Nós somos as melhores! (2013)

Por André Dick

Nós somos as melhores!Filme

O cineasta sueco Lukas Moodysson surgiu no final da década de 90 com um filme que não fez sucesso apenas entre os jovens, à época na fase áurea da MTV, como também foi exibido no Festival de Cannes. Antecipando inúmeros filmes do gênero, Amigas de colégio era o primeiro grande sucesso de um diretor que depois logo faria Bem-vindos, uma divertida sátira ao universo hippie, principal influência em Pequena Miss Sunshine, seguido por um melodrama considerado por muitos como seu melhor filme, mas particularmente exaustivo, Para sempre Lilya. Depois do experimental Um buraco no coração, já sem a leveza dos dois primeiros filmes, ele concebeu ainda, tendo no elenco Gael García Bernal e Michelle Williams, Corações em conflito.
Quase um regresso de Lukas Moodysson às origens de Amigas de colégio e Bem-vindos, Nós somos as melhores! mostra duas meninas, Bobo (Mira Barkhammar) e Klara (Mira Grosin), ambas com treze anos, que resolvem formar uma banda de punk rock na cidade de Estocolmo. Bobo tem uma mãe com dificuldades de relacionamento e separada, enquanto sua amiga Klara pode ser vista como uma adolescente mais independente. As duas, no entanto, possuem algo em comum: estão interessadas no punk e cortam os cabelos para demonstrar que fazem parte do gênero. Bobo circula solitária e deslocada pela festa de 40 anos da mãe e sua única saída é ligar para a amiga no quarto. Na escola, ambas não gostam das aulas de educação física e isso pode ser motivo para compor um hino em relação ao desapreço pelos esportes.

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No entanto, elas não consideram ainda ter uma banda: para conseguir formá-la, eles imaginam que pode ser convidada a jovem Hedvig (Liv LeMoyne), de origem religiosa. Enquanto elas tentam convencê-la a fazer parte de uma banda, e tentam aprender melhor a tocar os instrumentos – Hedvig é uma exímia violonista –, elas frequentam o estúdio onde bandas de mais idade (a Iron First) tentam ensaiar se elas não estão por perto tentando usar o mesmo estúdio. Há poucos filmes que conseguem mostrar esse espaço de bandas em ensaio com a mesma eficácia, a exemplo do singelo Apenas uma vez. No entanto, ao contrário do filme de John Carney, há uma liberdade maior para as personagens desse filme no sentido narrativo; elas são mais interessantes e conseguem sinalizar uma versão do punk rock que dialoga com The Runaways, embora este seja mais baseado na psicodelia dos anos 70.
Moodysson é especialista em mostrar cenários reais sem que pareça um found footage, com uma visão sensível do mundo da música e de como ele pode interferir no comportamento. Não há grandes conflitos nem reviravoltas, mas Nós somos as melhores! revela uma atmosfera de descoberta musical, sem pretensões a ser um panorama da geração que enfoca, do início dos anos 80, mais especificamente 1982, quando o punk rock (era o que diziam) enfrentava seu declínio, sem saber, ainda, que ele seria incorporado por outras vertentes. A linguagem às vezes se assemelha a um encadeamento de quadrinhos e não por acaso o roteiro se baseia numa novela gráfica de Coco Moodysson, mulher de Lukas. Logo depois do surgimento de bandas como Ramones, The Clash e Sex Pistols, novos grupos, como Blondie, The Cars, Tears for Fears e The Police, faziam algo que seria conhecido como new wave, gênero que traz elementos do punk com outras sonoridades. Nós somos as melhores! capta justamente essa época: essas adolescentes gostam do punk, mas já mais inclinadas ao new wave, principalmente nas suas relações. Moodysson mostra como o conflito de Bobo com Klara se mantém sempre num círculo de relações de ciúme e tentativa de crescer por meio de uma rivalidade interna. Para esse elemento, marcam presença Elis (Jonathan Salomonsson) e Mackan (Alvin Strollo), talvez não tão interessados na música quanto na possibilidade de terem algum namoro.

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Além disso, há o deslocamento inicial de Hedvig para o universo do punk rock, abertamente atacado por sua mãe, mãe (Ann-Sofie Rase), preocupada por ter uma filha com cabelo moicano. Moodysson utiliza uma linguagem cinematográfica aparentemente simples, mas muito mais trabalhada do que aquela de seus melhores experimentos anteriores: ele não traz apenas a simplicidade de filmagem de Amigas de colégio e Bem-vindos, como também uma montagem que deixa os personagens em certa medida aparentemente soltos, porén intimamente interligados. Os coadjuvantes não necessariamente se destacam, e ainda assim estabelecem sempre uma relação delicada com os personagens centrais de Moodysson. E o diretor sueco, no que certamente se afasta da maioria de seus pares europeus, não congela os personagens tentando compor uma simetria, mas os coloca em movimento, como naquela sequência em que as meninas tentam conversar com pessoas nas ruas – o trecho que mais lembra Apenas uma vez.
Utilizando um figurino com cores trabalhadas e cenários que contribuem para um clima natural, o filme de Moodysson ainda revela três ótimas atrizes: Barkhammar, Grosin e LeMoyne são responsáveis diretamente pelo roteiro do filme ser tão bem trabalhado. Mesmo nos momentos mais complicados de Para sempre Lilya, Moodysson ainda tinha Oksana Akinshina e Artyom Bogucharskiy, em atuações muito vigorosas e sensíveis. Por meio desse elenco, alguns momentos que poderiam ser forçados dramaticamente se tornam eficientes. A sequência em que Klara tenta se inserir, com Bobo, na festa do irmão mais velho, tentando experimentar sensações não recomendadas para sua idade, há uma influência sobretudo de Bem-vindos neste filme em que, afinal, uma menina que toca violão no colégio e é vaiada pode se tornar uma referência para se aproximar à rebeldia e uma tarde no alto de um prédio coberto de neve simboliza, na verdade, o início da descoberta das coisas que ainda virão. Nós somos as melhores! revela como poucos filmes a sensação de descoberta da adolescência: estão lá os primeiros momentos em que reunir uma coletânea de músicas era uma salto para a descoberta de uma rebeldia não apenas posada, entretanto capaz de estabelecer afeto, e o significado de que a música pode representar, mais do que uma diversão, uma maneira de estabelecer ligação entre pessoas tão diferentes.

Vi är bäst!, SUE, 2014 Diretor: Lukas Moodysson Roteiro: Lukas Moodysson Elenco: Mira Grosin, Mira Barkhammar, Liv LeMoyne, Johan Liljemark, Mattias Wiberg, Jonathan Salomonsson, Alvin Strollo Fotografia: Ulf Brantås Produção: Lars Jönsson Duração: 102 min. Distribuidora: Zeta Filmes Estúdio: Memfis Film

Cotação 4 estrelas e meia

 

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