Resultados do Oscar 2016

Por André Dick

Melhor filme

Spotlight.Filme 5

Eu acreditava que a disputa ficaria entre O regressoMad Max e Spotlight – Segredos revelados. É curioso que tenha recebido o Oscar justamente Spotlight, a escolha mais fraca da Academia desde O discurso do rei, capaz de derrotar em seu ano A rede social, Cisne negro e Bravura indômita, embora pudesse rivalizar com Argo, que conseguiu ganhar de filmes como A hora mais escura, Amor, As aventuras de Pi, Django livre e O lado bom da vida. O filme de McCarthy não tem qualidades que o representem como melhor obra do ano. No ano passado, Birdman ganhou de Boyhood, mas não deixava também de ser um grande filme. Assim como 12 anos de escravidão não era o melhor de seu ano e ainda assim tinha um ar quase de clássico. Spotlight ter ganho de obras como O regresso, assim como o belíssimo O quarto de Jack e mesmo superado o ágil A grande aposta mostra que a Academia preferiu a divisão de prêmios, como já fizeram duas vezes com Ang Lee e uma vez com Alfonso Cuarón, que ganharam como diretores e não levaram o prêmio de melhor filme. Premiar a obra de McCarthy por trazer um tema conturbado, tratado sem a devida contundência, parece ter sido uma maneira de contentar a todos. Em termos cinematográficos, uma grande falha. O que impressiona é a quantidade de críticos fazendo média com o filme, como se ele fosse, com prós e contras, merecedor (justamente porque enalteceria o jornalismo), ou o que o elenco estivesse extraordinário, quando o único que se destaca com real ênfase é Mark Ruffalo.
Durante a festa de premiação, ficou visível como a Academia quis colocar em discussão o fato de atores negros não terem sido indicados ao Oscar deste ano. Como apresentador, Chris Rock lançou o assunto em diversos momentos, e em alguns vídeos houve provocações a Will Smith, que notavelmente esperava uma indicação por Um homem entre gigantes. Ainda assim, Rock, há dois anos, fez o ótimo Top five, que não foi indicado a nenhum Oscar e merecia; do mesmo modo, B. Jordan merecia mais a indicação por Creed. Não só ele como o diretor, Ryan Coogler.
Em termos gerais, uma festa com roteiro confuso (um bloco de premiações técnicas no início, os prêmios de roteiro original e roteiro adaptado dados em primeiro lugar, quebrando um pouco a expectativa) e sem grande emoção, a não ser nos discursos de Morricone, Vikander e DiCaprio. E inevitável se perguntar como Os oito odiados não estava entre os melhores filmes num ano que incluiu Ponte dos espiões e Spotlight. E, como se esperava, Brooklyn e Perdido em Marte, dos indicados a melhor filme, saíram sem nenhum prêmio – e Ponte dos espiões seria o terceiro, não fosse a inesperada premiação de Rylance.
Outros esquecidos certamente foram Youth (de Paolo Sorrentino), A colina escarlate (de Guillermo del Toro), À beira mar (de Angelina Jolie Pitt) e No coração do mar (de Ron Howard): apenas o primeiro foi lembrado, e na categoria de melhor canção. E, apesar de A garota dinamarquesa, Sicario – Terra de ninguém e Joy terem sido lembrados em algumas categorias, mereciam possivelmente estar entre os indicados principais.

Mad Max

Mad Max – Estrada da fúria, em número de prêmios, foi o maior vencedor: recebeu os Oscars de melhor figurino, edição, design de produção, edição de som, mixagem de som e maquiagem. Poderiam ter dividido entre outros candidatos, como Carol, Cinderela e A garota dinamarquesa, com um figurino mais apurado, Star Wars, com uma mixagem de som mais interessante, e O regresso, com um design de produção excelente. E, como eu havia escrito no texto sobre os indicados, impressiona, nas categorias técnicas, o esquecimento de filmes como A colina escarlate – pela fotografia, pelo figurino e design de produção –, Peter Pan – por essas mesmas categorias, mais mixagem de som e efeitos especiais –, No coração do mar – pelos figurinos, mixagem de som e efeitos especiais, além de pela fotografia –, 007 contra Spectre – pelo design de produção e fotografia – e Jogos vorazes: A esperança – O final – nas categorias de mixagem de som, som, design de produção e efeitos visuais. Num momento em que Ex Machina foi premiado pelos efeitos visuais, quando tem um efeito visual (muito bom, por sinal), perdem-se os parâmetros.

Twitter

Melhor diretor

O regresso 3O escolhido foi novamente Alejandro G. Iñárritu. George Miller parecia ser o único a ameaçá-lo nesta categoria, mas decidiram que o mexicano havia realizado um trabalho mais difícil. Não achava que McCarthy e McKay pudessem ter chances por seus trabalhos mais convencionais (principalmente McCarthy), mas não há explicação para não ter sido incluído entre os indicados Quentin Tarantino, num trabalho antológico em Os oito odiados. Muito se comenta ainda sobre Ridley Scott não ter sido indicado, mas, para quem já foi esquecido por outros filmes muito superiores – Alien, Blade Runner, Cruzada, O gângster, Êxodo, Prometheus –, não chega a ser injusto.

Melhor ator

O regresso 5Leonardo DiCaprio era o favorito por O regresso, e desta vez aconteceu tudo conforme se esperava, embora sua atuação não se compare a outras pelo qual foi indicado, como Gilbert Grape e O lobo de Wall Street. As ausências mais sentidas entre os indicados foram as Steve Carell, excelente em A grande aposta (num grande elenco, é, a meu ver, o melhor), Jacob Tremblay, memorável em O quarto de Jack, e Michael B. Jordan em Creed. Eles atuam de maneira mais atrativa do que outros indicados, como Fassbender, Redmayne e Matt Damon.

Melhor atriz

Brie Larson

Brie Larson, que há alguns anos deveria ter sido indicada por Temporário 12, recebeu a estatueta por O quarto de Jack. Ainda assim, em perspectiva, Saoirse Ronan estava talvez melhor em Brooklyn  (ela sustenta o filme) e mesmo Lawrence fez um trabalho mais amadurecido em Joy (em filmes de David O. Russell, o qual a acompanhava na premiação, ganhou por O lado bom da vida e foi indicada por Trapaça). De qualquer modo, Larson se mostra um grande talento e se espera que regresse em novos filmes. Como eu havia escrito em 2014,

Oscar de atriz

Melhor ator coadjuvante

Mark Rylance

Mark Rylance é escolhido o melhor ator coadjuvante por Ponte dos espiões. A pergunta seria: por que tirar de Stallone um prêmio merecido? Rylance tem uma participação muito curta e discreta, prejudicada pelo roteiro. Particularmente, não há comparação possível entre sua atuação e a de Stallone em Creed, ou mesmo de Ruffalo em Spotlight, e Hardy em O regresso, que são de fato coadjuvantes. Esta foi a categoria com mais esquecimentos, entre os quais Benicio del Toro (Sicario – Terra de ninguém), Paul Dano (Love & Mercy, mas ele também aparece bem em Youth), Bruce Dern, Kurt Russell ou Walton Goggins (Os oito odiados), Emory Cohen (Brooklyn), Idris Elba (Beasts of no nation) e Seth Rogen (Steve Jobs).

Melhor atriz coadjuvante

Alicia Vikander

Vikander teve a melhor atuação entre as coadjuvantes e recebeu um Oscar merecido por A garota dinamarquesa.  Já havia se mostrado grande atriz em Anna Karenina, O amante da rainha e Ex-Machina. A única que estava à sua altura é Jennifer Jason Leigh em Os oito odiados.

Melhor roteiro original

Spotlight

Josh Singer e Tom McCarthy receberam o prêmio por Spotlight – Segredos revelados. Parece dizer o bastante de uma categoria que não incluiu Os oito odiados.

A grande aposta

Melhor roteiro adaptado

Charles Randolph e Adam McKay receberam o prêmio por A grande aposta, embora meu predileto fosse o roteiro de O quarto de Jack.

O filho de Saul

Melhor longa estrangeiro

Recebeu o Oscar o favorito O filho de Saul.

Melhor longa de animação

O vencedor foi o favorito Divertida mente.

Melhor documentário em curta-metragem

A girl in the river: the price of forgiveness

Melhor documentário em longa-metragem

Amy

Melhor curta-metragem

Stutterer

Melhor curta em animação

Bear story

Melhor fotografia

O regresso 2

Emmanuel LubezkiMelhor trilha sonora

Os oito odiados

Ennio Morricone

Melhor canção original

Spectre

007 contra Spectre

Melhores efeitos visuais

Ex Machina 2

Ex Machina

Ponte dos espiões (2015)

Por André Dick

Ponte dos espiões 2

O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado Encurralado, Tubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdida, E.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de Schindler, Amistad e O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificialMinority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.
Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Era momento, portanto, de voltar ao drama histórico, o que ele faz com Ponte dos espiões. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e a animação com Tintim – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.

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Ele parece reunir a mesma equipe (fotógrafo, montador e aqui apenas se ausentou John Williams da trilha sonora) e, inclusive, um ator recorrente em sua filmografia (Tom Hanks, já presente em O resgate do soldado Ryan, Prenda-me se for capaz e O terminal) para entregar um drama bem feito, no entanto perfeitamente previsível dentro de seu esquema como grande diretor de Hollywood. Infelizmente, Ponte dos espiões se ressente não de um grande elenco e de uma grande produção, e sim de ideias que possam comover mais o espectador.
É a história de Rudolf Abel,  preso em 1957 no Brooklyn, enquanto faz o que mais gosta: pintar.  No entanto, ele é visto como um possível espião da KGB, e os agentes recolhem tudo o que pode comprometê-lo. Para sua defesa, é chamado James B. Donovan (Tom  Hanks), especialista em contratos de seguros, com o intuito de os Estados Unidos mostrarem que trazem um julgamento justo. Ninguém espera o que Donovan faz: realmente defender Rudolf Abel, por ter uma simpatia especial por ele. Este é o lado spielberguiano de Ponte dos espiões: nunca fica muito claro por que Donovan fica tão devotado a Abel, além daquilo que vemos: o público toma uma aversão por ele, mas Donovan continua a querer provar que seu cliente é inocente, sem querer saber se é um espião ou não; para ele, isso não importa.

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Ponte dos espiões

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Ele vai ao juiz do caso, Mortimer W. Byers (Dakin Matthews), para pedir uma suspensão de pena, imaginando uma situação mais adiante. Em meio a isso, o soldado Francis Gary Powers (Austin Stowell) sofre um acidente de avião e é capturado pelos russos, sendo submetido a interrogatórios diários. Do mesmo modo, Spielberg mostra Frederic Pryor (Will Rogers), estudante de economia americana, que, ao visitar sua namorada em Berlim Oriental, passa pela experiência da construção do muro, e acaba sendo preso. Spielberg vai mostrar daqui em diante o que essas experiências têm a ver com a Rudolf Abel, e o que Donovan terá de fazer para que as pessoas no trem que pega diariamente parem de observá-lo com condenação.
Do início ao fim, Ponte dos espiões é um típico filme do Spielberg mais maniqueísta: Donovan é o exemplo de idealista, capaz de fazer justiça por todos os meios. Para ele, tudo pode ser resolvido no diálogo, tanto que ele seja ouvido, e trata-se, por causa de Hanks, num personagem fascinante, embora sem muitas nuances. Em se tratando de um personagem real, Donovan, no entanto, fica no meio-termo quando passa a ser peça de um jogo maior, a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Não há, aqui, os detalhes emocionais que vemos em A lista de Schindler, Soldado Ryan, mesmo no mais recente Lincoln (no qual Day-Lewis dava um componente mais altivo ao presidente americano) e outras peças dramáticas de Spielberg: tudo é levado de forma mais ou menos dispersa, sem os graus de tensão necessários, a não ser em seus primeiros 40 minutos, que lembraram muito o ritmo do excepcional JFK, de Oliver Stone, inclusive pelos cenários soturnos e pela relação de Donovan com a família.

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Há uma influência clara, na maneira de filmar, de Petzold, principalmente de Barbara e Phoenix, assim como de O espião que sabia demais, mas falta a Spielberg um ponto maior no que diz respeito à construção subjetiva dos personagens. Há sempre um pouco de de previsibilidade em cada um deles, e principalmente Abel não tem seus caracteres elaborados, o que é uma pena, em razão de Mark Rylance, cuja atuação fica tremendamente superestimada pelo tempo de duração e o roteiro. Thomas Waters, o chefe de Donovan, feito por um subaproveitado Alan Alda, é também o limite do maniqueísmo, ao mesmo tempo que Jesse Plemons é desperdiçado como Murphy, amigo de Powers. No entanto, existe em torno dos personagens uma atmosfera maravilhosa de época, uma grande reconstituição em detalhes, principalmente nos figurinos e no comportamento gestual dos atores e personagens. Houve realmente um estudo.minucioso da época em que o filme se passa, sempre uma característica dos filmes de Spielberg: o espectador fica imerso nas imagens. Por outro lado, essas imagens parecem apresentar os personagens a certa distância, em que nunca ganham a verdadeira importância. O roteiro, assinado também pelos irmãos Joel e Ethan Coen (que parecem emprestar sua assinatura a filmes históricos feitos por outros diretores, tomando como exemplo Invencível), não chega a trabalhar exatamente o terceiro ato, tornando tudo algo muito próximo de uma fantasia e não exatamente de um filme com certa legitimidade histórica. Muito tem se dito sobre o patriotismo de Ponte dos espiões: isto não é exclusividade do filme, e sim do cinema-norte-americano e não seria uma falha se tivesse um ponto de vista mais interessante. Spielberg tem uma verdadeira paixão pelo cinema e por filmar. Quando ele acredita estar mostrando algo espetacular, é seu problema: ele consegue atingir este limite quando não tem essa pretensão.

Bridge of spies, EUA, 2015 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Sebastian Koch, Amy Ryan, Scott Shepherd, Alan Alda, Austin Stowell, Mikhail Gorevoy, Jesse Plemons, Dakin Matthews  Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Matt Charman Produção: Kristie Macosko Krieger, Marc Platt, Steven Spielberg Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: DreamWorks SKG / Fox 2000 Pictures / Marc Platt Productions / Participant Media

Cotação 2 estrelas e meia 

O quarto de Jack (2015)

Por André Dick

O quarto de Jack 3

O diretor irlandês Lenny Abrahamson vem construindo uma trajetória no cinema underground e fez especialmente dois grandes filmes, Garage e Frank. Numa época de filmes como isca para o Oscar, não se esperava que Abrahamson se tornasse uma espécie de Alexander Payne, ou seja, um diretor considerado do cinema dito indie recebido pela Academia de Hollywood com bastante entusiasmo. Com O quarto de Jack, ele apresenta uma história feita com uma certa agilidade narrativa cada vez mais rara diante de um tema nem um pouco leve. E talvez o melhor antes de assisti-lo seja ter menos informações possíveis, para que o impacto também seja diferente.
Joy Newsome (Brie Larson) e Jack (Jacob Tremblay) estão nas mãos de um sequestrador, Nick (Sean Bridgers), num pequeno quarto ao fundo de uma casa. Estão lá há 7 anos, sem nenhum contato com o mundo real. Joy e Jack tem uma determinada rotina, no entanto deve ser rompida, pelo desejo principalmente de a mãe poder ter seu filho inserido numa vida real. Tudo é desencadeado por mãe e filho fazendo um bolo de aniversário: seu desespero é não saber se o panorama irá mudar. A experiência do filho, para ela, não pode ser reduzida a olhar o céu por uma claraboia no alto do quarto, nem a dormir dentro do armário, tendo de se esconder quando chega Frank. Filmes sobre sequestradores costumam ter uma densidade complexa, o que leva o espectador a uma sensação de claustrofobia, e O quarto de Jack tem uma maneira muito impactante de lidar com o tema, mostrando a relação de uma mãe e de um filho confinados a um determinado espaço, sem poder reagir. Neste espaço, a supressão de liberdade constitui um universo em que eles precisam construir outra vida, o que se transforma numa realidade paralela à que transcorre do lado de fora.

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Abrahamson é um grande diretor de atores, como já mostrou em seus projetos anteriores, e aqui não é diferente. Larson, depois de ótimas participações em Anjos da lei, Temporário 12 e O maravilhoso agora, tem a grande oportunidade de sua carreira, trabalhando com nuances já reveladas nesses dois últimos filmes. Por sua vez, Tremblay é não menos do que excepcional com um roteiro bastante difícil, diante da situação. São raros os atores mirins que conseguem proporcionar uma emoção verdadeira como a dele. Num duo com Larson, no papel de uma mãe que teve sua vida desconstruída depois de ser enganada por um homem que tentava ajudar, Tremblay sustenta alguns dos grandes momentos de atuação (e DiCaprio deve ficar tranquilo ao não tê-lo como concorrente ao Oscar). O mais interessante é como Abrahamson adota o ponto de vista dele a fim de que o espectador tenha o seu sentimento pela mãe. Ele se indaga sobre o que acontece em sua vida, mas a rotina é tão forte que ele parece não perceber o que está passando ao seu redor. O quarto se torna, então, seu universo, no qual imagina cada circunstância do que vier a acontecer em sua vida (e as sequências iniciais, nesse sentido, sintetizam a narrativa). Sua distância do sequestrador é definidora para esta questão, e Abrahamson, como em Frank, deixa a critério do espectador identificar o modo como seu personagem vai evoluindo, principalmente num nível psicológico (e naquele filme o diretor contava com um ótimo Michael Fassbender escondido por baixo de uma máscara). Antes desse seu filme reconhecido, ele havia mostrado um homem solitário que trabalha num posto de gasolina em Garage, certamente um dos filmes mais incisivos sobre o isolamento de alguém em relação à sociedade e, ao mesmo tempo, muito comovente. Neste plano de análise sobre uma solidão (esta imposta por outra pessoa), O quarto de Frank dialoga de forma hábil tanto com Frank quanto com Garage, mostrando um estilo pessoal. Danny Cohen, colaborador habitual de Tom Hooper, apresenta um trabalho de imagens menos elaborado se compararmos com A garota dinamarquesa, mas deve-se destacar que ele pode trabalhar com diálogo entre cenário e figurino sempre com as mesmas cores, menos, digamos, pictórico. Ainda assim, sua presença por trás da câmera ajuda a captar de modo delicado o drama de mãe e filho, trabalhando com detalhes e enquadramentos.

O quarto de Jack 9

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O roteiro, adaptado por Emma Donoghue do próprio romance, é bastante específico e nunca se distancia muito dos pontos-chave. Mesmo assim, o ponto principal de Abrahamson é a aproximação entre mãe e filho, a maneira como cada um ajuda ao outro a sustentar um momento perturbador de suas vidas. E os personagens são ao mesmo tempo bem desenhados e possuem um comportamento plausível, sem Abrahamson apelar a um exagerado drama que poderia conduzir a narrativa, inclusive usando uma trilha sonora discreta. Mesmo a ligação de Jack com o “mundo real” (como ele se refere) é feita por Abrahamson em momentos singelos (spoiler: quando ele é apresentado a um cão ou quando joga bola com uma vizinha). Interessante também a maneira como o cabelo comprido do menino é usado tanto como um símbolo (ele diz que representa sua força) quanto numa imagem à semelhança da mãe (pois é a única figura que realmente conhece e com que se identifica).
Abrahamson, do mesmo modo, lida bem com a oposição entre o escuro do quarto e a possível luminosidade do mundo. É como se tanto um novo mundo pudesse se descortinar como também os personagens precisassem enfrentar uma determinada verdade que os conduziu até ali. Neste ponto, Larson e Tremblay são cada vez melhores. O quarto de Jack passa a ser uma das obras de cinema independente com a indicação ao Oscar mais merecida nos últimos anos, pois não tenta emular uma determinada estética para agradar e sim mostrar um caso capaz de repercutir junto ao espectador, com um cuidado muito grande na maneira de expor suas ideias, além da sua clareza e notável sensibilidade.

Room, IRL/CAN, 2015 Diretor: Lenny Abrahamson Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, Joan Allen, William H. Macy Roteiro: Emma Donoghue Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Stephen Rennicks Produção: David Gross, Ed Guiney Duração: 118 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: A24 / Element Pictures / No Trace Camping / TG4 Films

Cotação 4 estrelas e meia

 

A garota dinamarquesa (2015)

Por André Dick

A garota dinamarquesa 9

O cineasta inglês Tom Hooper recebeu os Oscars de melhor filme e direção por um de seus esforços menos entusiasmantes, O discurso do rei. Logo depois, ele apresentou um musical moderno baseado na peça Os miseráveis, apostando num grande elenco (Hugh Jackman, Anne Hathaway e Russell Crowe) cantando por força própria, sem o auxílio (pelo menos aparente) de complementos ou correções de estúdio pós-produção. Esses dois filmes anunciam em parte a nova obra do diretor, A garota dinamarquesa. Em parte porque mostra bem uma cultura determinada – a dinamarquesa –, assim como ele mostrava anteriormente as culturas inglesa e francesa, apoiada num grande design de podução, em parte porque lida com a superação de um homem diante de sua vontade própria, assim como os personagens centrais de Os miseráveis e O discurso do rei.
A história inicia em Copenhagen, por volta dos anos 1920. Desta vez, o núcleo é o pintor reconhecido de paisagens Einar Wegener (Eddie Redmayne), casado com a também pintora Gerda Wegener (Alicia Vikander). Ambos pretendem ter filhos, mas Gerda não consegue engravidar. Certo dia, ela lhe pede para posar com uma roupa de bailarina para uma pintura que está fazendo, e Eimar admira o figurino, como se vestisse uma nova pele. No dia em que Gerda o aconselha a ir vestido como uma mulher para uma festa, ele encontra Henrik (Ben Whishaw, competente como sempre), por quem logo se sente atraído. E passa a chamar de Lili Elbe, em razão da amiga Ulla (Amber Heard), exatamente uma bailarina.

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A garota dinamarquesa 15

Essa transformação de Einar numa mulher vai acontecendo numa forma gradativa, em meio a conflitos com a esposa. Gerda sonha em sobreviver por meio da pintura, mas tem seus quadros negados por um expositor, até o momento em que parece descobrir o seu estilo, como também Einar, ao lembrar de Hans Axgil (Matthias Schoenaerts). Por esse diálogo com o universo dos pintores e da boemia que os cercava, é fácil detectar uma beleza plástica nos detalhes comparável a Moça com brinco de pérola, além de um diálogo com Eclipse de uma paixão, sobre a relação romântica entre Rimbaud e Verlaine. E, baseado em fatos reais, como esses dois filmes, A garota dinamarquesa é um belo exemplo de como fazer uma obra biográfica sem cair exatamente no lugar-comum. Indo à história real, é interessante como Hooper conseguiu manter elos de ligação e criou outros, como o apego de Einar à sua infância, traduzido constantemente em suas pinturas.
Enquanto a trilha de Alexander Desplat parece excessivamente calcada em tons já conhecidos, a fotografia de Danny Cohen proporciona os melhores momentos de A garota dinamarquesa, junto com a presença de Vikander. Ela é realmente o principal nome da narrativa, mesmo com a presença de Redmayne, cujo papel é bastante difícil e ao qual ele se entrega com esforço, não sem cair, por vezes, em certos maneirismos que, ao longo do filme, acabam por desfocar um pouco o personagem – e sua atuação fica longe daquela de A teoria de tudo em termos de resultado.

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É como se a personagem de Vikander realmente desempenhasse a força central dessa história, bastante auxiliada a partir de determinado ponto por Schoenaerts (tão bem dirigido quanto em Ferrugem e osso e tornando complexo um personagem com roteiro mínimo). Vikander, depois de já se mostrar excelente atriz em O amante da rainha e Anna Karenina, embora tenha ficado mais conhecido com o recente Ex Machina, desempenha este papel com um potencial de atuação raras vezes visto nos últimos anos, mesclando um drama interno com uma tentativa de parecer menos atingida pelos desejos do marido.
A maneira como Hooper entrelaça o mundo artístico e a descoberta de uma visão própria nesse universo com a descoberta de si mesmo cava boa parte do interesse dramático de A garota dinamarquesa, que lida bem com algumas instabilidades narrativas, principalmente devido às ações de Gerda, não tão explicadas quanto o diretor possivelmente imagine. Ainda assim, mesmo com a dramaticidade em parte exagerada, Hooper tem um entendimento desse universo muito interessante. As comparações com o recente Tangerine por parte de alguns críticos me parecem injustas: embora o primeiro seja exemplo de cinema indie e aparentemente mais objetivo e direto, A garota dinamarquesa me parece um filme mais completo, além de visualmente muito bem trabalhado, dialogando, em seu design de produção, com as produções anteriores de Hooper.

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São muito interessantes as consultas que Einar faz a diferentes médicos e as prescrições dadas sobre sua obsessão em se tornar uma mulher, e a ausência de psicologia efetiva, além dos tratamentos recomendados. O filme não quer apenas, como me parece Tangerine, utilizar o tema da transexualidade porque é pouco abordado, mas sim levar os personagens a um espaço em que são mais do que símbolos de um período. Mesmo a figura da bailarina, presente em toda a primeira parte da história e por meio da qual o personagem central parece finalmente encontrar sua sexualidade, é um diálogo direto com o universo pictórico de Degas, do final do século anterior. Quando o expositor diz a Gerda para encontrar um estilo, é como se pedisse a ele um contorno menos francês. Esse contorno acaba sendo reproduzido pelo anseio do marido de se libertar de sua condição de casado: a figura da bailarina, já tão usada em quadros, é o que lhe proporciona a ideia de fugir ao que se espera do homem, do padrão de masculinidade esperado.
O tema da transexualidade se coloca com uma simbologia de representação do corpo e de se ver com outro sexo (e uma imagem em que Einar observa uma stripper por meio de um vidro é de uma grande sensibilidade de Hooper). Nunca há um deslizamento da história para o que poderia ser uma espécie de apelo. O roteiro de Lucinda Coxon, baseado em romance de David Ebershoff, tem o mérito de enquadrar as passagens dessa experiência de modo a nunca torná-la previsível. Isso se deve sobretudo a Vikander, uma grande atriz que consegue transformar os momentos derradeiros em uma virada realmente emocional, apoiada também em Redmayne, finalmente num momento que faz jus ao seu talento. E, ao contrário de O discurso do rei, Hooper não se entrega a uma frieza histórica, e sim a uma emoção calculada em doses, como no final sólido e que expande a imaginação do espectador.

The danish girl, Reino Unido/EUA, 2015 Diretor: Tom Hooper Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts, Ben Whishaw, Amber Heard, Sebastian Koch, Emerald Fennell, Adrian Schiller Roteiro: Lucinda Coxon Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Anne Harrison, Eric Fellner, Tim Bevan Duração: 120 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: ELBE / Harrison Productions / MMC Independent / Pretty Pictures / Senator Film Produktion / Working Title Films

Cotação 4 estrelas

Brooklyn (2015)

Por André Dick

Brooklyn 11

O espaço para filmes históricos foi preenchido por três filmes no Oscar: O regresso, Ponte dos espiões e Brooklyn. O filme de Iñárritu abriga um velho oeste com grande movimento, o filme de Spielberg é uma retomada sobre o universo da Guerra Fria, enquanto Brooklyn vai numa direção contrária: apesar de mostrar uma imigrante irlandesa, ele não tem especial interesse em desenhar um painel político ou social de sua época, a não ser por breves detalhes nas entrelinhas. Com base num roteiro de Nick Hornby, reconhecido por Alta fidelidade e Um grande garoto, entre outros livros com material pop, adaptado de um romance de Colm Tóibín, Brooklyn estreou no Festival de Sundance, no qual surgem produções que se destacam ao longo do ano.
A história inicia em 1952, quando Eilis Lacey parte de Enniscorthy, pequena cidade da Irlanda, para os Estados Unidos, depois da ajuda de sua irmã Rose (Fiona Glascott), deixando sua mãe (Jane Brennan). Sua viagem de navio lembra imediatamente a de Era uma vez em Nova York, assim como as recomendações que Eilis recebe antes de chegar aos Estados Unidos. No entanto, o filme de Crowley não tem a pretensão do filme de Gray, sendo extremamente simples.

Brooklyn 10

Brooklyn 6

Brooklyn 5

Eilis passa a viver na pensão de Sra. Kehoe (Julie Walters) junto com outras mulheres, e trabalha num departamento, tendo como chefe Miss Fortini (Jessica Paré), enquanto recebe ajuda para enfrentar a distância de casa do padre Padre Flood (Jim Broadbent). Ao longo de dias de melancolia, Eilis vai a um baile, onde conhece Tony Fiorello (Emory Cohen), de origem italiana, um encanador, que logo se mostra interessado em estabelecer um romance. A narrativa se mostra de maneira compassada: a jovem se adapta à América porque precisa se adaptar, e esquecer um pouco os familiares faz parte do que estaria traçado. Nada fugirá a este script, e talvez seja exatamente isso que torne Brooklyn, em parte, menos surpreendente do que poderia. Junte-se a isso um roteiro de Hornby, conhecido por sua agilidade em termos de diálogos, e torna-se estranho que o filme pelo menos não mostre uma fluência próxima ao contemporâneo, ou seja, algumas situações de Brooklyn se sentem próximas de um filme dos anos 40 e 50.
Quem admirou o visual de Carol, o filme de Haynes, possivelmente não tenha menos motivos para apreciar um design de produção e uma fotografia (assinada por Yves Bélanger, colaborador de Jean-Marc Vallée em Clube de compras Dallas e Livre) notáveis, em alguns momentos lembrando também a beleza de Era uma vez na América, dos anos 80. Nenhum detalhe técnico, por outro lado, supera ou chama mais atenção do que a atuação encantadora de Saoirse Ronan, indicada ao Oscar e que surgiu para o cinema de forma destacada em Hanna e no ano passado também estava na estreia na direção de Ryan Gosling em Lost river, até cantando. No filme de Wright, Ronan já mostrava uma versatilidade: aqui, em cima de um roteiro bastante problemático, ela consegue realmente extrair sensibilidade.

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Brooklyn 9

Quando sua personagem passa a se envolver com Tony e precisa, ao mesmo tempo, ter notícias de sua cidade natal, Ronan se revela uma atriz de talento insuspeito. Nesses momentos, Brooklyn apresenta um retrato da sociedade da época, o sonho de pertencer à fundação de uma América que possa ser próspera para os imigrantes. Brooklyn é muito mais otimista do que outros filmes de imigração, mesmo contendo uma melancolia em sua superfície – que Crowley não eleva a certo material excessivamente emotivo. Falta, com isso, uma espécie de empuxe dramático ou emocional à direção, principalmente porque conta com uma excelente Ronan e as participações de Emory Cohen e Domhnall Gleeson, como Jim, que mora na Irlanda. Em nenhum momento, a história aponta para algum conflito que pudesse lembrar o de Madame Bovary: os personagens parecem estar apenas à espera do que o roteiro já promete de antemão. Nesses anos 1950 de Crowley, parece que não há conflitos nem a Segunda Guerra Mundial é tão recente; não há interesse por escombros e reconstrução de um passado, apenas a tentativa de uma jovem encontrar seu amor e contrabalançar sua vinda para a América com a culpa de ter deixado seus pais e sua irmã.
Há um problema bastante perceptível na estrutura de Brooklyn: sua montagem é muito apressada, não dando espaço à construção dos personagens, como o do padre Flood, embora as motivações da personagem sejam interessantes e bem arquitetadas para o espectador. Eles permanecem apenas figuras dispersas, sem uma real contribuição para a história de Eilis. Tudo parece harmoniosamente clássico, como Carol, minando um pouco as situações nas quais poderia haver mais drama ou humor.

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Brooklyn

Quando o diretor consegue ressaltar essas emoções, Brooklyn cresce, por exemplo, na sequência em que Tony apresenta Eilis à sua família: o Sr. Fiorello (Paulino Nunes), Sra. Fiorello (Ellen David) e seus irmãos Maurizio (Michael Zegen), Frankie (James DiGiacomo) e Laurenzio (Christian de la Cortina). Frankie, principalmente, é o destaque desta família. Esta sequência se constitui no momento em que Brooklyn mais exibe sua potencialidade de mostrar um ambiente familiar e os conflitos possíveis entre duas culturas – a italiana e a irlandesa – de modo afetivo, principalmente pela atuação de Cohen, um ator que se destacou anteriormente no belo O lugar onde tudo termina.
Brooklyn, sob qualquer ângulo, é mais uma fantasia sobre a imigração, e isso transparece na luz solar que o diretor Crowley capta, com uma câmera lenta um pouco incômoda, lembrando excessivamente telefilmes antigos, mas, por causa do elenco, de Ronan sobretudo, atinge uma emoção verdadeira em certos momentos, quando ela fica em dúvida se deve ficar com a descoberta da América ou voltar ao velho mundo, à segurança de estar num lugar de origem. Não há uma dramatização intensa revelando isso, acabando por prejudicar o empenho do elenco em trabalhá-la, mas Brooklyn possui uma certa sinceridade que outras obras com mais pretensão não capturam, o que não o afasta de um modo de fazer cinema já clássico e cujo hype suscitado pelo Oscar apenas o prejudica.

Brooklyn, IRL, 2015 Diretor: John Crowley Elenco: Saoirse Ronan, Domhnall Gleeson, Julie Walters, Emory Cohen, Jim Broadbent, Mary O’Driscolll Roteiro: Nick Hornby Fotografia: Yves Bélanger Trilha Sonora: Michael Brook Produção: Finola Dwyer Duração: 111 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Irish Film Board / Item 7 / Parallel Film Productions / Wildgaze Films

Cotação 3 estrelas

 

O regresso (2015)

Por André Dick

O regresso 18

Logo depois de receber o Oscar por Birdman, Alejandro G. Iñárritu retoma sua filmografia com O regresso, baseado num livro de Michael Punke. É interessante como o diretor mexicano partiu de Amores brutos, uma espécie de releitura da violência de Tarantino, principalmente de Cães de aluguel e Pulp Fiction, com suas histórias cruzadas, para um messianismo de culpa em 21 gramas e um épico intimista em Babel. Logo em seguida, parece que Iñárritu buscou suas fontes originais e fez Biutiful, uma obra em que Javier Bardem tinha uma grande atuação, mas era prejudicada por certos problemas de narrativa, apesar da bela fotografia.
Em O regresso, Iñárritu resolve se voltar para a formação dos Estados Unidos, mostrando o contato do homem branco com os índios, e a maneira como isso se deu, de ambos os lados. Leonardo DiCaprio interpreta com grande eficácia o explorador e caçador de peles Hugh Glass, que em 1823, depois de uma fuga a indígenas, é atacado por um urso (esta é uma das cenas, sem exagero, mais impressionantes já feitas) e fica com o corpo completamente ferido. Sua equipe, tendo à frente Andrew Henry (Domhnall Gleeson), hesita em deixá-lo para trás. Henry ordena que dois de seus homens, John Fitzgerald (Tom Hardy) e Jim Bridger (Will Poulter), possam cuidar dele até que se busque ajuda. Além disso, Glass tem um filho de origem também indígena, meio Pawnee, Hawk (Forrest Goodluck). Em meio a isso, o líder da tribo Arikara, Cão Elk (Duane Howard), procura sua filha sequestrada, Powaqa (MelawNakehk’o). Este fio de narrativa é explorado até o limite por Iñárritu e o corroteirista Mark L. Smith. Já em Birdman, o diretor mexicano conseguia expandir uma ideia a princípio simples para um longa substancialmente potente.

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Claro que tudo poderia ser diferente se não fosse a fotografia de Emmanuel Lubezki, repetindo a parceria com o diretor que lhe deu o Oscar também da área em Birdman. Lubezki retoma aqui algumas projeções já vistas em O novo mundo, de outro parceiro seu, Malick, mas desta vez evocando um Oeste selvagem e gelado (as paisagens são do Canadá, da Argentina e dos Estados Unidos), com uma caçada imprevisível e contínua, evocando outros faroestes, como Quando os homens são homens, de Robert Altman, Dança com lobos, de Kevin Costner, e principalmente, pela grandiosidade das paisagens e pelo panorama dado a elas, O portal do paraíso, de Michael Cimino. Nem por isso, como é devido em época de premiações, ele deixa de ser visto como um filme visualmente belo com roteiro oco, além de pretensioso no sentido de que seu diretor o promove. Em termos cinematográficos, essa pretensão é necessária e atinge todos os pontos: O regresso se mostra como uma obra capaz de atrair o olhar como poucas. Num cinema moderno que pouco experimenta, o diretor de Birdman, com marketing ou não, ousa.
Impressiona, mais do que tudo, inclusive do que a atuação extremamente física e sofrida de DiCaprio, a maneira como o diretor transporta o espectador para os cenários, uma extensão da realidade. Lembro-me pessoalmente de ter visto, ainda jovem, levado pelo meu pai ao cinema, o filme A missão, e a tela grandiosa mostrando a escalada de Robert De Niro cachoeira acima arrastando uma longa carga como punição por ter matado um familiar. Não sei até que ponto aquelas cenas tinham efeitos especiais, mas tanto elas quanto os índios na mata de A missão eram próximos da realidade, e Iñárritu é o primeiro cineasta que recuperou essa sensação de filmar numa localidade, em lugares realmente perdidos ou afastados, onde o homem pouco pisou – existente nos últimos anos em raros filmes, como Essential killing, com Vincent Gallo.

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Isso é uma grande solução para o filme, pois ele possui uma atmosfera que ajuda a contar a histórias daqueles personagens e da vingança do personagem depois de suas cenas desesperadas de sobrevivência. Mesmo a maneira como o personagem de Glass, um colecionador de peles, precisa trocar a própria vida em busca de sobrevivência diz mais do filme do que muitas imagens de Lubezki: estamos diante de alguém que precisa trocar a própria vida e recomeçá-la do zero para se vingar. A carne humana sofre, no entanto é preciso da carne animal para mantê-la. Embora DiCaprio não se apresente aqui melhor do que já aparecia em filmes como Gilbert Grape, Django livre, O grande Gatsby e O lobo de Wall Street, é um tour de force notável principalmente do ponto de vista físico e durante toda a narrativa ele consegue tornar seu personagem plausível. Quando ele fica imóvel, o espectador consegue realmente sentir aquilo pelo qual o personagem passa, acentuado pelo cenário desolador e aparentemente infinito. Enquanto Glass se perde e não tem um ponto de referência claro, o espectador tem a mesma sensação.
Além disso, não apenas as cenas são violentas, como o diretor parece ter construído uma maneira de lançar o espectador em meio a ela (como nas cenas de tiros e flechas dos índios). Todos os movimentos de câmera de Lubezki apanham os personagens em movimento, como se eles estivessem próximos, uma qualidade que já era vislumbrada em Birdman. Tudo é amplificado pela atuação dos atores, desde DiCaprio, passando por Hardy (redimindo-se de sua passagem quase em branco por Mad Max), até Gleemson, que está em vários filmes neste ano (Star Wars, Ex Machina, Brooklyn), mas aqui tem seu momento mais contundente. E Will Pouter também tem uma presença muito boa, já constatada em outros momentos.

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Se às vezes a narrativa diminui de intensidade, Iñárritu mostra uma perícia insuspeita e um traço eclético, com um filme totalmente diferente, no seu tom e metragem, de Birdman e mesmo de seus projetos anteriores, como Babel e 21 gramas. Com um olhar muito poético, ele consegue transformar o sofrimento de um homem na natureza como se ele fosse parte dela, dependente para dormir e comer (significativa a passagem em que ele precisa evocar Han Solo em O império contra-ataca). É um filme essencialmente sobre sobreviver e poder refazer a trajetória pessoal e, nesse sentido, O regresso é poderoso mesmo quando não consegue aliar as ideias concretas com algumas mais abstratas. Há uma presença religiosa nessa tentativa de Glass confrontar seus próprios limites, e as imagens que remetem a sinos e pirâmides se intensificam em suas lembranças. Não apenas pela fotografia de Lubezki, como pelas imagens, há um interesse em dialogar com A árvore da vida. Iñárritu ecoa Malick, porém não o dilui nem exatamente o imita; ele transforma, aqui, a violência numa espécie de ponto de referência da cultura dos Estados Unidos, quando se dizimaram tribos em uma escala imensa. Essa violência tem um enorme contraste com a beleza das imagens do espectador. Como podem essas paisagens esconder tanta violência? Veja-se a pilha de ossos, remetendo a imagens do Holocausto, ou as cenas de avalanche da neve, que remetem a O grande búfalo branco, dos anos 70, com Charles Bronson, numa perspectiva mais épica. É visível também a presença, em alguns quadros, de Herzog, sobretudo aquele de Fitzcarraldo e O sobrevivente. A água se mostra como uma espécie de salvação, ao mesmo tempo que leva o ser humano a lugares ainda inabitados. Com ela, o fogo mostra não apenas o que pode iluminar florestas, com homens segurando tochas, ou esquentar à margem de um rio; também é aquilo que não sobrevive ao vento e ao gelo. Junto a isso, é um filme com um punhado de cenas executadas com perfeição e que cresce na lembrança, principalmente quando alterna os motivos existenciais que perduram na narrativa. Mesmo o final, habitualmente criticado, é de uma beleza notável: Iñárritu leva o espectador a uma espécie de retomada de um passado e a necessidade, ao mesmo tempo, de abandoná-lo e seguir adiante.

The revenant, EUA, 2015 Direção: Alejandro González Iñárritu Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Lukas Haas, Dave Burchill, Melaw Nakehk’o Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Mark L. Smith Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Bryce Dessner, Carsten Nicolai, Ryûichi Sakamoto Produção: Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, David Kanter, James W. Skotchdopole, Keith Redmon, Mary Parent, Steve Golin Duração: 156 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Anonymous Content / New Regency Pictures / RatPac Entertainment

Cotação 5 estrelas

 

No coração do mar (2015)

Por André Dick

No coração do mar 18

O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de Splash, Cocoon, Willow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da Vinci, O Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repete em No coração do mar, o filme sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.
Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti, Howard apresenta a história de Thomas Nickerson (Breendan Gleeson), casado com (Michelle Fairley) que recebe, num momento de depressão e financeiramente difícil, o escritor Herman Melville (Ben Wishaw, fazendo ecoar seu papel em Cloud Atlas) para contar a história do baleeiro Essex, que partiu em viagem nos anos 1850 da cidade de Nantucket. Ou seja, o filme não é uma adaptação direta de Moby Dick, livro de Melville que serviu de referência para outros inúmeros livros ou filmes sobre o confronto entre homens e animais (do mar ou da terra).

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Em torno de três décadas antes, Nickerson (agora Tom Holland) fazia parte desse baleeiro, sob o comando de George Pollard (Benjamin Walker, excelente), um capitão inexperiente que recebe o confronto direto de Owen Chase (Hemsworth), cujo melhor amigo, Matthew Joy (Cillian Murphy), se encontra a bordo, e muito mais tarimbado nas funções que precisa exercer em alto-mar. No entanto, eles precisam entrar em acordo para que o serviço seja bem feito e possam voltar com bastante especiaria de baleia para terra. Alguns meses mais tarde, eles percebem que quase não há baleias, indo parar no Equador, onde são alertados sobre uma determinada cachalote branca. Isso é o ponto de partida para a história de Melville, que já se tornou conhecida, por meio de seu capitão Ahab, que enfrenta a cachalote em alto-mar. Escusado será dizer que o barco Essex será perseguido como se houvesse um embate contra outro ser humano, plenamente consciente de que deve se vingar. Esse é o mote dessa grande história.
Por meio de uma fotografia excelente de Anthony Dod Mantle, já responsável pelas tomadas de corrida de Rush, que concede ao filme uma textura de filme antigo, mais propriamente dos anos 50. No coração do mar cresce ainda mais por causa de sua imponência na parte de efeitos especiais e efeitos sonoros. São notáveis as sequências de perseguição da baleia ao Essex, e este é construído de maneira verossímil. Há algumas alternativas previsíveis na narrativa de Howard, mas em nenhum momento o filme se apresenta como montado às pressas como costuma acontecer com grande parte dos blockbusters: ele tem uma grande proximidade com fatos que poderiam a princípio chocar não fossem símbolos exaustivos de como pode uma sobrevivência se antecipar à vida, assim como o referencial Invencível.

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Também é notável a reconstituição de época (junto com os figurinos), mesmo que em alguns momentos haja uma determinada aparência falsa no conjunto; no entanto, parece-me proposital, por Howard exatamente querer recuperar o clima de cinema antigo já constatado na fotografia de Dod Mantle. Não são raras as vezes em que imaginamos assistir a um filme clássico, cujo relevo lembra um álbum antigo. A obra de Howard se sente como um grande painel de época, variado e profuso – e determinadas sequências possuem uma beleza plástica poucas vezes vistas no cinema. Em alguns momentos, há diálogos com a maneira como Peter Jackson filmou as cenas em alto-mar no seu King Kong, em outros, como já apontado, Howard convoca elementos do documentário Leviathan, principalmente ao mostrar o voo de gaivotas, e há um eficiente uso das cores vermelhas (da violência contra a baleia) e verdes (do mar e dos olhos dos personagens e da própria cachalote). Howard sempre esteve muito interessado no tema da viagem e do confronto do homem com seus próprios limites, como em Apollo 13, Um sonho distante ou mesmo na fantasia Willow. Em Uma mente brilhante e A luta pela esperança, Russell Crowe representava homens lutando contra suas possibilidades e impossibilidades, e nesse sentido Owen Chase é um típico personagem de sua filmografia.

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Na verdade, se aqui Howard consegue extrair interpretações competentes do elenco, como de praxe, ele se esmera ainda mais em se aproximar de um lado mais grave: o ser humano em busca de uma temporada de caça acaba se voltando contra si próprio para sobrevivência. Howard consegue indicar esse desespero humano, sobretudo ao mostrar como os homens do baleeiro faziam para extrair as especiarias e depois o que devem fazer para se manterem vivos.
Hemsworth tem se mostrado um dos astros mais interessantes desde seu surgimento em Star Trek e Os vingadores. Em No coração do mar, mais uma vez ele revela uma emoção que consegue captar seu susto diante da situação de enfrentar um mistério da natureza querendo destruir a navegação da qual faz parte. Ele faz parte de um ótimo elenco de apoio, incluindo Whishaw, Gleeson e Cillian Murphy. Holland, o próximo Homem-Aranha, tem uma participação não exagerada e competente o suficiente para tornar seu personagem como a continuação de uma linhagem de baleeiros.

In the heart of the sea, EUA, 2015 Diretor: Ron Howard Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Tom Holland, Cillian Murphy, Michelle Fairley Roteiro: Charles Leavitt Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Roque Baños Produção: Brian Grazer, Edward Zwick, Joe Roth, Paula Weinstein, Will Ward Duração: 121 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Cott Productions / Enelmar Productions, A.I.E. / Imagine Entertainment / Roth Films / Spring Creek Productions / Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 4 estrelas