O escândalo (2019)

Por André Dick

Em 2017, as acusações de assédio de atrizes contra o produtor Harvey Weinstein acabaram tomando grande proporção, chegando também a outros nomes., alguns bastante conhecidos no círculo de Hollywood. O escândalo, de certo modo, ao mostrar as acusações contra Roger Ailes, o chefe da Fox News, em 2016, acaba dialogando com esse cenário, em que mulheres constituíram movimentos como %MeToo e Time’s Up.
O filme de Jay Roach, responsável antes por comédias como Entrando numa fria e por Trumbo, que deu uma indicação ao Oscar a Bryan Cranston, procura mostrar algumas jornalistas e apresentadoras desse canal, mais especificamente Megyn Kelly (Charlize Theron) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman), que, sob as ordens de Roger, ingressavam na grade como figuras de destaque, a primeira principalmente e a segunda no programa Fox and Friends. Megyn, assessorada por Lily Balin (Liv Hewson) e Julia Clarke (Brigette Lundy-Paine) e casada com Doug (Mark Duplass), acaba tendo um sério contratempo depois de uma pergunta num debate ao então candidato Donald Trump.

O escândalo é uma amostra de fazer um certo cinema que se pretende de denúncia e consegue abranger uma atmosfera situada entre a vida pública e restrita aos bastidores. Ele se apoia tanto nas duas protagonistas quanto na figura da jovem Kayla Pospisil  (Margot Robbie),, não baseada exatamente numa personalidade real, que chega à emissora pretendendo, claro, conquistar seu espaço e se torna amiga de Jess Carr (Kate McKinnon). As discussões sobre posicionamentos ideológicos permeiam o roteiro bem escrito de Charles Randolph, apostando num estilo semelhante em A grande aposta, embora certamente entrecortado algumas vezes por alguns exageros expositivos. A figura de Roger, sustentada por Murdoch (Malcolm McDowell), dono da emissora, é muito bem desenhada por John Lithgow, numa interpretação excepcional, embaixo de uma maquiagem que o deixa quase irreconhecível – a maquiagem é um destaque também em Theron e Kidman, para deixá-las parecidas com as apresentadoras reais. Suas conversas com as âncoras são conflituosas, mostrando as manobras de uma emissora para conquistara audiência, até que o diretor Roach se direciona para o objetivo. E, quando ingressa em âmbito jurídico, num determinado momento, surge a advogada Susan Estrich,, em ótima atuação de Allison Janney, inserindo o filme num ambiente mais ousado.

De certo modo, O escândalo não chega a tomar uma posição como poderia se prever pela sua temática, não no sentido de reconhecer quem é a peça-chave para a denúncia, e sim para outros assuntos que correm à margem. Roach evita também entrar em algumas escolhas mais espinhosas, sem, no entanto, não deixar de explorar o drama dessas mulheres que sofreram assédio.
Charlize Theron é uma grande atriz e tem aqui seu melhor desempenho talvez desde Jovens adultos, um de seus filmes mais subestimados, fazendo uma apresentadora ao mesmo tempo fria e interessada no bem-estar dos familiares. Kidman também é excelente, tecendo uma dualidade entre certa segurança à frente das câmeras e uma necessidade de querer agradar, mas sem nunca conseguir se encaixar no que está acontecendo ao redor. E Robbie tem sua atuação mais dedicada desde O lobo de Wall Street, conseguindo se mostrar vulnerável e, ao mesmo tempo, ambiciosa. Ela tem a cena certamente mais difícil e que causa angústia no espectador, além de se apoiar bem, em alguns momentos, na atuação de Kate McKinnon, mais conhecida por ser humorista no Saturday Night Live e por sua participação no Caça-fantasmas, mais uma no elenco predominantemente feminino e de qualidade notável, alternando comédia e drama com a mesma competência.

O escândalo também se apresenta como um filme sobre a mulher num meio de comunicação e sua tentativa de conciliar a ambição corrente, a dedicação à família e seus valores pessoais e intransferíveis. O roteirista não chega a desenvolvera  ligação entre as três figuras proeminentes como poderia, deixando nas entrelinhas que elas sofreram assédio na mesma proporção, mas se mantêm a distância entre elas, não chegando a querer embarcar num movimento. É nesse ponto, talvez, que alguns considerem sua história mais atenuadora e menos motivador para o universo feminino, abdicando de maior aprofundamento, principalmente no terceiro ato.
Em termos de estilo, é editado de maneira ágil, como alguns filmes que se assemelham a ele, a exemplo de Vice, A grande aposta e As golpistas, todos com um selo de Adam McKay. Como Vice, especificamente, do ano passado, em determinados momentos acaba tratando seus temas de maneira superficial, porém nunca de maneira desinteressante. Isso é apoiado pelo brilhante design de produção e pelo figurino de Colleen Atwood (habitual colaboradora de Tim Burton), que transportam o espectador quase para dentro da emissora de televisão, com uma perspicácia também da fotografia de Barry Ackroyd (de obras como Guerra ao terror e Detroit), o que não é comum em boa parte das obras que tratam de jornalismo.

Bombshell, EUA, 2019 Diretor: Jay Roach Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Kate McKinnon, Connie Britton, Malcolm McDowell, Allison Janney Roteiro: Charles Randolph Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Aaron L. Glibert, Jay Roach, Robert Graf, Michelle Graham, Charles Randolph, Margaret Riley, Charlize Theron, AJ Dix, Beth Kono Duração: 108 min. Estúdio: Bron Creative, Annapurna Pictures, Denver + Delilah Productions, Lighthouse Management & Media, Creative Wealth Media Distribuidora: Lionsgate

Cemitério maldito (2019)

Por André Dick

O cinema vem adaptando obras de Stephen King em larga escala desde os anos 70, quando livros como Carrie, a estranha e Os vampiros de Salem, se transformaram em filmes (o de Hooper feito inicialmente para a TV, mas depois lançado no cinema em circuito restrito, pela qualidade). No entanto, foi nos anos 80, com peças como O iluminado, Fog, Christine – O carro assassino, Conta comigo e A hora do lobisomem, que King chegou as maiores plateias. Em Creepshow ele participou, inclusive, como ator numa das histórias. No final dessa década, foi lançada a primeira adaptação de Cemitério maldito, mais exatamente em 1989. Desde lá, as adaptações do escritor não cessaram, inclusive algumas indicadas ao Oscar de melhor filme (Um sonho de liberdade, À espera de um milagre). Apenas em 2017 foram lançados It – A coisa e Jogo perigoso.
Desta vez, temos uma nova versão da mesma obra de King, como antes já aconteceu com o próprio It, O iluminado e Carrie, entre outros. Ele mostra a chegada de Louis Creed (Jason Clarke), médico de Boston, que se muda para a cidezinha de Ludlow, Maine, com sua esposa Rachel (Amy Seimetz) e seus dois filhos pequenos, Ellie (Jeté Laurence) e Gage (os gêmeos Hugo e Lucas Lavoie).

Além disso, há o gato de Ellie, chamado “Church”. A câmera sobrevoando uma estrada em meio a florestas obviamente lembra o filme de Kubrick do início dos anos 80, no entanto não existe aqui, exatamente, um tom grandioso. Tudo vai se situar num determinado espaço. Logo na chegada, Ellie vai até o bosque, onde vê crianças com máscaras levando um animal a um cemitério chamado “Pet Sematary”, onde conhece o vizinho Jud Crandall (John Lithgow), que avisa sobre o perigo do lugar.
Desde o início, a dupla de diretores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer tenta escapar da versão de 1989, com toda a atmosfera daquela década e a canção-título numa versão antológica dos Ramones (que mais tornou o filme conhecido), com uma fotografia mais soturna. Eles também acentuam o clima pesado e cadavérico dos personagens. Todos eles parecem ter sido afetados pelo conceito de morte, não apenas o médico, como sua esposa, que não quer falar sobre um determinado acontecimento em sua vida.

O mais interessante nessa história é que, para personagens que não conseguem enfrentar a ideia de morte, esta se aproxima cada vez mais, seja por meio de visões estranhas, seja por meio de uma determinada situação envolvendo o gato de Ellie. Este é o momento em que a história é conduzida para um ambiente fantástico, principalmente por meio de uma neblina noturna e por meio de passeios no bosque perto de casa que não parecem exatamente reais, contudo repletos de uma sensação onírica. De certo modo, há uma influência decisiva do excelente Hereditário, nos cenários apertados da casa, além de um diálogo aberto com No cair da noite, embora sem a mesma sensação de claustrofobia, e com O ritual nas cenas de sonho. Também há influências de Twin Peaks e Shyamalan quando os diretores filmam as folhas das árvores do bosque, e de Boa noite, mamãe no uso de crianças com máscaras assustadoras.
Os diretores privilegiam as atuações de Clarke, Seimetz e Lithgow, além da revelação Laurence, verdadeiramente efetiva nos melhores momentos. Kölsch e Widmyer, com um cuidado extremo, fazem da história de terror de King uma análise sobre a constituição familiar e de como os personagens dependem uns dos outros para que um certo padrão predomine.

É o tema principal da obra de King, principalmente em clássicos como O iluminado: a ligação entre os pais e como elas se projetam nos filhos, sobretudo ainda crianças. Em Cujo, por exemplo, uma mãe tenta defender seu filho de um cachorro da raça São Bernardo, que fica com raiva depois de ser mordido por um morcego. O roteiro de Jeff Buhler consegue sintetizar essas ideias de King num roteiro bastante sintético, porém sem os exageros de adaptações recentes do escritor que se pretendem épicas e soam vazias. Há alguns lapsos na narrativa, com certeza, no entanto nunca se mostram prejudiciais para o todo e, mesmo que a fotografia de Laurie Rose se sinta um tanto sem inspiração na paleta de cores, há uma movimentação de câmera interessante. Quando a violência cresce em proporção, ela não soa exagerada e sim cabível no contexto – e alguns instantes realmente assustam. É só comparar esta adaptação com outras de King que envolvem gatos (por exemplo, Sonâmbulos) para ver o quanto ele é superior e aborda de modo eficaz seus temas, além de entregar momentos decisivamente temíveis, a exemplo daqueles que envolvem uma estrada que está perto da nova casa da família e já constituíam também os melhores da versão anterior.

Pet sematary, EUA, 2019 Diretor: Kevin Kölsch e Dennis Widmyer Elenco: Jason Clarke, Amy Seimetz, John Lithgow, Jeté Laurence, Hugo Lavoie, Lucas Lavoie Roteiro: Jeff Buhler Fotografia: Laurie Rose Trilha Sonora: Christopher Young Produção: Lorenzo di Bonaventura, Mark Vahradian, Steven Schneider Duração: 101 min. Estúdio: Di Bonaventura Pictures Distribuidora: Paramount Pictures

All That Jazz – O show deve continuar (1979)

Por André Dick

O diretor Bob Fosse fez o musical Cabaret, apontado com um dos maiores da história, no início dos anos 1970, destacando uma jovem Liza Minnelli e uma produção requintada. No entanto, foi no final dessa década que ele lançou All That Jazz – O show deve continuar, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1980, ao lado de Kagemusha, de Akira Kurosawa, e indicado a vários Oscars, inclusive o de melhor filme.
A narrativa acompanha Joe Gideon (Roy Scheider), diretor de teatro e coreógrafo que se divide entre um novo musical da Broadway e um filme que ele aceitou dirigir, sobre um comediante (Cliff Gorman). Trata-se de uma referência à própria obra de Fosse: quando tentava editar Lenny (com Dustin Hoffman), ele dirigia na Broadway o espetáculo Chicago (cuja adaptação para o cinema ganharia o Oscar em 2003 e faz referências a All That Jazz, principalmente no letreiro inicial que forma seu título). De manhã cedo, Gideon já está fumando e tomando seus remédios em peso, assim como tenta conciliar com tudo seu grande vício, o sexo. Seu programa é o seguinte: gotas para os olhos, dexedrina, Alka-Seltzer, chuveiro, o “Concerto Alla Rustica Concerto in G Major”, de Vivaldi, e a frase dita em frente ao espelho com as palmas das mãos abertas e cigarro quase caindo no canto da boca: “Showtime, folks!” (é interessante como essa sequência influenciou Aronofsky em seu Réquiem para um sonho).

Essa rotina de Gideon incorpora nas próprias coreografias que ele vai criando com os integrantes de seu espetáculo, e os gritos de exigências mesclam a sexualidade que insiste em permanecer sempre ao lado dele durante todo a história. Ao seu redor, ele mantém sua namorada Katie Jagger (Ann Reinking), sua ex-mulher Audrey Paris (Leland Palmer) e a filha Michelle (Erzsébet Földi) que tentam controlá-lo, sem efetividade. Ao mesmo tempo, ele fica imaginando um determinado anjo da morte (Jessica Lange). Se há um filme que possa ter antecipado o jogo entre arte e espetáculo visto no recente Birdman é este.
Abalado por problemas de saúde, os produtores querem substituí-lo, não sem antes Gideon transformar sua situação numa espécie de espetáculo pessoal. Para isso, Bob Fosse enquadra imagens que misturam tanto o imaginário de Gideon quanto sua atuação situação de saúde. All That Jazz é exemplo de um musical que se constrói principalmente pela atuação espetacular de Scheider. Quando se vê sua atuação como o xerife Brody, de Tubarão, ou como policial em Operação França, é difícil imaginá-lo num papel como esse.

Não que naquele não mostrasse talento, mas Gideon tem todos os elementos de uma figura que não condiz a princípio com a imagem mais séria e imperturbável de Scheider. Mais eis um ator que se enquadra como nunca num papel, tendo competido com Al Pacino (Justiça para todos) e Dustin Hoffmann (Kramer vs. Kramer) no Oscar, todos eles com excepcionais atuações. O que mais chama atenção, além da atuação magnética de Scheider, é a fotografia magistral de Giuseppe Rotunno, habitual colaborador de Federico Fellini, iluminando os cenários como se de fato constituíssem um show vivo da Broadway. É um dos trabalhos de fotografia mais belos da história do cinema, principalmente o ensaio de abertura, com em torno de cinco minutos, que captura a atmosfera que Fosse deseja para a sua história, no entanto sem esquecer aquele instante em que Gideon ensaia a peça num lugar mais apertado, para os produtores darem seu parecer.
Segundo Stanley Kubrick, este era o maior filme que ele já havia visto, e, sem querer sobrevalorizá-lo, é notável como All That Jazz sobrevive a seu tempo, com uma edição notável, intercalando cenas e sensações de todos os tipos. Por ser um personagem muito ativo e cheio de vida, contudo problemático, Gideon representa a divisão (e o complemento) entre o artístico e a vida mais arriscada. Bob Fosse, ao se autoprojetar no personagem, traz complexidade a ele, não de maneira indulgente e sim humana. Gideon representa não apenas seu show: ele representa também as pessoas que veem esse espetáculo.

Fosse administra tudo como se fosse uma espécie de holofote majestoso sobre a própria vida, e quando Gideon foge pelos corredores do hospital ou simplesmente não se importa com as regras do lugar ele leva junto sua noção de arte incontida pelo próprio corpo. Por isso, All That Jazz, mais do que uma obra sobre um artista, é sobre a arte que se inscreve num indivíduo e se dissemina de todas as formas também nas pessoas que o cercam. Uma reunião em que ele parece desligado ao invés de todos representa o momento em que apenas ele está verdadeiramente concentrado no que deve ser feito, apesar de tudo indicar o contrário. Ou aquele momento em que ele está tentando escolher o elenco e acaba saindo do teatro em busca de uma vida pessoal, mas dá a impressão de ser bloqueado inconscientemente pela porta. De certo modo, ele não consegue lidar com a realidade, apenas com os sonhos que vai projetando, um a um, em suas coreografias inesquecíveis.

All That Jazz, EUA, 1979 Diretor: Bob Fosse Elenco: Roy Scheider, Jessica Lange, Ann Reinking, Leland Palmer, Ben Vereen, Cliff Gorman, Erzsebet Fold, Michael Tolan, John Lithgow Roteiro: Bob Fosse, Robert Alan Aurthur Fotografia: Giuseppe Rotunno Trilha Sonora: Ralph Burns Produção: Robert Alan Aurthur Duração: 123 min. Estúdio: 20th Century Fox e Columbia Pictures Corporation

 

2010 – O ano em que faremos contato (1984)

Por André Dick

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Dar continuidade a uma das maiores obras de ficção científica não apenas de todos os tempos, mas também a uma obra-prima cercada por conceitos e enigmas não seria fácil de qualquer modo. Se tentasse se manter o mesmo estilo, ainda mais. Por isso, 2010 – O ano em que faremos contato, dirigido por Peter Hyams a partir de uma obra de Arthur C. Clarke, é visto, não por poucas pessoas, como uma decepção do tamanho do monólito negro que navega pelo espaçotempo de 2001, justamente por ter procurado seu caminho próprio. Hyams teria ligado ao próprio Kubrick, e este teria lhe dito para fazer a obra que quisesse. O diretor de Capricórnio Um, que trabalha com a ideia de que a chegada à Lua foi, na verdade, uma grande criação governamental, e de Outland – Comando Titânio, uma espécie de faroeste de ficção com Sean Connery de 1981, seguiu o conselho de Kubrick.

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E, como Kubrick, Hyams assumiu mais do que o posto de diretor: é também roteirista, diretor de fotografia e produtor. De 2010, lembro mais exatamente a capa do livro original, quando ia a uma livraria com meu pai quando criança, parecida com a do material de marketing do filme: no entanto, havia naquela capa um mistério que o filme tenta carregar consigo. Trata-se de uma ficção científica de bastante qualidade, que surgiu em meio a um período em que vigoravam as séries de Guerra nas estrelas e Star Trek, não encontrando público – conseguiu apenas cobrir seus custos –, e, apesar de comparado a 2001, pode-se dizer que certamente inspirou Gravidade e Interestelar e merece ser reavaliado, sobretudo na sua versão em Blu-ray, com cores notáveis.

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Se tudo inicia (possíveis spoilers a partir daqui) com as palavras do astronauta Dave Bowman (Keir Dullea), o roteiro mostra norte-americanos, comandados pelo doutor Heywood Floyd (Roy Scheider, substituindo William Sylvester, do original), que têm o objetivo de reencontrar a nave Discovery, desaparecida no final do primeiro filme, localizada pela última vez perto da lua de Saturno. A União Soviética tem o plano de ir também atrás da nave, e para isso preparam a Leonov. Essa informação é levada por Dimitri Moisevitch (Dana Elcar) a Floyd. Com receio de sua esposa Caroline (Madolyn Smith) e do filho, Cristopher (Taliesin Jaffe), Floyd acaba concordando em partir numa missão conjunta, ao lado de Walter Curnow (John Lithgow), responsável pela construção da Discovery, e do Dr. Chandra (Bob Baladan), criador do HAL 9000. Na missão, entre os russos, estão a capitã Tanya Kirbuk (Helen Mirren), Vladimir Rudenko (Savely Kramarov), Irina (Natasha Schneider) e Maxim Brailovsky (Elya Baskin). Interessante a maneira como Hyams compõe a vida de Lloyd antes da viagem, com seu filho alimentando golfinhos numa piscina dentro de casa, e a luminosidade remete a um futuro solitário e vago – como, por exemplo, quando Lloyd está à frente da Casa Branca ou correndo numa estrada ao lado do filho, num carrinho.

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Já no espaço, há um conflito entre norte-americanos e soviéticos, entre o comando feminino e Floyd, além de certo patriotismo na trama, no entanto a narrativa, embora com ar de Guerra Fria, é interessante. Perto de Júpiter, eles localizam o monólito, assim como logo chegam à Discovery. A narração de Floyd se constitui principalmente em pedaços de mensagem para sua esposa e filho – ele está ali para proporcionar um amanhã diferente. A partir daí, Hyams explica vagamente por que o computador HAL 9000 enlouqueceu no primeiro e parte do mistério do monólito negro, ou seja, chega a ser didático, ao contrário do filme de Kubrick, o que também corresponde à continuação em livro, escrita por Arthur C. Clarke. Não surpreende que o filme seja apontado simplesmente como inferior ao primeiro, sem a devida análise e percepção de que se trata de uma obra com outro estilo. Existe, aqui, uma tentativa clara de aproximar mais o público de uma aventura espacial, e a primeira ida de Curnow e Chandra até a Discovery revela isso, com um apuro visual de Hyams e um trabalho na movimentação de câmera e no som que colocar o espectador em meio à sensação de estar no espaço sideral.

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Enquanto Kubrick sugeria mais por meio de imagens até poéticas, Hyams cria elementos de ligação mais evidentes para que a história se esclareça sem desvios. Pode-se apontar mais exatamente onde a obra envelheceu – principalmente por sua temática envolvendo norte-americanos e soviéticos –, no entanto existe aqui uma tentativa de ressoar uma real ficção científica. O conjunto de peças de Hyams é mais imersivo do que várias outras que viriam a seguir, sem a mesma força. O mais notável é que os efeitos especiais supervisionados por Richard Edlund (o mesmo de Indiana Jones e Guerra nas estrelas) não tenham sido premiados com o Oscar (conta também com excelente direção de arte, efeitos sonoros, som e figurino elaborados, igualmente indicados ao prêmio). Mantendo a parte técnica excelente do clássico de Stanley Kubrick , 2010 conta ainda com um visual futurista de Syd Mead (Blade Runner) e um elenco com bastante diversificação, em que Scheider é a peça principal, mas assessorada por um Baladan e Lithgow compenetrados e uma Helen Mirren discreta.

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Esse visual e elenco chegam ao limiar do tema abordado por Clarke: o de que o espaço e o monólito guardariam todas as fases da vida humana, e quando ressurge David Bowman em diferentes períodos de sua existência, Hyams oferece um toque quase surreal e fantasmagórico, como o encontro virtual com sua esposa, Betty Fernandez (Mary Jo Deschanel) no hospital. Não apenas o fantasma de Bowman surge na Terra, como avança sobre os espaços da Discovery. Tudo em 2010 é mais evidente. Não apenas nesse sentido, como na maneira como os astronautas, a exemplo de Floyd, atuam – num instante de perigo ele se abraça a uma colega soviética de jornada. É uma cena pouco imaginável em 2001. Em Kubrick, a sensação é de que estamos diante de um grande painel de mistério sobre a humanidade, em ritmo de ópera; em 2010, o ponto de equilíbrio é a discussão política e científica que surge por trás das ações dos personagens. Ainda assim, Hyams é capaz de elevar suas imagens a algo que remete a 2001 no trabalho de cores e visões. Cada uma delas lembra uma grande pintura espacial: eis o que esses filmes parecem ter de melhor.

2010, EUA, 1984 Diretor: Peter Hyams Elenco: Roy Scheider, John Lithgow, Helen Mirren, Bob Balaban, Keir Dullea, Betty Fernandez, Madolyn Smith, Savely Kramarov, Nastasha Schneider, Elya Baskin Roteiro: Peter Hyams Trilha Sonora: David Shire Fotografia: Peter Hyams Produção: Peter Hyams Duração: 116 min. Distribuidora: Metro Goldwyn-Mayer

Armas na mesa (2016)

Por André Dick

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O diretor britânico John Madden conseguiu arrebatar vários Oscars em 1998 por Shakespeare apaixonado e, desde lá, procura acertar de novo um filme que possa ser indicado ao prêmio, em projetos como O capitão Corelli e O exótico Hotel Marigold. Em Armas na mesa, isso não aconteceu, mas seu estilo é visivelmente projetado para isso. É interessante como Madden vai mudando o estilo de acordo com cada projeto, não tendo exatamente uma referência dramática capaz de estabelecer um elo, embora o trabalho com a parte técnica seja sempre competente.
A atriz Jessica Chastain interpreta Elizabeth Sloane, a lobista mais conhecida em Washington, conhecida por sua ambição, e cada gesto dela tenta deixar isso claro. Tendo como parceiro Rodolfo Schmidt (Mark Strong), que a procura para combater a companhia onde trabalha, muito maior, ela se torna figura-chave numa discussão sobre uma votação que envolve congressistas do Senado e uma lei que visa ao controle de quem usa armas. Toda sua equipe a segue, menos Jane Molloy (Alison Pill), que parece tão ambiciosa quanto ela. A cultura norte-americana voltada ao armamento, tema já usado no conhecido documentário de Michael Moore Tiros em Columbine, é exposta de maneira a criar um diálogo com o próprio comportamento dos personagens: todos buscam um alvo, direto ou indireto.

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Do lado contrário, estão George Dupont (Sam Waterston), seu antigo chefe, que queria que ela fizesse lobby para as mulheres sobre o tema, Pat Connors (um interessante Michael Stuhlbarg) e o Senador Ron M. Sperling (John Lithgow), que tenta condená-la por tentar obter votos de maneira proibida. O diretor Madden tenta trabalhar a figura de Sloane de maneira complexa, contudo Chastain, uma atriz reconhecida por seu talento e suas nuances, se mostra um pouco overacting desde o início, excessivamente hiperativa, embora este seja o objetivo do personagem. Sua personagem, paradoxalmente, é excessivamente fria e pouco empática e ela não consegue desenvolvê-la como o faz Isabelle Huppert, por exemplo, em Elle, tampouco como surge em O ano mais violento (com um estilo visual, inclusive, parecido), sendo a primeira atuação realmente questionável do talento de Chastain, exibido desde sua estreia para as grandes plateias em A árvore da vida. Chastain sempre teve como principal elemento um misto de nervosismo com tranquilidade, o que a fazia tão viva em projetos como A hora mais escura. No entanto, ela precisa de um certo apoio do roteiro para realmente brilhar em Armas na mesa, o que falta em alguns momentos, e mesmo que a simbologia sustente a trama (os espelhos, o quarto vazio) tudo demora a fazer mais sentido.

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É quando ela se mostra mais vulnerável e complexa que o filme cresce, principalmente na sua relação com um jovem que acompanha mulheres, Forde (Jake Lacy), e com uma jovem chamada Esme (Gugu Mbatha-Raw), que ela tenta utilizar para tratar do tema de armamento. Quando, curiosamente, a narrativa apresenta menos diálogos e é mais introvertido que funciona. A partir desse ponto, seu comportamento, antes cercado por câmeras e discussões, jantares tentando contentar a políticos e encontros furtivos à noite, passa a ser visto como, inclusive, melancólico. O diretor perde a oportunidade de desenvolver mais a subtrama com Forde, reduzindo tudo a um choque entre identidades que se procuram sem a certeza de que se encontram uma na outra.
Madden utiliza um belo trabalho de fotografia de Sebastian Blenkov para mostrar os bastidores de Washington e a maneira como Sloane trabalha, em conflito com seus companheiros de equipe e sempre de forma ambiciosa, mas o mais curioso é que em nenhum momento se esclarece por que ela se predispõe a esse papel. A atuação de Chastain em conjunto com Mark Strong não tem a força que exibiam em A hora mais escura, embora renda bons momentos, naqueles em que o roteiro de Jonathan Perera encadeia diálogos e conflitos entre os personagens e a montagem de Alexander Berner, que realizou o feito de realizar aquela de Cloud Atlas para as irmãs Wachowski e Tom Tkywer, encubra muitas pistas com grande efeito.

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Armas na mesa também apresenta características que o aproximam de alguns filmes dos anos 70, em que havia conspirações políticas agindo nos bastidores de um tema visto por todos e entendido por poucos, por exemplo em A trama e Três dias do Condor, nos quais os bastidores da política se convertiam na perseguição a um determinado indivíduo, de maneira não muito clara. Em sua primeira parte, ele é particularmente confuso, alternando cenários das agências e jantares com congressistas, sem, no entanto, se perder quando passa para a vida solitária de Sloane. O que é mais perturbador nesse projeto é como Madden em alguns momentos realmente retrata a solidão existente em Washington, mesmo diante de mudanças que levariam a uma drástica reviravolta na sociedade. Assim, Armas na mesa realmente, em alguns momentos, capta a atmosfera de Washington e a pressão dessas equipes trabalhando contra o tempo para aprovarem determinadas leis. Trata-se de uma obra em parte desagradável, porque o espectador não tem exatamente pelo que torcer, e em parte instigante, à medida que trata de um tema bastante interessante e propício a debates.

Miss Sloane, EUA/FRA, 2016 Diretor: John Madden Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw, Alison Pill, Michael Stuhlbarg, Jake Lacy, Sam Waterston, John Lithgow Roteiro: Jonathan Perera Fotografia: Sebastian Blenkov  Trilha Sonora: Max RichterProdução: Ariel Zeitoun, Ben Browning, Kris Thykier Duração: 132 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Transfilm

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O contador (2016)

Por André Dick

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Há poucos thrillers que merecem ser chamados assim, ou seja, a maioria deles têm características de um gênero que sobrevive quase dos mesmos lugares-comuns. Nos últimos anos, todos possuem como referência a série de Jason Bourne e como diretor Paul Greengrass (e não estou levando em conta como outra referência John Wick, com Keanu Reeves). Em O contador, Ben Affleck atua como Christian Wolff, que tem uma espécie de autismo que o permite ter talento com cálculos como se fosse o menino de Mentes que brilham. Ele trabalha num escritório em Plainfield, Illinois, alternando os jantares em casa, com a comida hermeticamente colocada no prato, e tiros a alvo pela vizinhança, que assustam os moradores mais próximos. Deve-se dizer que em sua infância ele viveu um tempo no Instituto de Neurociência Harbor em New Hampshire.
Ele recebe orientação pelo telefone sobre novas missões, pois seu escritório pode ser apenas um motivo para não explicitar quem realmente é. Trata-se de uma vida dupla, com toda clareza e sem spoilers. Há algo estranho: ele mexe com números e atende clientes normalmente, mas parece estar preparado para a guerra. Para completar, seu pai (Robert C. Treveiler) era um militar que pode ter lhe ensinado artes marciais e outras técnicas desconhecidas de grande parte das pessoas, sem querer que seu filho (quando criança interpretado por Seth Lee) tivesse uma vida sob tratamento específico, como havia recomendado um neurologista (Jason Davis). Agora Wolff é perseguido por Raymond King (JK Simmons), o diretor de crimes financeiros para o Departamento do Tesouro, que chantageia uma candidata, Marybeth Medina (Cynthia Addai-Robinson), a descobrir informações sobre ele.

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Enquanto isso, ele vai fazer uma auditoria numa companhia de investigação na área de robótica e próteses, com o auxílio da contadora Dana Cummings (Anna Kendrick), que encontrou finanças suspeitas. Lamar Blackburn (John Lithgow) e sua irmã e associada Rita Blackburn (Jean Smart) cooperam com a investigação de Wolff, mas surgem novos problemas pelo caminho, envolvendo um homem chamado Braxton (Jon Bernthal) e outro chamado Francis Silverberg (Jeffrey Tambor). Será que ele está sozinho?
O contador possui um roteiro instigante de Bill Dubuque, baseado num material da DC, com algumas nuances não encontradas em filmes do gênero e algumas subnarrativas sinuosas e que acabam muitas vezes escapando ao controle do espectador. A fotografia elaborada de Seamus McGarvey, habitual colaborador de Joe Wright (Desejo e reparação, Anna Karenina, Peter Pan), acompanha cenas de ação coreografadas com raro talento pelo diretor Gavin O’Connor, e se destaca aqui a mescla com elementos de humor involuntários que não tornam a trama excessivamente pretensiosa, como indicaria no seu início. Affleck está em seu segundo momento de ação do ano, depois de Batman vs Superman, enquanto se aguarda A lei da noite, o próximo dirigido por ele. Esta obra, assim como o personagem de Affleck, possui uma dupla camada: por um lado, trata-se de um thriller, por outro de um drama focado na infância e nos enigmas de um passado que não se resolve – e isso fica claro por meio da figura de King. Os flashbacks da história são pontuais e não cansam, e o diretor consegue minimizar o drama familiar ao contrário do que acontecia no seu filme mais conhecido até então, Guerreiro, sobre o universo do MMA.

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As relações do personagem central se estabelecem por meio da distância e do seu afastamento do que seria mais comum, e Affleck consegue desenhar essas facetas de modo inteligente. Os momentos em que ele fica solitário são genuinamente perturbadores, incomodando o espectador a ponto de as imagens adquirirem uma força que talvez não possuíssem. Não concordo com o fato de que o autismo, por exemplo, estaria sendo desrespeitado pela narrativa: trata-se de uma visão sobre ele, assim como o foi nos anos 80 Rain Man. Não há uma discussão exatamente sobre as características do autismo, porém Affleck tenta por meio do gestual, acima de tudo, incorporar elementos que possam traduzir a sensação do personagem central.
E as referências à pintura de Pollock, mestre do expressionismo abstrato, são essenciais para a compreensão de Wolff. Do mesmo modo, temos uma pintura de Jean Renoir (de uma mãe, figura ausente de sua vida, com seu filho ao fundo), um mestre em reproduzir imagens da infância, à qual Wolff está ligado de maneira decisiva, tanto para explicar seu passado quanto seu presente. Mais interessante é a tranquilidade que surge dessas pinturas em oposição ao que ele vivencia. Em alguns momentos, a narrativa lembra Três dias do condor, dos anos 70, em que um agente do governo feito por Robert Redford se via em meio a uma perseguição sanguinária.

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É permitido dizer que a própria trama incursiona por alguns elementos de abstração, não revelando ao certo os personagens, mantendo-os a certa distância, como o do próprio King. Com os personagens, parece existir uma crítica à cultura norte-americana: o prato feito por Wolff, por exemplo, ou a música que ele escuta, como se estivesse numa área de guerra. O’Connor segue essa linha com certa discrição que diferencia seu thriller dos mais habituais: as sequências de ação se mostram quase parte de um policial arthouse, não fossem os acréscimos pop trazidos à trilha sonora e à relação de Wolff com sua parceira de contabilidade. A fotografia traz imagens que alternam o inverno e o outono, pelos tons, esclarecidos pelas mudanças dos personagens. Apenas se lamenta que não sejam dadas a Kendrick as cenas necessárias para que seu personagem seja mais do que coadjuvante, assim como a JK Simmons, com um papel misterioso na medida certa, e John Lithgow, excelente ator, aqui subaproveitado. Para uma produção de 44 milhões, o filme já obteve retorno de 144 milhões e, a partir disso, pode-se até esperar uma franquia: seria uma maneira de explorar melhor esses personagens que não tiveram seu potencial desenvolvido plenamente aqui.

The accountant, EUA, 2016 Diretor: Gavin O’Connor Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, JK Simmons, Jon Bernthal, Jean Smart, Cynthia Addai-Robinson, Jeffrey Tambor, John Lithgow Roteiro: Bill Dubuque Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Mark Isham Produção: Lynette Howell, Mark Williams Duração: 128 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Electric City Entertainment / Zero Gravity Management 

cotacao-4-estrelas

 

Interestelar (2014)

Por André Dick

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O gênero de ficção científica costuma ter como parâmetro, quando se trata sobretudo de uma equipe de astronautas viajando ao espaço, dois filmes: 2001 – Uma odisseia no espaço e Solaris. No entanto, se considerássemos o que Tarkovsky achava do filme de Kubrick, certamente só haveria Solaris como exemplar do gênero e se fôssemos considerar a opinião geral não teria existido outros filmes depois, tão interessantes, a exemplo do recente Gravidade e da esquecida obra-prima Os eleitos. Quando Tarantino afirma que não esperava, com o recente Interestelar, de Christopher Nolan, o aprofundamento de obras como 2001 e Solaris, já sabemos que o filme de Nolan terá como ponto de comparação esses dois, pelo menos para quem calcula as probabilidades do filme para as categorias do Oscar. Para Nolan, o ponto de comparação parece um privilégio, à medida que ele é considerado um cineasta de grande estúdio, talhado para fazer blockbusters conceituais, pelo menos desde Batman – O cavaleiro das trevas e A origem.
Interestelar, em termos visuais, pode não superar o antológico 2001, mas colocá-lo em ponto de comparação com Solaris, mesmo considerando a época em que este foi feito, é uma injustiça com Nolan, o cineasta de blockbusters certamente com mais requinte visual. Se não há uma correspondência efetiva entre experiência e história em Amnésia e  A origem se sustenta mais em suas imagens inesquecíveis do que numa qualidade narrativa, assim como O grande truque se baseia numa ideia de montagem enigmática, ele conseguiu transformar Batman, no primeiro filme e em seu último, num herói bastante interessante, com o auxílio da fotografia notável de Wally Pfister.

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Tarkovsky era um excelente cineasta de imagens naturais, como em O espelho e Nostalgia – obras belíssimas –, mas sua visão do universo científico não tinha interessante o suficiente para desenvolver discussões sobre a influência do planeta Solaris na mente de alguns integrantes de uma estação espacial. O elemento teatral de Tarkovsky não é correspondido por uma montagem e por atuações vigorosas. Cada cena de Solaris traz um manancial de questões – quando, na verdade, estamos diante de algo mecânico e remoto, ou seja, Tarkovsky avaliava que 2001 era “frio”, mas é exatamente seu filme que possui essa característica. Perto dele, qualquer filme, e com Interestelar não seria diferente, parece envolver melodramas fáceis.
Em termos de roteiro, Interestelar mistura Os eleitos, Campo dos sonhos e Contato, mas sem diluí-los. Cooper (Matthew McConaughey) trabalhou como piloto de avião, mas depois de um acidente, passou a se dedicar à sua fazenda, onde vive com os dois filhos, Murphy (Mackenzie Foy) e Tom (Timothée Chalamet), e o avô, Donald (John Lithgow). Numa época em que as expedições espaciais caíram em descrédito e uma praga tem atormentado a vida na fazenda, destruindo as plantações e trazendo correntes de poeira, Cooper espera por um milagre. A filha se inclina a seguir seu interesse pela ciência, enquanto o filho deseja continuar com sua trajetória na fazenda. Ambos são complementares, e daí a Cooper ter contato com um antigo professor, Brand (Michael Caine), Amelia (Anne Hathaway), Romilly (David Gyasi) e Doyle (Wes Bentley), é um passo para o roteiro ir estabelecendo seus caminhos que se destinam ao espaço e às estrelas, numa narrativa capaz de mesclar a estrutura de um sucesso comercial com a física e a filosofia, o que rende diálogos bastante incomuns, alguns com o peso da exposição científica, auxiliada pela presença do físico Kip Thorne e suas teorias. De algum modo, o filme lida de maneira interessante sobre as percepções, pois trata também do conhecimento capaz de transformar, ao contrário do que aponta uma auxiliar da escola de Murphy. Depois de conseguir compor uma unidade visual em torno do mundo dos sonhos em seu A origem, Interestelar estabelece uma ligação entre o espaço e as plantações da fazenda de Cooper. O homem só pode se salvar e se manter como indivíduo quando visualiza algo que está além do seu horizonte e dos planos imediatos. Tudo é simbolizado por meio de uma biblioteca, como se o sentimento da humanidade fosse eternizado nela e nada pudesse escapar ao seu redor. Escapa – mas neste imprevisível Interestelar isso significa adentrar no espaço.

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Chama a atenção como o cineasta, sempre mais ocupado com a arquitetura do que está acontecendo (desde seu interessante filme de estreia Following, que acompanhava uma dupla de assaltantes imprevista), consegue introduzir as questões científicas levantadas numa espécie de emoção em sintonia com uma trilha absolutamente memorável de Hans Zimmer, cujo trabalho consegue recuperar tanto os melhores momentos das sinfonias selecionadas por Kubrick para 2001 quanto várias notas do trabalho de Angelo Badalamenti para David Lynch, fazendo o filme de Nolan adquirir uma intensidade emocional quase ausente em A origem, mas já existente no final espetacular de Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, no qual há talvez os melhores momentos isolados da trajetória de Nolan. Há diversos momentos filmados por Nolan com uma capacidade visual e emocional de um grande cineasta, com uma escala épica, fazendo o espectador esquecer possíveis grãos espaciais não tão necessários. Para essa característica, é de vital presença a fotografia de Hoyte Van Hoyteman, que iluminou o universo futurista singular de Ela, de Spike Jonze, além dos efeitos especiais e da direção de arte espetaculares.
Embora Nolan continue um cineasta dividido entre o trabalho que se considera artístico – mais silencioso, voltado às imagens – e o blockbuster – e pelo menos ele não nega essa característica de sua obra –, numa busca pelo vilão de uma história, por exemplo, certamente o ponto mais falho de Interestelar, talvez ele nunca tenha se mostrado também tão ressonante. Pela primeira vez de fato, ele consegue, por meio das interpretações, sintetizar suas ideias a respeito da composição não apenas do universo no sentido cósmico, como também no plano familiar e individual. Para o sucesso efetivo de Nolan, a interpretação de Matthew McConaughey, um pouco marcada no início por seu sotaque característico, é absolutamente verdadeira e menos voltada à emoção registrada pelo físico vista em Clube de compras Dallas; trata-se de uma das grandes atuações do ano, em seu ato derradeiro ao mesmo tempo sentimental e consciente. Menos presente, mas do mesmo modo efetiva, é Anne Hathaway, enquanto Jessica Chastain surge como uma das personagens com mais idade e Michael Caine consegue, com poucos diálogos, traduzir uma ligação com sua filha, em mais uma parceria com o diretor depois da série Batman e de A origem. Além de Mackenzie Foy ser uma boa revelação. Esse elenco consegue, de algum modo aparentemente disperso, traduzir a base do roteiro de Nolan com seu irmão: há mais do que uma visão sobre como o amor une as pessoas no sentido material. Em Interestelar, e poucos filmes conseguem isso com a mesma ênfase e sem reduzir os personagens a símbolos, o amor se revela no plano da memória, mas uma memória sem tempo definido. Filhos encontram pais e vice-versa, mas não sabemos quais são aqueles capazes de demonstrar melhor a memória da humanidade. Podem existir outros planetas, mas quem fornece sentido a eles é a ligação entre seres diferentes. Mesmo que haja uma parcela espetacular nas ações de Interestelar, Nolan está mais interessado na afetividade e no resultado que ela proporciona às pessoas: naves, planetas e buracos de minhoca significam, além da viagem, uma permanência intransferível a cada um de nós.

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Trata-se de um argumento aparentemente simples, mas Nolan, de algum modo, consegue torná-lo sólido apresentando um agrupamento constante de imagens e personagens em situações diferentes, mas interligados por uma constante sensação de procura no espaço e no tempo. A vida e a morte se reproduzem ao mesmo tempo, assim como o gelo de um determinado planeta e o fogo nas plantações. E, mais do que tudo: assim como se tenta salvar a humanidade, pode ser, ao mesmo tempo, que tente se salvar apenas uma família perdida no campo. As tentativas parecem destoar em grandeza, mas, para Nolan, colocando-as lado a lado, são iguais, épicas e históricas, cada um a seu modo. Todas as ações repercutem entre si: aquelas do passado e as do futuro, e Interstelar busca uni-las numa mesma visão.
São várias as passagens de Interestelar em que os pontos de humanidade se mostram interessantes: desde aqueles nos quais os personagens se introduzem num ambiente desconhecido e visualmente fantástico até aqueles nos quais estão divididos entre a permanência com os familiares e a passagem no tempo. Nolan, no que talvez supere toda a sua obra, mostra a base de uma tradição familiar de maneira estranhamente original, ainda baseado em certa iconografia dos Estados Unidos, mas conseguindo desenhar as tentativas de sobrevivência e de manter a figura humanas em lugares diferentes no espaço e no tempo. Trata-se de um caminho próprio: enquanto Kubrick estava interessado no mistério que compreende as estrelas, em nossa origem, Nolan fixa o ponto no fato de que as estrelas podem trazer nossas próprias lembranças, já vividas. Interestelar é justamente sobre a passagem do tempo e a memória reservada às pessoas próximas, de como o sentimento se constrói, na verdade, independente de lugares e da distância. É isso que o torna uma obra tão fascinante.

Interstellar, EUA, 2014 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine, Jessica Chastain, Wes Bentley, John Lithgow, Casey Affleck, David Gyasi, Bill Irwin, Mackenzie Foy, David Oyelowo, Topher Grace, Ellen Burstyn Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas, Linda Obst Duração: 169 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Lynda Obst Productions / Paramount Pictures / Syncopy / Warner Bros. Pictures

Cotação 5 estrelas