Cult movies

Avatar 

Por André Dick

Cotação 4 estrelas

Avatar.CartazEsta ficção científica feita pelo mesmo James Cameron de Aliens – O resgate O segredo do abismo tem uma história simples: mostra o exército de humanos da empresa de mineração RDA contra os habitantes nativos, os Na’vi, de um planeta distante (Pandora) – numa espécie de simbologia para o Velho Mundo encontrando o Novo Mundo. Mas é essa história que deixa espaço para Cameron mostrar o visual impactante.
O fuzileiro Jake Scully (Sam Worthington), que foi ferido em batalha e está em cadeira de rodas, atua como um avatar, coordenado por uma médica, Grace Augustine (Sigourney Weaver), que quer aprender com os nativos de Pandora o que eles desejam. Jake, para isso, passa a ser uma espécie de porta-voz. No entanto, os militares enviados para detonar Pandora não estão muito interessados neste aspecto de pesquisa biológica. Há sobretudo o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e um burocrata, Parker Selfridge (Giovanni Ribisi). O objetivo é encontrar um determinado mineral que serviria à vida na Terra e o coronel faz um trato com Jake de que se ele trouxer informações interessantes dos Na’vi ele poderá caminhar novamente. No entanto, ele e Parker não se importam, por exemplo, com o fato de que a árvore que querem destruir para descobrir outras relíquias guarda um mistério.
As cenas em que aparecem os avatares (de Jake e Grace) são, sem dúvida, as melhores, mas em algum ponto da metade do filme – quando Scully começa a fazer seu diário de experiências e trata da convivência com os habitantes do povo Na’vi, sobretudo com Neytiri (Zoe Saldana, de Star Trek), por quem inevitavelmente se apaixona – que o filme se perde um pouco, mas não totalmente, pois ainda estamos em meio a cenários fantásticos. A floresta é uma criação notável, com fluidos e imagens de teias brilhantes caindo sobre os seres, o que mostra uma visão de Cameron para o amanhã da humanidade (enquanto os interiores das estações lembram Aliens, com suas lâmpadas fosforescentes). Em certos momentos, a textura das imagens lembra a de um desenho animado, com a ressalva de que, mesmo assim, o filme entrega camadas referenciais de natureza (rochas, águas, árvores). De qualquer modo, Cameron está interessado pelo que os militares podem fazer, o que acontece desde o tempo em que roteirizou Rambo II e dirigiu O exterminador do futuro 1 e 2, Aliens – O resgateTrue lies e O segredo do abismo. Cameron os coloca como verdadeiras ameaças para qualquer paz, e Miles como o protótipo disso (a partir de determinado momento, suas atitudes chegam a ser engraçadas de tão absurdas).
Há uma presença dos elementos já vistos em O segredo do abismo, que começava em plena ação, com um submarino nuclear, o USS Montana, naufragando misteriosamente, depois de avistar luzes no fundo do oceano. Em seguida, uma expedição de resgate, liderada por Virgil (Ed Harris), é enviada para tentar se descobrir a causa do acidente. Divorciado da mulher, Lindsey (Mary Elizabeth Mastrantonio), também da marinha, a viagem se complica quando toda a tripulação começa a ficar perturbada com os estranhos acontecimentos de luzes flutuantes, surgindo um vilão, Hiram (Michael Biehn). Eles começam a descer nesse abismo, onde se deparam com seres extraterrestres em formas de peixes luminosos e raios de luz efêmeros. Cameron faz o primeiro filme filmado quase totalmente embaixo d’água, já mostrando suas obsessões (que fariam parte de Titanic e de suas pesquisas documentais), e uma espécie de Contatos imediatos do 3º grau, mas já antecipando elementos que veríamos em AvatarO segredo do abismo, assim como Avatar, trabalha com uma mensagem que remete à origem, com a tentativa de reconciliação embaixo d’água do casal, como uma volta ao útero, ao nascimento – como no caso das árvores de Pandora. E, como em Avatar, avalia que as armas nucleares (o abismo que afundou as carregava) conduzem a um beco sem saída. A única saída para Cameron parece ser aquela em que se mostra no encontro de Jake tanto com a natureza estrangeira quanto com Neytiri.
Já se comentou na ligação que há entre eles como a que vemos em Pocahontas (lembremos de O novo mundo de Malick), ou com a história do John Dunbar de Dança com lobos, ou com O último dos moicanos (na rebelião de Jake contra os militares). Ainda assim, em meio aos elementos cultivados por Cameron em sua filmografia, temos como principal ponto de referência a mitologia de Star Wars, por sua vez já captada em outras obras. Cameron não costuma ser um roteirista sutil, ou de múltiplos personagens, e seus diálogos têm mais ou menos o mesmo peso das falas de Miles. Seus vilões, como Parker, também costumam ser uma repetição do burocrata interpretado por Paul Reiser em Aliens – O resgate, assim como perturbados como Hiram (O segredo do abismo). No entanto, há também humanidade: Grace é uma extensão daquelas heroínas que Cameron privilegiou em sua trajetória, desde Sarah Connor, de O exterminador do futuro, passando pela Lindsey de O segredo do abismo, Ripley, de Aliens, até a Rose, de Titanic. O personagem principal de Avatar, Scully, segue as características dessas personagens de Cameron: ele é muito mais humano do que os personagens de filmes de ação e mistura elementos de coragem e de fragilidade na mesma medida, não tornando-se num estereótipo. Com isso, Sam Worthington tem aqui a sua melhor atuação, e Sigourney Weaver, como Grace, não fica para trás.
Há também um fundo religioso em Avatar e O segredo do abismo, não há a menor dúvida, e James Cameron procura, com seus cenários imponentes e efeitos especiais revolucionários, lembrar que o importante é a tentativa de compreender o outro. Parece um clichê, mas Avatar é tão bem trabalhado em seus detalhes que acabamos esquecendo, por um momento, do todo – que é irregular. Os seus 30 minutos finais, para quem aprecia filmes de ação, são realmente impressionantes, mostrando a batalha final, com uma direção de arte fabulosa (vencedora do Oscar). Isso faz com que, mais do que uma ficção científica, seja uma experiência realmente primordial, vendo a base do ser humano (independente do 3D, que à época de seu lançamento foi tão comentado).

Avatar, EUA, 2009 Diretor: James Cameron Elenco: Sam Worthington, Sigourney Weaver, Zoe Saldana, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi, Joel David Moore, CCH Pounder, Wes Studi, Laz Alonso Produção: James Cameron, Jon Landau Roteiro: James Cameron Fotografia: Mauro Fiore Trilha Sonora: James Horner Duração: 162 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Twentieth Century Fox Film Corporation / Lightstorm Entertainment / Dune Entertainment / Ingenious Film Partners

Thor

Por André Dick

Cotação 3 estrelas

 Thor.CartazAdaptação dos quadrinhos de Thor, assinada por Kenneth Branagh, mais conhecida por suas transposições para o cinema de obras de Shakespeare. É este justamente o diferencial dessa produção: o herói é dos quadrinhos, mas se tem, em grande parte, uma profusão de diálogos de Ashley Miller, Zack Stentz, Don Payne e J. Michael Straczynski, com apoio de Mark Protosevich, que lembram uma peça de teatro de conflitos em família, sem cair no pretensioso (ao contrário, inclusive, de recentes atuações de Branagh, como em Sete dias com Marylin).

Os elementos estão lá, sobretudo o castigo imposto pelo pai de Thor, Odin (Anthony Hopkins), ao filho Thor (Chris Hemsworth), tirando dele o martelo poderoso e jogando-o na Terra depois de achar que ele pode ter prejudicado a diplomacia de Asgard, seu planeta, com outro planeta, Jotunheim, com seus Gigantes de Gelo, enquanto o irmão soturno, Loki (Tom Hiddleston), pode estar por trás. Thor vai parar numa cidadezinha do Novo México, encontrando alguns cientistas, Jane Foster (Natalie Portman), a assistente Darcy Lewis (Kat Dennings) e o Dr. Erik Selvig (Stellan Skarsgård). O herói, obviamente, vai se interessar por ela, embora desperte certo estranhamento por onde passa, com seu figurino, e leve o Dr. Selvig a procurar livros com as lendas nórdicas, sobretudo aquela que trata do deus do trovão.
Já o martelo está cercado primeiro por uma trupe que tenta arrancá-lo de qualquer modo e depois por agentes que podem ou não ser do governo, tendo à frente o Agente Coulson (Clark Gregg), acompanhado do Arqueiro (Jeremy Renner), no meio do deserto. Thor quer ir até ele, a fim de recuperar os poderes e regressar a Asgard, e é ajudado por Foster.
Há sequências, em meio ao embate familiar, bastante divertidas, como a de Thor experimentando comida na lanchonete ou os cientistas aproveitado um momento forçado de folga (no que lembra Homem de Ferro), e a química romântica com Foster tem sensibilidade – sobretudo na conversa sobre os planetas –, em razão das atuações de Hemsworth e de Portman, logo depois do Oscar por Cisne negro), mas nenhuma se compara àquela em que, num bar em que toca Foo Fighters, Thor convence Selvig de que é realmente uma lenda. De modo geral, as sequências que se passam no Novo México são mais divertidas, enquanto as que envolvem conflitos pelo poder de Asgard, onde seus amigos percebem a trama shakesperiana por trás e tentam se reunir para ir ajudá-lo na Terra, mais dramáticas. Quando o estado de Odine demanda cuidados, sua mulher, Frigga (Rene Russo), também precisa enfrentar as aspirações de Loki. No entanto, uma parcela do filme não prejudica a outra. São essas facetas que transformam Thor num filme interessante.
A direção de arte de Bob Ringwood (o mesmo que fez os cenários de Batman – O retorno e Edward, mãos de tesoura, para Tim Burton) mistura o tom do deserto com a profusão de cores do planeta, lembrando um pouco os anos 80, sobretudo na ponte de Bifrost, com as galáxias ao fundo, e a trilha lacrimejante de Patrick Doyle (habitual colaborador do cineasta) é eficiente. Branagh dirige tudo com mão leve, ao contrário do que aconteceu em Frankenstein de Mary Shelley, com De Niro, e repercutindo os melhores momentos de suas melhores adaptações. Ele usa neste os mesmos enquadramentos daquele (meio tortos, o que às vezes incomoda), mas surpreende ao filmar cenas de ação competentes, que não são o seu forte, e deixa o roteiro fluir, ajudado pelo bom elenco, sobretudo Chris Hemsworth e Tom Hiddleston (deixando em segundo plano os oscarizados Hopkins e Portman), além de Stellan Skarsgård. Realizado com o intuito de provocar uma série e aumentar a ligação com Os vingadoresThor é uma diversão.

Thor, EUA, 2011 Diretor: Kenneth Branagh Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Stellan Skarsgård, Kat Dennings, Rene Russo Produção: Kevin Feige Roteiro: Ashley Miller, Zack Stentz, Don Payne, J. Michael Straczynski, Mark Protosevich Fotografia: Haris Zambarloukos Trilha Sonora: Patrick Doyle Duração: 114 min. Ano: 2011 Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Paramount Pictures / Marvel Entertainment / Marvel Studios

Os vingadores 

Por André Dick

Cotação 3 estrelas e meia

 Os vingadores.CartazHá uma clara necessidade de separar os filmes de heróis como blockbusters, enquanto do outro lado estão os filmes a serem levados a sério, ou, num limite demarcado, de arte. Se Thor, Capitão América, Hulk, Homem de Ferro fossem mais complacentes com o cinema, eles não existiriam e se restringiriam aos quadrinhos da Marvel. Mas há Joss Whedon, um dos criadores de Buffy e um dos roteiristas de Toy Story e outros produtos talhados para o que – como se diz – é pop.
Os vingadores (daqui em diante, spoilers) é uma criação sobretudo de Stan Lee, e, nesta adaptação para o cinema, de John Whedon, que conseguiu confeccionar uma espécie de imaginário para o que se restringe, em se tratando de alguns detratores, de uma espécie de universo onde os heróis servem ao mesmo tempo para vender bonecos e contar piadas (algumas engraçadas, outras nem tanto), a fim de aliviar o clima daquilo que pode abater sobre a terra. Em seus filmes isolados, Thor e Capitão América tinham certas qualidades – embora nunca totalmente viabilizadas, pela limitação de seus diretores, Kenneth Branagh e Joe Johnston –, Hulk, nem tanto, enquanto Homem de Ferro certamente se destacava, pela interpretação de Robert Downey Jr., a simpatia de Gwyneth Palthrow e por um descompromisso de Jon Favreau. Como reunir tantas personalidades no mesmo espaço e ainda dar uma certa importância determinada a cada uma? É preciso que Locki venha de novo do planeta Asgard, a fim de roubar o Tesseract, um aparelho capaz de colocar a Terra em polvorosa e permitir uma invasão alienígena. Diante de armamentos militares, Locki, já no início, interrompe qualquer chance de defesa, trazendo para o seu lado o cientista Erik Selvig (Stellan Skarsgard) e Clint Barton, o arqueiro (Jeremy Renner), e se movimenta sobre uma caminhonete para um deserto, perseguido pelo helicóptero de Nick Fury (Samuel L. Jackson). Ele escapa. Para detê-lo, é preciso uma medida mais urgente: a convocação de heróis que possam eliminar qualquer ameaça à integridade das pessoas. Não só à integridade: Locki é uma espécie de ditador protofascista, encarnado com um misto de caricatura e ódio por Tom Hiddleston (ótimo ator), cujo desejo é fazer os outros se ajoelharem diante dele, quase como o trio que persegue o homem de aço em Superman II. Há sequências não leves, mas a apresentação de cada personagem, ou a simples retomada de episódios anteriores de cada herói, traz humor, incluindo-se, aqui, a presença de Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson). Ela, depois de um encontro com gângsters, no qual usa os pés da cadeira como arma de combate, precisa ir à Índia e convocar o Dr. Banner para a batalha e quando este se transforma, sabe-se, quando raivoso, vira Hulk. Quando Locki é capturado, Thor surge no ar, mas logo entra em atrito com o Homem de Ferro. Brigando, caem em meio a árvores de uma montanha. Stark, o Homem de Ferro, lhe pergunta: “O que é isso? Shakespeare no parque?”.
Todos são levados para um porta-aviões, também uma espécie de nave espacial, para onde se leva Locki quando ele é preso. Homem de Ferro dá choques no braço de Dr. Banner com o intuito de ver a fera; quando se dão por conta, fazem parte do plano de Locki em destruí-los. Há um fã desses heróis, principalmente de Steve Rogers, o Capitão América, que trabalha para Nick Fury, Philip Coulson (Clark Gregg), que guarda as cartas de cada um como se quisesse reprisar a infância. “O uniforme não é antiquado?”, pergunta Steve sobre o uniforme do herói que encarna. “Talvez seja o que as pessoas esperam”, lhe responde Phillip. No entanto, Whedon, em meio aos subterfúgios do roteiro, consegue amplificar um cenário de guerra. O porta-aviões se transforma num palco para os confrontos desastrados dos heróis com Locki, ou entre eles mesmos, desentendendo-se. Não há nada tão espetacular assim no cinema recente e amplificado, sonoramente, em todos os níveis, ao som da trilha de Alan Silvestri, uma espécie de mistura entre seus trabalhos de De volta para o futuro e Forrest Gump. A destruição não chega a ser gratuita, mas é pomposa, e Whedon acelera os níveis de ação em cada herói que traz à cena para a grade de duelos. Mas é preciso um pouco de emoção, e Whedon tenta comovê-los a se guiar por um caminho mais afeito a poupar a Terra.
Os vingadores se ressente de ser um filme bastante específico em suas partes: início (apresentação dos heróis), meio (todos no porta-avião) e fim (a ida para Nova York), mas há abrigado nessa estrutura previsível um filme divertido. Você consegue até ver os funcionários de CGI por aqui, e uma infinidade de pedaços de montagem frenética, demorando a criar um corpo próprio, em razão de uma determinada direção de arte apressada e artificial e pela própria inclusão de vários heróis, com alguns personagens sendo relegados necessariamente a segundo plano (uma esposa de Stark, Gwyneth Palthrow, isolada do marido; um arqueiro na pele de um ator sem carisma, Renner), mas ainda assim formando uma coesão nos momentos de luta e enfrentamento. Há detalhes que impactam (a descida de Thor por força de Loki) e divertidíssimas (o expressivo Harry Dean Stanton tenta acordar Banner do meio de escombros, perguntando se ele tem algum tipo de problema), ao mesmo tempo em que o mote – uma invasão alienígena a partir dos arranha-céus de Nova York – é previsível, embora nem por isso menos espetacular, lembrando dragões gigantes de Chinatown planando sobre toda a cidade.
Os vingadores confere por meio de sua trama, uma espécie de alma aos quadrinhos, ao contrário das maquetes militarizadas de Transformers, e uma espécie de reminiscência do que foi Superman um dia, não em sua versão de 2006, mas numa tentativa de volta aos tempos primordiais de tranquilidade, sem contar as rotações que devem ser feitas ao redor da Terra para que tudo volte a como era antes. Isso se deve ao elenco que faz os heróis. Robert Downey Jr., Mark Ruffalo e Chris Hemsworth são atores que conseguem expressar uma espécie de dramaticidade contida em meio a uma sucessão de explosões, enquanto Johansson, com sua limitação já conhecida, consegue, de determinado modo, mostrar uma espécie de mescla entre receio e bravura, quando precisa, afinal, se deparar com Hulk. Se Evans, na pele de Capitão América, consegue transparecer um homem dos anos 40 congelado para enfrentar os dias presentes, o melhor nome para reuni-los é, sem dúvida, Samuel L. Jackson, com sua presença cênica entre o trágico e o cômico, mas sem decepcionar o espectador.
Diante desses personagens, o filme de Whedon se constitui numa espécie de retomada de um instinto humano de sobrevivência e de crença na fantasia. Parece ser, basicamente, em meio ao roteiro com poucos diálogos, uma síntese da hora final, com direito até à participação de Stan Lee, disfarçado em meio a pessoas, ou um refúgio para os heróis num lugar a ser reconstruído, para que, finalmente, se preencha cada uma de suas partes.

The avengers, EUA, 2012 Diretor: Joss Whedon Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Jeremy Renner, Stellan Skarsgård, Cobie Smulders, Gwyneth Paltrow, Tom Hiddleston, Paul Bettany (voz), Amanda Righetti, Lou Ferrigno (voz), Clark Gregg, Jenny Agutter, Walter Perez, Alicia Sixtos, Evan Kole, Sean Meehan, Carmen Dee Harris Produção: Kevin Feige Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Alan Silvestri Duração: 136 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Marvel Enterprises / Marvel Studios

 

Superman – O Filme, Superman II e Superman III

Por André Dick

SupermanO cineasta Richard Donner foi, por algum tempo, um artesão capaz de fazer filmes divertidos e com viés comercial, mas sem menosprezar a inteligência do espectador. O primeiro Superman é  superior às ramificações (em séries e na versão de 2006), capaz de, ao mesmo tempo, mostrar a origem do herói e sua transformação em algo maior sem perder parte da ingenuidade saudável que necessitamos numa história do gênero. Para o papel principal, escolheu Cristopher Reeve (que faria ainda, em seguida, o belo Em lugar do passado), e para seu pai, Jor-El, nada menos que Marlon Brando (em bela interpretação, apesar de curta).
(Daqui em diante, spoilers.) Mostra o herói ainda bebê  sendo mandado para terra porque seu planeta de origem está sendo destruído, e sua criação por pais adotivos, na cidade de Smalville – o que rende a sequência mais melancólica da série – até crescer e se transformar num jornalista, Clark Kent, que se apaixona por Lois Lane (Margot Kidder, em atuação sensível e divertida), com quem trabalha no Daily Planet. No entanto, ele precisa enfrentar o ameaçador Lex Luthor (Gene Hackman, superior a Kevin Spacey), acompanhado de Otis (Ned Beatty), que ameaça a terra com destruição. É Luthor que consegue desenhar, nos subterrâneos de Metrópolis, o vilão  perverso (sobretudo quando o herói se depara com uma kryptonita), e, para isso, Hackman tem uma grande contribuição.
Se os efeitos especiais estão um tanto ultrapassados (mas em nenhum momento decepcionantes, e receberam o Oscar), a direção de arte (de Krypton, sobretudo) é fascinante  e a trilha de John Williams continua memorável, a melhor dos filmes de super-heróis. Além disso, Metrópolis é uma espécie de Nova York, captada de forma nostálgica pela ótima fotografia de Geoffrey Unsworth, com grandes letreiros de jornal (evocando os anos 40 ou 50) e muitos bandidos sem tanto tato para o crime, além de abrigar várias cenas de ação do herói, que inspirariam, sobretudo, as adaptações de Homem-Aranha (na franquia de Sam Raimi).
Em Superman II, Donner deixou a direção, dando espaço a Richard Lester (embora boa parte dele já tivesse sido rodada, e há uma versão do corte de Donner em DVD), para continuar, basicamente, a mesma história. Kent está cada vez mais próximo de Lois Lane e ambos, inclusive, vão viajar juntos. Ele está cansado de ser herói, deseja ser humano, e, para isso, volta às suas origens para querer ser igual. No entanto, chegam três criminosos à Terra, coronel Zod (Terence Stamp) Non (Jack O’Halloran) e Ursa (Sarah Douglas), mandados embora de Krypton no primeiro filme, e eles vão querer perturbar a população, sobretudo o filho de quem os mandou embora, tendo como aliado Lex Luthor (que já inicia o filme numa situação complicada). A questão é como o herói voltará a ser como era antes. Como observa Pauline Kael, “as transições de Clark Kent para Super-Homem e vice-versa agora são números cômicos bem acabados”. Nesse sentido, como o primeiro filme, Lester consegue dosar a humanidade de Clark sem torná-la superficial ou maniqueísta (na interpretação talentosa de Reeve). É interessante como os vilões também conseguem ficar no limite do bom humor aceitável, principalmente em sequências com duelos militares. Há muitas cenas de ação de destaque, efeitos especiais melhores do que o primeiro, e no todo trata-se de uma continuação mais divertida, apoiado novamente em roteiro de Mario Puzo (criador de O poderoso chefão).
Por sua vez, Superman III foi fracasso nos Estados Unidos, por causa do ritmo de comédia pouco coerente com o personagem, pelo menos de maneira exagerada, e a história menos vigorosa. No entanto, guarda elementos de nostalgia, quando Clark Kent volta à sua cidadezinha natal, onde reencontra velhos amigos e uma antiga paixão, Lana Lang (Anette O’Toole). Mas Superman não é mais o mesmo: ele está um tanto deprimido e dá chances a um milionário, Ross Webster (Vaughn), e a um gênio da computação, Gus Norman (Pryor), tentarem dominar o mundo, roubando toda a energia das metrópoles e com outros objetivos financeiros. No meio da história, surge, em razão dos efeitos de uma kryptonita, até um Superman vilão, que destrói barcos, estraga festas olímpicas e mesmo fica bêbado. O clímax é o duelo entre eles e do Superman bom contra mísseis, justificando os efeitos especiais mais sofisticados em relação aos dos primeiros filmes. Como se vê, são temas em voga nos anos 80, sobretudo por causa da Guerra Fria (no mesmo ano, foi lançado Jogos de guerra), e a trilha conta com colaboração de Giorgio Moroder (que colaborou nas trilhas de, entre outros, Top Gun e Flashdance). Embora sua narrativa seja inferior a desses, não chega nunca à decepção da quarta parte e tem méritos sobretudo para quem aprecia a série. E o primeiro Superman continua sendo um verdadeiro referencial para muitas produções do gênero, com seu equilíbrio entre a melancolia de sua primeira parte e a fantasia.

Superman, ING/EUA, 1978 Diretor: Richard Donner Elenco: Marlon Brando, Gene Hackman, Christopher Reeve, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Trevor Howard, Margot Kidder, Jack O’Halloran, Terence Stamp, Phyllis Produção: Pierre Spengler, Michael Thau Roteiro: Mario Puzo, Robert Benton, David Newman, Leslie Newman Fotografia: Geoffrey Unsworth Trilha Sonora: John Williams Duração: 144 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Alexander Salkind / Dovermead Film / Film Export A.G. / International Film Production

Cotação 5 estrelas

Superman II, ING/EUA, 1980 Diretor: Richard Lester Elenco: Cristopher Reeve, Gene Hackman, Ned Beatty, Jackie Cooper, Sarah Douglas, Margot Kidder, Valerie Perrine, Susanah York, Terence Stamp, Jack O’Halloran Produção: Ilya Salkind Roteiro: Mario Puzo Fotografia: Robert Paynter, Geoffrey Unsworth Trilha Sonora: Ken Thorne Duração: 127 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros.

Cotação 4 estrelas

Superman III, EUA, 1983 Diretor: Richard Lester Elenco: Christopher Reeve, Richard Pryor, Jackie Cooper, Marc McClure, Annette O’Toole, Annie Ross, Pamela Stephenson, Robert Vaughn, Margot Kidder Produção: Pierre Spengler Roteiro: Jerry Siegel, Joe Shuster, David Newman, Leslie Newman Fotografia: Robert Paynter Trilha Sonora: Ken Thorne, Giorgio Moroder Duração: 125 min. Distribuidora: Não definida

Cotação 3 estrelas

Blade Runner – O caçador de androides  

Por André Dick

Cotação 5 estrelas 

Os produtores da Warner Bros investiram 30 milhões de dólares nesta ficção científica visualmente brilhante, pensando em repetir o êxito de Alien (do mesmo Ridley Scott). Na primeira exibição, com a montagem sem som, detestaram o filme, achando-o muito sério e complicado. Preferiram algo parecido com Guerra nas estrelas, ou seja, mais ação e menos reflexão. Assim, fizeram vários cortes e solicitaram que se colocasse uma narração em off do personagem central (Harrison Ford). Resultado: um fracasso de público e recepção dividida da crítica. Porém, com o passar dos anos, o diretor resolveu lançar a sua versão. Fato é que Blade Runner não necessitava dessa nova versão, pois é um clássico – e tem ação na medida certa para o clima em que se os personagens se inserem. Harrison Ford é Rick Deckard, nomeado para capturar um grupo de replicantes (androides com características humanas) que perambula pela Los Angeles de 2019. Mesmo não gostando da tarefa, o policial acaba aceitando, mas acaba se apaixonando por uma replicante (Sean Young, no filme que a revelou) e tem de enfrentar a burocracia da polícia. O romance é meio morno, mas o líder dos androides (o espetacular Rutger Hauer) tenta justificar a violência na parte final. Eles querem ser vistos como humanos, e não meramente como androides. A androide feita por Daryl Hannah, aliada a uma maquiagem diferente, é a mais assustadora, ao mesmo tempo que remete a uma imagem de contos de fadas ou de bonecas infantis. A máquina de Blade Runner por vezes é confusa, entretanto tentar entender seus detalhes sempre dá acesso a um lugar diferente. Repare no figurino dos personagens (parecem estar nos anos 40) e ouça a trilha sonora de Vangelis, que vale a pena. E, claro, há o impressionante desenho de produção (de Lawrence J. Paull), mostrando uma Los Angeles futurista, com chuva ácida, mas ainda assim antiga e anos 80 (com seus néons). Além da canção nostálgica “One more kiss dear”. Mas não é para qualquer público ou espectador.

Blade Runner, EUA, 1982 Diretor: Ridley Scott Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, William Sanderson Produção: Michael Deeley, Charles de Lauzirika (Versão Final) Roteiro: Darryl Ponicsan, David Peoples Fotografia: Jordan S. Cronenweth Trilha Sonora: Vangelis Duração: 118 min. Ano: 1982  Distribuidora: Não definida Estúdio: The Ladd Company / Shaw Brothers / Warner Bros. Pictures / Michael Deeley Production / Ridley Scott Productions

Donnie Darko

Por André Dick

Cotação 4 estrelas e meia

Este filme de Richard Kelly virou cult. Parece um filme de jovens rodado por David Lynch – tendo como assistente de direção Tim Burton –, com uma fotografia muito parecida com a dos filmes dele. Mas tem personalidade própria e um humor negro eficiente e atrativo. Além disso, apresenta, no elenco, alguns nomes conhecidos no elenco (Mary McDonnell, de Dança com lobos, Drew Barrymore e Patrick Swayze) e revelações (o casal de irmãos Jake Gyllenhaal e Maggie Gyllenhaal, também irmãos no filme), ao som de uma trilha sonora de bandas dos anos 80 (como Eccho and the Bunnymen, Tears for Fears, Joy Division e Duran Duran), que cria um contraste, muitas vezes, em relação ao que vemos.
Donnie Darko (Jack, com uma atuação que conseguiria repetir poucas vezes nos filmes seguintes) é um jovem estranho, sonâmbulo (o filme já inicia com ele numa estrada deserta, com uma atmosfera de pesadelo, apenas interrompida pela trilha sonora) e tem visões de um coelho assustador, chamado Frank, cercado de acontecimentos estranhos: como uma turbina de avião cair em seu quarto quando ele sai de casa. Não se sabe por que ele imagina esse coelho, mas ele frequenta a psicóloga (a pedido sobretudo da mãe, que se preocupa com seu comportamento) e é bastante temido no colégio por professores, pois questiona várias ordens e mensagens. A escola é um ambiente opressivo – e as cores alternando entre o azul e o verde conferem ainda mais gravidade ao contexto, diferenciando-se dos filmes dos anos 80 (mesmo que tenha uma trilha sonora bastante semelhante). Ele vive deprimido – mas é nesta depressão que ele parece alcançar vigor para o que pretende questionar, sem, entretanto, o filme fazer qualquer apologia a qualquer ideal ou algo parecido. Os seus professores utilizam também as mensagens de um autor de livros de autoajuda da cidade (Patrick Swayze), com o qual se confronta o personagem. No colégio, ele se apaixona por uma menina e faz amizade com um professor, que fala em viagens no tempo (o filme deve certamente ter inspirado Damon Lindelof e J.J.Abrams para a criação de Lost), entregando a ele um livro de sua vizinha, uma velha que passa o filme indo ver se há alguma carta em sua caixa de correio (e parece alguma figura saída de um filme de Tim Burton), atravessando uma estrada quase deserta da região.
Temos, pelo filme, vários símbolos espalhados (o coelho é um deles; o quadro negro da escola é outro, além de um sofá em meio a um capinzal onde Darko e seus amigos se encontram, mostrando a tentativa de inserção da casa em um cenário externo) e uma atmosfera lúgubre (como no momento em que o personagem vai ao cinema com a namorada e vê o coelho sentado a seu lado – no que remete a Império dos sonhos, uma retribuição de Lynch). Este coelho, mesmo com o final, continua um mistério. Talvez seja um símbolo que remete também a Alice no país das maravihas – era perseguindo um coelho que ela chegava ao universo paralelo.
Em A caixa, um dos filmes seguintes de  de Kelly, o diretor também ia para uma espécie de universo paralelo, em outra trama misteriosa, mostrando um casal que recebe certo dia a visita de um homem misterioso (Frank Langella), que lhes entrega uma caixa e diz que, se eles a apertarem, ganharão 1 milhão de dólares e uma pessoa morrerá. Isso é motivo para Jenkins se arriscar em algumas cenas surreais, como a da festa, em que o homem vê sempre um sujeito, que é garçom, sorrindo para ele. Trata-se de uma história fantástica, que envolve a Nasa, viagens ao espaço e lembranças infantojuvenis – sendo a disposição de tudo bastante assustadora. A professora feita por Cameron Diaz dialoga com a professora Karen (Drew Barrymore), de Donnie Darko. É bastante discreta, mas o filme não: ele investe no fantástico e pretensioso, com bela fotografia e cenas de suspense aterradores (como as do hotel e da biblioteca), que aprofundam o que é entrevisto neste, sobretudo com suas casas pretensamente tranquilas, com árvores nas calçadas.
Ademais, Donnie Darko quer subverter as casas simétricas dessa cidade, ver a escuridão onde há jardins verdejantes, campos de golfe e porões escondidos, e o personagem central é essencial para que isso aconteça; é, como se diria, a ponte entre a realidade e o onírico. O personagem parece nunca estar totalmente desperto (no momento em que visualiza, por exemplo, o movimento das pessoas ao redor, fazendo uma trajetória previsível) e as discussões dele sobre viagens temporais suspendem qualquer realidade – embora Donnie não vivencie uma experiência divertida e excêntrica como a do Marty McFly oitentista de De volta para o futuro –, e o diretor vai soltando algumas falas como se dispersas, mas que num todo fazem sentido, pela maneira como o espectador as monta, pois o intuito é distribuir as sequências de modo que elas façam mais sentido ao final. Diante da composição familiar – representada também pela irmãzinha de Donnie, que se apresenta no colégio, numa peça tipicamente infantil – infundada para Donnie, até determinado momento, vemos que seu objetivo não é afundar a adolescência ou a vida adulta, mas salvar a infância. Para Donnie, ela não sobreviverá a seus próprios pesadelos e ao coelho que o visita (não deixando de estabelecer uma ligação com A caixa, sobretudo com a situação do filho do casal no clímax). Depois de uma festa das bruxas com toques de anos 80, mas ao som de Joy Division (com sua sonoridade melancólica), e com o figurino que lembra o Daniel Larusso da festa inicial de Karatê Kid, mas com um viés mais dark, Donnie, ao avistar do alto da montanha (onde se inicia o filme) o futuro, parece que deseja regressar e não vivenciar todas as experiências desagradáveis será o melhor caminho, mas, acima de tudo, o faz por amor – não aquele, porém, solicitado pelo escritor de autoajuda que pode esconder, num realidade verdadeira ou paralela, a antítese de tudo o que diz.
O clima do filme, assim como o cuidado com as imagens, acaba deixando o espectador bastante atento ao que se desenrola. Transformou-se num merecido cult, sobretudo entre jovens, e merece ser assistido pela contundente crítica a certo comportamento social, mas não apenas por isso, pois também inova na temática de idas e vindas no tempo, com uma narrativa definitivamente original.

Donnie Darko, EUA, 2001 Diretor: Richard Kelly Elenco: Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Daveigh Chase, Mary McDonnell, Patrick Swayze, Noah Wyle, Drew Barrymore Produção: Adam Fields, Sean McKittrick Roteiro: Richard Kelly Fotografia: Steven B. Poster Trilha Sonora: Michael Andrews Duração: 112 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Flower Films

Duna

Por André Dick

Cotação 5 estrelas

Dino de Laurentiis e sua filha Raffaella produziram este filme, baseado no romance de Frank Herbert, que vinha de uma sucessão de projetos não concluídos (Ridley Scott dirigiria o filme em determinado momento). Superprodução de 40 milhões de dólares que não encontrou muito público nas bilheterias, mas se tornou, com o passar dos anos, cult movie, Duna tem uma versão estendida (de 177 minutos) feita para a TV, acompanhada, ainda, por algumas cenas deletadas (que somam em torno de 10 minutos) que Lynch não assina, mas é melhor o filme ser visto na versão de cinema, mais curta (137 minutos), em DVD e Blu-Ray (neste formato, temos a melhor apresentação, assim como algumas cenas deletadas que não estão nos demais meios).
A introdução da versão oficial, por exemplo, é muito superior, pois não menospreza o entendimento do espectador, enquanto a versão mais extensa tem uma narração entre os blocos e a eliminação de uma ou outra cena mais pesada para o meio televisivo, além de cenas repetidas e o aspecto inacabado das imagens que não entraram na versão lançada nos cinemas, apesar de ter novas cenas-chave (interessantes para compreender melhor a relação entre alguns personagens). Ou seja, é difícil ter uma ideia exata do que Lynch queria, pois nenhuma das versões é aquela que gostaria de ter feito efetivamente, mas o que existe em Duna mostra seu brilhantismo como cineasta.
Em parte, o filme não consegue a expansão dos detalhes de Herbert, mas a tentativa é válida, pois Lynch respeita o material de origem, assim como acrescenta seu estilo, tratando com respeito a opulência visual que desperta o romance – não parece por acaso que o próprio Herbert diz ter gostado da adaptação.
A história se passa em 10.191 e remete ao povo do planeta Arrakis – completamente deserto –, chamado Fremen, que aguarda a chegada de um Messias, que seria Paul Atreides (Kyle MacLachlan, muito bem, com sua frieza, misturada com ingenuidade, característica), do planeta Caladan, cheio de mares – e sua água terá papel decisivo no filme. Porém, a família precisa agir sob as ordens do imperador do universo, Shaddam IV, que, querendo dar o poder de Arrakis aos Harkonnens, do Planeta Gide Prime, trai os pais do messias: o Duque Leto Atreides (Jürgen Prochnow) possui um anel de poder cobiçado, e Lady Jessica (Francesca Annis), sua mulher, é uma Bene Gesserit, linhagem de sacerdotistas que tenta impedir a chegada desse messias, querendo sempre resguardar uma magia estranha. A Madre Reverenda (Sian Phillips), que serve ao Imperador, lembra que Jessica não podia ter gerado um filho, pois ele pode ser o Kwisatz Haderach, aquele que pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. “O adormecido deve despertar”, diz Duque Leto ao filho – que vive cercado por professores, de Gurney Halleck (Patrick Stewart), passando por Wellington Yueh (Dean Stockwell), até Thufir Hawat (Freddie Jones). É justamente o que teme a Guild Navigator, que deseja destruir os Atreides.
O vilão é o Barão Vladimir Harkonnen (Kenneth McMillan, excelente), que tem dois seguidores, Rabban e Feyd Rautha (Paul Smith e Sting, muito bem) a seu lado – com comportamento pervertido – e outros ajudantes estranhos (entre as quais, Brad Dourif e Jack Nance), todos interessados na especiaria existente em Arrakis, que ajuda na locomoção das naves no espaço e pode representar o domínio do universo.
Duna é – com ou sem falhas – fascinante, o que o torna um grande filme. Não há a confusão sugerida pela crítica à época, ainda menos uma alegada falta de produção (direção de arte, figurino, fotografia) caso o espectador se deixe levar pelas imagens já oníricas aqui do diretor, misturando água, fogo, terra e ar, mas sobretudo as dunas do planeta. Da metade para o final, é certo que estamos diante de um sonho de Paul Atreides – como os personagens de vários filmes de Lynch (no roteiro original de Duna, lá está, em determinada parte: “O sonho continua”). Por isso, os filmes posteriores do cineasta parecem explicar melhor Duna, e mesmo o contrário. Já no início, Paul Atreides sonha com o que irá acontecer a ele: a mulher que irá conhecer e o corpo flutuando no espaço – depois da experiência que terá com a Água da Vida –, a risada de Feyd Rautha (Sting). Em outro momento, depois da queda de sua nave no deserto, antes de conhecer os Fremen, Paul terá um sonho acordado (e numa das cenas da versão estendida há outro momento em que ele visualiza a lua, que determina seu destino). Ele pode ser Muad’ib ou o Kwisatz Haderach, aquele adormecido que deve despertar.
Nesse sentido, Lynch também é fiel, aqui, a Herbert, que explora vários diálogos sobre o sonho. As cenas de imagens esfumaçadas remetem a O homem elefante e Cidade dos sonhos, assim como a caixa da Bene Gesserit – em que Paul precisa colocar sua mão, a fim de passar por um teste – tem muito da caixa da atriz Rita, de Cidade dos sonhos, e o anel ducal que carrega o pai de Paul influenciaria, certamente, o anel com que Laura Palmer sonha na versão cinematográfica de Twin Peaks (aliás, na primeira cena de sonho de Twin Peaks, temos Jürgen Prochnow, o ator que faz o Duque Leto, num canto da sala). Isso sem falar na óbvia ligação com Eraserhead, primeiro filme de Lynch – a tomada de um verme se abrindo é idêntica à deste filme (o nascimento de Alia lembra o bebê de Spencer).
Duna e a obra de Herbert certamente influenciariam Lynch para toda sua carreira, sendo uma pena que ele não reconheça mais o filme. Mesmo com o desinteresse da Universal, é certo que os admiradores da obra gostaria de ver um dia seu corte final. E parece algo espantoso, embora reserve-se o direito, que, mesmo com esse desejo, Lynch pareça não dar importância – apenas pareça, pois ele produz diálogos com Duna em outras obras suas.
Nesse sentido, não se trata de uma obra aprovada plenamente por ele, mas o que conhecemos, ainda assim, forma uma peça única de ficção científica, que parece sempre melhorar numa releitura, além de sua fascinação.

Dune, EUA, 1984 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Kenneth McMillan, Jürgen Prochnow, Sean Young, Francesca Annis, Leo Cimino, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Freddie Jones, Max von Sydow, Virginia Madsen, Richard Jordan, Patrick Stewart, Sting Produção: Raffaella de Laurentiis Roteiro: Eric Bergren, Christopher de Vore, David Lynch, Rudolph Wurlitzer Fotografia: Freddie Francis Trilha Sonora: Toto Duração: 137 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis

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1 comentário

  1. Maria Clara

     /  7 de julho de 2013

    Adoro filmes como “Donnie Darko”. A estranheza me atrai sobremaneira….As referências a Lynch e Tim Burton existem mesmo, diretores que eu aprecio bastante….

    Responder

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