Melhores filmes de 2015

Por André Dick

Melhores filmes de 2015.Blog

O ano de 2015 trouxe uma série de filmes que pareciam remeter ao final dos anos 70 e início dos anos 80, além de dar uma passagem pelos anos 90: Star Wars, Mad Max, Jurassic WorldFérias frustradas, Poltergeist… Entre George Lucas e George Miller, as franquias vão se revitalizando. E os filmes de super-heróis permanecem: Vingadores e Homem-Formiga foram os dois filmes da Marvel, habilmente satirizada por Birdman, de Iñárritu. Mas agora também ao lado de personagens que satirizam James Bond, Kingsman e A espiã que sabia de menos. E, se Kylo Ren e Rey lutavam numa nova geração, parece que no início do ano os Wachowski ainda tentavam rever os rumos de sua trajetória na ficção científica em O destino de Júpiter.
Muitos cineastas continuam produzindo em grande escala, como Woody Allen em Homem irracional; Tim Burton em Grandes olhos; Guillermo del Toro com A colina escarlate; David Cronenberg com Mapas para as estrelas; Clint Eastwood em Sniper americano; Ridley Scott em Perdido em Marte; M. Night Shyamalan em A visita; Denis Villeneuve em Sicario – Terra de ninguém. Noah Baumbach regressou com dois filmes, Mistress America e Enquanto somos jovens, e Angelina Jolie se firmou com Invencível e À beira mar como uma cineasta de visão intimista.
O cinema europeu esteve também em grande escala em salas de cinema de art house com peças da Suécia, França, Itália, Inglaterra… O cinema brasileiro teve como seu principal representante Que horas ela volta? em premiações no exterior, no entanto teve outras peças de destaque, como Casa grande e Ponte aérea.

Que horas ela volta 12

A visita.Filme 9

Frank.Melhores

Dostoiévski pôde ser encontrado numa Londres neofuturista em O duplo e no professor atormentado de Homem irracional, enquanto Frank tentou visualizar uma espécie de gênio musical à margem, como o protagonista de Eden. Tivemos a história do equilibrista Philippe Petit em A travessia, enquanto Louis Zamperini, herói de guerra, esteve em Invencível, e Alan Turing, criador do código que ajudou no fim da Segunda Guerra, em O jogo da imitação. A fantasia dos games invadiu a realidade em Pixels, enquanto o casal de American Ultra partiu da fantasia para uma realidade envolvendo um exército treinado e o casal de Sob o mesmo céu tentou enfrentar a ameaça atômica a partir da crença em si mesmo. Hollywood foi novamente desconstruída não apenas em Birdman, como também em Mapas para as estrelas e Acima das nuvens, enquanto a trabalhadora feita por Cotillard em Dois dias, uma noite gostaria de sonhar com algo mais acessível do que o estrelato. Se a fantasia de O conto da princesa Kaguya sai das páginas orientais, a de J.M. Barrie se mostra novamente criativa na nova adaptação de Peter Pan, e No coração do mar mostrou a origem do romance de Herman Melville. A comédia teve bons momentos em Ted 2, Férias frustradas, Um santo vizinho e A espiã que sabia de menos. A juventude tentava desvendar um enigma em tonalidades diferentes tanto em Pássaro branco na nevasca quanto em Cidades de papel e Amizade desfeita, enquanto um grupo de dançarinos fazia sua última turnê em Magic Mike XXL. O 3D foi usado por dois diretores conhecidos por serem de art house, Gaspar Noé (Love) e Jean-Luc Godard (Adeus à linguagem). Formas diferentes de mostrar o amor em Um fim de semana em Paris, Love, Eu estava justamente pensando em você, Enquanto somos jovens, Ponte aérea, RespireCidades de papel e no curta antes de Divertida mente, Lava. E fazia algum tempo que não se fazia tantos blockbusters de qualidade, como 007 contra Spectre, Vingadores – Era de Ultron, Star Wars – O despertar da força, Homem-Formiga, Peter Pan, No coração do mar e Jogos vorazes: A esperança – O final.

Vingadores.Filme 27

O duplo 7

Invencível.Melhores
Os filmes avaliados para as listas estrearam no Brasil entre janeiro e dezembro de 2015, inclusive aqueles indicados ao Oscar de 2014. Não foram avaliados filmes exibidos apenas em festivais ou que estrearam nos Estados Unidos e virão estrear no próximo ano em circuito comercial no Brasil.
Cinematographe apresenta a seguir listas com menções honrosas, filmes subestimados, apreciados em parte, decepções e/ou superestimados e lançados diretamente em home video. Também há uma lista de filmes não vistos ainda e pelos quais tenho interesse.

Menções honrosas

Frank (Lenny Abrahamson), O duplo (Richard Ayoade), Pássaro branco na nevasca (Gregg Araki), Um fim de semana em Paris (Roger Michell), Homem-Formiga (Peyton Reed), Enquanto somos jovens (Noah Baumbach), Que horas ela volta? (Anna Muylaert), Ted 2 (Seth MacFarlane), Eu estava justamente pensando em você (Sam Esmail), Respire (Mélanie Laurent), Invencível (Angelina Jolie), Homem irracional (Woody Allen), American Ultra – Armados e perigosos (Nima Nourizadeh), Amizade desfeita (Levan Gabriadze), Um santo vizinho (Theodore Melfi), Love (Gaspar Noé), Vingadores – Era de Ultron (Joss Whedon), Sicario – Terra de ninguém (Denis Villeneuve), Cidades de papel (Jake Schreier), Star Wars – O despertar da força (J.J. Abrams), Ponte aérea (Julia Rezende), Sniper americano (Clint Eastwood), A visita (M. Night Shyamalan), Chatô – O rei do Brasil (Guilherme Fontes), A travessia (Robert Zemeckis), Jogos vorazes: A esperança – O final (Francis Lawrence), Timbuktu (Abderrahmane Sissako)

Cidades de papel.Lista 2

Timbuktu

Sicario.Filme 9

Apreciados em parte

A espiã que sabia de menos (Paul Feig), Divertida mente (Pete Docter e Ronaldo Del Carmen), Perdido em Marte (Ridley Scott), O jogo da imitação (Morten Tyldum),  Kingsman: serviço secreto (Matthew Vaughn), Cobain – Montage of Heck (Brett Morgen), A teoria de tudo (James Marsh), Phoenix (Christian Petzold), Virando a página (Marc Lawrence), Mistress America (Noah Baumbach). Magic Mike XXL (Gregory Jacobs), Golpe duplo (Glenn Ficarra e John Requa), Cinderela (Kenneth Branagh)

Subestimados

Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível (Brad Bird), Poltergeist – O fenômeno (Gil Kennan), Cake – Uma razão para viver (Daniel Barnz), Férias frustradas (John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein), Lugares escuros (Gilles Paquet-Brenner), Lava (James Ford Murphy), Pixels – O filme (Chris Columbus), Quarteto fantástico (Josh Trank), Bata antes de entrar (Eli Roth), Grandes olhos (Tim Burton)

Tomorrowland 19

Pixels 6

Grandes olhos 23

Decepções e/ou superestimados

Whiplash – Em busca da perfeição (Damien Chazelle), Adeus à linguagem (Jean-Luc Godard), Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo (Bennett Miller), Livre (Jean-Marc Vallée), A pele de Vênus (Roman Polanski), Acima das nuvens (Olivier Assayas), Mad Max – Estrada da fúria (George Miller), O destino de Júpiter (Andy e Lana Wachowski), Ponte dos espiões (Steven Spielberg), Chappie (Neill Blomkamp), Jurassic world – O mundo dos dinossauros (Colin Trevorrow), Parceiras eternas (Susanna Fogel)

Whiplash

Mad Max 2

O destino de Júpiter.Lista

Lançados diretamente em home video

Destaques: Palo Alto (Gia Coppola), Hacker (Michael Mann), Top five (Chris Rock), Calvário (John Michael McDonagh), Dope – Um deslize perigoso (Rick Famuyiwa), Duna de Jodorowsky (Frank Pavich)

Decepções: Longe deste insensato mundo (Thomas Vinterberg), O duque de Burgundy (Peter Strickland), Ex-Machina: Instinto artificial (Alex Garland)

Ainda não vistos

O sal da terra (Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders), A gangue (Miroslav Slaboshpitsky), Expresso do amanhã (Joon-ho Bong) Táxi Teerã (Jafar Panahi), Mia Madre (Nanni Moretti), Jornada ao oeste (Tsai Ming-liang), Dheepan – O refúgio (Jacques Audiard)

A seguir, a lista do Cinematographe com os 20 melhores filmes de 2015. Junto com ela, agradeço por sua leitura e companhia durante o ano.

No coração do mar.2015

Ron Howard mostra a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville, num filme a respeito da sobrevivência em alto-mar, depois que a tripulação que empreende uma caça às baleias é perseguida por uma, a fim de extingui-la. Com grandes efeitos especiais e uma atuação segura de Chris Hemsworth, No coração do mar tem ainda uma belíssima parte técnica de reconstituição de época.

Melhores.19.Peter Pan

Num escopo abrangente, Joe Wright trabalha com imagens como se fossem resquícios de uma infância perdida, seja no vislumbre de um navio de pirata encalhado ou em pássaros gigantes que parecem trazer apenas seu esqueleto como se fossem esboços inacabados, ou simples caravelas que flutuam no espaço e parecem vigiar com luzes à noite como se estivéssemos numa versão adiantada do novo Blade Runner.

James Bond

Trabalho mais sólido de James Bond desde 007 – A serviço secreto de sua majestade, 007 contra Spectre agita todos os medos que cercam o personagem principal e entrega uma atuação mais uma vez convincente de Daniel Craig, assim como do vilão feito por Cristophe Waltz. Cenas de ação muito bem filmadas e um design de produção e fotografia fantásticos tornam este num dos grandes filmes sobre o agente secreto britânico.

Melhores.17.Mapas para as estrelas

Embora Robert Pattinson aqui não seja o principal nome, trata-se de um dos filmes mais originais de David Cronenberg, pois parece tratar dos costumes de Hollywood sem exatamente ser linear ou investir na estranheza evidente, e até rotulada, trazida pelo cineasta. Ou seja, a partir de determinado ponto, a obra do diretor só teria realmente qualidade se mostrasse o que mostra na maioria de seus filmes: coisas estranhas acontecendo como se fossem normais. Nesse sentido, Mapas para as estrelas pode se ressentir de seres humanos se transformando em insetos. Mas tem Julianne Moore em sua melhor forma.

Melhores.16.Dois dias, uma noite

Para os Dardenne, contra a presença opressiva da situação humana, a saída pode ser a escolha de um rock no rádio do carro. Momentos que parecem efêmeros e dispensáveis são o que tornam, como parece sempre acontecer na obra dos irmãos belgas, Dois dias, uma noite em uma obra de grande sensibilidade.

Melhores.15.Jauja

Todos os simbolismos parecem acertados, como a analogia entre os rochedos e o mar, a vegetação e o céu, lembrando, a partir de determinado momento, um pouco Walkabout, de Nicolas Roeg, desta vez com a presença do europeu na América Latina. Na parte final, o diálogo parece extensivo com Tarkovsky, no plano do cinema, e com a literatura de Borges, e novamente a fotografia de Salminen registra uma época sem tempo definido, como a própria sensação que traz o filme ao longo de sua narrativa.

Melhores.14.Casa grande

Quando surgem alguns materiais expositivos sobre a situação econômica e financeira, Casa Grande talvez perca um pouco de sua intensidade, no entanto não me parecem exatamente redutores, pois representam um certo discurso com o qual se pode concordar ou não. O roteiro, de qualquer modo, não leva o público a se certificar de que suas ideias estão sendo colocadas em prática. Se há uma questão também histórica em cena, Casa Grande não tenta solucioná-la, e esta é uma de suas maiores virtudes.

Melhores.13.O conto da princesa Kaguya

Animação das mais delicadas, produzida pelo mesmo Studio Ghibli de Miyazaki, O conto da princesa Kaguya lida com sensações como a infância, a vida adulta e a importância de se ter sonhos reais para que a fantasia seja mais duradoura. Com traços poéticos, o desenho de Isao Takahata tem um dos atos finais mais contemplativos do ano.

Melhores.12.Corrente do mal

Corrente do mal nunca sossega ou deixa o espectador confiante do que está vendo: ele mostra que a realidade pode ser dispersa e incômoda quando não se encontra um ponto de encontro. É interessante como ele pode apontar um desejo de dialogar com a necessidade de se ter um afeto e o que ele pode trazer em termos de compartilhamento entre pessoas. Em Corrente do mal, os jovens estão a um passo da vida adulta, e eles precisam estar preparados para carregar o que desconhecem e não têm explicação. Isso, para Mitchell, cria a mesma sensação de medo e pavor de seu filme.

Melhores.11.O ano mais violento

O ano mais violento reserva espaço sobretudo para quem não se deixa por um thriller que traga as peças pré-encaixadas, sem desenvolver a faceta psicológica do que desenvolve em sua narrativa: é um filme em parte difícil, pela própria maneira de apresentar sua trama, e em parte compensador, na medida em que oferece realmente um cinema capaz de surpreender.

Melhores.10.À beira mar

Mais do que tudo, À beira mar é sobre a perda de uma juventude e o encontro com uma possível melancolia da qual é preciso sair quando se tem ainda vigor e vontade. Esse é um registro arriscado de Jolie Pitt, mais próximo do cinema europeu, não apenas de Rohmer, como de Antonioni, e serve como uma espécie de assinatura de seus conceitos como diretora, que deseja seguir uma linha certamente independente, mesmo com a possibilidade de fazer apenas outros filmes que sigam a um Sr. e Sra. Smith. É um filme sobre o significado que move um casal, sobre suas ambições e seus receios de se encontrar.

Melhores.9.Força maior

Força maior parte de um acontecimento ameaçador da natureza para mostrar o desequilíbrio das relações, e o quanto um determinado instante pode ser acompanhado apenas pelo instinto momentâneo, assim como uma simples conversa entre pessoas pode expor toda uma relação.

Melhores.8.A colina escarlate

Nos momentos em que o cineasta trabalha com imagens como se fossem símbolos – Edith caminhando pela casa escura com um candelabro atrás da infância que parece ter perdido ameaçada por fantasmas, o barro vermelho querendo sair à superfície, o fantasma como uma ameaça ao longe –, A colina escarlate chega ao que mais imaginava: é resultado de um diretor que entende substancialmente da fantasia e de temores humanos que podem existir nela.

Melhores.7.Sob o mesmo céu

Ao contrário dos filmes anteriores de Cameron Crowe, principalmente Compramos um zoológico, não há uma reiteração do que a história se propõe; é mais fácil perceber, em Sob o mesmo céu, uma opção pela sugestão e por comportamentos estranhos e, algumas vezes, inexplicáveis. Ainda assim, esse caminho não se sente deslocado, mas parte de uma narrativa que se permite a discutir questões românticas e familiares sob o ponto de vista de condução do mundo, ou seja, procurando descobrir para onde ele segue.

Melhores.6.Um pombo pousou num galho refletindo sobre a sua existência

Depois de receber o prêmio de melhor filme em Veneza, Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência passou a ter maior destaque. Com direção do sueco Roy Andersson, trata-se de uma das peças mais surrealistas já feitas depois dos filmes de Buñuel, uma espécie de A árvore da vida com quadros estáticos e tentando reunir características que sintetizem a existência humana.

Melhores.5.Winter sleep

O mais surpreendente no filme de Ceylan é que os seus núcleos dramáticos alcançam uma fluidez rara e as mais de três horas, se o espectador consegue se interessar pelos diálogos, transcorrem rapidamente. Desse modo, Winter sleep, com o auxílio ainda da fotografia de Gökhan Tiryaki, o mesmo de Climas e Era uma vez na Anatólia, é grande cinema. Ceylan tem um talento especial – e nisso talvez Distante continue sendo sua principal obra – para enquadrar as imagens como se fossem realmente pinturas, não apenas pela lentidão da sua narrativa, como pelo cuidado em expor cada um de seus personagens em cena.

Melhores.4.Leviatã

Representante da Rússia no Oscar de filme estrangeiro e vencedor do Globo de Ouro, Leviatã talvez seja o filme mais melancólico deste início de ano, no sentido de que faz um retrato direto de seu país de origem, pela quantidade de personagens envolvidos por uma situação delicada, e consegue, em igual tom, ser uma sátira direta a certo comportamento humano ligado ao Estado e aos meios que este domina.

Melhores.3.Eden

Conhecido como o filme que trataria do Daft Punk, Eden certamente não se restringe a isso. Nascida no início dos anos 80, Mia Hansen-Løve, depois de Os pais de meus filhosAdeus, primeiro amor, comprova ser uma cineasta claramente contemporânea: ela não está interessada em tecer elos óbvios entre os personagens, deixando a cargo do espectador selecionar uma narrativa das imagens.

Birdman.Melhores

Um dos componentes mais interessantes de Birdman é justamente ser um filme que mostra uma peça teatral baseada em “Do que falamos quando falamos de amor”, de Raymond Carver, em que temos alguns temas suscitados ao longo de sua história: a relação problemática entre o homem e a mulher e, sobretudo, a vida como um limite tênue com o desespero e a busca pela personalidade. No entanto, a obra de Iñárritu não se sustenta apenas por ser um filme de referências e autorreferências, ainda que uma conversa no início remeta a Roland Barthes, um dos teóricos da metalinguagem.

Melhores.1.Vício inerente

Paul Thomas Anderson respeita o romance que lhe serve de inspiração na mesma medida que lança seu olhar próprio: os zooms lentos sobre cada personagem em algumas situações, além de remeterem a Altman, mais claramente, possuem a técnica de exatamente diminuir a velocidade da prosa de Pynchon. Desse modo, o que Anderson faz não é exatamente fácil: ele retira todo o movimento dito moderno de Pynchon e coloca suas figuras, com jeito de estarem nas praias californianas, situadas entre tramas estranhas e distantes da realidade. Há um choque – e nisso se concentra a especialidade de Vício inerente. Sem deixar de ser fiel ao livro, o filme de Anderson é outra energia, como diria seu personagem principal, o detetive e hippie juramentado Doc Sportello.

Melhores filmes de 2015.Cartazes

 

Melhores de 2015 (diretores, atores, atrizes… e categorias técnicas)

Por André Dick

O Cinematographe apresenta, a seguir, listas dos cinco melhores nas categorias principais (diretor, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro original e roteiro adaptado) e técnicas (fotografia, trilha sonora, montagem, direção de arte, figurino, maquiagem, efeitos visuais e efeitos sonoros) de filmes exibidos no Brasil ao longo de 2015. Não há, nelas, ordem de preferência. O próximo post apresentará os melhores filmes do ano.

Melhor diretor

Paul Thomas Anderson (Vício inerente), Alejandro González Iñárritu (Birdman), Nuri Bilge Ceylan (Winter sleep), Andrey Zvyagintsev (Leviatã), Mia Hansen-Løve (Eden)

Melhor diretor.2015

Melhor ator

Oscar Isaac (O ano mais violento), Haluk Bilginer (Winter sleep), Michael Keaton (Birdman), Joaquin Phoenix (Vício inerente), Johannes Bah Kuhnke (Força maior)

Melhor ator.2015

Melhor atriz

Julianne Moore (Mapas para as estrelas), Marion Cotillard (Dois dias, uma noite), Regina Casé (Que horas ela volta?), Jennifer Aniston (Cake – Uma razão para viver),  Emily Blunt (Sicario – Terra de ninguém)

Melhor atriz.2015

Melhor ator coadjuvante

Marcello Novaes (Casa grande), Edward Norton (Birdman), Josh Brolin (Vício inerente), Benicio del Toro (Sicario – Terra de ninguém), Roman Madyanov (Leviatã)

Melhor ator coadjuvante.2015

Melhor atriz coadjuvante

Jessica Chastain (O ano mais violento), Mia Wasikowska (Mapas para as estrelas), Emma Stone (Sob o mesmo céu), Reese Witherspoon (Vício inerente), Melisa Sözen (Winter sleep)

Melhor atriz coadjuvante.2015

Melhor roteiro original

Ebru Ceylan e Nuri Bilge Ceylan (Winter sleep), Fellipe Barbosa e Karen Sztajnberg (Casa grande), Mia Hansen-Løve e Sven Hansen-Løve (Eden), Ruben Östlund (Força maior), Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo, Nicolás Giacobone (Birdman)

Melhor roteiro.2015

Melhor roteiro adaptado

Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravenese e William Nicholson, baseados no livro de Laura Hillenbrand (Invencível), Paul Thomas Anderson, baseado no livro de Thomas Pynchon (Vício inerente), Richard Ayoade e Avi Korin, baseado no livro de Dostoiévski (O duplo), Charles Leavitt, Rick Jaffa e Amanda Silver, baseados no livro de Nathaniel Philbrick (No coração do mar), Scott Neustadter e Michael H. Weber, baseados no livro de John Green (Cidades de papel)

Melhor roteiro adaptado.2015

Melhor fotografia

Roger Deakins (Invencível), Benoît Debie (Love), Timo Salminen (Jauja), Christian Berger (À beira mar), Emmanuel Lubezki (Birdman)

Melhor fotografia.2015

Melhor trilha sonora

James Newton Howard (Jogos vorazes: A esperança  – O final), Daft Punk, Joe Smooth, Frankie Knuckles, Terry Hunter (Eden), Jonny Greenwood (Vício inerente), Rich Vreeland (Corrente do mal), Thomas Newman (007 contra Spectre)

Melhor trilha sonora.2015

Melhor montagem

Julio C. Perez IV (Corrente do mal), Alan Edward Bell e Mark Yoshikawa (Jogos vorazes: A esperança – O final), Douglas Crise e Stephen Mirrione (Birdman), Leslie Jones (Vício inerente), Bernat Vilaplana (A colina escarlate)

Melhor montagem.2015

Melhor direção de arte

Frank Aron Gårdsø, Ulf Jonsson, Nicklas Nilsson, Sandra Parment, Isabel Sjöstrand e Julia Tegström (Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência), Virginie Verdeaux (Love), Gavin Fitch, Phil Harvey, Paul Laugier, Rod McLean, Mark Scruton (Peter Pan), Brandt Gordon (A colina escarlate), Stephen H. Carter (Birdman)

Melhor direção de arte.2015

Melhor figurino

Julian Day (No coração do mar), Mark Bridges (Vício inerente), Jaqueline Durran (Peter Pan), Kate Hawley (A colina escarlate), Ellen Mirojnick (À beira-mar)

Melhor figurino.2015

Melhores efeitos visuais

Jogos vorazes: A esperança – O final, Pixels – O filme, Homem-Formiga, Star Wars – O despertar da força, Peter Pan

Melhores efeitos especiais.2015
Melhor maquiagem

Star Wars – O despertar da força, Peter Pan, Mad Max – Estrada da fúria, O destino de Júpiter, No coração do mar

Melhor maquiagem.2015

Melhores efeitos sonoros

No coração do mar, Vingadores – Era de Ultron, Jogos vorazes: A esperança – O final, Perdido em Marte, 007 contra Spectre

Melhores efeitos sonoros.2015

Que horas ela volta? (2015)

Por André Dick

Que horas ela volta

Uma das questões fundamentais para a retomada do cinema brasileiro em larga escala é estabelecer parâmetros. Enquanto os filmes lançados no país forem comparados a comédias recorrentes nas salas de cinema, haverá sempre um círculo de volta para tempos atrás. É impressionante como depois de um início de década passada tão forte, com obras como Cidade de Deus, Abril despedaçado e Bicho de sete cabeças, o cinema brasileiro tem se voltado basicamente a comédias um tanto repetitivas, pelo menos no circuito de distribuição em massa, deixando à margem filmes que poderiam ser melhor reconhecidos e acabam muitas vezes restritos a festivais.
Que horas ela volta?, selecionado para representar o Brasil no Oscar, mas sem chegar à reta final, traz de volta a diretora Anna Muylaert, que fez em 2009 um dos melhores filmes sobre o cotidiano da cidade de São Paulo, em É proibido fumar, com determinadas sutilezas ausentes aqui – ou mesmo em Durval Discos. Com um grande talento em filmar e competência para enquadrar imagens como se fossem símbolos, ela lida com o elenco da melhor maneira possível; aqui é Regina Casé que tem um grande momento como atriz, o melhor talvez desde A marvada carne. Ela interpreta Val, uma empregada de uma mansão de São Paulo. Porém, ela trabalha com um roteiro que retrata um certo rumo de coisas que representariam, no caso, o Brasil.

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No filme de Muylaert, vem primeiro à mente a ideia de que todos que têm condições dominam e os que não têm são explorados. Os que dominam são representados pela família de Carlos (Lourenço Mutarelli), Bárbara (Karine Teles) e o filho Fabinho (Michel Joelsas), que trata Val como sua verdadeira mãe. Mas o que não se percebe, muitas vezes, é o seguinte: Que horas ela volta? é o registro específico de uma empregada que se vê às voltas com a filha, Jéssica (Camila Márdila), que nunca mais havia encontrado e vem aguardar o vestibular como hóspede na casa onde há patrões no mínimo estranhos e pertence não apenas a outra geração, como tem um comportamento totalmente diferente. E o filme, diante desse atrito entre mãe e filha, que é a base da história, e não seu traço social, é também no mínimo engraçado.
Para Muylaert, à primeira vista, esta família parece culpada por querer deixar seus empregados com o mesmo modo de vida. Quando a filha de Val chega à cidade para prestar vestibular, ela logo se torna uma ameaça para a mãe de Fabinho, além de provocar um certo interesse amoroso. Parece ser o mesmo discurso visto em O som ao redor, mas Kleber Mendonça Filho consegue tornar as nuances mais sutis. Ainda assim, não é esse o ponto: Que horas ela volta? subverte o que poderia ser um drama numa espécie de comédia involuntária também sobre o comportamento e a relação entre patrões e empregados. E por causa de Regina Casé, Márdila e o excepcional Mutarelli, o filme escapa do pieguismo com uma sátira corrosiva ao modo de recepção do brasileiro diante do que considera à margem.

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Segundo a diretora, essas pessoas que estudaram e frequentaram a faculdade querem, aparentemente, impedir pessoas de classes menos abastadas a fazer o mesmo – no entanto, isso é negado, por exemplo, pela figura de Carlos, que dá as cartas na família mesmo ficando o dia inteiro em seu ateliê de pintura. Elas parecem querer, em síntese, que tudo permaneça igual para que possam tomar sossegadas seu café da manhã – porém, há a vontade individual do lado que se vê como oposto. E, mais importante, há, principalmente na relação entre Val e Jéssica, um embate entre o comportamento que pode ser visto como antigo e o novo, de não se contentar apenas com a tradição. Quando um filme como Que horas ela volta? é tomado como exemplo de cinema brasileiro, imagine-se que ele desenha um retrato do Brasil. Ele pode tirar um retrato momentâneo, mas ele é extremamente sensível e simples.
Faltam talvez nuances à obra de Muylaert porque o espectador sabe que ela está tratando de determinadas questões e deseja destacá-las em primeira mão. Ele toma as pessoas às vezes como ponto para que seu discurso ecoe. Nisso, constata-se a maior decepção de Que horas ela volta? para quem espera um desenho dramático: ao contrário do que mostra Muylaert, as saídas sempre são mais complexas e não se realizam num passe de mágica. E não dependem especificamente nem da família de Carlos nem apenas de Val e Jéssica, nem de uma piscina, ou seja, o contexto é sempre mais difícil. No entanto, Que horas ela volta? tem uma narrativa que nunca menospreza a sensibilidade de sua protagonista, e Regina Casé consegue realmente transformar uma interpretação que poderia ser apenas engraçada num traço de emoção e agridoce, na despedida de fases e do reencontro com uma nova geração, a da sua filha, e com outra ainda sendo descoberta. Desse modo, Muylaert, quando aparenta transitar entre a análise sociológica e a crítica às classes sociais, quer apenas contar a história de uma mãe que consegue crescer no mesmo passo que sua filha tenta crescer: a fuga do lugar de origem pode ser um risco, mas Muylaert entende que é ela que movimenta não classes e sim indivíduos. Para a diretora, só há mudanças porque há vontades individuais, sem que ninguém necessariamente movimente as peças. E esse é o grande acerto do filme.

Que horas ela volta?, BRA, 2014 Diretora: Anna Muylaert Elenco: Regina Casé, Camila Márdila, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Michel Joelsas, Theo Werneck Roteiro: Anna Muylaert Fotografia: Bárbara Álvarez Trilha Sonora: Fábio Trummer Produção: Anna Muylaert, Débora Ivanov, Fabiano Gullane, Gabriel Lacerda Duração: 114 min. Distribuidora: Pandora Filmes Estúdio: África Filmes / Globo Filmes / Gullane Filmes

Cotação 4 estrelas

 

À beira mar (2015)

Por André Dick

À beira mar 32

A cada ano, surge uma série de filmes bastante superestimados pelo público e pela crítica, alguns em mais intensidade e outros menos. E há aqueles que simplesmente são renegados como se estivessem entre as piores obras feitas durante o ano. Um dos casos mais sintomáticos é o de À beira mar. Logo depois de Invencível, filme sobre a Segunda Guerra Mundial, Angelina (agora assinando com os sobrenomes Jolie Pitt) se caracterizou como a diretora deixada de lado pelo Oscar – uma vez que seu filme era visto como um dos favoritos à estatueta. Em seguida, ela abandonou o escopo épico de Invencível, claramente subestimado, para se deter num drama íntimo, filmado com Brad Pitt, com quem é casada e forma o casal de Hollywood mais conhecido. Este movimento já havia sido perseguido por Stanley Kubrick em De olhos bem fechados, ao reunir Tom Cruise e Nicole Kidman sobre os mistérios da noite e de um casal em vias de se separar.
Em À beira mar, o roteiro é completamente diferente: ele parece recorrer mais àqueles filmes dos anos 70 de Éric Rohmer em que os silêncios se produziam em mais quantidade do que os diálogos e nunca fica bem entendida a relação entre os casais. Não por acaso, o filme de Jolie Pitt foi recepcionado como uma diluição desses filmes. Mais recentemente, tivemos a trilogia de Richard Linklater acompanhando o casal Jesse e Celine por paisagens europeias. Comparado a essa trilogia, À beira mar se sente quase como um filme sem roteiro, devido aos poucos diálogos e a uma repetição do cotidiano durante vários dias.

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No entanto, isso pode esconder o mesmo olhar que Jolie Pitt – atriz em relação à qual nunca tive especial admiração, mesmo em suas melhores interpretações – já mostrava em Invencível: ela prefere captar o ambiente e as atuações do que exatamente seguir uma narrativa linear. E a atmosfera de À beira mar talvez seja ainda mais forte do que aquela que vemos em Invencível, com o casal Vanessa (Jolie Pitt) e Roland (Pitt), escritor que se despediu dos tempos mais inspirados por meio de sobredoses de álcool, que chegam a uma praia de Malta.
Visivelmente abatida por uma depressão, Vanessa passa a maior parte do tempo na cama, enquanto Roland finge que tentará escrever na taverna de Michel (Niels Arestrup). Determinado dia, chega um casal recém-casado ao lugar, Lea (Mélanie Laurent) e François (Melvin Poupaud). Vanessa e Roland passam a observá-los por meio de um buraco existente na parede do quarto, fazendo com que a intimidade alheia passe a ser a intimidade que eles não têm mais. Trata-se de uma história bastante concisa e pouco expansiva, mas Jolie Pitt, como em Invencível, consegue extrair uma densidade e solidão desse par de casais. Os enquadramentos que ela dá à cidade costeira, por meio da direção de fotografia de Christian Berger, são realmente dedicados, e os detalhes dos figurinos – por exemplo, quando Vanessa chega está sempre com vestidos escuros, e quando passa a tentar encontrar uma saída para seu abatimento surgem cores claras e vermelhas  –, além do design de produção de Jon Hutman, que trabalhou com Angelina em Invencível, ajudam a construir também a narrativa.

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Jolie Pitt se encontra num bom momento como atriz, mas é de Brad que ela consegue extrair aquela que seja a atuação mais detalhada e notoriamente envelhecida do astro. Não apenas porque À beira mar também faz o contraste entre um casal mais velho – e Brad e Jolie Pitt não estendem nenhum traço de egocentrismo, pelo contrário eles parecem mostrar uma determinada aceitação de culpa e de envelhecimento, de tédio diante do que consideram seu casamento – e um mais jovem, sempre sob uma ótica interessante de que a paisagem externa, belíssima, pode não atrair e mostrar mais do que detalhes na parede. Nesse sentido, Roland passa, às vezes, a ser um narrador do que acontece no quarto ao lado, como se ele estivesse escrevendo uma nova obra, e também estivesse tentando salvar o seu casamento por meio dessa comparação.
Que alguns críticos, como Peter Travers, tenham extraído uma analogia, por causa de um diálogo, de que À beira mar cheira a peixe podre, não é de se surpreender. Melhores são as comparações de Angelina: entre as rochas e o mar e a água da banheira onde submerge também como se colocasse a melancolia em primeiro lugar; as cortinas balançando e o pescador que volta todos os dias de sua ida ao mar; o olhar agridoce do personagem de Pitt diante de Michel e sua saudade da esposa; a dualidade entre a escrita disfarçada e aquela que surge do contato com a realidade.

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Esta parece mais interessada em vislumbrar a juventude de Lea e François, como se eles fossem recuperar a dela. Lamentavelmente, no empuxe final do terceiro ato parece que a ambição de Angelina Jolie em filmar um estudo europeizado de personagens vindos dos Estados Unidos se perde em certo simplismo, e Mélanie Laurent é claramente subaproveitada; isso, porém, não é o bastante para prejudicar a narrativa e tirar o seu lado enigmático.
Mais do que tudo, À beira mar é sobre a perda de uma juventude e o encontro com uma possível melancolia da qual é preciso sair quando se tem ainda vigor e vontade. Esse é um registro arriscado de Jolie Pitt, mais próximo do cinema europeu, não apenas de Rohmer, como de Antonioni, e serve como uma espécie de assinatura de seus conceitos como diretora, que deseja seguir uma linha certamente independente, mesmo com a possibilidade de fazer apenas outros filmes que sigam a um Sr. e Sra. Smith. É um filme sobre o significado que move um casal, sobre suas ambições e seus receios de se encontrar. Uma grande surpresa.

By the sea, EUA/FRA, 2015 Diretora: Angelina Jolie Pitt Elenco: Angelina Jolie Pitt, Brad Pitt, Mélanie Laurent, Melvil Poupaud, Niels Arestrup Roteiro: Angelina Jolie Pitt Fotografia: Christian Berger Trilha Sonora: Gabriel Yared Produção: Angelina Jolie Pitt, Brad Pitt Duração: 122 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: Jolie Pas / Universal Pictures

Cotação 4 estrelas e meia

 

Love (2015)

Por André Dick

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O diretor franco-argentino Gaspar Noé sempre foi conhecido por seus filmes polêmicos, a começar por Sozinho contra todos, mas, principalmente, por Irreversível, desde o seu lançamento em Cannes. O Festival francês costuma ser o palco da estreia de seus filmes, e o mesmo ocorreu com Enter the void, em 2009, e Love em 2015 – em ambas as ocasiões sem receber nenhum prêmio ou mesmo ter um destaque especial. Se Enter the void tornou-se, com o tempo, numa obra referencial – e parece, em retrospectiva, o melhor trabalho de Noé –, tudo indica que com Love (lançado nos cinemas em 3D) possa acontecer o mesmo, levando em conta se tratar de uma história sobre um triângulo amoroso que se depara com uma determinada realidade.
O estudante de cinema Murphy (Karl Glusman), depois de receber uma ligação da mãe de sua antiga namorada, Electra (Aomi Muyock), passa a recordar dela, enquanto procura enfrentar o momento que vive, ao lado de Omi (Klara Cristin), com quem tem um bebê. Ele lamenta os rumos que sua vida tomou e principalmente por ter se afastado daquele que considera o amor de sua vida. Aos poucos, descobrimos que Omi foi a peça de um triângulo amoroso do canal, num momento em que a confiança que poderia existir (e ao longo do filme se mostra cada vez mais ambígua) acaba sendo desconstruída.

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Gaspar Noé, como em Enter the void, acompanha Murphy não raras vezes pelas costas, colocando o personagem em corredores de apartamento, de ruas ou de clubes noturnos. Trata-se de um estilo inconfundível e que se mostra ainda mais evidente ao longo de Love. Como Enter the void, também, há uma influência notável de 2001 em muitas sequências. Apresentando-se aos outros como responsável já por vários projetos, Murphy tem o filme de Stanley Kubrick como o seu favorito. Já havia um cartaz dele numa das paredes do apartamento do casal vivido por Cassel e Belucci em Irreversível, e em Enter the void essa influência se dava principalmente no jogo de luzes. Mas parece ser em Love que tal influência se materializa em vários lugares pelos quais Murphy passa.
Quando ele chega a uma galeria de arte – em que o responsável é vivido por Gaspar Noé –, o fundo dela se projeta com a mesma brancura do quarto vitoriano de 2001; quando Murphy e Electra passam a viver momentos arriscados sexualmente à noite, projeta-se um vermelho que remete ao subterrâneo como também à cabine de HAL-9000; isso sem contar as inúmeras cenas de sexo em que a iluminação vai alternando cores como amarelo, verde e vermelho, dependendo do que sugere cada relação. Noé imagina uma idealização do amor também em alguns cenários – o primeiro encontro de Murphy acontece num restaurante com luz agradável; depois, quando Murphy e Electra se mostram apaixonados, há um pano de fundo como se fosse um quadro, com dois flamingos posicionados à esquerda. Em outro momento ainda, outras referências: um cartaz de O nascimento de uma nação numa parede, e o Motel Love, de Enter the Void, ao lado da cama de Murphy, anunciam que este é um filme que adentra o imaginário de um personagem preso entre a realidade e sua fuga cinematográfica.

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Não me parece que Gaspar Noé, apesar das cenas de sexo recorrentes, esteja interessado em usá-lo como retrato de uma sociedade, pelo menos como Von Trier, de Ninfomaníaca. A impressão é que ele, numa tradição que focaliza a liberdade sexual, está mais interessado em compor ligação com O último tango em Paris, na maneira como Murphy vai se entregando aos prazeres da carne, e Os sonhadores, ambos de Bertolucci, embora com uma visão diferente do que seria o amor. Chega a ser curioso que o filme tenha sido vendido – com o apoio, é bom dizer, do próprio Noé – como uma polêmica calcada na pornografia. Love atinge uma tranquilidade nos momentos-chave, sem fazer com que os personagens sejam vistos de maneira apenas impulsiva. Como já mostrou em Irreversível e Enter the void, o amor e o sexo surgem quase como pedaços de um trauma do indivíduo – e não é diferente com Murphy, alguém que acreditava numa determinada relação antes de ser despistado por uma realidade com a qual não gostaria de conviver. Electra, para ele, nesse sentido, simboliza uma liberdade e a fantasia do cinema, o que seu relacionamento e a família não lhe concedem. É um material bruto para Noé, e ele se esmera num jogo de cores para fazer valer essas figuras e essas questões. Os diálogos não são o forte da narrativa, mas os atores tentam dar plausibilidade a cada situação, e de certo modo conseguem.
É por meio da quase inação desse triângulo que Noé desenha um retrato sobre o receio de perder um amor e a necessidade de reencontrá-lo em algum momento para que se possa compreender o que aconteceu. É como se esses personagens quisessem se apegar ao sexo para esquecerem da dor que pode angustiá-los, mas de certo modo se deparassem com o fato de que as lembranças são mais fortes e os constituem. De certa maneira, é o que já fazia sentido em Enter the void e ganha uma captura aqui mais naturalista, não apenas pelos cenários mais apegados ao cotidiano e pelo sexo sem a profusão de luzes que caracteriza o filme de 2009.

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Mais do que liberador, Love tem uma estranha sensação de que os personagens não podem se libertar daquilo que sentem e que isso necessariamente os afasta, pois nenhum tem o mesmo interesse do que o outro. Ou seja, a vida que cada um escolhe para si não tem nenhuma oportunidade de fazer com que a outra, que poderia estar junto, se mantenha como tal. Desse modo, o que pode soar como algo conservador faz com que entregue o principal argumento desta obra de Noé: a expectativa pela permanência pode estar naquilo que soa transitório e efêmero. É o que Love tem em comum com o restante da obra de Noé, que volta no tempo para recordar que a palavra central é amor. Este filme, portanto, guarda uma segunda superfície, em que os personagens parecem se esconder do que são, mas em algum ponto vão sempre se revelar, seja onde for. Como surpresa, a obra tem sua justificativa nessa tranquilidade.

Love, FRA/BEL, 2015 Diretor: Gaspar Noé Elenco: Aomi Muyock, Benoît Debie, Deborah Revy, Gaspar Noé, Isabelle Nicou, Juan Saavedra, Karl Glusman, Klara Kristin, Stella Rocha, Vincent Maraval, Xamira Zuloaga Roteiro: Gaspar Noé Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Virginie Verdeaux Produção: Brahim Chioua, Edouard Weil, Gaspar Noé, Rodrigo Teixeira, Vincent Maraval Duração: 134 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Les Cinémas de la Zone / Rectangle Productions / RT Features / Scope Pictures / Wild Bunch

Cotação 4 estrelas

American Ultra – Armados e perigosos (2015)

Por André Dick

American Ultra

A parceria entre Jesse Eisenberg e Kristen Stewart já proporcionou um filme referencial sobre adolescência chamado Adventureland (lamentavelmente traduzido no Brasil como Férias frustradas de verão, como se fosse uma continuação da série da família Griswold). Em American Ultra – Armados e perigosos, eles retomam essa parceria fazendo um casal apaixonado, Mike Howell e Phoebe Larson. No entanto,  como o Truman de Jim Carrey, Mike não consegue nunca sair de sua cidadezinha, Liman, onde trabalha numa loja de conveniência, pois sempre acaba tendo uma surto de pânico, e tem receio de pedir a mão da namorada em casamento. Determinado dia, surge Victoria Lasseter (Connie Britton), que pretende avisá-lo sobre algo que está para acontecer em sua vida e utiliza para isso uma série de códigos, a fim de que ele possa relembrar seus talentos escondidos.
Embora o trailer anunciasse mais uma comédia, com o casal em ritmo de Doc Sportello, de Vício inerente, o filme se destaca por ser um thriller de perseguição, American Ultra tem boa direção de Nima Nourizadeh (Project X) e um punhado de boas ideias, mesmo que elaboradas com uma pressa narrativa. Há algumas comparações com A identidade Bourne, e realmente tem pontos de semelhança. Muito violento, ele dialoga também com Kingsman, usando as brigas como ponto de comicidade, e com Hanna (e particularmente me parece superior a ambos). A pergunta é quem seria exatamente Mike, ou seja, qual o seu passado e o que ele esconde.

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À primeira vista, ele parece apenas parte de uma van saindo de Seattle para alguma turnê na época do grunge, mas seu estilo parece mais comedido e romântico, sempre interessado em agradar à sua namorada. Para responder a parte dessas respostas, podemos ter como referências Adrian Yates (Topher Grace), Raymond Krueger (Bill Pullman) e um programa de governo que treinava homens especializados em combate, intitulado Ultra. Em meio à sucessão de conflitos que se estabelece a partir dessa premissa, temos ainda Rose (John Leguizamo), o traficante de drogas de Mike, que junto com o amigo se vê envolvido nas mesmas questões. E são colocados no encalço de Mike Laugher (Walton Goggins) e Crane (Monique Ganderton). O problema é que Mike está mais interessado em se dedicar a seu projeto Apollo Ape, de quadrinhos, linguagem na qual o filme vai buscar seu caminho, principalmente em muitas sequências rodadas com um grande fluxo e uma passagem pelo lugar onde mora Rose, com seus grafites iluminados à noite. A pressa narrativa, no entanto, não tira desses personagens um acentuado sentido de abandono e isolamento de um mundo à parte, àquele ao qual pareciam pertencer e, diante dos novos fatos, não parece tão acessível de ser entendido.
É uma característica que está presente em A identidade Bourne, mas não exatamente no filme recente que mais se aproxima deste em sua concepção de mescla entre humor e ação: Kingsman. Além de tudo, o roteiro de Max Landis consegue agregar algumas outras referências, especialmente ao primeiro O exterminador do futuro na sequência de uma delegacia e alguns lances que poderiam ser pensados por Edgar Wright sobretudo em seu Hot Fuzz – Chumbo quente, em um supermercado. Nesse sentido, o acentuado humor ligado à tensão de algumas cenas poderia, sem dúvida, ter sido pensada pelo criador de Scott Pilgrim.

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Infelizmente colocado na lista de falhas na bilheteria do ano, a nova parceria de Eisenberg e Stewart é no mínimo curiosa e inteligente, fazendo jus ao seu marketing antecipado. Eisenberg oferece uma ótima atuação como de praxe, enquanto Stewart não deixa a parte dramática diminuir. Lamenta-se apenas que ela continue sendo colocada em segundo plano, quando já apresentou tantas atuações convincentes, como em O silêncio de Melinda e Runaways. Impressiona como o casal possui uma química interessante, não apenas neste como no anterior Adventureland (e não por acaso estará junto novamente no próximo filme Woody Allen). Há, junto com um roteiro que busca algumas surpresas em meio a clichês habituais, um cuidado visual muito interessante, principalmente na fotografia de Michael Bonvillain (de outro filme com Eisenberg, Zumbilância). Entre os coadjuvantes, Leguizamo e Topher Grace se destacam – mesmo que Grace repita os seus trejeitos já vistos principalmente na série em homenagem aos anos 70 pela qual é tão conhecido. No geral, é uma diversão descompromissada, visualmente interessante e bem feita, na qual se lamenta apenas que os personagens não sejam tão desenvolvidos, em razão do elenco talentoso. Do tipo de filme a que se assiste novamente sem reclamações.

American Ultra, EUA, 2015 Diretor: Nima Nourizadeh Elenco: Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Topher Grace, Monique Ganderton, Walton Goggins, Connie Britton, John Leguizamo, Bill Pullman, Nash Edgerton, Tony Hale Roteiro: Max Landis Fotografia: Michael Bonvillain Trilha Sonora: Marcelo Zarvos Produção: Anthony Bregman, Britton Rizzio, David Alpert, Kevin Scott Frakes, Raj Brinder Singh Duração: 95 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Bridge Finance Company, The / Circle of Confusion / FilmNation Entertainment / Likely Story / Merced Media Partners / PalmStar Entertainment / PalmStar Media

Cotação 3 estrelas e meia

Lançamentos em VOD (2)

Férias frustradas

Cotação 3 estrelas e meia

Férias frustradas

Quem lembra de Rusty Griswold deve saber que ele é filho de Clark (Chevy Chase) e Ellen (Beverly D’Angelo). Se no primeiro filme ele era interpretado por Anthony Michael Hall, na sequência da franquia Férias frustradas temos Ed Helms em seu lugar, logo depois do êxito da série Se beber, não case. Esta continuação – e não refilmagem – da série iniciada em 1983 tem certo poder de nostalgia que falta a outros filmes que desrespeitaram o filme original, como, no ano passado, Debi & Loide 2. Helms não é bom comediante como Chevy Chase, mas ele consegue sustentar a narrativa. Christine Applegate, na pele de sua esposa Debbie, é igualmente boa presença, tal qual os atores que fazem seus filhos, Skyler Gisondo como James e Steele Stebbins como Kevin. Há dois anos, aconteceu o inesperado sucesso de We’re the Millers (com péssimo título no Brasil), inspirado em Férias frustradas e também com Helms, lá em papel coadjuvante.
Pode-se dizer que esse reinício possui cenas que lembram o original de Harold Ramis e longa desta família que vai buscar drogas no México. Não há dúvida de que há piadas mais pesadas, menos ingênuas, e certa violência em algumas (e Chris Hemsworth faz uma participação que o afasta do Thor shakespeariano). Talvez por me agradar com os dois filmes iniciais da série antiga (os outros são fracos), tenha me agradado tanto a retomada das férias desta família. Também porque a primeira canção depois da clássica “Holiday Road” seja “Left & Right in the Dark”. Os coadjuvantes, principalmente Gisondo, estão muito bem e servem de apoio – com destaque para Charlie Day, numa participação particularmente impagável, tão absurda quanto realmente efetiva. Entendo perfeitamente por que esse tipo de humor não funciona para de muitos; não poderia, entretanto, mesmo que haja piadas excessivamente fracas, negar que o filme funciona num plano montagem e animação.

Ted 2

Cotação 3 estrelas e meia

Cartaz.Ted 2Logo depois do contestado Um milhão de maneiras de pegar na pistola, Seth MacFarlane volta ao grande personagem de sua estreia nos cinemas, o ursinho Ted. Se o filme já inicia lembrando o primeiro, com Ted casando com Tami-Lynn (Jessica Barth), sua colega de trabalho, logo essas semelhanças se acentuam, com a aparição de Sam Jones, o Flash Gordon. No entanto, MacFarlane adota um outro tipo de narrativa nesta continuação: Ted não é mais uma celebridade e deseja ser visto como um ser com sentimentos e não apenas como mera propriedade, depois de ter seus direitos como cidadão ameaçados. Ao seu lado, estão Tami-Lynn, com quem deseja ter um filho, e John Bennett (Mark Wahlberg). Para invocar seus direitos, Ted recorre a uma advogada novata, Samantha Leslie Jackson (Amanda Seyfried). Não é grande surpresa o estilo de piadas de MacFarlane. Assim como no primeiro e em seu faroeste cômico, ele abusa de piadas ditas politicamente incorretas – talvez ainda mais do que na primeira história (as discussões envolvendo drogas talvez soem às vezes exaustivas). Isto não elimina a química entre ele e John, com o acréscimo de Samantha, feita por uma Seyfried mais à vontade do que Mila Kunis. Pode-se criticar MacFarlane pelo ritmo um pouco mais lento em alguns trechos, em razão da longa duração (quase duas horas), no entanto ele sabe melhor do que no primeiro dar ênfase no personagem de Ted. Há também, novamente, muitas referências aos anos 80 e 90, como Clube dos cinco, Rocky III e Jurassic Park, nada que já não houvesse no primeiro, de qualquer modo.
Particularmente, não esperava um filme à altura do primeiro, que foi muito divertido e é mais bem solucionado em termos de edição. Ainda assim, Ted 2 consegue se apresentar como um filme que provoca e tem certa sinceridade afetiva, tal como o anterior. Wahlberg e Seyfried funcionam muito bem juntos, enquanto MacFarlane novamente empresta vida com a voz de Ted. E há boas participações do elenco coadjuvante e algumas surpresas. É um produto da cultura pop, assim como aquela que satiriza, com seus passeios pelo interior dos Estados Unidos e, apesar da tentativa, não ofende o espectador.

Star Wars – O despertar da força (2015)

Por André Dick

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Depois de O retorno de Jedi, em 1983, George Lucas resolveu fazer uma segunda trilogia, contando a origem de Darth Vader, e os filmes que conhecemos (de 1999, 2002 e 2005) alternaram bons e maus momentos, mas não chegando a capturar novamente a magia da saga inicial. Era de se esperar, a partir daí, que não houvesse mais filmes envolvendo a família Skywalker nem suas gerações futuras. Não era o que pensava George Lucas quando vendeu os direitos de sua criação para os estúdios Walt Disney pela bagatela de 4 bilhões de dólares. Naturalmente, os estúdios Disney passaram a conceber uma nova trilogia, que desse sequência a O retorno de Jedi e trouxesse de volta os personagens que arrebataram fãs entre o fim dos anos 70 e o início dos anos 80 e constituem uma mitologia à parte dentro do cinema. Para lidar com mitologias cinematográficas, o nome mais acessível nos últimos anos é o de J.J. Abrams. Criador da série Lost, ele fez a terceira parte de Missão impossível e, em seguida, produziu uma espécie de mistura entre Godzilla e Alien em Cloverfield. Mas foi justamente com a retomada de Star Trek, mostrando os personagens em sua juventude, que elevou Abrams ao status de diretor de franquias. Super 8 e a segunda parte de Star Trek apenas antecederam o que ele entrega de melhor: a nostalgia de se reviver um cinema que parecia perdido no tempo.

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O seu Star Wars – O despertar da força é baseado justamente nessa configuração que o levou a ser o cineasta predileto para retomadas de um universo. Ao contrário de Star Trek, no entanto, percebe-se que em Star Wars Abrams não teve a mesma disponibilidade e segurança para empregar o seu próprio universo, que alterna um humor quase desleixado, se não fosse também bastante elaborado. Sua parceria com Lawrence Kasdan – roteirista de O império contra-ataca e O retorno de Jedi – na elaboração da história (a presença de Michael Arndt não parece tão grande) mostra que ele quis retomar alguns caminhos já entregues na primeira trilogia. Desta vez, quem vive no deserto – de outro planeta, Jakku, reservado a ferro-velho – é Rey (Daisy Ridley), em busca de sucata para conseguir mantimentos e sobreviver, que determinado dia encontra um androide perdido, BB-8, que pode trazer, como o R2-D2 no filme inaugural, dados importantes para localizar um determinado personagem. Ao mesmo tempo, temos o dilema de Finn (John Boyega), um stormtrooper que não pretende seguir os mandamentos do novo senhor do lado escuro, Kylo Ren (Adam Driver) – que age ao lado de General Hux (Domhnall Gleeson, nunca antes tão vilão) – e pretende ter uma nova vida.
Abrams tem um grande cuidado ao introduzir esses novos personagens, com o carinho que George Lucas tinha com os seus na primeira saga. Rey é, inicialmente, uma personagem já bastante próximo do público, por sua personalidade cercada de um heroísmo sem o lado espetaculoso. Sua intérprete, Daisy Ridley, é uma descoberta, também por sua semelhança com os registros mais recentes de Keira Knightley, em Anna Karenina e Mesmo se nada der certo, quando sua porção como atriz melhorou muito. Por sua vez, Finn é decisivamente firmado pela interpretação de Boyega, que consegue despertar uma empatia imediata com o espectador. Suas ações vão se encontrar – e isso não é um spoiler – com os personagens antigos, Han Solo (Harrison Ford, em bela atuação) e Chewbacca (Peter Mayhew), num emaranhado de situações que podem lembrar desde o recente Guardiões da galáxia até os filmes antigos da saga, principalmente O império contra-ataca e O retorno de Jedi.

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Star Wars VII

Abrams tem um cuidado visual muito grande em sua obra, e com Star Wars não é diferente. As partes que alternam lugares com árvores remetem a O retorno de Jedi e as paisagens geladas recordam imediatamente O império contra-ataca. Ainda assim, sente-se que Abrams realmente quer dar um toque autoral ao filme quando escolhe, nesse caminho, focar no conflito trazido pelo vilão Kylo Ren. Não lembro de outra atuação tão efetiva de Adam Driver em sua curta trajetória, mais conhecido pelas peças que fez com Noah Baumbach e nos quais não chega a ter um brilho especial. Como vilão, Driver potencialmente consegue mostrar um componente trágico e que leva a narrativa a uma situação realmente devastadora. Ele não tem a mesma contundência daquela que mostra Benedict Cumberbatch no segundo Star Trek, mas não deixa a dever em termos de ameaça quando finalmente tem um roteiro para trabalhar.
Ainda assim, Abrams fornece ao espectador alguns problemas que não eram encontrados em Star Trek: vejamos como ele elabora rapidamente as ligações de alguns personagens, mas não consegue dar o mesmo fluxo emocional, em razão, principalmente, de estar preso à continuação de uma linhagem. Em Star Trek, ele tinha liberdade porque estava subvertendo o imaginário de Roddenberry, oferecendo uma nova roupagem a Kirk e a Spock. Ele não pode fazer o mesmo com Han Solo ou Princesa Leia, personagens icônicos e que os admiradores da série ligam aos filmes originais. De qualquer modo, ele consegue, principalmente com Han Solo e Chewbacca, mais uma parceria baseada em certo bom humor que consegue agradar ao espectador. E Carrie Fisher surpreende com segurança, sendo, em certa medida, desperdiçada, pelo menos quanto ao potencial que seu personagem apresenta para o núcleo da história.

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Abrams também tem um olho muito atento para os cargueiros e as naves imperiais, além das naves dos rebeldes (novamente), assim como com os stormtroopers, como se ele pudesse reviver parte da infância brincando com esses objetos e efeitos especiais. Há sequências de batalha muito bem filmadas, principalmente uma em que se pronuncia sobre as ruínas de um determinado local, bastante longe do CGI apresentado por Lucas na sua segunda trilogia – é visível como Abrams tentou realmente construir os cenários e evitar a computação gráfica. Existe uma imponência maior no que se refere ao tamanho das naves e aos detalhes que elas carregam, quase inexistentes nos originais. Em alguns momentos, há cenários e figurinos um pouco desajeitados na tentativa de atingir a atmosfera dos originais, sobretudo de clubes esfumaçados com criaturas estranhas, em que surge Maz Kanata (Lupita Nyong’o, por trás da maquiagem e dos efeitos especiais), contrabalançado por uma fantástica concepção de paisagens invernais ao som do que o espectador deseja presenciar nessa continuidade da saga. Abrams não é tão cuidadoso quanto Lucas ao mostrar criaturas horrendas: se Lucas quer focar seu lado cômico, Abrams as emprega com ameaça, como em Super 8 e Cloverfield (não há humor, e sim violência nelas). Há uma certa dose desmedida de violência atípica para uma produção da Disney e mesmo em relação aos episódios anteriores de Star Wars, mais distante da fantasia.
Em termos de visão política, se George Lucas quis carregar todas as tintas na analogia de sua segunda saga com o Senado norte-americano do período de George W Bush, aqui em Star Wars o novo império surge quase como um Terceiro Reich, principalmente numa sequência grandiosa, parecida com o que veríamos num filme sobre a Alemanha nazista. Este elemento destoa, em parte, do universo fantástico que vemos – e Lucas não arriscou sequer em seu segundo filme –, mas não tira o mérito de Abrams.

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Ele, na verdade, parece querer reprisar o que Lucas fez em Guerra nas estrelas com um olhar moderno. Em certos momentos, consegue atingir isso: mostra como os destroços podem constituir uma linguagem. Em outros, apenas se confunde, não dando a importância necessária a personagens como os de Poe Dameron (uma boa criação de Oscar Isaac, ainda que ligeira, pelo menos neste primeiro capítulo da nova trilogia) e Lor San Tekka (Max von Sydow), além do ótimo androide BB-8. É difícil dizer, mas Abrams não consegue a mesma imponência de Kershner e Marquand nos filmes que seguiram ao primeiro Guerra nas estrelas porque lhe falta, aqui, em parte, a liberdade que necessitava, que era justamente empregar sua visão mais pessoal ao universo de Lucas. Sem o grande criador, parecia que estava sendo mais livre, no entanto o contrário acontece algumas vezes: Abrams se apega demais à arquitetura original, sem acrescentar muito da sua, o que se apresenta, principalmente, no terceiro ato. Ele, de certo modo, acerta mais quando cria uma certa aura de mistério, entregando os personagens de modo enviesado. Em alguns momentos, por outro lado, as ações deles não parecem ter a devida ênfase e a interação mais possível. Isso não tira seus méritos na recuperação desse universo, na sua tentativa explícita de se declarar a ele, como quando se busca a mesma força dos novos personagens centrais, que atraem grande parte da energia dessa história e realmente guardam para o espectador um universo grandioso. É muito bom estar de volta a esse universo e à continuação de uma linhagem extraordinária.

Star Wars: The force awakens, EUA, 2015 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Max von Sydow, Peter Mayhew, Gwendoline Christie, Ken Leung, Greg Grunberg Roteiro: J.J. Abrams, Lawrence Kasdan, Michael Arndt Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Bryan Burk, J.J. Abrams, Kathleen Kennedy Duração: 136 min. Estúdio: Bad Robot / Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas

Lançamentos em VOD

O Cinematographe agora passa a comentar alguns lançamentos em video on demand.

Cidades de papel

Cotação 4 estrelas

 

Cidades de papelUm romance pop de um autor pop poderia redundar apenas num filme descartável. Não necessariamente. Isso já aconteceu ano passado, em se tratando de John Green. A culpa é das estrelas era um filme muito acima da média, aparentando apenas uma mensagem juvenil. Em Cidades de papel, o drama não é tão acentuado. Nele, acompanhamos Quentin (Nat Wolff), apaixonado pela vizinha que mora em frente à sua casa, Margo Roth Spiegelman (Cara Delevingne). Depois de um determinado acontecimento, ela desaparece, mas deixa pistas para que ele possa encontrá-la.
Com a ajuda dos amigos Ben (Austin Abrams) e Radar (Justice Smith), Quentin quer entender por que ela deixo tudou. Assim, Cidades de papel tem uma torção de investigação infantojuvenil, mas quem dá razão a tudo é Nat Wolff, o excepcional ator que surgiu em Palo Alto e também aparece em A culpa é das estrelas. Com roteiro acertado de Scott Neustadter e Michael H. Weber, também de A culpa é das estrelas, além de (500) dias com ela e O maravilhoso agora, embora sem traços grandes de originalidade, o filme é investido desde o início por uma atmosfera fantasiosa e de mudança de fase. Ele não chega a elaborar seus temas do modo que certamente poderia, no entanto é inegável que possui o que alguns outros filmes ditos melhores não possuem: um coração. Eu sei que a maioria vai para esse tipo de filme com a boa intenção de querer detestá-lo; nesse meio caminho, pode ser que se perca uma peça de qualidade.
O diretor Jake Schreier, além de extrair uma atuação de destaque e cível de Wolff, revela Austin Abrams e Justice Smith. A partir da metade, a trama parece perder um pouco o fôlego; de qualquer modo, ele se mantém estável com personagens interessantes e uma viagem feita a partir do verso “Eu contenho multidões”, de Walt Whitman. A base do roteiro leva o imaginário americano da viagem na estrada como ponto para se encontrar alguém realmente especial, que pode conter multidões, e Quentin visualiza isso em Margo. Com uma inesperada melancolia, Cidades de papel é mais do que se espera: ele projeta a adolescência como uma imaginação que precisa ser finalmente resgatada do esquecimento e em seguida superada. É muito mais do que aparenta.

Magic Mike XXL 

Cotação 3 estrelas e meia

 

Magic Mike XXLDepois do grande sucesso de 2012, Steven Soderbergh já ameaçou deixar o universo do cinema. Nesta continuação de seu Magic Mike, ele assina com pseudônimo a direção de fotografia e a montagem, deixando o comando oficialmente a Gregory Jacobs. Bastante elogiado nos Estados Unidos, entende-se por que Magic Mike XXL foi visto, inclusive, como superior ao primeiro: há nele uma espécie de despedida de uma fase e de uma alegria, mas também uma espécie de aceitação em clima quase de melancolia e introspecção.
Channing Tatum resolveu algumas de suas limitações e consegue até mesmo ser plausível no papel de Magic Mike, e o elenco coadjuvante é muito bom, principalmente Joe Manganiello e Matt Boomer, que proporcionam alguns diálogos interessantes. Andie McDowell faz uma ótima participação especial, assim omo Jada Pinkett Smith num filme que contrasta o pôr do sol e o anoitecer com o amanhecer ensolarado. É a promessa de uma América que pode existir apenas em sonhos – e que ainda é vislumbrada.
O que dificulta um pouco não é apenas a seção de dança prolongada, destoando da agilidade da narrativa, mas a pouca vontade do roteiro em explorar melhor esses personagens. O filme é realizado de maneira descompromissada e impressionantemente humana, com uma fotografia realmente marcante de Soderbergh, levando as situações com uma lentidão quase europeia. É uma obra muito interessante na medida em como extrai qualquer sentido de culpa dado ao uso do corpo e, no mesmo embate, principalmente por meio do personagem de Amber Heard. E no entanto algo falta nisso tudo: a narrativa é excessivamente demarcada em cenas longas, embora ágeis, e lembra por vezes um documentário. A agilidade excelente da montagem acaba diminuindo a interação, e deixa a sensação de um filme, ainda que de qualidade, incompleto.

Viagem a Darjeeling (2007)

Por André Dick

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Resultado de uma viagem de Wes Anderson com Roman Coppola e Jason Schwartzman à Índia, Viagem a Darjeeling tem, desse modo, uma referência cultural amplamente discutida principalmente desde os anos 60 dos Beatles. A atmosfera psicodélica dessa década também não deixa de se reproduzir na profusão de cores despertada por esse país, à procura não de um choque entre culturas, mas uma procura pela convivência harmoniosa entre elas, assim como as mercadorias a serem carregadas na cabine de um trem e um exemplo para a tentativa de buscar um conforto espiritual. Não por acaso, o roteiro produziu a história de relacionamento entre três irmãos da família Whitman (nome simbólico): Jack (o próprio Schwartzman), Peter (Adrien Brody) e Francis (Owen Wilson). E, se apenas Brody não fazia parte do elenco natural de Anderson (até regressar no recente O grande Hotel Budapeste), não significa que ele também não seja um reflexo de outros personagens de filmes do diretor. Seu Peter é o homem que tenta buscar equilíbrio entre os exageros dos irmãos, embora também não se mostre exatamente alguém a ser seguido; na filmografia de Anderson, ele parece o tenista de Os excêntricos Tenenbaums e o filho indefinido de Steve Zissou.
Talvez o ator predileto de Anderson (sem diminuir a participação de outros), Bill Murray interpreta um homem correndo numa estação de trem, e logo vemos Peter se colocando à sua frente. Este e seus irmãos empreendem uma viagem à Índia para tentarem encontrar a mãe (Anjelica Huston), depois da morte do pai, e o objetivo também é se reconciliarem de maneira com que possam ser vistos como uma família. Viagem a Darjeeling tem como objetivo situar esses irmãos num momento-chave de suas vidas e, se pelas cores cada vez mais vivas, parece cartunesco, quase uma prévia clara de O fantástico Sr. Raposo, surge em igual intensidade o seu trabalho afetivo entre os personagens.

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Enquanto Jack é o mais volúvel, tendo sido deixado pela namorada (Natalie Portman, mais destacada no curta Hotel Chevalier, que acompanha o filme), após esta lhe recomendar um caminho de espiritualidade, Peter tenta relembrar seu pai a todo momento, dizendo-se o filho favorito, e Francis fica enciumado porque ele usa o barbeador do pai: “Isso é uma herança dele; não privilégio seu”. É dele a ideia da viagem, depois de um acidente de moto, que o obriga a passar todo o filme com a cabeça quase totalmente coberta por faixas por causa dos ferimentos.
Depois de seu questionamento, há muitas coisas a acontecer em Viagem a Darjeeling, inclusive às voltas com uma atendente, Rita (Amara Kahn), e um comissário (Waris Ahulwalia), mas nenhuma delas tão importante quanto a tentativa de manter a memória familiar como uma paisagem a ser visitada quando se deseja, nos momentos mais tranquilos ou incômodos. O trem, nesse sentido, passa a ser um símbolo desse encontro: com cabines apertadas e corredores abertos à passagem da câmera de Anderson, mas dialogando com a imensidão da paisagem externa, esses corredores acabam mostrando que os personagens, seja para onde tentarem ir, não poderão escapar uns dos outros, e o encontro acaba sendo mais do que necessário: é uma imposição, precisa existir.
Após o criticado A vida marinha com Steve Zissou, Wes Anderson passou alguns anos elaborando esta obra que busca na humanidade o principal diálogo. Cada movimento de câmera, as cores evocando a Índia, com influência do cineasta Satyajit Ray, ou de filmes, como Passagem para a Índia, a tentativa de atingir uma espiritualidade, o enfrentamento da morte e o desapego são temas espalhados ao longo da obra de Anderson, mas não de forma tão intensa e despreocupada quanto em Viagem a Darjeeling.

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A sua habitual técnica para compor cenários, com a ajuda do fotógrafo Robert D. Yeoman, a partir de locais corriqueiros, lidando com uma paleta de cores desencavada de algum livro infantil, só consegue dialogar com a tristeza dos personagens centrais quando se deparam com um momento delicado e com o pai de um menino que tentam ajudar (Irfan Khan), perdidos no meio de um lugar desconhecido. É exatamente em dado momento, quando se recupera os momentos que antecederam o enterro do pai um ano antes, que Viagem a Darjeeling se torna mais próximo de uma humanidade procurada em cada gesto. Veja-se, por exemplo, quando os irmãos estão num ônibus e são convidados a participar de uma determinada situação que tanto os coloca numa situação de mudança como faz o filme emergir de um certo ritmo aparentemente mais descompromissado para se fixar nas razões existenciais de cada um deles.
Aqui, mais do que em outros filmes seus, Anderson está preocupado em estabelecer um vínculo existencial desses personagens com o seu passado: há algo nesse passado que os afasta, mas é preciso reconhecer que sem ele não existiriam como indivíduos. Anderson aborda com tanta sutileza este tema que é interessante ver como há um crescimento em seu olhar, depois de temas tratados aqui terem sido elaborados também, com outras características, nos primeiros filmes. Em Viagem a Darjeeling, existe uma elaboração mais madura, em conjunto com a trilha sonora dos Kinks e a câmera lenta agradável. Sempre quando se coloca nos cenários que servem de passagem à sua narrativa, Anderson procura a ambientação buscada pelos irmãos.

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Ao contrário da profusão psicodélica, os enquadramentos de Yeoman são voltados a uma espécie de concentração do diretor em reproduzir nesta paisagem da Índia traços de uma determinada escola de cinema francesa, e o tom amarelo desencadeia cada cenário, o que pode ser destacado já em Hotel Chevalier, com os roupões utilizados por Jack e a presença de Natalie Portman. No entanto, essa aparente tranquilidade dos cenários pode sempre ser interrompida por algum acontecimento inusitado e a concentração dos Whitman em buscar sua espiritualidade nunca esquece, por outro lado, o quanto ela depende dos seres humanos que estão à volta ou foram deixados, sem intenção, para trás. E isso justamente leva a que um dos irmãos pergunte aos demais se eles, caso não fossem irmãos, seriam pelo menos amigos.
O ambiente familiar – ou a ausência dele, como para o jovem de Rushmore – é uma característica que liga todos os filmes de Anderson, mas sobretudo Os excêntricos Tenenbaums, A vida marinha com Steve Zissou e Moonrise Kingdom. Os irmãos Whitman estão viajando de trem quando precisam finalmente enfrentar uma noite no deserto, e temos uma espécie de animação humana, antecipando o Sr. Raposo, no momento em que se risca a luminosidade da fogueira em meio à escuridão. Ao acordarem, caminham com as malas do pai, em busca finalmente de um certo conhecimento sobre o lugar em que se encontram, mas ainda assim não conseguem se recuperar, pois seus pais não estão presentes. Anderson separa alguns símbolos, como os ferimentos de Jack e as malas do pai como elementos de uma jornada interior para que se descubra realmente os objetivos de cada um – o grandioso no microscópico: não se necessita de uma paisagem ou de um tigre indiano; para eles, talvez a vida exemplar esteja numa tigela de cereais. Nisso, mais do que os outros filmes de Anderson, Viagem a Darjeeling lida com a ausência simbolizada pela morte, assim como o enfrentamento real dela, na figura do outro, aqui simbolizada tanto pelo cenário quanto pela busca de uma mãe já inalcançável, mas ainda próxima e disposta a fazer dos poucos momentos que restam um sinal de cumplicidade.

The Darjeeling limited, EUA, 2007 Diretor: Wes Anderson Elenco: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Amara Karan, Camilla Rutherford, Irfan Khan, Bill Murray, Anjelica Huston Roteiro: Jason Schwartzman, Roman Coppola, Wes Anderson Fotografia: Robert D. Yeoman Produção: Lydia Dean Pilcher, Roman Coppola, Scott Rudin, Wes Anderson Duração: 91 min. Distribuidora: Fox Home Entertainment Estúdio: Scott Rudin Productions

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000