Shazam! (2019)

Por André Dick

Dos mais recentes projetos de super-heróis, talvez o mais improvável seja Shazam! Depois de ter seu roteiro circulando por vários anos, certamente o sucesso de Deadpool abriu espaço para mais um personagem do gênero com tom cômico. Além disso, a Warner/DC vem, desde Mulher-Maravilha, adequando seus filmes mais ao público juvenil, embora não se deva subestimar a presença do idealizador do universo expandido da companhia no cinema de Zack Snyder. Assim como o filme de Jenkins, tanto a versão em conjunto com Joss Whedon de Liga da Justiça e Aquaman possuem vários pontos de contato com o estilo de Snyder, ao contrário do que repete quase em uníssono a crítica, como se a visão dele fosse intrusa. Aquaman, apesar das escolhas de James Wan, e o novo Shazam!, com seu apelo infantil, são parte de uma mesma visão.

Dirigido por David F. Sandberg, que realizou dois sucessos de bilheteria, Quando as luzes se apagam e Annabelle – A criação do mal, Shazam! tem elementos que recorrem ao clima oitentista e à história de Quero ser grande, com Tom Hanks, assim como várias cenas assustadoras e elementos tão soturnos (ou ainda mais) que qualquer momento de Batman vs Superman, embora por trás haja uma validação familiar mais propensa ao público juvenil e um clima natalino aparentemente inofensivo, rendendo até uma brincadeira com a figura do Papai Noel.
Ele tem como vilão Thaddeus Silvana (Ethan Pugiotto), que em 1974 foi levado para a Rock of Eternity, onde conhece Shazam (Djimon Hounsou), e se encontram estátuas que remetem aos sete pecados capitais, a fim de que possa ser testado, em momentos que remetem a O cristal encantado. No entanto, ele falha. Anos depois, na Filadélfia, Billy Batson (Asher Angel) é preso na busca por seu pai, aos 14 anos. Ele é adotado pela família Vasquez, Victor (Cooper Andrews) e Rosa (Marta Milans), e vai morar numa casa em que divide o quarto com Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), um admirador dos super-heróis da DC. Nela, também moram Mary Bromofield (Grace Fulton), Eugene Choi (Ian Chen), Pedro Peña (Jovan Armand) e Darla Dudley (Faithe Herman).

Num determinado momento, ele conhece o mesmo Shazam que havia dado uma oportunidade a Silvana, que cresceu e se transformou numa ameaça da área científica (Mark Strong, prosseguindo com vigor seu papel de vilão em John Carter) – e é escolhido como seu oponente, depois de uma cena fantástica num metrô e de ajudar seu amigo Billy na escola. Como em Quero ser grande, é Billy que passa a ajudá-lo a encarar o fato de que, quando ele diz a palavra Shazam, ele se torna um super-herói de mais idade (Zachary Levi). De modo geral, é possível entender que o universo compartilhado da DC se movimenta mais por temas, como deveria ser, e não por referências a personagens que soam intrusivos em tramas diferentes, como a própria ausência da família original que vemos também em outros super-heróis da companhia, a exemplo de Superman, Batman e Aquaman. Mas cada um funciona num plano: a questão é que os filmes de Snyder para Batman e Superman lidam com figuras deslocadas de uma maneira dramática, o que não necessariamente funciona para os demais. De qualquer maneira, sua paleta soturna se repete em todos os filmes, em alguns mais e em outros menos, e Shazam! praticamente a utiliza de ponta a ponta, com exceção para poucas sequências (como a mais engraçada, envolvendo um ônibus).
É Levi certamente o primeiro motivo para Shazam! funcionar tão bem. Com um timing preciso de humor, ele, por meio de um roteiro ágil de Henry Gayden, não segue o curso de Ryan Reynolds, mas se mantém num plano mais ingênuo, de descoberta sobre super-poderes e com uma despretensão que remete aos melhores momentos de Superman, nos anos 70, embora mais leve. A cena que se passa numa loja de brinquedos utiliza uma comicidade certamente mais orgânica do que até mesmo o primeiro Homem-Formiga, uma referência do gênero na dissolução entre ação e comédia. E ele faz lembrar o quanto é lamentável achar que o gênero de super-herói deve funcionar com ação entreameada por elementos cômicos: ao usar muita sátira, principalmente com a série Rocky, quando o que é engraçado é justamente um campo de ingenuidade. Isso com a colaboração essencial de Jack Dylan Grazer, como um adolescente fisicamente debilitado, porém com vontade de ajudar o amigo a entender seus novos poderes.

No entanto, não se deve subestimar a direção de Sandberg, que tem muita noção de elementos da história do cinema. Quando as luzes se apagam, por exemplo, tem muito dos filmes de Dario Argento, na utilização de cores, e o segundo e subestimado Annabelle remete aos exemplares da série Psicose dos anos 80, com uma cadeia de sustos impressionante e precisa, apesar de utilizar diversos lugares-comuns. Ambas as peças de Sandberg podem se sentir igualmente como episódios estendidos da série Além da imaginação ou uma peça de Creepshow dos anos 80 – de forma competente, não como no recente Nós –, mas se sustentam mais no seu diálogo visual e na temática de relacionamento familiar. Sandberg tem realmente noção de estética, não dependendo de produtores para colocá-la em prática, utilizando pouco CGI e ótimos efeitos visuais. Shazam! é um dos filmes mais bem resolvidos no campo, parecendo uma espécie de parque de diversões noturno, e suas influências no terceiro ato vão da série Harry Potter a Matrix revolutions. O uniforme do super-herói poderia ser kitsch, no entanto ele funciona de forma exata em meio a esse clima de mansão mal-assombrada ou trem fantasma em que se convertem alguns momentos com uma violência inesperada, remetendo principalmente ao curta-metragem de Sandberg que deu origem a Quando as luzes se apagam. Há uma série de gags que também se direcionam mais ao público adulto, nunca menosprezando também o público mais novo, além de ser uma surpresa de Sandberg o talento para cenas de ação bem encadeadas, visto que não é seu gênero de surgimento.

Shazam!, EUA, 2019 Diretor: David F. Sandberg Elenco: Zachary Levi, Mark Strong, Asher Angel, Jack Dylan Grazer, Djimon Hounsou, Cooper Andrews, Marta Milans, Grace Fulton, Ian Chen, Jovan Armand, Faithe Herman, Ethan Pugiotto Roteiro: Henry Gayden Fotografia: Maxime Alexandre Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Peter Safran Duração: 132 min. Estúdio: New Line Cinema, DC Films, The Safran Company, Seven Bucks Productions, Mad Ghost Productions Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Capitã Marvel (2019)

Por André Dick

O mais recente filme do universo MCU, Capitã Marvel, foi lançado sob o manto da polêmica, desde as declarações de Brie Larson, vistas com desconfiança por alguns, até grupos mobilizados para baixar sua nota em sites de média agregadas – comportamento cada vez mais presente numa batalha entre companhias que veem seus super-heróis sustentarem praticamente toda realização cinematográfica que não se alimente de histórias em quadrinhos. Desde o lançamento de Mulher-Maravilha, o grande condutor no cinema da Marvel, Kevin Feige, queria levar a primeira super-heroína do seu grupo já conhecido às telas, sendo que talvez a primeira que suscitasse isso seria a Viúva Negra, de Scarlett Johansson, nunca tendo, porém, seu merecido filme solo.

Quem encarna a Capitã Marvel é Brie Larson, conhecida por projetos de origem indie, como O maravilhoso agora e, principalmente, Temporário 12, mas verdadeiramente reconhecida pelo primeiro Anjos da lei. Depois do Oscar de melhor atriz, merecido, por O quarto de Jack, ela se aventurou em Kong – A Ilha da Caveira, no belo drama O castelo de vidro e agora neste blockbuster, no qual faz Vers, que mora no planeta Kree e tem como mentor Yon-Rogg (Jude Law), enquanto surge em seus sonhos uma misteriosa mulher (Annette Benning). O seu planeta vive em guerra com os Skrulls, uma raça que passa por planetas tentando dizimá-los e determinado dia, numa das batalhas, Vers acaba parando na Terra, onde imediatamente chama a atenção de dois agentes da SHIELD, Nick Fury (Samuel L. Jacjkson) e Phil Coulson (Clark Gregg). A partir daí, ela passa a ter lembranças de quando era uma piloto da Força Aérea desaparecida anos antes, em 1989, num projeto da Dra. Wendy Lawson (novamente Bening). Vers obviamente se junta principalmente a Fury (e a um gato excêntrico), descobrindo ser, na realidade, Carol Danvers. Fury e ela acabam se deparando com Keller (Ben Mendelsohn, cada vez mais repetitivo), também integrante da SHIELD.

Talvez os melhores momentos do filme de Anna Boden e Ryan Fleck, parceiros de direção também em Se enlouquecer, não se apaixone, se concentrem na amizade que Danvers reencontra em Maria Rambeau (Lashana Lynch), uma companheira sua no tempo em que era piloto na Terra. São momentos nos quais Capitã Marvel se sente mais próxima de uma homenagem declarada ao filme Top Gun, dos anos 80, em cenas calcadas para dialogar com o filme estrelado por Tom Cruise, assim como em determinados instantes, por causa de um determinado personagem, lembra Inimigo meu. Ao lado do carisma de Lynch, e também o de Jackson, rejuvenescido digitalmente de forma muito competente (certamente o efeito visual mais interessante do projeto, quase levando-o à época de Pulp Fiction, de 1994, enquanto a narrativa de Capitã Marvel se movimenta em 1995), o filme se sustenta mais em suas tentativas do que numa possível efetividade. A atuação de Larson é muito limitada, assim como já se mostrava em Kong – A Ilha da Caveira, prejudicando a maior parte das sequências. No entanto, isso não se deve apenas a ela, e sim também ao roteiro concentrado em flashbacks, cenas de ação excessivamente apressadas e um elenco de vilões pouco proveitoso. Boden e Fleck haviam demonstrado especial talento em diálogos em Half Nelson – Encurralados, sobre um professor interpretado por Ryan Gosling, e visivelmente não se sentem confortáveis com este universo mais fantástico.

Capitã Marvel tenta se equilibrar entre um universo que remete mais a Guardiões da galáxia, porém não deixa de emular o design de produção de Mudo principalmente na primeira parte, assim como tenta manter um contato com o universo estendido de maneira menos direta, e cenas campestres, como naquele em que Danvers está na casa de Rambeau e vemos um clima quase indie, típico dos diretores. É esta tentativa de trazer elementos novos, mas sem de fato conseguir, que caracteriza em grande parte a produção, com sua trilha sonora curiosa (incluindo até Nirvana, com “Smells like teen spirit”, No Doubt, com “Just a Girl”, e Garbage, com “Special”, cujo videoclipe tem a vocalista numa espaçonave parecida com as desse filme). Mesmo em seus momentos de humor, que remetem a outros personagens da companhia, Capitã Marvel não deixa nunca de carregar um peso, o de não ter exatamente uma linha muito clara do que realmente deseja: como filme de origem, e referências a um objeto que vemos ser seguido desde Os vingadores, ele até funciona em parte, porém, quando precisa atrair o espectador para novos pontos, se compromete quase totalmente. De certo modo, isso se deve a uma narrativa incerta pela pouca afeição de seus diretores a este tipo de material, como também por uma qualificação pouco natural dada aos personagens centrais. É um tanto surpreendente, porém, este filme ser tão mal recebido de certo modo tendo os mesmos problemas de obras recentes do MCU vistas como obras-primas, principalmente ao se apontar seu uso realmente excessivo de CGI, mas que não foge à média do gênero. Trata-se de um universo que precisa se reinventar com diretores mais autorais e não controlados pelo mesmo produtor, que torna cada filme muito parecido um com o outro.

Captain Marvel, EUA, 2019 Diretores: Anna Boden e Ryan Fleck Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Djimon Hounsou, Lee Pace, Lashana Lynch, Gemma Chan, Annette Bening, Clark Gregg, Jude Law Roteiro: Anna Boden, Ryan Fleck, Geneva Robertson-Dworet Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Pinar Toprak Produção: Kevin Feige Duração: 124 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Rei Arthur – A lenda da espada (2017)

Por André Dick

O primeiro contato mais exitoso com o cinema de Guy Ritchie se deu em Snatch – Porcos e diamantes, uma espécie de miscelânea de gêneros ligados ao mundo da máfia, com todos os maneirismos possíveis de sentido pop e violência influenciada visivelmente por Tarantino. Ritchie parecia um bom cineasta, mas ainda tateando, em busca de uma personalidade. Não foi o que ele conseguiu em projetos como Destino insólito (com sua ex-mulher, Madonna), mas por incrível que pareça são os elementos que já apareciam em Snatch que fizeram funcionar tão bem Sherlock Holmes e agora, em menor escala, Rei Arthur – A lenda da espada. Estão aqui os elementos que já se encontravam naquele filme: uma espécie de necessidade de destacar os movimentos de câmera, lembrando às vezes um videoclipe, o visual carregado e o elenco fazendo soar o máximo uma espontaneidade teatralizada. Nesta adaptação da lenda do Rei Arthur, Ritchie consegue encontrar tanto sua personalidade quanto mostrar que mesmo naquele filme em que ainda se mostrava incipiente já mostrava uma determinada originalidade extraída de várias influências.

Ritchie tem, desde o início, uma influência clara de O senhor dos anéis, mostrando o logotipo da Warner como um anel forjado em ouro. Com roteiro dele em parceria com Joby Harold e Lion Wigram, Rei Arthur mostra inicialmente o Rei Uther Pendragon (Eric Bana) salvando Camelot de Mordred (Rob Knighton), capaz de lembrar qualquer figura maligna da série de Peter Jackson e que pretende instituir o domínio dos magos sobre a humanidade. Na mesma noite, em meio a uma manada de elefantes, Uther é traído pelo irmão Vortigern (Jude Law), que pretende matar o seu sobrinho. No entanto, este escapa em uma barca e é criado por prostitutas. Quando o jovem Arthur cresce (e vira Charlie Hunnam), ele tem amigos como Wet Stick (Kingsley Ben-Adir), Back Lack (Neil Maskell) e o chinês George (Tom Wu). Eles investem contra vikings que maltratam prostitutas para, então, descobrirem que eles eram convidados de Vortigern. Integram-se ainda em sua equipe Bedivere (Djimon Hounsou), o arqueiro Bill (Aidan Gillen), antigos companheiros de seu pai, além de Mage (Astrid Berges-Frisbey), que possui poderes especiais. Claro que Arthur só descobre realmente quem é e o que precisa fazer quando chega às suas mãos a espada Excalibur – depois de ouvir impropérios de um dos que tentavam extraí-la da rocha (feito por David Beckham, o ex-jogador de futebol).

O filme de Ritchie não tem objetivo de respeitar algum molde clássico, como todos os projetos do cineasta: é um espetáculo em movimento quase de videoclipe, com uma montagem por vezes confusa, com idas e vindas no tempo e cortes para evitar excessivo material expositivo – uma das qualidades do diretor. Não possui, por exemplo, a atmosfera séria de Excalibur, de John Boorman, uma das referências do gênero: Rei Arthur está mais interessado em compor uma diversão descompromissada, com muitas cenas de luta e um ritmo trepidante, dialogando com o Robin Hood de Kevin Costner e Morgan Freeman, dos anos 90, e lembrando Chumbo grosso, de Edgar Wright na maneira como edita as cenas.
A fotografia de John Mathieson (de Peter Pan, Logan e Gladiador) estabelece, com a ajuda do design de produção, a época medieval com rara perspicácia, trazendo um ar de fantasia que remete tanto ao já mencionado O senhor dos anéis quanto a Harry Potter (as duas partes de As relíquias da morte) e ao oitentista Krull, principalmente em suas cenas passadas na floresta. Ritchie tem interesse claro em recuperar uma espécie de filme que mescla história e fantasia com imagens perturbadoras daquilo que habita os porões do castelo de Camelot.

Charlie Hunnam não tem uma grande atuação como Arthur (ele se mostrava melhor, por exemplo, em Círculo de fogo), mas Jude Law contrabalança a falta que faz um herói mais convincente, ao transmitir uma sensação de tragédia familiar no seu pacto com forças maléficas. Nas cenas de luta, Hunnam é mais ativo, concedendo certo realismo à sua procura pelo combate. Eric Bana também se sai bem, um ator quase ausente no cinema atual depois de mostrar talento em várias obras, como Hulk, Munique e Troia (em que Rei Arthur também vai buscar certa influência). E Astrid Berges-Frisbey é especialmente misteriosa, como convém a seu personagem, Marve.
O elenco não chega a ter muitas cenas em conjunto, fazendo-se mais presente na aceleração de diálogos sobre possíveis batalhas a serem travadas. É visível uma influência de Cruzada na imposição de alguns cenários palacianos, e com a agilidade insuspeita para uma história sobre esse período há um estranhamento e originalidade, além de Ritchie localizar Arthur como uma espécie de personagem saído da peça Os miseráveis, com um passado não esclarecido, mas sempre disposto a fazer o bem para aquelas que o criaram, e que é salvo como se fosse o próximo escolhido. Depois, ele se impõe como um lutador e a agilidade que tem nas ruas faz lembrar um gângster jovem saído de algum filme de Scorsese. Ritchie utiliza algumas belas analogias, como o momento em que Arthur tira Excalibur da pedra em que está incrustada e o sangue sai das velas do castelo de Camelot, ou o símbolo da cobra, que se torna o antídoto para um determinado momento.

Também podemos ver além quando Ritchie mostra estátuas na floresta em diálogo com as ossadas dos elefantes e quando Arthur precisa mergulhar num lago, como se ele precisasse descobrir a verdade, a mesma que se esconde em meio a criaturas no subterrâneo do palácio de Camelot. Nesse sentido, visualmente, talvez seja a peça mais rica da filmografia do diretor, sempre propenso a tratar mais de forma objetiva o que está mostrando – e aqui, na realidade, não é diferente, no entanto com esses acréscimos. E, como é de praxe em sua filmografia, Ritchie não está muito interessado no desenvolvimento de relação entre os personagens, mas isso não prejudica o andamento de sua narrativa. Projetado para ser uma franquia de seis (!) capítulos, Rei Arthur custou 175 milhões e arrecadou 135, tornando-se num dos fracassos comerciais do ano. Não aparenta que teria fôlego para tantos filmes – e parece ter se tornado uma mania adiantar número de obras de uma possível série sem uma sequer ter sido lançada –, por outro lado o que se apresenta nele vale a pena ser assistido.

King Arthur: Legend of the sword, EUA, 2017 Diretor: Guy Ritchie Elenco: Charlie Hunnam, Àstrid Bergès-Frisbey, Djimon Hounsou, Aidan Gillen, Jude Law, Eric Bana, Mikael Persbrandt, Lorraine Bruce, Hermione Corfield, Annabelle Wallis, Kingsley Ben-Adir, Neil Maskell, Millie Brady, David Beckham Roteiro: Guy Ritchie, Joby Harold, Lionel Wigram Fotografia: John Mathieson Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Akiva Goldsman, Guy Ritchie, Joby Harold, Lionel Wigram, Richard Suckle, Steve Clark-Hall, Tory Tunnell Duração: 126 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Safehouse Pictures / Village Roadshow Pictures / Warner Bros. / Weed Road Pictures / Wigram Productions

 

A lenda de Tarzan (2016)

Por André Dick

A lenda de Tarzan.Filme 4A última adaptação do personagem de Tarzan, criado por Edgar Rice Burroughs, havia sido Greystoke – A lenda de Tarzan, o rei da selva, nos anos 80, com Cristopher Lambert no papel principal e grande êxito dramático e de recriação da atmosfera selvagem, com macacos criados por Rick Baker, mestre da maquiagem. Era inevitável que uma história mais moderna do personagem, em meio à tecnologia atual, se rendesse a muitas cenas de efeitos especiais. Desde os trailers, isso já era esperado em A lenda de Tarzan, nova empreitada do competente David Yates, responsável por quatro filmes da saga Harry Potter, inclusive o seu melhor (particularmente) As relíquias da morte – Parte 1, e de Animais fantásticos e onde habitam, que estreará no final do ano, baseado também em J.K. Rowling.
Tendo à frente do elenco Alexander Skarsgård (mais conhecido pela participação em Melancolia, de Von Trier) como o herói, Yates prefere partir de um conceito interessante: ele trata Greystoke como uma espécie de primeira parte dessa obra, recuperando flashbacks que lembram o filme de Hugh Hudson. Como explica o início do filme, o Congo foi dividido entre a Bélgica e o Reino Unido. Como a Bélgica está num estado de falência, seu rei, Leopoldo II, envia Léon Rom (Cristoph Waltz) para conseguir diamantes preciosos de Opar, e ele vai tocando a vegetação africana como quem está prestes a destruí-la de fato. A expedição dele é cercada pelo Chefe Mbonga (Djimon Hounsou), numa sequência capaz de evocar o encontro da tripulação do barco petrolífero com a tribo indígena da Ilha da Caveira do King Kong de 1976, que lhe faz um determinado pedido para que não seja morto.

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Enquanto isso, Tarzan já está perfeitamente adaptado à sociedade, como Jack Clayton III, Lorde Greystoke, casado com Jane Porter (Margot Robbie), e recebe um convite do presidente do Congo para visitar o país, por meio do primeiro-ministro da Inglaterra (Jim Broadbent). George Washington Williams (Samuel L. Jackson), dos Estados Unidos, deseja que Greystoke aceite o convite porque acredita que os planos da Bélgica é escravizar o povo do Congo. No entanto, parece mais uma emboscada. Yates escolhe um tom quase descompromissado para seu filme, fazendo lembrar, sob um ângulo positivo, produções de uma certa infância já perdida no tempo e bastante nostálgica. Há, não raramente, uma sucessão de acontecimentos que parecem dar justificativa apenas para o próximo passo. Se Tarzan entra em conflito com Jane, pois não a quer na empreitada, logo o roteiro opta por mostrar esse ambiente como, ao mesmo tempo, acolhedor e ameçador. A chegada de Tarzan ao Congo é um sinal claro disso. Os flashbacks servem não apenas para contar o passado de Tarzan, como também o de Jane, quando foi ao Congo com o pai que ensinava inglês, e se no início parecem atrapalhar a narrativa, com o andamento servem quase como um complemento a Greystoke. A partir daí, Yates opta em fazer de Tarzan uma espécie de libertador do Congo, com todas as cenas de ação a que se tem direito.

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Em relação a Greystoke, este A lenda de Tarzan se sente um filme pleno de aventura, sem a mesma tentativa de estabelecer o personagem como uma figura antropológica. Ainda assim, é claro, por trás dos temas de escravidão, que se trata de um personagem que une o que se considera civilização e o primitivo, sem que se saiba onde um começa exatamente e onde outro termina. E Clayton, abalado por não poder ter tido ainda um filho com Jane, tem sua infância traumática recuperada – seu encontro com crianças se mostra não como um ensinamento de como viver na selva, mas sim um desejo de reencontrar a infância. Em paralelo, Jane ensina num museu sem deixar de sentir que o passado de outro lugar distante lhe interessa mais.
A primeira preocupação com esta releitura do personagem se concentra em sua naturalidade ou não. Perto de Greystoke, é visivelmente um filme moderno. No entanto, mesmo apurado tecnologicamente, ele consegue ser mais eficiente na reconstituição do que outros, e se há uma cena específica com elefantes que lembra Mogli – O menino lobo, grande sucesso de Favreau deste ano, ele consegue ser superior à reconstituição dos primatas do que os dois últimos Planeta dos macacos.
As belezas naturais se mostram ao longo da navegação do barco de Rom – que podem lembrar, em parte, Fitzcarraldo, em parte Aguirre, ambos de Werner Herzog, com um grande acerto na fotografia de Henry Graham. Em se tratando do elenco, se Skarsgård é levemente contido, funcionando nas cenas de ação e menos dramaticamente, Robbie consegue fazer uma Jane interessante, e Waltz se mostra mais uma vez um vilão capaz de sustentar a trama – e já é o terceiro seguido dele, antecipado pelo de Grandes olhos e 007 contra Spectre –, mas é Samuel L. Jackson que funciona de maneira decisiva, uma grande variação em seus papéis recentes, embora seu roteiro não seja muito expansivo.

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Yates utiliza esse elenco demarcando cenas de ação em acréscimo a flashbacks e nunca deixando o ritmo esmorecer. Ele tem um olhar para os detalhes e os conflitos nunca se sentem sem tensão, principalmente naqueles em que Tarzan enfrenta macacos ou quando há um determinado estouro de animais em direção a uma cidade. Se o filme não chega a ser um triunfo épico – e duvido que tenha sido sua pretensão –, ele possui uma contundência e leveza, ao mesmo tempo que expõe seus argumentos sobre a invasão do homem branco na selva. É, sem dúvida, uma história anticolonialista, assim como Greystoke mostrava a falência da aristocracia e uma necessidade de voltar ao habitat natural. Entende-se que às vezes A lenda de Tarzan possa ser visto como uma caricatura dessa tentativa de invasão e de exploração, jogando os temas um atrás do outro sem uma maior reflexão. Por outro lado, o que no início soa apenas como um jogo político para despertar uma conquista pode, ao final, tomar um nascimento verdadeiro. Num blockbuster comum, inevitavelmente poderia ser visto de maneira enviesada, porém no filme de Yates soa mais comovente.

The legend of Tarzan, EUA, 2016 Diretor: David Yates Elenco: Alexander Skarsgård, Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Djimon Hounsou, Jim Broadbent Roteiro: Adam Cozad, Craig Brewer Fotografia: Henry Braham Trilha Sonora: Mario Grigorov Produção: Alan Riche, David Barron, David Yates, Jerry Weintraub, Mike Richardson Duração: 110 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Dark Horse Entertainment / Jerry Weintraub Productions / Riche Productions / Village Roadshow Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

 

Guardiões da galáxia (2014)

Por André Dick

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O universo da Marvel apresentou, nos últimos anos, uma seleção de filmes de grande bilheteria, com super-heróis firmados nos quadrinhos por Stan Lee. Neste ano, depois de Capitão América e Homem-Aranha, tivemos uma adaptação de quadrinhos não tão conhecidos: aqueles de Guardiões da galáxia. Já com certo estilo garantido e um público fiel, esse tipo de adaptação costuma ser recebida com desconfiança pela crítica, mas, se apresentar elementos novos em relação aos anteriores, logo é acolhida. Não parece ter sido diferente com o filme de James Gunn, antes responsável pelo roteiro das adaptações de Scooby-Doo para o cinema. Os elementos diferentes em relação aos anteriores se baseia na sucessão de gags que esses personagens trazem.
No início, logo na chegada a um planeta estranho, atrás de um objeto, o orbe, o anti-herói, Peter Quill (Chris Pratt), abduzido quando criança depois de um momento definidor de sua vida, precisa enfrentar uma trupe. Mas, antes, ele adentra as ruínas de uma construção no planeta Morag, aos passos de “Come And Get Your Love”, como se fosse uma espécie de Moonwalker, apanhando um rato como microfone. Estes créditos iniciais são hilários e antecipam o que Guardiões da galáxia mais tem de especial: um humor involuntário que remete aos melhores momentos de certo cinema descompromissado dos anos 80. Logo com o orbe, Quill vai parar no negócio de um contrabandista, sendo esperado à porta por Gamora (Zoe Saldana), filha adotiva de Thanos (Josh Brolin), aliado a Ronan (Lee Pace). Daí a se deparar com Rockett (voz de Bradley Cooper) e Groot (voz de Vin Diesel) – um “ent” minúsculo –, é questão de uma dezena de minutos. Todos já estão numa prisão, onde conhecem Drax (Dave Bautista), de onde tentarão escapar – e neste ponto já estão no encalço para recuperar o orbe.

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Pode-se perceber por poucas cenas iniciais o que Guardiões das galáxias tem de melhor: as referências, no espaço, à Terra, e elas acontecem com Peter, abduzido quando criança mas teve tempo, pelo menos, de assistir a um dos musicais preferidos dos anos 80. Gunn tem, entre seus filmes, evidentemente uma referência clara, que é o Flash Gordon do início dos anos 80, embora com cenários mais baseados no CGI. Isto é explicado não apenas pela trilha sonora – conduzida pelo DJ Quill – como pelos vilões ameaçadores e, de certo modo, bastante caricatos. A questão é que o motivo para o enredo – o orbe que todos tentam possuir – é muito parecido com o Tesseract de Os vingadores, evidentemente pela mesma origem, mas isso inclui um sentido de comparação capaz de empobrecer o filme de Gunn em termos de motivação. Trata-se de uma justificativa do roteiro para reunir todos esses personagens em torno de uma necessidade de variação, mas não se sustenta ao longo da narrativa.
Os guardiões são figuras interessantes, a exemplo de Rocket, mas são baseados numa corrente de humor que não se mantém o tempo todo, sobretudo quando se pega como parâmetro a meia hora inicial, com uma dose equivalente de humor no espaço que não se vê desde os desentendimentos de Han Solo e Chewbacca com os problemas mecânicos da Millenium Falcon. De qualquer modo, há um padrão interessante de humor despertado por Gunn por meio de seus personagens, com um ritmo quase de animação (Uma aventura LEGO também possuía essa característica), mas sem se perder na caricatura e sim inserindo os personagens numa ação quase sempre surpreendente – no comportamento do Groot, por exemplo, num possível plano de fuga. Sempre que há uma queda no ritmo, Gunn aproveita para lançar mão de seu repertório musical setentista, no qual se encaixa até mesmo a contagiante “Cherry Bomb”, das Runaways, numa profusão setentista espaço sideral afora. Certamente, Rocket, o guaxinim, é a melhor figura, ao lado de Groot, fruto de experimentos científicos – fazendo com que, em determinado momento, se rebele num planeta cujas sacadas parecem remeter às tribos de Ewoks de Endor. Com voz de Bradley Cooper – particularmente não parece dele –, Rocket é o melhor personagem de Guardiões da galáxia, mesmo que sem sua voz humana seja produto apenas de efeitos especiais competentes. No entanto, mais do que a relação entre Peter e Gamora, é a amizade entre Rockett e Quill que dá o mote emocional do filme. E não se pode negar que o elenco tem outros bons nomes, como Glenn Close (Irani Rael/Nova Prime), John C. Reilly (Rhomann Dey) e Benicio Del Toro (Taneleer Tivan), que conseguem boas participações.

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Gunn é um diretor competente para desenvolver ambientes e ele disfarça bem o orçamento não tão milionário quanto o de outros filmes da Marvel com uma boa concepção de cores e de cenários, trazendo uma mistura entre o verde e o rosa para a composição do filme – em razão principalmente da tonalidade de pele de Gamora. A direção de Guardiões da galáxia, até determinado ponto, é um triunfo, até mesmo de simplicidade, com o design das naves feitos com uma mistura entre CGI e uma estranha coloração humana. De qualquer modo, ele não tem o mesmo sucesso nas transições da narrativa: apesar de o ritmo ser ágil nos atos que enlaçam o filme, não há uma continuidade clara em determinados momentos e, com metragem razoável (certamente suas duas horas deveriam ter sido encurtadas), ele se sente estranhamente confuso nas cenas de ação, influenciadas diretamente pela segunda trilogia de Star Wars, e mesmo o duelo entre Gamora e Nebula (Karen Gillan), que poderia lidar com uma questão familiar mais sólida, assim como os atritos entre Quill e seu antigo chefe,  Yondu (Michael Rooker), se mantêm com algum interesse, mas menos do que aquele que serve para novos duelos. Há as mesmas características da segunda trilogia de Star Wars, uma certa profusão de CGI e falta de naturalidade nas ações e uma competência técnica que acaba extraindo a emoção. Algumas vezes, nessas cenas, os personagens não são  bem visualizados e não sabemos muito bem o que está acontecendo, não simplesmente por causa da ação desenfreada e sim por uma dificuldade nos cortes para cada passagem. E entre os vilões, por mais que sejam bons atores (Brolin), falta um roteiro mais interessante, o que certamente possui, por exemplo, Tom Hiddleston como Loki. No entanto, Guardiões da galáxia continua seguindo a linha de humor existente no início do filme e tenta equilibrar Runaways e Marvin Gaye – a trupe de Quill é um convite a uma sessão não apenas de efeitos especiais, mas sonora.

Guardians of the galaxy, EUA, 2014 Diretor: James Gunn Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Michael Rooker, Karen Gillan, Djimon Hounsou, Josh Brolin Roteiro: Chris McCoy, Nicole Perlman Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Kevin Feige Duração: 121 min. Distribuidora: Hughes Winborne / Walt Disney Pictures Estúdio: Craig Wood / Marvel Enterprises / Marvel Studios

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