Vingadores – Ultimato (2019)

Por André Dick

Em Vingadores – Guerra infinita, os  irmãos Joe e Anthony Russo não tinham tempo a perder: empregavam uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as suas consequências. Eles acreditavam oferecer um ar dramático e, apesar dos conflitos físicos, os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU, inclusive os anteriores de Joss Whedon, desapareciam.
Não havia a construção de um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, extraindo qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parecia ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredava por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, os Russo estavam interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo compartilhado da Marvel, uma falha de ignição notável, que sua bilheteria impressionante não conseguiu sobrepujar.

O que poderia acontecer em um ano, para a chegada de Vingadores – Ultimato? Primeiro, parece que os Russo fizeram concessões em Guerra infinita para realizarem este segundo com mais liberdade. Embora haja elementos do produtor Kevin Feige, ele não tem claramente a presença aqui como nos demais desse universo. Com exceção de alguns momentos de ação, da fantasia e do estilo narrativo em determinadas partes, é outro tipo de cinema. Apesar do tom de autoimportância, ele vai, aos poucos, se confirmando como plausível.
Ultimato tem um primeiro terço verdadeiramente dramático, com um cenário de terra arrasada literalmente, desde a primeira sequência com a família de Clint Barton/Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), notável na criação de um espaço de distância de tudo, apesar de elementos cômicos pontuais e cabíveis no contexto.

É o que a Marvel mais conseguiu fazer próximo da sua principal rival na área, mas com um sentido mais pop, embora não menos emocional. É delicado, simples e vai direto ao ponto, com Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Thor (Chris Hemsworth), Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), James Rhodes (Don Cheadle), Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), Rocket (Bradley Cooper) e o Gavião Arqueiro, além de Carol Denvers (Brie Larson) e Nebula (Karen Gillan), querendo arranjar uma solução para conseguirem rever alguns companheiros desaparecidos (para quem não viu Guerra infinita, deixo em suspenso). Também temos Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e o melhor acréscimo: Scott Lang/Homem-Formiga (o sempre efetivo Paul Rudd). Todos querem enfrentar novamente o temível Thanos (Josh Brolin). Não sem antes os irmãos Russo conseguirem reproduzir uma série de sequências cômicas com Thor e Bruce Banner que não têm o absurdo de Thor: Ragnarok, mas resoluções por vezes notáveis (e os efeitos especiais de Banner são ótimos).

Desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, os Russo não conseguiam fazer interação entre personagens como. Se em Guerra infinita os super-heróis apareciam e desapareciam sem criar o devido impacto, em Ultimato eles são devidamente considerados. Não há mais lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros e mesmo durante as batalhas os encontros se dão com uma sensação de vínculo ou proximidade. Se Bruce Banner pouco aparecia no último, aqui ele finalmente ganha um sentido narrativo. O mesmo se diz de Capitão América e Homem de Ferro, em atuações ótimas de Chris Evans e Robert Downey Jr. São personagens que pouco tinham a fazer em termos realmente dramáticos em Guerra infinita. Sobretudo o Capitão América, por ser o personagem mais dirigido pelos Russo, ganha um tom de serenidade empregado por Evans capaz de se contrapor aos episódios iniciais de maneira muito interessante, no entanto, ainda assim, evocando principalmente a obra inicial de sua história, dirigida por Joe Johnston. Ele representa os personagens principais do filme de 2012, cujo arco é fechado nesta peça de maneira muito competente e que recebem o destaque merecido em relação aos que tiveram seus filmes feitos depois.

Ao longo da narrativa, há uma sensação de passagem de tempo, de melancolia, que inexiste em qualquer outro filme da Marvel, pois a companhia, muito por causa de seu produtor, costuma padronizar algumas tramas. Os Russo estão mais interessados em sensações que não têm obrigatoriamente vínculo com uma franquia ou com ultrapassar bilheterias: eles conseguem desenhar um arco amplo sobre o universo compartilhado sem caírem na previsibilidade, inclusive com momentos-chave envolvendo personagens até mortos, criando uma redoma de tempo que não pode mais ser recuperado. Nesse sentido, elogiar Ultimato pelos pressupostos com os quais eram tecidos os comentários sobre Guerra infinita é estranho: ambos são quase totalmente diferentes. Mesmo visualmente, o quarto episódio com todos os heróis da Marvel é mais discreto, sem tanto CGI, focado em paisagens terrestres isoladas, ou casas campestres, criando uma ilusão de mundo distanciado. Os movimentos de câmera são mais dosados, não há uma necessidade de soar frenético e cada comportamento dos personagens parece ter uma explicação dentro da trama, fazendo com que a duração de 3 horas seja fluida, sem interrupções ou desvios tortuosos.

Vingadores – Ultimato tem referências a muitas obras sobre passagem do tempo, de forma mais destacada à trilogia referencial De volta para o futuro, porém apresenta ainda mais um diálogo implícito, ao final, com uma obra-prima de Stanley Kubrick sem diluir numa ideia de universo compartilhado, contudo conseguindo expandi-lo dentro do mundo do cinema. Nessa atemporalidade, vemos até Barton e Natasha em cenários que remetem a Encontros e desencontros, filme responsável por elevar a trajetória de Johansson no início deste século. São os últimos 10 minutos que asseguram o quanto, por mais que seja produto de um universo pop levado à exaustão, é possível fazer um grande cinema blockbuster sem esquecer o atrativo da história à margem de todos os personagens, lembrando a simples humanidade. Os irmãos Russo homenageiam a introdução heroica de Whedon a esses personagens, no entanto acrescentam um tom emocional incontornável e realmente infinito.

Avengers – Endgame, EUA, 2019 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle, Paul Rudd, Brie Larson, Karen Gillan, Danai Gurira, Bradley Cooper, Josh Brolin Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 181 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

A árvore dos frutos selvagens (2019)

Por André Dick

Lançado no Festival de Cannes do ano passado, A árvore dos frutos selvagens é mais um grande filme (em todos os sentidos, com seus 188 minutos) de Nuri Bilge Ceylan. Se em 2014 ele recebeu a Palma de Ouro com Winter sleep, e já havia se mostrado um diretor e roteirista de talento único em outros projetos, como Distante, Climas e Era uma vez na Anatólia, Ceylan busca aqui reproduzir uma espécie de visão da juventude do mesmo tipo de universo já revelado em sua obra anterior.
Trata de um autor muito jovem, Sinan (Aydın Doğu Demirko), que, depois da faculdade em literatura inglesa, volta à sua casa em Çanakkale, na área costeira, para morar com seus pais, um professor, Idris (Murat Cemcir), adepto de apostas, e uma dona de casa, Asuman (Bennu Yıldırımlar), assim como com sua irmã Yasemin (Asena Keskinci). Ele possui um livro, o qual pretende publicar e para isso busca ajuda financeira de algumas figuras de sua cidade, ao mesmo tempo que presta exames para trabalhar como professor.

No entanto, Ceylan parece mostrar aqui o desencanto do mundo moderno pela literatura, e como ele se demonstra no olhar desgastado de Sinan perante a humanidade. Há encontros dele com o prefeito Adnan Yilmaz (Kadir Çermik), que exige um vínculo do livro que escreveu com a história da cidade, e um pequeno industrial, Ilhami (Kubilay Tunçer), com orgulho de não ter diploma universitário e interessado em promover um embate de ideias. Em outro plano, o jovem escritor discute sobre religiosidade e o Alcorão com dois amigos, Veysel (Aksu) e Nazmi (Öner Erkan), numa caminhada rotineira do campo até um café na periferia da cidade, em meio ao nascer do sol. A figura do homem é preponderante nessa sociedade e os caminhos levam sempre o personagem a confrontar o fato de que, para ser aceito, ele precisa pensar em se adaptar ao universo turístico do qual sua localidade sobrevive.
O senso de localização, de amplitude espacial, é uma característica essencial na obra de Ceylan: quando o espectador assiste a seus filmes, conhece também o que circula em torno do personagem central, assim como os lugares frequentados por ele. É como se fosse uma viagem introspectiva. Podemos visitar tanto a casa de Sinan quanto a livraria onde vai tentar vender seu livro, em meio a um design de produção imersivo de Meral Aktan. E, do mesmo modo que as histórias, a imagem do poço faz lembrar que existe algo há ser mais escavado profundamente e muitas vezes resiste à vontade própria. Há muito de Tarkovsky aqui, especialmente de O sacrifício, contudo com nuances mais próximas do espectador.

Para isso, Ceylan, especialista em filmar cenas com longos diálogos (e saborosos, na maioria das vezes, escritos aqui com sua esposa Ebru Ceylan e Akın Aksu), mostra Sinan, por exemplo, se encontrando com um respeitado autor de sua cidade, Suleyman (Serkan Keskin), numa livraria. Como jovem escritor, ele deseja saber de coisas que o antigo não gostaria de contar – e, enquanto este fala, observa se a chuva vai passar do lado de fora, quando a discussão se torna um pouco kafkiana, como o retrato ao fundo demonstra. Tudo vai acabar na mitologia do Cavalo de Troia, pois em Çanakkale teria abrigado a Troia antiga. Não por acaso, aliás, a mitologia é colocada por vezes em primeiro plano: trata-se, na verdade, do peso da história e da filosofia nos dias atuais. Como é possível a cultura se inserir em meio aos assuntos do dia a dia? Para o diretor, é muito claro: ela precisa, deve, coexistir com a própria insegurança do indivíduo, nunca apresentando nenhuma espécie de certeza ou tentando servir como guia da sociedade.
Ceylan usa determinadas táticas para mostrar que Sinan imagina algumas situações, empreendendo como uma cena-chave. Isso faz o espectador pensar sobre a existência ou não de determinadas passagens, como quando Sinan encontra uma ex-colega de classe, Sinan Hatice (Hazar Ergüçlü), trabalhando no campo, numa sequência em que a belíssima fotografia de Gökhan Tiryaki se mostra ainda mais vital, e a sua imaginação parece se converter numa semirrealidade. Nesses fragmentos, há, como sempre, um embate implícito entre a alta cultura, a erudição, com a prática do dia a dia, do cotidiano. Um elemento não vive sem o outro, no entanto a convivência não é pacífica. O escritor de A árvore dos frutos selvagens não está disposto a entregar seus valores em troca de financiamento. Apesar dos temas, porém, a narrativa nunca desliza para uma metalinguagem forçada, destinada à autossatisfação de seu próprio autor; ela é conduzida de maneira discreta, subentende saídas e nunca as entrega de modo pleno.

Interessante como Ceylan posiciona seu personagem contra a sociedade em torno e parece não permitir acesso às suas ideias, ou simplesmente não possui interesse por elas. Sinan é claramente sem empatia, decepcionado com sua situação, mas é exatamente aí que Ceylan o torna diferenciado: pelo tom agridoce, delimitado pelo contato constante com a natureza e as estações. Sua aproximação do pai se dá por meio do conceito de que cada geração se dá por um sinal de mudança, simbolizada pela visita ao colégio. Há um diálogo extremamente humano, emocional, no qual vemos os personagens se revelarem à margem de um passado ainda capaz de visitá-los, no entanto sem deter a continuidade.
Claramente autobiográfico em determinados momentos, A árvore dos frutos selvagens foi o pré-candidato da Turquia ao Oscar de filme estrangeiro (mesmo sendo distribuído internacionalmente apenas este ano), novamente sem chegar aos finalistas. Que ele não tenha sido indicado aos prêmios merecidos só mostra que, como Sinan precisa aprender durante a narrativa, é preciso continuar. Como as pêras selvagens do título original, o filme de Ceylan, o melhor até agora deste ano, é diferenciado em todos os sentidos e o final, especialmente, o designa como obra-prima. É a síntese de um grande cineasta.

Ahlat Ağacı/The wild pear tree, Turquia, 2019 Diretor: Nuri Bilge Ceylan Elenco: Aydin Doğu Demirkol, Murat Cemcir, Bennu Yıldırımlar, Hazar Ergüçlü, Serkan Keskin, Kadir Çermik, Kubilay Tunçer, Aksu, Öner Erkan, Asena Keskinci Roteiro: Nuri Bilge Ceylan, Ebru Ceylan, Akın Aksu Fotografia: Gökhan Tiryaki Produção: Zeynep Özbatur Atakan Duração: 188 min. Distribuidora: Memento Films Production

Rocky – Um lutador (1976)

Por André Dick

O primeiro filme da série Rocky, de 1976, teve uma trajetória tipicamente de ascensão de um astro, também responsável pelo roteiro. Sylvester Stallone até então havia tido pouca presença no cinema. Foi mais do que uma simples ascensão. Stallone conduziu Rocky – Um lutador ao Oscar e, mais do que ao prêmio, à vitória, nas categorias de filme e diretor, superando Todos os homens do presidente e Rede de intrigas, sobre os bastidores da política e do jornalismo.
Se o segundo veio na esteira, tendo praticamente o mesmo estilo que encontraremos em Rocky Balboa, não se pode esquecer que se trata de uma das melhores peças de boxe já feitas e, a despeito de ser parte de uma franquia, um dos que têm menos aspecto de blockbuster, para faturar milhões – mesmo porque, na época de seu lançamento, ainda não havia esse conceito firmado.

Este elemento havia em Rocky III e Rocky IV, feitos sob o influxo da estética do video clipe dos anos 80, com belas canções, montagem acelerada, mas com o intuito basicamente de se divertir, sem compromissos.
Rocky – Um lutador é uma espécie de precursor para Touro indomável, de Scorsese, mostrando um lutador chamado Rocky Balboa, morador do bairro de Kensington, na Filadélfia, apaixonado por Adrian Pennino (Talia Shire), que trabalha numa loja de animais e é irmã de seu amigo Paulie (Burt Young). Ele se envolve em lutas amadoras, no entanto trabalha mais cobrando contas para um agiota, Anthony Gazzo (Joe Spinell). Certo dia, o grande campeão mundial Apollo Creed (Carl Weathers) resolve dar oportunidade a um lutador comum, e ele é o escolhido – representando a oportunidade do “sonho americano” –, sendo convidado pelo promotor Miles Jergens (Thayer David). Para que possa enfrentá-lo, ele pede a ajuda do dono de uma academia de boxe, Mickey (Burgess Meredith), seu amigo. É esta amizade a fonte para toda a série no requisito familiar, de aproximação entre personalidades diferentes e que se complementam para partir rumo a uma vitória imprevista por todos.

Se Creed (que se torna seu amigo no terceiro da série) é uma espécie de boxeador com o olho nas finanças, a vida de Rocky é mais soturna e densa. Pode-se imaginar aqui o que se tornaria em Rocky Balboa, já como dono de um restaurante, afastado do mundo do boxe, quando vive bem, andando pela Fidadélfia e sendo reconhecido apenas por fãs antigos.
Os elementos dos outros Rocky estão já neste primeiro, principalmente o humor do boxeador, assim como se assinala o romantismo em relação à mulher e à projeção de constituir uma família. É uma pena que Stallone não tenha se dedicado mais em sua trajetória a filmes como este, ou, mais recentemente, Creed, com um roteiro que encobre suas limitações como ator. Não temos em nenhum momento o caminho mais comercial, como na sequência de “The eye of Tiger”, de Rocky III, porém sim uma Filadélfia acinzentada, com ruas vazias e bares cheios, no entanto prontos para alguma confusão. O diretor John G. Avildsen, com o mesmo talento que mostraria em Karatê Kid e Meu mestre, minha vida, sabe desenhar, mesmo assim, uma atmosfera acolhedora. O primeiro encontro entre Rocky e Adrian que termina num ringue de patinação é um exemplo dessa conciliação entre um romance implícito e uma vontade de desenhar um personagem capaz de criar empatia imediata com o público, por uma certa simplicidade e ingenuidade diante das coisas da vida.

Contudo, o lutador pode trazer essa vida de volta – e ele traz, mas sem a alegria desenfreada da montagem fragmentada e sim sob o aspecto da fotografia e do design de produção casados de maneira efetiva numa Filadélfia introspectiva. Rocky – Um lutador sabe captar, como poucos filmes de boxe, a solidão do lutador, a expectativa para o combate, os dilemas na família, o confronto aberto com o adversário e a pressão da imprensa para criar um espetáculo com o objetivo de tornar homens em mitos. A maneira como Avildsen mostra o treinamento de Rocky com Mickey é justificadamente exitoso em sua maneira de conduzir o espectador ao ápice de uma narrativa bastante simples e francamente honesta em cada uma de suas exposições e discursos, graças não apenas à atuação de Stallone, como também do grande Meredith. O círculo familiar, composto por Adrian e Paulie, e o círculo esportivo, tendo à frente Mickey, tornam o personagem extremamente empático. O flerte inicial ele com Adrian, principalmente conversando sobre pássaros numa gaiola, falam muito de cada um e de suas pretensões para o que vem a seguir. Num ritmo entre o calmo, o melancólico e o otimista e ágil, principalmente na luta final (que certamente fez o filme ganhar o Oscar de melhor edição), Rocky – Um lutador permanece como uma das grandes obras, talvez um tanto subestimada, dos anos 1970. Do mesmo modo, a trilha sonora colabora para um clima de triunfo esportivo: é a obra-prima da trajetória de Bill Conti. Ela torna a corrida de Rocky pela escadaria, num ponto-chave da narrativa, em um sentimento nostálgico e comovente, capaz de preparar o personagem para seu grande embate.

Rocky, EUA, 1976 Diretor: John G. Avildsen Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Joe Spinell Roteiro: Sylvester Stallone Fotografia: James Crabe Trilha Sonora: Bill Conti Produção: Irwin Winkler, Robert Chartoff Duração: 119 min. Distribuidora: United Artists

 

All That Jazz – O show deve continuar (1979)

Por André Dick

O diretor Bob Fosse fez o musical Cabaret, apontado com um dos maiores da história, no início dos anos 1970, destacando uma jovem Liza Minnelli e uma produção requintada. No entanto, foi no final dessa década que ele lançou All That Jazz – O show deve continuar, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1980, ao lado de Kagemusha, de Akira Kurosawa, e indicado a vários Oscars, inclusive o de melhor filme.
A narrativa acompanha Joe Gideon (Roy Scheider), diretor de teatro e coreógrafo que se divide entre um novo musical da Broadway e um filme que ele aceitou dirigir, sobre um comediante (Cliff Gorman). Trata-se de uma referência à própria obra de Fosse: quando tentava editar Lenny (com Dustin Hoffman), ele dirigia na Broadway o espetáculo Chicago (cuja adaptação para o cinema ganharia o Oscar em 2003 e faz referências a All That Jazz, principalmente no letreiro inicial que forma seu título). De manhã cedo, Gideon já está fumando e tomando seus remédios em peso, assim como tenta conciliar com tudo seu grande vício, o sexo. Seu programa é o seguinte: gotas para os olhos, dexedrina, Alka-Seltzer, chuveiro, o “Concerto Alla Rustica Concerto in G Major”, de Vivaldi, e a frase dita em frente ao espelho com as palmas das mãos abertas e cigarro quase caindo no canto da boca: “Showtime, folks!” (é interessante como essa sequência influenciou Aronofsky em seu Réquiem para um sonho).

Essa rotina de Gideon incorpora nas próprias coreografias que ele vai criando com os integrantes de seu espetáculo, e os gritos de exigências mesclam a sexualidade que insiste em permanecer sempre ao lado dele durante todo a história. Ao seu redor, ele mantém sua namorada Katie Jagger (Ann Reinking), sua ex-mulher Audrey Paris (Leland Palmer) e a filha Michelle (Erzsébet Földi) que tentam controlá-lo, sem efetividade. Ao mesmo tempo, ele fica imaginando um determinado anjo da morte (Jessica Lange). Se há um filme que possa ter antecipado o jogo entre arte e espetáculo visto no recente Birdman é este.
Abalado por problemas de saúde, os produtores querem substituí-lo, não sem antes Gideon transformar sua situação numa espécie de espetáculo pessoal. Para isso, Bob Fosse enquadra imagens que misturam tanto o imaginário de Gideon quanto sua atuação situação de saúde. All That Jazz é exemplo de um musical que se constrói principalmente pela atuação espetacular de Scheider. Quando se vê sua atuação como o xerife Brody, de Tubarão, ou como policial em Operação França, é difícil imaginá-lo num papel como esse.

Não que naquele não mostrasse talento, mas Gideon tem todos os elementos de uma figura que não condiz a princípio com a imagem mais séria e imperturbável de Scheider. Mais eis um ator que se enquadra como nunca num papel, tendo competido com Al Pacino (Justiça para todos) e Dustin Hoffmann (Kramer vs. Kramer) no Oscar, todos eles com excepcionais atuações. O que mais chama atenção, além da atuação magnética de Scheider, é a fotografia magistral de Giuseppe Rotunno, habitual colaborador de Federico Fellini, iluminando os cenários como se de fato constituíssem um show vivo da Broadway. É um dos trabalhos de fotografia mais belos da história do cinema, principalmente o ensaio de abertura, com em torno de cinco minutos, que captura a atmosfera que Fosse deseja para a sua história, no entanto sem esquecer aquele instante em que Gideon ensaia a peça num lugar mais apertado, para os produtores darem seu parecer.
Segundo Stanley Kubrick, este era o maior filme que ele já havia visto, e, sem querer sobrevalorizá-lo, é notável como All That Jazz sobrevive a seu tempo, com uma edição notável, intercalando cenas e sensações de todos os tipos. Por ser um personagem muito ativo e cheio de vida, contudo problemático, Gideon representa a divisão (e o complemento) entre o artístico e a vida mais arriscada. Bob Fosse, ao se autoprojetar no personagem, traz complexidade a ele, não de maneira indulgente e sim humana. Gideon representa não apenas seu show: ele representa também as pessoas que veem esse espetáculo.

Fosse administra tudo como se fosse uma espécie de holofote majestoso sobre a própria vida, e quando Gideon foge pelos corredores do hospital ou simplesmente não se importa com as regras do lugar ele leva junto sua noção de arte incontida pelo próprio corpo. Por isso, All That Jazz, mais do que uma obra sobre um artista, é sobre a arte que se inscreve num indivíduo e se dissemina de todas as formas também nas pessoas que o cercam. Uma reunião em que ele parece desligado ao invés de todos representa o momento em que apenas ele está verdadeiramente concentrado no que deve ser feito, apesar de tudo indicar o contrário. Ou aquele momento em que ele está tentando escolher o elenco e acaba saindo do teatro em busca de uma vida pessoal, mas dá a impressão de ser bloqueado inconscientemente pela porta. De certo modo, ele não consegue lidar com a realidade, apenas com os sonhos que vai projetando, um a um, em suas coreografias inesquecíveis.

All That Jazz, EUA, 1979 Diretor: Bob Fosse Elenco: Roy Scheider, Jessica Lange, Ann Reinking, Leland Palmer, Ben Vereen, Cliff Gorman, Erzsebet Fold, Michael Tolan, John Lithgow Roteiro: Bob Fosse, Robert Alan Aurthur Fotografia: Giuseppe Rotunno Trilha Sonora: Ralph Burns Produção: Robert Alan Aurthur Duração: 123 min. Estúdio: 20th Century Fox e Columbia Pictures Corporation

 

Shazam! (2019)

Por André Dick

Dos mais recentes projetos de super-heróis, talvez o mais improvável seja Shazam! Depois de ter seu roteiro circulando por vários anos, certamente o sucesso de Deadpool abriu espaço para mais um personagem do gênero com tom cômico. Além disso, a Warner/DC vem, desde Mulher-Maravilha, adequando seus filmes mais ao público juvenil, embora não se deva subestimar a presença do idealizador do universo expandido da companhia no cinema de Zack Snyder. Assim como o filme de Jenkins, tanto a versão em conjunto com Joss Whedon de Liga da Justiça e Aquaman possuem vários pontos de contato com o estilo de Snyder, ao contrário do que repete quase em uníssono a crítica, como se a visão dele fosse intrusa. Aquaman, apesar das escolhas de James Wan, e o novo Shazam!, com seu apelo infantil, são parte de uma mesma visão.

Dirigido por David F. Sandberg, que realizou dois sucessos de bilheteria, Quando as luzes se apagam e Annabelle – A criação do mal, Shazam! tem elementos que recorrem ao clima oitentista e à história de Quero ser grande, com Tom Hanks, assim como várias cenas assustadoras e elementos tão soturnos (ou ainda mais) que qualquer momento de Batman vs Superman, embora por trás haja uma validação familiar mais propensa ao público juvenil e um clima natalino aparentemente inofensivo, rendendo até uma brincadeira com a figura do Papai Noel.
Ele tem como vilão Thaddeus Silvana (Ethan Pugiotto), que em 1974 foi levado para a Rock of Eternity, onde conhece Shazam (Djimon Hounsou), e se encontram estátuas que remetem aos sete pecados capitais, a fim de que possa ser testado, em momentos que remetem a O cristal encantado. No entanto, ele falha. Anos depois, na Filadélfia, Billy Batson (Asher Angel) é preso na busca por seu pai, aos 14 anos. Ele é adotado pela família Vasquez, Victor (Cooper Andrews) e Rosa (Marta Milans), e vai morar numa casa em que divide o quarto com Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), um admirador dos super-heróis da DC. Nela, também moram Mary Bromofield (Grace Fulton), Eugene Choi (Ian Chen), Pedro Peña (Jovan Armand) e Darla Dudley (Faithe Herman).

Num determinado momento, ele conhece o mesmo Shazam que havia dado uma oportunidade a Silvana, que cresceu e se transformou numa ameaça da área científica (Mark Strong, prosseguindo com vigor seu papel de vilão em John Carter) – e é escolhido como seu oponente, depois de uma cena fantástica num metrô e de ajudar seu amigo Billy na escola. Como em Quero ser grande, é Billy que passa a ajudá-lo a encarar o fato de que, quando ele diz a palavra Shazam, ele se torna um super-herói de mais idade (Zachary Levi). De modo geral, é possível entender que o universo compartilhado da DC se movimenta mais por temas, como deveria ser, e não por referências a personagens que soam intrusivos em tramas diferentes, como a própria ausência da família original que vemos também em outros super-heróis da companhia, a exemplo de Superman, Batman e Aquaman. Mas cada um funciona num plano: a questão é que os filmes de Snyder para Batman e Superman lidam com figuras deslocadas de uma maneira dramática, o que não necessariamente funciona para os demais. De qualquer maneira, sua paleta soturna se repete em todos os filmes, em alguns mais e em outros menos, e Shazam! praticamente a utiliza de ponta a ponta, com exceção para poucas sequências (como a mais engraçada, envolvendo um ônibus).
É Levi certamente o primeiro motivo para Shazam! funcionar tão bem. Com um timing preciso de humor, ele, por meio de um roteiro ágil de Henry Gayden, não segue o curso de Ryan Reynolds, mas se mantém num plano mais ingênuo, de descoberta sobre super-poderes e com uma despretensão que remete aos melhores momentos de Superman, nos anos 70, embora mais leve. A cena que se passa numa loja de brinquedos utiliza uma comicidade certamente mais orgânica do que até mesmo o primeiro Homem-Formiga, uma referência do gênero na dissolução entre ação e comédia. E ele faz lembrar o quanto é lamentável achar que o gênero de super-herói deve funcionar com ação entreameada por elementos cômicos: ao usar muita sátira, principalmente com a série Rocky, quando o que é engraçado é justamente um campo de ingenuidade. Isso com a colaboração essencial de Jack Dylan Grazer, como um adolescente fisicamente debilitado, porém com vontade de ajudar o amigo a entender seus novos poderes.

No entanto, não se deve subestimar a direção de Sandberg, que tem muita noção de elementos da história do cinema. Quando as luzes se apagam, por exemplo, tem muito dos filmes de Dario Argento, na utilização de cores, e o segundo e subestimado Annabelle remete aos exemplares da série Psicose dos anos 80, com uma cadeia de sustos impressionante e precisa, apesar de utilizar diversos lugares-comuns. Ambas as peças de Sandberg podem se sentir igualmente como episódios estendidos da série Além da imaginação ou uma peça de Creepshow dos anos 80 – de forma competente, não como no recente Nós –, mas se sustentam mais no seu diálogo visual e na temática de relacionamento familiar. Sandberg tem realmente noção de estética, não dependendo de produtores para colocá-la em prática, utilizando pouco CGI e ótimos efeitos visuais. Shazam! é um dos filmes mais bem resolvidos no campo, parecendo uma espécie de parque de diversões noturno, e suas influências no terceiro ato vão da série Harry Potter a Matrix revolutions. O uniforme do super-herói poderia ser kitsch, no entanto ele funciona de forma exata em meio a esse clima de mansão mal-assombrada ou trem fantasma em que se convertem alguns momentos com uma violência inesperada, remetendo principalmente ao curta-metragem de Sandberg que deu origem a Quando as luzes se apagam. Há uma série de gags que também se direcionam mais ao público adulto, nunca menosprezando também o público mais novo, além de ser uma surpresa de Sandberg o talento para cenas de ação bem encadeadas, visto que não é seu gênero de surgimento.

Shazam!, EUA, 2019 Diretor: David F. Sandberg Elenco: Zachary Levi, Mark Strong, Asher Angel, Jack Dylan Grazer, Djimon Hounsou, Cooper Andrews, Marta Milans, Grace Fulton, Ian Chen, Jovan Armand, Faithe Herman, Ethan Pugiotto Roteiro: Henry Gayden Fotografia: Maxime Alexandre Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Peter Safran Duração: 132 min. Estúdio: New Line Cinema, DC Films, The Safran Company, Seven Bucks Productions, Mad Ghost Productions Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Melhores filmes de 2011

Por André Dick

A década de 2010 está chegando ao final. Por isso, o Cinematographe irá mostrar sua seleção dos 10 melhores filmes de cada ano. Neste mês, as obras de 2011. Antes, os 15 que formariam um Top 25. Destaca-se que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

25. Virgínia (Francis Ford Coppola) 24. As aventuras de Tintim (Steven Spielberg) 23. Planeta solitário (Julia Loktev) 22. Jovens adultos (Jason Reitman) 21. Polissia (Maïwenn) 20. 50% (Jonathan Levine) 19. Tomboy (Céline Sciamma) 18. Margaret (Kenneth Lonergan) 17. Missão madrinha de casamento (Paul Feig) 16. A pele que habito (Pedro Almodóvar) 15. Amor a toda prova (Glenn Ficarra, John Requa) 14. Melancolia (Lars von Trier) 13. Meia-noite em Paris (Woody Allen) 12. Millennium – O homem que não amava as mulheres (David Fincher) 11. A invenção de Hugo Cabret (Martin Scorsese)