Maria Antonieta (2006)

Por André Dick

A cineasta Sofia Coppola costumava, até se transformar em diretora, ser mais lembrada por sua participação um tanto deslocada em O poderoso chefão III (no qual fazia a filha do chefão Pacino, apaixonada pelo seu primo, interpretado por Andy Garcia). Nada que antecipasse seu talento como diretora, assim como já ocorria em As virgens suicidas e Encontros e desencontros. Além de sempre escolher bem o elenco e a equipe técnica, com destaque para o fotógrafo Lance Acord, em mais um trabalho notável aqui, tudo no trabalho de Sofia é lento e gradual: as cenas se apresentam como uma espécie de teatro encenado muitas vezes que, de tão representado, fica natural.
Kirsten Dunst interpreta Maria Antonieta, filha de Maria Teresa (Marianne Faithfull), que se casa com Luís XVI (Jason Schwartzman), prestes a assumir no lugar de rei Luís XV (Rip Torn), e se muda para a França. Lá, ela é recepcionada pela condessa de Noailles (Judy Davis). Mostrando sua aproximação com o marido em casamento arranjado, Sofia questiona até que ponto Maria Antonieta representa a liberdade e a prisão de uma mulher destinada a fazer história.

Dedicada às caminhadas pelo Palácio de Versalhes e indiferente ao que acontece com o povo (“Que comam os brioches” é sua famosa frase, antes da guilhotina, que não aparece), Sofia tem uma percepção atenta e destaque para detalhes como a primorosa direção de arte e o figurino oscarizado de Milena Canonero, tornando o mundo em que vivia Maria Antonieta tão pop – não diria exatamente extravagante, apesar dos exageros em todas as suas cores – quanto o de uma adolescente com cartazes em seu quarto, embalando o filme com uma trilha dedicada a bandas da atualidade (como The Strokes, Gang of Four, The Cure, New Order, Air), o que confunde os tempos. É justamente este elemento pop –  não menosprezando, visualmente, suas influências, que vão de Amadeus, de Milos Forman, a O novo mundo, de Malick – que sustentam o filme e lhe oferecem um rosto contemporâneo. Cada gesto é delineado a partir de um cuidado – às vezes rebuscado – com as cores, ressoando esta geração que cerca os Coppola, incluindo Sofia, Roman e Wes Anderson.

A Revolução Francesa não pode surgir nem em sua imaginação porque Maria Antonieta  é povoada pelas ideias de uma jovem descompromissada. Recebendo joias e festas de presente, não é do seu interesse nenhum contexto. Mas Sofia não a condena por isso. Como seu posicionamento diante das virgens suicidas e de Charlotte, em Encontros e desencontros, Maria Antonieta é uma espécie de heroína, destinada à tragédia de não conseguir simbolizar alguma ruptura na história e não se interessar por política – e ter seu nome tão lembrado nos livros, sobretudo pela miséria do povo no período em que foi o comentário principal. Seus devaneios com o amante, Conde Axel von Fersen (Jamie Dornan), e a pouca atenção dada ao Imperador Joseph II (Danny Huston), seu irmão que a aconselha a parar com festas, com as drogas (em meio a fumaças de ópio, a bebida) são apenas acréscimos numa trajetória cuja finalidade é servir ao marido e ter filhos.
Na verdade, por mais que Sofia esconda, pois sua narrativa é sempre despistada por cores de cenários e atuações leves, há uma espécie de tragédia nesta vida em que parece não haver tragédia alguma – é como se Maria Antonieta acordasse como Paris Hilton, mas vivesse como um personagem em meio às névoas de Shakespeare. Sem entender exatamente seu posto, recém-saída da adolescência, Maria Antonieta não deixa de enfrentar as maledicências com um choro escondido atrás da porta, e também não deixa de tentar fazer política de bom relacionamento com quem se aproxima para tentar reverenciá-la. Na ida à ópera, foge, para admiração de Luís XVI, do convencional e aplaude os componentes da peça, sendo observada como se fosse John Merrick em O homem elefante. Em meio a isso, o ar entre o cômico e o entendiado do rei Luís XVI ganham uma interpretação definitiva com o subestimado Schwartzmann (de Rushmore e Moonrise Kingdom). E a amante de seu pai Madame du Barry (Asia Argento) também chama a atenção.

O senso de responsabilidade, para Sofia, é o mesmo: a cobrança feita à mulher parece igual, independente da situação. Seus personagens, aqui, estão envolvidos com trivialidades, como estivemos em qualquer época da história, e isso, além de não causar uma densidade que esperaríamos num drama histórico (não é o objetivo de Sofia), torna tudo mais acessível e mainstream. No entanto, Sofia não ingressa numa questão feminista. Do mesmo modo, ela não torna o plano social (que prejudicaria o entendimento do filme, que é justamente enfocar personagens à parte de um universo real) uma extensão de suas preocupações, como o faz Arcell em O amante da rainha, que se inspira claramente em Maria Antonieta, mas acaba sucumbindo, em determinados momentos, tanto ao elenco mais limitado quanto ao peso de determinados aspectos. Quando ela vai a festas, seu comportamento é exatamente de uma mulher que não vivenciou o encontro não planejado pela corte – e Sofia registra cada festa não como uma passarela pessoal e sim como um lugar para se esconder quem é, atrás da máscara, vestindo outra personagem.

Do mesmo modo, quando Sofia filma os doces, as roupas e as joias, com um registro sonoro dos anos 80, parece querer transformar Versalhes numa espécie de extensão da new wave, embora, para a personagem principal, seja mais do que um belo lugar, com suas árvores transplantadas: trata-se de uma espécie de prisão pessoal, uma espécie de exílio da juventude, onde ela deixará tudo que imaginava esquecer em algum momento. Na terceira parte do final, quando ingressamos na saturação dos prazeres de Maria Antonieta, o filme declina um pouco de sua tentativa de se manter alheio à história. Quando há discussões ao redor de uma mesa, com Luís XVI, elas sempre continuam no terreno do comportamento juvenil, com o personagem olhando a esposa com uma luneta de papel, mas o contexto se esforça para fazer parte da visão de Sofia. Trata-se do momento mais fraco de Maria Antonieta, ainda que com a fotografa de Acord perfeitamente agradável.
Kirsten Dunst  substitui o papel de namorada do Homem-Aranha pela mulher de vestidos suntuosos que abalou a França numa determinada época e a questão é que devemos estar atentos à história, pois é ela, trivial ou não, que nos move – e nos manter à distância desse universo enfocado, sobretudo o político – e sua atuação consegue ser eficiente sempre que chamada ao centro da ação. Mais ainda: como demonstraria mais adiante, sobretudo em Melancolia, Kirsten guarda uma certa tristeza que se confunde ao que ela consegue elaborar por meio da personagem, sem atrair o filme para um lugar em que não se quer mais vê-lo. Maria Antonieta ainda guarda sua maior atuação, e isso não é pouco, além de também ser o melhor filme de Sofia Coppola.

Marie Antoinette, EUA, 2006 Diretor: Sofia Coppola Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Rip Torn, Judy Davis, Asia Argento, Marianne Faithfull, Aurore Clément, Steve Coogan Roteiro: Sofia Coppola Fotografia: Lance Acord Produção: Sofia Coppola, Ross Katz Duração: 123 min. Estúdio: Pricel, Tohokushinsha Film Corporation, American Zoetrope, Pathé Distribuidora: Columbia Pictures Corporation

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Batman – O cavaleiro das trevas (2008)

Por André Dick

A lembrança deixada pelos dois filmes de Joel Schumacher na franquia iniciada por Tim Burton no final da década de 80 da série Batman manteve todos os interessados pelo personagem consciente de que, numa renovação, era preciso mudar o direcionamento das coisas. Quem o substituiu foi Christopher Nolan, que havia mostrado competência em Amnésia e em Insônia, mas passou a ser visto como cineasta mais popular por meio de Batman begins. Nele, o super-herói que se veste de morcego está de volta a Gotham City depois de uma temporada num mosteiro, onde se aprimorou em artes marciais com um homem perturbado, Henri Ducard (Liam Neeson), que pretende dizimar a civilização decadente com sua Liga das Sombras. Reencontrando a amiga de infância Rachel Dawes (Katie Holmes) e seu melhor amigo, o mordomo Alfred (Michael Caine), ele retoma a empresa do pai, indo contra a vontade de quem já fazia planos de coordená-la (Rutger Hauer), colocando um cientista, Lucius Fox (Morgan Freeman), para ajudá-lo a construir armaduras e armas contra assaltantes, afinal pretende estabelecer a ordem na cidade. Seu amor pela amiga é o ponto romântico do filme.

Ela quer prender os integrantes do crime organizado de Gotham, mas um dos envolvidos vai parar no Asilo Arkham, onde precisa enfrentar o Espantalho (Cillian Murphy), que na verdade é o Dr. Cristopher Crane, cujo tom mais soturno lembra a novela de Batman feita por Frank Miller. Batman – desta vez com mais ajuda do comissário Gordon (na franquia antiga bastante apagado), interpretado pelo ótimo Gary Oldman – enfrentará todos os bandidos e ainda quem volta do passado e deseja impedi-lo de salvar Gotham.
Há cenas muito bem feitas por Nolan (sobretudo aquela em que Batman invade o asilo, a fim de encontrar o Espantalho, com uma atmosfera tensa e pesada), que emprega um ritmo vertiginoso na montagem, embora lhe faltem alguns elementos: a direção de arte da série de Tim Burton (muito mais fantástica e original, sobretudo no design dos veículos utilizados por Batman) e a trilha sonora de Danny Elfman (tão marcante quanto a que John Williams fez para Superman, aqui substituída por uma feita em parceria de Hans Zimmer com James Newton Howard, em tom crescente e efetivo). Ou seja, Nolan tem uma clara opção em situar o personagem sob uma luz mais realista.

De qualquer modo, Batman Begins parece um filme mais na medida exata, sobretudo porque Nolan desenha seus personagens de maneira equivalente com seus objetivos. O elenco, a começar por Christian Bale fazendo Batman, é muito bom, e há diversas sequências memoráveis, mostrando que o personagem merecia um tratamento que não estava recebendo de Joel Schumacher. Sentimos angústia no personagem – a sequência de treinamento nas montanhas é especialmente memorável – e a produção é cuidadosa em todos os seus quesitos.
O segundo filme, Batman – O cavaleiro das trevas, reitera que temos um cineasta com menos imaginação visual do que Burton e uma atenção maior para o realismo das cenas de ação. Numa nova sessão, de qualquer modo, é uma obra que se encontra cada vez mais contemporânea, além de influência direta na maioria dos filmes adaptados de quadrinhos. É visível a influência de Nolan do cineasta Michael Mann, principalmente aquele de Fogo contra fogo e Miami Vice, de alguns anos antes. Parece-nos que é Christian Bale o responsável por tornar o novo Batman em um personagem tão interessante quanto aquele feito por Michael Keaton, com acentos dramáticos funcionais. O não emprego de humor no personagem principal, um super-herói amargurado, talvez deixe a narrativa mais pesada, e isso se reproduz no clima proporcionado pela fotografia belíssima de Wally Pfister, diferenciando-se de suas versões anteriores, mesmo daquela de Burton. Além disso, toda a ambientação de Gotham City, uma mistura entre Nova York e Tóquio, volta a tirar qualquer fantasia da cena de ação: os acontecimentos do início do século XXI estão subentendido pelo roteiro. O vilão aqui é o Coringa (vivido por Heath Ledger, que recebeu um Oscar póstumo merecido de ator coadjuvante), cada vez mais enlouquecido pelas releituras que deram os quadrinhos, tendo à frente Frank Miller, e decisivamente psicopata. O Coringa de Jack Nicholson no Batman de Burton era tão desequilibrado quanto, mas com nuances mais atenuadas e um humor corrosivo às vezes de tom infantojuvenil. Estamos diante de um vilão que coloca não apenas Batman em xeque, como todo o sistema (policial, jurídico) da cidade. Não se pode acreditar em mais ninguém; tudo está sob suspeita. A vida de Wayne se sente vazia, tanto quanto a de Dent em busca de correção.

Ainda mais do que no primeiro filme, neste Nolan tem uma tendência a cenas de ação ininterruptas, o que deixa o espectador quase sem fôlego. A montagem, especialmente, é uma qualidade: parece que, com a rapidez dos diálogos e do corte de cenas, estamos assistindo não a um filme, mas a um trailer, em que o a trilha sonora tensa de Howard e Zimmer quase não se ausenta, sendo interrompida apenas num ato final um pouco mais expositivo do que o restante.
Algumas das peças cinematográficas de Nolan têm mais de um final, e este tem pelo menos três, no entanto quando consegue conectar tudo é um diretor de talento, mais preciso do que Burton para cenas de ação e visões ameaçadoras da realidade. Seu Batman é um super-herói endurecido pela realidade de Gotham, e o que ele faz não se diferencia em nada dos policiais que vemos em filmes e séries, sobretudo na cena em que tenta interrogar o Coringa. Há nessas sequências, também, uma referência à tortura de terroristas, bem enfocada em A hora mais escura, alguns anos depois, por Kathryn Bigelow. Quando ele confia em Harvey Dent (Aaron Eckhart, apropriado para o papel depois de boas atuações, em Obrigado por fumar, por exemplo) para limpar Gotham, o faz com a mesma noção política que faz mover o prefeito e o Comissário Gordon. Porém, quando se depara com o que irá acontecer a Dent e sua amada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), que é namorada de Dent, parece voltar atrás, como agiria um policial. O dilema aqui ultrapassa a tendência romântica do super-herói e chega a um ponto em que não consegue mais controlar sua tendência de buscar a todo custo coibir que o crime tome conte de sua cidade.

Assim, Batman tem receio de Gotham ser dominada por traficantes, e de haver um adversário justamente como o Coringa, que ateia fogo a uma pilha gigantesca de dinheiro, com o empenho apenas de destruir. Por exemplo, a cena do hospital é grandiosa e por isso perturbadora, mesmo que saibamos se tratar de uma ficção, e suas curvas pelas ruas de Gotham a bordo do carro da polícia deixam o espectador impactado, como se fosse um pouco verdade, tal a neutralidade e frieza com que Nolan filma essas imagens, querendo cada vez mais ver Gotham City em apuros. São momentos em que o gênero de filme de super-heróis se mescla ao thriller urbano. Ao contrário de Batman begins, que preferia mostrar becos enfumaçados e muita chuva, O cavaleiro das trevas prefere a simetria de arranha-céus e esconderijos tecnológicos, além de uma noite asséptica, com grandes avenidas vazias.
Se não há mais a dupla personalidade dada com mais ênfase por Burton, sobretudo em Batman – O retorno, Nolan consegue estabelecer os personagens como figuras mais próximas do espectador, como o próprio Alfred ou o cientista Lucius Fox. Há várias obras coladas nesta peça sonora e visualmente interessante: a viagem de Batman para capturar um criminoso em Tóquio é uma; a de Dent é outra; a dos barcos ao final, outra. Até que eles formam um conjunto, que toma como fundo a transformação da sociedade, seja com sua horda de gângsteres terroristas, seja com um tom até mesmo otimista diante de tudo. Nolan também está interessado em Batman como alguém que vigia a todos por meio de celulares, antecipando uma era moderna, e constantemente perturbado por um passado que não consegue resolver. Talvez seja ainda aquele filme de super-heróis que conseguiu estabelecer um vínculo direto com a realidade e mesmo por isso fez tamanho sucesso. Seu roteiro responde por vários pontos, inclusive pelo talento de Nolan em transformar o que seria menos respeitoso em algo com certo tamanho irrestrito.

The dark knight, EUA/Reino Unido, 2008 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Eric Roberts, Anthony Michael Hall, Nestor Carbonell, Melinda McGraw, William Fichtner, Nathan Gamble Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: James Newton Howard, Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas, Lorne Orleans Duração: 152 min. Estúdio: Legendary Pictures, Syncopy Films, DC Comics Estúdio: Warner Bros. Pictures

80 anos de Ridley Scott

Por André Dick

O cineasta britânico Ridley Scott comemora hoje 80 anos de idade. Algumas críticas sobre filmes dele, publicadas no Cinematographe e no Letterboxd, como homenagem a um dos grandes cineastas da história.

Alien – O 8º passageiro (1979)

Blade Runner – O caçador de androides (1982)

Thelma & Louise (1991)

Gladiador (2000)

Cruzada (2005)

Um bom ano (2006)

Prometheus (2012)

O conselheiro do crime (2013)

Êxodo – Deuses e reis (2014)

Perdido em Marte (2015)

Alien: Covenant (2017)

Abaixo, um TOP 10 de sua carreira:

Melhores filmes 2000-2009

Por André Dick

Imagem.Melhores filmes 2000.2009.CinematographeCom o intuito de organizar uma seleção de filmes da década de 2000, assim como aconteceu em relação aos anos 80 e 90, é apresentada, aqui, uma lista de melhores a cada ano, de 2000 a 2009, cada uma seguida por menções honrosas. O cinema dos anos 2000 é caracterizado por apresentar o cinema asiático de uma maneira que nunca havia acontecido em décadas anteriores.
Cineastas vindos de Taiwan (Apichatpong Weerasethakul), da China (Jia Zhangkhe), do Japão (Wong Kar-Wai, Hirokazu Koreeda, Katsuhito Ishii), da Coreia do Sul (Joon-ho Bong), da Malásia (Tsai Ming-Liang) foram correntes nessa década, em que o cinema norte-americano também continuou abrindo espaço para diretores estrangeiros, a exemplo de Ang Lee, Werner Herzog, Alfonso Cuarón, Wim Wenders, Paul Verhoeven e Guillermo del Toro.
Na Turquia, surgiu Nuri Bilge Ceylan, na Tunísia Abdellatif Kechiche, e, na Índia, Tarsem Singh.
Ainda no México, como Cuarón e Del Toro, surgiram Carlos Reygadas e Alejandro González Iñarritu.
Também teve destaque o cinema iraniano, com cineastas como Abbas Kiarostami e Jafar Panahi.
Cineastas que começaram produzindo nos anos 70, 80 e 90 continuaram a mostrar seus filmes, como David Lynch, Martin Scorsese, Steven Spielberg, Tim Burton, David Cronenberg, Oliver Stone, Woody Allen, William Friedkin, Joel e Ethan Coen, James Cameron, Michael Mann, Gus Van Sant, Brian De Palma, Robert Altman, Ron Howard, Jim Jarmusch e Clint Eastwood. Numa retrospectiva, chamou atenção como o trabalho de Ridley Scott nos anos 2000 equivale, em qualidade, ao que mostrou entre Os duelistas e A lenda, nos anos 70 e 80. Entre os anos 2000 e 2009, de cineastas que não haviam se afirmado tanto anteriormente, estão Kathryn Bigelow e M. Night Shyamalan.
O austríaco Michael Haneke retomou seu trabalho firmado nos anos 90 principalmente por meio do Festival de Cannes, assim como os irmãos Dardenne e Lars von Trier. O espanhol Pedro Almodóvar prosseguiu sua trajetória com obras fortes, a exemplo de Fale com ela. O francês Jean-Pierre Jeunet, depois de uma década de 90 interessante, apresentou uma personagem chamada Amélie Poulain. Outro francês, Gaspar Noé, apostou na polêmica de suas obras, como, em outro patamar, François Ozon. E Cristopher Honoré e Céline Sciamma seguiram a linha de uma visão da juventude.
A geração ligada ao cinema indie dos anos 90 continuou seu trabalho nos anos 2000: Quentin Tarantino, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, Darren Aronofsky, Alexander Payne, Spike Jonze, Hal Hartley, Richard Linklater, Sofia Coppola e Todd Solondz. David Fincher confirmou seu talento já entrevisto nos anos 90 em filmes como Seven. Surgiram Greg Mottola, com sua visão de juventude, assim como Judd Apatow, depois da série Freaks and geeks, com uma comédia baseada em situações familiares. Noah Baumbach surgiu escrevendo roteiros com Wes Anderson e logo enveredou por uma trajetória própria sólida, assim como David O. Russell.
Também nos Estados Unidos, surgem cineastas com inclinação para o espetáculo, como Peter Jackson, J.J. Abrams, Cristopher Nolan, Bryan Singer e Zack Snyder, outros para o drama cotidiano, como Jason Reitman e Kelly Reichardt, ou drama histórico ou atual, com James Gray, e ainda para elementos de ficção científica no cotidiano, a exemplo de Richard Kelly.
Charlie Kaufman fez uma parceria exitosa com Michel Gondry, outra revelação vinda dos videoclipes, e fez seu próprio filme.
Os irmãos Wachowski tentaram avançar em seus experimentos com as continuações de Matrix e com Speed Racer, enquanto os irmãos Peter e Bobby Farrelly continuaram a atuar no campo da comédia.
O inglês Terry Gilliam, o sueco Lukas Moodysson e o alemão Tom Tykwer trouxeram experimentos estranhos, entre o fantástico, o histórico e o familiar. Da Inglaterra, passaram a se destacar Guy Ritchie, Lenny Abrahamson, Stephen Daldry, Steven McQueen e Edgar Wright. Da Holanda, Anton Corbijn.
No Canadá, surgiram Denis Villeneuve e o jovem cineasta Xavier Dolan, e Atom Egoyan voltou a filmar em grande quantidade.
Na Austrália, manteve sua trajetória Jane Campion, e Baz Luhrmann se firmou, assim como Greg Mclean.
E, no universo da animação, apesar da presença da Pixar, foi Hayao Miyazaki quem continuou se destacando. Entre os cineastas brasileiros, Walter Salles e Fernando Meirelles fizeram carreira internacional. Assinala-se o surgimento de cineastas como Laís Bodanzky, Jorge Furtado, José Padilha, Anna Muylaert e Cláudio Assis.
Antes da lista dos melhores filmes de 2000-2009, segue uma de obras com diretores, atores, atrizes dos quais gosto, ou que suscitaram (e ainda suscitam) uma grande recepção, alguns deles ganhando prêmios importantes, igualmente vistos. Se há filmes que apreciamos em minoria, há outros que parecem receber elogios acima do que percebemos. Alguns que estavam nessa lista, quando revistos, foram para a lista de melhores e de menções honrosas. Alguns desses eu gostaria de assistir novamente, para ver se realmente não possuem um valor não visto na primeira ou segunda sessão, e outros eu considero que possuem um estilo e uma condução que não me atrairiam para uma nova visão. Seleciono esses por considerar que eles possuem, de qualquer modo, uma importância para o cinema dos anos 2000, em maior ou menor escala, e que possuem – como todos os filmes – pequenos ou grandes admiradores, alguns recebendo, inclusive, um status de cult:

X-Men (2000), Código desconhecido (2000), A máquina do tempo (2000), Antes de anoitecer (2000), Revelação (2000), Corpo fechado (2000), Do que as mulheres gostam (2000), Planeta vermelho (2000), A praia (2000), O pântano (2001), Moulin Rouge (2001), Assassinato em Gosford Park (2001), Que horas são? (2001), O quarto do filho (2001), Caramuru – A invenção do Brasil (2001), Millenium Mambo (2001), 15 minutos (2001), Dragonfly (2001), A mexicana (2001), A professora de piano (2001), Minority Report (2002), Confissões de uma mente perigosa (2002), Ararat (2002), Ali (2002), Durval Discos (2002), Femme fatale (2002), Para sempre Lylia (2002), Gerry (2002), Sinais (2002), Vida que segue (2002), Full frontal (2002), Spider (2002), Correndo atrás do diploma (2002), Herói (2002), Eternamente sua (2002), Alex & Emma (2002), Escola do rock (2003), O amor custa caro (2003), Identidade (2003), As invasões bárbaras (2003), O apanhador de sonhos (2003), Oldboy (2003), Uma saída de mestre (2003), Ouro carmim (2003), Os sonhadores (2003), X-Men 2 (2003), Duplex (2003), O segredo de Charlie (2003), Matadores de velhinhas (2004), Quarteto fantástico (2004), Mal dos trópicos (2004), O clã das adagas voadoras (2004), Closer (2004), Meu tio matou um cara (2004), A lenda do tesouro perdido (2004), A inveja mata (2004), Má educação (2004), Tudo acontece em Elizabethtown (2005), Match Point (2005), Syriana (2005), Plano de voo (2005), O Código Da Vinci (2005), Stay (2005), Últimos dias (2005), A vida dos outros (2006), O hospedeiro (2006), A dama na água (2006), Instinto selvagem 2 (2006), Diamante de sangue (2006), Cartas de Iwo Jima (2006), Borat (2006), Old joy (2006), Perfume (2006), Reprise (2006), Filhos da esperança (2006), Um plano perfeito (2006), Juno (2007), Sunshine – Alerta solar (2007), Eu sou a lenda (2007), The bucket list (2007), Eles, os vivos (2007), Quem quer ser um milionário? (2008), 35 doses de rum (2008), Vidas que se cruzam (2008), Deixa ela entrar (2008), As duas faces da lei (2008), Os indomáveis (2008), Horas de verão (2008), Gomorra (2008), Um sonho possível (2009), Os homens que encaravam as cabras (2009), Presságio (2009), Dente canino (2009), Sr. Ninguém (2009), Tetro (2009).

Como observado na lista aos melhores filmes dos anos 1980 e 1990, alguns filmes que não agradam na primeira visão se mostram interessantes e até mesmo indispensáveis quando revisitados. Do mesmo modo, outros que a princípio parecem indispensáveis, com o passar dos anos parecem ter o impacto reduzido e se tornam menos importantes. A premissa de que um filme é bom ou fraco muitas vezes varia, mas a distância dos anos parece ser a melhor maneira de constatar isso. Os anos de cada filme estão de acordo com o IMDb, com raras exceções.
Espera-se que as listas levem você, cinéfilo e leitor, a rever ou descobrir alguns desses filmes.

Melhores filmes.Cinematographe.2000

1. As coisas simples da vida (Edward Yang)
2. Dançando no escuro (Lars von Trier)
3. Gladiador (Ridley Scott)
4. Bem-vindos (Lukas Moodysson)
5. Réquiem para um sonho (Darren Aronofsky)
6. Náufrago (Robert Zemeckis)
7. Garotos incríveis (Curtis Hanson)
8. O tigre e o dragão (Ang Lee)
9. O auto da Compadecida (Guel Arraes)
10. O homem sem sombra (Paul Verhoeven)

***

11. Erin Brokovich (Steven Soderbergh) 12. Quase famosos (Cameron Crowe) 13. Amor à flor da pele (Wong Kar-Wai) 14. Plataforma (Jia Zangkhe) 15. Traffic (Steven Soderbergh) 16. Snatch (Guy Ricthie) 17. Dr. T. e as mulheres (Robert Altman) 18. Amores brutos (Alejandro González Iñarritu) 19. Entrando numa fria (Jay Roach) 20. Villa-Lobos (Zelito Viana)

***

Menções honrosas: Alta fidelidade (Stephen Frears), As harmonias de Werckmeister (Béla Tarr), Chocolate (Lasse Hallström), Tolerância (Carlos Gerbase), Encontrando Forrester (Gus van Sant), Duas vidas (Jon Turteltaub), Psicopata americano (Mary Harron), Billy Elliott (Stephen Daldry), Eu, eu mesmo e Irene (Peter e Bobby Farrelly), Amnésia (Cristopher Nolan), UK 571 – A batalha do Atlântico (Jonathan Mostow), O peso da água (Kathryn Bigelow), Um homem de família (Brett Ratner), Sexy beast (Jonathan Glazer), 28 dias (Betty Thomas), Tenha fé (Edward Norton), O sexto dia (Roger Spottiswoode), Shaft (John Singleton), Missão: Marte (Brian De Palma)

Melhores filmes.Cinematographe.2001.2

1. Os excêntricos Tenenbaums (Wes Anderson)
2. Cidade dos sonhos (David Lynch)
3. O senhor dos anéis – A sociedade do anel (Peter Jackson)
4. Donnie Darko (Richard Kelly)
5. O fabuloso destino de Amélie Poulain (Jean-Pierre Jeunet)
6. Ghost World (Terry Zwigoff)
7. Abril despedaçado (Walter Salles)
8. A espinha do diabo (Guillermo del Toro)
9. O amor é cego (Peter e Bobby Farrelly)
10. CQ (Roman Coppola)

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11. Bicho de sete cabeças (Laís Bodansky) 12. E sua mãe também (Alfonso Cuarón) 13. Chegadas e partidas (Lasse Hallström) 14. Os outros (Alejandro Amenábar) 15. O homem que não estava lá (Joel e Ethan Coen) 16. Falcão negro em perigo (Ridley Scott) 17. O escorpião de Jade (Woody Allen) 18. O diário de Bridget Jones (Sharon Maguire) 19. Inteligência artificial (Steven Spielberg) 20. Dia de treinamento (Antoine Fuqua)

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Menções honrosas: Cine Majestic (Frank Darabont) Entre quatro paredes (Todd Field), A promessa (Jack Nicholson), Tá todo mundo louco (Jerry Zucker), O invasor (Beto Brant), Um ato de coragem (Nick Cassavetes), Um anjo rebelde (Nick Castle), A última ceia (Marc Forster), Tempo de recomeçar (Irwin Winkler), Harry Potter e a pedra filosofal (Chris Columbus), Os queridinhos da América (Joe Roth), A cartada final (Frank Oz), Vanilla Sky (Cameron Crowe), Jimmy Bolha (Blair Hayes), Domésticas (Fernando Meirelles e Nando Olival), Zoolander (Ben Stiller), Planeta dos macacos (Tim Burton), A viagem de Chihiro (Hayao Miyazaki), O assalto (David Mamet), Escrito nas estrelas (Peter Chelsom), K-Pax (Ian Softley), Iris (Richard Eyre), Kate e Leopold (James Mangold), Pulse (Kiyoshi Kurosawa), Amores possíveis (Sandra Werneck), Vida bandida (Barry Levinson), O closet (Francis Veber), Uma lição de amor (Jessie Nelson), Doce novembro (Pat O’Connor), Evolução (Ivan Reitman)

Melhores filmes.Cinematographe.2002

1. Cidade de Deus (Fernando Meirelles)
2. As confissões de Schmidt (Alexander Payne)
3. O senhor dos anéis –  As duas torres (Peter Jackson)
4. Fale com ela (Pedro Almodóvar)
5. Arca russa (Alexander Sukorov)
6. Irreversível (Gaspar Noé)
7. Distante (Nuri Bilge Ceylan)
8. As horas (Stephen Daldry)
9. Regras da atração (Roger Avary)
10. Retratos de uma obsessão (Mark Romanek)

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11. Japão (Carlos Reygadas) 12. Adaptação (Spike Jonze) 13. O pianista (Roman Polanski) 14. Longe do paraíso (Todd Haynes) 15. Dirigindo no escuro (Woody Allen) 16. K – 19 (Kathryn Bigelow) 17. Narc (Joe Carnahan) 18. O romance de Morvern Callar (Lynne Ramsay) 19. A última noite (Spike Lee) 20. Prenda-me se for capaz (Steven Spielberg)

***

Menções honrosas: Estrada para perdição (Sam Mendes), Peso morto (Alain Berbérian, Frédéric Forestier), Um grande garoto (Chris Weitz), 8 Mile – Rua das ilusões (Curtis Hanson), Uma mente brilhante (Ron Howard), A estranha família de Igby (Burr Steers), Star Wars II – O ataque dos clones (George Lucas), Bellini e a esfinge (Roberto Santucci), Casamento grego (Joel Zwick), Embriagado de amor (Paul Thomas Anderson), A era do gelo (Chris Wedge, Carlos Saldanha), Infidelidade (Adrian Lyne), Voltando a viver (Denzel Washington), Houve uma vez dois verões (Jorge Furtado), Por um sentido na vida (Miguel Arteta), Equilibrium (Kurt Wimmer), Gangues de Nova York (Martin Scorsese), Dragão vermelho (Brett Ratner), O chamado (Gore Verbinski), O crime do padre Amaro (Carlos Carrera), Ônibus 174 (José Padilha), Cálculo mortal (Barbet Schroeder), Fora de controle (Roger Michell), Insônia (Cristopher Nolan), Códigos de guerra (John Woo), Dívidas de sangue (Clint Eastwood), Tudo ou nada (Mike Leigh), Ken Park (Larry Clark, Edward Lachman), Crimes em primeiro grau (Carl Franklin), Amor à segunda vista (Marc Lawrence), Chicago (Rob Marshall), Por um fio (Joel Schumacher), Solaris (Steven Soderbergh), Secretária (Steven Shainberg), The Strokes – In transit (Juliet Joslin), Reino de fogo (Rob Bowman), Frida (Julie Taymor), Cabin fever (Eli Roth), O quarto do pânico (David Fincher)

Melhores filmes.Cinematographe.2003

1. O senhor dos anéis – O retorno do rei (Peter Jackson)
2. Memórias de um assassino (Joon-ho Bong)
3. Casa de areia e névoa (Vadim Perelman)
4. 21 gramas (Alejandro González Iñárritu)
5. Alguém tem que ceder (Nancy Meyers)
6. Adeus, Dragão Inn (Tsai Ming-Liang)
7. Moça com brinco de pérola (Peter Webber)
8. Adeus, Lênin (Wolfgang Becker)
9. Swimming Pool – À beira da piscina (François Ozon)
10. Anti-herói americano (Shari Springer Berman, Robert Pulcini)

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11. Elefante (Gus van Sant) 12. Igual a tudo na vida (Woody Allen) 13. Matrix revolutions (Andy Wachowski, Lana Wachowski) 14. O homem que copiava (Jorge Furtado) 15. Dogville (Lars von Trier) 16. Hulk (Ange Lee) 17. As bicicletas de Belleville (Sylvain Chomet) 18. Tratamento de choque (Peter Segal) 19. O último samurai (Edward Zwick) 20. Papai Noel às avessas (Terry Zwigoff)

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Menções honrosas: Amarelo manga (Cláudio Assis), Abaixo o amor (Peyton Reed), Sobre meninos e lobos (Clint Eastwood), Seabiscuit (Gary Ross), O novato (Roger Donaldson), A vida de David Gale (Alan Parker), O recruta (Roger Donaldson), Peixe grande (Tim Burton), O homem do ano (José Henrique Fonseca), Peter Pan (P.J. Hogan), Simplesmente amor (Richard Curtis), Voando alto (Bruno Barreto), O júri (Gary Fleder), Um duende em Nova York (Jon Favreau), Os vigaristas (Ridley Scott), Jogo de risco (William ‘Bill’ Phillips), Dom (Moacyr Góes), Todo mundo em pânico 3 (David Zucker), O mundo de Leland (Matthew Ryan Hoge), Cold Mountain (Anthony Minguella), Sylvia (Christine Jeffs), Por um triz (Carl Franklin), Harry Potter e o cálice de fogo (Mike Newell), Aos treze (Catherine Hardwicke), Primavera, verão, outono, inverno… e primavera (Ki-duk Kim), Encontros e desencontros (Sofia Coppola), Carandiru (Hector Babenco), Matrix reloaded (Andy Wachowski, Lana Wachowski), Procurando Nemo (Andrew Stanton, Lee Unkrich), O exterminador do futuro 3 – A rebelião das máquinas (Jonathan Mostow), Crimes de um detetive (Keith Gordon), Kill Bill – Vol. I (Quentin Tarantino), Medo (Jee-woon Kim), Uma saída de mestre (F. Mary Gray), O agente da estação (Thomas McCarthy), Lisbela e o prisioneiro (Guel Arraes)

Melhores filmes.Cinematographe.2004

1. O castelo animado (Hayao Miyazaki)
2. O sabor do chá (Katsuhito Ishii)
3. Sideways (Alexander Payne)
4. O mundo (Jia Zhangke)
5. A vida marinha com Steve Zissou (Wes Anderson)
6. Kill Bill – Vol. II (Quentin Tarantino)
7. 2046 (Wong Kar-Wai)
8. Meu amor de verão (Pawel Pawlikowksi)
9. Huckabees – A vida é uma comédia (David O. Russell)
10. O silêncio de Melinda (Jessica Sharzer)

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11. Hora de voltar (Zach Braff) 12. Tartarugas podem voar (Bahman Ghobadi) 13. Reencarnação (Jonathan Glazer) 14. Fahrenheit 9/11 (Michael Moore) 15. Primer (Shane Carruth) 16. Clean (Olivier Assayas) 17. Todo mundo quase morto (Edgar Wright) 18. Hotel Ruanda (Terry George) 19. Antes do pôr do sol (Richard Linklater) 20. A queda (Oliver Hirschbiegel)

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Menções honrosas: Menina de ouro (Clint Eastwood), Diário de uma paixão (Nick Cassavetes), Napoleon Dynamite (Jared Hess), Espanglês (James L. Brooks), Diários de motocicleta (Walter Salles), Homem- aranha 2 (Sam Raimi), Em boa companhia (Paul Weitz), Somersault (Cate Shortland), Troia (Wolfgang Petersen), Hellboy (Guillermo del Toro), Melinda e Melinda (Woody Allen), Kung-fusão (Stephen Chow), Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Michel Gondry), Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (Alfonso Cuarón), Colateral (Michael Mann), Edukators (Hans Weingartner), Mistérios da carne (Gregg Araki), O terminal (Steven Spielberg), Quero ficar com Polly (John Hamburg), Crash (Paul Haggis), Redentor (Cláudio Torres), Onze homens e um segredo (Steven Soderbergh), O aviador (Martin Scorsese), Como se fosse a primeira vez (Peter Segal), Em busca da terra do nunca (Marc Forster), A paixão de Cristo (Mel Gibson), Shreck 2 (Andrew Adamson, Kelly Asbury, Conrad Vernon), Madrugada dos mortos (Zack Snyder), A vila (M. Night Shyamalan), O fantasma da ópera (Joel Schumacher), Eterno amor (Jean Pierre-Jeunet), Os incríveis (Brad Bird), Desventuras em série (Brad Silberling)

Melhores filmes.Cinematographe.2005.3

1. Caché (Michael Haneke)
2. Cruzada (Ridley Scott)
3. A lula e a baleia (Noah Baumbach)
4. Johnny & June (James Mangold)
5. Estrela solitária (Wim Wenders)
6. A criança (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
7. A ponta de um crime (Rian Johnson)
8. King Kong (Peter Jackson)
9. O virgem de 40 anos (Judd Apatow)
10. Batalha no céu (Carlos Reygadas)

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11. Munique (Steven Spielberg) 12. O jardineiro fiel (Fernando Meirelles) 13. Batman begins (Cristopher Nolan) 14 Marcas da violência (David Cronenberg) 15. Star Wars – A vingança dos Sith (George Lucas) 16. Flores partidas (Jim Jarmursh) 17. Guerra dos mundos (Steven Spielberg) 18. O segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee) 19. A luta pela esperança (Ron Howard) 20. Boa noite e boa sorte (George Clooney)

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Menções honrosas: O guia do mochileiro das galáxias (Gareth Jennings), Beijos e tiros (Shane Black), Funky Forest – O confronto final (Katsuhito Ishii), O sol de cada manhã (Gore Verbinski), O novo mundo (Terrence Malick), Em seu lugar (Curtis Hanson), Wolf Creek (Greg Mclean), As crônicas de Nárnia (Andrew Adamson), Água negra (Walter Salles), O vale proibido (David Jacobson), Cidade baixa (Sérgio Machado), Os irmãos Grimm (Terry Gilliam), Retratos de família (Phil Morrison), A intérprete (Sidney Pollack), Harry Potter e o cálice de fogo (Mike Newell), V de vingança (James McTeigue), Tideland (Terry Gilliam), Tudo em família (Thomas Bezucha), Amor em jogo (Peter e Bobby Farrelly), Tapete vermelho (Luis Alberto Pereira), Amores constantes (Phillipe Garrell), Constantine (Francis Lawrence), De repente é amor (Nigel Cole), Obrigado por fumar (Jason Reitman), Voo noturno (Wes Craven), Verdade nua (Atom Egoyan), A fantástica fábrica de chocolate (Tim Burton)

Melhores filmes.Cinematographe.2006

1. Império dos sonhos (David Lynch)
2. Em busca da vida (Jia Zhangke)
3. Serras da desordem (Andrea Tonacci)
4. Dália negra (Brian De Palma)
5. Maria Antonieta (Sofia Coppola)
6. Pequena miss Sunshine (Jonathan Dayton, Valerie Faris)
7. Síndromes e um século (Apichatpong Weerasethakul)
8. Babel (Alejandro González Iñárritu)
9. Volver (Pedro Almodóvar)
10. Fora do jogo (Jafar Panahi)

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11. Climas (Nuri Bilge Ceylan) 12. Miami Vice (Michael Mann) 13. O sobrevivente (Werner Herzog) 14. Apocalypto (Mel Gibson) 15. Um bom ano (Ridley Scott) 16. Missão: impossível III (J.J. Abrams) 17. Sonhando acordado (Michel Gondry) 18. 007 – Cassino Royale (Martin Campbell) 19. Rocky Balboa (Sylvester Stallone) 20. Nacho libre (Jared Hess)

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Menções honrosas: O diabo veste prada (David Frankel), Viagem maldita (Alexandre Aja), The fall (Tarsem Singh), Superman – O retorno (Bryan Singer), Medos privados em lugares públicos (Alain Resnais), A era do gelo 2 (Carlos Saldanha), Mais estranho que a ficção (Marc Forster), Um beijo a mais (Tony Goldwyn), World Trade Center (Oliver Stone), Southland Tales (Richard Kelly), Voo 193 (Paul Greengrass), Half Nelson (Ryan Fleck), As férias da minha vida (Wayne Wang), Silent Hill (Cristophe Gans), Cães assassinos (Nicholas Mastrandea), A fonte (Darren Aronofsky), Apenas uma vez (John Carney), O labirinto do fauno (Guillermo del Toro), A rainha (Stephen Frears), 300 (Zack Snyder), Flanders (Bruno Dumont), O grande truque (Cristopher Nolan), A casa monstro (Gil Kenan), A espiã (Paul Verhoeven), Possuídos (William Friedkin), Nação fast food – Uma rede de corrupção (Richard Linklater), Paprika (Satoshi Kon)

Melhores filmes.Cinematographe.2007

1. Zodíaco (David Fincher)
2. Sangue negro (Paul Thomas Anderson)
3. 4 meses, 3 semanas e 2 dias (Cristian Mungiu)
4. Onde os fracos não têm vez (Joel e Ethan Coen)
5. Viagem a Darjeeling (Wes Anderson)
6. Luz silenciosa (Carlos Reygadas)
7. Letra e música (Marc Lawrence)
8. O gângster (Ridley Scott)
9. Rocket science (Jeffrey Blitz)
10. Lírios-d’água (Céline Sciamma)

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11. Boarding gate (Olivier Assayas) 12. Paranoid Park (Gus van Sant) 13. O segredo do grão (Abdellatif Kechiche) 14. Controle – A vida de Ian Curtis (Anton Corbijn) 15. Antes que o diabo saiba que você está morto (Sidney Lumet) 16. Superbad – É hoje (Greg Mottola) 17. Chumbo grosso (Edgard Wright) 18. O sonho de Cassandra (Woody Allen) 19. A família Savage (Tamara Jenkins) 20. Garage (Lenny Abrahamson)

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Menções honrosas: O ultimato Bourne (Paul Greengrass), Leões e cordeiros (Robert Redford), Mandela – A luta pela liberdade (Bille August), Saneamento básico – O filme (Jorge Furtado), Beowulf (Robert Zemeckis), Temos vagas (Nimród Antal), Do outro lado (Fatih Akin), Morte súbita (Greg Mclean), Tropa de elite (José Padilha), O nevoeiro (Frank Darabont), Senhores do crime (David Cronenberg), Na natureza selvagem (Sean Penn), Ratatouille (Brad Bird e Jan Pinkava), Desejo e reparação (Joe Wright), O escafandro e a borboleta (Julian Schnabel), O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (Andrew Dominik), Desejo e perigo (Ang Lee), Medo da verdade (Ben Affleck), Sem reservas (Scott Hicks), Antes só do que mal casado (Peter e Bobby Farrelly), Jogos do poder (Mike Nichols), Hotel Chevalier (Wes Anderson), Margot e o casamento (Noah Baumbach), A hora do rush 3 (Brett Ratner), Invasores (Oliver Hirschbiegel e James McTeigue), Um beijo roubado (Wong Kar-Wai), The go-getter (Martin Hynes)

Melhores filmes.Cinematographe.2008

1. Andando (Hirokazu Koreeda)
2. O curioso caso de Benjamin Button (David Fincher)
3. O silêncio de Lorna (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
4. Frost/Nixon (Ron Howard)
5. Sinédoque, Nova York (Charlie Kaufman)
6. Wendy e Lucy (Kelly Reichardt)
7. Valsa com Bashir (Ari Folman)
8. O casamento de Rachel (Jonathan Demme)
9. Linha de passe (Walter Salles)
10. Entre os muros da escola (Laurent Cantent)

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11. Ponyo – Uma amizade que veio do mar (Hayao Miyazaki) 12. Ensaio sobre a cegueira (Fernando Meirelles) 13. Kung-fu Panda (Mark Osborne e John Stevenson) 14. Amantes (James Gray) 15. Guerra ao terror (Kathryn Bigelow) 16. A bela Junie (Christophe Honoré) 17. Mamma mia! (Phyllida Lloyd) 18. Operação Valquíria (Bryan Singer) 19. Última parada 174 (Bruno Barreto) 20. Indiana Jones e o reino da caveira de cristal (Steven Spielberg)

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Menções honrosas: Fim dos tempos (M. Night Shyamalan), Sim, senhor (Peyton Reed), Lemon tree (Eran Riklis), Milk (Gus van Sant), W (Oliver Stone), Rede de mentiras (Ridley Scott), Queime depois de ler (Joel e Ethan Coen), Foi apenas um sonho (Sam Mendes), Era uma vez… (Breno Silveira), Cloverfield (Matt Reeves), Dúvida (John Patrick Shanley), 24 city (Jia Zhangke), Batman – O cavaleiro das trevas (Cristopher Nolan), Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen), Afterschool (Antonio Campos), Gran Torino (Clint Eastwood), Austrália (Baz Luhrmann), Homem de ferro (Jon Favreau), Na mira do chefe (Martin McDonagh), Lóki (Paulo Henrique Fontenelle), Adoração (Atom Egoyan), A menina no país das maravilhas (Daniel Barnz), As crônicas de Spiderwick (Mark Waters), WALL-E (Andrew Stanton), Fome (Steve McQueen), Speed Racer (Andy Wachowski, Lana Wachowksi), Tokyo (Jon-ho Bong, Leos Carax, Michel Gondry)

Melhores filmes.Cinematographe.2009

1. Bastardos inglórios (Quentin Tarantino)
2. Enter the void (Gaspar Noé)
3. A fita branca (Michael Haneke)
4. Um homem sério (Joel e Ethan Coen)
5. Star Trek (J.J. Abrams)
6. Eu matei a minha mãe (Xavier Dolan)
7. Amor sem escalas (Jason Reitman)
8. Inimigos públicos (Michael Mann)
9. Sherlock Holmes (Guy Ritchie)
10. Watchmen (Zack Snyder)

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11. Politécnique (Denis Villeneuve) 12. Abraços partidos (Pedro Almodóvar) 13. O segredo dos seus olhos (Juan José Campanella) 14. Tudo pode dar certo (Woody Allen) 15. Coração louco (Scott Cooper) 16. O fantástico Sr. Raposo (Wes Anderson) 17. Chloe – O preço da traição (Atom Egoyan) 18. Corações em conflito (Lukas Moodysson) 19. Adventureland (Greg Mottola) 20. Micmacs (Jean-Pierre Jeunet)

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Menções honrosas: Distante nós vamos (Sam Mendes), Avatar (James Cameron), Distrito 9 (Neill Blomkamp), Harry Potter e o enigma do príncipe (David Yates), Mother – A busca pela verdade (Joon-ho Bong), (500) dias com ela (Marc Webb), O desinformante (Steven Soderbergh), À procura de Elly (Asghar Farhadi), É proibido fumar (Anna Muylaert), Ganhar ou ganhar (Thomas McCarthy), Up – Altas aventuras (Pete Docter, Bob Peterson), Onde vivem os monstros (Spike Jonze), Titãs – A vida até parece uma festa (Oscar Rodrigues Alves e Branco Mello), Redline (Takeshi Koike), Jean Charles (Henrique Goldman), Direito de amar (Tom Ford), Lunar (Duncan Jones), Se beber, não case! (Todd Phillips), Zumbilândia (Ruben Fleischer), Vício frenético (Werner Herzog), Sede de sangue (Chan-wook Park), Gentlemen Broncos (Jared Hess), Polícia, adjetivo (Corneliu Porumboiu), A caixa (Richard Kelly), Um professor em apuros (Mike Million), O brilho de uma paixão (Jane Campion)

Viagem a Darjeeling (2007)

Por André Dick

Viagem a Darjeeling 4

Resultado de uma viagem de Wes Anderson com Roman Coppola e Jason Schwartzman à Índia, Viagem a Darjeeling tem, desse modo, uma referência cultural amplamente discutida principalmente desde os anos 60 dos Beatles. A atmosfera psicodélica dessa década também não deixa de se reproduzir na profusão de cores despertada por esse país, à procura não de um choque entre culturas, mas uma procura pela convivência harmoniosa entre elas, assim como as mercadorias a serem carregadas na cabine de um trem e um exemplo para a tentativa de buscar um conforto espiritual. Não por acaso, o roteiro produziu a história de relacionamento entre três irmãos da família Whitman (nome simbólico): Jack (o próprio Schwartzman), Peter (Adrien Brody) e Francis (Owen Wilson). E, se apenas Brody não fazia parte do elenco natural de Anderson (até regressar no recente O grande Hotel Budapeste), não significa que ele também não seja um reflexo de outros personagens de filmes do diretor. Seu Peter é o homem que tenta buscar equilíbrio entre os exageros dos irmãos, embora também não se mostre exatamente alguém a ser seguido; na filmografia de Anderson, ele parece o tenista de Os excêntricos Tenenbaums e o filho indefinido de Steve Zissou.
Talvez o ator predileto de Anderson (sem diminuir a participação de outros), Bill Murray interpreta um homem correndo numa estação de trem, e logo vemos Peter se colocando à sua frente. Este e seus irmãos empreendem uma viagem à Índia para tentarem encontrar a mãe (Anjelica Huston), depois da morte do pai, e o objetivo também é se reconciliarem de maneira com que possam ser vistos como uma família. Viagem a Darjeeling tem como objetivo situar esses irmãos num momento-chave de suas vidas e, se pelas cores cada vez mais vivas, parece cartunesco, quase uma prévia clara de O fantástico Sr. Raposo, surge em igual intensidade o seu trabalho afetivo entre os personagens.

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Enquanto Jack é o mais volúvel, tendo sido deixado pela namorada (Natalie Portman, mais destacada no curta Hotel Chevalier, que acompanha o filme), após esta lhe recomendar um caminho de espiritualidade, Peter tenta relembrar seu pai a todo momento, dizendo-se o filho favorito, e Francis fica enciumado porque ele usa o barbeador do pai: “Isso é uma herança dele; não privilégio seu”. É dele a ideia da viagem, depois de um acidente de moto, que o obriga a passar todo o filme com a cabeça quase totalmente coberta por faixas por causa dos ferimentos.
Depois de seu questionamento, há muitas coisas a acontecer em Viagem a Darjeeling, inclusive às voltas com uma atendente, Rita (Amara Kahn), e um comissário (Waris Ahulwalia), mas nenhuma delas tão importante quanto a tentativa de manter a memória familiar como uma paisagem a ser visitada quando se deseja, nos momentos mais tranquilos ou incômodos. O trem, nesse sentido, passa a ser um símbolo desse encontro: com cabines apertadas e corredores abertos à passagem da câmera de Anderson, mas dialogando com a imensidão da paisagem externa, esses corredores acabam mostrando que os personagens, seja para onde tentarem ir, não poderão escapar uns dos outros, e o encontro acaba sendo mais do que necessário: é uma imposição, precisa existir.
Após o criticado A vida marinha com Steve Zissou, Wes Anderson passou alguns anos elaborando esta obra que busca na humanidade o principal diálogo. Cada movimento de câmera, as cores evocando a Índia, com influência do cineasta Satyajit Ray, ou de filmes, como Passagem para a Índia, a tentativa de atingir uma espiritualidade, o enfrentamento da morte e o desapego são temas espalhados ao longo da obra de Anderson, mas não de forma tão intensa e despreocupada quanto em Viagem a Darjeeling.

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A sua habitual técnica para compor cenários, com a ajuda do fotógrafo Robert D. Yeoman, a partir de locais corriqueiros, lidando com uma paleta de cores desencavada de algum livro infantil, só consegue dialogar com a tristeza dos personagens centrais quando se deparam com um momento delicado e com o pai de um menino que tentam ajudar (Irfan Khan), perdidos no meio de um lugar desconhecido. É exatamente em dado momento, quando se recupera os momentos que antecederam o enterro do pai um ano antes, que Viagem a Darjeeling se torna mais próximo de uma humanidade procurada em cada gesto. Veja-se, por exemplo, quando os irmãos estão num ônibus e são convidados a participar de uma determinada situação que tanto os coloca numa situação de mudança como faz o filme emergir de um certo ritmo aparentemente mais descompromissado para se fixar nas razões existenciais de cada um deles.
Aqui, mais do que em outros filmes seus, Anderson está preocupado em estabelecer um vínculo existencial desses personagens com o seu passado: há algo nesse passado que os afasta, mas é preciso reconhecer que sem ele não existiriam como indivíduos. Anderson aborda com tanta sutileza este tema que é interessante ver como há um crescimento em seu olhar, depois de temas tratados aqui terem sido elaborados também, com outras características, nos primeiros filmes. Em Viagem a Darjeeling, existe uma elaboração mais madura, em conjunto com a trilha sonora dos Kinks e a câmera lenta agradável. Sempre quando se coloca nos cenários que servem de passagem à sua narrativa, Anderson procura a ambientação buscada pelos irmãos.

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Ao contrário da profusão psicodélica, os enquadramentos de Yeoman são voltados a uma espécie de concentração do diretor em reproduzir nesta paisagem da Índia traços de uma determinada escola de cinema francesa, e o tom amarelo desencadeia cada cenário, o que pode ser destacado já em Hotel Chevalier, com os roupões utilizados por Jack e a presença de Natalie Portman. No entanto, essa aparente tranquilidade dos cenários pode sempre ser interrompida por algum acontecimento inusitado e a concentração dos Whitman em buscar sua espiritualidade nunca esquece, por outro lado, o quanto ela depende dos seres humanos que estão à volta ou foram deixados, sem intenção, para trás. E isso justamente leva a que um dos irmãos pergunte aos demais se eles, caso não fossem irmãos, seriam pelo menos amigos.
O ambiente familiar – ou a ausência dele, como para o jovem de Rushmore – é uma característica que liga todos os filmes de Anderson, mas sobretudo Os excêntricos Tenenbaums, A vida marinha com Steve Zissou e Moonrise Kingdom. Os irmãos Whitman estão viajando de trem quando precisam finalmente enfrentar uma noite no deserto, e temos uma espécie de animação humana, antecipando o Sr. Raposo, no momento em que se risca a luminosidade da fogueira em meio à escuridão. Ao acordarem, caminham com as malas do pai, em busca finalmente de um certo conhecimento sobre o lugar em que se encontram, mas ainda assim não conseguem se recuperar, pois seus pais não estão presentes. Anderson separa alguns símbolos, como os ferimentos de Jack e as malas do pai como elementos de uma jornada interior para que se descubra realmente os objetivos de cada um – o grandioso no microscópico: não se necessita de uma paisagem ou de um tigre indiano; para eles, talvez a vida exemplar esteja numa tigela de cereais. Nisso, mais do que os outros filmes de Anderson, Viagem a Darjeeling lida com a ausência simbolizada pela morte, assim como o enfrentamento real dela, na figura do outro, aqui simbolizada tanto pelo cenário quanto pela busca de uma mãe já inalcançável, mas ainda próxima e disposta a fazer dos poucos momentos que restam um sinal de cumplicidade.

The Darjeeling limited, EUA, 2007 Diretor: Wes Anderson Elenco: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Amara Karan, Camilla Rutherford, Irfan Khan, Bill Murray, Anjelica Huston Roteiro: Jason Schwartzman, Roman Coppola, Wes Anderson Fotografia: Robert D. Yeoman Produção: Lydia Dean Pilcher, Roman Coppola, Scott Rudin, Wes Anderson Duração: 91 min. Distribuidora: Fox Home Entertainment Estúdio: Scott Rudin Productions

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

 

Dogville (2003)

Por André Dick

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Se existe um cineasta que procura, a cada filme, subverter a linguagem cinematográfica nos últimos anos é o dinamarquês Lars von Trier. Sua melancolia em quadros e com ritmo de ópera é justamente a de evidenciar o universo do qual faz parte sob um olhar negativo ao extremo e, se diria, sempre incomparável. Depois de receber a Palma de Ouro em Cannes por Dançando no escuro – em que colocava Bjork num musical excêntrico e excepcional –, ele tentou novamente o prêmio com seu Dogville. Desta vez, não teve êxito, mas não por falta de tentativa. Dogville tem todos os elementos que podem ser percebidos em sua filmografia: um trato com o roteiro na medida mais ajustada, aparando os excessos, e com o elenco, em seu estado mais interessante, desde Nicole Kidman, passando por Paul Bettany e Lauren Bacall, até Ben Gazarra e Philip Baker Hall. São todas figuras conhecidas do cinema mainstream, mas Von Trier não deseja colocá-los num cenário comum.
Narrada por John Hurt, a história de Dogville se passa nas Montanhas Rochosas dos Estados Unidos durante a Depressão dos anos 30. Um morador, Thomas Edison Jr. (Bettany) ouve, certa noite, tiros e surge Grace Margaret Mulligan (Kidman), tentando se esconder de um carro com figuras que parecem mafiosos. Aceita por ele, Grace decide ficar na cidade, mas precisa ser aceita como parte integrante da comunidade. Depois de uma reunião na igreja do local, quando se decide se ela fica ou irá embora, temos a medida mais afetiva de Dogville: Grace se transforma numa espécie de ajudante (possíveis spoilers a partir daqui).

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Ela ajuda Jack McKay (Ben Gazzara), um cego, e deve cuidar dos filhos de Vera (Patricia Clarkson) e Chuck (Stellan Skarsgård), que a violenta sexualmente. Ainda há, entre os moradores, Bill (Jeremy Davies), sua mulher (Blair Brown) e Liz Henson (Chloë Sevigny), além de Madame Ginger (Lauren Bacall). E o escritor da cidade sempre está à sua volta, querendo fazê-la, a princípio, feliz. Não se sabe, porém, de onde ela é. O problema é que no dia 4 de julho (data simbólica dos Estados Unidos) começam a surgir policiais na cidade pregando a imagem dela como uma ladra procurada. Os habitantes da comunidade começam a ficar incomodados com a situação, mesmo que depois de a receberem de braços abertos.
Tudo está para mudar em Dogville, mas Von Trier prefere um palco de teatro para delimitar as ações do que os espaços abertos da vida real. O espectador precisa lidar com o fato de que, ao se referir às belíssimas Montanhas Rochosas, estamos, na verdade, vendo o fim do palco, antecedido por algumas rochas possivelmente de papelão. Quando os personagens estão em suas casas, podemos vê-los, pois apenas o que as delimita são traçados de giz no chão – e a câmera de Von Trier os mostra algumas vezes de cima, como se cada personagem fosse uma espécie de peça de xadrez, o qual o diretor vai movimentando, conforme deseja e à sua conveniência. E, quando tudo parece tranquilo, Von Trier antecipa a melancolia que se abate sobre Kirsten Dunst de outro modo, mas ainda assim impactante.

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Já se falou o quanto Dogville pode ser visto como um filme antiamericano. Embora se diga que o diretor nunca visitou os Estados Unidos, ele procura traçar um panorama da época da depressão de modo cabal. Todos da comunidade de Dogville estão tentando um lugar ao sol, e as economias parecem depender da plantação de maçãs, mas o intelecto do escritor é que parece mais indefinido entre a ajuda e a ameaça. Parece que Von Trier quer dizer que os Estados Unidos reservam uma espécie de segunda pele ameaçadora e exploradora, e que a Depressão, afinal, cai como uma luva nesses vilarejos destinados ao esquecimento.
É quando Von Trier, com sua necessidade de levar a narrativa a um clímax que possa despertar o espectador, ou simplesmente destituí-lo de imaginação além do que está vendo (como em Melancolia), mostra exatamente sua pretensão, ao eleger a máfia como uma espécie de purgatório desta nação condenável que o filme aponta para linhas baseadas em Brecht, mas acaba deixando uma dívida consequente e uma indagação: afinal, Von Trier visualiza a mulher como uma espécie de expiação da infelicidade humana, para que brote alguma plantação capaz de indicar uma renovação, junto com a primavera? Se Von Trier concebe Dogville sob esse ponto de vista, é mais do que claro, mas por que exatamente Grace precisa, antes, entregar a sua dignidade, a ponto de causar revolta? O que há nela, para Von Trier, que merece esse castigo constante diante de quem a cerca? É apenas para justificar a violência que paira e ronda sobre cada um desses habitantes? Nesse sentido, toda a estrutura de Dogville acaba sendo ligada, de modo mais ou menos consciente, a seu final, ou seja, as ações do filme justificam a chegada derradeira do que deve ser enfrentado e, afinal, da vingança, pura e simples.

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Von Trier colocar “Young americans” de David Bowie, depois que começam a rolar os créditos, pode ser visto como algo genial, por todo o contraponto que se estabelece. No entanto, é importante dizer que, ao fazer isso, está apenas cumprindo sua satisfação pop: a de que segue a cartilha de Hollywood, e Dogville, mesmo com seu cenário teatral anti-mainstream, parece esconder outra sub-realidade, que é na verdade a de si mesmo, como filme. Não há nenhuma diferença, em determinados momentos, de Von Trier para um cineasta que pretende mostrar a sede do cumprimento da vingança. Quando encurta a câmera para vislumbrar um cão a princípio imaginário, no fundo trata disso: do seu deslocamento das Montanhas Rochosas do teatro para o verão da Califórnia, o que está em discussão é a essência do ser humano e da civilização. Seu experimentalismo é apenas uma vertente do mesmo comércio que critica com a figura dos mafiosos, e Von Trier imagina que, certamente, seu filme tem toda a beleza caótica do que imagina mostrar. E, apesar de sua pretensão, muitas vezes tem e é o que o diferencia.

Dogville, Dinamarca/ Suécia/ França/ Noruega/ Holanda/ Finlândia/ Alemanha/ Itália/ Reino Unido, 2003 Diretor: Lars von Trier Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown, James Caan, Patricia Clarkson, Jeremy Davies, Ben Gazzara, Philip Baker Hall, Thom Hoffman, Siobhan Fallon, John Hurt, Zeljko Ivanek, John Randolph Jones, Udo Kier, Cleo King, Miles Purinton, Bill Raymond, Chloë Sevigny, Shauna Shim, Stellan Skarsgård, Evelina Brinkemo, Anna Brobeck, Tilde Lindgren, Evelina Lundqvist, Helga Olofsson, Ulf Andersson, Jan Coster, Mattias Fredriksson, Andreas Galle, Barry Grant, László Hágó, Niklas Henriksson, Mikael Johansson, Hans Karlsson, Lee R. King, Oskar Kirkbakk, Ingvar Örner, Erich Silva, Kent Vikmo, Eric Voge, Ove Wolf Roteiro: Lars von Trier Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Antonio Vivaldi Produção: Vibeke Windeløv Duração: 178 min. Distribuidora: Lions Gate Entertainment

Cotação 4 estrelas e meia

 

Chamada.Filmes dos anos 2000

Cidade dos sonhos (2001)

Por André Dick

Uma mulher (Laura Elena Harring) se acidenta na Mulholland Drive, de Los Angeles, depois de várias curvas sinuosas (estamos na versão noturna de O iluminado?), não sem antes ser ameçada por um homem armado, perdendo a memória. Em seguida, vaga perdida pela noite, indo parar numa casa onde ficará uma atriz, Betty Elms (Naomi Watts, em sua grande atuação), que chega a Holywood para fazer testes, ao som da música melancólica de Angelo Badalamenti – a cena em que ela chega ao aeroporto com um casal de velhinhos com sorriso assustador, peças-chave do filme, mais adiante, é exemplar. A cidade dos sonhos de Lynch se transforma naquela que proporciona sonhos de realização profissional e da perturbação (como em Crepúsculo dos deuses), oferecida pela não realização de alguns, isto é, parece um ingresso no outro lado da individualidade. Lynch está de volta ao plano que identifica Twin Peaks e A estrada perdida como seus filmes mais estranhos: um estado onírico, entre o adormecido e o acordado (ele, afinal, é Paul Atreides). Não sabemos ao certo o que está se passando, mas sabemos que nesse material estranho movem-se todas as características do cineasta, dividido entre uma concepção idealista de mundo (a Sandy de Veludo azul) e a estranheza e a curiosidade (o Jeffrey do mesmo Veludo azul). Nesse idealismo, para Lynch, os elementos podem resultar numa espécie de descoberta epifânica de um universo à parte do nosso – ou de dentro da própria inconsciência, reproduzida pelos sonhos.
Encontrada no chuveiro da casa, a mulher desmemoriada adota o nome de Rita, que vê num cartaz do filme Gilda (com a atriz Rita Hayworth), e permanece com a nova amiga (daqui em diante, spoilers). Em primeiro lugar, ela só deseja dormir, para ver se lembra do que aconteceu. No entanto, o sono, para Lynch, pode não ser, como um sonho, reparador. Na vigília, Betty passa a tentar ajudá-la: querem saber, afinal, o que aconteceu – e descobrem: houve um acidente na Mulholland Drive.

Há também dinheiro em sua bolsa. Num restaurante, Rita, ao olhar o crachá da atendente, lembra que talvez seja Diane Selwyn. Tudo é motivo para que passem a agir exatamente como personagens de um filme: nada é exatamente involuntário, e sim impulsionado pela vontade de Lynch em fazer com elas sejam representações de estrelas antigas – mas já perturbadas pela exigência do sucesso (ou seja, Los Angeles não é uma cidade para inventar sonhos, e sim para concretizar sonhos). Afinal, a mulher com amnésia passa a ser a Rita de um filme noir, e a Mulholland Drive depois do acidente mostra um detetive cujo comportamento lembra os anos 50. As duas procuram o apartamento onde mora essa Diane e, mais adiante, se envolvem e passam por várias cenas enigmáticas juntas – com a fotografia extraordinária de Peter Deming, demarcando cada movimento e a paleta de cores, de uma iluminação na janela até a cor das roupas  -, inclusive às voltas com uma espécie de caixa de Pandora (que simboliza a passagem do sonho para a realidade, pelo menos a que imaginamos). Lynch consegue extrair uma ligação entre as personagens, e toda esse envolvimento se desenvolve aos poucos, com gestos e olhares em cenários simples, porém com uma direção de arte cuidadosa e elementar, baseada em bidês e abajures de todas as iluminações, como se representassem os humores de cada personagem. Na verdade, o filme está tratando da individualidade e da personalidade, num sonho. Betty sonha em ser uma atriz conhecida, enquanto tenta ajudar a desamparada Rita, mas isso não poderá mudar se justamente for um sonho? Para Lynch, sim. Começa a mudar quando Rita decide usar uma peruca loira, ficando parecida com Betty – é, como indica Lynch, a tentativa de se equivaler no amor e na paixão, como também de uma ir tomando o espaço que era da outra. A paixão, afinal, se assemelha, no filme, a uma espécie de desaparição individual e o fim do sonho.

Novamente, há um teatro com cortina vermelha e iluminação azul sobre quem entra em cena, como já vimos em Veludo azul e Twin Peaks, num momento em que as duas acordam no meio da noite, saem da casa, chegando a uma rua deserta e ao Club Silencio – na cena mais misteriosa de todo um conjunto de enigmas que propõe Cidade dos sonhos, e possivelmente a que melhor o represente. A cantora (Rebekah Del Rio) entrega uma dramaticidade semelhante à de Dorothy Vallens em Veludo azul e de Julee Cruise em Twin Peaks (nas versões de TV e de cinema), cantando uma versão espanhola de “Crying”, de Roy Orbison. Além da cenografia e da maquiagem lembrar algo de Pedro Almodóvar – como a da própria cantora e da administradora do lugar onde Betty vai ficar no início do filme, Coco Lenoix (Ann Miller), que parece, como Rebekah, saída imediatamente de Mulheres à beira de um ataque de nervos; também estamos dentro do cinema de Almodóvar –, mas também no batom excessivamente avermelhado de Rita e nas roupas vermelhas que elas vão alternando ao longo da narrativa. A separação é iminente, no entanto Lynch a revela como uma tragédia pessoal, pois muitas vezes não se quer acordar de um sonho, sobretudo, para Lynch, cinematográfico. Do vermelho passa-se, de repente, para o azul, e o holofote sobre a cantora e o apresentador no palco remetem diretamente ao bosque de Twin Peaks e à passagem para o Black Lodge (toda a iluminação desta parte lembra o capítulo final da série, inclusive com o crooner iluminado). Mas, aqui, é o amor que está escondido na própria palavra que intitula o clube. Betty e Rita misturam medo e curiosidade em suas cadeiras, porém o que anima Lynch parece ser muito mais o simbolismo de que tudo está gravado – os personagens podem faltar em cena que o sonho dará continuidade ao que deve acontecer.

Ao mesmo tempo, há uma trama paralela, que se reúne, mais ao fim, à principal, envolvendo um cineasta, Adam Kesher (Justin Theroux), uma mistura de artista com yuppie inveterado, que pretende manter sua autoria sobre um filme em que produtores querem interferir, indicando a atriz principal, Camile Rhodes (Melissa George), precisando tratar com um caubói (Monty Montgomery) sobre o futuro das filmagens (uma das cenas mais complexas da obra) – nem que para isso precise usar seu taco de beisebol nos faróis de uma limusine. Esta atriz reaparecerá mais adiante beijando uma das duas amantes, sob o olhar do mesmo cineasta. A sequência em que ele deve escolher a atriz imposta pelo produtor (interpretado pelo autor da trilha, Angelo Badalamenti, com grande sarcasmo, pois ele é exigente com café e, quando o toma e não gosta, o cospe num pano) é uma das mais exemplares desse universo onírico, já antecipando Império dos sonhos. Toda ela lembra muito a participação de Bobby Briggs em Twin Peaks, elevando a tensão que existe no ar, quando James Hurley entra na cadeia. São observados pelo Sr. Rock (Michael J. Anderson, não por acaso o anão de Twin Peaks que dizia “Let’s rock”), e os dados sobre a reunião são transmitidas para uma sala escura, com cortinas – mais uma vez, o subterrâneo tenta coordenar a superfície.
Na cena do teste, também exemplar, vários atores e atrizes cantam músicas numa cabine de rádio típica dos anos 1950, remetendo não só a Veludo azul, a Roy Orbison, mas a toda uma aura e época de inocência que não existe mais em Hollywod (se é que um dia existiu), assim como a dos jovens que aparecem dançando no início do filme atrás de Betty e flashes de fotógrafos em alguma calçada da fama, enquanto o diretor observa, fingindo interesse, pois já tem a atriz escolhida pelo produtor. Ao mesmo tempo, ele troca olhares com Betty, que se aproxima para assistir às filmagens, e é pressionado pelo produtor a escolher a atriz predeterminada. Esse momento entre a ingenuidade e o suspense é a marca de Lynch: como em outras obras suas, um momento de sossego pode esconder uma série de modulações estranhas.

Além daquela sequência na qual o diretor chega em casa e surpreende a mulher com outro, numa das cenas-clichê com que Lynch brinca. “Tive um dia muito estranho”, diz Kesher, antes de receber o convite de encontrar o caubói, debaixo de uma lâmpada pendurada, que insiste em acender e apagar. Ou do ensaio de que Betty participa, com uma rara direção de atores (todo o elenco está perfeito, sobretudo Naomi e James Karen). Sim, há outras coisas também, ainda mais inexplicáveis, como aquele homem que precisa resgatar uma agenda e precisa se livrar ao mesmo tempo de várias vítimas, mostrando o humor corrosivo de Lynch.
Na segunda parte, depois da descoberta da caixa, os papéis se invertem: a estrela de cinema é Rita, e a que sonha em ser atriz, Betty, uma mera coadjuvante. Elas foram amantes – como vimos na primeira parte –, mas no contexto real – não aquele do sonho – e, na verdade, parece-me que a Betty planeja ser atriz em toda a primeira parte, que é um sonho, para o qual o despertar leva à segunda. A sua alegria e felicidade se transforma, repentinamente, em angústia, e Naomi poderia cair numa caricaturização da personagem, no entanto consegue mais uma vez sair ilesa do percurso. Uma também não deixa de ser o reflexo da outra. Betty começa a lembrar dos momentos em que Rita passou, na verdade, com ela, fazendo o café da manhã e deitando no sofá. Entendendo que Rita está dentro do sonho de Betty, as interpretações podem indicar que tudo é onírico ou, em alguns aspectos, ficam em aberto (a pergunta é se Rita não é apenas a imagem idealizada de si mesma de Betty, daí, no sonho, Rita querer ficar idêntica a ela, e do cineasta olhá-la com interesse durante as cenas de testes; ou Camila Rhodes/Rita realmente ser apenas o símbolo de uma atriz que impedirá seu sucesso, imaginando-a submissa).

De qualquer modo, Lynch as traduz em imagens estranhas como do caubói que vimos conversando com Kesher dando um recado ao diretor – num dos momentos que evocam Twin Peaks no filme – e caminhando numa festa. Ainda assim, é uma estranheza bem construída, pois em Lynch nada parece excessivo. Se a primeira parte mostra um apartamento tomado de móveis e quadros, na segunda, com a personagem de Betty em momento de depressão, tudo é vazio e mal iluminado, lembrando, na arquitetura da casa em que as duas chegam para investigar o que aconteceu, a cabana de um conto de fadas nebuloso (não por acaso, em outro momento, Betty recebe a visita de uma senhora que parece uma bruxa, como se fosse a Reverenda de Duna), adentrando realmente a escuridão da noite em Mulholland Drive. As idas e vindas no tempo, complementando os personagens, não deixa de ter elementos demonstrados por Quentin Tarantino em Pulp Fiction, mas de forma mais enviesada. O homem que aparece na lanchonete no início reaparece ao final. Lanchonete que é o signo de Lynch para o encontro e para a confusão dos personagens – o que já acontecia no Double R de Twin Peaks e na lanchonete anos 50 de Veludo azul.
Esta lanchonete cria um vínculo com a casa do diretor de cinema, pois é nela em que os personagens que parecem se movimentar também no sonho visualizado por Lynch.
Sem dúvida, o diretor aprimora seu onirismo – o mendigo que aparece no início do filme e que estava no sonho de um homem que fala na mesma lanchonete em que vão as duas mulheres mais tarde é assustador –, entregando um dos filmes mais originais de sua carreira e que antecipa Império dos sonhos, no qual eleva ao máximo o que já experimenta aqui, embora, talvez, não com a mesma exatidão, sobretudo porque as imagens deste são mais interessantes do que as do outro, filmado em câmeras digitais. Alguns reclamam da metragem excessiva de Cidade dos sonhos – eu digo que ele vale cada minuto, e se lamenta não haver mais (talvez uma série de TV, para a qual o projeto foi considerado inicialmente, tão boa ou melhor do que Twin Peaks). As imagens, aqui, são tão interessantes quanto, numa espécie de fita rebobinada – ainda antiga –, o final se completando no início, na escura Mulholland Drive, iluminada por Lynch.

Mulholland Drive, EUA/FRA, 2001 Diretor: David Lynch Elenco: Justin Theroux, Naomi Watts, Laura Harring, Ann Miller, Dan Hedaya, Mark Pellegrino, Robert Forster Produção: Neal Edelstein, Tony Krantz, Michael Polaire, Alain Sarde, Mary Sweeney Roteiro: David Lynch Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 146 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Les Films Alain Sarde / Asymmetrical Productions / Canal+ / The Picture Factory / Babbo Inc.

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

 

King Kong (2005)

Por André Dick

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A partir de O senhor dos anéis, sempre irá se esperar muito de Peter Jackson. Nesta refilmagem de King Kong, depois das versões de 1933 e de 1976 (conhecida pelas atuações de Jeff Bridges e Jessica Lange), o cineasta ainda sofre a influência de ter realizado uma das séries mais fantásticas de todos os tempos, o que se percebe pelo ritmo que emprega, dispondo detalhes necessários para sua empreitada difícil. O grande personagem que se apaixona por uma mocinha (interpretada nesta versão por Naomi Watts) numa ilha de aborígenes só poderia render mais imagens extraordinárias para este cineasta. Como um designer e um artesão, capaz de mesclar elementos fantásticos, ele não desaponta, mesmo que seja apenas numa segunda revisão que se perceba melhor a forma como ele optou por narrar a fabulosa história.
O filme inicia na Depressão dos anos 1933, numa referência ao primeiro filme, mostrando animais no zoológico de Nova York. Todo o clima que ele prepara para a chegada à ilha de King Kong, a Ilha da Caveira – com o navio carregando mercenários e uma equipe precária de cinema, tendo à frente um cineasta inescrupuloso, Carl Denham (Jack Black, o único deslocado), acompanhado de seu assessor (Colin Hanks), o capitão Englehorn (Thomas Kretschmann), seu auxiliar (Evan Parke), o protegido deste (Jamie Bell, de As aventuras de Tintim) e um casal à la Hollywood, Burt Baxter (Kyle Chandler) e Ann Darrow (Naomi Watts) em um filme roteirizado por um escritor que pensa mais na arte do que no dinheiro, Jack Driscoll (Adrien Brody), com direito a pores do sol – resulta em algo espetacular quando vemos o navio ser lançado a enormes rochedos que circundam a ilha depois de uma neblina. Mesmo que seja um tanto demorado.

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Esta parece ser a única falha do filme de Jackson: a demora em situar os personagens no cenário, afinal, mitológico para as três versões de King Kong. Se a versão produzida por De Laurentiis nos anos 70 desvirtuava um pouco o motivo da ida para a ilha (estavam procurando por petróleo), aqui se retoma, portanto, a equipe de filmagens se deslocando para um lugar selvagem, intocado pelo homem, com a colaboração decisiva da fotografia excepcional de Andrew Lesnie (O senhor dos anéis e O hobbit).
O sequestro da atriz Ann Darrow para ser oferendada a Kong é uma das passagens mais fantasiosas do filme, e a tribo lembra os orcs de O senhor dos anéis, o que não chega a ser uma analogia interessante para este caso, mas vale porque depois dela conhecemos o Kong mais realista das três versões – embora saibamos que esteja por trás Andy Serkis (que faz o cozinheiro do navio e o gestual de Gollum) e as sequências lembrem sobretudo a versão de 1933. Percebemos, em alguns momentos, as maquetes do filme, também o CGI é evidente, mas a sinestesia das imagens de Jackson, como em O senhor dos anéis, passa a vigorar, como na corrida dos brontossauros à beira de um abismo. E, nesse sentido, o filme acaba mostrando o gorila gigante como um personagem mais humano do que os anteriores, capaz de enfrentar um Tiranossauro Rex para salvar a mocinha, a qual passa a proteger. Nesta aproximação, que começa com Darrow imitando os passos de Charlie Chaplin, com uma bengala, no alto de uma colina, Jackson tenta desenhar uma espécie de núcleo emotivo, o que consegue efetivamente na analogia entre o pôr do sol e o nascer do sol, em momentos diferentes. Enquanto isso, Driscoll, mostrando uma faceta de herói, segue na pista de Darrow e do gorila gigante, mostrando a maior transformação do filme. A obsessão de Denham em realizar as filmagens também ganha foco, mesmo que em alguns momentos isso possa ser visto como constrangedor, sobretudo pela atuação deslocada de Black.

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A verdade é que o filme vai em ritmo alucinante do primeiro ao último minuto, mesmo com sua versão inserida de Jurassic Park, com a aparição de figuras pré-históricas, principalmente quando a tripulação do navio enfrenta uma determinada situação, quando se depara com o desconhecido, não necessariamente funcionando, por outro lado, nos momentos em que se tenta desenhar uma lição de moral, tudo levado pela música de James Newton Howard.
E King Kong é exatamente isso: o encontro com algo desconhecido com a estranheza: sua grandiosidade comum. Mas é também a porta de descoberta para as coisas mais comuns: a atriz que deseja o estrelato poderia se contentar com um pôr do sol numa ilha ou na cidade grande? O dramaturgo conseguiria reproduzir em suas peças a realidade da perda? Sentir também é isso, nos fala o diretor. Se em alguns momentos ele cai na pieguice (como a cena romântica do Central Park), é possível sentir, nisso, uma certa preservação dos anos 30, quando se passa a história, e a queda econômica também simboliza a queda de um poder de ganância. Não tememos em falar de spoilers, pela mitologia que cerca King Kong desde sua primeira versão, mas Jackson, aqui, consegue mesclar a chegada de Kong à cidade com elementos da história contemporânea dos Estados Unidos. Poucos como Peter Jackson conseguiriam trazer uma sequência final como aquela, tanto na maneira com que foi filmada quanto no sentimento especial que suscita.

King Kong, Nova Zelândia/EUA/Alemanha, 2005 Diretor: Peter Jackson Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Andy Serkis, Evan Parke, Jamie Bell, Lobo Chan, John Sumner, Craig Hall, Kyle Chandler Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: James Newton Howard Duração: 188 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Universal Pictures / WingNut Films / Big Primate Pictures / MFPV Film

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

 

As coisas simples da vida (2000)

Por André Dick

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Em As coisas simples da vida, o cineasta de Taiwan Edward Yang apresenta um cinema que parece simples na maneira como os personagens se revelam em suas ações, mas complexo quando vemos se formar uma cadeia simbólica de situações. Este é um filme de art house feito num momento em que não havia um circuito apropriado para sua apreciação – e o próprio Yang acabou tendo sua grande obra de 1991, Um dia quente de verão, quase esquecida das telas e de relançamentos em vídeo, por causa, também, de sua longa duração de 4 horas. As coisas simples da vida, recuperado pela Criterion Collection, simboliza o seu ápice como cineasta, e por ele recebeu a Palma de direção em Cannes em 2000.
O filme tem início no casamento do cunhado de Nien-Jen Wu/NJ ((Nien-Jen Wu), A-Di (Chen Hsi-Sheng), com Xiao Yan (Xiao Shushen) que leva sua festa a uma confusão particular, em razão de uma suposta traição com Yun-Yun (Zeng Xinyi). Não apenas essa confusão familiar se anuncia, como também as brincadeiras e gracejos durante a festa sintetizam, de início, o objetivo de Yang: ao filmar esses personagens conversando ou gritando sem exatamente procurar suas características, o diretor compõe um cinema capaz de sustentar sua indefinição entre ser um retrato familiar ou uma visão distante dos costumes de uma comunidade. O peso de Yang é evidentemente cultural: acompanhamos como essa família se comporta e o modo de agir dessa sociedade enfocada. Tudo se torna mais denso quando a mãe (Tang Ruyun) da esposa de NJ, Min Min (Elaine Jin), é levada ao hospital em razão de um acidente vascular.

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Seja o pai, NJ, que pretende fechar um negócio na área de video games, mas se torna antes amigo de Ota (Issei Ogata), com quem precisa conversar a respeito de ganhos futuros, seja o seu filho, Yang-Yang (Jonathan Chang), que fotografa a nuca de pessoas, ou a filha, Ting-Ting (Kelly Lee), que está descobrindo seu primeiro amor, todos estão na mesma condição de entender a ligação entre a vida e a morte (a mãe de Min Min ficará numa cama do apartamento da família). O menino não entende certamente o que ocorre, enquanto sua irmã, entre um experimento e outro com o violancelo, se sente culpada pela situação da avó. E NJ acaba reencontrando Sherry (Ke Suyun), um amor de juventude casada com um norte-americano, e que vive em Chicago, da qual se afastou sem nunca ter oferecido explicações suficientes. Todas as figuras de As coisas simples da vida tentam encontrar ou retomar seu rumo por meio de silêncios.
Yang costura esses personagens de maneira a princípio dispersa, desde o início (a primeira meia hora requer bastante atenção para que não se perca cada um de vista), no entanto aos poucos vai colocando-os em situações capazes de dialogar entre si. A sequência em que o menino, por exemplo, parece descobrir seu primeiro amor, numa sala em que se exibe um vídeo na escola, é marcante, assim como quando Nien-Jen Wu reencontra um antigo amor e vai à praia observar as ondas, transpondo uma nova melancolia – e as ondas do mar se contrapõem às da piscina, onde Yang-Yang se encontra em determinado momento. Ao mesmo tempo, Ting-Ting descobre uma paixão por Fatty (Chang Yupang), que estava tendo um relacionamento com Lili (Adrian Lin), uma de suas amigas. Já A-Di é colocado para fora de casa por Xian Yan e vai ao encontro da ex-amante Yun-Yun, e quem ele ainda se sente mais próximo.

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Por isso, esta é uma obra de lentas transições, pequenos achados onde nada parece existir, com um brilho de imagens absolutamente cotidianas, que se fortalecem quando vistas a distância, em que os personagens travam poucos diálogos, mas todos são essenciais para a descoberta de cada um deles. É notável como Yang influenciou uma leva de cineastas, como Hirokazu Koreeda e Tsai Ming-liang, embora este leve ao extremo do silêncio a observação sobre o cotidiano, acertando por vezes, como em Adeus, Dragon-Inn, e não tanto, como em Hora de partida.
Quando Yang desenha a procura pelo outro do pai, do filho e da filha vemos como cada instante que parece descompromissado na verdade fundamenta toda essa existência sobre a qual Yang-Yang se debruça quando vai tirar fotografias e tenta mostrar o que a outra pessoa não consegue enxergar. Embora comparado a Short Cuts, de Robert Altman, e tenha certamente tratamentos em comum, Yang é mais intimista e reservado, menos nervoso do que Altman, principalmente quando utiliza elementos do cenário – como semáforos em determinada sequência, a água da piscina e a flor que deve ser cuidada num vaso para um trabalho escolar – para tratar do próprio sentimento dos personagens. Ou seja, se Altman é muitas vezes direto, Yang dificilmente vai ao ponto principal sem uma série de elaborações antes. Do mesmo modo, não há proximidade com que outros diretores quiseram fazer a partir de Altman, como Paul Thomas Anderson; Yang sugere um cinema mais silencioso. Os poucos lugares enfocados (o apartamento, a escola, o clube, o bar noturno, por exemplo) conseguem, ao mesmo tempo, sintetizar a procura desses personagens pelo entendimento consciente de suas vidas, mesmo que Yang nunca deseje restringir o seu filme a momentos esparsos. Os encontros desses personagens e a tentativa de desaparecer de cada um estão relacionados diretamente com Fanny & Alexander, sobretudo quando há o espectro da morte, e não por acaso a narrativa delineia os extremos da vida.

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Apesar de ter algumas cenas em Tóquio, o filme, de modo geral, se passa em Taipé, e impressiona como o diretor consegue captar a solidão da cidade grande, mostrando os personagens do lado de fora onde se encontram ou simplesmente filmando-os a distância, numa festa ou no corredor de um edifício. Nisso, além de tudo, As coisas simples da vida guarda algumas das conversas mais reflexivas sobre a presença do cinema, sem nenhuma metalinguagem forçosa, próxima de entediar; são diálogos verdadeiramente introspectivos, sobre como o cinema pode se misturar com a vida e infuenciá-la de modo decisivo. Isso fica claro não apenas nos movimentos do menino Yang-Yang por sua escola, e sim, sobretudo, como se dá o desenlace do relacionamento de Ting-Ting com Fatty. Os momentos de reflexão não raramente coincidem com momentos mais descompromissados e mesmo divertidos, em meio à melancolia, sobretudo em ambientes que mostram casais ou quando NJ e Ota se reúnem num clube noturno, levando o espectador a um universo claramente reconhecível, de qualquer modo ainda imprevisível em sua simplicidade comovente.

Yi Yi, Taiwan/JAP, 2000 Diretor: Edward Yang Elenco: Nianzhen Wu, Elaine Jin, Issey Ogata, Kelly Lee, Jonathan Chang, Xisheng Chen, Suyen Ke Roteiro: Edward Yang Trilha Sonora: Kai-Li Peng Fotografia: Wei-han Yang Duração: 173 min. Produção: Shinya Kawai Distribuidora: Kuzui Enterprises

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

 

 

 

Luz silenciosa (2007)

Por André Dick

Luz silenciosa.Filme 9

Os diretores mexicanos mais conhecidos atualmente possivelmente sejam Alfonso Cuarón e Alejandro González Inãrritu, por terem recebido o Oscar de melhor direção, e Guillermo del Toro, por sua influência no meio de produções ligadas à fantasia. No entanto, desde o início deste milênio, possivelmente o diretor mexicano com uma obra mais ligada ao cinema com influências de Stanley Kubrick, Tarkovsky e Béla Tarr é outro: Carlos Reygadas. Nascido em 1971, este cineasta estreou em 2002 com Japão, um filme enigmático claramente baseado em Tarkovsky e que hoje pode antecipar um diálogo com Ceylan, principalmente o de Winter sleep, ao tratar de um homem que chega a um limite e deseja modificar o rumo de sua vida, depois de se abrigar no hotel de um topo de montanha. O estilo de filmagem de Reygadas, lento e introspectivo, faz com que os personagens tenham uma ligação diretamente com o ambiente em que estão ou habitam. Essa característica ficaria clara no seu segundo longa, Batalha no céu, obra polêmica sobre o embate entre camadas sociais em seu país por meio das figuras de um motorista envolvida no sequestro de um bebê com sua esposa e da filha de um militar.

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Exibido no Festival de Cannes com uma recepção conturbada, o filme é bastante denso no modo como enfoca esses personagens, com cada sequência elaborada com um cuidado especial. Reygadas é especialista em extrair significados de cenas corriqueiras, e o modo como filma a cidade e o campo, do alto de uma montanha, ou os símbolos que cercam cada personagem amplia a percepção do espectador. Embora pareça, às vezes, bastante ousado, o cineasta não se deixa levar pelas aparências: a história mostra claramente como seu olhar está amargurado diante de uma realidade que aparenta ser incontornável, dependendo da mudança ampla, o que nem sempre pode acontecer. E, ainda assim, ele não se mostra panfletário, assim como Heli, o qual produziu, na medida em que é uma obra que deixa o entendimento a cargo de cada espectador. Trata-se de um dos grandes filmes da década passada, como justamente o terceiro de Reygadas, Luz silenciosa, também lançado no Festival de Cannes, onde recebeu o Prêmio do Júri, junto com Persépolis.
A partir deste, pode-se dizer que Reygadas, além de influenciado por Terrence Malick, sobretudo aquele de Dias de paraíso (ou Cinzas do paraíso, se utilizarmos o título usado no lançamento para cinema), também influenciou o diretor norte-americano: Luz silenciosa possui cenas que certamente caberiam em A árvore da vida e Amor pleno, sem demérito para nenhum dos dois diretores. Ao centralizar sua narrativa numa comunidade Menonita, Reygadas não faz o que Peter Weir mostra em A testemunha, que é de fato usar os símbolos dos Amish para criar um contraste com a violência contemporânea (e que Harrison Ford e Kelly McGillis traduzem tão bem por meio de seus personagens), e sim tenta transformar essa comunidade, cuja língua é o Plautdietsch, próxima do alemão, e localizada em Chihuahua, numa espécie de aparente contraposição ao mundo moderno de maneira ampla, sempre inquieto.

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Depois de acompanharmos um fabuloso nascer do sol, vemos Johan (Cornelio Wall) com sua mulher, Esther (Miriam Towes), e seus seis filhos, na fazenda onde moram, sentados na mesa, rezando – em seguida, todos saem e ele fica, em choro contido. Há certamente uma crise entre o casal. Logo adiante, quando ele conta a um amigo, Zacarias (Jacobo Klassen) um caso que está tendo com Marianne (Maria Pankratz), e sua mulher tem conhecimento, fica explicado não apenas o motivo, como a síntese dessa história. A tradição familiar, no meio bucólico, é abalada pela traição e pela possível dissolução da família. Por isso, seu encontro com a amante no alto de uma montanha e, em seguida, o foco sobre os filhos dele se banhando num rio – precursor certo de imagens de A árvore da vida – possui também o símbolo dessa mudança inesperada. Nada de extraordinário acontece, porém sabemos que existe uma mudança em curso, que Johan tenta compartilhar com o pai (Peter Wall), que promete não contar para a sua mãe (Elizabeth Fahr). As plantações do lugar, nas quais Johan e Esther trabalha,, também revelam esse dia a dia controlado e repetitivo. Segue ao calor do verão um inverno rigoroso – e o caso entre Johan e Marianne continua, desta vez numa casa rigorosamente simétrica. Tudo soa ao mesmo tempo calculado e solto; os atores são integrantes dessa comunidade e Reygadas não está exatamente interessado em suas emoções, devido à tradição. Esse olhar sobre uma determinada comunidade também diz muito do diálogo que tem Luz silenciosa com A palavra, de Dreyer, clássico de 1955, cuja fotografia em preto e branco é tão luminosa quanto a fotografia de Alexis Zabé utilizada aqui.
Reygadas, além de seu talento para compor imagens inesquecíveis, mostra, como em seu filme seguinte, Luz depois das trevas, uma inclinação para uma análise entre o religioso, o místico e o provocador. Enquanto Batalha no céu e Luz depois das trevas se sentem mais voltados ao corpo, não deixa de haver a mesma tentativa de obter uma transcendência que há em Luz silenciosa. A sequência em Johan se encontra com Marianne numa casa, além de belíssima sob o ponto de vista técnico, contempla os símbolos que representam esses seres humanos que se movem com dificuldade durante toda a narrativa: eles parecem procurar a mesma luz do amanhecer do sol ou, antes, das estrelas, mas conseguem apenas entender um ao outro num plano afastado de toda a realidade. Não por acaso, Reygadas filma as estradas do lugar como se elas levassem a esse pôr ou nascer do sol, e o que no início eram um céu completamente límpido se torna mais fechado com o rigor do inverno, para encadear novamente a luminosidade de outra estação.

Stellet Licht/Silent light, MEX/ FRA/HOL, 2007 Diretor: Carlos Reygadas Elenco: Cornelio Wall Fehr, Elisabeth Fehr, Jacobo Klassen, María Pankratz, Miriam Toews, Peter Wall Roteiro: Carlos Reygadas Fotografia: Alexis Zabé Produção: Carlos Reygadas, Jaime Romandía Duração: 127 min.

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000