Logan Lucky – Roubo em família (2017)

Por André Dick

Depois de Magic Mike, Steven Soderbergh havia anunciado sua aposentadoria da grande tela. No entanto, ele nunca se afastou realmente dela, ajudando na produção, como diretor de fotografia e montador, de Magic Mike XXL, por exemplo. Na TV, fez Behind the Candelabra, muito bem recebido pela crítica. Diretor de algumas peças muito interessantes, principalmente Kafka, Irresistível paixão, Erin Brokovich, Traffic e Contágio, ele fez muito sucesso com uma série irregular, Onze homens e um segredo. Soderbergh é um cineasta que se especializou em adotar uma espécie de visão sobre os Estados Unidos e seus problemas, envolvendo desde o subúrbio ameaçado por grandes empresas até famílias que sofrem a ameaça da invasão das drogas por meio de seus filhos e uma espécie de alarme para os relacionamentos do futuro. No entanto, ele tem uma especial atração pelo tema do roubo, o que está presente não apenas na série referida, como em Irresistível paixão.

O mesmo acontece em Logan Lucky – Roubo em família, no qual ele volta ao ambiente que lhe agrada em especial, meio setentista, na maneira de construir a atmosfera e a narrativa, mesmo que passada nos dias atuais. No Condado de Boone, Jimmy Logan (Channig Tatum) é demitido de seu trabalho. Ex-jogador de futebol (o que faz lembrar seu personagem policial em Anjos da lei), ele está em permanente conflito com a ex-esposa Bobbie Jo (Katie Holmes), com quem tem uma filha, Sadie (Farrah Mackenzie). Também tem um irmão, Clyde (Adam Driver), veterano da Guerra do Iraque, onde perdeu parte de um dos seus braços, que trabalha num bar. Os irmãos moram numa cidade dedicada à mineração, ou seja, não se visualiza exatamente um ganho especial em dinheiro onde estão. Soderbergh não chega a elaborar esses personagens, e eles dizem muito: Clyde, por exemplo, poderia estar em Erin Brokovich e sua discussão sobre o aparato governamental por trás do destino das pessoas.

Ainda assim, a trama vai se movimentando de maneira fluida, sem que percebamos a sua estrutura algumas vezes previsível. Certo dia, Jimmy tem um plano de roubo no Charlotte Motor Speedway na Carolina do Norte, que eles vão tentar concretizar com o conhecido Joe Bang (Daniel Craig) e seus irmãos Sam (Brian Gleeson) e Fish (Jack Quaid), além da irmã de Jimmy e Clyde, Mellie (Riley Keough). Há outros personagens, que entram e saem da trama sem uma motivação clara, sem que isso os torne menos atrativos: a médica Sylvia Harrison, feita por Katherine Waterson. e o ricaço Max Chilblain, que vende bebida, feito por Seth MacFarlane (diretor de Ted), maquiado de maneira engraçada, além da agente de Hilary Swank são apenas alguns. De algum modo, todos acabam por contribuir com a narrativa, feita mais por meio de diálogos soltos do que exatamente uma estrutura preexistente sem nunca aparentar ser disperso. Logan Lucky dialoga, em certos momentos, com filmes dos irmãos Coen, a exemplo de E aí, meu irmão, cadê você? Onde os Coen se mostram um pouco mais pretensiosos, Soderbergh reduz o que poderia soar forçado, tornando mais comercial uma trama que não teria normalmente nada de comercial, remetendo, nesse caso, a Robert Altman e experimentos como Nashville e Um perigoso adeus. E as figuras femininas são um destaque: além de Waterston e Swank, Riley Keough, que apareceu em filmes underground de relevo nos últimos anos, a exemplo de Docinho da América e Lovesong, e mesmo a discreta Katie Holmes aparecem bem.

Com seu horizonte do interior dos Estados Unidos, Logan Lucky é uma mistura bem dosada entre comédia e ambientes presidiários, como era Irresistível paixão. O elenco, de maneira geral, é ótimo, principalmente Craig num papel inesperado, ainda que sem a diversão prometida pelo trailer. Tatum e Driver possuem boa química e Keough novamente chama a atenção por seu talento, mesmo que com pouca participação. Há alguns lances de emoção em família, mas nada que tome muito conta da metragem: Soderbergh está interessado em mostrar esse roubo pelos irmãos Logan, Joe e seus irmãos e o faz com uma narrativa entre a lentidão e o movimento, sem nunca tornar a narrativa pesada ou falha em seus momentos menos inspirados. Podia não ter acertado, como, especialmente, na segunda parte de sua trilogia de Onze homens e um segredo, contudo acaba sendo efetivo. Termina sendo uma das grandes diversões de 2017, um retorno inspirado de Soderbergh depois de uma quase aposentadoria, recuperando seus melhores momentos. O roteiro de Rebecca Blunt contribui muito para isso, tornando cada diálogo e situação em peças sólidas.

Logan Lucky, EUA, 2017 Diretor: Steven Soderbergh Elenco: Channing Tatum, Adam Driver, Farrah Mackenzie, Riley Keough, Daniel Craig, Katie Holmes, Charles Halford, Seth MacFarlane, Jack Quaid, Brian Gleeson, Katherine Waterston, Dwight Yoakam, Sebastian Stan, PJ McDonnell, Robert Fortner, Hilary Swank Roteiro: Rebecca Blunt Fotografia: Peter Andrews Trilha Sonora: David Holmes Produção: Gregory Jacobs, Mark Johnson, Channing Tatum, Reid Carolin Duração: 119 min. Distribuidora: Fingerprint Releasing, Bleecker Street

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Star Wars – Os últimos Jedi (2017)

Por André Dick

Responsável por um excelente filme de adolescentes em homenagem ao noir, A ponta de um crime, e por uma ficção científica que soava como um quebra-cabeça, Looper, Rian Johnson foi convidado a dirigir e escrever o roteiro de Star Wars – Os últimos Jedi, a continuação de O despertar da força, o reinício da série criada por George Lucas desta vez por meio dos estúdios Disney, que comprou os direitos da franquia. No episódio anterior, dirigido por J.J. Abrams, havia uma necessidade clara de retomar a nostalgia do filme dos anos 70, mas com novos personagens reencontrando alguns dos antigos, Han Solo e Princesa Leia.
Os últimos Jedi mostra a perseguição da Primeira Ordem aos rebeldes liderados pela princesa Leia (Carrie Fischer), entre eles Poe Dameron (Oscar Isaac). O Supremo líder Snoke (Andy Serkis) está raivoso com o general Hux (Domhnall Glesson) por não conseguir impedir a escapada deles do planeta onde foram localizados. Sabe-se o quanto o anterior repetia referenciais de Uma nova esperança, o episódio de 77. Desta vez, as referências são O império contra-ataca e O retorno de Jedi. E não se trata de coibir a nostalgia.

O episódio derivado da série, Rogue One, do ano passado, se fazia em cima disso também, com talento insuspeito por Gareth Edwards. A questão é que aqui Rey (Daisy Ridley) está numa ilha do planeta aquático Ahch-To, onde se esconde Luke Skywalker (Mark Hamill), querendo ser treinada por ele. A aproximação com Yoda em O império contra-ataca não se dá apenas pela argumentação, como por meio de imagens e simbologias: as conversas sobre a individualidade se dão em cavernas e a heroína tem conversas psíquicas com Kylo Ren (Adam Driver), uma interessante opção, enquanto Chewbacca tenta cuidar a Millennium Falcon em meio a uma invasão de determinadas criaturas voadoras.
Entre os rebeldes, Poe (Oscar Isaac), Finn (John Boyega), BB-8 e a mecânica Rose Tico (Kelly Marie Tran) estão envolvidos numa missão para chegar a um rastreador da Primeira Ordem. Rian Johnson divide a ação entre Rey e seus companheiros e isso torna Os últimos Jedi num dos filmes com montagem mais estranha dos últimos anos, tentando, com isso, empregar um ritmo incessante, como Kershner fez em O império contra-ataca.

Enquanto Luke é tratado como um ícone perturbado pelo que lhe aconteceu, e Hamill entrega a melhor atuação do filme com um tom de eremita consciente, ao lado daquelas de Ridley e Fisher (ambas tentando transcender o material que receberam, a segunda em sua despedida), os demais se sentem com conflitos leves demais e com atitudes pouco reflexivas. Não há uma exploração do que torna cada um com identidade própria, como havia mesmo no anterior de maneira superficial. E a impressão é que Johnson, como Abrams, não sabe direito como encaixar os antigos personagens, com novas motivações. Mesmo Chewbacca (Joonas Suotamo), R2-D2 (Jimmy Vee) e C-3PO (Anthony Daniels) não chegam a ser valorizados, cabendo a BB-8 o espaço bem-humorado, que funciona ora sim, ora não. No início, tudo é mais calibrado e coeso, mas no meio do caminho a trama vai dando espaço a excessos.
Johnson tenta retomar elementos de O retorno de Jedi por meio de um cassino no planeta Canto Bight, mas de forma um pouco desajustada e com um tom predominantemente infantojuvenil, mesmo com sua crítica às armas e aos maus tratos a animais (temas que soam deslocados, como muitos outros). Se há algo claro nesta reinicialização de Star Wars é uma obsessão em conversar com o público mais jovem, mais do que os antigos. Johnson está sempre tentando inserir crianças em meio à ação. Edwards conseguiu bom resultado em Rogue One porque era um derivado, com mais liberdade, uma interessante narrativa sobre uma rebelde que quer reencontrar o pai e integra um grupo capaz de arriscar sua vida, mas Os últimos Jedi é uma coleção de frases já ouvidas em outros filmes da saga, com comportamentos e situações idênticas. Por isso, não é frutífera a ideia de que, havendo queixas, é porque se tenta deixar o passado de lado nesses novos Star Wars: o passado está presente o tempo inteiro, só por meio mais de outros personagens. Nem assim a diversão é menor em vários momentos.

O visual tenta um jogo interessante de cores. As batalhas são espetaculares, mesmo sem originalidade, e aqui se insere um slow motion poético com a personagem de Leia. O design de produção é arenoso e ainda assim atrativo, principalmente o da ilha onde está Luke e de uma sala vermelha que remete a Ran e Kagemusha, de Akira Kurosawa. E Adam Driver, apesar de um pouco de dificuldade de desenvolver seu vilão porque seus dilemas apenas repetem os de Darth Vader, tem boa atuação, enquanto Snoke (num CGI desanimador, quando cresceria com uma verdadeira maquiagem) é apenas outro Palpatine, contudo sem nenhum lado verdadeiramente ameaçador (spoiler: o encontro entre Rey, Snoke e Kylo possui diálogos semelhantes aos que vemos em O retorno de Jedi, com Palpatine, Luke e Darth Vader).
Johnson tenta oferecer a seus personagens uma base dramática intensa, principalmente ao focar a relação entre Rey e Luke, que fornece bons momentos, contudo suas tentativas se deparam com uma certa limitação e apresentado como uma coleção de imagens já pertencentes a um imaginário, mas não interessantes como eram. Assim, ele tenta closes e enquadramentos diferentes (aquele em que Rey usa um sabre de luz e Johnson o filma de um determinado ângulo para que se misture à cor do céu é muito belo), zooms inusuais na saga, além de um humor mais acessível, sustentados por uma boa trilha sonora de John Williams. O estranho é que ele deseja ir para a frente, mas retrocede constantemente, em comportamentos já vistos e flashbacks (e não lembro de flashbacks na saga Star Wars, a não ser um rapidamente na obra de Abrams). Isso, no entanto, acaba rendendo a volta de um personagem icônico, depois de uma batalha de sabres na escuridão da ilha, momento mais soturno da saga ao lado do embate entre Vader e Luke em O império contra-ataca e de Anakin e Obi-Wan em A vingança dos Sith.

Os conflitos existentes aqui entre a almirante Amilyn Holdo (Laura Dern, certamente com saudade da peruca que usa em Twin Peaks – O retorno) e Poe Dameron, por exemplo, soam um tanto distantes, e desperdiçam grandes nomes, como Dern e Isaac, este num personagem que era animado no anterior e aqui se aproxima perigosamente de uma falta de empatia. Por sua vez, John Boyega é um ótimo ator (vejamos ele em Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow), mas é bastante subaproveitado. Para compensar, no ato final, nos últimos 30 minutos, Johnson filma uma sequência irretocável. Embora seu estilo visual não tenha o mesmo refinamento mesmo do de Edwards em Rogue One ou de Luc Besson, este ano, em Valerian e a cidade dos mil planetas, a execução dos efeitos visuais é excelente.
Se o episódio de Abrams era uma espécie de serviço para os fãs, pelo menos ele tinha um senso de espaço e movimentação, o que falta a Johnson em algumas passagens como aquela do cassino, embora ele apresente densidade em algumas cenas, sendo muito mais nebuloso, indefinido, o que faltava na peça de Abrams. Tratar as prequels de Lucas como um desserviço ao cinema e este filme como o melhor da saga, segundo alguns, é, por outro lado, no mínimo questionável. Há uma evidente desproporção no que se refere a como os novos Star Wars são recebidos: sem se basear na nostalgia, mas nenhuma dessas obras recentes tem o peso e a intensidade da trilogia original. Havia um nome que conduzia tudo, mesmo sem dirigir algumas vezes: George Lucas, aquele que para alguns teria arruinado a série com a segunda trilogia, mas pelo menos não tentava reviver a trilogia original tentando fazê-la passar por uma nova, mesmo tendo em vista a qualidade. Basta comparar A vingança dos Sith, por exemplo, com esta obra para notar que muitas coisas devem ser revistas e reconsideradas. O que permanece em Os últimos Jedi tem qualidades verdadeiras e, ao final, atrai uma terceira parte, mas se espera que com elementos mais originais.

Star Wars – The last jedi, EUA, 2017 Diretor: Rian Johnson Elenco: Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio del Toro, Joonas Suotamo, Jimmy Vee Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Ram Bergman Duração: 152 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

Os Meyerowitz – Família não se escolhe (Histórias novas e selecionadas) (2017)

Por André Dick

Lançado no Festival de Cannes, Os Meyerowitz – Família não se escolhe (Histórias novas e selecionadas) teve sua exibição precedida por um discurso deselegante do presidente do júri da edição deste ano, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Ele resolveu investir contra os filmes da Netflix (como é o caso de Os Meyerowitz) selecionados pelo Festival porque eles não passariam nos cinemas, sendo disponibilizados diretamente na plataforma digital. Segundo ele, isso prejudicaria o cinema e não se poderia premiar filmes em festivais que não fossem exibidos como é de costume. Claro que se trata de um discurso que remete àquele de que um filme só pode ser visto como tal na tela grande. Isso valia na Hollywood dos anos 50 ou 60, quando se considerava que um filme morria quando passava na TV. Hoje, o cinema costuma sobreviver por causa de outras plataformas, inclusive, ainda, da TV. A qualidade de uma obra não aumenta nem diminui por causa do tamanho da tela (no máximo, em caso de filmes com efeitos visuais e uma fotografia especialmente primorosa, a exemplo do recente Blade Runner 2049, realça esses elementos). Nunca assisti a Cavaleiro de copas, de Terrence Malick, na tela grande – e é meu preferido de 2016 (levando em conta a data de lançamento internacional). Os únicos filmes lançados em Cannes este ano que podem, até o momento, ser vistos pelo público no Brasil são exatamente os dois da Netflix (o outro é Okja) e O estranho que nós amamos, de Sofia Coppola. Os filmes ficam; o discurso de Almodóvar vai, aos poucos, desaparecer.

Os Meyerowitz é uma obra de Noah Baumbach, responsável pelos excelentes A lula e a baleia e Greenberg e os muito interessantes Frances Ha, Margot e o casamento e Enquanto somos jovens, entre outros. Ele também contribuiu no roteiro de A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico Sr. Raposo, junto a Wes Anderson, e se tornou, nos últimos anos, uma mescla entre ele (mais séria) e Woody Allen. Por sua história, Os Meyerowitz dialoga claramente com Os excêntricos Tenenbaums. Mas Baumbach, como em outros filmes, costuma situar seus personagens numa narrativa que dialoga menos com enquadramentos e cores que Anderson.
Se em A lula e a baleia, acompanhávamos um escritor, Bernard Berkman (Jeff Daniels), que havia feito sucesso e continuava dando aulas, pai de dois filhos com uma escritora, Joan (Laura Linney), fazendo o sucesso que ele tinha, em Os Meyerowitz vemos um pai escultor, Harold (Dustin Hoffman, excelente), casado com Maureen (Emma Thompson), aparentemente recém-saída de Woodstock. Ele tem um casal de filhos do primeiro casamento, Danny (Adam Sandler) e Jean (Elizabeth Marvel), e um filho do segundo, Matthew (Ben Stiller), cuja mãe é  Julia (Candice Bergen). O filme inicia com o antigo escultor, que nunca fez grande sucesso, querendo vender a sua casa. Danny deseja conservar suas obras, mas ele não pensa o mesmo. Numa ida à exposição de um antigo amigo, L.J. Shapiro (Judd Hirsch), conflitos vêm à tona para Harold, em relação a ter deixado uma obra para a posteridade.

Dividido em partes, na segunda o pai da família se encontra com Matthew, um corretor, a quem é mais devotado, mas nervoso por não ser bem atendido no restaurante previsto para um diálogo. Baumbach vai encaminhar pequenos conflitos para uma situação ainda mais delicada, na qual os irmãos precisarão se encontrar e chegar a um entendimento. Danny é pai de Eliza (a revelação Grace Van Patten, do interessante Tramps, também da Netflix), que cursa cinema, e é com eles que Baumbach abre sua bela história sobre uma família comum, mas em permanente conflito. Matthew se tornou o mais bem-sucedido, o que torna Danny um pouco receoso de sua aproximação, no entanto é este o mais próximo do pai, em diálogos sobre filmes, uma característica do cinema de Baumbach, como já víamos especialmente em Enquanto somos jovens.
O que mais chama atenção em Os Meyerowitz é a delicadeza com que ele trata a relação entre um pai e seus filhos. Não apenas pela atuação de Hoffman, mas principalmente pelo encontro exitoso entre Stiller e Sandler, este é um filme cujo humor acentua o drama e vice-versa. Depois de fazer o injustamente menosprezado Sandy Wexler este ano, Sandler apresenta aquela que é talvez sua atuação mais calibrada ao lado de Embriagado de amor. Ele consegue entregar ao papel de músico fracassado e divorciado uma sutileza necessária e, ajudado pelo belo roteiro, trava uma interação agradável com Van Patten, numa sequência ao piano logo ao início, e, sobretudo, com Stiller, que tem, num determinado momento-chave, a sequência de sua carreira (não entrarei em detalhes). Stiller já havia trabalhado com Baumbach em Greenberg e Enquanto somos jovens, em dois de seus melhores papéis, fugindo às comédias padronizadas em que costuma estar envolvido.

Baumbach consegue conciliar o ambiente urbano de Nova York, pano de fundo para muitos de seus filmes – e Adam Driver, ator que ajudou a revelar, aparece numa participação especial –, com um ambiente mais bucólico, de interior, como se a intimidade dos personagens sempre estivesse conciliada com os cenários. Algumas passagens podem parecer desnecessariamente explicativas, no entanto conservam sempre um tom familiar capaz de tornar o material de Baumbach próximo do espectador. Os personagens, mesmo adultos, adotam algumas vezes um comportamento infantil, mas o roteiro não torna isso superficial, tentando minimizar a dimensão deles, e sim os torna mais complexos. Na tentativa de não reprisarem o passado, eles olham para a geração futura com a preocupação de fazerem o certo: não há também um sentido de competição novamente em cena. Há um relato comovente de Jean, que torna a aparição de Marvel, até então um pouco deslocada, numa peça essencial para entender também o passado dessa família. Em seus trabalhos mais recentes, a exemplo de Frances Ha, Enquanto somos jovens e Mistress America, Baumbach tende a tentar desenhar um painel da juventude norte-americana em conflito com ideais de uma geração anterior, no entanto em certos momentos soa descompassado. Essa característica não se sente em Os Meyerowitz, que, mesmo com seus cortes às vezes abruptos, se sente orgânico do início ao fim e verdadeiramente sentimental em suas escolhas. Baumbach entrega um dos melhores filmes do ano, com roteiro e elenco referenciais para o que, independente de onde se veja, ainda se chama cinema.

The Meyerowitz stories (New and selected), EUA, 2017 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Adam Sandler, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Elizabeth Marvel, Grace Van Patten, Candice Bergen, Adam Driver, Judd Hirsch, Rebecca Miller, Matthew Shear Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Robbie Ryan Trilha Sonora: Randy Newman Produção: Scott Rudin, Noah Baumbach, Lila Yacoub, Eli Bush Duração: 112 min. Estúdio: IAC Films Distribuidora: Netflix

 

Paterson (2016)

Por André Dick

Esta nova experiência de Jim Jarmusch na direção vem na sequência de seu filme cult de vampiros, Amantes eternos. Desta vez, o criador de obras singulares como Estranhos no paraíso, Daunbailó, Dead man e Flores partidas mostra a trajetória de Paterson (Adam Driver), motorista de ônibus da cidade de New Jersey com o mesmo nome seu. Ele escreve versos num caderno secreto e é ainda admirador especial de William Carlos Williams, que nasceu na cidade, trabalhou como médico e escreveu o longo poema intitulado Paterson.
Quando chega em casa, o poeta-motorista sempre leva o buldogue da sua amada Laura (Golshifteh Farahani), chamado Marvin, para passear. No trajeto, ele descansa num bar cujo proprietário é Doc (Barry Shabaka Henley), fã de Lou Costello, onde também conhece alguns outros frequentadores, inclusive o ator Everett (William Jackson Harper), que tenta reconquistar a ex-namorada, Marie (Chasten Harmon), evocando algo de O fabuloso destino de Amélie Poulain. Também se depara, em alguns passeios, com um rapper (Cliff Smith, também conhecido como Method Man) e uma jovem poeta (Sterling Jerins), que lhe pergunta se gosta de Emily Dickinson depois de ler um poema no qual faz uma analogia entre a chuva e os cabelos de uma jovem.

Para quem não gosta de narrativas lentas, Paterson, exibido pela primeira vez no Festival de Cannes do ano passado, se torna especialmente difícil, mas Jarmusch consegue ser tão humano e sensível que se torna difícil não aceitar que é um dos maiores acertos de sua filmografia já rica. Há algo de estranho na relação entre Paterson e Laura: ela é uma sonhadora, que deseja seguir carreira de cantora country, mas, ao mesmo tempo, quem o prende à realidade. Querendo fazer também cupcakes, ela se transforma na referência dele para os horários marcados do cotidiano: seu interesse pela decoração da casa é um complemento a isso – e a atuação excepcional de Golshifteh Farahani, também música na vida real, colabora definitivamente para o andamento da narrativa.
Paterson retrata como as revelações do cotidiano, as simples perguntas feitas (“Como vai?”), as aspirações divididas, um encontro para jantar ou no cinema e a tentativa de descobrir por que a caixa de correio se encontra da mesma maneira todos os dias constituem um universo poético. Do mesmo modo, o personagem central se interessa em ouvir as conversas de seus passageiros: em determinado momento, aparecem Kara Hayward e Jared Gilman, o casal de Moonrise Kingdom. Neste filme de Wes Anderson, seus personagens tratavam de poesia e de rimas, o que acontece aqui quando Paterson dialoga com a menina que escreve versos em um livreto.

A maneira como o diretor mostra os poemas criados pelo motorista de ônibus (criações de Jarmusch e do poeta Ron Padgett) vai se mesclando ao seu dia a dia repetitivo, e Driver tem a melhor atuação de sua trajetória, depois de viver o vilão Kylo Ren do Star Wars de Abrams, mostrando um crescimento desde os filmes realizados com Baumbach (sobretudo em relação à performance falha em Enquanto somos jovens): fazendo um homem tranquilo e gentil, trata-se da liderança do filme e conduz tudo com rara eficácia. Ele se sente gentil, contudo não de maneira simplista, e generoso, sem aparentar um exagero. Num determinado momento decisivo, ele olha para a capa de um de seus livros preferidos, imaginando possivelmente seu poema junto dele. Em outro, ele visualiza o nome de uma marca de fósforos, Ohio Blue Tip, gravado na caixinha, e começa a selecionar a partir dessa imagem palavras para um poema. As palavras e os versos são retratados como parte de um mesmo ciclo: o dia e a noite, o trabalho e o descanso, o volante e a biblioteca; tudo recomeça novamente a partir da imaginação.
Aliado a essa simplicidade do personagem, Jarmusch trabalha de maneira interessante a ambientação do filme, seja nos locais por onde Paterson passa com seu ônibus quanto pelo bar que frequenta, com uma fotografia delicada de Frederick Elmes, colaborador de David Lynch em Veludo azul e Coração selvagem, por exemplo, assim como de Jarmusch, em Uma noite sobre a terra e Flores partidas.

Além disso, quando caminha por ruas vazias, sente-se a solidão do personagem: não tendo com quem falar sobre poesia, ele apenas tenta vivenciá-la por meio da experiência com os outros. Esta é uma característica pouco presente não apenas no cinema norte-americano, como também europeu: Paterson não se sente de nenhum lugar, sendo quase de um gênero à parte, indefinido. Tão interessante que acaba criando suspense sobre a possível publicação dos poemas do motorista de ônibus. Laura insiste que ele deve fazer uma cópia para que outros possam conhecer o que realiza.
É muito difícil haver um filme que não busca desvios na trama ou grandes acontecimentos para simplesmente acontecer diante dos olhos do espectador. Sempre foi uma característica de Jarmusch extrair momentos interessantes do lugar-comum, especialmente nos seus filmes dos anos 80, no “faroeste” Dead man, em que Johnny Depp fazia uma espécie de fantasma de um caubói, e em Flores partidas, mas talvez porque esteja mais amadurecido nunca as passagens que pareceriam tão modestas para o olhar do espectador se tornam tão intensas. No filme anterior a este, Amantes eternos, uma relação era estabelecida por séculos e as citações literárias se proliferavam, mas o resultado não era, na prática, tão interessante. Além disso, em alguns outros filmes Jarmusch estava mais interessado no tema da globalização, como em Os limites do controle e Trem mistério, o que o fazia perder por vezes o foco em que se sai melhor: o de pessoas que parecem pertencer a um bairro comum e universal. Paterson representa bem a temporada de filmes indicados para o Oscar em 2017 ou que fizeram campanha (como ele): notáveis, em qualidade de direção, elenco e roteiro. É um verdadeiro manifesto em prol da afetividade e do amor.

Paterson, EUA/FRA, 2016 Diretor: Jim Jarmusch Elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, Barry Shabaka Henley, Chasten Harmon, William Jackson Harper, Method Man, Jared Gilman, Kara Hayward Roteiro: Jim Jarmusch Fotografia: Frederick Elmes Produção: Carter Logan, Joshua Astrachan Duração: 113 min. Estúdio: Amazon Studios / Animal Kingdom / K5 Film

 

Silêncio (2016)

Por André Dick

O cineasta Martin Scorsese tem investigado mais o comportamento violento da humanidade que qualquer outro cineasta, incluindo Tarantino. Desde os anos 70, quando realizou Taxi Driver, passando pelos anos 90, quando trouxe à cena Os bons companheiros, sempre quis alternar uma observação sobre como o indivíduo pode levar a transgressão a um determinado limite. Mesmo uma comédia corrosiva como Depois de horas, nos anos 80, trazia este elemento. Por isso, ainda mais depois de O lobo de Wall Street e do piloto da série Vinyl, com sua sucessão de personagens envolvidos em problemas pessoais mesclando dinheiro e drogas, esta adaptação que fez com Jay Cocks do romance de Shusaku Endo se sente, a princípio, por vezes deslocada. Você vai assisti-lo esperando o Scorsese de sempre e encontra, de certo modo, um novo cineasta, embora com elementos claros daquele de sempre na maneira de conduzir seu elenco e a parte técnica – e mesmo sua conhecida transgressão.
Scorsese já adotou uma análise sobre a espiritualidade em seu polêmico A última tentação de Cristo e em Kundun, mas aqui pretende adensar a temática. O filme inicia com imagens que misturam religião e violência, para então mostrar o padre jesuíta Alessandro Vagliano (Ciarán Hinds), no Colégio de São Paulo, em Macau, transmitindo a notícia aos padres Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) de que seu guia espiritual, Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), renunciou à sua fé no Japão.

Eles se mostram interessados em viajar para o Japão feudal do século XVII, a fim de obter informações sobre o destino de Ferreira, pois não acreditam no relato, e lá encontram Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), um pescador que os ajudará na procura, levando ambos à aldeia de Tomogi, onde a religião cristã está estabelecida. Para surpresa dos padres, eles se tornam referenciais da comunidade – e a chegada de barco em meio a uma névoa densa mostra o primeiro passo num país que está escondido pelo feudalismo. No entanto, surge um homem a que se referem como inquisidor, Inoue Masashige (Issey Ogata), o qual pretende descobrir se há cristãos na aldeia. A violência que surge poderia remeter ao filme A missão, em que tribos da América do Sul catequizadas por jesuítas eram dizimadas por espanhóis, mas Scorsese trabalha mais no plano psicológico e influenciado pela concepção visual de Mistérios de Lisboa.
Ele fornece um descompasso entre as primeiras cenas, bastante rápidas, e o restante de sua narrativa, que lembra mais a de um filme de Hsien ou Wong Kar-Wai, desenvolvendo lentamente os personagens, principalmente dos padres, para lidar depois com temas como a fé alheia, a maneira com que se trabalha com a retórica e o compromisso fervoroso. É interessante que a narrativa, apesar de trabalhar com temas aparentemente específicos, se mostra universal quando lida com a solidão do padre Rodrigues, que configura, para Scorsese, um jovem em busca do encontro com o que a religião promete.

Ele é inseguro e muitas vezes imaturo, e Garfield mostra essas características de maneira a não reduzi-lo em nenhum momento. Trata-se de uma figura fascinante e Scorsese o filma, em determinado momento, olhando para a água de um riacho quando se projeta a imagem de Cristo. É como se ele quisesse personificar um símbolo e, diante do medo, tentasse fazê-lo de todas as formas, precisando lidar com o fato de que não querem sua religião e sua presença, por meio de Inoue e de um intérprete (o excepcional Tadanobu Asano). Scorsese se insere melhor em seu estilo quando a história é transportada para Nagasaki, em momentos que lembram principalmente Furyo e o recente Invencível, além de filmes orientais de Kurosawa, a exemplo de Ran e Kagemusha, fazendo com que a imponência dessa cultura se projete como uma ameaça e como um bloco concreto incontornável para o plano de catequização.
Nisso, a figura de Kichijiro o acompanha, em todas as etapas, parecendo ser um símbolo daquilo que Rodrigues não admite ser. Scorsese desenha isso com uma desenvoltura particular e sem ingressar no estilo a que está acostumado. Quase não há movimentação de câmera – a fotografia de Rodrigo Prieto é esplêndida – e os templos adquirem uma magnitude própria. Em determinado momento, homens que creem em Deus são obrigados a enfrentar a força da maré, numa sequência capaz de sintetizar a força da natureza e da crença numa ideia religiosa.

Scorsese é um mestre em extrair boas atuações, e pode-se dizer que aqui, mais do que Garfield, é Driver que concede os momentos inclusive mais bem-humorados de Silêncio, além de uma missa em latim (embora, apesar de portugueses, nunca vemos os personagens falando em sua língua de origem) em meio a um cenário tomado pela chuva. Garupe não sabe ao certo se quer se inserir na devoção que é exigida para o comportamento cristão. Isso é revelado de maneira muito sutil. No entanto, diante do que virá, ele se torna a figura mais emblemática e forte do contexto. Claro que, por todo seu contexto, sua publicidade, Silêncio trata da fé do ser humano: quando vamos ao filme, porém, Scorsese lança um olhar de que a condição da fé passa pela materialidade, tanto que os personagens cristãos são obrigados a enfrentarem símbolos, neste caso cruzes ou a imagem de Cristo num molde de metal que eles precisam desrespeitar ou não.
Vários filmes de Scorsese tem esse conflito religioso como pano de fundo – como o subestimado Vivendo no limite, sobre um motorista de ambulância, Gangues de Nova York, permeado pela violência, ou ainda Cabo do medo –, e obviamente ele não está doutrinando o espectador e sim mostrando que o discurso está ligado mais a símbolos. A pergunta que Scorsese lança é: podemos prendê-los e ameaçá-los de morte?

Os padres desejam portar o discurso, mas a crença verdadeira está invariavelmente neles: daí o final ser um momento tão brilhante para o filme. Os símbolos, para Scorsese, não podem ser destituídos. O melhor momento parece ser aquele em que Rodrigues é solicitado por alguns japoneses a falar sobre o Paraíso, quando está ciente de que corre risco de morte – e o que fala ressoa apenas para os demais, não para ele. Desse modo, considerar que Scorsese pretende convencer o espectador sobre seguir uma determinada religião é desconhecer a verdadeira fé inabalável de sua obra: a espiritualidade pertence a cada um e possíveis seguidores não necessariamente podem ser evitados, à medida que o ser humano é constituído pela simbologia. É o que esta obra excepcional de Scorsese traz de mais surpreendente em sua notável análise sobre o indivíduo, aquele que busca a transcendência mesmo que esconda isso de si mesmo.

Silence, EUA, 2016 Diretor: Martin Scorsese Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Issey Ogata, Yôsuke Kubozuka, Tadanobu Asano, Ciarán Hinds Roteiro: Jay Cocks e Martin Scorsese Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Kathryn Kluge e Kin Allen Kluge Produção: Barbara De Fina, Emma Tillinger Koskoff, Gaston Pavlovich, Irwin Winkler, Martin Scorsese, Randall Emmett, Vittorio Cecchi Gori Duração: 162 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: AI-Film / Cappa Defina Productions / Cecchi Gori Pictures / Fábrica de Cine / SharpSword Films / Sikelia Productions / Waypoint Entertainment

Star Wars – O despertar da força (2015)

Por André Dick

Star Wars VII.6

Depois de O retorno de Jedi, em 1983, George Lucas resolveu fazer uma segunda trilogia, contando a origem de Darth Vader, e os filmes que conhecemos (de 1999, 2002 e 2005) alternaram bons e maus momentos, mas não chegando a capturar novamente a magia da saga inicial. Era de se esperar, a partir daí, que não houvesse mais filmes envolvendo a família Skywalker nem suas gerações futuras. Não era o que pensava George Lucas quando vendeu os direitos de sua criação para os estúdios Walt Disney pela bagatela de 4 bilhões de dólares. Naturalmente, os estúdios Disney passaram a conceber uma nova trilogia, que desse sequência a O retorno de Jedi e trouxesse de volta os personagens que arrebataram fãs entre o fim dos anos 70 e o início dos anos 80 e constituem uma mitologia à parte dentro do cinema. Para lidar com mitologias cinematográficas, o nome mais acessível nos últimos anos é o de J.J. Abrams. Criador da série Lost, ele fez a terceira parte de Missão impossível e, em seguida, produziu uma espécie de mistura entre Godzilla e Alien em Cloverfield. Mas foi justamente com a retomada de Star Trek, mostrando os personagens em sua juventude, que elevou Abrams ao status de diretor de franquias. Super 8 e a segunda parte de Star Trek apenas antecederam o que ele entrega de melhor: a nostalgia de se reviver um cinema que parecia perdido no tempo.

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O seu Star Wars – O despertar da força é baseado justamente nessa configuração que o levou a ser o cineasta predileto para retomadas de um universo. Ao contrário de Star Trek, no entanto, percebe-se que em Star Wars Abrams não teve a mesma disponibilidade e segurança para empregar o seu próprio universo, que alterna um humor quase desleixado, se não fosse também bastante elaborado. Sua parceria com Lawrence Kasdan – roteirista de O império contra-ataca e O retorno de Jedi – na elaboração da história (a presença de Michael Arndt não parece tão grande) mostra que ele quis retomar alguns caminhos já entregues na primeira trilogia. Desta vez, quem vive no deserto – de outro planeta, Jakku, reservado a ferro-velho – é Rey (Daisy Ridley), em busca de sucata para conseguir mantimentos e sobreviver, que determinado dia encontra um androide perdido, BB-8, que pode trazer, como o R2-D2 no filme inaugural, dados importantes para localizar um determinado personagem. Ao mesmo tempo, temos o dilema de Finn (John Boyega), um stormtrooper que não pretende seguir os mandamentos do novo senhor do lado escuro, Kylo Ren (Adam Driver) – que age ao lado de General Hux (Domhnall Gleeson, nunca antes tão vilão) – e pretende ter uma nova vida.
Abrams tem um grande cuidado ao introduzir esses novos personagens, com o carinho que George Lucas tinha com os seus na primeira saga. Rey é, inicialmente, uma personagem já bastante próximo do público, por sua personalidade cercada de um heroísmo sem o lado espetaculoso. Sua intérprete, Daisy Ridley, é uma descoberta, também por sua semelhança com os registros mais recentes de Keira Knightley, em Anna Karenina e Mesmo se nada der certo, quando sua porção como atriz melhorou muito. Por sua vez, Finn é decisivamente firmado pela interpretação de Boyega, que consegue despertar uma empatia imediata com o espectador. Suas ações vão se encontrar – e isso não é um spoiler – com os personagens antigos, Han Solo (Harrison Ford, em bela atuação) e Chewbacca (Peter Mayhew), num emaranhado de situações que podem lembrar desde o recente Guardiões da galáxia até os filmes antigos da saga, principalmente O império contra-ataca e O retorno de Jedi.

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Abrams tem um cuidado visual muito grande em sua obra, e com Star Wars não é diferente. As partes que alternam lugares com árvores remetem a O retorno de Jedi e as paisagens geladas recordam imediatamente O império contra-ataca. Ainda assim, sente-se que Abrams realmente quer dar um toque autoral ao filme quando escolhe, nesse caminho, focar no conflito trazido pelo vilão Kylo Ren. Não lembro de outra atuação tão efetiva de Adam Driver em sua curta trajetória, mais conhecido pelas peças que fez com Noah Baumbach e nos quais não chega a ter um brilho especial. Como vilão, Driver potencialmente consegue mostrar um componente trágico e que leva a narrativa a uma situação realmente devastadora. Ele não tem a mesma contundência daquela que mostra Benedict Cumberbatch no segundo Star Trek, mas não deixa a dever em termos de ameaça quando finalmente tem um roteiro para trabalhar.
Ainda assim, Abrams fornece ao espectador alguns problemas que não eram encontrados em Star Trek: vejamos como ele elabora rapidamente as ligações de alguns personagens, mas não consegue dar o mesmo fluxo emocional, em razão, principalmente, de estar preso à continuação de uma linhagem. Em Star Trek, ele tinha liberdade porque estava subvertendo o imaginário de Roddenberry, oferecendo uma nova roupagem a Kirk e a Spock. Ele não pode fazer o mesmo com Han Solo ou Princesa Leia, personagens icônicos e que os admiradores da série ligam aos filmes originais. De qualquer modo, ele consegue, principalmente com Han Solo e Chewbacca, mais uma parceria baseada em certo bom humor que consegue agradar ao espectador. E Carrie Fisher surpreende com segurança, sendo, em certa medida, desperdiçada, pelo menos quanto ao potencial que seu personagem apresenta para o núcleo da história.

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Abrams também tem um olho muito atento para os cargueiros e as naves imperiais, além das naves dos rebeldes (novamente), assim como com os stormtroopers, como se ele pudesse reviver parte da infância brincando com esses objetos e efeitos especiais. Há sequências de batalha muito bem filmadas, principalmente uma em que se pronuncia sobre as ruínas de um determinado local, bastante longe do CGI apresentado por Lucas na sua segunda trilogia – é visível como Abrams tentou realmente construir os cenários e evitar a computação gráfica. Existe uma imponência maior no que se refere ao tamanho das naves e aos detalhes que elas carregam, quase inexistentes nos originais. Em alguns momentos, há cenários e figurinos um pouco desajeitados na tentativa de atingir a atmosfera dos originais, sobretudo de clubes esfumaçados com criaturas estranhas, em que surge Maz Kanata (Lupita Nyong’o, por trás da maquiagem e dos efeitos especiais), contrabalançado por uma fantástica concepção de paisagens invernais ao som do que o espectador deseja presenciar nessa continuidade da saga. Abrams não é tão cuidadoso quanto Lucas ao mostrar criaturas horrendas: se Lucas quer focar seu lado cômico, Abrams as emprega com ameaça, como em Super 8 e Cloverfield (não há humor, e sim violência nelas). Há uma certa dose desmedida de violência atípica para uma produção da Disney e mesmo em relação aos episódios anteriores de Star Wars, mais distante da fantasia.
Em termos de visão política, se George Lucas quis carregar todas as tintas na analogia de sua segunda saga com o Senado norte-americano do período de George W Bush, aqui em Star Wars o novo império surge quase como um Terceiro Reich, principalmente numa sequência grandiosa, parecida com o que veríamos num filme sobre a Alemanha nazista. Este elemento destoa, em parte, do universo fantástico que vemos – e Lucas não arriscou sequer em seu segundo filme –, mas não tira o mérito de Abrams.

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Ele, na verdade, parece querer reprisar o que Lucas fez em Guerra nas estrelas com um olhar moderno. Em certos momentos, consegue atingir isso: mostra como os destroços podem constituir uma linguagem. Em outros, apenas se confunde, não dando a importância necessária a personagens como os de Poe Dameron (uma boa criação de Oscar Isaac, ainda que ligeira, pelo menos neste primeiro capítulo da nova trilogia) e Lor San Tekka (Max von Sydow), além do ótimo androide BB-8. É difícil dizer, mas Abrams não consegue a mesma imponência de Kershner e Marquand nos filmes que seguiram ao primeiro Guerra nas estrelas porque lhe falta, aqui, em parte, a liberdade que necessitava, que era justamente empregar sua visão mais pessoal ao universo de Lucas. Sem o grande criador, parecia que estava sendo mais livre, no entanto o contrário acontece algumas vezes: Abrams se apega demais à arquitetura original, sem acrescentar muito da sua, o que se apresenta, principalmente, no terceiro ato. Ele, de certo modo, acerta mais quando cria uma certa aura de mistério, entregando os personagens de modo enviesado. Em alguns momentos, por outro lado, as ações deles não parecem ter a devida ênfase e a interação mais possível. Isso não tira seus méritos na recuperação desse universo, na sua tentativa explícita de se declarar a ele, como quando se busca a mesma força dos novos personagens centrais, que atraem grande parte da energia dessa história e realmente guardam para o espectador um universo grandioso. É muito bom estar de volta a esse universo e à continuação de uma linhagem extraordinária.

Star Wars: The force awakens, EUA, 2015 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Max von Sydow, Peter Mayhew, Gwendoline Christie, Ken Leung, Greg Grunberg Roteiro: J.J. Abrams, Lawrence Kasdan, Michael Arndt Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Bryan Burk, J.J. Abrams, Kathleen Kennedy Duração: 136 min. Estúdio: Bad Robot / Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas

Enquanto somos jovens (2015)

Por André Dick

Enquanto somos jovens

O olhar do diretor Noah Baumbach sempre esteve voltado para os conflitos marcados pela passagem da juventude para a vida adulta, ou mesmo por adultos tentando se adaptar ao seu presente, sem nunca conseguirem se desligar do passado. Embora as experiências no roteiro com Wes Anderson não tragam exatamente esses temas, em A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico sr. Raposo, eles estão presentes em filmes que o próprio Baumbach dirigiu. Depois de uma estreia nos anos 90, com Tempo de decisão, ele dirigiu o ótimo A lula e a baleia, sobre uma família procurando elos de ligação, e em seguida Margot e o casamento, com Nicole Kidman, e certamente seu filme mais subestimado, Greenberg (que recebeu no Brasil o título lamentável O solteirão), com Ben Stiller. Depois das boas críticas com Frances Ha, estrelado por Greta Gerwig, sua namorada, que está no seu próximo filme, Mistress America, a ser lançado também este ano, Baumbach retomou sua parceria com Stiller neste Enquanto somos jovens. A princípio, é compreensível por que este filme não está recebendo a mesma atenção de Frances Ha: ele não tem a mesma estrela ingênua à frente do elenco, e a história é mais amarga, assim como Greenberg e Margot e o casamento.
Josh (Stiller) e Cornelia Svhrebnick (Naomi Watts) formam um casal em Nova York. Enquanto busca equilibrar o desejo inconsciente de ter filhos, Josh tenta completar um documentário sobre o intelectual Ira Mandelstam (Peter Yarrow) e dá aulas na universidade Dois ouvintes, Jamie (Adam Driver) e Darby Massey (Amanda Seyfried), se anunciam e Jamie, especificamente, diz ser admirador do documentário que ele realizou anteriormente, assim como do sogro dele, Leslie Breitbart (Charles Grodin). A relação conflituosa entre Josh e Cornelia se mostra ainda mais forte quando eles estabelecem uma amizade com esse casal. Jamie agrada a Josh não apenas pela juventude, como valorizar, ao mesmo tempo, Cidadão Kane e Rocky III, e se surpreende  quando o objetivo de Darby é trabalhar com o ramo de sorvetes. O que lhe agrada é o aparente descompromisso do casal.

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Há um clima bastante importado de alguns filmes de Woody Allen, não apenas pelo cenário de Nova York, como também pelos diálogos que remetem ao próprio cinema e à literatura. No entanto, onde Allen tenta tornar seus personagens mais agradáveis, não acontece o mesmo com Baumbach. Sua predileção é colocar seus personagens em conflitos às vezes por detalhes insignificantes, e busca não apenas o humor nisso, como também um misto de inveja e de sede de um indivíduo se sobrepor o outro. Em Frances Ha, era interessante como Baumbach mostrava sua protagonista sempre com graves problemas, porém sem aprofundar exatamente essa melancolia. O mesmo acontece em Enquanto somos jovens: os personagens nitidamente não estão felizes, embora queiram estar. Mais do que em Greenberg e Frances Ha, não há um simples encantamento com a possibilidade de se manter jovem: em Enquanto somos jovens, Josh e Cornelia se mostram desamparados, por não conseguirem mais agir como pessoas jovens, tentando pensar no futuro, mesmo com a ligação mantida com o casal Fletcher (Adam Horovitz) e Marina (Maria Dizzia).
Isso leva à citação de Henrik Ibsen, de The Master Builder, que abre o filme e remete à possibilidade de os jovens entrarem na vida de alguém mais velho para, sem outra palavra, bagunçá-la. Baumbach utiliza esta citação de Ibsen para realizar o que Woody Allen realizou em Crimes e pecados. Naquele filme, Allen interpretava um personagem que fazia um documentário sobre o cunhado, interpretado por Alan Alda. Aqui, em determinado ponto, quando Josh se mostra confiante em dividir seus planos e interesses com Jamie, ele passa também a querer participar do documentário imaginado pelo amigo. Isso acaba produzindo um clima de competição, enquanto Darby leva Cornelia a aulas de hip-hop. Há conflitos de geração muito interessantes expostos por Baumbach de forma até discreta, como aqueles que se relacionam com as tecnologias (uso de celulares, por exemplo) e a tentativa de soar como o outro mais jovem (quando Josh resolve usar chapéu como Jamie). Essa tentativa de se adaptar a um novo tempo parece um assunto óbvio, no entanto Baumbach tem talento ao costurá-lo de acordo com as interpretações e diferentes nuances que os personagens vão mostrando. Ele, de certo modo, expande a segunda metade de Frances Ha – a dificuldade de a personagem lidar com a solidão – num retrato de um casal chegando à meia-idade com um certo desespero existencial de não ter conseguido, de maneira completa, o que mais queria.

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Com isso, também há sequências divertidas, como a reunião, em determinado momento, dos casais e a tentativa de provarem Josh e Cornelia provarem que gostam um do outro. O tema da paternidade também dialoga com Distante nós vamos, de Sam Mendes, um filme quase esquecido de 2009, em que o casal viajava à procura de um lugar adequado para se estabelecer – enquanto a mulher está esperando um filho. Assim como lá, há uma sensação permanente de melancolia na reação desses pares, e enquanto Josh e Cornelia vão se afastando do seu casal de amigos com a mesma idade, que já tem um bebê, vai ficando mais claro o que eles realmente querem em suas vidas. Baumbach não trabalha isso distante de elementos evidentes de humor, no entanto enlaça tudo com uma sensação de despedida da juventude.
O que pode diminuir a intensidade de Enquanto somos jovens é justamente a sua tentativa de colocar Adam Driver como um ator capaz de atuar tanto quanto o personagem principal; impressiona como Driver ainda não consegue ser efetivo num papel mais extenso. Enquanto Stiller e Watts formam um casal cujos conflitos são convincentes, Seyfried se sente um pouco deslocada justamente em razão de Driver, ocupando quase todas as cenas em que eles dividem. O ex-Beastie Boys Horovitz tem uma boa interpretação, complementando bem as cenas em que divide com Stiller ou Watts, sempre levando Enquanto somos jovens para essa sensação de compromisso da vida adulta, ou tentativa de se afastar dele. Mas é Grodin que, além da excelência como ator, que faz costurar um pouco melhor a terceira parte da narrativa, um pouco inferior às demais, quando Baumbach pretende investigar a questão do que seria verdade ou não na realização de um documentário. Aqui, é possível sentir um pensamento quase conceitual do diretor; no entanto, isto é evidente no filme que o inspirou, o já referido Crimes e pecados e, mesmo um tanto deslocado da atmosfera geral da narrativa, indica a proposta de Enquanto somos jovens: a ingenuidade e o descompromisso da juventude podem esconder os mesmos dilemas da vida adulta.

While we’re young, EUA, 2015 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Ben Stiller, Naomi Watts, Adam Driver, Amanda Seyfried, Charles Grodin, Brady Corbet, Adam Horowitz, Maria Dizzia  Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Sam Levy Trilha Sonora: James Murphy Produção: Eli Bush, Lila Yacoub, Noah Baumbach, Scott Rudin Duração: 97 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Scott Rudin Productions

Cotação 3 estrelas e meia 

Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum (2013)

Por André Dick

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Com o passar dos anos – e na virada dos anos 90 para os anos 2000 –, os irmãos Joel e Ethan Coen passaram a ser, como outros diretores clássicos, referências de filmes no mínimo criativos. E, depois do influente Fargo, uma espécie de filtro do cult noir Gosto de sangue, eles passaram também a ser apreciados pela Academia de Hollywood, mas apenas por seus filmes considerados mais formais, mesmo com estilo próprio. Um deles, Onde os fracos não têm vez, foi o vencedor de 2008. No entanto, talvez ainda melhor do que este são os outros indicados, Um homem sério e Bravura indômita. Ao mesmo tempo em que fazem estas obras mais interessantes, os Coen gostam de alternar com a farsa: algumas vezes eles acertam, como em Arizona nunca mais e O grande Lebowski, em outras eles perdem a mão, como Matadores de velhinha, O amor custa caro e Queime depois de ler. Agora chega aos cinemas o novo filme, Inside Llewyn Davis.
Pela sua parte técnica admirável – sobretudo fotografia e direção de arte –, este novo filme se alinha com peças como E aí, meu irmão, cadê você? e Ajuste final, em que os diretores tentam equilibrar essas qualidades com os personagens e temas abordados. Aqui especialmente a fotografia de Bruno Delbonnel, responsável pelas imagens de O fabuloso destino de Amélie Poulain, é um belo convite a assisti-lo. Como os filmes em que a farsa é predominante, Inside Llewyn Davis tem uma atmosfera um tanto irreal. Os personagens, nessa atmosfera, passam a ser mais símbolos do que verdadeiramente seres humanos. Diante dessa irregularidade e sendo dois criadores, pode-se pensar se há um dos irmãos Coen mais propenso a estes filmes com simbologia e cuidado cenográfico especial. Tais narrativas são radicalmente diferentes de outras, com cenários mais modestos. Mesmo Um homem sério, com sua narrativa centrada numa espécie de sonho do personagem central, o humor que vinha das experiências reais – a separação da mulher, o conflito com colegas da escola – era permeado por uma sensibilidade folclórica.

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O cantor folk Llewyn Davis (Oscar Isaac) se encontra numa fase decisiva de sua vida. Depois de perder o seu parceiro de música, ele faz alguns shows, mas não consegue ser remunerado a ponto de ter um lugar onde ficar, perambulando pelo Greenwich Village de 1961. Tendo como empresário um senhor que fica atrás de uma mesa, como outros personagens dos Coen que tentam satirizar os magnatas, ele fica hospedado na casa dos Gorfeins (Ethan Phillips e Robin Bartlett). Determinado dia, ao deixar o apartamento, um gato vem junto, e Llewyn Davis passa a carregá-lo de um lado para o outro, inclusive quando se hospeda com os amigos Jim (Justin Timberlake, com a disponibilidade de interpretação de quem visitava os bastidores) e Jean (Carey Mulligan), casados. Há uma certa estranheza no início de Inside Llewyn Davis provocada pelos cenários, a exemplo dos corredores apertados, e quando o personagem central vai cantar com Al Cody (Adam Drive) e Jim numa gravação que talvez seja o momento que poderia definir o filme dos Coen. À diferença de Larry Gopnik, o personagem de Um homem sério, apesar de ser parecido em seu desespero pessoal por um reencontro com a família, Llewyn Davis nunca soa, embora aqui os Coen sejam explícitos, mais do que alguém sem empatia. Não parece que Isaac conseguiria fazê-lo diferente, pois já era assim sua atuação em Drive (em que também contracena com Mulligan), ou seja, é uma escolha intencional. E, embora se comente que o filme é baseado na vida de Dave Van Ronk, parece que os irmãos Coen teriam ignorado boa parte de suas referências, inclusive sua simpatia, levando Inside Llewyn Davis a um extremo contrário.
Certamente haveria, aqui, um espaço para a discussão sobre o artista manter-se intacto diante do trabalho comercial ou se deve assumir a paternidade como a caixa de discos antiga. Essa temática, embora apareça em alguns momentos de modo claro, acaba um pouco esquecida, pois os Coen parecem mais interessados no ambiente, certamente bem construído, que cerca esses personagens e há algo conceitual brilhando em alguns pontos sem realmente se traduzirem em envolvimento com o espectador.

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Um exemplo dessa escolha é que, em Inside Llewyn Davis, além do tom soturno, temos uma espécie de entreato com John Goodman e Garrett Hedlund, dois ótimos atores aqui confundidos com o design de interiores. Eles interpretam, respectivamente, Roland Turner, um jazzman, e Johnny Five, que seria um poeta beat, seu motorista, respectivamente, e os Coen tentam interceder por um diálogo com Hopper e a cultura da época. Walter Salles fez isso em Na estrada (também com Hedlund) com mais êxito e não teve uma recepção próxima desta que recebe o filme dos Coen porque também extraía a aura mitológica dos beats; os Coen, pelo contrário, só os consideram figuras em busca desta mitologia, e ela não passaria, para eles, de uma farsa. Neste instante, o filme também passa a lembrar de outra obra, muito superior, Barton Fink – Delírios de Hollywood, em que o personagem central precisa provar seu talento para se manter com chances de ser roteirista de um grande estúdio. Mas Barton Fink, mesmo porque a atuação de John Turturro era superior à de Isaac, era um personagem fascinante porque sua prepotência diante daqueles que considerava inferiores se voltava contra ele mesmo, com um senso de humor trágico. Lewis passa a ser um coadjuvante de Turner, feito por um Goodman bastante interessado numa excentricidade que já mostrou em outros filmes dos Coen. Aqui, por não encontrar auxílio na narrativa proposta, ele se excede.
Entre outros coadjuvantes, Carey Mulligan pouco aparece – e poderia acrescentar, pois se mostra melhor do que em O grande Gatsby –, F. Murray Abraham é apenas uma participação, e o McGuffin é a presença de dois gatos (uma participação levemente forçada, pela ausência de narrativa coerente), com uma citação de Joyce e da mitologia grega, a mesma que havia em E aí, meu irmão, cadê você?. Não se surpreende, por isso, que os irmãos Coen digam que não havia um roteiro definido antes da inserção dos felinos. Isso passa a ser visível na história, pois, na realidade, Inside Llewyn Davis é uma sucessão de acontecimentos, que até dizem respeito às vezes uns aos outros, mas não chegam a formar uma verdadeira unidade. É difícil entender sua recepção, desde Cannes, pois em termos de envolvimento, uma qualidade da filmografia dos Coen, quando acertam, é falho em vários níveis. Quando saem da melancolia, eles tentam algumas piadas engraçadas, como sempre, aqui sem conseguir – e isto é desagradável para quem acompanha a trajetória dos irmãos e sabem do filme que se escondia por trás deste, se eles estivessem em forma. Aqui, coadjuvante ou não de Bob Dylan, metáfora ou não da persona de Joyce, Llewyn Davis nunca consegue ser destaque. Sua frieza (e não melancolia) só consegue criar um diálogo com a própria paisagem fotografada por Delbonell: este é um filme esteticamente lindo, mas uma grande decepção cinematográfica, pelos nomes envolvidos talvez a maior de 2013.

Inside Llewyn Davis, EUA, 2013 Diretores: Ethan Coen, Joel Coen Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen Elenco: Oscar Issac, Carey Mulligan, John Goodman, Justin Timberlake, Adam Driver, Ethan Phillips, Robin Bartlett, Garrett Hedlund Fotografia: Bruno Delbonnel Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin Duração: 105 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Mike Zoss Productions / Scott Rudin Productions / StudioCanal

Cotação 2 estrelas

Frances Ha (2012)

Por André Dick

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Há filmes que se destacam sobretudo por causa de um ator ou de uma atriz e este certamente é o caso de Frances Ha. A atriz em questão é Greta Gerwig, coautora do roteiro e que interpreta a personagem principal. Na direção, temos Noah Baumbach, que fez um dos melhores filmes da década passada, A lula e a baleia, e colaborou no roteiro de A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico sr. Raposo, de Wes Anderson. Com ingredientes que podem classificar Frances Ha como um filme de estética indie, parece que ele consegue atingir elementos que o colocam como uma síntese do cinema independente das últimas três décadas.
Se a fotografia em preto e branco de Sam Levy e o chapéu de Lev Shapiro, um dos rapazes com quem Frances divide o apartamento em determinado momento do filme, lembram, de forma insistente, mais do que a nouvelle vague, seus influenciados nos anos 80, Estranhos no paraíso e Daunbailó, de Jarmush, e a trilha sonora, com “Modern love”, de David Bowie, evoca tanto Sangue ruim (mais diretamente) quanto Boy meets girl, não se pode dizer que Frances Ha seja meramente um derivativo desses filmes. Como a obra de Baumbach mostra, trata-se principalmente de um personagem deslocado. Basicamente, Frances Halliday tenta ingressar no mundo da dança, em Nova York, e divide o apartamento do Brooklyn com uma amiga, Sophie Levee (Mickey Sumner), o que a faz ter dificuldades para aceitar ter uma vida própria com Dan (Michael Esper). A partir deste núcleo de relação e rompimento, a personagem se estrutura e o espectador é introduzido em seu universo.
Embora reconhecido como um filme leve, como poderia de fato ser, Frances Ha é, olhando mais de perto, uma obra autenticamente amarga, longe de qualquer solução aparentemente fácil, muito menos alegre, e é exatamente aí que reside seu interesse como retrato de um certo universo contemporâneo. Baumbach é um diretor bastante sutil – conseguiu tornar Ben Stiller num ator mais realista em Greenberg – e consegue traduzir o sentimento em que todos querem escapar para um universo em que podem criar sua realidade ou simplesmente não conseguem ingressar, de fato, no que se corresponde a uma vida adulta.

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Em muitos momentos, Frances Ha poderia se transformar em O diário de Bridget Jones – uma autêntica comédia de estereótipos, embora com méritos –, mas escolhe ser uma espécie de encontro entre este universo dos anos 80, com uma estética realista e um tom certamente intelectual, tanto de Jarmursh quanto de Carax, com o descompromisso dos melhores momentos de Woody Allen e sua Nova York intelectualizada. No entanto, onde Allen é mais conciliador, e Carax e Jarmursh mais bem-humorados, Baumbach é mais seco e amargo, como já mostrava em A lula e a baleia. E, embora seja bastante programado dentro de sua estética, ele nunca cai no que Jarmursh faria em Trem mistério: autoelogiar-se numa metalinguagem cansativa.
Quando mostra Frances Ha transitando de um apartamento para outro, e tendo de lidar com dois jovens que não precisam bancar sua vida, Benji (Michael Zegen) e Lev Shapiro (Adam Driver), o primeiro com certa inclinação ao relacionamento, ou quando precisa lidar com a responsável pela companhia de dança, Colleen (Charlotte d’Amboise), Baumbach não permite liberdades à personagem. Poucas vezes, no cinema, foi visto um retrato tão discreto sobre a tentativa de uma personagem não envelhecer e não querer que os outros a vejam mais envelhecida do que é ou do que como se imagina – com um tom, muitas vezes, de descompromisso e mesmo de risadas francas (deve-se emoldurar a cena em que Frances conversa com Sophie e ambas imaginam como seria seu futuro, como se estivesse situada ainda numa infância longínqua ou num desejo contínuo de visualizar o futuro, e não o presente).
Do mesmo modo, é um personagem cujo universo está condicionado pelas expectativas ou por nenhuma expectativa, dependendo do ponto de vista, e o que o torna mais humano é justamente o conjunto de falhas que tenta esconder. Greta Gerwig faz movimentos que são mais difíceis do que aparentam e, embora o restante do elenco seja meramente um acesso às suas angústias, sem o peso existencial para diferenciá-la dos demais, temos certamente uma impressão de que o universo expansivo da modernidade pode também se restringir às mesmas tentativas de amizade consideradas antigas – e o “Modern love” de Bowie surge como, ao mesmo tempo, um retrato e uma crítica aos próprios personagens. Não se trata exatamente de uma homenagem de Baumbach aos anos 80, mas de mostrar como os personagens podem reproduzir um mesmo comportamento por várias décadas e uma mesma tradição musical. Para ele, é justamente esta tradição que congela a personagem de Frances em seus 27 anos, mas, de forma otimista, sempre tentando entendê-la e afastá-la de um tom de desesperança.

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Por isso, Baumbach filma Nova York também como um espaço de repetição, com seus roteiristas querendo escrever para o Saturday Night Live ou jovens milionários indo a clubes noturnos para a próxima conquista, assim como Paris pode não ser o lugar mais perfeito para solitários, mesmo com a luminosidade da Torre Eiffel e o passeio à beira do Rio Sena. O telefone e os computadores parecem encurtar a distância, mas aqui só acentuam o isolamento da personagem.
Em Frances Ha, todos esses possíveis estereótipos acabam sendo explorados do mesmo modo que tornam a figura central mais humana, com sua insegurança exposta. Baumbach consegue tornar uma narrativa rápida em fragmentos, como a visita que a personagem faz aos pais, com lances ágeis também em cada uma das passagens de sua vida. Com uma melancolia implícita, não existe condescendência, e a depressão de Frances é apresentada por meio de sequências descompromissadas, sem peso dramático. Não se analisa a situação em que ela se coloca como um problema, mas parte afetiva das descobertas necessárias e, desse modo, não se percebe nenhum esquema definido: os personagens estão, de certo modo, soltos, e Baumbach vai reunindo-os pouco a pouco, por meio de demonstrações diversas e de rara sensibilidade, fazendo de Frances Ha uma obra única e referencial.

Frances Ha, EUA, 2012 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Adam Driver, Charlotte d’Amboise, Christine Gerwig, Michael Zegen Roteiro: Greta Gerwig, Noah Baumbach Fotografia: Sam Levy Produção: Lila Yacoub, Noah Baumbach, Rodrigo Teixeira, Scott Rudin Duração: 86 min. Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: RT Features.

Cotação 4 estrelas