Heli (2013)

Por André Dick

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Desde que seu diretor Amat Escalante foi escolhido como o melhor no Festival de Cannes de 2013, o filme mexicano Heli tem sido comentado – às vezes unicamente – por suas cenas de violência. A questão seria saber se esta consideração seria exagerada, e se consegue superar Martin Scorsese ou Abel Ferrara dentro dos parâmetros permitidos de cenas fortes, ou tornar O ato de matar um documentário menos repulsivo. Além disso, no mesmo Festival de Cannes, tivemos Um toque de pecado, de Jia Zhangke, e Apenas Deus perdoa, de Refn, mas por talvez contarem com uma violência mais estilizada, aos moldes de Tarantino, nunca chegaram a ser apontados por esta recepção. Para quem está atrás desta característica definida como aquilo que define Heli não irá se decepcionar com seus minutos iniciais, de uma grande crueza, quando uma caminhonete segue pela estrada e para ao lado de um viaduto; em seguida, aparecem homens carregando um corpo.
O que se segue a esta sequência não chega, na maior parte do tempo, a ter esta crueza, mas Escalante trabalha com seus personagens de um modo estranhamento direto, mas cercado de subjetividade. Passamos a acompanhar uma família dessa cidadezinha mexicana: Heli (Armando Espitia) e o pai (Ramón Álvarez) trabalham numa fábrica de automóveis, enquanto Estela (Andrea Vergara), com 12 anos, namora Beto (Juan Eduardo Palacios), que treina para ser recruta da polícia. Por fim, Heli tem um nenê, Santiago (Agustín Salazar Hernández), com a esposa, Sabrina (Linda González), que não tem interesse mais por sua aproximação. Esses elementos são dispostos por Escalante de uma maneira discreta, mas ao mesmo tempo contundente, ao mostrar, por exemplo, o treinamento de Beto, assim como coloca Heli no papel de cuidar da sua irmã. Escalante compõe, de modo interessante, o cuidado que Heli tem com ela e seus estudos, como se tivesse de ocupar o lugar do pai ausente, assim como dispõe o papel do significado de uma paixão deslocada da menina pelo recruta.

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Essas são peças reunidas de maneira aparentemente solta, mas sempre com um domínio narrativo bastante impressionante. Percebe-se, no filme, elementos dos filmes de outro mexicano, Carlos Reygadas. Ele é um dos produtores associados de Heli, assim como Escalante trabalhou como diretor de segunda unidade de Batalha no céu, um dos filmes com o estilo cru de Reygadas, ao lado de Japón, que dialoga diretamente com este Heli. Se Reygadas deixou a crueza um pouco de lado em suas maravilhas Luz silenciosa e Luz depois das trevas (este, infelizmente, ainda inédito nos cinemas brasileiros), parece que Escalante consegue algo mais interessante: ele mistura a primeira fase do cinema de Reygadas com sua fase de cuidado mais fotográfico. Heli tem a fotografia de Lorenzo Hagerman e o filme todo, mesmo mostrando uma cidade incrustada no deserto, nunca tem um visual menos do que imersivo. Apesar de seu tema lidar também com a questão das drogas, Heli está muito longe de ser uma versão mexicana do Traffic de Soderbergh.
Não existe aqui a filmagem mais exótica de Soderbergh nem a fotografia com filtros para dar a sensação de um calor constante. Escalante procura mostrar seus personagens como se estivessem num ambiente inóspito e fora de lugar e de tempo. Às vezes, tem-se a impressão de que, em outros moldes, ele faz o que Sam Peckinpah tentava em Os implacáveis, sobre o assalto a banco de Steve McQueen e Ali McGraw, assim como os irmãos Coen no sempre interessante Onde os fracos não têm vez: o cenário é contemporâneo, mas o comportamento remete mais ao faroeste. Comenta-se que Heli criou grande desconforto no México justamente por causa disso, desse olhar violento, sem reparos de Escalante, mas, independente disso, a impressão que se tem é estarmos em frente a um cinema autoral de grande qualidade e risco. Assim como ele consegue dispor cenas com impacto natural, consegue apoio de um elenco quase todo não profissional, a começar por Espitia e Vergara, em atuações simples, mas vigorosas.
A atmosfera de Heli é, sem dúvida, sua maior qualidade, pois o espectador se sente inserido no cenário de terra, chão batido, montanhas perdidas, um barranco com um boi perdido logo abaixo, cactos, poucas árvores. Heli apresenta  um cenário tão árido quanto, ao que parece, seus personagens. Mas aqui Escalante consegue um diferencial, por exemplo, em relação ao que David Michôd mostra no recente The Rover – A caçada. É impactante que, quanto mais pareça mostrar a desintegração dos personagens nesse cenário onde nada parece trazer esperança, em que há uma confusão entre bandidos e policiais, Escalante destaque a figura sempre constante da mulher como uma continuidade humana contra toda a violência revelada. Não apenas Estela, irmã de Heli, precisa se mostrar contra esta tradição, como também Sabrina.

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Num filme tão imersivo, mesmo o que poderia ser uma cena banal da tentativa de uma detetive, Maribel (Reina Torres), assediar um dos personagens se torna como uma única possibilidade de haver uma aproximação feminina num cenário mais tendente ao horror ou ao afastamento. Este cenário também contrasta com a fábrica de automóveis, onde tudo é simétrico e acompanhado pelos auxiliares, quando a desordem que ocorre fora dali não tem nenhuma consequência a não ser exigir que se tenha de suportá-la. São destruídas toneladas de drogas e uma autoridade pronuncia uma ordem das coisas; enquanto ele fala as labaredas da droga sendo queimada estão atrás, quase consumindo todo o espaço.
Heli tem várias cenas em que há uma opressão, tanto aquelas que se passam na fábrica quanto aquelas na casa ou mesmo numa planície deserta, levando o espectador a um lugar desconhecido, também para os personagens. Não apenas essa opressão – a das inter-relações que parecem cada vez mais vagas –, como também a suspensão de qualquer confiança no aparato policial que serviria normalmente de ajuda para superar o desastre existencial pelo qual os personagens passam marca Heli de ponta a ponta, mas tudo isso pode escapar à rotina se há um parque de diversões ou se finalmente as crianças da casa podem dormir abraçadas diante de uma cortina aberta. Para esses personagens, o governo só significa uma funcionária querendo fazer uma pesquisa familiar. Em Heli, Escalante mostra que, apesar da ameaça externa (e o momento em que uma caminhonete da polícia para em frente ao personagem principal e depois some na estrada, deixando apenas poeira) e da possibilidade de vingança contra quem deturpa a ordem das coisas, mesmo sob um céu azul, há um amor escondido e que pode ser visto como a continuidade de todas as coisas que parecem a princípio esquecidas. É esta força que compreende este belíssimo e notavelmente injustiçado filme de Escalante.

Heli, MEX/ALE/FRA/HOL, 2013 Diretor: Amat Escalante Elenco: Armando Espitia, Ramón Álvarez, Andrea Vergara, Juan Eduardo Palacios, Linda González, Reina Torres, Agustín Salazar Hernández Roteiro: Amat Escalante, Ayhan Ergürsel, Gabriel Reyes, Zümrüt Çavusoglu Fotografia: Lorenzo Hagerman Trilha Sonora: Lasse Marhaug Produção: Amat Escalante, Carlos Reygadas, Nicolás Celis Duração: 105 min. Distribuidora: Zeta Filmes Estúdio: Mantarraya Producciones / No Dream Cinema / Tres Tunas

Cotação 5 estrelas

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Guardiões da galáxia (2014)

Por André Dick

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O universo da Marvel apresentou, nos últimos anos, uma seleção de filmes de grande bilheteria, com super-heróis firmados nos quadrinhos por Stan Lee. Neste ano, depois de Capitão América e Homem-Aranha, tivemos uma adaptação de quadrinhos não tão conhecidos: aqueles de Guardiões da galáxia. Já com certo estilo garantido e um público fiel, esse tipo de adaptação costuma ser recebida com desconfiança pela crítica, mas, se apresentar elementos novos em relação aos anteriores, logo é acolhida. Não parece ter sido diferente com o filme de James Gunn, antes responsável pelo roteiro das adaptações de Scooby-Doo para o cinema. Os elementos diferentes em relação aos anteriores se baseia na sucessão de gags que esses personagens trazem.
No início, logo na chegada a um planeta estranho, atrás de um objeto, o orbe, o anti-herói, Peter Quill (Chris Pratt), abduzido quando criança depois de um momento definidor de sua vida, precisa enfrentar uma trupe. Mas, antes, ele adentra as ruínas de uma construção no planeta Morag, aos passos de “Come And Get Your Love”, como se fosse uma espécie de Moonwalker, apanhando um rato como microfone. Estes créditos iniciais são hilários e antecipam o que Guardiões da galáxia mais tem de especial: um humor involuntário que remete aos melhores momentos de certo cinema descompromissado dos anos 80. Logo com o orbe, Quill vai parar no negócio de um contrabandista, sendo esperado à porta por Gamora (Zoe Saldana), filha adotiva de Thanos (Josh Brolin), aliado a Ronan (Lee Pace). Daí a se deparar com Rockett (voz de Bradley Cooper) e Groot (voz de Vin Diesel) – um “ent” minúsculo –, é questão de uma dezena de minutos. Todos já estão numa prisão, onde conhecem Drax (Dave Bautista), de onde tentarão escapar – e neste ponto já estão no encalço para recuperar o orbe.

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Pode-se perceber por poucas cenas iniciais o que Guardiões das galáxias tem de melhor: as referências, no espaço, à Terra, e elas acontecem com Peter, abduzido quando criança mas teve tempo, pelo menos, de assistir a um dos musicais preferidos dos anos 80. Gunn tem, entre seus filmes, evidentemente uma referência clara, que é o Flash Gordon do início dos anos 80, embora com cenários mais baseados no CGI. Isto é explicado não apenas pela trilha sonora – conduzida pelo DJ Quill – como pelos vilões ameaçadores e, de certo modo, bastante caricatos. A questão é que o motivo para o enredo – o orbe que todos tentam possuir – é muito parecido com o Tesseract de Os vingadores, evidentemente pela mesma origem, mas isso inclui um sentido de comparação capaz de empobrecer o filme de Gunn em termos de motivação. Trata-se de uma justificativa do roteiro para reunir todos esses personagens em torno de uma necessidade de variação, mas não se sustenta ao longo da narrativa.
Os guardiões são figuras interessantes, a exemplo de Rocket, mas são baseados numa corrente de humor que não se mantém o tempo todo, sobretudo quando se pega como parâmetro a meia hora inicial, com uma dose equivalente de humor no espaço que não se vê desde os desentendimentos de Han Solo e Chewbacca com os problemas mecânicos da Millenium Falcon. De qualquer modo, há um padrão interessante de humor despertado por Gunn por meio de seus personagens, com um ritmo quase de animação (Uma aventura LEGO também possuía essa característica), mas sem se perder na caricatura e sim inserindo os personagens numa ação quase sempre surpreendente – no comportamento do Groot, por exemplo, num possível plano de fuga. Sempre que há uma queda no ritmo, Gunn aproveita para lançar mão de seu repertório musical setentista, no qual se encaixa até mesmo a contagiante “Cherry Bomb”, das Runaways, numa profusão setentista espaço sideral afora. Certamente, Rocket, o guaxinim, é a melhor figura, ao lado de Groot, fruto de experimentos científicos – fazendo com que, em determinado momento, se rebele num planeta cujas sacadas parecem remeter às tribos de Ewoks de Endor. Com voz de Bradley Cooper – particularmente não parece dele –, Rocket é o melhor personagem de Guardiões da galáxia, mesmo que sem sua voz humana seja produto apenas de efeitos especiais competentes. No entanto, mais do que a relação entre Peter e Gamora, é a amizade entre Rockett e Quill que dá o mote emocional do filme. E não se pode negar que o elenco tem outros bons nomes, como Glenn Close (Irani Rael/Nova Prime), John C. Reilly (Rhomann Dey) e Benicio Del Toro (Taneleer Tivan), que conseguem boas participações.

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Gunn é um diretor competente para desenvolver ambientes e ele disfarça bem o orçamento não tão milionário quanto o de outros filmes da Marvel com uma boa concepção de cores e de cenários, trazendo uma mistura entre o verde e o rosa para a composição do filme – em razão principalmente da tonalidade de pele de Gamora. A direção de Guardiões da galáxia, até determinado ponto, é um triunfo, até mesmo de simplicidade, com o design das naves feitos com uma mistura entre CGI e uma estranha coloração humana. De qualquer modo, ele não tem o mesmo sucesso nas transições da narrativa: apesar de o ritmo ser ágil nos atos que enlaçam o filme, não há uma continuidade clara em determinados momentos e, com metragem razoável (certamente suas duas horas deveriam ter sido encurtadas), ele se sente estranhamente confuso nas cenas de ação, influenciadas diretamente pela segunda trilogia de Star Wars, e mesmo o duelo entre Gamora e Nebula (Karen Gillan), que poderia lidar com uma questão familiar mais sólida, assim como os atritos entre Quill e seu antigo chefe,  Yondu (Michael Rooker), se mantêm com algum interesse, mas menos do que aquele que serve para novos duelos. Há as mesmas características da segunda trilogia de Star Wars, uma certa profusão de CGI e falta de naturalidade nas ações e uma competência técnica que acaba extraindo a emoção. Algumas vezes, nessas cenas, os personagens não são  bem visualizados e não sabemos muito bem o que está acontecendo, não simplesmente por causa da ação desenfreada e sim por uma dificuldade nos cortes para cada passagem. E entre os vilões, por mais que sejam bons atores (Brolin), falta um roteiro mais interessante, o que certamente possui, por exemplo, Tom Hiddleston como Loki. No entanto, Guardiões da galáxia continua seguindo a linha de humor existente no início do filme e tenta equilibrar Runaways e Marvin Gaye – a trupe de Quill é um convite a uma sessão não apenas de efeitos especiais, mas sonora.

Guardians of the galaxy, EUA, 2014 Diretor: James Gunn Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Michael Rooker, Karen Gillan, Djimon Hounsou, Josh Brolin Roteiro: Chris McCoy, Nicole Perlman Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Kevin Feige Duração: 121 min. Distribuidora: Hughes Winborne / Walt Disney Pictures Estúdio: Craig Wood / Marvel Enterprises / Marvel Studios

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Nós somos as melhores! (2013)

Por André Dick

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O cineasta sueco Lukas Moodysson surgiu no final da década de 90 com um filme que não fez sucesso apenas entre os jovens, à época na fase áurea da MTV, como também foi exibido no Festival de Cannes. Antecipando inúmeros filmes do gênero, Amigas de colégio era o primeiro grande sucesso de um diretor que depois logo faria Bem-vindos, uma divertida sátira ao universo hippie, principal influência em Pequena Miss Sunshine, seguido por um melodrama considerado por muitos como seu melhor filme, mas particularmente exaustivo, Para sempre Lilya. Depois do experimental Um buraco no coração, já sem a leveza dos dois primeiros filmes, ele concebeu ainda, tendo no elenco Gael García Bernal e Michelle Williams, Corações em conflito.
Quase um regresso de Lukas Moodysson às origens de Amigas de colégio e Bem-vindos, Nós somos as melhores! mostra duas meninas, Bobo (Mira Barkhammar) e Klara (Mira Grosin), ambas com treze anos, que resolvem formar uma banda de punk rock na cidade de Estocolmo. Bobo tem uma mãe com dificuldades de relacionamento e separada, enquanto sua amiga Klara pode ser vista como uma adolescente mais independente. As duas, no entanto, possuem algo em comum: estão interessadas no punk e cortam os cabelos para demonstrar que fazem parte do gênero. Bobo circula solitária e deslocada pela festa de 40 anos da mãe e sua única saída é ligar para a amiga no quarto. Na escola, ambas não gostam das aulas de educação física e isso pode ser motivo para compor um hino em relação ao desapreço pelos esportes.

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No entanto, elas não consideram ainda ter uma banda: para conseguir formá-la, eles imaginam que pode ser convidada a jovem Hedvig (Liv LeMoyne), de origem religiosa. Enquanto elas tentam convencê-la a fazer parte de uma banda, e tentam aprender melhor a tocar os instrumentos – Hedvig é uma exímia violonista –, elas frequentam o estúdio onde bandas de mais idade (a Iron First) tentam ensaiar se elas não estão por perto tentando usar o mesmo estúdio. Há poucos filmes que conseguem mostrar esse espaço de bandas em ensaio com a mesma eficácia, a exemplo do singelo Apenas uma vez. No entanto, ao contrário do filme de John Carney, há uma liberdade maior para as personagens desse filme no sentido narrativo; elas são mais interessantes e conseguem sinalizar uma versão do punk rock que dialoga com The Runaways, embora este seja mais baseado na psicodelia dos anos 70.
Moodysson é especialista em mostrar cenários reais sem que pareça um found footage, com uma visão sensível do mundo da música e de como ele pode interferir no comportamento. Não há grandes conflitos nem reviravoltas, mas Nós somos as melhores! revela uma atmosfera de descoberta musical, sem pretensões a ser um panorama da geração que enfoca, do início dos anos 80, mais especificamente 1982, quando o punk rock (era o que diziam) enfrentava seu declínio, sem saber, ainda, que ele seria incorporado por outras vertentes. A linguagem às vezes se assemelha a um encadeamento de quadrinhos e não por acaso o roteiro se baseia numa novela gráfica de Coco Moodysson, mulher de Lukas. Logo depois do surgimento de bandas como Ramones, The Clash e Sex Pistols, novos grupos, como Blondie, The Cars, Tears for Fears e The Police, faziam algo que seria conhecido como new wave, gênero que traz elementos do punk com outras sonoridades. Nós somos as melhores! capta justamente essa época: essas adolescentes gostam do punk, mas já mais inclinadas ao new wave, principalmente nas suas relações. Moodysson mostra como o conflito de Bobo com Klara se mantém sempre num círculo de relações de ciúme e tentativa de crescer por meio de uma rivalidade interna. Para esse elemento, marcam presença Elis (Jonathan Salomonsson) e Mackan (Alvin Strollo), talvez não tão interessados na música quanto na possibilidade de terem algum namoro.

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Além disso, há o deslocamento inicial de Hedvig para o universo do punk rock, abertamente atacado por sua mãe, mãe (Ann-Sofie Rase), preocupada por ter uma filha com cabelo moicano. Moodysson utiliza uma linguagem cinematográfica aparentemente simples, mas muito mais trabalhada do que aquela de seus melhores experimentos anteriores: ele não traz apenas a simplicidade de filmagem de Amigas de colégio e Bem-vindos, como também uma montagem que deixa os personagens em certa medida aparentemente soltos, porén intimamente interligados. Os coadjuvantes não necessariamente se destacam, e ainda assim estabelecem sempre uma relação delicada com os personagens centrais de Moodysson. E o diretor sueco, no que certamente se afasta da maioria de seus pares europeus, não congela os personagens tentando compor uma simetria, mas os coloca em movimento, como naquela sequência em que as meninas tentam conversar com pessoas nas ruas – o trecho que mais lembra Apenas uma vez.
Utilizando um figurino com cores trabalhadas e cenários que contribuem para um clima natural, o filme de Moodysson ainda revela três ótimas atrizes: Barkhammar, Grosin e LeMoyne são responsáveis diretamente pelo roteiro do filme ser tão bem trabalhado. Mesmo nos momentos mais complicados de Para sempre Lilya, Moodysson ainda tinha Oksana Akinshina e Artyom Bogucharskiy, em atuações muito vigorosas e sensíveis. Por meio desse elenco, alguns momentos que poderiam ser forçados dramaticamente se tornam eficientes. A sequência em que Klara tenta se inserir, com Bobo, na festa do irmão mais velho, tentando experimentar sensações não recomendadas para sua idade, há uma influência sobretudo de Bem-vindos neste filme em que, afinal, uma menina que toca violão no colégio e é vaiada pode se tornar uma referência para se aproximar à rebeldia e uma tarde no alto de um prédio coberto de neve simboliza, na verdade, o início da descoberta das coisas que ainda virão. Nós somos as melhores! revela como poucos filmes a sensação de descoberta da adolescência: estão lá os primeiros momentos em que reunir uma coletânea de músicas era uma salto para a descoberta de uma rebeldia não apenas posada, entretanto capaz de estabelecer afeto, e o significado de que a música pode representar, mais do que uma diversão, uma maneira de estabelecer ligação entre pessoas tão diferentes.

Vi är bäst!, SUE, 2014 Diretor: Lukas Moodysson Roteiro: Lukas Moodysson Elenco: Mira Grosin, Mira Barkhammar, Liv LeMoyne, Johan Liljemark, Mattias Wiberg, Jonathan Salomonsson, Alvin Strollo Fotografia: Ulf Brantås Produção: Lars Jönsson Duração: 102 min. Distribuidora: Zeta Filmes Estúdio: Memfis Film

Cotação 4 estrelas e meia

 

Interestelar (2014)

Por André Dick

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O gênero de ficção científica costuma ter como parâmetro, quando se trata sobretudo de uma equipe de astronautas viajando ao espaço, dois filmes: 2001 – Uma odisseia no espaço e Solaris. No entanto, se considerássemos o que Tarkovsky achava do filme de Kubrick, certamente só haveria Solaris como exemplar do gênero e se fôssemos considerar a opinião geral não teria existido outros filmes depois, tão interessantes, a exemplo do recente Gravidade e da esquecida obra-prima Os eleitos. Quando Tarantino afirma que não esperava, com o recente Interestelar, de Christopher Nolan, o aprofundamento de obras como 2001 e Solaris, já sabemos que o filme de Nolan terá como ponto de comparação esses dois, pelo menos para quem calcula as probabilidades do filme para as categorias do Oscar. Para Nolan, o ponto de comparação parece um privilégio, à medida que ele é considerado um cineasta de grande estúdio, talhado para fazer blockbusters conceituais, pelo menos desde Batman – O cavaleiro das trevas e A origem.
Interestelar, em termos visuais, pode não superar o antológico 2001, mas colocá-lo em ponto de comparação com Solaris, mesmo considerando a época em que este foi feito, é uma injustiça com Nolan, o cineasta de blockbusters certamente com mais requinte visual. Se não há uma correspondência efetiva entre experiência e história em Amnésia e  A origem se sustenta mais em suas imagens inesquecíveis do que numa qualidade narrativa, assim como O grande truque se baseia numa ideia de montagem enigmática, ele conseguiu transformar Batman, no primeiro filme e em seu último, num herói bastante interessante, com o auxílio da fotografia notável de Wally Pfister.

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Tarkovsky era um excelente cineasta de imagens naturais, como em O espelho e Nostalgia – obras belíssimas –, mas sua visão do universo científico não tinha interessante o suficiente para desenvolver discussões sobre a influência do planeta Solaris na mente de alguns integrantes de uma estação espacial. O elemento teatral de Tarkovsky não é correspondido por uma montagem e por atuações vigorosas. Cada cena de Solaris traz um manancial de questões – quando, na verdade, estamos diante de algo mecânico e remoto, ou seja, Tarkovsky avaliava que 2001 era “frio”, mas é exatamente seu filme que possui essa característica. Perto dele, qualquer filme, e com Interestelar não seria diferente, parece envolver melodramas fáceis.
Em termos de roteiro, Interestelar mistura Os eleitos, Campo dos sonhos e Contato, mas sem diluí-los. Cooper (Matthew McConaughey) trabalhou como piloto de avião, mas depois de um acidente, passou a se dedicar à sua fazenda, onde vive com os dois filhos, Murphy (Mackenzie Foy) e Tom (Timothée Chalamet), e o avô, Donald (John Lithgow). Numa época em que as expedições espaciais caíram em descrédito e uma praga tem atormentado a vida na fazenda, destruindo as plantações e trazendo correntes de poeira, Cooper espera por um milagre. A filha se inclina a seguir seu interesse pela ciência, enquanto o filho deseja continuar com sua trajetória na fazenda. Ambos são complementares, e daí a Cooper ter contato com um antigo professor, Brand (Michael Caine), Amelia (Anne Hathaway), Romilly (David Gyasi) e Doyle (Wes Bentley), é um passo para o roteiro ir estabelecendo seus caminhos que se destinam ao espaço e às estrelas, numa narrativa capaz de mesclar a estrutura de um sucesso comercial com a física e a filosofia, o que rende diálogos bastante incomuns, alguns com o peso da exposição científica, auxiliada pela presença do físico Kip Thorne e suas teorias. De algum modo, o filme lida de maneira interessante sobre as percepções, pois trata também do conhecimento capaz de transformar, ao contrário do que aponta uma auxiliar da escola de Murphy. Depois de conseguir compor uma unidade visual em torno do mundo dos sonhos em seu A origem, Interestelar estabelece uma ligação entre o espaço e as plantações da fazenda de Cooper. O homem só pode se salvar e se manter como indivíduo quando visualiza algo que está além do seu horizonte e dos planos imediatos. Tudo é simbolizado por meio de uma biblioteca, como se o sentimento da humanidade fosse eternizado nela e nada pudesse escapar ao seu redor. Escapa – mas neste imprevisível Interestelar isso significa adentrar no espaço.

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Chama a atenção como o cineasta, sempre mais ocupado com a arquitetura do que está acontecendo (desde seu interessante filme de estreia Following, que acompanhava uma dupla de assaltantes imprevista), consegue introduzir as questões científicas levantadas numa espécie de emoção em sintonia com uma trilha absolutamente memorável de Hans Zimmer, cujo trabalho consegue recuperar tanto os melhores momentos das sinfonias selecionadas por Kubrick para 2001 quanto várias notas do trabalho de Angelo Badalamenti para David Lynch, fazendo o filme de Nolan adquirir uma intensidade emocional quase ausente em A origem, mas já existente no final espetacular de Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, no qual há talvez os melhores momentos isolados da trajetória de Nolan. Há diversos momentos filmados por Nolan com uma capacidade visual e emocional de um grande cineasta, com uma escala épica, fazendo o espectador esquecer possíveis grãos espaciais não tão necessários. Para essa característica, é de vital presença a fotografia de Hoyte Van Hoyteman, que iluminou o universo futurista singular de Ela, de Spike Jonze, além dos efeitos especiais e da direção de arte espetaculares.
Embora Nolan continue um cineasta dividido entre o trabalho que se considera artístico – mais silencioso, voltado às imagens – e o blockbuster – e pelo menos ele não nega essa característica de sua obra –, numa busca pelo vilão de uma história, por exemplo, certamente o ponto mais falho de Interestelar, talvez ele nunca tenha se mostrado também tão ressonante. Pela primeira vez de fato, ele consegue, por meio das interpretações, sintetizar suas ideias a respeito da composição não apenas do universo no sentido cósmico, como também no plano familiar e individual. Para o sucesso efetivo de Nolan, a interpretação de Matthew McConaughey, um pouco marcada no início por seu sotaque característico, é absolutamente verdadeira e menos voltada à emoção registrada pelo físico vista em Clube de compras Dallas; trata-se de uma das grandes atuações do ano, em seu ato derradeiro ao mesmo tempo sentimental e consciente. Menos presente, mas do mesmo modo efetiva, é Anne Hathaway, enquanto Jessica Chastain surge como uma das personagens com mais idade e Michael Caine consegue, com poucos diálogos, traduzir uma ligação com sua filha, em mais uma parceria com o diretor depois da série Batman e de A origem. Além de Mackenzie Foy ser uma boa revelação. Esse elenco consegue, de algum modo aparentemente disperso, traduzir a base do roteiro de Nolan com seu irmão: há mais do que uma visão sobre como o amor une as pessoas no sentido material. Em Interestelar, e poucos filmes conseguem isso com a mesma ênfase e sem reduzir os personagens a símbolos, o amor se revela no plano da memória, mas uma memória sem tempo definido. Filhos encontram pais e vice-versa, mas não sabemos quais são aqueles capazes de demonstrar melhor a memória da humanidade. Podem existir outros planetas, mas quem fornece sentido a eles é a ligação entre seres diferentes. Mesmo que haja uma parcela espetacular nas ações de Interestelar, Nolan está mais interessado na afetividade e no resultado que ela proporciona às pessoas: naves, planetas e buracos de minhoca significam, além da viagem, uma permanência intransferível a cada um de nós.

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Trata-se de um argumento aparentemente simples, mas Nolan, de algum modo, consegue torná-lo sólido apresentando um agrupamento constante de imagens e personagens em situações diferentes, mas interligados por uma constante sensação de procura no espaço e no tempo. A vida e a morte se reproduzem ao mesmo tempo, assim como o gelo de um determinado planeta e o fogo nas plantações. E, mais do que tudo: assim como se tenta salvar a humanidade, pode ser, ao mesmo tempo, que tente se salvar apenas uma família perdida no campo. As tentativas parecem destoar em grandeza, mas, para Nolan, colocando-as lado a lado, são iguais, épicas e históricas, cada um a seu modo. Todas as ações repercutem entre si: aquelas do passado e as do futuro, e Interstelar busca uni-las numa mesma visão.
São várias as passagens de Interestelar em que os pontos de humanidade se mostram interessantes: desde aqueles nos quais os personagens se introduzem num ambiente desconhecido e visualmente fantástico até aqueles nos quais estão divididos entre a permanência com os familiares e a passagem no tempo. Nolan, no que talvez supere toda a sua obra, mostra a base de uma tradição familiar de maneira estranhamente original, ainda baseado em certa iconografia dos Estados Unidos, mas conseguindo desenhar as tentativas de sobrevivência e de manter a figura humanas em lugares diferentes no espaço e no tempo. Trata-se de um caminho próprio: enquanto Kubrick estava interessado no mistério que compreende as estrelas, em nossa origem, Nolan fixa o ponto no fato de que as estrelas podem trazer nossas próprias lembranças, já vividas. Interestelar é justamente sobre a passagem do tempo e a memória reservada às pessoas próximas, de como o sentimento se constrói, na verdade, independente de lugares e da distância. É isso que o torna uma obra tão fascinante.

Interstellar, EUA, 2014 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine, Jessica Chastain, Wes Bentley, John Lithgow, Casey Affleck, David Gyasi, Bill Irwin, Mackenzie Foy, David Oyelowo, Topher Grace, Ellen Burstyn Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas, Linda Obst Duração: 169 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Lynda Obst Productions / Paramount Pictures / Syncopy / Warner Bros. Pictures

Cotação 5 estrelas

Flashdance – Em ritmo de embalo (1983)

Por André Dick

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Musical que deu origem a inúmeras cópias, Flashdance tem na direção Adrian Lyne, que se dedicaria a um cinema baseado em relacionamentos proibidos, a julgar por 9 ½ semanas de amor, Atração fatal, Proposta indecente, Lolita e Infidelidade. Suas exceções foram Alucinações do passado, filme com Tim Robbins, de linha espiritual e bastante interessante, e Foxies, que tinha Jodie Foster e Cherie Curie (cuja história é contada em The Runaways). Seu filme mais conhecido, Flashdance, fica num meio-termo entre o universo musical e o universo romântico, embora ambos se completem em sua narrativa. Ela mostra o dia a dia de Alexandra “Alex” Owens (Jennifer Beals), que trabalha como soldadora numa fábrica de aço em Pittsburgh, Pensilvânia, e se apaixona por seu chefe, Nick Hurley (Michael Nouri).
Alex dança, à noite, num clube noturno, Mawby, e tem dois amigos: uma quer ser patinadora, Jeanie (Sunny Johnson), e o namorado dela, Richie (Kyle T. Heffner), pretende seguir a carreira de humorista de stand-up, em Hollywood. Sem estudos formais na área da dança, Alex também procura a ajuda de Hanna Long (Lilia Skala), uma bailarina aposentada, para tomar conselhos, a fim de entrar no Conservatório Pittsburgh de Dança e Repertório. Em termos narrativos, o filme tem um diálogo claro com Fama, de Alan Parker, de 1980, filme excepcional sobre jovens que querem se dedicar à dança, mas se Parker ainda possui um estilo baseado numa montagem, embora frenética, baseada numa concepção de cinema clássico, Flashdance é uma vertente da geração MTV. Com talento para realizar filmes banhados por um ar de videoclipe, Lyne apresenta em Flashdance uma estética que ajudaria a demarcar o estilo dos anos 80, e não se pode dizer que isso seria dispensável, mesmo que seus produtores, Jerry Bruckheimer e Don Simpson tenham formado, basicamente, uma dupla de filmes comerciais (e divertidos, como Top Gun e Um tira da pesada), até a morte do segundo (hoje Bruckheimer segue em carreira solo, sobretudo na série Piratas do caribe).

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Há boas canções, mesmo contagiantes (como “What a feeling”, que marcou época, de Giorgio Moroder, o mesmo de “Take my breath away”, de Top Gun) e a revelação de Jennifer Beals, mesmo que dublada nas cenas de dança. Não parece desnecessário dizer que o filme, inclusive, teve uma boa aceitação no Globo de Ouro – foi indicado aos prêmios de melhor filme de comédia ou musical e de atriz (Jennifer Beals), ganhando os de melhor trilha sonora e melhor canção – e no Oscar – foi indicado nas categorias de melhor montagem e fotografia e venceu o de melhor canção –, sendo, nesse sentido, mais bem-sucedido que suas cópias posteriores.
Lyne é um diretor com limitações, mas o problema central está na história de Joe Eszterhas (que assinaria, quase uma década depois, o roteiro do sucesso Instinto selvagem, e ainda, um pouco depois, Showgirls, do mesmo Paul Verhoeven, desenvolvendo características que já existem em Flashdance): basicamente é a vida dessa dançarina, cercada pelos sonhos dos amigos e a busca pela realização particular. No entanto, Lyne tem uma certa visão sobre como havia melancolia nos anos 80, e não por acaso seu filme dialoga diretamente com Footloose e Dirty Dancing, sobre a tentativa de permanecer numa adolescência perene, mas sobretudo de adotar a dança como uma libertação.
Se baseado numa história de James Dearden, Lyne cultivou, em Atração fatal, os problemas que um pai de família (Michael Douglas) enfrenta após se envolver com uma amiga (Glenn Close) num final de semana longe da mulher e do filho, com cenas dramáticas de pouca intensidade, e se no videoclipe em forma de filme 9 ½ semanas de amor trazia a relação obsessiva entre a funcionária de uma galeria de arte (Kim Basinger) e um corretor da bolsa de Nova York (Mickey Rourke), em Flashdance ele mostra que uma jovem quer apenas encontrar o amado, mas, principalmente, se tornar independente, enfrentando a realidade de maneira própria.

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Flashdance

Alex tem os elementos de uma nova visão feminina, uma certa provocação ausente nos anos 70, principalmente quando a heroína não acredita em si mesma e quer desistir do seu sonho. Ela é uma visão mais sensível, embora trazendo certos elementos mais revigorantes, daquela personagem Nomi Malone, escrita por Eszsterhas para Showgirls. Há uma certa preocupação de Lyne em situar o mundo da fábrica de um lado, com sua paisagem cinza e soturna, e outro o lado da vida noturna, quando ela se apresenta à noite e é como se fosse um sonho, em meio a números musicais excêntricos e uma profusão de neons, maquiagens e luzes oblíquas. Nesse aspecto, Beals atinge uma interpretação interessante e convincente, sendo uma pena que, excetuando A prometida (em que contracena ao lado de Sting), não tenha conseguido desenvolver seu potencial como atriz revelado aqui. O número da água caindo sobre seu corpo ficou antológico, mas o mais impactante é aquela em que ela dança contra um fundo xadrez, numa espécie de transição do punk para o new wave. Tanto o clube onde se apresenta quanto a sua casa, com os neons na sala, guardam também essa transição, e a fotografia de Donald Peterman é excepcional, conseguindo registrar sensações de cada ambiente. Isso faz com que o filme Lyne não seja apenas um produto cultural de determinada época, mas uma obra que sobrevive a seu tempo, apresentando uma dose de lamento europeu na apresentação da Pittsburgh onde Alex mora. Esta melancolia e seus raios de luz vazados contra um salão em que o sonho é colocado à prova ainda permanece, com todos os seus excessos.

Flashdance, EUA, 1983 Diretor: Adrian Lyne Elenco: Jennifer Beals, Michael Nouri, Lilia Skala, Sunny Johnson, Kyle T. Heffner, Robert Wuhl Roteiro: Joe Eszterhas, Thomas Hedley Jr. Fotografia: Donald Peterman Trilha Sonora: Giorgio Moroder Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson  Duração: 95 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Polygram Filmed Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

Uma viagem extraordinária (2013)

Por André Dick

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As aproximações de Uma viagem extraordinária com a obra de Wes Anderson existirão, mesmo que tratemos aqui de um autor como Jean-Pierre Jeunet, responsável por um dos filmes mais interessantes do início do século, O fabuloso destino de Amélie Poulain e cujo visual certamente também inspirou Anderson. São cineastas com influência de leituras que remetem ao universo infantil e não por acaso Anderson adaptou O fantástico Sr. Raposo de uma obra de Roald Dahl e filmes como Os excêntricos Tenenbaums e Moonrise Kingdom lidam com esse mesmo universo. Nele, as imagens remetem a figuras de relevo – bastante claras em Uma viagem extraordinária.
Baseado no livro The Selected Works of T.S. Spivet, de Reif Larsen, que se destaca também pelos gráficos, desenhos, mapas, num diálogo direto com o leitor, há diferenças, no entanto, bastante evidentes. A primeira é que Jeunet, a partir da leitura dessa obra, visualiza a infância como um lugar mais de melancolia e culpa, no caso do personagem de T.S. Spivet (Kyle Catlett), ligada à figura do irmão. Ele mora com a mãe, Dra. Clair (Helena Bonham Carter), o pai (Callum Keith Rennie) e a irmã, Gracie (Niamh Wilson), tendo lembranças desse irmão, Layton (Jakob Davies). Embora a mãe faça pesquisas sobre besouros e a irmã queira disputar o Miss Estados Unidos, enquanto o pai é um cowboy, ele é uma espécie de inventor, sem a atenção devida (inclusive do professor na escola) e cria uma novidade tecnológica (a máquina do movimento perpétuo), o que o credencia a receber um prêmio, depois do telefonema de G.H. Jibsen (Judy Davies), do Museu Smithsonian. A questão natural é de que ele é uma criança e não poderia sair em viagem. Mas a invenção, na verdade, parece ser apenas a justificativa para que ele possa se reencontrar com a imagem do irmão.

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Passado em Montana, Uma viagem extraordinária tem uma das fotografias mais belas já registradas num filme. Em 1970, o italiano Michelangelo Antonioni iluminou as paisagens dos Estados Unidos com Zabriskie Point, o que repercutiu em inúmeros cineastas, inclusive em outros europeus (como Wim Wenders em Paris, Texas), e pode-se dizer que Jeunet e seu fotógrafo Thomas Hardmeier fazem o mesmo mais de quarenta anos depois, com um trabalho capaz de lembrar os trabalhos de Malick e Reygadas (o de Luz silenciosa, principalmente), mas com um trabalho de cores remetendo a livros infantis – aquele mesmo em que se baseia. Apoiado nessa exuberância fotográfica, Uma viagem extraordinária é repleto de momentos verdadeiramente afetivos, e eles surgem nos momentos mais imprevistos, seja quando se Spivet e seu pai encontram uma cabra presa a um arame numa estrada deserta (e a cor vermelha do sangue contrasta com o branco do seu pelo e a paisagem ao redor), seja quando o personagem está para partir em viagem e precisa fazer com que o trem pare, a fim de que possa embarcar nele.
Os seus primeiros 20 minutos são um trabalho notável de ligação entre os personagens e o ambiente, mas é quando Spivet parte em viagem que a narrativa atinge caminhos tocantes: é antológica a analogia entre o trem no qual o personagem embarca com as paisagens e a figura do bisão, um animal que serve de referência para a história dos Estados Unidos, em direções contrárias. Não à toa, ele também está dentro de um trailer, símbolo das viagens dos norte-americanos (como As confissões de Schmidt), assim como as imagens da família de papelão e o café (com bacon e ovo) típico. Aliás, o filme está repleto dessas referências à cultura dos Estados Unidos e ao fato de que o ambiente em que vive Spivet (o pai é um legítimo cowboy) só aparenta fazer parte de um passado, em que os animais vão sendo deixados para trás das máquinas, tema que também é discutido em Nebraska, também de Payne, mas são essenciais na progressão para o futuro, a fim de manter um certo equilíbrio. É justamente este núcleo do filme que se transforma talvez naquilo que Jeunet melhor trouxe ao cinema, conduzido também pela trilha sonora notável de Denis Sanacore.

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Em outro momento, há um caminhoneiro que mostra fotografias dos passageiros para quem oferece carona – entre elas, está uma em que tirou na guerra, apontando sua arma para o que se entende ser um integrante do Talibã. Nesse sentido, Jeunet investe no filme elementos não comuns ao universo infantil, tornando seu filme ao mesmo tempo um retrato bastante interessante da infância e um ingresso no que se denomina vida adulta, na qual se pode reconhecer as perdas e uma certa culpa. O irmão de Spivet, Layton, é uma presença que persiste sobretudo na memória, mas Jeunet não foge a também retratá-lo como aquilo que representaria principalmente a vontade do pai de Spivet, de ter um filho dedicado à fazenda, ao contrário de Spivet, interessado exclusivamente em suas invenções. Esse peso da culpa é carregado pelo personagem de modo a nunca deixá-lo tranquilo. Inegável também ver a presença policial nessa fuga, quando Jeunet mostra o personagem tendo de se alimentar num trailer com lanche típico, em elementos de transição que remetem ao filme Delicatessen.
O menino Kyle Catlett, que faz Spivet, tem o comportamento realmente de uma criança, ou seja, não é um miniadulto, o que torna os filmes de Anderson também tão especiais. Isso fica claro sobretudo quando o personagem vasculha um determinado diário e pensa nas pessoas que podem estar vendo seu trem passar. A maneira como Catlett revela seu interesse pelo diário da mãe – que constitui boa parte do livro – é revelador de um talento mirim. Em outros momentos, a presença de Catlett dá ao filme uma noção mais estagnada do que aquela que encontramos em Anderson e torna a parte final menos interessante do que poderia, mesmo com a presença da excelente Judy Davis, cuja linha de interpretação destoa sensivelmente do elenco. No entanto, Jeunet nunca extrai de Catlett uma certa ingenuidade que torna Spivet um personagem verossímil. Outro detalhe, nesse terceiro ato, que, por outro lado, oferece uma atmosfera de melancolia é a sensação de perda que traz o filme de Jeunet, de algo que está sendo deixado para trás, enquanto Anderson imagina uma infância, para usar o nome do experimento de Spivet, perpétua.
É neste ato, ao mesmo tempo, que Helena Bonham Carter, como a mãe de Spivet, volta a fazer um papel mais direto e menos excêntrico, se destaca, mas é realmente a presença de um dos atores preferidos de Jeunet, Dominique Pinon, que traz ao filme seu momento mais singelo, quando se trata da origem do nome do personagem. Nesta altura, o espectador já está satisfeito: cercado de uma direção de arte impecável, proporcionando a vontade de emoldurar as suas imagens, Uma viagem extraordinária é um dos filmes mais humanos lançados recentemente, e, na mesma medida em que tem pretensões artísticas, procura um diálogo direto com o universo infantil, com uma linha narrativa situada entre o poético e o tom de lição de moral, por vezes até simples, mas sem o lugar-comum. Há filmes que fazem o espectador se sentir bem, e Jeunet consegue lidar com este caminho como poucos cineastas. Se O fabuloso destino de Amélie Poulain o colocou num grupo seleto de autores, Uma viagem extraordinária comprova sua sensibilidade contemporânea em larga escala.

The Young and Prodigious T.S. Spivet, FRA/CAN, 2013 Diretor: Jean-Pierre Jeunet Elenco: Kyle Catlett, Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Niamh Wilson, Jakob Davies, Dominique Pinon Roteiro: Jean-Pierre Jeunet Fotografia: Thomas Hardmeier Trilha Sonora: Denis Sanacore Produção: Frédéric Brillion, Gilles Legrand, Jean-Pierre Jeunet Duração: 105 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Epithète Films / Gaumont

Cotação 4 estrelas