Fargo (1996)

Por André Dick

Os Oscars de melhor atriz (Frances McDormand) e roteiro original, além do prêmio de melhor direção em Cannes, fizeram de Fargo o filme mais bem-sucedido dos Coen antes de Onde os fracos não têm vez. Donos de um estilo próprio no cinema independente americano, Joel, que até então (quando não se podia assinar em parceria) assinava a direção, e seu irmão Ethan, com quem escreve o roteiro e produz, formam, desde Gosto de sangue, uma referência, e, depois de duas obras particularmente estranhas – o instigante Ajuste final e Barton Fink –, eles tratam, aqui, dentro do mesmo limite a que se propõem, de um faroeste contemporâneo.
Este faroeste (daqui em diante spoilers), em que não se sabe ao certo quem são os heróis e quem são os vilões, mas sempre com um personagem que traz uma espécie de indicação moral, um vendedor de carros, Jerry Lundegaard (William H. Macy), contrata dois bandidos, Carl Showalter (Steve Buscemi), e Grimsrud (Peter Stormare), apresentados por seu mecânico Shep Proudfoot (Steve Reevis), para cometer um crime: o sequestro de sua própria esposa, Jean (Kristin Rudrüd). O encontro é num bar de Fargo, Dakota do Norte, e pretende pagar suas dívidas com o dinheiro do resgate, pedido ao sogro, Wade Gustafson (Presnell), o qual promete repartir com os sequestradores.

Estamos perto de uma situação surreal dentro do cotidiano, parecida com aquelas que movimentam Arizona nunca mais e Barton Fink, dois dos melhores filmes dos Coen. Há não apenas uma falta de equilíbrio para os personagens, como ela acaba tendo acesso a todos os meandros da narrativa. Contudo, é interessante que enquanto nesses dois filmes, assim como em outros dos Coen, a exemplo de E aí, meu irmão, cadê você?, o clima aqui não é quente: os personagens estão num cenário glacial e com aparência longínqua, afastada de toda a civilização. Eles não chegam a se comportar, sob esse ponto de vista, de maneira comum, e sim parecem estar sempre sob uma pressão externa, que faz o ambiente esquentar consideravelmente. Esta situação se desenha pela necessidade de cada personagem de extravasar sua própria loucura – e enquanto os bandidos parecem, a princípio, ágeis, com o passar do tempo, eles lembram mais a dupla de assaltantes atrapalhada de Arizona nunca mais;. Sim, os Coen não conseguem fugir a uma espécie de tragédia cômica em seus melhores momentos, que os transformaram em referências. Obras como Onde os fracos não têm vez e Bravura indômita também iriam adquirir este espaço em que o heroísmo costuma ser visto como uma extensão da humanidade.

Depois de iniciarem a trajetória para Minneapolis, os marginais, sem ligarem para o fato de que Jerry muda de ideia no último minuto a respeito do sequestro, ou seja, sem antecedência o suficiente para matá-lo, matam um policial em Minessota, quando são parados na ida para o cativeiro.
A delegada Marge Gunderson (Frances McDormand, ótima, num papel incomum) chega à cena do crime, fotografada com uma tristeza desoladora por Roger Deakins (habitual colaborador dos Coen, quase parte de sua identidade visual) e começa a investigar o caso, indo parar na concessionária onde Jerry trabalha. Casada com um pintor de selos, Norm (John Carroll Lynch), a delegada esbanja bondade: almoça com velhos amigos, aguarda o marido preparar o café antes de ir trabalhar, não liga para a incompetência de seus policiais, tudo a fim de garantir uma gestão tranquila para seu bebê. Marge é a única personagem no filme que tem um posicionamento de alegria e mesmo esperança diante do mundo, mas ela apenas aparenta ser ingênua. Quando soa o sotaque caipira, e quando se parece debochar dela, nesse instante ele consegue observar todos os detalhes e seguir as pistas mais elaboradas.

É ela o símbolo desse cinema dos Coen, em que o personagem menos talhado para as definições se torna a referência para que o mundo se transforme, nem que seja circunscrito a um pedaço que parece insignificante da América. Todas as situações provocadas pelo erro do sequestro acabam retornando como peças desastradas de um panorama mais amplo desta sociedade, em que há, por um lado, uma certa falta de vigor explícita no que toca a humanidade e uma extrema aridez quando se precisa chegar a temas mais delicados. O mundo do crime se contrapõe decisivamente àquele café da manhã de Maggie com o marido e a tranquilidade da gravidez. Maggie parece suportar a investigação porque, assim como as camadas de roupa, ela guarda sempre uma camada de recolhimento, que nunca sai dos limites de sua casa e das pinturas do marido. Por isso, de certo modo, ela acaba sendo o esteio da obra.
As outras figuras são dominadas pela paranoia do dinheiro: o marido traidor, seu sogro que quer ser valente, os bandidos covardes (um deles sanguinário). Os irmãos Coen dão um tratamento a cada personagem, ressaltando suas características emocionais, mesmo que sejam mostradas com violência. Algumas cenas podem assustar pelo banho de sangue, característica dos Coen, no entanto a trama é conduzida de maneira tão competente que é difícil não se render ao brilhantismo do filme.

Fargo, EUA, 1996 Diretor: Joel Coen Elenco: William H. Macy, Steve Buscemi, Frances McDormand, Peter Stormare, Kristin Rudrüd, Harve Presnell, John Carroll Lynch, Steve Reevis Roteiro: Ethan Coen Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: John Cameron Duração: 98 min. Estúdio: Company PolyGram Filmed Entertainment, Working Title Films Distribuidora: Gramercy Pictures

O rei leão (2019)

Por André Dick

A sucessão de live actions lançada pelos estúdios Disney vem proporcionando uma onda de nostalgia para quem gosta de animações clássicas, do mesmo modo que bilheterias bilionárias. Neste ano, tivemos Dumbo, que desapontou financeiramente, e Aladdin, que está quase repetindo o feito financeiro de Mogli – O menino lobo, embora fique um pouco atrás de A bela e a fera. Apenas live actions menos comerciais (Christopher Robin, Meu amigo, o dragão) realmente não têm encontrado seu público. Dirigido pelo mesmo Jon Favreau da versão mais recente de Mogli, O rei leão é uma nova adaptação da história já levada às telas em 1994, que foi um grande sucesso, assim como venceu os Oscars de melhor trilha sonora (Hans Zimmer) e canção (“Can You Feel the Love Tonight”, de Tim Rice e Elton John).

A história mostra o nascimento de Simba (quando filhote JD McCrary e na vida adulta Donald Glover), filhote do leão Mufasa (James Earl Jones, também do original), que lidera uma determinada região da África do Sul, e da rainha Sarabi (Alfre Woodard). Ele é apresentado aos animais por um madril, Rafiki (John Kani), ao som de “The circle of life”, de Elton John, construindo um diálogo direto com o obra dos anos 90 e de maneira impactante. O trono de Mufasa, no entanto, é cobiçado por Scar (Chiwetel Ejiofor), um leão mais velho e amargurado, que procura um grupo de hienas, tendo à frente Shenzi (Florence Kasumba), para colocar um plano em ação. A melhor amiga de Simba é Nala (primeiro Shahadi Wright Joseph e depois Beyoncé Knowles-Carter) e o pássaro Zazu (John Oliver), ajudante de Mufasa, ajuda a vigiá-lo. Quando fica curioso com uma determinada indicação do seu tio, Simba irá se envolver numa complicação determinada, que o leva a conhecer o suricato Timon (Billy Eichner) e o javali Pumba (Seth Rogen). O roteiro de Jeff Nathanson, responsável pela escrita de alguns trabalhos de Spielberg (Prenda-me se for capaz, O terminal, Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), é absolutamente fiel ao filme dos anos 90, com uma diferença na abordagem.

A dificuldade de fazer uma nova versão desse clássico era clara para Favreau. Responsável também pelos dois primeiros Homem de Ferro e por Cowboys e aliens, uma curiosa mescla entre ficção científica e faroeste, Favreau não tem a originalidade como uma de suas características. No entanto, no plano visual, ele consegue produzir peças diferenciadas, mesmo sem possuir as cores notáveis da obra que o inspirou. Este O rei leão talvez seja o maior filme live action já realizado, com uma aproximação da realidade tão grande que fica difícil separar o que é a própria natureza e o que é computação gráfica, acompanhado de uma direção de fotografia de Caleb Deschanel espetacular. É um trabalho irrepreensível, melhor, inclusive, do que Mogli e um antecipado vencedor do Oscar de efeitos visuais se não houver outro trabalho assim de destaque no ano. Os detalhes visuais de cada animal é impressionante, incluindo girafas, insetos, pássaros e antílopes: destaque-se a sequência em que Pumba e Timon encontram pela primeira vez Simba, num deserto inalcançável, lembrando a imensidão de Lawrence da Arábia, e cada detalhe facial é bem exprimido.
Favreau não segue exatamente os passos do diretor da animação, Rob Minkoff e Roger Allers, preferindo adotar um tom mais soturno para tratar dos passos da dinastia proclamada por Mufasa. A relação de amizade com seu pequeno filhote é muito interessante, com ensinamentos, mas aqui Favreau se atém a um tom menos infantil, mesmo com a clássica “Hakuna Matata”. O vasto cenário amplia, muitas vezes, a solidão do personagem central a partir de determinado momento, incorrendo em instantes sensíveis.

Ou seja, em certos momentos, este O rei leão é realmente mais para adultos e confere certamente seu diálogo com a peça Hamlet, de Shakespeare, mais do que o original. Há muitas sequências passadas à noite ou em cavernas escuras, além de uma homenagem evidente a trabalhos como Os dez mandamentos, dos anos 50, em determinadas passagens nas quais anteriormente já buscava seguir esse caminho – e os personagens só têm algum alívio quando estão seguindo o roteiro de canções já esperado. As hienas, as vilãs, soam muito mais ameaçadoras e filmadas com rara sagacidade. E, mesmo que suas expressões não sejam de uma animação, a movimentação deles é irretocável, um verdadeiro primor na transposição da realidade para a fantasia, acentuada pela trilha sonora emocionante de Hans Zimmer.
Como não especial admirador da animação, tendo a considerar este O rei leão uma peça mais bem acabada e, apesar de menos colorida, mais eficiente em sua mescla de drama e humor. Ainda existe, na metade, uma lacuna de roteiro que pode soar estranha já no original, além do final excessivamente apressado, elementos não resolvidos por Favreau, porém este consegue imagens mesmo mais poéticas do que o de 1994, lembrando um pouco o filme O elo perdido, dos anos 80, com uma recriação da savana africana tão milimétrica quanto expansiva. Há blockbusters de grande qualidade e este O rei leão é um deles. Que ele vai encontrar seu público é certo – e desta vez com grande justiça.

The lion king, EUA, 2019 Diretor: Jon Favreau Elenco: Donald Glover, Seth Rogen, Chiwetel Ejiofor, Alfre Woodard, Billy Eichner, John Kani, John Oliver, Beyoncé Knowles-Carter, James Earl Jones, Florence Kasumba Roteiro: Jeff Nathanson Fotografia: Caleb Deschanel Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Jon Favreau, Jeffrey Silver, Karen Gilchrist Duração: 118 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Fairview Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios

Espírito jovem (2019)

Por André Dick

O universo de filmes que tentam captar o ingresso de um personagem na indústria da música teve alguns de de seus momentos mais significativos com os recentes Vox Lux Nasce uma estrela, estrelados, respectivamente, por Natalie Portman e Lady Gaga. Também foi lançado recentemente o bem-humorado, apesar de também dramático, Patti Cake$, em que uma jovem queria se tornar rap. Essas são produções notáveis sobre como uma figura adentra esse universo, tentando se adaptar a ele, equilibrando o aspecto autoral e o marketing para a venda da obra. Espírito jovem segue essa linha, numa estreia na direção de Max Minghella, conhecido por atuações como em A rede social e filho do falecido cineasta Anthony (de filmes como O paciente inglês).

O roteiro traz Elle Fanning como Violet Valenski, uma jovem que mora no interior de uma cidade numa ilha da Costa Sul da Inglaterra e sonha em ser cantora. Sua mãe, Marla (Agnieszka Grochowska), de origem polonesa (alguns diálogos são nessa língua), é bastante rígida. No pub onde trabalha como garçonete, Violet às vezes canta e numa das noites é descoberta por um ex-cantor de ópera, Vlad (Zlatko Buric). Também possui uma rivalidade escolar com Anastasia (Millie Brady). A caminho de uma competição nacional, chamada Teen Spirit, Violeta vai conhecer a agente Jules (Rebecca Hall) e a jovem estrela Keyan Spears (Ruairi O’Connor), com uma personalidade um tanto manipuladora. Cria-se, a partir daí, o contraste entre o universo pastoral do qual ela vem e a cidade de Londres e os meandros de um concurso de música com grande cobertura. Nesses momentos, a história lembra um pouco Sing Street, sem, porém, adotar o discurso mas rebelde da adolescência, de um discurso contra a escola, por exemplo, ou a favor de um romantismo.

A fotografia de Autumn Durald é um dos trabalhos mais significativos do gênero, com um trabalho de luzes impecável, influenciado pela obra de Nicolas Winding Refn, principalmente quando Violet está nos camarins, lembrando a presença de Fanning também em Demônio de neon. Em igual escala, há flashes que lembram o trabalho de Lubezki em A árvore da vida, num ambiente mais campestre onde a personagem central vive, indicando uma faceta europeia. Tudo isso cria um complemento com a proposta mais pop do filme, que destoa do lado negativo de Vox Lux, por exemplo.
Minghella trata os personagens com afeto, a partir da amizade entre Violet e Vlad, como dois deslocados da sociedade, captando algo, nas músicas e luzes, do Flashdance dos anos 80, assim como toques de Fama, quando a personagem central se reúne com uma banda. Há performances muito boas de “Lights” de Ellie Goulding e “Don’t Kill My Vibe” (Sigrid). Fala-se que Minghella gostaria de ter sido diretor de videoclipes e em alguns relances ele vislumbra essa busca aqui, quase colocando alguns completos em meio à trama, num diálogo com os anos 80, abastecido por bandas do rock atual, a exemplo de The Strokes e The Killers (que possui um videoclipe exatamente com Minghella). Isso fornece uma camada de diálogos atmosféricos bem propícia à reação de cada uma das figuras. Ou seja, este filme está para a época atual como Flashdance esteve para os anos 80 e não se duvide da sua tendência a se tornar um cult.

O visual não funcionaria sem a ótima atuação de Fanning, aqui com menos maneirismos do que no início da carreira e mostrando ser uma atriz superior a Dakota, sua irmã que começou muito bem em Guerra dos mundos e depois teve menos destaque, apesar de The Runaways. Há, além disso, a presença emotiva de Burio e Grochowska, como símbolos de uma família que pode se constituir. Por sua vez, Hall faz uma boa representação de uma agente do universo da música, interessada em assinar contrato rapidamente com astros em potencial. Talvez a proposta do filme em nunca esclarecer direito quem é Violet determina sua universalidade, principalmente ao tratar de um movimento cada vez mais presente de se descobrir estrelas pop em programas de televisão. No entanto, esse lado mais comercial não sobrepuja a sensação de que estamos lidando com personagens que se movimentam por sentimentos, e isso se esclarece na própria relação paternal que Violet desenvolve com Vlad. Minghella assina o roteiro, às vezes com lacunas e lugares-comuns, sem, no entanto, isso incomodar. Muitas vezes onde não há diálogos a história cresce de uma maneira inesperada. A montagem apressada (trata-se de um filme relativamente curto) também incomoda o desenvolvimento de algumas situações. Porém, o que se vê é interessante o bastante para investir em sua emoção.

Teen spirit, EUA, 2019 Diretor: Max Minghella Elenco: Elle Fanning, Rebecca Hall, Zlatko Buric, Agnieszka Grochowska, Ruairi O’Connor, Millie Brady Roteiro: Max Minghella Fotografia: Autumn Durald Trilha Sonora: Marius de Vries Produção: Fred Berger Duração: 92 min. Estúdio: Automatik Entertainment, Blank Tape, Interscope Films Distribuidora: Lionsgate, LD Entertainment, Bleecker Street

Melhores filmes de 2019 (até agora)

Por André Dick

Abaixo, a lista dos melhores filmes de 2019 até agora do Cinematographe, seguida por menções honrosas, que será atualizada à medida que forem sendo vistas novas produções. Conta-se a data de lançamento internacional deles, não apenas no país de origem ou em festivais. Por isso, há obras nela que foram lançadas, por exemplo, no Festival de Cannes e Festival de Berlim em 2018. São incluídos lançamentos realizados também em VOD e na Netflix.

1. A árvore dos frutos selvagens (Nuri Bilge Ceylan)
2. Nunca deixe de lembrar (Florian Henckel von Donnersmarck)
3. Longa jornada noite adentro (Bi Gan)
4. Vingadores – Ultimato (Joe & Anthony Russo)
5. Os mortos não morrem (Jim Jarmusch)
6. Sob o lago prateado (David Robert Mitchell)
7. Vox Lux (Brady Cobert)
8. O hotel às margens do rio (Hong Sang-soo)
9. Domino (Brian De Palma)
10. Vidro (M. Night Shyamalan)

***

11. The Beach bum (Harmony Korine)
12. Toy Story 4 (Josh Cooley)
13. Velvet Buzzsaw (Dan Gilroy)
14. Climax (Gaspar Noé)
15. Alita – Anjo de combate (Robert Rodriguez)
16. Shazam! (David F. Sandberg)
17. Obsessão (Neil Jordan)
18. Shaft (Tim Story)
19. High life (Claire Denis)
20. Fora de série (Olivia Wilde)
21. Cemitério maldito (Kevin Kölsch e Dennis Widmyer)
22. The perfection (Richard Shepard)
23. Espírito jovem (Max Minghella)
24. Paddleton (Alexandre Lehmann)
25. Brightburn (David Yarovesky)

Menções honrosas: Anima (Paul Thomas Anderson), Dumbo (Tim Burton), Uma aventura Lego 2 (Mike Mitchell), Aladdin (Guy Ritchie), X-Men – Fênix Negra (Simon Kinberg), Gloria Bell (Sebastián Lelio), John Wick 3 – Parabellum (David Stahelski), Godzilla II – Rei dos monstros (Michael Dougherty), Tater Tot & Patton (Andrew Kightlider), JT LeRoy (Justin Kelly), Calmaria (Steven Knight), A cinco passos de você (Justin Baldoni), Estrada sem lei (John Lee Hancock), Deixando Neverland (Dan Reed), A morte te dá parabéns 2 (Christopher Landon), High flying Bird (Steven Soderbergh), Hellboy (Neil Marshall), O menino que queria ser rei (Joe Cornish), Casal improvável (Jonathan Levine), Amanda (Mikhaël Hers), Homem-Aranha – De volta ao lar (Jon Watts)

Acompanhe atualização desta lista de melhores filmes de 2019 aqui.

Hellboy (2019)

Por André Dick

Logo depois do díptico Hellboy, dirigido por Guillermo del Toro, com Ron Perlman no papel central, o personagem se tornou um dos grandes destaques das adaptações dos quadrinhos para o cinema. Sem que voltasse para a direção do terceiro, Del Toro implicou também a desistência de Perlman na continuidade à frente do personagem. Coube aos roteiristas escrever uma nova versão, com colagem de várias histórias da criatura configurada por Mike Mognola e se direcionando para uma espécie de reboot. O filme inicia na Idade das Trevas, quando a Rainha Vivian Nimue (Milla Jovovich) espalha uma praga, sendo impedida por Rei Arthur e sua espada Excalibur.
A narrativa se transporta para os dias atuais, quando Hellboy (agora David Harbour, o xerife da série Stranger Things) está à procura, em Tijuana, no México, do agente Esteban Ruiz (Mario de la Rosa), rendendo uma das sequências mais interessantes da história.

Depois de um incidente, Hellboy vai se encontrar com o líder do BPRD Trevor Bruttenholm (Ian McShane), o humano que o adotou. Ele pede que o filho ajude o Clube Osiris na busca por três gigantes. Lá, Hellboy encontra Lady Hatton (Sophie Okonedo), uma espécie de vidente, mas a caminho de uma missão ele se depara com um imprevisto. Ao mesmo tempo, uma estranha criatura em forma de javali tem as ordens de Baba Yaga (Emma Tate, com voz de Troy James) para colher os restos de Nimue, para poder se vingar de Hellboy.
Este acaba sendo resgatado por Alice Monaghan (Sasha Lane), uma médium que ele ajudou quando ela era bebê. Juntos com o agente M11 Ben Daimio, os personagens partem para o enfrentamento com uma possível volta de Nimue, com diálogos ágeis escritos por Andrew Cosby. O mais plausível desta versão é justamente a ligação de Hellboy com Alice, fazendo com que suas ações sejam sugeridas pelo passado estabelecido com os humanos, mesmo em seu surgimento, incluindo também a presença de Lobster Johnson (Thomas Haden Church, quase irreconhecível).

Nos moldes do que acontece com algumas criaturas que aparecem ao longo de sua narrativa, Hellboy foi destroçado pela crítica e já desponta, na opinião de muitos, como pior filme do ano. Talvez isso fosse diferente se Kevin Feige fosse seu produtor: talvez, inclusive, fosse indicado ao Oscar. Certamente a nova versão não tem a condução criativa de Del Toro, com seu tato especial para o trabalho de design de produção, porém a obra não deixa a desejar em termos de direção ou elenco e mesmo na parte técnica. Se Harbour apresenta uma boa atuação central, Sasha Lane (a revelação de Docinho da América) e Ben Daimio (Daniel Dae Kim) fazem uma boa equipe, trazendo certa humanidade que faltava mesmo nos episódios dirigidos por Del Toro. No design dos cenários e nos efeitos visuais, além da fotografia captando bem os interiores de Lorenzo Senatore, o filme apresenta qualidade, demonstrando a experiência do diretor Marshall à frente de episódios de Game of Thrones. As passagens em que se mostra o surgimento de Hellboy é possível ver um diálogo com Os caçadores da arca perdida, ao mesmo tempo que as referências ao Rei Arthur vão ao encontro da versão recente de Guy Ritchie e também há referências a Constantine – mais ao início.

Também há boas cenas de ação. Uma delas, em que Hellboy enfrenta seres ameaçadores, é óbvio o diálogo com Jack, o caçador de gigantes, com uma faceta violenta. Em outro momento, no topo de uma montanha e uma estranha árvore, temos a presença de A lenda do cavaleiro sem cabeça. Enumeram-se essas obras não para mostrar uma diluição, e sim para mostrar com o diretor Neil Marshall trabalha com referências cinematográficas que tornam sua obra também interessante. Aliás, ao contrário das obras de Del Toro, Hellboy de Marshall é mais gore. Del Toro concentrava o horror na viscosidade das criaturas que apresentava, quase que como uma extensão do universo que desenvolvia em O labirinto do Fauno. Tudo isso proporciona um ritmo contínuo e agradável, com uma atmosfera de mistério. Jovovich, apesar de não ser grande atriz, tem uma boa participação como Nimoe, assim como McShane, com pouca participação, convence no papel de pai humano de Hellboy. E Harbour, apesar dos poucos diálogos, confere sua presença no papel central, em boa parceria com Lane e Dae Kim. Ele insere um lado cômico que não estava tão sobressalente com Perlman, assim como uma certa ingenuidade em seu tratamento com os humanos. Algumas gags parecem, inclusive, improvisadas, no entanto soam orgânicas em meio ao contexto despretensioso. Ele ajuda a impedir que a edição apressada do ato final se torne menos estranha, estabelecendo uma ponte entre as histórias desses personagens que o cercam e soando como entre dois filmes, King Kong e Indiana Jones e a última cruzada. Nesse sentido, é interessante perceber como esta versão teria potencial para uma franquia se não tivesse sido, de maneira injusta, tão mal recebida.

Hellboy, EUA, 2019 Diretor: Neil Marshall Elenco: David Harbour, Milla Jovovich, Ian McShane, Sasha Lane, Daniel Dae Kim Thomas Haden Church Roteiro: Andrew Cosby Fotografia: Lorenzo Senatore Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Lawrence Gordon, Lloyd Levin, Mike Richardson, Philip Westgren, Carl Hampe, Matt O’Toole, Les Weldon Yariv Lerner Duração: 121 min. Estúdio: Milennium Media, Lawrence Gordon Productions, Dark Horse Entertainment, Nu Boyana, Campbell Grobman Films Distribuidora: Lionsgate

Homem-Aranha – Longe do lar (2019)

Por André Dick

O personagem da Marvel com mais adaptações neste século sem dúvida é o Homem-Aranha. Desde a trilogia exitosa assinada por Sam Raimi, principalmente seus dois primeiros episódios, com Tobey Maguire no papel central, o super-herói conquistou uma legião maior de fãs, que já compreendia aquela dos quadrinhos. Logo depois da terceira parte assinada por Raimi, ele voltou interpretado por Andrew Garfield. Se as duas composições tinham talento, ainda com as presenças de Kirsten Dunst e Emma Stone, pareceu pouco natural que já em 2017 a Marvel trouxesse o reinício da franquia. Sobretudo porque O espetacular Homem-Aranha 2 havia sido um desastre e talvez um sinal de que o personagem mereceria um tempo de espera. Não foi o que aconteceu e Jon Watts dirigiu a nova versão, desta vez com Tom Holland à frente do elenco. Conhecido por sua atuação anterior em O impossível, Holland trazia a faceta mais juvenil, envolvido com problemas de adolescência, que os demais não destacavam com tanta ênfase.

Homem-Aranha – De volta ao lar foi um dos melhores filmes do universo MCU. Não por acaso, havia expectativa para esta segunda parte. Ela inicia com Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Maria Hill (Cobie Smulders) no México, investigando uma estranha situação e sendo resgatados pelo misterioso Quentin Beck (Jake Gyllenhaal). Logo a narrativa se transporta para Nova York, na qual alunos da Midtown School of Science and Technology se preparam para viajar à  Europa, sob o comando dos professores Dell (JB Smoove) Roger Harrington (Martin Starr).
Ainda sob o impacto de uma reviravolta em sua vida, Peter Parker continua amigo de Ned (Jacob Batalon) enquanto tem a rivalidade de Flash (Tony Revolori). Ele pretende se declarar à colega Michelle “MJ” Jones (Zendaya). No entanto, fica preocupado com um possível interesse de Happy Hogan (Jon Favreau), colaborador de Tony Stark, por sua tia May (Marisa Tomei, mais presente do que no primeiro).
A primeira estadia é em Veneza, na Itália, numa lembrança de Indiana Jones e a última cruzada, onde Parker e seus amigos terão de enfrentar uma nova situação inesperada e ele vem a conhecer Mysterio (Gyleenhaal), a partir do qual vão se suceder novas reviravoltas. De fundo, a tentativa de Parker de conciliar sua vida com uma pretensão amorosa, cortejada por Brad (Remy Hii), ao mesmo tempo que seu amigo Ned passa a namorar Betty Brant (Angourie Rice).

Talvez o principal peso para o filme seja suceder o excelente Vingadores – Ultimato, em que o universo MCU conseguia o equilíbrio adequado entre drama, comédia e ação. O novo Homem-Aranha se sente como um regresso aos episódios anteriores, mais acessíveis e sem uma certa profundidade na composição de suas imagens. Se o primeiro tinha uma aura juvenil bem desenvolvida, com cores trabalhadas e pouco CGI, este segundo já tenta se adequar a uma certa grandiosidade que víamos nos episódios de Capitão América e Thor, embora com um tratamento descompromissado quando trata de Parker e seus amigos. O humor, no início, é orgânico, como no primeiro, desenhando um universo próximo daquele das peças de John Hughes, mas Watts vai tendo de fazer certas escolhas que não acrescentam muito ao tom da história. É um pouco difícil entender a escolha em situar todos numa viagem, senão por uma fraqueza de roteiro. Ou seja, como esses personagens não se encaixariam num cenário europeu, justifica-se a reunião deles numa viagem com Parker, e por vezes lembra até o raso Eurotrip – Passaporte para a confusão. Nesse sentido, os personagens bem-humorados têm à frente Hogan, numa boa atuação de Favreau, e Revolori, com pouco espaço, e ainda assim bem aproveitado.

O filme trabalha bem as diferentes paisagens – temos ainda Holanda e Inglaterra, por exemplo, ainda que fotografadas de maneira não tão expressiva quanto poderia – e orquestra bem suas cenas de ação, porém parece faltar um certo desenvolvimento em personagens basilares, a exemplo da própria Michelle Jones, apesar de Zendaya atuar bem. Também não parece um acerto o esquecimento de figuras vitais da primeira parte, em roteiro assinado apenas por Chris McKenna e Erik Sommers, fazendo certamente falta Jonathan Goldstein e John Francis Daley, que ajudaram a escrever o anterior e dirigiram A noite do jogo. Num conjunto, Homem-Aranha – Longe do lar funciona bem menos do que a primeira empreitada de Watts. Ele se mantém ainda com momentos destacáveis antes não pelo roteiro e sim pela presença carismática de Holland. Gyllenhaal poderia entregar um personagem mais interessante, embora seja acompanhado por uma cortina de efeitos visuais notáveis (principalmente uma perto do ato final, que dialoga, numa escala maior, com Doutor Estranho). Levando-se em conta a dificuldade de dar continuidade a um universo que atingiu seu filme-chave no fechamento de Vingadores – Ultimato, pode ser que esta é a principal explicação. Sem nunca atingir o desenvolvimento conseguido, por exemplo, no segundo exemplar assinado por Raimi, de 2004, a nova obra dedicada ao super-herói invoca uma nova tentativa de revitalização, com esses atores, contudo com outro direcionamento.

Spiderman – Far from home, EUA, 2019 Diretor: Jon Watts Elenco: Tom Holland, Samuel L. Jackson, Zendaya, Cobie Smulders, Jon Favreau, Martin Starr, J. B. Smoove, Jacob Batalon, Martin Starr, Marisa Tomei, Jake Gyllenhaal, Remy Hii, Angourie Rice Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers Fotografia: Matthew J. Lloyd Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Kevin Feige e Amy Pascal Duração: 129 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Melhores filmes de 2014

Por André Dick

A década de 2010 está chegando ao final. Por isso, o Cinematographe irá mostrar sua seleção dos 10 melhores filmes de cada ano. Neste mês, as obras de 2014. Antes, os 15 que formariam um Top 25. Destaca-se que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

25. Êxodo: deuses e reis (Ridley Scott) 24. Transcendence (Wally Pfister) 23. Invencível (Angelina Jolie) 22. RoboCop (José Padilha) 21. Nós somos as melhores! (Lukas Moodysson) 20. Mapas para as estrelas (David Cronenberg) 19. Vida de adulto (Scott Coffey) 18. Cães errantes (Tsai Ming-liang) 17. Jersey Boys – Em busca da música (Clint Eastwood) 16. O ano mais violento (J. C. Chandor) 15. Ninfomaníaca – Vol. I (Lars von Trier) 14. Força maior (Ruben Östlund) 13. O grande hotel Budapeste (Wes Anderson) 12. Homens, mulheres e filhos (Jason Reitman) 11. Palo Alto (Gia Coppola)

Shaft (2019)

Por André Dick

O personagem do detetive particular Shaft teve, além de uma breve série de TV, três filmes, o mais conhecido de 1971 com Richard Roundtree, dirigido por Gordon Parks, e o mais contemporâneo de 2000, estrelado por Samuel L. Jackson e tendo atrás das câmeras John Singleton, falecido lamentavelmente de forma precoce. Este novo filme com o personagem surge como uma espécie de sequência dos outros, mostrando John Shaft II (Samuel L. Jackson), que se separou da Maya Babanikos (Regina Hall), deixando-a com o filho John “JJ” Shaft Jr. (Jessie Usher), depois que um traficante, Pierro “Gordito” Carrera (Isaach de Bankolé), tentou matá-los.
A esposa não aceita o estilo de vida de Shaft e, duas décadas depois, o seu filho trabalha na área de segurança cibernética do MIT do FBI. Determinado dia, seu amigo desde criança, Karim (Avan Jogia), aparece morto por causa de uma overdose de heroína. Isso é motivo para Shaft Jr. começar a perseguir quem pode estar envolvido na morte, o que o leva a um grupo de traficantes.

Namorado de Sasha (Alexandra Shipp), o jovem integrante do FBI recorre a seu pai, que tem um escritório no Harlem, para ajudá-lo a encontrar os responsáveis pela morte do amigo, o que vai levá-lo a uma trama intrincada de suspeitos, incluindo Bennie Rodriguez (Luna Lauren Vélez). No entanto, ele desconfia que seu pai aceita colaborar com ele para, na verdade, encontrar outro criminoso que ele persegue há décadas. É interessante como Tim Story, o diretor do novo Shaft, tenha em seu currículo obras um descartáveis, como o decepcionante Quarteto fantástico de 2005, embora algumas divertidas dentro do que se propõe, como os dois Policial em apuros. Desta vez, ele consegue, de certo modo, se inspirar no estilo de Dois caras legais, que emulava o cinema dos anos 70, inclusive com a trilha sonora típica. Mesmo a química entre Jackson, saindo aqui do universo Marvel, e Usher, é bastante parecida, com trocas de ofensas e desentendimento risíveis.
O filme mais funciona nesse plano do humor do que propriamente em seus elementos de narrativa policial. E, como na obra de Shane Black com Crowe e Gosling, a fotografia de Larry Blanford é muito elegante, proporcionando imagens da cidade de Nova York de maneira rebuscada e dialogando com a excelência da recente série John Wick. As cenas de ação, com isso, acontecem em lugares de rotina, mas embelezadas por um visual detalhado, o que não era característica das obras anteriores de Story, significando um amadurecimento em sua carreira.

Um dos elementos mais adequados à obra é de que ela não se leva a sério. Há um determinado momento que o próprio Jackson faz uma brincadeira com a roupa que veste e com ator de outra série, bastante parecido com ele. Do mesmo modo, as conversas familiares entre os Shaft não têm nenhuma preocupação em ter um senso de responsabilidade, pelo contrário acabam usando uma linguagem imprópria para obras mais comedidas – o que é melhor: parece não ligar nem um pouco para qualquer polêmica que seja despertada O roteiro é assinado por Kenya Barris (Viagem das garotas e Black-ish) e de Alex Barnow (Uma família da pesada), trazendo as características dos seus trabalhos anteriores em outro contexto. As conversas podem ser vistas com certa desconfiança, de tom vulgar, no entanto nunca se sentem ofensivas porque exatamente o elenco não as conduz de maneira imprópria. Nisso, atrizes como Regina Hall, recentemente um destaque em Support the girls, apesar de não terem o melhor roteiro, acabam se destacando pela eficiência com que empregam seus diálogos.

Ainda assim, nesta falta de pretensão evidente, Story consegue introduzir questões familiares e o conflito entre os pais separados do jovem Shaft se situam num espaço difícil de ser percorrido sem cair no lugar-comum. Hall e Jackson formam uma boa dupla, trazendo envolvimento a este laço nunca desfeito com o passado, enquanto o filho tenta se adequar a uma nova maneira de ação. Se o original dos anos 70 continua uma referência para seu gênero e o de 2000 possuía um vilão mais elaborado, graças à atuação de Christian Bale, este novo Shaft, apesar de recebido com descrédito, é um acerto. Não se duvide que, caso tenha um bom número de visualizações na Netflix e uma boa bilheteria nos Estados Unidos, ganhe uma sequência, e seria muito interessante rever esses atores em seus personagens.

Shaft, EUA, 2019 Diretor: Tim Story Elenco: Samuel L. Jackson, Jessie Usher, Regina Hall, Alexandra Shipp, Richard Roundtree,Luna Lauren Vélez Roteiro: Kenya Barris e Alex Barnow Fotografia: Larry Blanford Trilha Sonora: Christopher Lennertz Produção: John Davis Duração: 111 min. Estúdio: New Line Cinema, Davis Entertainment, Khalabo Ink Society, Warner Bros. Pictures Distribuidora: Warner Bros. Pictures (Estados Unidos), Netflix (Internacional)