Flashdance – Em ritmo de embalo (1983)

Por André Dick

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Musical que deu origem a inúmeras cópias, Flashdance tem na direção Adrian Lyne, que se dedicaria a um cinema baseado em relacionamentos proibidos, a julgar por 9 ½ semanas de amor, Atração fatal, Proposta indecente, Lolita e Infidelidade. Suas exceções foram Alucinações do passado, filme com Tim Robbins, de linha espiritual e bastante interessante, e Foxies, que tinha Jodie Foster e Cherie Curie (cuja história é contada em The Runaways). Seu filme mais conhecido, Flashdance, fica num meio-termo entre o universo musical e o universo romântico, embora ambos se completem em sua narrativa. Ela mostra o dia a dia de Alexandra “Alex” Owens (Jennifer Beals), que trabalha como soldadora numa fábrica de aço em Pittsburgh, Pensilvânia, e se apaixona por seu chefe, Nick Hurley (Michael Nouri).
Alex dança, à noite, num clube noturno, Mawby, e tem dois amigos: uma quer ser patinadora, Jeanie (Sunny Johnson), e o namorado dela, Richie (Kyle T. Heffner), pretende seguir a carreira de humorista de stand-up, em Hollywood. Sem estudos formais na área da dança, Alex também procura a ajuda de Hanna Long (Lilia Skala), uma bailarina aposentada, para tomar conselhos, a fim de entrar no Conservatório Pittsburgh de Dança e Repertório. Em termos narrativos, o filme tem um diálogo claro com Fama, de Alan Parker, de 1980, filme excepcional sobre jovens que querem se dedicar à dança, mas se Parker ainda possui um estilo baseado numa montagem, embora frenética, baseada numa concepção de cinema clássico, Flashdance é uma vertente da geração MTV. Com talento para realizar filmes banhados por um ar de videoclipe, Lyne apresenta em Flashdance uma estética que ajudaria a demarcar o estilo dos anos 80, e não se pode dizer que isso seria dispensável, mesmo que seus produtores, Jerry Bruckheimer e Don Simpson tenham formado, basicamente, uma dupla de filmes comerciais (e divertidos, como Top Gun e Um tira da pesada), até a morte do segundo (hoje Bruckheimer segue em carreira solo, sobretudo na série Piratas do caribe).

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Há boas canções, mesmo contagiantes (como “What a feeling”, que marcou época, de Giorgio Moroder, o mesmo de “Take my breath away”, de Top Gun) e a revelação de Jennifer Beals, mesmo que dublada nas cenas de dança. Não parece desnecessário dizer que o filme, inclusive, teve uma boa aceitação no Globo de Ouro – foi indicado aos prêmios de melhor filme de comédia ou musical e de atriz (Jennifer Beals), ganhando os de melhor trilha sonora e melhor canção – e no Oscar – foi indicado nas categorias de melhor montagem e fotografia e venceu o de melhor canção –, sendo, nesse sentido, mais bem-sucedido que suas cópias posteriores.
Lyne é um diretor com limitações, mas o problema central está na história de Joe Eszterhas (que assinaria, quase uma década depois, o roteiro do sucesso Instinto selvagem, e ainda, um pouco depois, Showgirls, do mesmo Paul Verhoeven, desenvolvendo características que já existem em Flashdance): basicamente é a vida dessa dançarina, cercada pelos sonhos dos amigos e a busca pela realização particular. No entanto, Lyne tem uma certa visão sobre como havia melancolia nos anos 80, e não por acaso seu filme dialoga diretamente com Footloose e Dirty Dancing, sobre a tentativa de permanecer numa adolescência perene, mas sobretudo de adotar a dança como uma libertação.
Se baseado numa história de James Dearden, Lyne cultivou, em Atração fatal, os problemas que um pai de família (Michael Douglas) enfrenta após se envolver com uma amiga (Glenn Close) num final de semana longe da mulher e do filho, com cenas dramáticas de pouca intensidade, e se no videoclipe em forma de filme 9 ½ semanas de amor trazia a relação obsessiva entre a funcionária de uma galeria de arte (Kim Basinger) e um corretor da bolsa de Nova York (Mickey Rourke), em Flashdance ele mostra que uma jovem quer apenas encontrar o amado, mas, principalmente, se tornar independente, enfrentando a realidade de maneira própria.

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Alex tem os elementos de uma nova visão feminina, uma certa provocação ausente nos anos 70, principalmente quando a heroína não acredita em si mesma e quer desistir do seu sonho. Ela é uma visão mais sensível, embora trazendo certos elementos mais revigorantes, daquela personagem Nomi Malone, escrita por Eszsterhas para Showgirls. Há uma certa preocupação de Lyne em situar o mundo da fábrica de um lado, com sua paisagem cinza e soturna, e outro o lado da vida noturna, quando ela se apresenta à noite e é como se fosse um sonho, em meio a números musicais excêntricos e uma profusão de neons, maquiagens e luzes oblíquas. Nesse aspecto, Beals atinge uma interpretação interessante e convincente, sendo uma pena que, excetuando A prometida (em que contracena ao lado de Sting), não tenha conseguido desenvolver seu potencial como atriz revelado aqui. O número da água caindo sobre seu corpo ficou antológico, mas o mais impactante é aquela em que ela dança contra um fundo xadrez, numa espécie de transição do punk para o new wave. Tanto o clube onde se apresenta quanto a sua casa, com os neons na sala, guardam também essa transição, e a fotografia de Donald Peterman é excepcional, conseguindo registrar sensações de cada ambiente. Isso faz com que o filme Lyne não seja apenas um produto cultural de determinada época, mas uma obra que sobrevive a seu tempo, apresentando uma dose de lamento europeu na apresentação da Pittsburgh onde Alex mora. Esta melancolia e seus raios de luz vazados contra um salão em que o sonho é colocado à prova ainda permanece, com todos os seus excessos.

Flashdance, EUA, 1983 Diretor: Adrian Lyne Elenco: Jennifer Beals, Michael Nouri, Lilia Skala, Sunny Johnson, Kyle T. Heffner, Robert Wuhl Roteiro: Joe Eszterhas, Thomas Hedley Jr. Fotografia: Donald Peterman Trilha Sonora: Giorgio Moroder Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson  Duração: 95 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Polygram Filmed Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

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2 Comentários

  1. Mais uma ótima crítica de um bom filme, clássico oitentista. Muito bom sua análise. Deu vontade de rever a película para observar suas considerações. Vc nunca considerou fazer suas análises cinematográficas tb em vídeo, André?
    Abraços!

    Responder
    • André Dick

       /  15 de novembro de 2014

      Prezado Sal,

      Agradeço novamente por seu comentário generoso! Este é realmente um filme subestimado dos anos 80, melhor do que costumam considerar, em razão do seu ritmo associado a um videoclipe. Espero que ainda goste quando for revê-lo. Em relação a análises cinematográficas em vídeo, na verdade nunca cheguei a considerar e realmente agradeço por seu interesse e sugestão.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Abraços,
      André

      Responder

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