem Fences/Um limite entre nós. Não cogitei Lion, Estrelas além do tempo e A qualquer custo, que à época, no entanto, já apareciam entre as possibilidades em algumas listas. Desses que apontei, alguns chegaram em categorias principais (como de atriz), no caso de Jackie, ou (de ator coadjuvante) Animais noturnos. No entanto, não se imaginava que o filme de Scorsese fosse recepcionado com tanta frieza, assim como o de Ben Affleck fosse um desastre de crítica. E O nascimento de uma nação prejudicado pelas acusações a seu diretor. Já Fome de poder, com Michael Keaton, simplesmente não aconteceu. Algumas horas antes de os indicados ao Oscar serem revelados, já baseado em premiações e listas mais recentes, apostei nos seguintes:

twitter-oscar

Gosto mais da seleção deste ano do que a do ano passado. Há dois filmes excelentes, La La Land e Moonlight, dois ótimos (Manchester à beira-mar e Lion), dois muito bons (Até o último homem e A qualquer custo), dois particularmente sustentados por grandes atuações (Um limite entre nós, Estrelas além do tempo) e uma ficção científica interessante e que melhorou em duas revisões que fiz (A chegada) em relação à primeira vez. Novamente a Academia não atinge 10 concorrentes. Numa décima vaga, poderiam ter lembrado de Silêncio, JackieA lei da noiteLoving, Elle, Florence – Quem é essa mulher?, PatersonA longa caminhada de Billy LynnAnimais noturnos e vários outros sequer cotados, a exemplo de Ave, César!, Cavaleiro de copasA criada, A luz entre oceanos, Jovens, loucos e mais rebeldes!!Wiener-dogDocinho da América, Beleza ocultaMais forte que bombas, Dois caras legais, A garota no trem, Café Society e Demônio de neon.

la-la-land-6

Melhor filme

A chegada
Até o último homem
Estrelas além do tempo
Lion – Uma jornada para casa
Moonlight – Sob a luz do luar
Um limite entre nós
A qualquer custo
La La Land – Cantando estações
Manchester à beira-mar

Dos indicados, a disputa vai ficar, ao que tudo indica, entre La La Land, Moonlight e Até o último homem. A qualquer custo é uma surpresa desde suas primeiras indicações, um faroeste nos dias atuais, enquanto Um limite entre nós é uma adaptação aprovada pela Broadway, e Lion e Manchester à beira-mar sobre a solidão humana e conflitos que se estendem por gerações. Com um tema interessantíssimo, Estrelas além do tempo é outra surpresa e mostra um trabalho notável de elenco. E A chegada mostra que o gênero de ficção científica está sendo visto com mais atenção pela Academia, depois das indicações principais a Gravidade e Perdido em Marte.

estrelas-alem-do-tempo

Melhor diretor

Denis Villeneuve, por A chegada
Mel Gibson, por Até o último homem
Damien Chazelle, por La La Land – Cantando estações
Kenneth Lonergan, por Manchester à beira-mar
Barry Jenkins, por Moonlight – Sob a luz do luar

Dos indicados, o grande favorito é Damien Chazelle, logo em seu terceiro filme. Para Gibson, a indicação já soa como um prêmio, depois de tantas polêmicas, levando em conta que ele já ganhou com Coração valente. Villeneuve tem sua primeira indicação, numa carreira que já possui várias obras, e neste ano continuará com Blade Runner 2049. Jenkins está em seu segundo filme e já recebe uma indicação importante, e Lonergan comprova sua trajetória de cineasta independente bem-sucedida. Acredito que poderiam ter lembrado de Paul Verhoeven (Elle), Clint Eastwood (Sully), Martin Scorsese (Silêncio), Pablo Larraín (Jackie), Ben Affleck (A lei da noite) e Jeff Nichols (Loving).

ate-o-ultimo-homem-16

Melhor ator

Casey Affleck, por Manchester à beira-mar
Andrew Garfield, por Até o último homem
Ryan Gosling, por La La Land – Cantando estações
Viggo Mortensen, por Capitão Fantástico
Denzel Washington, por Um limite entre nós

Uma categoria difícil. De todas, a de Garfield me parece ligeiramente superior. É seu melhor momento. Gosling faz com competência Sebastian, o pianista de jazz, e Washington alterna excelentes momentos com outros cansativos em Um limite entre nós. A indicação de Mortensen não me pareceu justa, mas ele está bem em Capitão Fantástico. O favorito Casey Affleck está muito bem em Manchester à beira-mar. Dos esquecidos, aprecio em especial as atuações de Tom Hanks em Sully; Jake Gyllenhaal em Animais noturnos; Shia LaBeouf em Docinho da América; Joel Edgerton em Loving; Joe Alwyn, em A longa caminhada de Billy Lynn; Logan Lerman em Indignação; Ben Affleck em A lei da noite; Will Smith em Beleza oculta; Adam Driver em Paterson; e Hugh Grant em Florence – Quem é essa mulher? (embora ele estivesse cotado para coadjuvante, ele é ator principal).

loving

Melhor atriz

Isabelle Huppert, por Elle
Ruth Negga, por Loving
Natalie Portman, por Jackie
Emma Stone, por La La Land – Cantando estações
Meryl Streep, por Florence – Quem é essa mulher?

Depois do Globo de Ouro, Isabelle Huppert tem chances por Elle, embora a Academia deva privilegiar Emma Stone, que também está ótima em La La Land, mesmo que não à altura da atriz francesa. Streep e Negga são indicadas com justiça. A atuação de Ruth Negga, particularmente, é sublime, num filme que poderia ter sido mais lembrado. Vencedora em Cisne negro, Porter surge como uma opção interessante no papel da esposa de JFK, numa atuação notável. Amy Adams foi negligenciada por Animais noturnos e A chegada e Sasha Lane poderia ter sido lembrada por Docinho da América, além de Emily Blunt, extraordinária em A garota no trem, Blake Lively, esquecida nas premiações por Águas rasas, e Alicia Vikander, comovente em A luz entre oceanos.

a-qualquer-custo-3

Melhor ator coadjuvante

Mahershala Ali, por Moonlight – Sob a luz do luar
Jeff Bridges, por A qualquer custo
Lucas Hedges, por Manchester à beira-mar
Dev Patel, por Lion – Uma jornada para casa
Michael Shannon, por Animais noturnos

Ali, Bridges e Shannon estão ótimos. É difícil ver quem está melhor como coadjuvante em A qualquer custo, que conta ainda com uma ótima atuação de Ben Foster. Desses, se fosse escolher, seria a atuação espetacular de Shannon. Lembre-se que Aaron Taylor Johnson, seu parceiro de cena, sequer foi lembrado depois de vencer o Globo de Ouro da categoria. De qualquer modo, Ali também aparece bem em Estrelas além do tempo, e é apontado como o favorito. Dev Patel confirma seu nome, já reconhecido desde Quem quer ser um milionário?, e está emocionante em Lion. Luke Hedges aparece bem em Manchester à beira-mar, contudo não saberia se comporta uma indicação. E como não lembrar do elenco coadjuvante de Um limite entre nós? Todos estão brilhantes em cena: Jovan Adepo, Russell Hornsby, Stephen McKinley Henderson e Mykelti Williamson. E de Garrett Hedlund em A longa caminhada de Billy Lynn? Ou de Armie Hammer em O nascimento de uma nação? Jonah Hill também está ótimo em Cães de guerra, assim como Adam Driver em Silêncio, Peter Sarsgaard em Jackie e Chris Messina em A lei da noite.

fences

Melhor atriz coadjuvante

Viola Davis, por Um limite entre nós
Naomie Haris, por Moonlight – Sob a luz do luar
Nicole Kidman, por Lion – Uma jornada para casa
Octavia Spencer, por Estrelas além do tempo
Michelle Williams, por Manchester à beira-mar

Viola Davis está irretocável em Um limite entre nós, mas Naomie Harris e Octavia Spencer (vencedora nessa categoria por Histórias cruzadas) não ficam muito atrás. Harris também está excelente em Beleza oculta. Nicole Kidman volta à premiação depois de alguns anos por uma bela atuação em Lion, assim como a subestimada Michelle Williams, que já teve atuações notáveis, em Wendy e Lucy, por exemplo, e faz uma participação em Manchester à beira-mar. Rachel Weisz foi esquecida por sua bela atuação em A luz entre oceanos e Haley Bennett por A garota no trem. Também aprecio a atuação de Helen Mirren no menosprezado Beleza oculta.

manchester-a-beira-mar

Melhor roteiro original

Taylor Sheridan, por A qualquer custo
Damien Chazelle, por La La Land – Cantando estações
Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou, por O lagosta
Kenneth Lonergan, por Manchester à beira-mar
Mike Mills, por 20th century woman

Interessante a lembrança ao roteiro original de O lagosta, um filme estranho, com atuações mais ainda. A qualquer custo tem bom roteiro, assim como La La Land e Manchester à beira-mar20th century woman tinha algumas possibilidades pelo elenco (Annete Bening, Greta Gerwig, Elle Fanning), mas sua única indicação saiu aqui. Gostaria muito que tivessem lembrado dos roteiros de Docinho da AméricaPaterson, Mais forte que bombas e Wiener-dog.

moonlight-5

Melhor roteiro adaptado

Eric Heisserer, por A chegada
August Wilson, por Um limite entre nós
Allison Schroeder e Theodore Melfi, por Estrelas além do tempo
Luke Davis, por Lion – Uma jornada para casa
Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney, por Moonlight – Sob a luz do luar

Uma categoria acirrada, em que Moonlight parece ser o destaque, embora a adaptação da peça teatral de Um limite entre nós conte pontos e a de A chegada tenha vários elogios. Gosto do roteiro de Estrelas além do tempo, contudo há alguns personagens que não desenvolve tão bem, como o de Jim Parsons. Lamentável o esquecimento de Silêncio nesta categoria. Também Cães de guerra, A lei da noite e A garota no trem mostram bons trabalhos de adaptação.

zootopia

Melhor animação

Kubo e as cordas mágicas
Moana – Um mar de aventuras
Minha vida de abobrinha
The red turtle
Zootopia – Essa cidade é o bicho

Infelizmente, não assisti a todos. Zootopia, no entanto, é um dos meus favoritos do ano passado.

toni-erdmann

Melhor longa estrangeiro

Terra de minas (Dinamarca)
Um homem chamado Ove (Suécia)
O apartamento (Irã)
Tanna (Austrália)
Toni Erdmann (Alemanha)

Aqui o superestimado Toni Erdmann é favorito (Agnes e Um holograma para o rei seriam filmes que representariam melhor a Alemanha). O apartamento é de Ashgar Farhadi, que recebeu o Oscar por A separação. Deveria estar obviamente nessa lista Elle, eliminado já entre os 9 pré-finalistas.

Melhor documentário em curta-metragem

Extremis
4.1 Miles
Joe’s Violin
Watani – My homeland
Os capacetes brancos

Melhor documentário em longa-metragem

Fogo no mar
Eu não sou seu negro
Life, animated
O.J. – Made in America
13ª emenda

documentario-duvernay

Melhor curta-metragem

Ennemis intérieurs
La femme et le TGV
Silent nights
Sing
Timecode

Melhor curta em animação

Blind Vaysha
Borrewed time
Pear cider and cigarettes
Pearl
Piper

silencio-9

Melhor fotografia

Bradford Young, por A chegada
Linus Sandgren, por La La Land – Cantando estações
Greig Fraser, por Lion – Uma jornada para casa
James Laxton, por Moonlight – Sob a luz do luar
Rodrigo Prieto, por Silêncio

lion

Melhor trilha sonora

Mica Levi, por Jackie
Justin Hurwitz, por La La Land – Cantando estações
Dustin O’Halloran e Hauschka, por Lion – Uma jornada para casa
Nicholas Britell, por Moonlight – Sob a luz do luar
Thomas Newman, por Passageiros

moana

Melhor canção original

“Audition (The Fools Who Dream)”, música de Justin Hurwitz, canção de Benj Pasek e Justin Paul, por La La Land – Cantando estações
“Can’t Stop the Feeling”, música e canção de Justin Timberlake, Max Martin e Karl Johan Schuster, por Trolls
“City of Stars”, música de Justin Hurwitz, canção de Benj Pasek e Justin Paul, por La La Land – Cantando estações
“The Empty Chair”, música e canção de J. Ralph e Sting, por  Jim: The James Foley Story
“How Far I’ll Go”, Música e canção de Lin-Manuel Miranda, por Moana – Um mar de aventuras

la-la-land-4

Melhor edição

Joe Walker, por A chegada
John Gilbert, por Até o último homem
Jake Roberts, por A qualquer custo
Tom Cross, por La La Land – Cantando estações
Nat Sanders e Joi McMillon, por Moonlight – Sob a luz do luar

animais-fantasticos-e-onde-habitam-14

Melhor figurino

Joanna Johnston, por Aliados
Colleen Atwood, por Animais fantásticos e onde habitam
Consolata Boyle, por Florence – Quem é essa mulher?
Madeline Fontaine, por Jackie
Mary Zophres, por La La Land – Cantando estações

passageiros-5

Melhor design de produção

Patrice Vermette (design de produção) e Paul Hotte (decoração de set), por A chegada
Stuart Craig (design de produção) e Anna Pinnock (decoração de set), por Animais fantásticos e onde habitam
Jess Gonchor (design de produção) e Nancy Haigh (decoração de set), por Ave, César!
David Wasco (design de produção) e Sandy Reynolds-Wasco (decoração de set), por La La Land – Cantando estações
Guy Hendrix Dyas (design de produção) e Gene Serdena (decoração de set), por Passageiros

esquadrao-suicida-26

Melhor maquiagem e cabelo

Eva Von Bahr e Love Larson, por Um homem chamado Ove
Joel Harlow e Richard Alonzo, por Star Trek – Sem fronteiras
Alessandro Bertolazzi, Giorgio Gregorini e Christopher Nelson, por Esquadrão suicida

a-chegada-9

Melhor mixagem de som

Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye, por A chegada
Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mckenzie e Peter Grace, por Até o último homem
Andy Nelson, Ai-Ling Lee e Steve A. Morrow, por La La Land – Cantando estações
David Parker, Christopher Scarabosio e Stuart Wilson, por Rogue One – Uma história Star Wars
Greg P. Russell, Gary Summers, Jeffrey J. Haboush e Mac Ruth, por 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi

sully-14

Melhor edição de som

Sylvain Bellemare, por A chegada
Wylie Stateman e Renée Tondelli, por Horizonte profundo – Desastre no Golfo
Robert Mackenzie e Andy Wright, por Até o último homem
Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan, por La La Land – Cantando estações
Alan Robert Murray e Bub Asman, por Sully – O herói do Rio Hudson

mogli-22

Melhores efeitos visuais

Craig Hammack, Jason Snell, Jason Billington e Burt Dalton, por Horizonte profundo – Desastre no Golfo
Stephane Ceretti, Richard Bluff, Vincent Cirelli e Paul Corbould, por Doutor Estranho
Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones e Dan Lemmon, por Mogli – O menino lobo
Steve Emerson, Oliver Jones, Brian McLean e Brad Schiff, por Kubo e as cordas mágicas
John Knoll, Mohen Leo, Hal Hickel e Neil Corbould, por Rogue One – Uma história Star Wars

Nas categorias técnicas, La La Land é o principal destaque, seguido por A chegada. Merecidas as indicações de Animais fantásticos e onde habitam e Rogue One. Surpreendentes as indicações de Passageiros, embora seu design de produção e trilha sonora sejam realmente bons. Ave, César! e Aliados têm lembranças isoladas e poderiam também estar em mais categorias, sobretudo o filme dos irmãos Coen. Mas se ressente mesmo, nessas categorias, da presença de A criada, em fotografia, design de produção e figurino, por exemplo; e de Silêncio em design de produção e figurino. E Emmanuel Lubezki, vencedor do Oscar três anos seguidos, não é lembrado por seus trabalhos com Malick, este ano Cavaleiro de copasAlice através do espelho também tinha uma parte técnica espetacular, completamente esquecida. E A lei da noite, de Ben Affleck tem uma reconstituição de época notável, mas as críticas pesaram. Por sua vez, Café Society, de Allen, é tecnicamente talvez seu filme mais belo, além de contar com boas atuações de Jesse Eisenberg, Kristen Stewart e Blake Lively.

A cerimônia de entrega acontece em 26 de fevereiro.

La La Land – Cantando estações (2016)

Por André Dick

la-la-land-9

Há dois anos, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar de melhor filme, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, vem com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, La La Land traz uma história que pode ser considerada romântica em seu limite.
A jovem Mia Dolan (Emma Stone) se encontra numa estrada congestionada de Los Angeles quando as pessoas saem de seus carros e se põem a cantar “Another day of sun”, num número musical realmente notável e que Chazelle filma praticamente sem cortes. Ela trabalha como barista no café da Warner Bros e deseja ser atriz, sempre participando de audições. Por sua vez, preso no mesmo engarrafamento, está Sebastian Wilder (Ryan Gosling), um dedicado pianista de jazz, que não consegue se manter com tranquilidade e isso provoca conflitos com sua irmã Laura (Rosemarie DeWitt). No restaurante onde toca, seu chefe, Bill (JK Simmons), diz que ele não deve tocar jazz, apenas canções de Natal. Por sua vez, Mia está preocupada com seu futuro, pois as audições não estão dando certo, enquanto convive com três colegas de apartamento (Callie Hernandez, Jessica Rothe e Sonoya Mizuno), e ainda assim se motiva a ir a uma festa.

la-la-land-22

la-la-land-30

la-la-land-7

Este início de La La Land é acelerado, pois encadeia dois números musicais quase seguidos em que há um trabalho de cores nos figurinos e luzes, mas também um estilo que não se localiza no restante da narrativa que apresenta. Alguns apontam justamente que há uma queda onde, na realidade, La La Land ingressa em seu verdadeiro tributo à maneira como se enxerga a arte e a vida. La La Land não tenta ser espetacular em termos de figurinos e design de produção como Moulin Rouge, Chicago ou Os miseráveis, para citar três musicais recentes: ele utiliza a música para tratar de relações.
Depois de Mia encontrar Sebastian pela terceira vez – a segunda evoca Mesmo se nada der certo –, tocando músicas dos anos 80 numa mansão de Hollywood, ambos passam a se aproximar e, graças a Emma Stone e Ryan Gosling, o filme adquire uma carga não apenas romântica como também nostálgica e cortante. Por um momento, temos a Stone de A mentira e o Gosling de Dois caras legais: ambos já formaram casais no ótimo Amor a toda prova e no irregular Caça aos gângsteres, e Chazelle sabia claramente que tinham uma química evidente de atuação. Eles não precisam de muitos diálogos para desenhar o arco de seus personagens e é isso que La La Land revela à medida que a relação entre os dois é trabalhada. Sebastian tenta criar em Mia um interesse pelo jazz (ela não aprecia este gênero musical) e tem o sonho de criar um clube, o que já era tema em Whiplash, mas aqui pode soar, para alguns, um tanto facilitado. Mais do que personagens, são símbolos e, por causa das atuações, eles se transformam em figuras críveis.

la-la-land-16

la-la-land-21

la-la-land-18

La La Land talvez não tenha nada de muito novo a falar sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tem muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia e Sebastian são figuras que, como aparecem no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividem entre o que pretendem ser e o que se mostra realmente viável. Isso confere ao filme uma camada que Chazelle torna encantadora pela maneira como a revela, aos poucos. Não há nada de novo nesse romance; o novo se concentra justamente na maneira como essa mensagem de busca pelo sonho é passada.
Quando Sebastian encontra um colega de escola, Keith (John Legend), Chazelle não descarta o que vinha mostrando. Sebastian não é apenas pianista como Ray, de O fundo do coração, que podia conceder os sonhos à personagem central do filme de Coppola; é também uma espécie de tributo ao personagem que James Dean faz em Juventude transviada, cuja noite de sonhos visualiza uma vida realmente tranquila, sem os conflitos em que é inserido às vezes à força, além daquela referência de local, que é o Griffith Observatory, numa sequência que evoca outro filme com Stone, Magia ao luar, de Woody Allen.

la-la-land-19

la-la-land-17

la-la-land-28

Não por acaso, Chazelle situa esse clássico como o ponto de encontro entre Sebastian e Mia: esses são personagens que não vivem longe de seus sonhos. Chazelle, porém, não é condescendente e, mais do que O fundo do coração, de Coppola, inspiração clara para muitas cenas (e mesmo nos postes de luz das ruas), e muito mais do que o cinema francês de Jacques Demy – presente nas cores de alguns figurinos –, ele traz a lembrança do cortante New York, New York, de Scorsese, que mostrava uma relação conturbada entre um músico feito por De Niro e uma cantora feita por Liza Minelli e os conflitos entre ambos na busca pelo sucesso. Chazelle não transforma esses personagens em figuras apenas ligadas pelo sonho – e sim como símbolos capazes de representar a solidão de Los Angeles, em que o sol não brilha para todos, na carreira, mas os sonhos definitivamente podem brilhar. Isso já aparecia em seu filme de estreia, Guy and Madeline on a park beach, no qual um jovem admirador de jazz se encontrava entre idas e vindas com uma jovem, marcado pelo estilo nouvelle vague de Godard, a começar por sua fotografia em preto e branco. Em La La Land, o diretor pergunta constantemente: nos sonhos realizados há perfeição e não existe a melancolia que se almeja não ter em nenhum momento?
Stone e Gosling não são exímios cantores (embora não cheguem nunca a desafinar, como Crowe em Os miseráveis), mas cantam bem e é isso que ajuda o tornar o filme tão próximo do espectador: estamos diante de pessoas reais e que podem se mostrar mais pelo que não transparecem aos outros. Os números musicais são bem feitos, embora nenhum tão encantador quando um em que Stone e Gosling trocam passos de dança e ele usa o sapateado numa das colinas de Hollywood, com as luzes de Los Angeles ao fundo – que remete imediatamente a Las Vegas de O fundo do coração, de Coppola. Nesses números, Chazelle desenha a aproximação entre os personagens, que se concretiza nos gestos e olhares trocados entre os personagens.

la-la-land-20

la-la-land-29

la-la-land-10

São justamente por meio desses gestos, que Chazelle colheu principalmente de Amor a toda prova, em que o casal atuou junto pela primeira vez e de maneira excepcional, que La La Land caminha para ser um triunfo não musical, mas de reflexão sobre os momentos em que os indivíduos estão afastados do palco e dos holofotes. Ele não grava os sonhos majestosos como algo que confere uma alegria adicional ao ser humano, e sim os pequenos gestos e os sonhos mais íntimos, compartilhados apenas com uma determinada pessoa. Mesmo que Mia viva com três amigas pretendentes a atriz, e Sebastian seja um pianista de clubes, eles dificilmente são vistos em interação com outros: a cidade se reduz a eles, porque ambos são símbolos de Los Angeles. Tanto parece ser isso que, quando o filme se move para a autodescoberta dos personagens, a noite se esvai um pouco e aparece o dia sem retoques fotográficos do trabalho impecável de Linus Sandgren, habitual colaborador de David O. Russell. Por isso, de forma até paradoxal, o filme funciona mais como um drama e romance do que exatamente como um musical: quem espera grandes coreografias ou canções intermitentes vai se deparar com um filme que praticamente não pertence a nenhum gênero, sendo essa uma de suas qualidades.
Nesse sentido, Chazelle considera que, para que se possa viver um sonho, não necessariamente deva ser desfeita alguma glória passada. Para ele, os números musicais e as relações românticas são o próprio cinema e o que se vê na tela e fora dela: é quando La La Land aproxima a todos, como um grande número musical, mas longe de tudo, apenas sob um facho de estrelas ou se vendo a cidade cintilante do alto de uma colina à noite. É emocionante e arrebatador.

La La Land, EUA, 2016 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, JK Simmons, John Legend, Rosemarie DeWitt Roteiro: Damien Chazelle Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt Duração: 127 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Black Label Media / Gilbert Films / Impostor Pictures / Marc Platt Productions

cotacao-5-estrelas

A criada (2016)

Por André Dick

a-criada

O diretor coreano Chan-wook Park teve uma recepção exitosa com seu filme Oldboy, em 2003, no Festival de Cannes, quando foi elogiado por Quentin Tarantino. A partir dele, transformou-se num cineasta reconhecido, e em 2009 realizou uma das obras de vampiro mais originais já feitas, Sede de sangue, agora já com um visual requintado e inovador, uma das marcas que passariam a ser do diretor. Em 2013, finalmente estreou em Hollywood, com grande elenco, incluindo Nicole Kidman e Mia Wasikowska, em Segredos de sangue. Se Park não perdia seu talento na direção de arte e fotografia, o filme era repleto de maneirismos e contorcionismos de roteiro que diminuíam o impacto final.
A criada, passado na Coreia dos anos 30, é dividido em três partes, e cada uma delas se dá sob um ponto de vista diferente. O Conde Fujiwara (Jung-Woo Ha) pretende conquistar uma nobre coreana, Lady Hideko (Min-hee Kim), sobrinha de Kouzuki (Jin-woong Jo), um colecionador de livros eróticos raros. Para isso, ele tem ajuda de Sook-hee (Tae-ri Kim), uma mulher de classe baixa, batedora de carteiras, que ele coloca como serva de Hideko a fim de convencê-la a se apaixonar por ele.

a-criada-12

a-criada-14

a-criada-15

Min-hee Kim e Tae-ri Kim estão brilhantes em seus papéis, principalmente quando a história começa a tomar rumos imprevisíveis. A relação entre Hideko e Sook-hee primeiramente é baseada numa ingênua confiança de parte a parte, mas o que o diretor não revela é como o passado da nobre a ser conquistada pelo Conde deve explicações a essa narrativa, e o Conde não é exatamente aquilo que se espera. Numa outra camada, que não fica a dever para a principal, este é um filme sobre o subterrâneo do ser humano, em que se contam histórias e se leem cartas, não necessariamente com o objetivo final de ser literato. Há algo de muito estranho acontecendo aqui: o filme é uma sucessão de detalhes minuciosos e filmados com uma grande competência por Park, dispondo seu elenco do melhor modo possível em cena.
Isso se dá também em razão da fotografia de Chung-hoon Chung e do desenho de produção de Seong-hie Ryu, um habitual colaborador também de Joon-ho Bong, que alimentam visualmente esta obra baseada em Fingersmith, de Sarah Waters, com razoáveis mudanças. Não sendo fã de Oldboy, esta me parece ser a obra-prima do diretor, tão simples quanto minuciosa em seus detalhes e mudanças de rumo narrativas. É interessante, por exemplo, como Park utiliza elementos de filme de terror em meio a um cenário de gueixas e cerejeiras (aliás, um dos símbolos máximos não apenas do Oriente, como do destino de algumas das personagens mostradas aqui). Por vezes, é como se Hitchcock encontrasse Wong Kar-Wai, com alguns toques de Dario Argento. Ele também faz analogias entre a biblioteca e o quarto, o sexo com perversão e signos da natureza (como a lua), a atração corporal e a dor que pode se manifestar em algumas circunstâncias, entregando uma narrativa com alto teor emocional, embora pareça, na maior parte do tempo, frio e distante. Destaca-se, por exemplo, a cena em que uma das personagens precisa reparar o sentimento da outra durante a noite.

a-criada-2

a-criada-3

a-criada-5

O filme lança os homens no lado oposto das mulheres: para Park, elas assumem seus papéis, enquanto eles fingem assumi-los e, quando o fazem, nunca saem de seus esconderijos. Nesse sentido, seu objetivo é psicológico em vários sentidos, e absolutamente simétrico em suas escolhas. O que seria ele? Um drama nos moldes vitorianos transportado para o cenário asiático? Um thriller? Um filme sobre a violência subjetiva? Ou é um filme de costumes excêntricos com tendência ao erótico em algumas cenas belissimamente filmadas? É inevitável, por sua temática e cenas ousadas, lembrar do francês Azul é a cor mais quente, que recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013. De qualquer modo, Park, ao contrário de Kechiche, não filma essas cenas como semidocumentais: ele adota mais a beleza plástica de cores e gestos de Oshima em O império dos sentidos. Desse modo, A criada é multicolorido nas suas tapeçarias, no seu design de produção e figurinos, mesmo que essa camada de cores às vezes esteja inserida num ambiente soturno, que representa o psicológico dos personagens. Inevitável lembrar também, no que se refere à relação entre as duas mulheres, de Cidade dos sonhos, de Lynch. Parece que Park se notabiliza em filmar as externas do filme como se fossem um sonho do que acontece dentro dessas mansões orientais com grande influência inglesa, não apenas por causa de sua origem literária. Esta é uma obra em que a visão dos personagens daquilo que acontece não necessariamente é a mesma do espectador, e nisso a metalinguagem surge de repente, sem chamar a atenção. No filme de Lynch, essa ligação se dava durante o dia, mas era explicada à noite – o mesmo acontece em A criada.

a-criada-7

a-criada-9

a-criada-17

Há uma cena ao final mais violenta e próxima da filmografia do diretor, mas mesmo nela se subentende que há uma negação do prazer proporcionado pelo homem. Não temos exatamente o choque que havia em Oldboy ou Segredos de sangue, em que Park ainda tentava canalizar seu estilo usando uma violência que precisava transbordar de cada personagem, sem, algumas vezes, a justificativa mais exata para que isso acontecesse. A criada não parece, contudo ele consegue demonstrar mais a libertação feminina do que muitas obras com esse intuito. Nesse ponto, é quase um filme satírico sobre como o homem pode imaginar seu domínio sem obtê-lo de fato, um dos mais notáveis já feitos. Como Elle, que este filme tenha saído sem prêmios do Festival de Cannes, onde estreou, é um mistério como aquele que se apresenta em sua narrativa.

아가씨, Coreia do Sul, 2016 Direção: Chan-wook Park Elenco: Min-hee Kim, Jung-Woo Ha, Jin-woong Jo, Tae-ri Kim Roteiro: Chan-wook Park, Seo-kyeong Jeong Fotografia: Chung-hoon Chung Trilha Sonora: Yeong-wook Jo Produção: Chan-wook Park, Syd Lim Duração: 144 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Moho Films / Yong Film

cotacao-5-estrelas

Assassin’s creed (2016)

Por André Dick

assassins-creed-12

Por ter como origem um game da Abisoft, Assassin’s creed tem sido comparado consequentemente a Warcraft, o filme menosprezado de Duncan Jones lançado no ano passado e cujo orçamento se pagou com sua trajetória nos cinemas fora dos Estados Unidos. Já a trajetória da nova adaptação tem tido mais riscos, com pouco faturamento nos Estados Unidos e no exterior até agora, mesmo com um elenco mais conhecido e uma produção que levantou bons recursos do estúdio. Particularmente, como Warcraft, nunca tive a experiência de jogar com esses personagens. Talvez para os fãs se intensifique a expectativa em torno da história.
Michael Fassbender atua como Callum Lynch, que teve sua mãe assassinada quando era criança, em 1986, e, nos dias atuais, no momento em que está para ser condenado à morte, é transportado para um centro de pesquisa em Madri, a Fundação Abstergo, onde conhece Sophia Rikkin (Marion Cotillard), cujo pai, Alan (Jeremy Irons), chefe do lugar, quer utilizá-lo em experimentos que o fazem revivenciar o que foi séculos antes, Aguilar de Nerha.

assassins-creed-15

assassins-creed-16

assassins-creed

Tratava-se do líder de uma sociedade de assassinos que pretende capturar a “Maçã do Éden” em oposição aos cavaleiros templários com o objetivo de manter o livre arbítrio, durante a inquisição espanhola, tendo como rival Torquemada (Javier Gutiérrez), mais exatamente em 1492, mesmo ano da descoberta de Cristóvão Colombo, como vemos no filme de Ridley Scott com a trilha de Vangelis. E Callum está em meio a uma sociedade composta por figuras enigmáticas, entre os quais se incluem ainda McGowen (Denis Menochet) e a experiente Ellen Kaye (Charlotte Rampling). A história parece estranha? O filme é ainda mais, no bom sentido.
Por meio desse experimento, o filme encarna uma espécie de Matrix, em que há o lugar em que Callum se encontra e os lugares históricos para onde se dirige por meio de um maquinário extremamente detalhado, chamado Animus (que lembra os tentáculos do vilão de Homem-Aranha 2 e do próprio Neon da saga dos Wachowski), sobretudo quando encarna seu antepassado Aguilar. Trata-se de viagens mentais, e que envolvem ainda Maria (Ariane Labed). Este lugar de experimentos, Abstergo, possui algumas paisagens que lembram um Éden esquecido e imagens de pássaros voam por cima de telhados de vidro. Visualmente, Assassin’s creed é atrativo. Ainda mais o elenco: Fassbender consegue lançar seu habitual drama ao encarnar o personagem, e Cotillard mostra sua angústia e mistério habituais para compor sua personagem.

assassins-creed-6

assassins-creed-9

assassins-creed-124jpg

O roteiro de Michael Lesslie, em parceria com Adam Cooper e Bill Collage, compõe um embaralhamento de tempos que concede ao filme uma camada complexa e instigante de história. Alguns temas evocam Cruzada, de Ridley Scott, mas a questão do Éden se fecha mais com filmes sobre a influência bíblica e religiosa na vida de organizações (interessante ver a hora da morte calculada de Callum, na qual imaginei que tivesse alguma referência religiosa e, se visto de forma inversa, remete ao versículo 59:17). Alguns temas da obra se espalham ao longo da narrativa, e vão constituindo um elo. Há alguns elementos de Fonte da vida, de Aronofksy na maneira como o diretor mostra a relação entre Sophia e Callum, como se estivessem num universo realmente à parte e a volta ao passado representasse uma espécie de ingresso no cosmos.
O diretor Justin Kurzel, que já havia trabalhado com Fassbender e Cotillard na adaptação de uma peça de Shakespeare, Macbeth, aplica um punhado de sequências de ação que envolvem malabarismos e lutas cênicas capazes de atrair a atenção todo o tempo. Lamenta-se apenas que a história não desenvolva o potencial, principalmente do personagem central, depois de um início instigante, mesmo que apresente uma boa parte dramática, que envolve a figura paterna, Joseph (Brendan Gleeson), trazendo mais informações sobre o desaparecimento de sua mãe.

assassins-creed-19

assassins-creed-23

assassins-creed-21

O seu passado é o mote que Kurzel estabelece para tornar o filme mais do que uma adaptação de um game, conseguindo verter para a nova linguagem uma interessante fusão de personagens e situações para quem desconhece o jogo original. O personagem feito por Jeremy Irons é uma espécie de figura a distância, como se fosse um elemento não divino, mas que se situa acima de todos, um emblema de poder capaz de contrariar as escolhas de Callum ou mesmo ter de aceitá-las.
A fotografia de Adam Arkapaw, que fez a de outra obra recente de Fassbender, A luz entre oceanos, é bela na sua composição entre um filtro azul do lugar de experimentação e um bege retratando a época passada. Fica-se imaginando o que Ridley Scott teria feito com essa adaptação de game para o cinema, mas o que resulta ainda é um trabalho capaz de jogar com os temas que possui em mão da melhor forma possível. As motivações iniciais do personagem evocam um interesse e, aos poucos, não são suficientemente trabalhadas, possivelmente aguardando por uma sequência. É um filme sobre como o passado pode ser revitalizado por meio de novas sensações e da luta corporal que lhe dê um vigor e um sentido e ainda sobre desafiar a própria possibilidade de resolver seu passado e o futuro por meio de um traço fantástico.

Assassin’s creed, EUA, 2016 Direção: Justin Kurzel Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Charlotte Rampling, Jeremy Irons, Khalid Abdalla, Carlos Bardem, Javier Gutiérrez, Brendan Gleeson, Ariane Labed Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage, Michael Lesslie Fotografia: Adam Arkapaw Trilha Sonora: Jed Kurzel Produção: Arnon Milchan, Conor McCaughan, Frank Marshall, Jean-Julien Baronnet, Michael Fassbender, Patrick Crowley Duração: 115 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Regency Enterprises / Ubisoft Motion Pictures

cotacao-3-estrelas

 

Deadpool (2016)

Por André Dick

Deadpool 12

O grande filme de  super-heróis de 2016, na opinião de grande parte do público e da crítica, foi a produção mais modesta de um personagem da Marvel, Deadpool. Com Ryan Reynolds em seu papel principal, ele tenta fazer o mesmo que Ben Affleck: se este passou de Demolidor a Batman, Reynolds passa de Lanterna Verde a um herói mais cômico. Trata-se de um projeto que circulou por alguns anos, sem que a distribuidora quisesse investir nele. Tudo aparenta, no entanto, ser parte de um grande marketing, à medida que o filme foi lançado sem grande propaganda, quase de surpresa. Quando se viu, o grande atrativo foi justamente saber de que obra se tratava. Ela não é para crianças nem exatamente para pessoas que não são especialmente fãs do personagem, mas, de algum modo, funcionou de maneira extraordinária.
Ao contrário de sua atuação em Lanterna verde, Reynolds faz aqui um bom super-herói, mesmo com suas limitações conhecidas. Ele já havia se mostrado um ótimo ator no menosprezado À procura, e parece que aqui aposta suas fichas para se desvencilhar da ideia de que é um ator sem acerto cômico. As grandes qualidades de Deadpool se devem à sua presença. E o filme começa muito bem, com Deadpool contando a sua história particular, desde o fato de ser um sujeito que lida com problemas alheios, Wade Wilson. até conhecer uma prostituta, Vanessa (Morena Baccarin), que se torna sua namorada.  Seu melhor amigo, por sua vez, trabalha num pub (TJ Miller), onde coordena um grupo de apostas.

Deadpool 2

Deadpool 9

Deadpool 3

É difícil não tratar do que leva o personagem a se transformar num super-herói – e parte dessa transformação lembra a de Wolverine, pois parte do mesmo programa, chamado Arma X, embora este seja mais solucionado em termos de ritmo, pelo menos no início, envolvendo um sujeito que faz recrutamento (Jed Rees). O grande vilão acaba se tornando um personagem que participa de sua criação, Ajax, junto com Angel Dust (Gina Carano). Nesse meio campo, ele vem a ter procurado com Colossus (Stefan Kapicic) e Negasoic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand). E encontra, para ajudá-lo em sua ação, o taxista Dopinder (Karan Soni). O diretor Tim Miller acelera a narrativa, buscando contato, principalmente, com o humor violento de Kick-Ass, mesmo que sem o mesmo mau gosto de Vaughn para extrair imagens pretensamente originais de uma coleção de assassinatos. E tem como correspondência também o recente Kingsman. Visualmente, Deadpool, por uma questão pessoal, é deplorável: ele emula com competência a câmera lenta de Matrix, mas não dá qualquer importância ao design de produção e a fotografia é excessivamente monocromática. Nesse sentido, ele poderia ter sido uma espécie de Scott Pilgrim se tivesse um diretor realmente talentoso por trás.
A questão é que, depois de um início trepidante, o grande problema é a tentativa de o filme ser bem-humorado. Isso vai além do limite e prejudica sua boa parte dramática, sobretudo ao início, quando Reynolds desempenha o papel do melhor modo, associado a uma bela atuação de Baccarin, sem apelar para o exagero e acompanhando a comicidade do parceiro de cena com rara graça. Entende-se que não é possível seguir nesta linha porque, afinal, o herói tem outro estilo, entretanto sua aparência depois de ser adotada pelo programa é certamente assustadora para quem precisa ser reconhecido pelo público. A partir disso, o que poderia ser dramático se transforma em piadas a Sinead O’Connor, Limp Bizkit, a série X-Men etc. Há algumas boas gags, prejudicadas pela necessidade de reiterar uma crítica corrosiva aos filmes de super-heróis, mas que sobrevive dela a todo custo.

Deadpool 4

Deadpool

Deadpool 11

A impressão que os roteiristas tiveram é de que, havendo uma autossátira, o filme se tornaria melhor. Nesse sentido, o herói brinca frequentemente com o pouco orçamento do filme. Há uma quebra da quarta parede, com o personagem se dirigindo diretamente à câmera. Isso seria certamente risível se não fosse apenas uma maneira de dizer, de forma diferente, que Deadpool abraça o mainstream como todos os filmes de super-heróis, ou seja, sua aparente crítica corrosiva apenas procura encobrir a ideia de que todos os filmes acabam tendo os mesmos elementos: o vilão, a mocinha a ser resgatada, o herói abalado por sua criação. É um pouco constrangedor Reynolds satirizar sua própria carreira, como se de fato, em meio a brilhos esparsos, como em À procura, ela nunca se concretizou de fato. De algum modo, por meio da sátira, Deadpool quer adquirir uma autoimportância que não teria, pelo menos claramente. Pode-se dizer que o filme acaba crescendo para o espectador que realmente gosta do estilo do personagem e a maneira com que foi filmado. No entanto, a graça com outros filmes da Marvel é apenas uma extensão do que Homem-formiga fez com mais precisão e agilidade, além de contar com melhores personagens. Embora as cenas de ação sejam muito bem feitas, com certa violência que afastou o público mais infantil, o roteiro e o vilão de Deadpool são absolutamente planos, sem nenhum acréscimo. Que este filme tenha sido recebido como uma grande novidade e colhido uma bilheteria histórica é uma grande surpresa: ele merece por sua primeira parte, não tanto pela segunda, resultando numa diversão moderada.

Deadpool, EUA, 2016 Diretor: Tim Miller Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein, Gina Carano, TJ Miller, Stefan Kapicic, Brianna Hildebrand Roteiro: Paul Wernick, Rhett Reese Fotografia: Ken Seng Trilha Sonora: Junkie XL Produção: Kevin Feige, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg Duração: 106 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Marvel Enterprises / Marvel Studios / Twentieth Century Fox Film Corporation

cotacao-3-estrelas

Passageiros (2016)

Por André Dick

passageiros-11

Há dois anos, o cineasta Morter Tyldum foi recebido com grande ânimo por causa de O jogo da imitação, com Benedict Cumberbatch atuando como Alan Turing, gênio que encontrou uma maneira de enfrentar o grave problema da Segunda Guerra Mundial. Lá, Keira Knightey fazia o par do personagem de Cumberbatch, numa relação conflituosa e abalada pela época em que transcorreu. Agora ele regressa em outro gênero, mais delicado do que o drama, neste Passageiros, tendo uma recepção contrária: poucas vezes se viu tantas críticas negativas. Com uma bilheteria razoável, ele pode, no entanto, se transformar naquilo que mais pretende: uma sessão descompromissada.
Na narrativa, a nave Avalon transporta mais de 5 mil colonos para o planeta Homestead II, um novo habitat, numa viagem que deverá durar 120 anos. No entanto, o engenheiro mecânico Jim “Peter Quill” Preston (Chris Pratt) acorda 90 anos mais cedo. Ele fica desesperado, pois está sozinho, pelo menos se contarmos os humanos. A sua única companhia é o androide Arthur (Michael Sheen), não tão discreto quanto os da série Alien, que atende num bar da nave espacial que remete, claro, a O iluminado.

passageiros

passageiros-10

passageiros-3

Não apenas o bar remete ao filme de Kubrick, como o enorme refeitório dos passageiros (desacordados), embora o design de produção deva bastante a Prometheus, de Ridley Scott, principalmente na sua iluminação. A sua dúvida existencial é justamente se ficará sozinho para o resto de sua vida, uma vez que não consegue mais localizar como poderia hibernar novamente. Esta dúvida não é cercada por alguma angústia, assemelhando-se mais à alegria do personagem de Matt Damon isolado no planeta vermelho em Perdido em Marte. Certo dia, ele, de qualquer modo, parecendo o personagem da série de TV O último cara da terra, decide despertar uma nova passageira, Aurora Lane (Jennifer Lawrence), sem avisá-la sobre isso. Antes, claro, ele fica sabendo de sua história, do fato de que é uma escritora e acaba, antes de tudo, se apaixonando por ela. O drama dessa paixão poderia se equivaler àquele do casal de Solaris, no entanto Tyldum não tem essa pretensão, e temos até uma cena de Aurora subindo pouco discretamente na mesa do refeitório. O roteiro de Jon Spaihts, que colaborou em Prometheus e Doutor Estranho, prefere as características românticas de um encontro improvável do que os dilemas existenciais desses personagens, que certamente renderiam bons conflitos na superfície do filme.

passageiros-6

passageiros-12

passageiros-15

Tyldum tem em Pratt e Lawrence seus apoios para contar esta história e inicia fazendo com que Preston lembre Quill, o contrabandista dançarino de Guardiões da galáxia. Ele deve ter gostado também de O lado bom da vida, e coloca Lawrence como uma maneira de descobrir uma companheira ao invés de enfrentar a solidão do espaço sideral e para dar também um novo sentido aos passos de dança de um jogo. O mais curioso em relação a Passageiros é o quanto seu roteiro autenticamente fraco possui alguns temas interessantes sobre a solidão humana. Não poucas vezes ele parece remeter a traços da história de Adão e Eva, sobre um casal que pode constituir por si só uma humanidade, quando são ameaçados por uma revelação que pode colocar o relacionamento em prova, e não parece por acaso que a personagem de Lawrence se chame Aurora. Já tivemos clássicos sobre seres humanos com sentimento de solidão no espaço, a começar pelo clássico Corrida silenciosa – sobretudo na amizade entre Preston e os robôs que trabalhavam na nave – e mais recentemente Gravidade. Uma saída dos personagens para um passeio fora da nave lembra imediatamente a de Spock em Star Trek – O filme, no qual se ressalta a beleza visual e certa poeticidade, logo quebrada por um humor desajeitado, que permeia toda a obra, indecisa entre a faceta dramática e a comédia mais facilitada.

passageiros-14

passageiros-4

passageiros-7

Também há um grande impacto quando a nave passa por uma estrela, lembrando Sunshine – Alerta solar, de Danny Boyle. Há referências também bastante evidentes a 2001 (quando Aurora corre pela espaçonave), e a  fotografia de Rodrigo Prieto é eficaz, principalmente quando mostra a parte externa da nave, assim como a trilha sonora de Thomas Newman oferece ritmo a cada bloco – um ritmo que não havia, particularmente, em O jogo da imitação, um filme com padrão clássico que se demorava excessivamente em cada sequência.
Ainda assim, falta a Passageiros um toque de complexidade pelo roteiro fraco e pela atuação de Pratt, mesmo que em determinados momentos ele até convença, embora Lawrence também não esteja em seus melhores dias. Nesse sentido, temos um exemplar de ficção científica interessante e divertido dentro de alguns aspectos, com bela direção de arte e efeitos visuais de qualidade. Havia uma obra de maior potencial aqui, mas nada que a transforme num desperdício.

Passengers, EUA, 2016 Diretor: Morter Tyldum Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen Roteiro: Jon Spaihts Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Michael Maher, Neal H. Moritz, Ori Marmur, Stephen Hamel Duração: 118 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Columbia Pictures / Original Film / Start Motion Pictures

cotacao-3-estrelas

Melhores filmes de 2016

Por André Dick

imagem-melhores-filmes-de-2016

Em 2016, não faltaram bons motivos para que o cinema se destacasse. Já iniciando em grande estilo, a temporada do Oscar trouxe obras como Os oito odiados, Creed, O regresso, O quarto de Jack, e, a partir daí, a qualidade não diminuiu. Os irmãos Coen celebraram a comédia de época em Ave, César!, enquanto a Alemanha trouxe um suspense aterrorizante, Boa noite, mamãe, e o cinema oriental deu as cartas com A assassina e As montanhas se separam.
Depois do Festival de Cannes, tivemos uma seleção de grandes filmes, como Elle, a volta à direção de Paul Verhoeven com uma atuação fora de série de Isabelle Huppert.

amor-amizade-2

Rua Cloverfield, 10.19

florence-foster-jenkins-2

Muitos temas se tornaram relevantes. O mundo passa a ser mais ameaçador, como mostram Snowden, Jogo do dinheiro e Nerve, vigiado por todos os lados. Já a bolsa de valores controla os acontecimentos, como vemos em A grande aposta, mas parece ser o jornalismo que pretende trazer à tona revelações, em Spotlight. Jane Austen é adaptada de maneira peculiar em Amor & amizade. Rock em Cabul, Cães de guerra e Mais forte que bombas mostram diferentes pontos de vista sobre o universo da guerra e os efeitos dela na vida de indivíduos.
Enquanto Carol mostra o direito de duas mulheres de viver um amor proibido, um homem quer se transformar em mulher em A garota dinamarquesa. Uma refilmagem da Disney resgatou em alto estilo a emoção mesclada com ingenuidade em Meu amigo, o dragão. O terror de maior sucesso do ano foi Quando as luzes se apagam, com custo de 5 milhões e arrecadação de 150. Alguns remakes não se tornaram bem aceitos (Caça-fantasmas, A bruxa de Blair), embora com qualidades. A escravidão é visualizada em O nascimento de uma nação e tratada em Os oito odiados pelo estilo de Tarantino. Uma nova ficção científica, A chegada, passa a ser vista como uma das mais revolucionárias. Antigos personagens de livros regressaram: Tarzan e Alice. Tivemos cinebiografias em Snowden, Um homem entre gigantes, Joy – O nome do sucesso, Florence – Quem é essa mulher, A garota dinamarquesa e Steve Jobs.

O abraço da serpente 7

mae-so-ha-uma

melhores-pets

Grandes diretores mostraram seu talento novamente: Richard Linklater, depois de Boyhood, regressou com Jovens, loucos e mais rebeldes!!, enquanto Apichatpong Weerasethakul reapresentou sua visão de mundo em Cemitério do esplendor, embora tenha sido o cinema sul-coreano que se destacou, e Almodóvar em Julieta. Woody Allen lançou seu filme anual, Café Society, e Tim Burton retomou seu universo fantástico em O lar das crianças peculiares. Egoyan lança quase um filme por ano desde 2010, e novamente deixou sua marca em Memórias secretas. E Michael Bay fez seu melhor filme, 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi.
No entanto, mais uma vez, as grandes bilheterias se tornaram o centro da atenção, não apenas com filmes de super-heróis, Capitão América – Guerra Civil, Batman vs Superman, Deadpool, ou vilões, a exemplo de Esquadrão suicida, como pelas animações. Pela primeira vez na história, tantas terminaram entre as maiores do ano: Zootopia, Mogli – O menino lobo (embora muitos entendam como live action), Procurando Dory, Pets, Trolls, A era do gelo: O Big Bang Kung fu panda 3. Avançando um pouco mais na experimentação, tivemos a adaptação de um game, chamado Warcraft. Nenhuma surpresa que alguns filmes se tornaram grandes sucessos, mas foi o ano em que Spielberg desapontou com O bom gigante amigo. Franquias regressaram (Star Trek e um spin-off de Star Wars, Rogue one), enquanto outras iniciaram: a de Animais fantásticos e onde habitam.

esquadrao-suicida-melhores

a-garota-dinamarquesa-19

a-garota-no-trem

Os filmes avaliados para as listas estrearam no Brasil entre janeiro e dezembro de 2016, inclusive aqueles indicados ao Oscar de 2015. Infelizmente, foram deixadas de fora da lista principal obras lançadas diretamente em home video, a exemplo de Cavaleiro de copas, de Terrence Malick, e Docinho da América. Não foram avaliados filmes exibidos apenas em festivais ou que estrearam nos Estados Unidos e irão estrear no próximo ano em circuito comercial no Brasil.
Cinematographe apresenta a seguir listas com menções honrosas (em destaque estão aqueles que quase entraram entre os 25 melhores, com destaque para Depois da tempestade, que foi visto depois de a lista ser fechada e certamente estaria nela), filmes subestimados, apreciados em parte, decepções e/ou superestimados e lançados diretamente em home video.

Menções honrosas

A grande aposta (Adam McKay), Depois da tempestade (Hirokazu Koreeda), Joy – O nome do sucesso (David O. Russell), Boa noite, mamãe (Veronika Franz, Severin Fiala), Mogli – O menino lobo (Jon Favreau), Memórias secretas (Atom Egoyan), Nossa irmã mais nova (Hirokazu Koreeda), Um homem entre gigantes (Peter Landesman), A garota dinamarquesa (Tom Hooper), O abraço da serpente (Ciro Guerra), A chegada (Denis Villeneuve), Rua Cloverfield, 10 (Dan Trachtenberg), Star Trek – Sem fronteiras (Justin Lin), Pets – A vida secreta dos bichos (Chris Renaud, Yarrow Cheney), Águas rasas (Jaume Collet-Serra), 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi (Michael Bay), Amor & amizade (Whit Stillman), Meu amigo, o dragão (David Lowery), O contador (Gavin O’Connor), Snowden – Herói ou traidor (Oliver Stone), Florence – Quem é essa mulher? (Stephen Frears), Capitão Fantástico (Matt Ross), Mãe só há uma (Anna Muylaert), Kung Fu Panda 3 (Jennifer Yuh Nelson, Alessandro Carloni), Invasão zumbi (Yeon Sang-ho), O bom dinossauro (Peter Sohn), A garota no trem (Tate Taylor), O lar das crianças peculiares (Tim Burton), Horizonte profundo (Peter Berg), A luz entre oceanos (Derek Cianfrance)

Memórias secretas 5

filme-michael-bay-3

mogli-melhores

Subestimados

Warcraft – O primeiro encontro entre dois mundos (Duncan Jones), Alice através do espelho (James Bobin), Rock em Cabul (Barry Levinson), Jogo do dinheiro (Jodie Foster), Truque de mestre: O 2º ato (Jon M. Chu), Gênios do crime (Jared Hess), O bom gigante amigo (Steven Spielberg), Esquadrão suicida (David Ayer), Um holograma para o rei (Tom Tkywer), Quando as luzes se apagam (David F. Sandberg), A lenda de Tarzan (David Yates), Caça-fantasmas (Paul Feig), X-Men: Apocalipse (Bryan Singer)

Alice através do espelho 17

Warcraft.Melhores

O bom gigante amigo.Melhores

Apreciados em parte

Steve Jobs (Danny Boyle), Capitão América – Guerra Civil (Joe Russo e Anthony Russo), A bruxa de Blair (Adam Wingard), Carol (Todd Haynes), Aquarius (Kleber Mendonça Filho), Nerve – Um jogo sem regras (Ariel Schulman, Henry Joost), Indignação (James Schamus), Kubo e as cordas mágicas (Travis Knight), O plano de Maggie (Rebecca Miller), O lamento (Na Hong-jin), Deadpool (Tim Miller), Brooklyn (John Crowley)

nerve

aquarius-5

deadpool-2

Decepções e/ou superestimados

Spotlight – Segredos revelados (Tom McCarthy), Anomalisa (Charlie Kaufman, Duke Johnson), A bruxa (Robert Eggers), Tangerine (Sean S. Baker), O homem nas trevas (Fede Alvarez), Doutor Estranho (Scott Derrickson), O que está por vir (Mia Hansen-Løve), Boi neon (Gabriel Mascaro),  Procurando Dory (Andrew Stanton), Sete homens e um destino (Antoine Fuqua), Julieta (Pedro Almodóvar), O filho de Saul (László Nemes), Certo agora, errado antes (Sang-soo Hong)

spotlight-lista

boi-neon-2

certo-agora-errado-antes

 Destaques lançados diretamente em home video

Cavaleiro de copas (Terrence Malick), Oeste sem lei (John Maclean), O que fazemos nas sombras (Taika Waititi, Jemaine Clement), Um cadáver para sobreviver (Dan Kwan e Daniel Scheinert), Uma repórter em apuros (Glenn Ficarra, John Requa), Rio perdido (Ryan Gosling), Destino especial (Jeff Nichols), Docinho da América (Andrea Arnold), O lagosta (Yorgos Lanthimos), Sing Street: música e sonho (John Carney), Love & mercy (Bill Pohlad)

cavaleiro-de-copas

american-honey-10

oeste-sem-lei

***

A seguir, a lista do Cinematographe com os 25 melhores filmes de 2016. Junto com ela, agradeço por sua leitura e companhia durante o ano.

melhores-sully

Clint Eastwood transforma o que poderia ser uma espécie de documentário em uma história fascinante sobre um homem que, para tentar salvar a vida de centenas, colocou em risco o que ele mesmo havia seguido durante sua trajetória. Com idas e vindas no tempo, Eastwood vai atraindo o espectador para uma espiral que parece apenas dedicada a prestar uma homenagem, quando recupera, na verdade, a consciência de um homem diante das ameaças históricas, principalmente quando ele tem algumas visões assustadoras. É também sobre a humildade de um herói do cotidiano, personificada com raro talento por Tom Hanks, num momento que se equivale ao seu subestimado Um holograma para o rei. Hanks concede uma calma sábia a seu personagem sem nunca parecer se exceder em sua timidez, enquanto Eckhart volta em grande estilo a um papel realmente de destaque.

melhores-caes-de-guerra

Este é um filme que se movimenta entre uma comédia corrosiva e um drama moral permeado de características interessantes, ao entrelaçar a narração de Packouz com o protagonismo de Efraim. Ele aparenta, pelo marketing, ser como Dois caras legais, mas esses são caras que não têm nenhuma espécie de alívio existencial ou escape de humor. Phillips concentra sua visão nos dois como a de uma América constantemente perdida em seu próprio foco na guerra e na manutenção de um dinheiro inesgotável. Não se sabe se David, por exemplo, usa também o sexo em seus atendimentos; fica subentendido algo nesse sentido, mas sem certeza. O que importa, sempre, para tais personagens, é o dinheiro que seus negócios trazem. E as promessas de riqueza se mostram promissoras, como uma antiga amizade subentende.

melhores-animais-noturnos

Animais noturnos tem um início um pouco desinteressante, na maneira que salta da vida de Susan para as páginas do livro, mas, à medida que a trama avança, o paralelo começa a ser construído de maneira eficiente, com atuações notáveis de todo elenco. Amy não chega a construir um personagem por completo, e ainda assim está excelente, assim como Taylor-Johnson surpreende e Gyleenhaal volte a mostrar por que se trata de um ator excepcional para papéis curiosos. Ford utiliza o subtexto – o romance – como uma forma eficiente de entender o casamento de Susan e Edward, o que se esclarece nas digressões, em que ela relembra como o conheceu e como eram os dois quando casados.

melhores-o-nascimento-de-uma-nacao

Em O nascimento de uma nação, o espectador é capaz de sentir o peso existencial sobre cada personagem. Belas imagens, como o sangue da orelha sobre o milho, ou os escravos colhendo algodão enquanto o sol parece passar por um eclipse, ou as nuvens da noite cobrindo a lua, antecipam essa vingança baseada nas palavras religiosas. Os homens carregando tochas à noite lembram uma espécie de regresso à África, ao verdadeiro nascimento de uma nação. Uma cena especialmente discreta é impactante é quando uma menina negra brinca puxando outra pela corda na varanda de uma mansão, enquanto Nat observa da carroça.

melhores-animais-fantasticos-e-onde-habitam

O artefato do personagem central (a mala) contém não apenas criaturas fantásticas, como poderia também abrigar a cidade – e no momento-chave do final ela adquire uma imponência ainda maior. Se Harry Potter teve pelo menos dois capítulos iniciais como uma espécie de teste para o elenco, este filme começa a todo ritmo, tanto com o quarteto quanto com vilões ameaçadores. Ao mesmo tempo, por seu tom agridoce, Animais fantásticos se sente igualmente também como um grande universo ainda a ser explorado com esses personagens: ele realmente envolve o espectador a ponto de nos deixar com saudade deles depois que a sessão termina.

melhores-o-quarto-de-jack

Lenny Abrahamson lida bem com a oposição entre o escuro do quarto e a possível luminosidade do mundo. É como se tanto um novo mundo pudesse se descortinar como também os personagens precisassem enfrentar uma determinada verdade que os conduziu até ali. Neste ponto, Larson e Tremblay são cada vez melhores. O quarto de Jackpassa a ser uma das obras de cinema independente com a indicação ao Oscar mais merecida nos últimos anos, pois não tenta emular uma determinada estética para agradar e sim mostrar um caso capaz de repercutir junto ao espectador, com um cuidado muito grande na maneira de expor suas ideias, além da sua clareza e notável sensibilidade.

rogue-one-melhores

Em Star Wars, sempre tivemos heróis quase imbatíveis; em Rogue One, os componentes da missão são figuras valentes, mas extremamente frágeis. Não vemos arroubos de heroísmo por parte de Jyn e Cassian, apenas a tentativa de completar a missão da melhor maneira. Isso é uma novidade para a mitologia Star Wars e não atenua quando Gareth Edwards leva tudo a um terceiro ato realmente espetacular, que rivaliza diretamente com O retorno de Jedi, numa mescla de cenas irreparáveis e extraordinárias. Que o mesmo diretor que fez Godzilla tenha feito este primor técnico e fantástico é uma surpresa – e nos perguntamos se Abrams não deveria ter estado aqui.

o-conto-dos-contos-melhores

O cineasta italiano Matteo Garrone faz uma das obras mais poéticas já feitas, um filme que se sustenta numa estranheza sem exageros, com o auxílio de uma fotografia notável de Peter Suschitsky e direção de arte exímios, sem esquecer o magistral figurino, desvirtuando os contos de fadas e dos irmãos Grimm sem tentar ser um novo Terry Gilliam. Salma Hayek é a Rainha dos Longtrellis, Vincent Cassel o Rei dos Strongcliff e Toby Jones o Rei dos Highhills. Esses personagens ligam as histórias, que envolvem Violeta (Bebe Cave), princesa de Highhills, Elias (Christian Lees), príncipe de Longtrelliss, e Dora (Hayley Carmichael). A maneira como as histórias são interligadas é o ponto alto do filme: elas têm uma estrutura aberta, para Garrone exibir seu talento como diretor.

melhores-cafe-society

A impressão que se tem é que, depois de sua passagem pela Europa, principalmente após Meia-noite em Paris, Woody Allen se sente mais cuidadoso com sua parte técnica. Nos anos 70, ele fazia comédias realistas, nos anos 80 alternou obras entre o drama bergmaniano e o humor, no entanto tendo sempre Nova York como ponto de encontro, e nos anos 2000, ao filmar O escorpião de Jade e Vicky Cristina Barcelona, ou 2010, quando esteve na ensolarada Itália (em Para Roma com amor), ele se transformou num autor com toque mais europeu do que antes já se entrevia nele e o qual satirizava em Dirigindo no escuro. Claro que já aparecia um certo cuidado nas ambientações, como em Tiros na Broadway e Poucas e boas, mas nunca com a maturidade de agora e com a beleza plástica de Café Society (em diálogo direto com Meia-noite em Paris).

melhores-dois-caras-legais

Não se trata exatamente de uma sátira, e sim de uma mescla inteligente entre gêneros que poucas vezes funciona como aqui. Como Beijos e tiros, ele se passa quase totalmente à noite, e seus poucos indícios de luz remetem a uma nova cultura surgindo de dentro da cidade. Como pano de fundo, assim como em outras obras de Shane Black, ele brinca com a metalinguagem de maneira inteligente, de modo que não soe forçada dentro do contexto em que os personagens se inserem. Realmente é uma grata surpresa esta comédia e apenas se lamenta que seu orçamento (50 milhões de dólares) tenha retornado até agora em pouca bilheteria (57), talvez invalidando uma possível e merecida franquia com esses personagens.

melhores-mais-forte-que-bombas

O roteiro, escrito por Joachim Trier e Eskil Vogt, tem uma influência clara dos filmes que mostram a juventude norte-americana, com certa música dos anos 80 (o título original é o mesmo de um álbum da banda The Smiths), e dialoga principalmente com o recente e contestado Homens, mulheres e filhos. Onde Jason Reitman mostra mais humor, Trier é mais comedido e, por meio de Conrad, pretende enfocar a solidão dessa juventude. Sua relação com o irmão é terna, assim como os conflitos com o pai demarcados por uma base real, especialidade de Trier. Este nunca esteve tão à vontade para mostrar seus elementos autorais, embora continue bastante pessimista no que diz respeito ao comportamento humano, ainda que não tanto quanto em Oslo, 31 de agosto, e consiga, por meio de uma montagem não linear em alguns momentos, fazer com que o espectador confronte diferentes momentos dos mesmos personagens, abrindo um leque de opções para que identifiquemos (ou não) os sentimentos deles.

melhores-as-montanhas-se-separam

As montanhas se separam possui, como em toda a obra de Jia Zhangke, uma fotografia deslumbrante de Yu Lik-wai, com uma predileção por captar ambientes externos com um cuidado irreparável, assim como deixa cenários internos com uma sensação de realismo destacada. A China antiga e a China moderna convivem não raramente no mesmo enquadramento, e se temos algum sinal de neve é sempre em meio a uma natureza já surgida no asfalto. Cenas que captam a tradição chinesa são ampliadas com um afeto trabalhado, lembrando o que Ka-Wai e Kurosawa já fizeram para o Oriente em termos de imagem. E, em meio a essas imagens, a presença cada vez maior do Ocidente, sobretudo na circulação de automóveis e vendas de equipamentos de som, e um sentimento de que a China vive o futuro, principalmente na velocidade dos trens e na tentativa de incorporar outras linguagens.

melhores-zootopia

É muito raro encontrar uma animação que ainda invista numa trama policial e não se perca pelo meio do caminho, capaz de desenhar uma amizade entre figuras diferentes de maneira tão crível. As comparações feitas, por exemplo, com o clássico Chinatown são realmente verossímeis e bem solucionadas pelo roteiro escrito por um dos diretores, Jared Bush, e Phillip Johnston, colaborador em Detona Ralph. Em certos momentos, arrisca-se até mesmo um clima noir, em meio a uma perseguição numa floresta seguida de um amanhecer do sol radiante. Ele não soa excessivamente infantil nem apresenta temas mais adultos de maneira pretensiosa, ficando num meio-termo agradável.

melhores-jovens-loucos-e-mais-rebeldes

Jovens, loucos e mais rebeldes!! é talvez o filme mais alto astral da década até agora, uma placa de otimismo em meio a tantas obras à procura apenas de melancolia. Quando tudo é uma contagem regressiva para o início das aulas, a alegria pode ser descobrir que justamente o início de tudo se deu muito antes e que fechar os olhos pode abarcar ainda mais vida do que novas lições.

melhores-a-assassina

Com uma fotografia extraordinária de Mark Lee Ping Bing, parecendo filmar Barry Lindon num espaço oriental, fixando o olhar nos cenários irretocáveis, nas cortinas esvoaçantes e nos telhados do reino para onde vai, A assassina tem um lado pouco convidativo (a lentidão de sua trama) que é compensado pela atmosfera tremendamente imersiva. Quando assistimos ao filme, parece que estamos juntos com os personagens, seja num palácio à noite iluminado por homens carregados de tochas, seja numa cachoeira, seja em meio a uma floresta onde desencadeia uma luta sangrenta. Ele se enquadra no gênero wuxia (武侠), de origem chinesa, que mistura artes marciais e fantasia. O início em alto movimento e filmado em preto e branco é um prólogo para o que se segue e difícil imaginar uma sequência prévia ao final tão impactante.

melhores-elle

Verhoeven sempre teve um interesse por mulheres que colocam os homens em situação de ameaçados sexualmente. Aqui, a mulher sofre abusos do mascarado, mas não entendemos suas reações a isso. Huppert faz uma das personagens mais intrigantes do universo feminino dos últimos anos justamente porque parece lhe faltar qualquer compromisso com o discurso em sua própria defesa – parece, pois, na verdade, o que ela faz é justamente empregar esse discurso por meio de atitudes enviesadas. Verhoeven desenha isso com muito talento, procurando, a certa altura, explicações psicológicas de notável desenvoltura para a narrativa.

melhores-creed

Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, Ryan Coogler consegue realmente dar uma sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa, ao contrário da pressa de Abrams no último Star Wars em estabelecer vínculos com os fãs, apesar ainda ser muito interessante. Mas Coogler é mais exato ao criar um compasso original para as cenas de luta, uma delas sem um corte sequer, muito em razão da competência da fotografia de Maryse Alberti, além de empregar uma emoção especial no ato final, que eleva Creed a outro patamar, apesar de sua temática não original em relação aos filmes anteriores.

melhores-demonio-de-neon

Em Demônio de neon, é como se Nicolas Winding Refn admitisse que não há espaço para nenhuma idealização, representada por Jesse, principalmente num universo em que ela é uma estranha, mesmo parecendo ser bem recebida. É como se ela entrasse num bosque do qual não pode voltar justamente no momento em que se depara com os triângulos de neon. A passagem que eles oferecem revela não apenas o universo da moda em Los Angeles, como também o mistério pelo qual a personagem central é envolvida. Pode-se perceber que, assim como no clube noturno, na passarela, no estúdio de fotos e no quarto, Jesse se sente sempre sozinha, como se todos que estivessem à volta não existissem, ou quando espera numa cadeira para uma teste e suas colegas estão imóveis. A questão colocada implicitamente por Refn: ela existe de fato? Este universo existe?

melhores-cemiterio-do-esplendor

O novo filme de Apichatpong Weerasethakul (mais conhecido junto à crítica como Joe) lembra muito os anteriores, principalmente Síndromes e um século e Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: é um cinema que busca a reflexão a partir de gestos do cotidiano, ressoando uma espécie de emoção que busca o conforto na tranquilidade. Seus personagens, com isso, sempre estão às voltas com a saúde (lembrando que a família de Weerasethakul é da área da medicina) e buscam nela uma espécie de liberdade para suas vidas sofridas.

melhores-a-juventude

Este é um filme que não se vê mais com tanta frequência: é essencialmente sobre como uma amizade pode persistir no tempo e os sonhos e realizações sempre se anunciam quando o ser humano se depara com seu limite. Os amigos fazem competições curiosas entre si, observam os outros hóspedes do lugar– e a conclusão é sempre a mesma: o tempo nunca conseguiria aproximá-los de alguma definição existencial ou servir como solução para atenuar seus problemas. Essa amizade é comparada às notas de uma música, seja pela maneira como Paolo Sorrentino capta a paisagem – com uma notável tranquilidade e, ao mesmo tempo, agilidade – e ao tempo. Em intensidade igual, o corpo, em A juventude, representa o desejo e a sensibilidade de se saber efêmero.

melhores-ave-cesar

A oposição entre a claridade e a escuridão se mostra não apenas no tempo em que se passa – durante um dia – como na narrativa dividida em atos de filmagens, que trazem uma atmosfera maravilhosa que se contrapõe à vida real. Enquanto transcorre o mccarthismo, os irmãos Coen não se incomodam em mostrar exatamente um grupo de roteiristas com uma ligação estabelecida imediatamente com Moscou – quase um lado subversivo do que mostraram no roteiro politicamente correto de Ponte dos espiões, mais próximo de Barton Fink. Em vez de tecerem observações filosóficas sobre o livro referencial sobre o capitalismo, eles preferem atuar numa frente que lembra mais a sátira de David Cronenberg ao sistema financeiro, em Cosmópolis.

melhores-o-cavalo-de-turim

O filme mostra a convivência de um senhor e sua filha numa fazenda, havendo, no fundo dessas questões, uma ampla discussão de Béla Tarr a respeito da exploração e da tentativa de lidar com o outro. Esta relação é baseada mais no silêncio do que no verbo e, se não há sinais de afeto do pai pela filha, isso é reproduzido na maneira como ele cuida do cavalo capaz de trazer ainda mais colheita para a fazenda. Cada sequência tem a duração predileta de Tarr, uma duração concentrada em gestos mínimos e expansivos. Se na sua obra anterior ele colecionava sequências em cenários mais expansivos, aqui ele concentra tudo nos olhares dos atores e no fato de como eles são ínfimos diante do cenário externo.

melhores-os-oito-odiados

A maneira como Quentin Tarantino leva seu elenco, principalmente Russell, Samuel L. Jackson e Goggins, é notável, e Leigh rouba a cena sempre que é chamada à aparição. Visto como uma peça quase política pelo tom de suas ideias – e muitas têm a ver diretamente com o sistema norte-americano –, Os oito odiados é um dos grandes filmes da trajetória do cineasta e uma referência para quem gosta de cinema ousado.

batman-vs-superman-melhores-ano

Seus personagens, apesar de parecerem indestrutíveis, não são robóticos ou unidimensionais e, mesmo com cenas de ação que parecem sempre sobressair aos caracteres, Zack Snyder dá uma razão ao movimento ininterrupto por meio de simbologias, principalmente aquelas familiares, a fim de que cada ação pareça ter um sentido, com uma trilha sonora destacada de Hans Zimmer e Junkie XL. Este é um dos filmes do gênero melhor montados, com pouco mais de 2 horas e meia que passam sem que se perceba, com uma coleção de imagens realmente significativas. Ele consegue mesclar os melhores elementos do Batman de Nolan e do primeiro O homem de aço, sem diluir nenhum dos dois, e ainda apresentar novos personagens sem perder o fio da meada. Ao contrário do que diz quase a maioria esmagadora da crítica, Batman vs Superman não é uma possível falha de ignição: é um dos melhores filmes de super-heróis já realizados.

melhores-o-regresso

Não apenas pela fotografia de Lubezki, como pelos conceitos, há um interesse em dialogar com A árvore da vida. Alejandro G. Iñárritu ecoa Malick, porém não o dilui nem exatamente o imita; ele transforma, aqui, a violência numa espécie de ponto de referência da cultura dos Estados Unidos, quando se dizimaram tribos em uma escala imensa. Essa violência tem um enorme contraste com a beleza das imagens do espectador. Como podem essas paisagens esconder tanta violência? Junto a isso, é um filme com um punhado de cenas executadas com perfeição e que cresce na lembrança, principalmente quando alterna os motivos existenciais que perduram na narrativa. Uma obra-prima do cinema, O regresso é inesquecível.

ano-2016-melhores-filmes