Clássicos

Série Guerra nas estrelas – Episódios IV, V e VI  

Cotação 5 estrelas

Por André Dick

Nove anos antes do lançamento de Guerra nas estrelas, 2001 havia cercado o gênero “ficção científica” com uma aura de complexidade. Ao contrário de Stanley Kubrick, George Lucas também queria diversão. Mas diversão inteligente, que soubesse atrair, em escalas iguais, plateias jovens e adultas. Para chegar ao seu objetivo, Lucas mesclou elementos medievais – o caráter heroico e guerreiro de seus personagens do bem – com elementos da “era videogame” – espaçonaves, espadas de luz, armas de raio laser, robôs – de forma que acabou conquistando não só esses dois públicos díspares como uma legião universal de fãs, que idolatrou Luke e trupe como os “trekkers”, como são chamados os fanáticos pela série Jornada nas estrelas, seja a da TV ou do cinema.
Steven Spielberg, como conta o livro Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Holywood, de Peter Biskind, estava com expectativa de que Contatos imediatos do terceiro grau não fizesse tanto sucesso quanto o de seu amigo George Lucas, em Guerra nas estrelas – criticado, como conta o livro, pelos amigos de Lucas, menos exatamente Spielberg (o que realmente acabou acontecendo, ficando, em 77, o filme de Lucas em primeiro e o de Spielberg em segundo nas bilheterias).
Luke Skywalker, o jovem guerreiro Jedi; Darth Vader, o lado negro da força; o mercenário Han Solo; seu amigo Chewbacca; o sábio Obi-Wan Kenobi; os robôs R2-D2 e C-3PO, entre outros, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos – embora a história não se passe na Terra, mas em planetas com cenários que lembram a Terra – se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores, os ensinamentos espirituais de luta, ganham, na trilogia de Lucas, contornos ao mesmo tempo medievais e futuristas.
Embora tenha criado os personagens e a história-base da trilogia inicial, George Lucas dirigiu apenas Guerra nas estrelas, deixando Irvin Kershner (Robocop 2) e Richard Marquand (falecido em 1987) a cargo, respectivamente, de O império contra-ataca e O retorno de Jedi (David Lynch foi convidado para dirigir o último da primeira trilogia, mas preferiu dirigir a adaptação para o cinema de Duna). A autoria de Lucas, de qualquer modo, é sentida em todos os capítulos.
Com quatro minutos e meio de novas cenas – incluindo um encontro entre Han Solo, feito por Harrison Ford, e o monstruoso Jabba the Hutt, que, originalmente, só aparecia em O retorno de Jedi e voltou à cena em A ameaça fantasma, da segunda trilogia –, Guerra nas estrelas rendeu, em seu relançamento, em 1997, em apenas três dias, mais de 36 milhões de dólares, depois de vinte anos, nos Estados Unidos. Isso não ocorreu à toa, pois é um dos filmes de ficção científica mais surpreendentes da história do cinema – influenciou basicamente todas as ficções que seriam feitas depois – e resultou numa legião considerável de fãs.
Sua história parece formulaica: numa galáxia distante, Luke Skywalker (Mark Hamill, em seu único papel que deu certo), rapaz simples e ingênuo, cujo maior sonho é tornar-se um piloto da Aliança Rebelde, vai embora do deserto onde morava com os tios, para resgatar a princesa Leia (Carrie Fisher, filha de Debbie Reynolds e autora do romance que deu origem a Lembranças de Hollywood), capturada por Darth Vader (David Prowse, com voz marcante de James Earl Jones), o vilão do elmo negro, que coordena o “império do mal” em sua Estrela da Morte, uma espécie de bola de metal suspensa no espaço. Ao lado de Luke, estão o sábio Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness, ótimo, indicado, na época, ao Oscar de melhor ator coadjuvante), Han Solo e Chewbacca (Peter Mayhew, que também estava embaixo da fantasia do King Kong de 76), que possuem a Millenium Falcon, uma nave com problemas de ignição, e da dupla de robôs atrapalhados R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). A mensagem por trás das palavras de Obi Wan-Kenobi podem, hoje, parecer ingênuas, mas a questão é que George Lucas conseguiu sintetizar o panorama de uma geração por meio de suas batalhas estelares e criar o cinema para a diversão – voltaria-se contra seu estúdio, e tentaria se tornar um independente.
Guerra nas estrelas ganhou os Oscars de melhor música, montagem, direção de arte, figurino, som, efeitos sonoros e efeitos especiais. O filme também teve indicações, entre outras, a melhor filme e direção. Apenas se deparou, naquele ano, com Noivo neurótico, noiva nervosa, de Woody Allen.
História simples também é o traço em comum entre as duas seqüências.  A primeira delas, O império contra-ataca, introduz na galeria de personagens de Lucas o pequeno sábio Yoda, com um direcionamento transcendente, que procura mostrar a Luke o caminho da força e do bem, com o objetivo de transformá-lo num guerreiro Jedi. O herói, após ensinamentos, parte para a Cidade das Nuvens (que, na edição especial, ganhou novas tomadas, assim como o planeta gelado Hoth, onde os rebeldes se escondem no início do filme e que proporciona sequências memoráveis, que valeram o Oscar de efeitos especiais) para enfrentar Darth Vader e tem uma revelação surpreendente, essencial para a compreensão da trilogia.
Talvez o episódio mais instigante da trilogia – para a crítica Pauline Kael era o melhor, ao contrário dos outros, que, para ela, apresentavam personagens unidimensionais -, O império contra-ataca não desperta a surpresa de Guerra nas estrelas, preferindo deixar seu final em aberto. Divertido e, em alguns momentos, espetacular, com excelente direção de arte (apresentando detalhes oitentistas em sua concepção de luzes e painéis), foca a relação existencial entre Luke e Vader, que representa o embate entre o bem e o mal, revelando, por vezes, uma atmosfera sombria, em que estão presentes razões psicológicas que movem o ser humano, enquanto traz uma vertente mais bem-humorada e, por fim, memorável, da Princesa Leia, de Han Solo, Chewbacca e os robôs. Ao final, O império contra-ataca, ao mesmo tempo, investe numa verdadeira tragédia épica espacial. Nela, tanto o espectador quanto os personagens se defrontam com uma verdade incômoda – mas é o que torna a série mais mitológica e coerente com a sua proposta.
Segmento que prefere a diversão aos elementos psicológicos densos de O império contra-ataca, O retorno de Jedi mostra basicamente a mesma história dos anteriores: a Aliança de rebeldes e os companheiros de Luke Skywalker pretendem destruir, de uma vez por todas, o “império do mal”. Na jornada, Luke e companhia enfrentam o monstruoso Jabba no deserto Tatooine, conhecem os ursinhos Ewoks na lua florestal do planeta Endor – que vivem em árvores, o que remete, hoje, a Avatar – e partem para destruir a nova Estrela da Morte, ainda sendo construída. Em meio a tudo isso, revelações familiares de Luke e novos encontros seus, com Yoda e Obi-Wan Kenobi (presente nos dois últimos filmes da trilogia em forma espiritual), injetam novo ânimo, num roteiro, como o de O império contra-ataca, coescrito por Lawrence Kasdan, que dirigiu filmes como O reencontro e O turista acidental.
Considerado o mais fraco da trilogia, O retorno de Jedi expande o universo de Lucas, lidando com centenas de figuras num espaço curto de tempo (pouco mais de duas horas), e oferece instantes de magia que me parecem ainda atuais, além de trazer uma direção de arte fascinante (indicada ao Oscar), assim como algumas das melhores trilhas sonoras de John Williams (também nomeada ao prêmio). Não me parece feito exclusivamente para agradar ao público infantojuvenil, mas material raro de ficção científica – desde a ida de Luke a Tatooine, tentando resgatar Han Solo, ao duelo de motos voadoras na floresta. As cenas revistas por George Lucas na edição especial são poucas, mas essenciais: um número musical no palácio de Jabba, o monstro do deserto, a batalha derradeira entre a Aliança rebelde (com a presença dos Ewoks, como se fosse o primitivo contra a tecnologia) e o império de Darth Vader, o duelo definitivo entre este e Luke, diante do Imperador, num dos momentos mais impactantes da série – mostrando por que essa primeira trilogia de Star Wars tem lugar garantido entre os clássicos contemporâneos.

Star wars, EUA, 1977 Diretor: George Lucas Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, David Prowse, James Earl Jones Produção: Gary Kurtz, Rick McCallum Roteiro: George Lucas Fotografia: Gilbert Taylor Trilha Sonora: John Williams Duração: 121 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Lucasfilm Ltd. / Twentieth Century Fox Film Corporation

The empire strikes back, EUA, 1980 Diretor: Irvin Kershner Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, David Prowse, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, Frank Oz Produção: Gary Kurtz, Rick McCallum Roteiro: Leigh Brackett, Lawrence Kasdan Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: John Williams Duração: 124 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Lucasfilm Ltd.

Return of the Jedi, EUA, 1983 Diretor: Richard Marquand Elenco: Mark Hamill, Alec Guinness, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, Peter Mayhew Produção: Howard G. Kazanjian, Rick McCallum Roteiro: George Lucas, Lawrence Kasdan Fotografia: Alan Hume Trilha Sonora: John Williams Duração: 133 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Lucasfilm Ltd.

Contatos imediatos do terceiro grau

Cotação 5 estrelas

Por André Dick

1977 foi o ano em que alguns cineastas – todos em início de carreira – experimentaram diferentes vertentes: temos Woody Allen firmando sua relação com Nova York  em Noivo neurótico, noiva nervosa; George Lucas e o início de sua série Guerra nas estrelas, John Badham antecipando a influência de musicais juvenis em Os embalos de sábado à noite; a estranheza de David Lynch em Eraserhead; e Steven Spielberg apresentando a visita de naves espaciais em Contatos imediatos do terceiro grau.
Esta é uma das mais belas ficções científicas, uma espécie de antecipação de E.T., direcionada mais para adultos – sendo também mais assustadora. Era um dos projetos antigos do diretor, e Spielberg estava em grande fase – depois do sucesso de público e crítica de Tubarão, ele pôde desenvolver este projeto com custo financeiro mais elevado – quando filmou essa história que mostra o contato com OVNIs primeiro em várias partes do mundo e depois numa pacata cidade do interior norte-americano. Spielberg – depois da experiência que teve por não ver reconhecida suficientemente sua contribuição com o roteiro de Tubarão – não quis dividir o crédito com quem ajudou a escrever a história (como Paul Schrader e Matthew Robbins, que dirigiu um filme produzido por ele, O milagre veio do espaço), e certamente é um dos filmes pelos quais demonstrou apego, ao longo de sua trajetória.
Um pai de família, Roy Neary (Dreyfuss, que havia trabalhado com Spielberg em Tubarão), casado com uma moça engraçada, Ronnie (a ótima Teri Garr, que apareceu bastante em filmes nas décadas de 70 e 80), trabalha no departamento de eletricidade de Indiana e vê certa noite, quando há problemas de iluminação na cidade (ideia adaptada por Super 8) uma nave sobre sua caminhonete. Acredita que está perturbado, ao mesmo tempo em que pessoas se aglomeram em estradas para ver a passagens de naves – como se fosse uma mera distração para as noites de tédio.
Ele começa a visualizar uma montanha, assim como outras pessoas, e imagina que ela seja um símbolo para um contato com extraterrestres, começando a reproduzi-la na sala de sua casa, com lama e terra.
Um menino, Barry Guiler (Gary Guffey), filho de Jillian (Melinda Dillon), também é perseguido por uma das espaçonaves – numa sequência precursora de elementos de E.T. e Poltergeist (com os brinquedos se mexendo pela casa, num clima de suspense que Spielberg extraiu com talento de Hitchcock, e as luzes ameaçadoras passando pelas frestas da porta, numa sequência clássica). E começa a visualizar compulsivamente a mesma montanha que Roy tenta reproduzir.
Enquanto ele tenta descobrir se a montanha realmente existe, surgem tropas militares e cientistas, entre os quais o francês Lacombe (interpretado pelo cineasta François Truffaut), isolando um determinado local sem nenhuma explicação aparente.
Tudo vai num crescente: Spielberg quer mostrar também como se dá a presença extraterrestre em outros lugares do mundo – colocando até um navio no meio do deserto de Gobi. Ficção científica de grande intensidade, sempre atual e inovadora, com elementos que antecipam não apenas E.T., mas boa parte dos filmes de aliens que seriam feitos em seguida, Contatos imediatos teve uma versão inicial, mas o diretor, não totalmente feliz com o resultado, fez outras duas versões (uma relançada nos cinemas em 1980, com algumas cenas acrescentadas e outras excluídas; há divisões sobre qual seria a melhor versão). Tem efeitos especiais fascinantes de Douglas Trumbull (que fez também os de 2001 e Blade Runner e, recentemente, os de A árvore da vida), os aliens criados por Carlo Rambaldi (de E.T., Duna, Alien), fotografia de Vilmos Szigmond (premiada com o Oscar) e uma trilha sonora das mais inspiradas de John Williams, no auge de sua carreira. Spielberg retomaria o tema de forma mais atenta em Guerra dos mundos – mas aqui, nos anos 1970, como ele mesmo dizia, quando tudo se entregava à fantasia, e não havia tanto a responsabilidade familiar, os extraterrestres eram pacíficos e dispostos a dialogar por meio de notas musicais; no início do século XXI, com o terrorismo em escala cada vez maior, os aliens lembram mais invasores imperdoáveis.

Close Encounters of The Third Kind, EUA, 1977 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Richard Dreyfuss, François Truffaut, Teri Garr, Melinda Dillon,Cary Guffey Produção: Julia Phillips, Michael Phillip  Roteiro: Steven Spielberg Fotografia: Vilmos Zsigmond Trilha Sonora: John Williams Duração: 135 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Columbia

Hatari!

Cotação 4 estrelas

Por André Dick

Trata-se de uma diversão memorável, sem compromissos, mas com uma mensagem ecológica moderna. Não se trata de um dos filmes considerados melhores na filmografia de Howard Hawks, mas, sem dúvida, é um dos mais divertidos. John Wayne está em seu melhor momento como o líder de um grupo internacional de caçadores de animais, Sean Mercer, que matam e depois vendem a mercadoria, pelo menos no período em que têm a permissão para isso. Ele pretende capturar diversos animais para enviá-los a zoológicos. Fica bastante incomodado quando chega ao acampamento dos caçadores a fotógrafa italiana Dallas (Elsa Martinelli), do zoológico de Los Angeles, paga para levar provas dos crimes ecológicos, por quem Sean irá se interessar. Ela acaba sendo nomeada pelas tribos como a “Mamãe dos elefantes” por abrigar filhotes recém-nascidos de elefantes. Há inúmeras cenas antológicas: o ataque do rinoceronte à caminhonete nas pradarias africanas, além de uma bela fotografia (os horizontes da África se revelam todos aqui) e uma música marcante, inclusive com “O passo do elefantinho”, de Henry Mancini. Há muito no filme: ação, humor, ecologia (o personagem de Wayne se redime do que faz), elenco interessante.

Hatari!, EUA, 1962 Diretor: Howard Hawks Elenco: John Wayne, Hardy Kruger, Elsa Martinelli, Red Buttons, Gérard Blain, Michéle Girardon, Bruce Cabot, Valentin De Vargas, Eduard Franz, Jon Chevron Roteiro: Leigh Brackett Fotografia: Russell Harlan Trilha Sonora: Henry Mancini Duração: 159 min. Distribuidora: Não definida

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