Poltergeist – O fenômeno (2015)

Por André Dick

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Numa época em que as continuações ou refilmagens dão o tom dos lançamentos no cinema, como Mad Max e Jurassic world, o terror Poltergeist – O fenômeno parece o menos atrativo. Não apenas porque o clássico original se mantém mais pela excelência e nostalgia do que pelo conhecimento de um novo público, à medida que suas duas continuações não foram bem-sucedidas, como pelo fato de não haver uma ligação direta, nos atores e na produção, ao original. A versão de 1982 é dirigida oficialmente por Tobe Hooper, de O massacre da serra elétrica, no entanto quem costuma ser visto como seu principal realizador é Steven Spielberg, autor do roteiro e responsável pela produção. Neste remake, quem substitui Spielberg na produção é Sam Raimi, de A morte do demônio e responsável pela primeira franquia de Homem-aranha.
A história se mantém a mesma. Baseada especificamente em O iluminado e O exorcista, mostra a chegada de uma família a uma nova casa. Os pais são Eric Bowen (Sam Rockwell), à procura de um emprego, e Amy (Rosemarie DeWitt), que deseja ser escritora. Seus filhos são Griffin (Kyle Catlett), Madison (Kennedi Clements) e Kendra (Saxon Sharbino). Enquanto a irmã mais velha, Kendra, gosta de assistir a um programa de paranormalidade, apresentado por Carrigan Burke (Jared Harris, o terrível vilão do segundo Sherlock Holmes), Griffin tem receio desde quando se perdeu, certo dia no shopping, e Madison vem se comportando de maneira estranha, sobretudo quando diante de um armário. O primeiro Poltergeist (particularmente, um dos filmes mais assustadores já feitos) era excelente na modelação de uma atmosfera, com a hora inicial muito bem trabalhada. Esta refilmagem, de certo modo, apaga parte desta construção e vai direto aos sustos. No entanto, mais interessante é se exigir desenvolvimento aqui e vibrar com a perseguição ininterrupta de Mad Max pelo deserto ou com os dinossauros previsíveis de Jurassic World.

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É difícil, no gênero de terror e suspense, definir o que garante a qualidade: em termos de sustos, esta refilmagem é bastante convincente. O quarto de Griffin, o armário de Madison – tudo é composto de maneira crível. Talvez não fique tão clara a paranormalidade de Madison, e quando a ameaça vem da televisão. Não apenas, de qualquer modo, o novo Poltergeist se mostra um filme interessante. Se a ação parece acontecer rapidamente demais (o que não deixa de ser um mérito, num período em que se contam os minutos para que um filme termine), tudo não acontece sem um cuidado no design da casa e da fotografia excelente de Javier Aguirresarobe. Seu trabalho em Os outros e A hora do espanto (além de trabalhar com Woody Allen) confirma como consegue captar sustos na movimentação de câmera e na mudança brusca de uma cena para outra.
É certo que o diretor Gil Kenan, do desenho animado muito interessante A casa monstro, não lida bem com a recepção dos pais diante do fato de que os filhos estão sendo ameaçados por fantasmas que saem da televisão. Ou seja, a atuação de Rockwell e DeWitt não se aproximam daquelas de JoBeth Williams e Craig T. Nelson. Ainda assim, Kenan emprega uma tensão  permanente e conta com Kyle Catlett, que no ano passado fez o personagem T.S. Spivet no sensível Uma viagem extraordinária e mostra aqui novamente seu talento. Levando em conta que Poltergeist é encenado praticamente dentro da casa (há apenas uma sequência de um jantar externo), fica fácil entender por que este filme soe sintético, também no desenvolvimento dos personagens e mesmo assim efetivo. Enquanto esta refilmagem não inova muito nas situações, ela reproduz cenas do original talvez de maneira mais apertada e assustadora, sobretudo uma que envolve uma árvore e, definitivamente, aquelas que se passam num armário, remetendo quase às paisagens infernais descritas por Dante, com uma concepção visual impressionante. E há duas sequências (com o drone e a furadeira) que lidam com uma montagem bastante eficiente, conduzindo o espectador para o espaço reduzido da casa.

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Perdi o número de vezes que vi o original e, sabendo o que aconteceria aqui na maior parte do tempo, ainda conseguiu ser assustador. Kenan também possui um olhar muito bom para capturar o cenário dos subúrbios, que desde Meus vizinhos são um terror talvez estejam sumidos. Há uma luminosidade nas ruas que dialoga com Amor pleno, de Malick, assim como um cuidado em reproduzir, por meio da fotografia, os espíritos se manifestando pela energia elétrica. Em alguns momentos, Aguirresarobe confere um trabalho tão específico de cores no quadro que este Poltergeist se sente ainda melhor filmado do que o original no sentido técnico (independente da diferença de anos e de utilização de efeitos especiais). Há um uso muito bom da televisão e dos aparelhos para criar suspense e os cenários de fundo parecem sempre guardar uma ameaça desconhecida, embora não se compare, entre as peças recentes do gênero, a Corrente do mal. Se a filha considera que um celular é item obrigatório, seus pais pouco querem conversar com os filhos ou ouvi-los. Neste Poltergeist, todos estão atentos apenas para o movimento: o diálogo com pessoas ao redor está sensivelmente diminuído. Se a crítica no original era de Spielberg à televisão, aqui a crítica se volta contra essa dispersão – e talvez por isso o final se sinta de tão pouca intensidade.
O que parece ainda afastar esta refilmagem do filme de Tobe Hooper é sua temática de fundo: enquanto no original tínhamos dois pais com problemas de relação com os filhos, e ainda assim interessados numa convivência, parece aqui que temos apenas dois pais ligeiramente desligados das questões mais urgentes, afetados pela crise dos Estados Unidos e sendo obrigados a morar no subúrbio por falta de opção. Rockwell é um ótimo ator para compor este tipo de atitude. A descrença dele no que está acontecendo é a mesma que ele lança sobre o preço oferecido pela casa em que sua família vai morar – ele está, digamos, em outra, praticamente durante toda a história, pouco ligando para o que acontece à sua volta; no momento em que ele precisa vir à tona, Rockwell se estabelece.
Ou seja, do mesmo modo que é possível entender que os admiradores do original considerem essa refilmagem desnecessária – em muitos pontos ela é –, é possível que quem conhece ou desconhece o filme de 1982 não se sinta tão desapontado e sinta que Kenan pretendeu aqui realmente fazer um filme visualmente cuidado, mesmo que visivelmente com um acabamento diferente do anterior: este Poltergeist é um filme ágil e brusco; ainda assim, é cinema de qualidade.

Poltergeist, EUA, 2015 Diretor: Gil Kenan Elenco: Sam Rockwell, Rosemarie DeWitt, Kennedi Clements, Kyle Catlett, Saxon Sharbino, Jane Adams, Jared Harris Roteiro: David Lindsay-Abaire Fotografia: Javier Aguirresarobe Trilha Sonora: Marc Streitenfeld Produção: Nathan Kahane, Robert G. Tapert, Roy Lee, Sam Raimi Duração: 94 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Fox 2000 Pictures / Ghost House Pictures / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Vertigo Entertainment

Cotação 4 estrelas

Uma viagem extraordinária (2013)

Por André Dick

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As aproximações de Uma viagem extraordinária com a obra de Wes Anderson existirão, mesmo que tratemos aqui de um autor como Jean-Pierre Jeunet, responsável por um dos filmes mais interessantes do início do século, O fabuloso destino de Amélie Poulain e cujo visual certamente também inspirou Anderson. São cineastas com influência de leituras que remetem ao universo infantil e não por acaso Anderson adaptou O fantástico Sr. Raposo de uma obra de Roald Dahl e filmes como Os excêntricos Tenenbaums e Moonrise Kingdom lidam com esse mesmo universo. Nele, as imagens remetem a figuras de relevo – bastante claras em Uma viagem extraordinária.
Baseado no livro The Selected Works of T.S. Spivet, de Reif Larsen, que se destaca também pelos gráficos, desenhos, mapas, num diálogo direto com o leitor, há diferenças, no entanto, bastante evidentes. A primeira é que Jeunet, a partir da leitura dessa obra, visualiza a infância como um lugar mais de melancolia e culpa, no caso do personagem de T.S. Spivet (Kyle Catlett), ligada à figura do irmão. Ele mora com a mãe, Dra. Clair (Helena Bonham Carter), o pai (Callum Keith Rennie) e a irmã, Gracie (Niamh Wilson), tendo lembranças desse irmão, Layton (Jakob Davies). Embora a mãe faça pesquisas sobre besouros e a irmã queira disputar o Miss Estados Unidos, enquanto o pai é um cowboy, ele é uma espécie de inventor, sem a atenção devida (inclusive do professor na escola) e cria uma novidade tecnológica (a máquina do movimento perpétuo), o que o credencia a receber um prêmio, depois do telefonema de G.H. Jibsen (Judy Davies), do Museu Smithsonian. A questão natural é de que ele é uma criança e não poderia sair em viagem. Mas a invenção, na verdade, parece ser apenas a justificativa para que ele possa se reencontrar com a imagem do irmão.

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Passado em Montana, Uma viagem extraordinária tem uma das fotografias mais belas já registradas num filme. Em 1970, o italiano Michelangelo Antonioni iluminou as paisagens dos Estados Unidos com Zabriskie Point, o que repercutiu em inúmeros cineastas, inclusive em outros europeus (como Wim Wenders em Paris, Texas), e pode-se dizer que Jeunet e seu fotógrafo Thomas Hardmeier fazem o mesmo mais de quarenta anos depois, com um trabalho capaz de lembrar os trabalhos de Malick e Reygadas (o de Luz silenciosa, principalmente), mas com um trabalho de cores remetendo a livros infantis – aquele mesmo em que se baseia. Apoiado nessa exuberância fotográfica, Uma viagem extraordinária é repleto de momentos verdadeiramente afetivos, e eles surgem nos momentos mais imprevistos, seja quando se Spivet e seu pai encontram uma cabra presa a um arame numa estrada deserta (e a cor vermelha do sangue contrasta com o branco do seu pelo e a paisagem ao redor), seja quando o personagem está para partir em viagem e precisa fazer com que o trem pare, a fim de que possa embarcar nele.
Os seus primeiros 20 minutos são um trabalho notável de ligação entre os personagens e o ambiente, mas é quando Spivet parte em viagem que a narrativa atinge caminhos tocantes: é antológica a analogia entre o trem no qual o personagem embarca com as paisagens e a figura do bisão, um animal que serve de referência para a história dos Estados Unidos, em direções contrárias. Não à toa, ele também está dentro de um trailer, símbolo das viagens dos norte-americanos (como As confissões de Schmidt), assim como as imagens da família de papelão e o café (com bacon e ovo) típico. Aliás, o filme está repleto dessas referências à cultura dos Estados Unidos e ao fato de que o ambiente em que vive Spivet (o pai é um legítimo cowboy) só aparenta fazer parte de um passado, em que os animais vão sendo deixados para trás das máquinas, tema que também é discutido em Nebraska, também de Payne, mas são essenciais na progressão para o futuro, a fim de manter um certo equilíbrio. É justamente este núcleo do filme que se transforma talvez naquilo que Jeunet melhor trouxe ao cinema, conduzido também pela trilha sonora notável de Denis Sanacore.

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Em outro momento, há um caminhoneiro que mostra fotografias dos passageiros para quem oferece carona – entre elas, está uma em que tirou na guerra, apontando sua arma para o que se entende ser um integrante do Talibã. Nesse sentido, Jeunet investe no filme elementos não comuns ao universo infantil, tornando seu filme ao mesmo tempo um retrato bastante interessante da infância e um ingresso no que se denomina vida adulta, na qual se pode reconhecer as perdas e uma certa culpa. O irmão de Spivet, Layton, é uma presença que persiste sobretudo na memória, mas Jeunet não foge a também retratá-lo como aquilo que representaria principalmente a vontade do pai de Spivet, de ter um filho dedicado à fazenda, ao contrário de Spivet, interessado exclusivamente em suas invenções. Esse peso da culpa é carregado pelo personagem de modo a nunca deixá-lo tranquilo. Inegável também ver a presença policial nessa fuga, quando Jeunet mostra o personagem tendo de se alimentar num trailer com lanche típico, em elementos de transição que remetem ao filme Delicatessen.
O menino Kyle Catlett, que faz Spivet, tem o comportamento realmente de uma criança, ou seja, não é um miniadulto, o que torna os filmes de Anderson também tão especiais. Isso fica claro sobretudo quando o personagem vasculha um determinado diário e pensa nas pessoas que podem estar vendo seu trem passar. A maneira como Catlett revela seu interesse pelo diário da mãe – que constitui boa parte do livro – é revelador de um talento mirim. Em outros momentos, a presença de Catlett dá ao filme uma noção mais estagnada do que aquela que encontramos em Anderson e torna a parte final menos interessante do que poderia, mesmo com a presença da excelente Judy Davis, cuja linha de interpretação destoa sensivelmente do elenco. No entanto, Jeunet nunca extrai de Catlett uma certa ingenuidade que torna Spivet um personagem verossímil. Outro detalhe, nesse terceiro ato, que, por outro lado, oferece uma atmosfera de melancolia é a sensação de perda que traz o filme de Jeunet, de algo que está sendo deixado para trás, enquanto Anderson imagina uma infância, para usar o nome do experimento de Spivet, perpétua.
É neste ato, ao mesmo tempo, que Helena Bonham Carter, como a mãe de Spivet, volta a fazer um papel mais direto e menos excêntrico, se destaca, mas é realmente a presença de um dos atores preferidos de Jeunet, Dominique Pinon, que traz ao filme seu momento mais singelo, quando se trata da origem do nome do personagem. Nesta altura, o espectador já está satisfeito: cercado de uma direção de arte impecável, proporcionando a vontade de emoldurar as suas imagens, Uma viagem extraordinária é um dos filmes mais humanos lançados recentemente, e, na mesma medida em que tem pretensões artísticas, procura um diálogo direto com o universo infantil, com uma linha narrativa situada entre o poético e o tom de lição de moral, por vezes até simples, mas sem o lugar-comum. Há filmes que fazem o espectador se sentir bem, e Jeunet consegue lidar com este caminho como poucos cineastas. Se O fabuloso destino de Amélie Poulain o colocou num grupo seleto de autores, Uma viagem extraordinária comprova sua sensibilidade contemporânea em larga escala.

The Young and Prodigious T.S. Spivet, FRA/CAN, 2013 Diretor: Jean-Pierre Jeunet Elenco: Kyle Catlett, Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Niamh Wilson, Jakob Davies, Dominique Pinon Roteiro: Jean-Pierre Jeunet Fotografia: Thomas Hardmeier Trilha Sonora: Denis Sanacore Produção: Frédéric Brillion, Gilles Legrand, Jean-Pierre Jeunet Duração: 105 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Epithète Films / Gaumont

Cotação 4 estrelas