Uma viagem extraordinária (2013)

Por André Dick

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As aproximações de Uma viagem extraordinária com a obra de Wes Anderson existirão, mesmo que tratemos aqui de um autor como Jean-Pierre Jeunet, responsável por um dos filmes mais interessantes do início do século, O fabuloso destino de Amélie Poulain e cujo visual certamente também inspirou Anderson. São cineastas com influência de leituras que remetem ao universo infantil e não por acaso Anderson adaptou O fantástico Sr. Raposo de uma obra de Roald Dahl e filmes como Os excêntricos Tenenbaums e Moonrise Kingdom lidam com esse mesmo universo. Nele, as imagens remetem a figuras de relevo – bastante claras em Uma viagem extraordinária.
Baseado no livro The Selected Works of T.S. Spivet, de Reif Larsen, que se destaca também pelos gráficos, desenhos, mapas, num diálogo direto com o leitor, há diferenças, no entanto, bastante evidentes. A primeira é que Jeunet, a partir da leitura dessa obra, visualiza a infância como um lugar mais de melancolia e culpa, no caso do personagem de T.S. Spivet (Kyle Catlett), ligada à figura do irmão. Ele mora com a mãe, Dra. Clair (Helena Bonham Carter), o pai (Callum Keith Rennie) e a irmã, Gracie (Niamh Wilson), tendo lembranças desse irmão, Layton (Jakob Davies). Embora a mãe faça pesquisas sobre besouros e a irmã queira disputar o Miss Estados Unidos, enquanto o pai é um cowboy, ele é uma espécie de inventor, sem a atenção devida (inclusive do professor na escola) e cria uma novidade tecnológica (a máquina do movimento perpétuo), o que o credencia a receber um prêmio, depois do telefonema de G.H. Jibsen (Judy Davies), do Museu Smithsonian. A questão natural é de que ele é uma criança e não poderia sair em viagem. Mas a invenção, na verdade, parece ser apenas a justificativa para que ele possa se reencontrar com a imagem do irmão.

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Passado em Montana, Uma viagem extraordinária tem uma das fotografias mais belas já registradas num filme. Em 1970, o italiano Michelangelo Antonioni iluminou as paisagens dos Estados Unidos com Zabriskie Point, o que repercutiu em inúmeros cineastas, inclusive em outros europeus (como Wim Wenders em Paris, Texas), e pode-se dizer que Jeunet e seu fotógrafo Thomas Hardmeier fazem o mesmo mais de quarenta anos depois, com um trabalho capaz de lembrar os trabalhos de Malick e Reygadas (o de Luz silenciosa, principalmente), mas com um trabalho de cores remetendo a livros infantis – aquele mesmo em que se baseia. Apoiado nessa exuberância fotográfica, Uma viagem extraordinária é repleto de momentos verdadeiramente afetivos, e eles surgem nos momentos mais imprevistos, seja quando se Spivet e seu pai encontram uma cabra presa a um arame numa estrada deserta (e a cor vermelha do sangue contrasta com o branco do seu pelo e a paisagem ao redor), seja quando o personagem está para partir em viagem e precisa fazer com que o trem pare, a fim de que possa embarcar nele.
Os seus primeiros 20 minutos são um trabalho notável de ligação entre os personagens e o ambiente, mas é quando Spivet parte em viagem que a narrativa atinge caminhos tocantes: é antológica a analogia entre o trem no qual o personagem embarca com as paisagens e a figura do bisão, um animal que serve de referência para a história dos Estados Unidos, em direções contrárias. Não à toa, ele também está dentro de um trailer, símbolo das viagens dos norte-americanos (como As confissões de Schmidt), assim como as imagens da família de papelão e o café (com bacon e ovo) típico. Aliás, o filme está repleto dessas referências à cultura dos Estados Unidos e ao fato de que o ambiente em que vive Spivet (o pai é um legítimo cowboy) só aparenta fazer parte de um passado, em que os animais vão sendo deixados para trás das máquinas, tema que também é discutido em Nebraska, também de Payne, mas são essenciais na progressão para o futuro, a fim de manter um certo equilíbrio. É justamente este núcleo do filme que se transforma talvez naquilo que Jeunet melhor trouxe ao cinema, conduzido também pela trilha sonora notável de Denis Sanacore.

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Em outro momento, há um caminhoneiro que mostra fotografias dos passageiros para quem oferece carona – entre elas, está uma em que tirou na guerra, apontando sua arma para o que se entende ser um integrante do Talibã. Nesse sentido, Jeunet investe no filme elementos não comuns ao universo infantil, tornando seu filme ao mesmo tempo um retrato bastante interessante da infância e um ingresso no que se denomina vida adulta, na qual se pode reconhecer as perdas e uma certa culpa. O irmão de Spivet, Layton, é uma presença que persiste sobretudo na memória, mas Jeunet não foge a também retratá-lo como aquilo que representaria principalmente a vontade do pai de Spivet, de ter um filho dedicado à fazenda, ao contrário de Spivet, interessado exclusivamente em suas invenções. Esse peso da culpa é carregado pelo personagem de modo a nunca deixá-lo tranquilo. Inegável também ver a presença policial nessa fuga, quando Jeunet mostra o personagem tendo de se alimentar num trailer com lanche típico, em elementos de transição que remetem ao filme Delicatessen.
O menino Kyle Catlett, que faz Spivet, tem o comportamento realmente de uma criança, ou seja, não é um miniadulto, o que torna os filmes de Anderson também tão especiais. Isso fica claro sobretudo quando o personagem vasculha um determinado diário e pensa nas pessoas que podem estar vendo seu trem passar. A maneira como Catlett revela seu interesse pelo diário da mãe – que constitui boa parte do livro – é revelador de um talento mirim. Em outros momentos, a presença de Catlett dá ao filme uma noção mais estagnada do que aquela que encontramos em Anderson e torna a parte final menos interessante do que poderia, mesmo com a presença da excelente Judy Davis, cuja linha de interpretação destoa sensivelmente do elenco. No entanto, Jeunet nunca extrai de Catlett uma certa ingenuidade que torna Spivet um personagem verossímil. Outro detalhe, nesse terceiro ato, que, por outro lado, oferece uma atmosfera de melancolia é a sensação de perda que traz o filme de Jeunet, de algo que está sendo deixado para trás, enquanto Anderson imagina uma infância, para usar o nome do experimento de Spivet, perpétua.
É neste ato, ao mesmo tempo, que Helena Bonham Carter, como a mãe de Spivet, volta a fazer um papel mais direto e menos excêntrico, se destaca, mas é realmente a presença de um dos atores preferidos de Jeunet, Dominique Pinon, que traz ao filme seu momento mais singelo, quando se trata da origem do nome do personagem. Nesta altura, o espectador já está satisfeito: cercado de uma direção de arte impecável, proporcionando a vontade de emoldurar as suas imagens, Uma viagem extraordinária é um dos filmes mais humanos lançados recentemente, e, na mesma medida em que tem pretensões artísticas, procura um diálogo direto com o universo infantil, com uma linha narrativa situada entre o poético e o tom de lição de moral, por vezes até simples, mas sem o lugar-comum. Há filmes que fazem o espectador se sentir bem, e Jeunet consegue lidar com este caminho como poucos cineastas. Se O fabuloso destino de Amélie Poulain o colocou num grupo seleto de autores, Uma viagem extraordinária comprova sua sensibilidade contemporânea em larga escala.

The Young and Prodigious T.S. Spivet, FRA/CAN, 2013 Diretor: Jean-Pierre Jeunet Elenco: Kyle Catlett, Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Niamh Wilson, Jakob Davies, Dominique Pinon Roteiro: Jean-Pierre Jeunet Fotografia: Thomas Hardmeier Trilha Sonora: Denis Sanacore Produção: Frédéric Brillion, Gilles Legrand, Jean-Pierre Jeunet Duração: 105 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Epithète Films / Gaumont

Cotação 4 estrelas

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6 Comentários

  1. Davi Mariano

     /  29 de dezembro de 2014

    Excelente crítica, a mais completa que encontrei sobre esse filme encantador. Parabéns e obrigado pela leitura, vou me tornar um visitante assíduo deste site.

    Responder
    • André Dick

       /  30 de dezembro de 2014

      Prezado Davi,

      Fico feliz que tenha apreciado também este filme de Jeunet e a crítica feita sobre ele; trata-se de uma obra fascinante. Agradeço, ao mesmo tempo, por suas palavras de apreço pelo site e agradeço, desde já, por sua leitura!
      Volte sempre!

      Um abraço!
      André

      Responder
  2. Rômulo Santos Souza

     /  13 de fevereiro de 2015

    Um dos filmes mais surpreendentes que assisti nos últimos tempos. Fotografia excelente, e história comovente, parabéns pela excelente crítica.

    Responder
    • André Dick

       /  13 de fevereiro de 2015

      Prezado Rômulo,

      agradeço pelo comentário generoso e fico feliz que também tenha gostado deste filme, que merece ser mais (re)conhecido. Tem realmente uma fotografia difícil de esquecer, além de uma história, como você assinala, comovente.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  3. Paula

     /  8 de março de 2015

    Amei a crítica! Não posso esperar pra assistir, afinal perdi o fôlego muitas vezes lendo o livro, espero que o filme também me surpreenda!

    Responder
    • André Dick

       /  9 de março de 2015

      Prezada Paula,

      agradeço por seu comentário generoso a respeito da crítica e espero que aprecie o filme, assim como gostou do livro.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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