Questão de honra (1992)

Por André Dick

Drama indicado a quatro Oscars (filme, ator coadjuvante, montagem e som) e que foi melhorando cada vez mais com o tempo, este filme de Rob Reiner traz um roteiro adaptado de uma peça de Aaron Sorkin (ele mesmo fez a adaptação) e investe num tema comum ao cinema norte-americano: o poder da força militar dentro do país. Dois fuzileiros, Louden Downey (James Marshall) e Harold W. Dawson (Wolfgang Bodison), são acusados de matar um companheiro, William Santiago, depois de aplicar o Código Vermelho, dentro da base militar americana em Guantánamo, comandada por um coronel corrupto, Nathan Jessup (Jack Nicholson), assessorado pelo tenente-coronel Matthew Markinson (JT Walsh) e pelo tenente Jonathan James Kendrick (Kiefer Sutherland). O caso chega ao governo federal e acaba na mão de um jovem casal, Daniel Kaffee (Tom Cruise) e JoAnne Galloway (Demi Moore), com a ajuda de Sam Weinberg (Kevin Pollack), resultando numa boa combinação. Eles começarão a investigar os fatos que cercam a morte do fuzileiro.

A montagem é uma das melhores estabelecidas num filme passado basicamente dentro de um tribunal, funcionando também com o simbolismo de algumas cenas. Já no início, mostra um batalhão de soldados realizando manobras com fuzis e em seguida a câmera segue o rosto de Demi, vestida de oficial, mostrando que ela representa a determinação feminina deslocada deste universo. O personagem de Cruise, filho de um famoso advogado, é bem delineado, e o ator ajuda a criar empatia, alternando descompromisso,  com sua fixação por esportes, e enfrentamento quando vai ao tribunal. Logo depois de suas atuações em Rain Man e Nascido em 4 de julho, Cruise era um dos melhores atores dramáticos de sua geração, o que foi dando espaço ao ator meramente de obras de ação, num dos declínios não financeiros, porém artísticos, de Hollywood, apesar de sua ótima série Missão: impossível. Cruise se alia tão bem a Moore que, quando eles encontram o coronel Jessup em Cuba, é uma das grandes sequências da filmografia de ambos, além, especialmente, de Nicholson, numa participação curta que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, fazendo um vilão temível.

Sorkin, roteirista que depois ficaria conhecido pelo trabalho em A rede social, O homem que mudou o jogo Steve Jobs, além de ter estreado como diretor em A grande jogada, empreende uma sucessão de questionamentos, interrogatórios, utilizando os personagens do melhor modo em cada espaço. Do mesmo modo, chama a atenção como há um cuidado em traçar a passagem de estações: o filme parece começar no outono, depois passa pela primavera, até chegar ao verão. O design de produção, para isso, é extremamente funcional, quando se concentra especificamente nas reuniões de equipe na casa de Kaffee. Com o apoio do diretor de fotografia Robert Richardson, responsável pela maior parte dos filmes de Tarantino, consegue-se utilizar a iluminação em diálogo com os uniformes, além de estabelecer os pubs e corredores como confortáveis para os personagens exercerem seus diálogos. A maneira como o roteiro vai lidando com a posição de poder de cada personagem em cada circunstância diferenciada também se destaca de maneira evidente.

Os coadjuvantes (a maioria conhecidos, como Kevin Bacon, Kiefer Sutherland e James Marshall) cumprem suas funções corretamente, desempenhando personagens verossímeis e decorrentes de uma ótima direção de Reiner. Visto diversas vezes, Questão de honra funciona como raras obras do gênero, fazendo o espectador se perguntar por que não se fazem mais filmes em estilo mais objetivo como este e ainda assim com conteúdo impactante. Ainda: reserva para os últimos minutos um duelo fantástico, capaz de colocá-lo entre as grandes peças clássicas de uma época em que Hollywood tinha mais interesse em traçar roteiros ao mesmo tempo simples e complexos, além de seu custo reduzido (em torno de 30 milhões de dólares) ter retornado uma grande bilheteria (em torno de 240 milhões). Rob Reiner, à época, era um dos diretores em atividade mais interessantes, tendo feito a brincadeira fabular A princesa prometida, além de Conta comigo e Louca obsessão, duas das melhores adaptações da obra de Stephen King, tão delineados em roteiro quanto Questão de honra, e o nostálgico Harry & Sally – Feitos um para o outro. Este não é o melhor filme de tribunal já feito, mas parece.

A few good men, EUA, 1992 Diretor: Rob Reiner Elenco: Tom Cruise, Jack Nicholson, Demi Moore, Kevin Bacon, Kevin Pollak, Wolfgang Bodison, James Marshall, JT Walsh, Kiefer Sutherland Roteiro: Aaron Sorkin Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: Marc Shaiman Produção: Rob Reiner, David Brown, Andrew Scheinman Duração: 138 min. Estúdio: Castle Rock Entertainment
Distribuidora: Columbia Pictures

Thelma & Louise (1991)

Por André Dick

Durante alguns anos, depois do sucesso de público e crítica de Os duelistasAlien e Blade Runner – o terceiro de forma tardia –, Ridley Scott tentou encontrar um novo rumo para sua carreira. Realizou obras como A lenda, Perigo na noite e Chuva negra, para chegar à consagração, nos anos 90, com Thelma & Louise. Mesmo que não tenha sido indicado ao Oscar de melhor filme, Scott teve sua primeira nomeação, assim como seu elenco feminino.
Geena Davis é Thelma Dickinson, dona de casa infeliz por causa do marido egoísta, Darryl (Cristopher McDonald). Amiga da garçonete Louise Sawyer (Susan Sarandon), casada com o músico Jimmy (Michael Madsen), as duas partem em viagem a bordo de um Thunderbird 1966. No caminho, Thelma precisa ser protegida pela amiga de um homem (Timothy Carhart), desencadeando uma situação imprevisível que atrai a polícia no encalço das duas, promovendo uma caçada. Enquanto Thelma conhece JD (Brad Pitt), um cowboy de estrada errante, Louise tenta ser a ponta extrema, tentando trazer equilíbrio. As duas, porém, se sentem insatisfeitas com suas vidas, e o acontecimento que desencadeia a história parece apenas complementar essa sensação (daqui em diante, spoilers).

Iniciando a jornada no Arkansas, rumo ao interior dos Estados Unidos, com suas planícies que se perdem de vista, Ridley Scott quer mostrar as duas como símbolos femininos, de desejo de liberdade, e consegue. Mas o faz caindo algumas vezes em poucas nuances, embora a roteirista Callie Khouri substitua certo drama pela ação de em momentos-chave de forma convincente. Isso porque a polícia planeja para capturar as duas e o chefe da operação, Hal Slocumbe (Harvey Keitel), não chega a convencer por causa do roteiro apressado em seu caso, embora Keitel seja ótimo intérprete. Slocombe acaba sendo o personagem masculino mais elaborado, uma espécie de psiquiatra do caso que está ocorrendo com as duas, tentando entender o que as leva a agir de forma extremada. No entanto, Ridley Scott emprega uma direção tão boa e os diálogos fluem de maneira tão precisa que o espectador permanece atento até o final antológico. E as duas personagens centrais combinam, cada uma com personalidade definida.

O roteiro, vencedor do Oscar, aponta linhas interessantes, deixando a impressão de que, num panorama de libertação de mulher, Thelma e Louise simbolizam a própria época na qual vivem. Isso, no entanto, é apenas aparente. Em Tomates verdes fritos, lançado também em 1991, uma senhora (Kathy Bates) conhece uma idosa (Jessica Tandy) numa clínica, e a mais experiente decide contar a história de duas mulheres que, para se manterem amigas, enfrentaram alguns homens e a Ku Klux Khan, que vinham em busca de afrodescendentes no vilarejo onde elas moravam. Já em Thelma & Louise, Scott brinca com os estereótipos: o caminhoneiro (Marco St. John) com que se deparam prova do próprio tipo que emprega. A mulher se vinga à altura do que tentaram lhe fazer e passa a agir de forma diferente, porém, no fundo, reserva uma imagem para si própria, que não é a do homem, nem a de ocupar o espaço dele, e sim o seu lugar: o fato definitivo é colocar em questão as maiores características de ambas, também de mudança geracional. Num momento interessante, duas senhoras observam Louise com o olhar triste pela janela de um estabelecimento e ela imagina que a consideram desarrumada: quando vai passar o batom, ela o joga fora. As duas senhoras parecem almejar a liberdade que a imagem de Louise, mesmo em fuga, proporciona. Este, porém, é apenas um exemplo em meio a tantos, alguns subentendidos. Alguns anos antes, George Miller já havia tratado de algumas questões sob o tom da comédia em As bruxas de Eastwick.

A dupla de amigas se envolve com novos problemas e sua saída é fugir para o México, como faziam os cowboys no Velho Oeste. O medo delas é, na verdade, sua maior fortaleza. Mas Thelma e Louise não chegam a se considerar invencíveis, e Scott deixa isso claro. Não é incomum se esperar nisso de Ridley Scott, que fez personagens femininas anteriormente tão marcantes, como a Ripley de Alien e a Rachel de Blade Runner.
Quem se destaca mais é Geena Davis, que surpreende num papel difícil. Susan faz uma Louise antológica, no entanto Ridley, seguindo o tom de Chuva negra, um sucesso de bilheteria, na dose equilibrada entre seu visual e a narrativa, não chega a se arriscar, apesar dos bons movimentos de câmera, e, com uma bela fotografia de Adrian Biddle e algumas músicas country de qualidade, opta por fazer um road movie clássico e libertador. Embora sua narrativa soe às vezes superficial, não pelas atrizes, trata-se de uma de suas grandes conquistas como diretor. Por sua vez, certamente influenciada por Vanishing Point, por exemplo, a mescla entre drama, humor e ação é o grande trunfo do roteiro de Khouri.

Thelma & Louise, EUA, 1991 Diretor: Ridley Scott Elenco: Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Cristopher McDonald, Brad Pitt, Timothy Carhart, Marco St. John Roteiro: Callie Khouri Fotografia: Adrian Biddle Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Ridley Scott eMimi Polk Gitlin Duração: 129 min. Estúdio: Pathé, Percy Main Productions, Star Partners III Ltd., Metro-Goldwyn-Mayer Distribuidora: Metro-Goldwyn-Mayer

Fargo (1996)

Por André Dick

Os Oscars de melhor atriz (Frances McDormand) e roteiro original, além do prêmio de melhor direção em Cannes, fizeram de Fargo o filme mais bem-sucedido dos Coen antes de Onde os fracos não têm vez. Donos de um estilo próprio no cinema independente americano, Joel, que até então (quando não se podia assinar em parceria) assinava a direção, e seu irmão Ethan, com quem escreve o roteiro e produz, formam, desde Gosto de sangue, uma referência, e, depois de duas obras particularmente estranhas – o instigante Ajuste final e Barton Fink –, eles tratam, aqui, dentro do mesmo limite a que se propõem, de um faroeste contemporâneo.
Este faroeste (daqui em diante spoilers), em que não se sabe ao certo quem são os heróis e quem são os vilões, mas sempre com um personagem que traz uma espécie de indicação moral, um vendedor de carros, Jerry Lundegaard (William H. Macy), contrata dois bandidos, Carl Showalter (Steve Buscemi), e Grimsrud (Peter Stormare), apresentados por seu mecânico Shep Proudfoot (Steve Reevis), para cometer um crime: o sequestro de sua própria esposa, Jean (Kristin Rudrüd). O encontro é num bar de Fargo, Dakota do Norte, e pretende pagar suas dívidas com o dinheiro do resgate, pedido ao sogro, Wade Gustafson (Presnell), o qual promete repartir com os sequestradores.

Estamos perto de uma situação surreal dentro do cotidiano, parecida com aquelas que movimentam Arizona nunca mais e Barton Fink, dois dos melhores filmes dos Coen. Há não apenas uma falta de equilíbrio para os personagens, como ela acaba tendo acesso a todos os meandros da narrativa. Contudo, é interessante que enquanto nesses dois filmes, assim como em outros dos Coen, a exemplo de E aí, meu irmão, cadê você?, o clima aqui não é quente: os personagens estão num cenário glacial e com aparência longínqua, afastada de toda a civilização. Eles não chegam a se comportar, sob esse ponto de vista, de maneira comum, e sim parecem estar sempre sob uma pressão externa, que faz o ambiente esquentar consideravelmente. Esta situação se desenha pela necessidade de cada personagem de extravasar sua própria loucura – e enquanto os bandidos parecem, a princípio, ágeis, com o passar do tempo, eles lembram mais a dupla de assaltantes atrapalhada de Arizona nunca mais;. Sim, os Coen não conseguem fugir a uma espécie de tragédia cômica em seus melhores momentos, que os transformaram em referências. Obras como Onde os fracos não têm vez e Bravura indômita também iriam adquirir este espaço em que o heroísmo costuma ser visto como uma extensão da humanidade.

Depois de iniciarem a trajetória para Minneapolis, os marginais, sem ligarem para o fato de que Jerry muda de ideia no último minuto a respeito do sequestro, ou seja, sem antecedência o suficiente para matá-lo, matam um policial em Minessota, quando são parados na ida para o cativeiro.
A delegada Marge Gunderson (Frances McDormand, ótima, num papel incomum) chega à cena do crime, fotografada com uma tristeza desoladora por Roger Deakins (habitual colaborador dos Coen, quase parte de sua identidade visual) e começa a investigar o caso, indo parar na concessionária onde Jerry trabalha. Casada com um pintor de selos, Norm (John Carroll Lynch), a delegada esbanja bondade: almoça com velhos amigos, aguarda o marido preparar o café antes de ir trabalhar, não liga para a incompetência de seus policiais, tudo a fim de garantir uma gestão tranquila para seu bebê. Marge é a única personagem no filme que tem um posicionamento de alegria e mesmo esperança diante do mundo, mas ela apenas aparenta ser ingênua. Quando soa o sotaque caipira, e quando se parece debochar dela, nesse instante ele consegue observar todos os detalhes e seguir as pistas mais elaboradas.

É ela o símbolo desse cinema dos Coen, em que o personagem menos talhado para as definições se torna a referência para que o mundo se transforme, nem que seja circunscrito a um pedaço que parece insignificante da América. Todas as situações provocadas pelo erro do sequestro acabam retornando como peças desastradas de um panorama mais amplo desta sociedade, em que há, por um lado, uma certa falta de vigor explícita no que toca a humanidade e uma extrema aridez quando se precisa chegar a temas mais delicados. O mundo do crime se contrapõe decisivamente àquele café da manhã de Maggie com o marido e a tranquilidade da gravidez. Maggie parece suportar a investigação porque, assim como as camadas de roupa, ela guarda sempre uma camada de recolhimento, que nunca sai dos limites de sua casa e das pinturas do marido. Por isso, de certo modo, ela acaba sendo o esteio da obra.
As outras figuras são dominadas pela paranoia do dinheiro: o marido traidor, seu sogro que quer ser valente, os bandidos covardes (um deles sanguinário). Os irmãos Coen dão um tratamento a cada personagem, ressaltando suas características emocionais, mesmo que sejam mostradas com violência. Algumas cenas podem assustar pelo banho de sangue, característica dos Coen, no entanto a trama é conduzida de maneira tão competente que é difícil não se render ao brilhantismo do filme.

Fargo, EUA, 1996 Diretor: Joel Coen Elenco: William H. Macy, Steve Buscemi, Frances McDormand, Peter Stormare, Kristin Rudrüd, Harve Presnell, John Carroll Lynch, Steve Reevis Roteiro: Ethan Coen Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: John Cameron Duração: 98 min. Estúdio: Company PolyGram Filmed Entertainment, Working Title Films Distribuidora: Gramercy Pictures

Gremlins 2 – A nova geração (1990)

Por André Dick

Gremlins é uma comédia com elementos de terror dirigida pelo mesmo Joe Dante de Piranha e se constitui um dos clássicos remanescentes dos anos 80. Nele, um pai cientista querendo agradar a seu filho, Billy Peltzer (Zach Galligan), resolve presenteá-lo com um mogwai, criatura que encontra numa loja de relíquias chinesa. Ele não pode se alimentar depois da meia-noite, nem ser molhado ou exposto à luz. Caso contrário, pode acontecer um problema. Já sabemos que, diante da direção de Dante e da produção de Spielberg, o problema é perturbador e divertido. O rapaz dá o nome de Gizmo ao seu novo amigo e tem uma vida tranquila no banco da cidade onde mora, mas, antes de tudo, tenta se declarar a uma moça que trabalha numa lanchonete, Kate Beringer (Phoebe Cates).

No dia em que não segue às ordens dadas para que Gizmo não dê problemas, sua casa se transforma numa confusão, e panelas voam para todos os lados, em direção sobretudo à mãe de Billy. É preciso avisar a polícia, mas quem acredita em pequenos monstros saltando pelas ruas em plena noite natalina? Nesse ponto, a cidade já está completamente abandonada e mesmo no cinema, ao som de Branca de Neve e os sete anões, os monstrinhos, ou gremlins já estão queimando até as pipocas. Tudo o que se passa neste filme é absurdo, e Dante comprova nele o valor que já mostrara não apenas em Piranha, como também em Grito de horror, e que investiria novamente em Viagem insólita, Meus vizinhos são um terror e Matinê, este já nos anos 90.
O objetivo desta continuação é encadear gags a partir dessa situação em Nova York, com homenagens a vários filmes. Para realizar Gremlins 2 – A nova geração, Dante pediu liberdade total à Warner e investiu num roteiro de Charles S. Haas que começa com uma referência aos Looney Tunes e satiriza desde Batman e Rambo até musicais da MGM. É uma diversão notável – embora não raro forçada, no entanto talvez por isso mesmo encantadora.

Desta vez, Gizmo – que dava origem aos gremlins no primeiro filme – perde seu dono, o Sr. Wing (o chinês Keye Lucke). Em Nova York, ele se reencontra com o antigo dono, Billy, e sua namorada Kate. A ação se passa no prédio do magnata Daniel Clamp (o excelente John Glover), sempre acompanhado por seu braço direito, Forster (o ótimo Robert Picardo). O mogwai é molhado pela água de um bebedouro, dando origem à nova geração de monstrinhos, maiores e piores. O primeiro, levado por engano para casa por Kate, é completamente alucinado, com os olhos rodando a todo vapor. Por sua vez, os vizinhos do casal da cidade de origem, Murray Futterman (Dick Miller) – aquele que gritava no original que se chamavam “gremlins” determinados aviões da Segunda Guerra Mundial –  e sua esposa Sheila (Jackie Joseph), aparecem para visitar o casal e novamente se envolvem com a confusão generalizada provocada pelas criaturas ameaçadoras.
Essas invadem o laboratório do Dr. Catheter (Christopher Lee, em participação antológica) e passam a tomar produtos químicos, surgindo gremlins dos mais diversos tipos. Tudo muito original, com as tintas acentuadas pela trilha sonora circense de Jerry Goldsmith, um exemplo de cinema independente bancado pela indústria. Em meio à confusão, um figurante de uma série de terror gravada no prédio, vovô Fred (Robert Prosky), decide virar repórter para cobrir os acontecimentos.

Com algumas boas piadas que se perdem na tela pequena (spoiler a seguir), como a interrupção do filme pelos gremlins como se estivessem na cabine do projetor do cinema, e mesmo inferior ao original (um clássico do humor) Gremlins 2, de qualquer modo, é uma diversão contagiante, pois consegue, por meio de seu cenário único, levar o espectador aos lugares e sensações mais inusitados, colocando até o conhecido crítico Leonard Maltin em situação delicada. A coleção de gremlins, como no original, representa os humanos num sentido hiperbólico, por isso revela que Joe Dante é um mestre nesse sentido. Em Grito de horror, ele mostrava uma comunidade de lobisomens aterrorizando humanos e em Meus vizinhos são um terror um bairro em polvorosa por causa da chegada de uma nova família, estranha e que não saía à luz do sol. Dante tem um talento especial para elaborar personagens cartunescos que não chegam a ser caricaturas, ou seja, é possível reconhecer neles traços humanos e mesmo sensíveis. Em Gremlins 2, ele associa os monstrinhos à organização da sociedade de maneira ainda mais elaborada, em alguns momentos bastante engraçada. É um exemplo de cinema anárquico e até, de certo modo, conceitual.

Gremlins 2 – The new batch, EUA, 1990 Diretor: Joe Dante Elenco: Zach Galligan, Phoebe Cates, John Glover, Robert J. Prosky, Robert Picardo, Christopher Lee, Dick Miller, Jackie Joseph, Keye Lucke Roteiro: Charles S. Haas Fotografia: John Hora Trilha Sonora: Jerry Goldsmith Produção: Michael Finnell Duração: 106 min. Estúdio: Amblin Entertainment (Amblin Partners) Distribuidora: Warner Bros.

JFK – A pergunta que não quer calar (1991)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Trágica e complexa são palavras que podem definir a morte de John Fitzgerald Kennedy, presidente norte-americano assassinado em 22 de novembro de 1963, no estado do Texas, em Dallas, durante um desfile pelas ruas da cidade. Baseado neste episódio da história americana e em duas obras, Crossfire: The Plot That Killed Kennedy, de Jim Marrs, e On the Trail of the Assassins, de Jim Garrison, com uma montagem que mistura cenas documentadas com outras fictícias, Stone constrói uma teia de personagens ligados a políticas e ideologias e consegue transformar uma rede de imagens em algo ressonante. E o principal: cineasta polêmico, vindo de dois filmes sobre a Guerra do Vietnã (Platoon e Nascido em 4 de julho), ele fornece uma ousadia tão grande que o filme provocou discussões e reclamações reais – igual a A hora mais escura, de Bigelow, que tem elementos dele, e a Todos os homens do presidente, seu precursor mais imediato, no qual Robert Redford e Dustin Hoffman interpretam dois jornalistas tentando desvendar o Watergate envolvendo Nixon.

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Para Jim Garrison (Kevin Costner) e, consequentemente, Stone, quem matou Kennedy foi uma conspiração formada por cubanos anti-Castro, a CIA, a máfia e até o próprio governo, e não o atirador Lee Oswald (no filme, interpretado por um impressionantemente parecido Gary Oldman). Este, depois do assassinato, logo foi preso, num cinema, e se costurou sua história de ligação com a KGB como uma explicação para o que teria acontecido com o presidente. Após um interrogatório feito pela polícia (nunca encontrado), foi morto por Jack Ruby (Brian Doyle-Murray), ligado à máfia, que também não conseguiu se manter vivo.
Oliver Stone coloca a pergunta: por que se desejar encobrir o assassinato de Kennedy, visto como a ação solitária de Lee Oswald? Para isso, tenta desvendar aquilo que ficou encoberto no acontecimento em Dallas, Texas. Num lugar associado à mitologia do velho oeste, o presidente sofreu a emboscada de um inimigo oculto, quando não teve chance de defesa. Mas Stone também está tratando daquele que é considerado como o país que tenta sempre estar à frente de qualquer questão política ou de guerras. No período em que Kennedy estava à frente do cenário político, havia conspirações de toda ordem para que os Estados Unidos organizassem a situação no Vietnã e se contrapusessem à União Soviética. Havia motivos para que se quisesse, segundo Stone e os livros nos quais ele se baseia, a eliminação de JFK, quando ele teria deixado de agir com a firmeza esperada diante desses fatores – e não apenas se restringem a uma ação de Oswald.

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Promotor público de New Orleans, Garrison é casado com Liz (Sissy Spacek ) e, sempre com um cachimbo, nos moldes de um Sherlock Holmes, tenta provar justamente isso desde o acontecimento, interrogando David Ferrie (Joe Pesci), o qual prende em determinado momento. Garrison parece desistir da investigação. Em 1966, conversa, numa viagem de avião, com o senador Long (Walter Matthau), que o leva a conhecer em detalhes o Relatório Warren e procurar outras provas, interrogando também Jack Martin (Jack Lemmon), agredido por ser visto como aliado dos cubanos; Willie O’Keefe (Kevin Bacon), que tinha relacionamento com Ferrie; um advogado (John Candy) chamado para defender Oswald; e Clay Shaw (Tommy Lee Jones), empresário que tinha contato com os cubanos e havia trabalhado na CIA. Tem como apoio dois assistentes, Bill Broussard (Michael Rooker) e Lou Ivon (Jay O. Sanders).
A primeira parte possui uma narrativa mais tensa e ágil, com Garrison, à procura de provas, visitando o local de onde, supostamente, Lee Oswald teria atirado no presidente, e segue indo atrás de todas as testemunhas possíveis, que presenciaram os tiros de perto e se pergunta: “De onde eles vieram?”. Na segunda parte, envolvido pelo caso, o promotor acaba se afastando da família, assim como se encontra com o misterioso Coronel X (Donald Sutherland), que traz as maiores teorias conspiratórias, envolvendo a Máfia, a CIA e o FBI. Além disso, afirma que Kennedy queria tirar as tropas norte-americanas do Vietnã e de que havia lido, na Nova Zelândia, a notícia de que Oswald havia matado o presidente norte-americano sem haver tempo suficiente para a impressão do jornal.

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Há, claro, uma dose de exagero de Stone, querendo ver Kennedy como uma espécie de político que gostaria de ter conduzido os Estados Unidos a um acordo com a União Soviética – e não à toa até J. Edgar Hoover aparece no meio da história como contrário a ele –, ou seja, gostaria de ter interrompido a Guerra Fria, assim como impedir a Guerra do Vietnã, o que faria com que o governo não investisse bilhões em armas, helicópteros e outros equipamentos. São questões dificilmente comprováveis, elucubrações de Oliver Stone, algumas tão verdadeiras quanto as viagens de Jim Morrison em The Doors, que ele dirigiu no mesmo ano.
Stone não é um cineasta de sutilezas, e ele funciona melhor assim, como em seus subestimados Um domingo qualquer e Reviravolta. Nisso, Garrison é visto como um modelo combativo de família, pretendendo reconstruir a imagem de Kennedy, destacando uma seleção de homens que escondiam por trás apenas ameaças, e quando os acordes de John Williams soam é como se a perfeição entrasse em cena. Seu comportamento diante da esposa é um tanto idealista – proporciona os diálogos mais inconsistentes do filme – e com os filhos, mas se trata, na verdade, de dar acesso ao espectador a uma trama ao mesmo tempo histórica e sobre a construção familiar. Se a narrativa reúne apenas teorias, ele o faz da maneira mais interessante já vista no gênero, tornando a investigação num thriller policial certamente precursor de Zodíaco. Nesse sentido, torna-se mais difícil negar o fascínio de JFK como cinema, e não aula de história. Dentro dos seus exageros, Stone é de fato um cineasta. Além disso, toca na ferida: a falta de explicação permite a qualquer um imaginar o que pode ter acontecido e, quando um indivíduo toca um sistema inteiro, é bem plausível acreditar que o óbvio não parece ser tão óbvio.

A narrativa é densa, com fotografia escura e os diálogos, extremamente rápidos. A maneira como Stone conta a história, com pistas acertadas, outras falsas, interrogatórios longos ou curtos e uma atmosfera constante de pressão (quando Ferrie tenta pedir auxílio policial para se proteger ou quando Garrison vai a um programa de TV e não pode mostrar as fotos que possui do caso), é extraordinária. Poucas vezes viu-se uma obra tão bem editada (por Pietro Scalia e Joe Hutshing) e fotografada (por Robert Richardson), inclusive mostrando o assassinato de Kennedy (por meio das imagens reveladoras de Abraham Zapruder) nos minutos finais, com uma profusão de detalhes inigualável em filmes desse gênero. Vencedor dos Oscars de melhor fotografia e montagem, tendo concorrido também a melhor filme, direção, ator coadjuvante (Jones), roteiro adaptado, trilha sonora e som, JFK é uma obra-prima.

JFK, EUA, 1991 Diretor: Oliver Stone Elenco: Kevin Costner, Jack Lemmon, Vincent D’Onofrio, Gary Oldman, Sissy Spacek, Michael Rooker, Laurie Metcalf, Gary Grubbs, Beata Pozniak, Joe Pesci, Walter Matthau, Tommy Lee Jones, John Candy, Kevin Bacon, Donald Sutherland Roteiro: Oliver Stone, Zachary Sklar Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: John Williams Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone Duração: 205 min. Ano: 1991 Estúdio:  Canal+/Regency Enterprises/Alcor Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Edward mãos de tesoura (1990)

Por André Dick

Este filme é exemplo da importante contribuição de Tim Burton para o cinema, não apenas por trazer um novo estilo narrativo, em que os cenários representam as características dos personagens, mas porque consegue equilibrar sempre o elenco com uma história fabulosa. Foi assim em Os fantasmas se divertem – em que Michael Keaton era um fantasma que aterrorizava humanos –, em Batman – os cenários de Gotham City representavam a personalidade do herói – e do mesmo jeito em Edward mãos de tesoura, uma mistura de Pinóquio, O patinho feio, A bela e a fera, Batman e Os fantasmas se divertem.
Um dos melhores filmes de humor negro já feitos, este último marca o talento inicial de Tim Burton, que antes havia feito os curtas Vincent e Frankenweenie e o longa As grandes aventuras de Pee-Wee. Continua sendo seu filme mais autoral, com uma cenografia de quadrinhos, efeitos estilizados e uma maquiagem impecável, mostrando o fantasma Beetlejuice (Michael Keaton), que ajuda um casal de mortos (Alec Baldwin e Geena Davis) a tirar uma família intelectual da casa onde moravam, na nova Inglaterra. Ou seja, mesmo mortos, continuam a habitá-la. Nessa família, no entanto, há uma menina (Winona Ryder) que faz amizade com eles.

É quase um Os caça-fantasmas às avessas, sendo que a melhor piada talvez seja aquela em que a família e seus convidados são obrigados a dançar calipso. Talvez o roteiro seja irregular, assim como os atores, contudo a direção de arte é impressionante, assim como o figurino de Aggie Rodgers e a trilha de Danny Elfman, que dá o tom certo. Para um filme em que personagens deslocados se mostram tão presentes, não é de se estranhar que Burton tenha sido convidado para fazer o primeiro Batman e tenha criado Edward – assim como inseriu Pee Wee numa espécie de Disneylândia pessoal, com sua profusão de cores e invenções cotidianas.
Edward (Johnny Depp) é uma criação do cientista que o deixou num castelo abandonado, tendo morrido antes de conceder-lhe mãos humanas (feito por Vincent Price). Descoberto por uma vendedora de cosméticos Avon, Peg Boggs (Dianne Wiest), cuja procura por clientes é assídua, sem contrapartida, ele é levado para a cidade, ou uma espécie de fragmento de subúrbio dos Estados Unidos, com casas pintadas de diferentes cores, como se separadas do ambiente gótico do castelo, quando, na verdade, parecem ser o seu complemento.

Bem recebido pela família dela, o marido Bill (Alan Arkin) e o filho Kevin (Robert Olivieri), apesar de suas mãos pouco comuns e o rosto com cicatrizes, escondidas por uma branca maquiagem, Edward se apaixona pela filha da vendedora, Kim (Winona Ryder), que fica dividida entre ele e seu namorado, Jim (Anthony Michael Hall). As coisas se complicam quando Edward passa a ser visto até como uma espécie de fetiche por algumas vizinhas da região, de forma mais destacada uma cabeleireira, Joyce (Kathy Baker) e Helen (Conchata Ferrell) e, depois de começar a ser conhecido, envolve-se em problemas juvenis.
O roteiro, escrito pelo diretor e Caroline Thompson, tem raros momentos soltos, ligando as pontas de maneira clara. Burton lida com o roteiro de uma maneira que só havia conseguido em Batman e só conseguiria repetir com semelhante êxito em A lenda do cavaleiro sem cabeça, e consegue um elenco à altura. Johnny Deep transforma Edward numa referência para sua trajetória (embora também no sentido menos adequado, às vezes se encaixando num estereótipo de estranheza), Dianne Wiest é com competência sua mãe adotiva e Winona Ryder se encaixa bem no papel de adolescente apaixonada, no início de uma década em que se destacaria. Entre os coadjuvantes, Alan Arkin aparece pouco, como Bill, casado com Peg, mas Kathy Baker está ótima como a cabelereira que manifesta interesse por Edward.

Burton utiliza uma fórmula quase gasta em passagens de apelo, mostrando uma sociedade vazia e multicolorida, como um modelo autossustentável dos anos 80, em contraste com a escuridão do início dos anos 90. Para isso, os cenários de Bo Welch e os figurinos de Collenn Atwood (parceira habitual de seus trabalhos) são essenciais, sobretudo o castelo abandonado, um primor de concepção, cheio de máquinas e plantas no jardim em formato de animais, em cenários que dialogam ainda mais com As grandes aventuras de Pee-Wee, sua estreia. Trata-se, sem dúvida, de uma fábula, bastante parecida com seu primeiro curta-metragem (que viraria longa) Frankenweenie, em que Edward é uma espécie de Frankenstein contemporâneo. De certo modo, também Edward é uma reprodução excêntrica de Bruce Wayne, e Burton havia feito Batman um ano antes para a Warner.
Nesse sentido, Burton sempre coloca seus personagens numa posição à margem, como se estivessem ilhados, sem saída. Aqueles que o cercam o principal muitas vezes querem ajudá-lo, porém em Edward mãos de tesoura essa ajuda é menos efetiva, a partir de determinado ponto. O filme de Burton, basicamente, traz uma melancolia que nenhum outro dele possui, mesmo quando pareça ter, a exemplo do superestimado Peixe grande. Além da ausência de família, característica em Edward e Bruce Wayne, do Ichabord Crane de A lenda do cavaleiro sem cabeça, ou do Barnabas de Sombras da noite, Edward mãos de tesoura coloca os símbolos de uma fábula em jogo: Kim e Jim só se diferenciam, a princípio, por uma letra, mas suas decisões tomam o rumo diferente diante de uma situação-limite, embora seja Edward que vai entender, afinal, o cão caminhando pela calçada, embora não entenda o comportamento desgovernado dos habitantes deste subúrbio tipicamente americano, em que suas tesouras servem, em determinado momento, para assar pedaços de carne para a vizinhança.

Há uma espécie de onirismo nas imagens do filme de Burton que não nos permite definir exatamente esses personagens, mesmo que eles pareçam resultado de alguma fábula, pois justamente há essa solidão presente em cada passo que Edward dá (como a primeira refeição em família) e que inspiraria outras obras referenciais, como O fabuloso destino de Amélie Poulain. Edward não é simplesmente à parte do comum, mas uma representação dessas figuras que o cercam ao longo da narrativa, com todos os seus conflitos e sentido de ausência no universo. Educado com zelo por um cientista, ele pode, no entanto, ser tão perseguido e visto como uma ameaça quanto o Coringa de Nicholson. Para Burton, não há um linha definida entre as expectativas referentes a um ser humano e o encantamento por uma novidade que logo pode se converter em rotina. Burton consegue transformar Edward num personagem de notável significado quando justamente coloca a fantasia dentro da rotina: quando vemos o filme, e chegamos ao triste e melancólico teor de uma fábula, estamos diante da obra de um artista.

Edward scissorhands, EUA, 1990 Diretor: Tim Burton Elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Alan Arkin, Anthony Michael Hall, Kathy Baker, Robert Oliveri, Vincent Price Roteiro: Caroline Thompson, Tim Burton Fotografia: Stefan Czapsky Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Denise Di Novi, Tim Burton Duração: 105 min. Estúdio: Twentieth Century Fox Film Corporation

Dick Tracy (1990)

Por André Dick

Este filme teve dois atrativos de marketing, quando foi lançado: a presença de Warren Beatty à frente e atrás das câmeras, como em Reds, que lhe deu o Oscar de diretor, e a escalação de Madonna para contracenar com o herói, um detetive – além do romance entre os dois estendido para fora das telas. E a Walt Disney havia apostado todas as suas fichas nele, como se fosse, no início da nova década, um novo Popeye, mas sobretudo tentando repetir o desempenho, no ano anterior, do Batman de Tim Burton. Se em Popeye e Batman, Robert Altman e Burton contribuíram com sua visão, em Dick Tracy, Beatty fez um policial com ambiente europeu, com beleza plástica e ritmo pouco americano, e daí o seu semiesquecimento, embora hoje possa caracterizar o cinema de início da década de 90, fugindo um pouco às características dos anos 80. (Lembro de tê-lo visto pela primeira vez num cinema de rua exatamente em 1990, e o quanto a sessão foi diferente daquela de Batman, quando o público se mostrava com vontade de rir a qualquer coisa que Jack Nicholson dissesse, e hoje, revendo-o, nota-se como o filme de Beatty é mais sofisticado, embora menos envolvente, do que o de Burton.)

Sendo assim, Dick Tracy (o próprio Beatty, sem o queixo quadrado das HQs) não tem, a princípio, personalidade marcante. Quem rouba a cena são os vilões, sobretudo Big Boy Caprice, feito por Al Pacino, um mafioso impagável, dono das melhores frases do filme, baseadas em filósofos (a exemplo de Nietzsche e Platão) e políticos (Lincoln, Benjamin Franklin). Aliás, todo elenco de vilões sobrepuja o detetive: Dustin Hoffmann como Mumbles – que não consegue ver um copo-d’água –, William Forsythe como o Flattop, entre outros.
Dick Tracy combate exatamente Big Boy Caprice, que pretende controlar a cidade, eliminando de início um concorrente, Lips Manlis (Paul Sorvino, que no mesmo ano aparece em Os bons companheiros), chantageando o prefeito D. A. Fletcher (Dick Van Dyke), desviando dinheiro e roubando pontos de outros mafiosos. Apaixonado por Tess (Glenn Headly), Tracy encontra um garoto nas ruas, Kid (Charlie Korsmo, que na época apareceu também em Hook e Nosso querido Bob), que testemunhou uma situação decisiva para as investigações, e passa a cuidá-lo. Não sem antes persegui-lo perto de uma linha de trem, depois do sobrevoo da câmera pela cidade, mostrando os edifícios.

É a amizade com esse garoto que dá uma certa humanidade ao detetive, desde a cena em que surge. Em meio à trama conduzida sem excessos, mas sem toques de brilhantismo, Tracy se divide entre a amada e a cantora Breathless Mahoney, que tenta seduzi-lo com roupas transparentes e procura reprisar não apenas as estrelas antigas (Marlene Dietrich, Marilyn Monroe), mas outra atriz com inicial M (Michelle Pfeiffer), que um ano antes faria Susie e os Baker Boys, deitando-se sobre a cauda do piano. Um homem misterioso surge na cidade, e tenta, ao mesmo tempo, tirar Big Boy do centro das notícias e Tracy da polícia – cujo chefe Brandon é o saudoso Charles Durning.
Mesmo com a falta de ação e o roteiro dos autores de Top Gun, Jim Cash e Jack Epps Jr., sem grande densidade nos diálogos, trata-se de uma feliz transposição dos quadrinhos de Chester Gould para o cinema, por aquilo que cerca a trama: a produção, o cuidado com os ambientes, o interesse em estabelecer um vínculo entre visual e narrativa, as atuações equilibradas e as canções evocando um musical.

Com maquiagem impressionante de Doug Drexler e John Caglione Jr., o filme ainda tem a fotografia com assinatura de Vittorio Storaro, que recria o clima dos quadrinhos, iluminando prédios com cores básicas, do vermelho ao amarelo, no que remete especificamente a seu trabalho em O fundo do coração, com sua Las Vegas de estúdio. O mesmo acontece com a direção de arte de Richard Sylbert (vencedora do Oscar) e o figurino de Milena Canonero, com capotes de cores diversas e ternos supercoloridos. Já a trilha de Danny Elfman e as canções de Madonna trazem um certo ritmo que Beatty não imprime, de propósito, com a ação – como (spoilers) nas cenas de ascensão e queda de Big Boy Caprice, os shows da boate Ritz, o tiroteio espetacular ao final.
Nesse sentido, se a montagem do filme emula os cortes das tiras de quadrinhos, também podemos pensar que Dick Tracy envolve tanto a estética de videoclipe dos anos 80 em algumas passagens (sobretudo quando faz rodar várias imagens) quanto a de obras dos anos 50. Ao mesmo tempo, ele procura algumas imagens e transposições icônicas, como nos momentos em que Tracy e Tess passeiam de carro com Kid e vão à lanchonete, ao som de canções, e quando o detetive e Breathles se encontram em frente a um porto, com a lua ao fundo, fazendo a cor do capote de Tracy dialogar com a iluminação do cenário; ou quando se mostram cenários como o da estação de trem ou do cemitério.

Cada personagem passa a ser também um símbolo: há obviamente o maniqueísmo do herói contra os vilões terrivelmente ruins, apenas porque gostam de agir assim (e lembram as hienas que acompanham o vilão de Uma cilada para Roger Rabbit, do qual o filme, sem dúvida, é também uma extensão, por sua incorporação visível dos quadrinhos, embora não utilize exatamente a animação, com exceção do início e do final, quando as imagens parecem voltar às suas origens). Igualmente os interesses amorosos de Tracy: Tess e Breathley não fogem a uma composição de quadrinhos, embora Headly consiga imprimir certa dramaticidade em uma ou outra cena. Prejudicada pelo rótulo de femme fatale, Madonna não é ajudada pelo roteiro, que entrega algumas pérolas de mau uso verbal. Cantando em algumas sequências à frente de uma banda e uma cortina vermelha, Madonna também parece homenagear a Isabella Rosselini de Veludo azul. Ainda assim, Pacino consegue, em uma cena que parece inserida nos Tempos modernos, de Chaplin, compor um vilão ao mesmo tempo provocador e receoso de cometer qualquer ação diante da polícia. E, apesar de Beatty não ascender sobre os outros personagens, como se poderia esperar, também é verdade que ele dosa o lado ético e o lado envergonhado diante de situações românticas de modo acertado. Ou seja, Beatty oferece a Tracy, mesmo com um roteiro de punch quadrinístico, um elemento humano, e, também por estar atrás das câmeras, mostra-se interessado o bastante para que os outros personagens possam se destacar.

A narrativa, por se passar nos anos 1930, também apresenta um aspecto elementar de Grande Depressão dos Estados Unidos (o Kid parece nunca ter ido a uma lanchonete antes), de art decó, com toques do expressionismo alemão, de pintores como George Grosz e Otto Dix (influências do próprio Gould), numa sociedade, como aquela mostrada tão bem por De Palma em Os intocáveis, que só poderia fugir à realidade mergulhada em cigarros e cabarés. Não que Dick Tracy elabore um aprofundamento sobre o contexto da máfia ou dos jogos e bebidas proibidos, nem sobre a violência específica que cerca os gângsteres, mas não deixa de ser uma narrativa conduzida por elementos desta espécie.
Sim, trata-se de um filme colorido e artificioso como as histórias originais de Chester Gould, mas nunca menos que um êxito subestimado. Parece mesmo deslocado temporalmente, e ainda assim sobrevive como motivo de entretenimento, pela estranheza singular de sua narrativa.

Dick Tracy, EUA, 1990 Diretor: Warren Beatty Elenco: Warren Beatty, Charlie Korsmo, Madonna, Al Pacino, Glenne Headly, Michael Donovan O’Donnell, William Forsythe, Ed O’Ross, Seymour Cassel, James Keane, Charles Durning, Mandy Patinkin, Paul Sorvino, Dick Van Dyke, James Caan Roteiro: Chester Gould, Jim Cash, Jack Epps Jr. Fotografia: Vittorio Storaro Trilha Sonora: Danny Elfman  Produção: Warren Beatty Duração: 103 min. Estúdio: Touchstone Pictures / Silver Screen Partners IV / Mulholland Productions Distribuidora: Buena Vista Pictures

Batman – O retorno (1992)

Por André Dick

Esta continuação fez maior sucesso do que o primeiro, de forma surpreendente, pois é um filme tematicamente mais ousado, embora perca levemente seu misto entre o lado cartunesco do Coringa de Jack Nicholson e a direção de arte intensamente soturna de Anton Furst (vencedora do Oscar). Tim Burton havia gostado muito do roteiro original de Daniel Waters, autor um ano antes do ambicioso Hudson Hawk, com Bruce Willis, que homenageia a época do expressionismo alemão, tanto nos cenários quanto na figura dos personagens (Max Schreck, o nome do vilão feito de maneira hábil por Christopher Walken, é o mesmo do antigo ator que fez Nosferatu, em 1922) e ainda explica o surgimento de novos vilões: o Pinguim e a Mulher-Gato. Como trama, o roteiro de Waters não convence, mas quanto aos diálogos há um surpreendente jogo de questões explorando a dupla personalidade dos personagens centrais.
A história se passa durante o Natal, 33 anos depois que o casal Cobblepot (Paul Reubens e e Diane Salinger) jogou seu filho defeituoso nos esgotos de Gotham City, depois de um início que remete a O milagre de Anne Sullivan, dos anos 60. A cidade está assustada com o Homem Pinguim (Danny DeVito), que vive junto a pinguins no subsolo do zoológico municipal.

Ajudado por Max Schreck, ele volta à sociedade, com a vontade de se tornar um cidadão comum, mas sempre atormentado por ter sido abandonado pelos pais. Acaba se transformando em candidato a prefeito, tendo por trás a Red Triangle Gang, uma trupe de figuras saídas de algum circo desvirtuado, e desafia Batman (a persona heroica do milionário Bruce Wayne, interpretado por Michael Keaton) a enfrentá-lo. No entanto, sua obsessão pelo abandono o leva a planejar uma determinada captura, envolvendo também Charles “Chip” Shreck (Andrew Bryniarski).
Enquanto isso, surge a Mulher-Gato da pele da secretária de Schreck, Selina Kyle (Michelle Pfeiffer, que voltaria a trabalhar com o diretor em Sombras da noite), que mora num apartamento com inúmeros gatos, em meio a neons que servem como jogo de palavras, e se mantém informada dos negócios de seu chefe. Com problemas de relacionamento, ela se modifica completamente depois de um acontecimento e passa a namorar Bruce Wayne, sem nenhum deles saber quem é, na verdade, o outro. Este envolvimento dará origem a novos conflitos irremediáveis.

Se, de um lado, os personagens procuram conviver e Wayne continue a ver um pai em Alfred (Michael Gough), por outro, as explosões e os efeitos especiais se sucedem em ritmo vertiginoso, a violência é explícita (como a cena em que o vilão, uma espécie de Edward mãos de tesoura perverso, quase arranca o nariz de um publicitário, ou quando a Mulher-Gato rasga a pele de assaltantes) e batalhões de pinguins fazem um desempenho incrível numa produção sofisticada – sobretudo de excelentes cenários. Burton tinha em mente não repetir o primeiro Batman, e realmente o fez.
O visual de Bo Welch é brilhante, com referências a Nosferatu, O corcunda de Notre-Dame, A noiva de Frankenstein O patinho feio, enquanto a atmosfera é melancólica, lembrando, assim, o período vitoriano e expressionista, em diálogo com os personagens (o Pinguim e a Mulher-Gato são pessoas abandonadas, que querem enlouquecer a cidade; a sequência em que o vilão voa com seu guarda-chuva, enquanto Batman e a Mulher-Gato se enfrentam pelos telhados da cidade é uma das mais bem solucionadas dentro das pretensões do diretor). Nesse sentido, o estilo de Burton permanece intacto, com direito a outras cenas originais: a grandiosa invasão dos pinguins nas ruas de Gotham City, por exemplo; a explosão durante a festa de Schreck. Há uma prevalência de fantasia nas imagens aqui do que na trilogia de Nolan, fazendo persistir na memória muitas sequências interessantes. Com isso, a fotografia de Stefan Czapsky explora Gotham City como uma sucessão de ruelas abafadas por edifícios imensos, e as perspectivas de filmagem remetem ao expressionismo e a uma espécie de pesadelo kafkiano.

É um filme de ação, por vezes, pesado e triste e a direção de Burton é sempre melhor do que a narrativa (que em muitos momentos cansa, pois não dosa as peças direito), procurando a estranheza dos personagens e os problemas psicológicos de cada um, com referências à psicologia de Freud, Jung e Lacan, não necessariamente nessa ordem. Todos possuem não apenas uma face dupla, como um duplo comportamento, não interagindo de maneira previsível em meio aos diferentes rumos de narrativa. Talvez Kyle seja a melhor personagem, pois se confronta com uma vida tediosa e, depois da transformação, com a descoberta de uma sexualidade que, de forma completa, a torna rejeitada. Trata-se de um filme que antecipa elementos, por exemplo, empregados por Burton em A lenda do cavaleiro sem cabeça, com seu clima vitoriano e brumas de uma fábula. Não é um filme para crianças portanto, já que as atuações de Michelle e Danny DeVito às vezes assustam, sendo, no mesmo sentido, bastante eficazes, principalmente a dela. Mais espetacular, barulhento e “filme de autor” do que o primeiro, e ainda assim inferior, Batman – O retorno, mesmo assim, é visualmente uma das melhores produções de super-heróis já feitas, de profunda influência nas obras atuais do gênero e um símbolo de que um blockbuster pode flertar realmente com ideias originais e com a história do cinema.

Batman returns, EUA, 1992 Diretor: Tim Burton Elenco: Michael Keaton, Danny DeVito, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Michael Gough, Pat Hingle Michael Murphy Roteiro: Daniel Waters Fotografia: Stefan Czapsky Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Denise Di Novi, Tim Burton Duração: 126 min. Estúdio: Warner Bros. Distribuidora: Warner Bros.

Sonhos (1990)

Por André Dick

Este é o projeto mais pessoal do cineasta japonês Akira Kurosawa, diretor de filmes antológicos como Kagemusha e Ran. Não apenas por tratar de oito sonhos que teve ao longo da vida, mas também porque apresenta uma narrativa leve e densa, sem permitir uma superficialidade. Ele havia feito Ran cinco anos antes, tendo sido indicado ao Oscar de melhor diretor, sua adaptação para o Rei Lear, de Shakespeare. Pela primeira vez, utiliza efeitos especiais da Industrial Light & Magic, de George Lucas, também porque o filme conta com a produção executiva de Steven Spielberg (possíveis spoilers a partir daqui).
O primeiro dos oito sonhos é “A chuva em meio ao sol”, em que um garoto (Mitsunori Isaki) presencia um casamento de raposas, proibido para todo mundo, sendo levado pela mãe (Mitsuko Baisho) a ter de optar por um caminho tortuoso. A atitude dela é surpreendente, e ecoa um desprendimento familiar em nome de uma tradição, ainda que seja assustadora. Belamente fotografado, com um figurino extraordinário, é talvez o melhor episódio, com fundo ecológico. O final do sonho – o garoto observando um arco-íris no horizonte – é uma das sequências mais bem feitas do cinema, trazendo a sensação de onirismo que o diretor pretende empregar em cada uma de suas peças.

O segundo sonho se chama “O jardim de pessegueiros”, novamente criticando a humanidade, que destrói árvores, no caso pessegueiros. Atraído por uma bela moça, o menino Kurosawa atravessa para outra realidade, em que árvores são interpretadas por seres humanos, em meio a diálogos sobre a finitude e o respeito pela natureza, porém sem abdicar de um ritmo orquestrado, em que figurantes com vestuários de cores diferenciadas compõem os espíritos vários pessegueiros e parecem prestar uma homenagem ao menino que chora pela perda. Tudo remete à poesia de origem japonesa: prevalecem as imagens sobre a narrativa, porém esta se infiltra nos mais ínfimos movimentos feitos por Kurosawa.
Quando termina o segundo sonho e começa o terceiro, “A nevasca”, parece que há uma queda na narrativa. Pesada e distante, essa história não chega a engrenar como as anteriores, nem mesmo quando uma equipe de alpinistas enfrenta a morte no frio. Necessitava de um pequeno corte inicial, já que se perde tempo demasiado com a angústia da situação, sendo, porém, por outro lado, essa uma de suas virtudes sob outro olhar. Aqui, há um enfrentamento com os limites do corpo, lembrando um dos melhores momentos da filmografia de Kurosawa, Dersu Uzala, e possuindo um desfecho altamente bem filmado, com uma integração entre visão, sonho e sensação de luto na imagem de uma figura que representa a forte nevasca (Mieko Harada).

No quarto sonho, “O túnel”, temos um sonho bastante original: o tenente de uma tropa (Akira Terao, a partir daqui em todos os sonhos, como Kurosawa) depara-se com soldados mortos (com os rostos pintados de azul celeste), enfrentando um cão raivoso, talvez sua consciência culposa. Interessante como se traça um diálogo com o sonho anterior no sentido da morte que parece inevitável, mas se abre numa nota otimista de regeneração do ser humano. Kurosawa dirige com brilhantismo este sonho, assim como em “Corvos”, o quinto sonho, seu alter ego revisita pinturas de Van Gogh num museu e imagina caminhar dentro delas – aqui, a fotografia inicial, mais poética, é retomada e os efeitos especiais, muito bem feitos, marcam presença – e se encontra com o pintor (interpretado por Martin Scorsese, fortemente maquiado). Este talvez seja o momento mais autobiográfico da trajetória de Kurosawa, que, antes de ser cineasta, gostaria de ter sido pintor e eclode numa quase homenagem a Os pássaros, de Hitchcock, contrastando um campo amarelado de trigo com a cor dos corvos, que dão título à passagem. É o sonho que também, ao contrário daquele da nevasca e da montanha, abre o mundo para múltiplos caminhos, também em contato com a natureza e a arte, lembrando mais os dois primeiros localizados na infância.

O sexto e sétimo sonhos,  “Monte Fuji em vermelho” e “O demônio que chora”, talvez sejam os mais fracos, apoiados num roteiro menos inspirado e aqueles mais ligados a um possível apocalipse na Terra. No sexto, usinas nucleares explodem, e os habitantes perto do Monte Fuji precisam fugir da radioatividade. Os efeitos especiais são propositadamente limitados, remetendo a obras japonesas dos anos 60, mas com um trabalho de cores interessante. No sétimo, um rapaz encontra uma espécie de demônio (Mieko Harada), num sonho estranho, inclusive com flores gigantes, resultantes da radioatividade, mas uma direção de arte não tão feliz como os demais, acentuando em demasia o fundo acizentado, embora o final, com várias criaturas sendo projetadas em vermelho na água, ofereça uma angústia interessante. São também esses episódios que parecem finalizar a ideia apresentada pelos sonhos do túnel e da nevasca: o personagem aceitando sua fragilidade diante das escolhas humanas.

Felizmente, o último sonho, “Povoado dos moinhos”, é excelente o bastante para dar a Sonhos um status de obra-prima. Nele, o jovem Kurosawa conversa com um velho carpinteiro (Chishu Ryu) de um local cheio de moinhos e crianças. Com uma espécie de cerimônia ritualística, parece que se fecha a obra, percorrendo da infância à velhice e o contato com a natureza, primeiramente no bosque, agora numa cidade composta por moinhos-d’água. Mestre em fazer imagens impressionantes, Kurosawa encerra aqui afirmando a concretude de cada um dos sonhos. Sem dar especial atenção aos diálogos, como em Ran, por exemplo, ele se concentra no traço pictórico para atingir a sensibilidade do espectador. Uma caminhada representa todo um percurso de vida e não deixa de estabelecer vínculo com o primeiro sonho, no qual o menino se depara com um arco-íris depois de ser levado pela mãe a ter de optar pela decisão das raposas. O homem já adulto não está escondido por trás das árvores: ele está consciente do seu percurso. É um canto para a natureza, dentro ou fora das pinturas que exibe. Desse modo, os múltiplos caminhos do sonho sobre as pinturas de Van Gogh se mostram cada vez mais presentes e notáveis.

夢 /Akira Kurosawa’s Dreams, EUA/JAP, 1990 Diretor: Akira Kurosawa Elenco: Akira Terao, Martin Scorsese, Chishū Ryū, Mieko Harada, Mitsuko Baisho, Mitsunori Isaki Roteiro: Akira Kurosawa Fotografia: Takao Saito e Shôji Ueda Trilha Sonora: Shinichirô Ikebe Produção: Hisao Kurosawa e Mike Y. Inoue Duração: 119 min. Estúdio: Akira Kurosawa USA Distribuidora: Warner Bros. (Estados Unidos), Toho (Japão)

 

80 anos de Ridley Scott

Por André Dick

O cineasta britânico Ridley Scott comemora hoje 80 anos de idade. Algumas críticas sobre filmes dele, publicadas no Cinematographe e no Letterboxd, como homenagem a um dos grandes cineastas da história.

Alien – O 8º passageiro (1979)

Blade Runner – O caçador de androides (1982)

Thelma & Louise (1991)

Gladiador (2000)

Cruzada (2005)

Um bom ano (2006)

Prometheus (2012)

O conselheiro do crime (2013)

Êxodo – Deuses e reis (2014)

Perdido em Marte (2015)

Alien: Covenant (2017)

Abaixo, um TOP 10 de sua carreira: