O império contra-ataca (1980)

´Por André Dick

A história do primeiro Star Wars parece seguir uma premissa muito bem costurada: numa galáxia distante, o jovem Luke Skywalker (Mark Hamill), cujo maior sonho é tornar-se um piloto da Aliança Rebelde, vai embora do planeta desértico Tatooine, onde morava com os tios, para resgatar a princesa Leia (Carrie Fisher), capturada por Darth Vader (David Prowse, com a voz de James Earl Jones), o vilão do elmo soturno, que coordena o “império do mal” em sua Estrela da Morte, uma espécie de esfera de metal suspensa no espaço.
Ao lado de Luke, estão o sábio Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness), Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew), que possuem a Millennium Falcon, uma nave com problemas de ignição, e a dupla de robôs R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). A mensagem por trás das palavras de Obi-Wan podem, hoje, parece ingênua– e foi criticada à época principalmente por amigos próximos do diretor –, contudo George Lucas conseguiu sintetizar o panorama de uma geração por meio de suas batalhas estelares e criar um cinema de qualidade para a diversão massificada. Como continuar uma história que parece sintetizar a diversão de uma época muito distante?

Três anos depois, O império contra-ataca surge apontando novos caminhos e expandindo a saga com outros elementos. Com seu início passado no gélido planeta Hoth, onde os rebeldes se escondem no início do filme e que proporciona sequências memoráveis, que valeram o Oscar de efeitos especiais, Irvin Kershner, novo diretor, que havia feito dois anos antes o suspense Os olhos de Laura Mars, introduz Luke numa assustadora caverna onde precisa enfrentar um monstro. A visão é oposta à Tatooine do primeiro filme e a relação entre os personagens avança para uma frente em que Luke e Han Solo entram num embate discreto pela princesa Leia. Há, no entanto, a visão do passado: a imagem de Obi-Wan Kenobi surge num momento derradeiro. Luke, porém, precisa partir para Dagobah, a fim de ter ensinamentos jedi. É o pequeno sábio Yoda (criatura projetada por Lucas e Frank Oz, o mesmo dos Muppets, inspirada em Dersu Uzala, de Kurosawa) , com um direcionamento transcendente, que procura mostrar a ele o caminho da força e do bem, com o objetivo de transformá-lo num guerreiro Jedi. E, embora em Guerra nas estrelas Vader se mostrasse ameaçador, aqui, com a inserção discreta de seu líder Palpatine, ele parece ainda se mover na ameaça, inclusive quando coloca sua nave em perseguição a Millennium Falcon, onde Leia e Solo, graças a Ford e Fisher, revelam uma ótima parceria.

Trata-se de um argumento replicado em Os últimos Jedi, no qual uma caverna pode esconder o outro eu do personagem central, ou seu maior medo. Kershner, por meio de imagens captadas num pântano levantado nos estúdios Pinewood da Inglaterra, transforma Dagobah num lugar fantasmagórico, misterioso e, ao mesmo tempo, acolhedor, por causa da fotografia de Peter Suschitzky, que torna tudo próximo do tátil. São todas as perspectivas da própria série. Ao mesmo tempo, Solo, Leia, Chewbacca e os dos robôs precisam escapar de uma nave do Império, na qual se encontra Darth Vader, rumo à Cidade das Nuvens, onde encontram Lando Calrissian (Billy Dee Williams) – e reservam o design de produção mais próximo da trilogia que Lucas faria depois, a primeira em ordem cronológica.
Luke, após ensinamentos, parte para a Cidade das Nuvens para enfrentar Darth Vader e tem uma revelação surpreendente, essencial para a compreensão da trilogia. Nesse sentido, é como o personagem abandona seu eu antigo e encontra sua nova personalidade, e no mesmo movimento a sequência se estabelece: embora pareça em muitos momentos uma sequência, introduz nela movas ideias.

Talvez o episódio mais instigante da trilogia, O império contra-ataca não desperta a surpresa de Guerra nas estrelas, mas é inovador nos cenários que mostra. Divertido e, em alguns momentos, espetacular, com excelente direção de arte (apresentando detalhes oitentistas em sua concepção de luzes e painéis, mais ao final no duelo), foca a relação existencial entre Luke e Vader, que representa o embate entre o bem e o mal, revelando, por vezes, uma atmosfera sombria, até claustrofóbica em seu labirinto de túneis e passagens, na qual estão presentes razões psicológicas que movem o ser humano, enquanto traz uma vertente mais bem-humorada e, por fim, memorável, da Princesa Leia, de Han Solo, Chewbacca e os robôs. O roteiro de Leigh Brackett e Lawrence Kasdan, baseados numa história de Lucas, consegue delinear de maneira enfática cada personagem – e torna cada figura interessante. Há pelo menos um par de cenas depois de Vader confrontar Han Solo que remete a uma ideia de herói a ser punido para existir uma redenção.
Ao final, O império contra-ataca, ao mesmo tempo, investe numa verdadeira tragédia épica espacial. Nela, tanto o espectador quanto os personagens se defrontam com uma verdade incômoda – mas é o que torna a série mais mitológica e coerente com a sua proposta.. Muitos avaliam que há um acerto maior porque Lucas se manteve mais nos bastidores financeiros do que no espaço criativo, porém a obra diz muito de toda a sua carreira, inclusive antecipando elementos que empregaria com Spielberg em Os caçadores da arca perdida. Ha um misto entre psicologia, vontade de reescrever a história e certa crença numa religiosidade que escapa ao seu próprio universo, tornando-se mais amplo e levando o espectador a lugares inexplorados.

The empire strikes back, EUA, 1980 Diretor: Irvin Kershner Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, David Prowse, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, Frank Oz, James Earl Jones Roteiro: Leigh Brackett, Lawrence Kasdan Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: John Williams Produção: Gary Kurtz Duração: 124 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox

 

Guerra nas estrelas (1977)

Por André Dick

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Nove anos antes do lançamento de Guerra nas estrelas, 2001 havia cercado o gênero da ficção científica com uma aura de complexidade. Em 1971, na sua estreia no cinema, Lucas resolveu seguir os passos de Kubrick e fazer uma ficção com fundo subjetivo e um clima de lugar ao mesmo tempo futurista e irreal, materializada em THX 1138, com uma atuação interessante de Robert Duvall. Já em Guerra nas estrelas, ele queria também queria diversão em escala grandiosa – diversão inteligente, que soubesse atrair plateias jovens e adultas. Para chegar ao seu objetivo, mesclou elementos medievais (o caráter heroico e guerreiro de seus personagens do bem) com elementos da “era videogame” (espaçonaves, espadas de luz, armas de raio laser, robôs), de forma que acabou conquistando não só esses dois públicos díspares como uma legião universal de fãs, que idolatrou Luke e trupe como os “trekkers”, como são chamados os fãs de Jornada nas estrelas.

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Steven Spielberg, como conta o livro Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Holywood, de Peter Biskind, estava com expectativa de que Contatos imediatos do terceiro grau não fizesse tanto sucesso quanto o de seu amigo George Lucas, em Guerra nas estrelas – criticado, como relata Biskind, pelos amigos de Lucas, menos exatamente Spielberg. Se há uma semelhança entre os dois filmes, ela está no poder que exerce o interesse pelo que está além das estrelas. Spielberg sempre foi um diretor interessado no afastamento da rotina, mas ainda situado no plano real, mesmo de forma indireta, como vemos não apenas em Contatos, como também em E.T., e Lucas sempre mesclou esse afastamento com a construção de um universo paralelo. Pode-se imaginar o quanto Guerra nas estrelas tem da própria concepção existencial de Lucas.
Luke Skywalker, o jovem guerreiro Jedi; Darth Vader, o lado sombrio da força; o mercenário Han Solo; seu amigo Chewbacca; o sábio Obi-Wan Kenobi; os robôs R2-D2 e C-3PO, entre outros, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos – apesar de a história não passar na Terra, seus cenários e paisagens lembram dela – se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores e os ensinamentos espirituais de luta ganham, na trilogia de Lucas, contornos ao mesmo tempo medievais e futuristas.

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Sua história parece formulaica: numa galáxia distante, o jovem Luke Skywalker (Mark Hamill), cujo maior sonho é tornar-se um piloto da Aliança Rebelde, vai embora do planeta desértico Tatooine, onde morava com os tios, para resgatar a princesa Leia (Carrie Fisher), capturada por Darth Vader (David Prowse, com voz marcante de James Earl Jones), o vilão do elmo soturno, que coordena o “império do mal” em sua Estrela da Morte, uma espécie de esfera de metal suspensa no espaço.
Ao lado de Luke, estão o sábio Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness, ótimo, indicado, na época, ao Oscar de melhor ator coadjuvante), Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew), que possuem a Millenium Falcon, uma nave com problemas de ignição, e a dupla de robôs atrapalhados R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). A mensagem por trás das palavras de Obi Wan podem, hoje, parecer ingênuas – e foi criticada à época principalmente por amigos próximos do diretor –, contudo George Lucas conseguiu sintetizar o panorama de uma geração por meio de suas batalhas estelares e criar um cinema de qualidade para a diversão massificada.

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Mesmo tendo criado os personagens e a história-base da trilogia inicial, Lucas dirigiu apenas Guerra nas estrelas, deixando Irvin Kershner e Richard Marquand a cargo, respectivamente, de O império contra-ataca e O retorno de Jedi. A autoria de Lucas, de qualquer modo, é sentido em todos os capítulos. Se Guerra nas estrelas não apresenta ainda figuras trazidas em O império contra-ataca, como o pequeno sábio Yoda, com um direcionamento transcendente, que procura mostrar a Luke o caminho da força e do bem, com o objetivo de transformá-lo num guerreiro Jedi, nem cenários extraordinários, como a Cidade das Nuvens e o planeta gelado Hoth, tampouco a revelação surpreendente para a compreensão da trilogia, Lucas costura tudo de maneira extremamente simples, mas nunca efêmera.
Nesse sentido, embora talvez seja episódio mais reconhecido da trilogia, O império contra-ataca não desperta a surpresa de Guerra nas estrelas, marcando um início da saga que mostra o embate entre o bem e o mal, revelando, por vezes, uma atmosfera sombria, em que estão presentes razões psicológicas que movem o ser humano inserido num universo fantástico, enquanto traz uma vertente mais bem-humorada e, por fim, memorável, da Princesa Leia, de Han Solo, Chewbacca e os robôs, principalmente por causa das atuações de Fisher e Ford. Vencedor dos Oscars de melhor trilha sonora, montagem, direção de arte, figurino, som, efeitos sonoros e efeitos especiais (também teve indicações, entre outras, a melhor filme e direção, apenas se deparando com Noivo neurótico, noiva nervosa, de Woody Allen), Guerra nas estrelas estabelece um ambiente mitológico e coerente com a sua proposta, capaz de remeter a várias épocas e figuras que o estabelecem como uma referência histórica do seu gênero. Mesmo depois de vários episódios e da nova franquia, ainda parece o mais contemporâneo de todos (ao lado, particularmente, de O retorno de Jedi), o que não deixa de ser um feito.

Star Wars, EUA, 1977 Diretor: George Lucas Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, David Prowse, James Earl Jones, Peter Mayhew, Kenny Baker, Anthony Daniels Roteiro: George Lucas Fotografia: Gilbert Taylor Trilha Sonora: John Williams Produção: Gary Kurtz Duração: 121 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox