Midsommar – O mal não espera a noite (2019)

Por André Dick

No ano passado, tivemos uma estreia marcante do diretor Ari Aster à frente do filme de terror Hereditário. Com um padrão autoral e um modo de filmar com características singulares, fazendo de maquetes a própria estrutura da casa mostrada na história, Aster agora regressa com seu segundo projeto, Midsomar – O mal não espera a noite, distribuído pela mesma A24, de filmes independentes.
A jovem Dani Ardor (Florence Pugh) recebe uma notícia perturbadora relacionada à irmã e aos seus pais e pede a ajuda de seu namorado, Christian Hughes (Jack Reynor), estudante de antropologia. Este, no entanto, com o apoio de seus amigos Josh (William Jackson Harper), Mark (Will Poulter) e Pelle (Vilhelm Blomgren), parece querer distância dela. Segundo os amigos, ela é psicologicamente instável. O amigo sueco, Pelle, convida a todos para ir à sua comunidade de origem na Suécia, durante o solstício de verão. É um lugar adequado para Christian fazer uma pesquisa para seu trabalho acadêmico.

O mais interessante é como Aster mostra, antes da chegada, o carro levando os amigos e a câmera se inverte na estrada: é a entrada num universo à parte. É o que parece a princípio. Com o uso de um psicotrópico, Dani tem a sensação primeiro de uma vegetação crescer em seu pé e depois de que pessoas da comunidade, os Hårga, estarem rindo dela, até se trancar numa cabana e daí sair correndo floresta afora. Aster corta a sequência e já mostra o grupo chegando ao núcleo de habitações da comunidade. A partir daí, será tudo realidade ou a imaginação da personagem central?
Esta comunidade afastada é filmada por Aster com toques de um surrealismo remetendo à parte da filmografia de Alejandro Jodorowsky, principalmente A montanha sagrada (há realmente um urso trancado numa jaula?). Todos na comunidade vestem branco (com bordados floridos) e as mulheres, guirlandas, e brincam pelo espaço, dançam ou ficam estendidos em gramados, numa espécie de paraíso afastado da barbárie. Mas também participam de cerimônias estranhas, não raramente sob efeito de alguma bebida feita com poções indefinidas – e estão interessados mesmo em observar algum tipo de sacrifício que possa justificar sua existência. Lá o grupo de norte-americanos também conhece um casal, Connie (Ellora Torchia) e Simon (Archie Madekwe), levado pelo irmão de Pelle, Ingemar (Hampus Hallberg).

Como em Hereditário, Aster não está muito preocupado em esclarecer para o espectador se o que está assistindo é real ou fruto de uma alucinação – aqui literalmente. Essa comunidade tem galpões com histórias contadas por meio de desenhos, assim como tapeçarias adiantando pontos da trama e um senso de humor peculiar – em determinado momento, uma integrante da comunidade pergunta ao grupo se deseja assistir a Austin Powers. Aster, obviamente, não está interessado em provocar sustos ou simplesmente amedrontar. Por meio de um design de produção fabuloso de Henrik Svensson e efeitos sonoros que lembram as obras de David Lynch, ele faz uma espécie de análise sobre a culpa da personagem principal em relação à família e à comunidade como sua possível substituta.
Como os amigos de Christian não gostam dela, com exceção de Pelle (ironicamente, o nome do personagem da peça de Bille August vencedor do Oscar de filme estrangeiro pela Suécia em 1989), que sofreu um abalo na vida parecida com o dela, Dani se sente sempre deslocada – e esse deslocamento a faz pensar que nenhum deles pode substituir sua vontade de estar estruturada por uma ideia de união familiar e a busca do indivíduo é pelo entendimento alheio de sua dor, mesmo que a “ajuda” possa vir de lugares terrivelmente estranhos e de comportamentos indefiníveis. Para isso, Pugh consegue superar sua ótima atuação de Lady Macbeth e se mostra uma das melhores atrizes da nova geração, com um misto de insegurança, desconfiança e aversão ao que acontece a seu redor, principalmente nas atitudes do namorado. Aster utiliza as imagens mais como metáforas de uma trama do que propriamente para contar uma narrativa. As roupas floridas das mulheres da comunidade, assim como a carruagem que leva Dani, enfeitada por flores, são complementares.

Os diálogos quase não importam e as ações dos personagens são quase sempre previsíveis: o filme contado por Aster, como em Hereditário, não está nos diálogos e sim nas imagens. E é nelas que, como em sua estreia, Midsommar adquire um impacto imprevisto. Pode haver em alguns momentos o predomínio da estética sobre o conteúdo, mas é uma estética elaborada em minúcias. Iniciando numa paisagem invernal e soturna, a obra se transfere para o dia tão iluminado que parece brilhar, no entanto ele não parece ser o mais propício para os rumos da narrativa. A própria maneira como o diretor colhe pontos de O homem de palha, por exemplo, é justificada pelo contexto, sem nunca, no entanto, parecer uma diluição. O seu desinteresse em mostrar os integrantes da comunidade é justamente para causar um impacto nos momentos necessários. A claridade da fotografia de Pawel Pogorzelski, o mesmo de Hereditário, se justifica em todos os seus pontos e ajuda a contar a história de maneira decisiva. E é por meio dela que Midsommar adquire outro estágio no ato final, quando os personagens vão se dispersando para, na verdade, concentrar o relato num só olhar. É uma sucessão de sequências raramente permitidas em Hollywood e que fazem o gênero de terror adentrar no campo indefinido da arte mais subjetiva possível.

Midsommar, EUA, 2019 Diretor: Ari Aster Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, William Jackson Harper, Vilhelm Blomgren, Will Poulter Roteiro: Ari Aster Fotografia: Pawel Pogorzelski Trilha Sonora: Bobby Krlic Produção: Lars Knudsen e Patrik Andersson Duração: 147 min. Estúdio: Square Peg, B-Reel Films Distribuidora: A24 (Estados Unidos) e Nordisk Film (Suécia)

Ad Astra – Rumo às estrelas (2019)

Por André Dick

O gênero de ficção científica vem ganhando cada vez mais destaque em Hollywood, principalmente nesta década, quando os efeitos especiais se aprimoraram em grande intensidade, não apenas por causa de franquias rentosas, mas também em razão de filmes mais baseados em conceitos. Nesse sentido, Ad Astra – Rumo às estrelas é uma peça típica dessa fase estabelecida de viagens espaciais.
Brad Pitt, em outro grande momento seu este ano, depois de Era uma vez em… Hollywood, interpreta o major Roy McBride, que é convocado para uma missão no espaço: chegar a Netuno, onde estaria seu pai, Clifford (Tommy Lee Jones), dado como morto desde a sua adolescência, depois de participar do Projeto Lima, no qual se pretendia identificar a existência de vida fora da Terra e que pode estar causando danos ao planeta. A primeira etapa é chegar à lua, ao lado do coronel Thomas Pruitt (Donald Sutherland), amigo de seu pai, na base SpaceCom. O território lunar abriga complexos lembrando um shopping center.

Ali, Roy embarca no foguete Cepheus, com destino a Marte. Há um aviso vindo de uma estação espacial norueguesa, onde ele vai se deparar com babuínos sendo testados cientificamente. Na SpaceCom de Marte, o astronauta conhece Helen Lantos (Ruth Negga), e é colocado para gravar mensagens endereçadas ao Projeto Lima, da qual seu pai faz ou fazia parte. Dali ele parte para Netuno, a fim de que possa esclarecer as dúvidas de sua existência.
O personagem de Roy é um solitário, recém-separado de Eve (Liv Tyler) – e o nome dela obviamente é uma referência bíblica – e que não sabe ao certo o destino de seu pai. O espaço se constitui para ele como um grande lugar para solidão se manifestar. James Gray, naturalmente, tem grande proximidade desse tema depois, principalmente, do belíssimo Amantes, mas também do falho, embora tecnicamente perfeito, Era uma vez em Nova York e do ótimo Z – A cidade perdida, aqui com a solidão da selva. Pitt entrega um desempenho tão contido e emocional que se fica perguntando onde estariam os papéis de sua trajetória capazes de extrair tanto sentimento (em alguns momentos lembra muito o de A árvore da vida). Seu personagem tem elementos do Leonard Kraditor, feito por Joaquin Phoenix em Amantes, na sua insegurança diante das decisões a serem tomadas na vida amorosa.

Na maior parte do tempo, Ad Astra parece uma compilação de referências a 2001 – Uma odisseia no espaço e sua passagem pela lua é uma das mais interessantes já feitas no cinema, ao lado justamente da obra de Kubrick e de O primeiro homem, do ano passado, recordando, numa cena de ação, até mesmo o mais recente Mad Max, com uma profusão sonora de grande qualidade e impacto notável. Ao mesmo tempo, ele recorda muito Interestelar, inclusive pelo diretor de fotografia ser o mesmo Hoyte van Hoytema, e em alguns momentos Gravidade, duas referências do gênero de ficção científica dos últimos anos.
Gray focaliza a solidão humana como ponto de partida para a substituição das figuras paterna e materna finalmente pela mulher amada – e o trajeto que o astronauta faz é um mergulho em si mesmo. Metaforicamente, o filme funciona muito bem, não aparando, porém, algumas arestas da narrativa, soando um pouco abruptos os saltos no roteiro. Os personagens não chegam a ser interessantes, no entanto seus intérpretes buscam um acesso direto ao público, sem passarem pelos diálogos. Neste ponto, ele lembra bastante High life, de Claire Denis, no qual Robert Pattinson faz um astronauta vagando no espaço, inclusive na sua lentidão proposital, sem nenhuma lembrança dos blockbusters de Hollywood, mesmo em seu traço romântico, característica que obtém também da versão de Steven Soderbergh de Solaris.

Se o filme de Denis é mais pessimista do que o de Gray e com efeitos especiais menos imponentes, em base eles procuram pelo mesmo caminho de análise de como o ser humano reage à vastidão das estrelas. Pelo seu orçamento maior, Ad Astra amplia seu escopo com mais brilhantismo visual e um design de produção mais variado, embora não totalmente acertado – Gray é um diretor acostumado a lindas ambientações de época –, e entrega uma fotografia capaz de deixar o espectador com a sensação de pairar no espaço. Lamenta-se apenas que a trilha sonora de Max Richter seja muito intrusiva, vaga e tente emular as de Hans Zimmer, sem a mesma qualidade (imagina-se como o filme cresceria com uma trilha do segundo). A jornada desse astronauta torna-se uma viagem pessoal que se estende a quem a acompanha, e profundamente dolorosa em alguns pontos nos quais Gray sobrepõe o drama à técnica que o cerca. Isso talvez se mostre pela presença de um determinado ator, no seu melhor momento em anos, num momento de profunda melancolia causada pelo espaço. É este ator que, com Pitt, ajuda a justificar mais esta obra de Gray, cuja narrativa, de modo singular, consegue realmente mostrar uma viagem espacial capaz de transformar um indivíduo.

Ad Astra, EUA, 2019 Diretor: James Gray Elenco: Brad Pitt, Tommy Lee Jones, Ruth Negga, Liv Tyler, Donald Sutherland Roteiro: James Gray e Ethan Gross Fotografia: Hoyte van Hoytema Trilha Sonora: Max Richter Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, James Gray, Anthony Katagas, Rodrigo Teixeira, Arnon Milchan Duração: 124 min. Estúdio: 20th Century Fox, Regency Enterprises, Bona Film Group, New Regency, Plan B Entertainment, RT Features, Keep Your Head Productions, MadRiver Pictures, TSG Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Rambo – Até o fim (2019)

Por André Dick

O ator Sylvester Stallone conseguiu construir sua carreira principalmente em cima de dois personagens: Rocky Balboa, o lutador de boxe humilde da Filadélfia, e John Rambo, o veterano que voltou do Vietnã sem a guerra ter saído dele. No seu primeiro filme, Rambo – Programado para matar, ele colocava uma cidade do interior em polvorosa depois de um xerife arrogante tentar expulsá-lo do lugar. Era a oportunidade de Stallone mostrar uma vertente mais violenta do seu boxeador. E o filme era um dos grandes momentos do cinema dos anos 80. Na continuação, com roteiro de James Cameron, ele voltava de fato ao Vietnã para resgatar prisioneiros de guerra – e sua história pouco provável rendeu boas sátiras, como Top Gang, apesar de suas cenas de ação serem uma cortesia de George Pan Cosmatos. Nos episódios seguintes, ele ia ao Afeganistão combater os russos, numa das produções mais caras da história e com cenas de ação muito bem filmadas, e à Birmânia.

Em Rambo – Até o fim, o personagem cuida da fazenda herdada do pai em Bowie, Arizona, com a amiga Maria Beltrane (Adriana Barraza) e sua neta Gabrielle (Yvette Monreal) salvando pessoas de tormentas, montado em cima de um cavalo. Gabrielle fica sabendo notícias do paradeiro de seu pai (Marco de la O) por meio de uma amiga, Jezel (Feneza Pineda), mas, por ele tê-la abandonado, é impedida por sua avó. Rambo tenta protegê-la da maldade do mundo, sendo contrariado pelo ímpeto de quem deseja descobrir seus caminhos por si só. Ou seja, ele projeta a figura do cowboy norte-americano. Stallone escreve o roteiro com Matt Cirulnick, no entanto, com uma série de lugares-comuns, ele não consegue reproduzir o fechamento para seu personagem Rocky em 2006, o ótimo Rocky Balboa – embora ele voltasse na história de Creed em 2015. Isso talvez se deva não apenas a Stallone não ter mais encontrado o ponto de vista que fazia Rambo ser tão interessante na Guerra Fria, colocando-o numa paisagem evocando a dos dois Sicario, em meio ao cartel de drogas mexicano e à exploração de mulheres, assim como Onde os fracos não têm vez (no qual Stallone diz ter especialmente se inspirado). Rambo, apesar da violência que empreendia contra os inimigos, sempre possuiu uma faceta de tentativa de mudar o próprio mundo.

Este Rambo atual, que, na verdade, podia atender por outro nome (se não fosse a questão da guerra e o uso do arco e flecha), talvez por fazer parte de outra fase de vida de Stallone, não tem essas características Nisso, acaba se reproduzindo uma espécie de testamento sobre a falência da humanidade. Se a primeira parte é bastante previsível, com uma série de discussões que não encontram o ponto, sem dúvida a segunda parte é forte e conta com a presença de uma jornalista, Carmen (Paz Vega), a qual investiga o cartel. No entanto, o roteiro não constrói a passagem para o terceiro ato e a figura da jornalista, que seria muito interesse para desenvolver uma trama paralela, se torna pouco aproveitável. Os vilões pouco têm a dizer e não se constrói a expectativa de Rambo em enfrentá-los. Além disso, todo o trabalho de fotografia lembra o de um antigo telefilme, em contraposição, por exemplo, ao terceiro, que, com todos seus problemas narrativos, era um evento de luzes e sombras.

Não ajuda Adrian Grunberg ser um diretor muito inexperiente para lidar com um personagem de quase 40 anos, reduzindo-o praticamente a algumas cenas violentas (um elemento também dos outros da série, prejudicado especificamente por uma que, além do exagero, extrai do personagem sua humanidade presente principalmente no original de 1982), um tanto abruptas e sem a agilidade de um filme de ação. Também nos outros filmes, Rambo sempre agiu de maneira extrema, mas o roteiro entregava um desenvolvimento capaz de convencer o espectador de que havia mais do que um enfrentamento em jogo; aqui vemos um homem amargurado, à vontade apenas em construir túneis de guerra debaixo de uma fazenda, sem a necessária empatia, mesmo na sua preocupação paternal. Sobre o retrato que o filme oferece do México, mesmo cineastas naturais do país, como Amat Escalante no ótimo Heli, que, aliás, poderia ser uma prévia desse filme – melhorada –, costumam receber críticas pelo retrato que fazem dele. Não há nenhuma novidade no que é visto, com argumentos prós e contras. Ou seja, este Rambo pode não mostrar uma boa imagem dos mexicanos e é antecedido nisso por dezenas de obras, inclusive indicadas ao Oscar, a exemplo de Babel e Traffic. Talvez se possa dizer que as duas atuações mais dedicadas sejam justamente dos atores Sergio Peris-Mencheta e Óscar Jaenada nos papéis dos traficantes Hugo e Victor Martinez – ambos, apesar de pouco a dizerem, interpretam bem seus personagens. Quanto a Rambo e seus dilemas de guerra, é mais interessante voltar aos três filmes dos anos 80, quando ele não falava tanto de si mesmo, mas seu silêncio costumava indicar exatamente o que sentia.

Rambo – Last blood, EUA, 2019 Diretor: Adrian Grunberg Elenco: Sylvester Stallone, Paz Vega, Sergio Peris-Mencheta, Adriana Barraza, Yvette Monreal, Genie Kim, Joaquín Cosío, Oscar Jaenada, Marco de la O, Sergio Peris-Mencheta, Óscar Jaenada Roteiro: Matthew Cirulnick e Sylvester Stallone Fotografia: Brendan Galvin Trilha Sonora: Brian Tyler Produção: Avi Lerner, Kevin King Templeton, Yariv Lerner, Les Weldon Estúdio: Millennium Media, Balboa Productions, Templeton Media Distribuidora: Lionsgate

 

Seven – Os sete crimes capitais (1995)

Por André Dick

Em 1992, Alien 3, continuação de Alien e Aliens, foi dirigida pelo talentoso estreante David Fincher, que havia feito até então videoclipes de Madonna, Mark Knopfler, George Michael, Sting, Paula Abdul, Iggy Pop e Billy Idol, entre outros. Ele pode ter salvo uma ficção científica com muitos problemas de produção: estouro de orçamento, abandono de dois diretores – Vincent Ward e Renny Harlin –, muitos roteiros, reclamações de Sigourney Weaver, que não queria voltar à série. Fincher nunca considerou essa sequência de Aliens como realmente parte de sua carreira, porém seu clima claustrofóbico já anunciava um dos cineastas mais interessantes do cinema norte-americano contemporâneo.

Seu filme seguinte, Seven – Os sete crimes capitais, com elementos fortes de suspense e até terror, confirmou isso. Nele, Brad Pitt e Morgan Freeman interpretam a dupla principal de investigadores abalada pelo surgimento de um serial killer em Nova York que se inspira nos sete pecados capitais para guiar o espectador por crueldades cometidas ao longo da narrativa. David Mills (Pitt) recém chegou à metrópole, com sua esposa Tracy (Gwyneth Palthrow).  O veterano policial William Somerset interpretado por Freeman, prestes a se aposentar, vai atrás da Divina comédia, de Dante Alighieri, a fim de buscar pistas. O chefe de ambos (R. Lee Ermey, conhecido por interpretar o sargento de Nascido para matar), não os pressiona – de qualquer modo, as manchetes dos jornais atrapalham ainda mais a progressão.
Trata-se de um duelo surpreendente entre dois policiais e um psicopata que evita deixar qualquer pista, antecedendo outra obra exemplar de Fincher, Zodíaco, e, principalmente, Millennium – Os homens que não amavam as mulheres e sua série exemplar Mindhunter, sobre os primeiros investigadores que mesclaram o entendimento da psicanálise na tentativa de identificar psicopatas.

Além de ser um bom artesão, Fincher sabe compor personagens e criar interesse contínuo. Em Seven, os diálogos não se mostram tão importantes quanto o clima, mórbido e vigoroso já revelado no seu episódio de Alien acentuado pela ótima fotografia de Darius Khondji, trazendo a experiência visual que mostrou em Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet. Ainda assim, ele talvez contenha a escrita mais bem elaborada de um thriller da década de 90, mesclando discussões sobre uma amizade forçada entre os detetives e sua tentativa de convivência em meio a discussões sobre a influência de uma obra literária em crimes horrendos ou para se adentrar na mente de um psicopata. Os sete pecados capitais na obra de Dante são também a ponte para que ele possa adentrar o Paraíso. O que esses personagens teriam a dizer sobre isso?
O que evidencia o talento do roteiro de Andrew Kevin Walker é a perplexidade diante dos acontecimentos. É evidente que Seven adiantou boa parte da obra posterior de Fincher, embora se inspire em Blade Runner, por exemplo, com sua chuva contínua e seus ambientes úmidos. É raro algum momento em que os policiais não estão em algum lugar soturno, com lanternas (antecipando Zodíaco em todos os aspectos), e mesmo ambientes acolhedores e calmos, como a da biblioteca municipal de Nova York, soam ameaçadores. Talvez o momento mais acolhedor seja o do jantar, e é também, por causa das grandes atuações de Freeman, Pitt e Palthrow, aquela sequência em que os personagens mais se revelam, por meio do descompromisso.

Fincher praticamente cria um estilo aqui influenciado por Hitchcock, Jonathan Demme (O silêncio dos inocentes) e novamente Ridley Scott (há momentos que remetem ao seu irregular Chuva negra), principalmente, mas sobretudo dele próprio. Sua mistura entre uma cidade perturbadora e sempre lotada com os ambientes vazios nos quais os detetives ingressam para recolher provas cria um contraste interessante, assim como ele consegue, em momentos detalhados, um certo humor corrosivo, por meio do personagem de Somerset (subentendendo “summer set”, numa espécie de contraponto ao clima chuvoso). Trata-se de uma figura ao mesmo tempo seca e emotiva, a exemplo do diálogo que tem em determinado momento com Tracy, deixando implícita a sua vida anterior àquele momento decisivo. David se mostra sempre jovem e impaciente, entregando também os melhores recursos de Brad Pitt já despontando como astro, e Fincher aproveita a diferença.
Quando a identidade do serial killer é revelada, o roteiro se descostura um pouco, no entanto ainda assim mantém a qualidade. É bastante difícil encarar o final sem deixar se abalar pela estrutura que acaba prendendo a narrativa a uma ideia mais conceitual. Fincher pinta um retrato cruel da sociedade (recebendo recentemente uma homenagem de David Lynch em Twin Peaks – O retorno, num momento decisivo para o agente Cooper em seu duplo), mas sobretudo impactante e que este filme tenha arrecadado quase dez vezes o seu custo mostra o encontro entre qualidade e recepção à altura.

Seven, EUA, 1995 Diretor: David Fincher Elenco: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, R. Lee Ermey, Richard Roundtree, John C. McGinley Roteiro: Andrew Kevin Walker Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Arnold Kopelson, Phyllis Carlyle Duração: 127 min. Estúdio: Cecchi Gori Pictures, Juno Pix Distribuidora: New Line Cinema

RoboCop 2 (1990)

Por André Dick

A maior parte da crítica elogiou RoboCop, com sua atmosfera de filme B, em ritmo de histórias em quadrinhos, elevando-o, com o tempo, ao status de obra-prima. O diretor holandês Paul Verhoeven faria sucesso, realizando em seguida obras como O vingador do futuro e Instinto selvagem. Com o talento de não esquecer o lado humano em suas histórias, Verhoeven mostra um policial, Alex Murphy (Peter Weller), que morre e tem seu corpo aproveitado para uma criação tecnológica, o RoboCop. Ele continua a se lembrar da época em que tinha uma parceira de trabalho, Anne Lewis (Nancy Allen), a mulher e o filho. As lembranças incluem também a gangue de traficantes que o assassinou numa de suas batidas. Da metade para o final, ele busca se vingar. A armadura criada para o policial, em design de Rob Bottin, depois de inúmeras experiências, é espetacular. Há muita violência – uma característica do diretor –, inclusive um vilão que derrete no ácido de uma fábrica. Forte, humano, com bom roteiro e sem maniqueísmo, é indispensável para se conhecer uma influência nos filmes de super-herói contemporâneos.

Na continuação, Verhoeven deu espaço a Irvin Kershner, conhecido por Os olhos de Laura Marse, 007 – Nunca mais outra vez (a volta temporária de Sean Connery ao papel de James Bond nos anos 80) e O império contra-ataca, considerada a melhor sequência de Star Wars. É verdade que o primeiro RoboCop não chegou a ser um grande sucesso de bilheteria pelas cenas de violência que continha. Kershner não segue outro caminho, com roteiro a cargo de Frank Miller, o quadrinista de O cavaleiro das trevas, um clássico lançado poucos anos antes que daria origem a Batman vs Superman, e Elektra, entre outros. E a sequência estreou num verão fabuloso dos Estados Unidos, ao lado de títulos como Gremlins 2, Dick Tracy, Duro de matar 2, Dias de trovão, De volta para o futuro III e O vingador do futuro, fracassando infelizmente nas bilheterias.
No prosseguimento da história, novamente passada numa Detroit futurista, RoboCop age ao lado da antiga parceira, Nancy, contra uma nova droga poderosa, que mata quando usada, a nuke. Os traficantes dela são liderados por Cain (Tom Noonan), ao lado de Angie (Galyn Görg) e Hob (Gabriel Damon), de 12 anos, que obtém informações de dentro da polícia de Duffy (Stephen Lee). Para tomar o lugar de RoboCop, o novo líder da corporação OCP (Don O’Herlihy), que projetou o policial do futuro, cria uma arma capaz de combater o crime, um robô programado pela doutora Juliette Faxx (Belinda Bauer), construído com a mente de um indivíduo pouco propenso a entendimento. Ao mesmo tempo, há conflitos da OCP com o prefeito Marvin Kuzak (Willard E. Pugh, com um elemento cômico saudável), cuja administração possui uma dívida milionária na área de segurança.

Embora a trilha sonora seja assinada por Leonard Rosenman, substituindo a de Basil Poledouris sem o mesmo brilho, Kershner faz uma continuação honrando o original, com uma proposta de mostrar que no futuro a humanidade será substituída por robôs. Também prosseguem as propagandas com humor corrosivo, desde a inicial com um assaltante sendo surpreendido ao tentar roubar um carro. A narrativa de Miller concentra o tempo todo um clima de história em quadrinhos e não há comparação com o primeiro, no qual os personagens pareciam muito mais reais e maléficos. Enquanto o filme de Vehoeven, mesmo com seu pessimismo ainda tinha como intuito mostrar que havia um futuro, a sequência prefere adotar o pessimismo extremo. Segundo Miller, a criança representa uma ameaça para o futuro da humanidade, não apenas pela figura de Hob, como também na invasão de um time de beisebol infantil a uma loja e a agressividade de uma turma de rua quando RoboCop tenta ensinar boas maneiras. O melhor das sequências é mostrarem algo de novo, e exatamente isso acontece aqui. Em determinado momento, RoboCop se sente incapaz de agir com violência por causa de uma nova programação da OCP. Nisso, opera-se um novo duelo entre RoboCop e o robô maléfico, com ação vertiginosa e boas sequências, com a ajuda na montagem de Lee Smith, num de seus primeiros trabalhos, antes de se tornar colaborador de Christopher Nolan.

Weller e Allen estão bem nos papéis centrais, e Kershner utiliza os bons efeitos especiais com sua agilidade. Há uma certa atmosfera de perversidade imprópria para crianças, sugerindo sempre uma violência incontida, e onde a montagem mais funciona é quando Kershner coloca os personagens em segundo plano para dar liberdade à parte técnica. Destaca-se como esta sequência é incomparavelmente superior à primeira em termos técnicos, com uma luta final muito bem desenvolvida, embora novamente o final soe abrupto. Num momento em que Neill Blomkamp planeja fazer RoboCop returns ignorando essa sequência, como se ela não existisse, é interessante observar que, tirando alguns elementos, trata-se de um filme tão bom quanto o de Verhoeven, injustamente menosprezado. Ele conta com uma assinatura particular de Kershner e um trabalho narrativo que não menospreza as atuações e o roteiro de Miller.

RoboCop 2, EUA, 1990 Diretor: Irvin Kershner Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Daniel O’Herlihy, Tom Noonan, Belinda Bauer, Gabriel Damon Roteiro: Frank Miller e Walon Green Fotografia: Mark Irwin Trilha Sonora: Leonard Rosenman Produção: John Davison Duração: 117 min. Distribuidora: Orion Pictures

Psicose (1998)

Por André Dick

Esta refilmagem de Gus Van Sant do clássico de Alfred Hitchcock de 1960, baseado no romance de Robert Bloch, teve uma recepção bastante negativa, principalmente por ousar repetir quase todos as sequências do original de modo a prestar uma homenagem. De certo modo, a franquia também havia entrado num desgaste, principalmente com o terceiro episódio dirigido pelo próprio Anthony Perkins, que fazia o psicopata ameaçador, Norman, e era uma tortuosa trama de culpas mal conduzida. Como no original (a partir daqui spoilers), o roteiro de Joseph Stefano mostra Marion Crane (Anne Heche), que foge de Phoenix, Arizona, depois de obter 400 mil dólares, deixando o namorado Sam Loomis (Viggo Mortensen). Na estrada, ela para no Bates Motel, onde o proprietário, Norman (Vince Vaughn), mostra um comportamento estranho. Além deles, Julianne Moore surge como Lila Crane, irmã de Marion, e William H. Macy como Milton Arbogast, um detetive.

Todos os elementos do Psicose original estão dispostos aqui, com uma fotografia espetacular de Christopher Doyle, habitual colaborador de Wong Kar-Wai, que destaca, ao contrário do original, todas as cores possíveis. Ao transportar a história dos anos 60 para 1998, Van Sant faz uma reavaliação histórica: o comportamento dos personagens parece o mesmo do original (mais ingênuo), no entanto o cenário é tipicamente dos anos 90, com destaque para os neons do motel e uma luz solar que se contrapõe ao lado soturno do personagem de Norman. Ele tem uma certa influência do subestimado Psicose II, colhendo um ar diurno intenso em contraposição à narrativa que se passa mais à noite.
A carga de suspense elaborada por Hitchcock no original não é repetida aqui, mas Van Sant tem uma condução competente do elenco, a começar por Heche, realmente bem, embora tão criticada, e Vince Vaughn, convincente, como se fosse uma espécie de criança aprisionada pelo passado. Com certos maneirismos que reproduziria em sua trajetória como ator cômico, Vaughn aproveita algumas características de Anthony Perkins e incorpora as suas, como o olhar vago e a tentativa de tratar tudo como uma brincadeira.

O remake de Psicose ainda traz a trilha sonora de Bernard Herrmann adaptada por Danny Elfman e Steve Bartak, fazendo com que a clássica cena do chuveiro se repita com uma intensidade que não deixa a desejar ao original. Ao não utilizar uma fotografia em preto e branco, o filme cria seu próprio estilo. É certamente por utilizar as cores não usadas antes por Hitchcock que passamos a ver dentro de uma faceta iluminada o que antes parecia imperturbavelmente estabelecido num cinema clássico. O espectador vê os personagens tendo as mesmas ações, entretanto as cores que os cercam dizem deles (inclusive a do figurino) muitas vezes mais que o roteiro, como o figurino rosa que Marion utiliza, como um contraponto aos pássaros empalhados de Norman, ou o sanduíche que ele prepara para ela, lembrando aquele do início, com o vermelho do tomate e de uma bebida, além do ketchup.
Van Sant utiliza a cor verde para compor um universo de cores parecido com um jogo sobre a existência humana. Ele faz um zoom sobre uma mosca logo no início do filme, tendo por trás um fundo verde, e depois volta a utilizar essa cor no figurino de Marion Crane, no letreiro da sala de Norman e no uniforme do policial. Em determinado momento, uma senhora que “os insetos, como os humanos, merecem uma morte não dolorosa”. Quando Van Sant faz um zoom no olhar esverdeado de Marion depois de sua morte, enquanto o olhar do assassino escurece (como as nuvens da tempestade), ou quando Norman observa uma mosca voando na última sequência é como se Van Sant comparasse a existência humana, para um psicopata, como a de um inseto, que, por sua vez, sequer deve ser empalhado. Esse detalhe que percorre a obra, essencial para entendê-la, inexiste no original de Hitchcock.

Perceba-se também o uso dos abajures e da claridade do banheiro (completamente branco), em contraponto ao escuro das nuvens sobre a casa de Bates no alto da colina; a cor do chapéu do detetive e a luminosidade da cabine telefônica em contraponto à sala de recepção do hotel, além do céu nebuloso como oposição ao banheiro branco do Bates Motel. Os personagens e suas ações são definidos pela cor utilizada em cada ocasião, especialmente o detetive feito por William H. Macy, cercado por uma cor azul, melancólica, antecipando o que vai lhe acontecer. Van Sant, nos momentos mais assustadores, ao visualizar nuvens escuras no céu e uma estrada tempestuosa, remete a suas peças posteriores, como Elefante, Gerry e Últimos dias. Os faróis dos carros na estrada quando Marion Crane está fugindo antecipam o que acontece na icônica sequência do chuveiro e com o detetive Milton Arbogast, com uma sensação de violência iminente. Nesse sentido, o cineasta, depois de fazer obras sobre jovens abalados pela droga (Drugstore Cowboy e Garotos de programa), e do sucesso de Gênio indomável, indicado a vários Oscars, inclusive o de filme, utiliza Psicose para tratar do próprio cinema e das possibilidades de linguagem de uma história, antecipando também elementos que utilizaria em sua fase mais experimental, principalmente até Paranoid Park. Isso proporciona ao espectador um bom caminho para se comparar duas versões que parecem iguais e se diferem em detalhes substanciais.

Psycho, EUA, 1998 Diretor: Gus Van Sant Elenco: Vince Vaughn, Anne Heche, Julianne Moore, Viggo Mortensen, William H. Macy Roteiro: Joseph Stefano Fotografia: Christopher Doyle Trilha Sonora: Bernard Herrmann, Danny Elfman e Steve Bartek Produção: Gus Van Sant e Brian Grazer Duração: 104 min. Estúdio: Imagine Entertainment Distribuidora: Universal Pictures

It – Capítulo 2 (2019)

Por André Dick

Depois do grande sucesso de It – A coisa, já era previsível sua sequência. Na verdade, ele foi concebido para que ela existisse, dividindo o romance com mais de mil páginas de Stephen King entre as fases infantil e adulta, ao contrário da série em dois capítulos distribuída nas locadoras como filme em 1990, e muito assustadora, dirigida por Tommy Lee Wallace. Em It – Capítulo 2, do Clube dos Perdedores original, Mike Hanlon (Isaiah Mustafa quando adulto e Chosen Jacobs quando criança) foi o único a ficar em sua cidade, Derry, Maine, trabalhando como bibliotecário, além de ter problemas com drogas, por causa dos traumas com o palhaço Pennywise (Bill Skarsgård). Ele percebe, vinte e sete anos depois, que aos poucos a criatura está voltando à pequena comunidade para criar terror entre os habitantes, depois de um acontecimento com Adrian Mellon (o cineasta e ator Xavier Dolan).

Ele, então, avisa os antigos amigos. Bill Denbrough (James McAvoy e Jaeden Lieberher) tornou-se um escritor e é casado com uma atriz de destaque (Jess Weixler). Beverly Marsh (Jessica Chastain e Sophia Lillis) tem um casamento infeliz com Tom Rogan; Ben Hanscom (Jay Ryan e Jeremy Ray Taylor), que era perseguido pelo excesso de peso, trabalha como arquiteto renomado; Richie Tozier (Bill Hader e Finn Wolfhard) é um DJ de Los Angeles; Eddie Kaspbrak (James Ransone e Jack Dylan Grazer) continua um hipocondríaco à frente de uma empresa de limusines; e Stanley Uris (Andy Bean e Wyatt Oleff) virou sócio de uma firma de contabilidade. A primeira reunião se dá num restaurante chinês, com uma iluminação que cria, ao mesmo tempo, toda uma atmosfera de acolhimento e insegurança, com um desfecho surpreendente – e talvez seja a melhor sequência, aquele que melhor separa o que seria esta segunda parte da primeira. A fotografia de Checco Varese é grande, conseguindo inserir o espectador dentro da história, colhendo inspiração em George Romero (especialmente Creepshow) e Dario Argento, e a trilha sonora de Benjamin Wallfisch não se sente mais diluída de John Williams.

Também regressa Henry Bowers (Teach Grant), que perseguia o Clube dos Perdedores e está numa clínica, quando se sente estranho ao ver um balão vermelho flutuando em frente a uma das janelas do lugar – e balões vermelhos em It significam a presença de algo muito amedrontador.
Convencionou-se dizer que esta sequência é muito inferior ao original. Pode-se dizer que ele é realmente diferente – para melhor. O bom momento do primeiro filme de Amdy Muschietti, também responsável por este segundo capítulo, é quando a turma descobre que, além da amizade, tem em comum essa ameaça do palhaço. Até aí, a narrativa já construiu uma atmosfera eficiente e envolvente, o que significa que temos também pelo menos três cenas assustadoras e uma analogia com a violência paterna por meio de um banho de sangue que faz lembrar O iluminado.

Mesmo Bill Skarsgård funciona até este momento em que aparece mais discretamente. No entanto, aos poucos, percebe-se como o diretor na verdade se apoia demais em experimentos de nostalgia, como Os Goonies e Super 8, além de Stranger things (utilizando até mesmo seu ator principal, Wolfhard), para pretensamente fazer uma peça de terror que, a cada passo, aparenta ter sido realizada e decidida por um grupo de executivos em busca de uma franquia da maneira mais previsível e sintomática.  Ele salta do horror e do suspense para a comédia e depois para o drama não porque deseja uma síntese desses gêneros e sim porque deseja apenas agradar ao espectador, não de maneira criativa e sim apenas procurando seu desejo de rever imagens de crianças andando de bicicleta.
O que não existe em It – Capítulo 2 é essa atmosfera de filme infantojuvenil, que não combina com os elementos mais pesados. Enquanto no elenco original apenas dois atores se saíam bem (Jaeden Lieberher e Sophia Lillis), o elenco adulto é muito superior, a começar por McAvoy e Jessica Chastain, seguidos por Bill Hader e Jay Ryan. São atuações conflitantes, de pessoas que representam adultos abalados por um trauma de infância e que precisam voltar a locais marcantes do passado para tentar uma reviravolta contra Pennywise. E funciona. Muschietti empreende uma espécie de clima épico, sugerido pela extensa duração (quase 3 horas), para mostrar um clima de reunião que retoma flashbacks da infância, mas é, sobretudo, assustador, com diversas sequências realmente de terror, e não de diversão para contentar as plateias menos interessadas por isso e mais por ação disfarçada de suspense.

Trata-se de uma espécie de Linha mortal ou de Sobre meninos e lobos, com os adultos tentando entender o que ocorreu na infância, em sequências menos óbvias e visualmente mais ousadas, como aquela em que Beverly fica trancada num banheiro, com influência de Kubrick, remetendo a uma passagem da infância. Há outra em que Bill Denbrough entra numa espécie de mansão mal-assombrada num parque de diversões – e se trata de uma verdadeira composição aterradora que talvez gostaria de ter sido apresentada este ano em Nós. As bicicletas são substituídas por adultos se sentindo perdidos num ambiente antes familiar, e o bosque se mostra um espaço para a expectativa criada de que algo pode realmente acontecer. Apesar de incorrer em certos exageros próprios de sua filmografia, desde Mama, Mushiettetti tem aqui um olhar muito mais interessado por nuances. É isso que torna esta sequência muito superior ao filme de 2017.

It – Chapter Two, EUA, 2019 Diretor: Andy Muschietti Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, Bill Hader, Isaiah Mustafa, Jay Ryan, James Ransone, Andy Bean, Bill Skarsgård, Chosen Jacobs, Jaeden Lieberher, Sophia Lillis, Jeremy Ray Taylor, Finn Wolfhard, Jack Dylan Grazer Wyatt Oleff Roteiro: Gary Dauberman Fotografia: Checco Varese Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Barbara Muschietti, Dan Lin, Roy Lee Duração: 169 min.  Estúdio: New Line Cinema, Double Dream, Vertigo Entertainment, Rideback Distribuidora: Warner Bros. Pictures

 

Turma da Mônica – Laços (2019)

Por André Dick

O cinema brasileiro naturalmente busca dialogar com a tendência de adaptações de quadrinhos e animações para o cinema. Nos anos 90, houve a versão em filme do livro de Menino maluquinho, com tom infantojuvenil, também presente em sua sequência, e agora há a adaptação da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa, nesta obra dirigida por Daniel Rezende. Conhecido por ser um exímio editor, de filmes como Cidade de Deus, A árvore da vida, Na estrada, Tropa de elite e RobCop (ou seja, uma trajetória de talento comprovado), Rezende estreou como diretor em Bingo – O rei das manhãs. Dono de uma visão interessante, com visual apegado ao jogo de cores, Rezende fez de Bingo um sucesso, embora seja mais do que superestimado, baseado na exitosa atuação de Vladimir Brichta.

Este novo experimento dele, no universo infantil, possui como base personagens que marcaram a infância de milhões de brasileiros. Temos Cebolinha (Kevin Vechiatto) e Cascão (Gabriel Moreira) fazendo brincadeiras em seu bairro e sendo perseguidos por Mônica (Giulia Benite) e seu coelho Sansão – e eventualmente com a amiga Magali (Laura Rauseo). Esses personagens têm características definidas: Cebolinha troca o “r” pelo “l”, Mônica costuma ficar irritada quando provocada por ele, Cascão não gosta de tomar banho e Magali se alimenta compulsivamente. Tudo isso poderia soar exageradamente rotulável ou mesmo sem vida necessária no filme. Não é o que acontece. Turma da Mônica – Laços é o tipo de filme que possui um coração definido, e ele está exatamente em imagens e passeios que remetem à infância. Rezende utiliza a extraordinária fotografia de Azul Serra para fazer um diálogo dela com os figurinos dos personagens e deixar a imagem de modo geral alaranjada, com um aspecto de infância eterna e de certa melancolia. Seu trabalho tem como base evidente o de Bruno Delbonell para Jeunet em O fabuloso destino de Amélie Poulain, embora menos saturado.

Os pais dos personagens ficam alheios às aventuras, e só se preocupam quando eles desparecem à procura de Floquinho, o cão de Cebolinha, que aqui parece pintado com spray verde.  Os principais são o Sr. Cebola da Silva (Paulo Vilhena) e Dona Cebola (Fafá Rennó), Onde está Floquinho? O que teria acontecido com ele? O roteiro, escrito por Thiago Dottori, baseado em história de Vitor Cafaggi, Lu Caffagi e Mauricio de Sousa, se baseia nessa premissa que dialoga com Super 8 para desenvolver a amizade entre os integrantes da turma, quando ingressam na mata à procura de um sequestrador. Turma da Mônica – Laços não procura exatamente subtramas e envolvimento de muitos personagens, embora haja a participação curiosa de Rodrigo Santoro em determinado momento, e sim apenas um elo essencial sobre o que é importante na infância, nesse caso o cão que faz companhia à turma e à família. Trata-se obviamente de um caminho que não renderia um filme interessante, mas Rezende está tão certo de que seus personagens conversam com a plateia que ele não tem essa preocupação. Um acampamento noturno dos amigos tem uma atmosfera de perigo e, ao mesmo tempo, acolhedora, e o amanhecer em meio às árvores desperta um sentimento de que a infância vai se desapegando da casa para um conhecimento de mundo, no que dialoga com uma determinada sequência do belo Conta comigo, dos anos 80.

Com atores não excelentes, mas convincentes, Turma da Mônica tem seu elo de ligação principal em Mônica, feita por Giulia Benite, e Cebolinha, feito por Kevin Vechiatto. São eles que acabam traduzindo essa sensação de que os quadrinhos ganham vida na tela, junto com a fotografia em conversa com o design de produção de Cassio Amarante (Central do Brasil, Abril despedaçado, Bingo e As melhores coisas do mundo) que reproduz o Bairro do Limoeiro como uma espécie de viagem a um lugar reconhecível e distante, com suas enormes árvores, além do uso das cores dos figurinos dos personagens nas casas, carros, bicicletas e objetos de casa. E é evidente que Rezende recolhe alguns toques dos gramados da casa que deram tanto êxito a Terrence Malick em sua obra-prima A árvore da vida sob um enfoque mais infantojuvenil, mas que também irá agradar a plateia adulta. A sensação é de ver uma história sem época definida, ou melhor, a sua época é a da infância universal.

Turma da Mônica – Laços, BRA, 2019 Diretor: Daniel Rezende Elenco: Kevin Vechiatto, Giulia Benite, Gabriel Moreira, Laura Rauseo, Paulo Vilhena, Fafá Rennó, Rodrigo Santoro Roteiro: Thiago Dottori Fotografia: Azul Serra Produção Bianca Villar, Cássio Pardini, Charles Miranda, Cao Quintas, Karen Castanho, Fernando Fraiha Duração: 97 min. Estúdio: Biônica Filmes, Quintal Digital, Latina Estúdio, Maurício de Sousa,  Produções Paris Filmes Distribuidora: Paris Filmes, Downtown Filmes

Mestres do universo (1987)

Por André Dick

No final dos anos 80 ainda não eram comuns os live actions ou adaptações de quadrinhos ou animações para o cinema. Por isso, Mestres do universo, que trazia a versão em carne e osso de He-Man e Esqueleto, brinquedos da Mattel, entre outros, do Planeta Eternia, tão populares no imaginário infantojuvenil da época, parecia um feito, independente dos seus valores de produção (grandiosos 20 milhões de dólares). Apesar de seu resultado falho na bilheteria, tratava-se de um acontecimento no início da era das videolocadoras.
Em 1985, o desenho já havia ganhado uma versão para o cinema chamada O segredo da espada mágica, mas com a entrada da Cannon Films no mercado da fantasia, parecia se abrir um novo eixo para o gênero. Conhecido por interpretar Ivan Drago em Rocky IV, Dolph Lundgren foi escolhido para o papel central, investindo contra o vilão Esqueleto (Frank Langella), além de Demoníaca (Meg Foster). Ele tem a parceria de Man-At-Arms (Jon Cypher) e Teela (Chelsea Field) para tentar libertar a Feiticeira de Grayskull (Christina Pickles), aprisionada por Esqueleto para tentar acabar com os poderes do Castelo de Grayskull.

He-Man e seus amigos tentam buscar uma determinada chave cósmica, um objeto que pode transportá-lo para qualquer lugar e está nas mãos de Gwildor (Billy Barty). Porém, acontece um acidente e os senhores do universo acabam parando na Terra, numa pequena cidade de New Jersey, onde são ajudados por dois jovens. No entanto, o império de Esqueleto os localiza e coloca naves espaciais em direção ao planeta. É a Guerra Fria, em suma.
A Cannon Films, nos anos 80, por meio de Menahem Golan e Yoram Globus, tentaram reproduzir o universo de fantasia de Spielberg/Lucas com versões próprias, e eles foram responsáveis pelo desastroso Superman IV: Mestres do universo é, em toda a sua tentativa de produção, ser uma espécie de Star Wars, e inclusive a trilha sonora de Bill Conti tenta lembrar disso a todo instante. Mas não só: enquanto tem elementos de Superman III, com os personagens de Julie Winston (Courteney Cox) e seu namorado Kevin Corrigan (Robert Duncan McNeill) , que ajudam o grupo de He-Man, num baile de escola, ele tem muito de De volta para o futuro, inclusive com a presença de James Tolkan, como o detetive Hugh Lubic, que era diretor da escola no filme de Zemeckis.

Ao mesmo tempo, há elementos de Gremlins, na composição da pequena cidade onde os problemas de Greyskull vão terminar, enquanto a sala do trono de Esqueleto remete tanto a Star Wars quanto a Flash Gordon e Gwildor seja uma lembrança direta dos hobbits, à época apenas na literatura e em animações. O grupo de vilões que Esqueleto coloca para caçar He-Man também lembra a trupe comandada por Vader em O império contra-ataca em caçada a Han Solo. Também há elementos de outras fantasias dos anos 80, como Krull, O cristal encantado e A lenda. Particularmente, Eternia, aqui, remete a O cristal encantado, e não por acaso David Odell escreveu ambas as narrativas. Talvez seja um filme menos respeitado mais por causa de seu material de origem, não visto como respeitoso, do que como obra cinematográfica, em que de fato tem méritos não justificadamente apreciados. O primeiro motivo é, claro, Lundgren: sua atuação é de madeira o filme todo, nunca conseguindo entregar o personagem das animações.. Era uma época em que Schwarzenegger, Chuck Norris e Van Damme se lançavam como astros, no entanto faltava a Lundgren um mínimo de carisma e boa atuação (e ele viria a mostrar bom desempenho depois, em Creed II, por exemplo). O outro é, sem dúvida, o design de produção, que, mesmo curioso, não possui profundidade e grandiosidade necessários para os embates mostrados. No entanto, Langella tem uma atuação de destaque como Esqueleto e Billy Barty faz Gwildor de maneira empática. E há uma jovem Courteney Cox antes de Friends e Pânico, repisando alguma obra juvenil de John Hughes.

Sob determinado ponto de vista, Mestres do universo é um dos filmes que melhor representam os anos 80 na maneira com que lidava com a fantasia, nunca pendendo para uma excessiva pretensão, mas utilizando suas motivações de maneira clara. Sua carga de neons e fumaça remetem a um período no qual o cinema ainda estava distante de CGI e de franquias sem fim, anunciadas a cada semestre como se fossem uma mudança de rota para o cinema. Mesmo a proximidade de Kevin do mundo da música, ligando-o à chave cósmica, é uma pista para os anos 80. E a montagem de Anne V. Coates, que fez trabalhos tão diversos como Lawrence da Arábia, O homem elefante, Greystoke, Chaplin e Erin Brokovich, nunca deixa o ritmo cair ou soar demasiadamente em lacunas, imprimindo na trama uma agilidade particular. Nesse sentido, trata-se de um filme que busca os elos da fantasia de maneira exemplar e não sobrevive apenas de sua nostalgia.

Masters of the universe, EUA, 1987 Diretor: Gary Goddard Elenco: Dolph Lundgren, Frank Langella, Courteney Cox, James Tolkan, Christina Pickles, Meg Foster, Peter Brooks Roteiro: David Odell Fotografia: Hanania Baer Trilha Sonora: Bill Conti Produção: Yoram Globus, Menahem Golan, Edward R. Pressman Duração: 106 min. Estúdio: Golan-Globus Distribuidora: Cannon Films

Melhores filmes de 2016

Por André Dick

A década de 2010 está chegando ao final. Por isso, o Cinematographe irá mostrar sua seleção dos 10 melhores filmes de cada ano. Neste mês, as obras de 2016. Antes, os 15 que formariam um Top 25. Destaca-se que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

25. Café Society (Woody Allen) 24. Dois caras legais (Shane Black) 23. Mais forte que bombas (Joachim Trier) 22. Lion – Uma jornada para casa (Garth Davis) 21. Zootopia (Byron Howard, Rich Moore, Jared Bush) 20. Regras não se aplicam (Warren Beatty) 19. As montanhas se separam (Jia Zhangke) 18. É apenas o fim do mundo (Xavier Dolan) 17. Jackie (Pablo Larraín) 16. Voyage of time: Life’s journey (Terrence Malick) 15. Moonlight – Sob a luz do luar (Barry Jenkins) 14. Wiener-dog (Todd Solondz) 13. Docinho da América (Andrea Arnold) 12. Jovens, loucos e mais rebeldes (Richard Linklater) 11. Depois da tempestade (Hirokazu Koreeda)