Melhores filmes de 2014

Por André Dick

Melhores filmes de 2014.Cinematographe

O ano de 2014 já iniciou com uma série interessante de indicados ao Oscar: o espectador pôde acompanhar a relação de um homem com um programa de computador, a história de um escravo em luta por sua liberdade humana e familiar, o reencontro entre um pai e um filho numa viagem de carro e um milionário em convivência direta com uma dose extra de componentes ilícitos, além de sua dificuldade em entrar no seu carro de última geração. Também em janeiro, foram exibidos dois filmes referenciais de Leos Carax, dos anos 80: Boy meets girl e Sangue ruim. Depois, ao longo do ano, os lançamentos em grande proporção fizeram o panorama, lado a lado, com lançamentos de circulação mais restrita, além de mostras particulares e festivais paralelos que acontecem pelo Brasil.
Algumas grandes alegrias deste ano podem ser encontradas em filmes que merecem encontrar o grande público, a exemplo de Nós somos as melhores!Heli e Ida. E difícil imaginar ver um filme que trouxesse personagens basicamente sentados diante de uma mesa – o de Manoel de Oliveira – menos desgastante do que alguns blockbusters.
Também um ano em que falar bem de Interestelar virou, algumas vezes, sinônimo de ser fã de Cristopher Nolan. Em relação a quem se atreve a dialogar com 2001, bons seriam quem tenta reproduzir O poderoso chefão II Era uma vez na América (James Gray) ou Nicolas Roeg e novamente Stanley Kubrick (Jonathan Glazer). O espectador pôde vivenciar novamente a infância, seja por meio de Linklater, Jeunet ou Wes Anderson. A despedida de Miyazaki do universo da animação. As novas tecnologias puderam ser sentidas de várias maneiras, principalmente nas obras de Spike Jonze e Jason Reitman.
Para cada obra de Manoel de Oliveira, de Wes Anderson, de Von Trier, apenas um sinal que destoa: as salas têm se dedicado a passar animações efêmeras, filmes de terror e suspense e comédias com qualidade duvidosa principalmente desde 2010. Mas é assim também nos Estados Unidos e na Europa. Os lançamentos de alguns belos filmes ficaram para próximo ano: vejamos Luz depois das trevas, que chegou a ganhar uma data de lançamento em meados do ano e novamente não foi lançado. Mapas para as estrelas e Dois dias, uma noite chegaram a ganhar datas de lançamento também, mas ficam para ano que vem. Outros saíram diretamente em home video, como Apenas Deus perdoa, Vida de adulto, Temporário 12, O maravilhoso agora e Cores do destino (citados especialmente porque estariam nessa lista de melhores do ano).
Filmes da cadeia de blockbusters acabaram apagando uma obra como Transcendence – A revolução, ao mesmo tempo que tivemos no início do ano Noé e o surpreendente RoboCop de Padilha, em seguida a animação em stop-motion Uma aventura LEGO, na metade filmes de heróis da Marvel: Homem Aranha, Capitão América e Guardiões da galáxia. Houve a grande surpresa de bilheteria A culpa é das estrelas; o regresso de Luc Besson ao thriller pop em Lucy; Tom Cruise em mais uma ficção, No limite do amanhã; Woody Allen em Magia ao luar; Clint Eastwood em Jersey Boys (no final do ano, ele ainda lançou mais um nos Estados Unidos, American sniper). Também foi um ano rico para os fãs de Sin City, X-Men, 300, Transformers, Muppets, Rio, Como treinar seu dragão, Planeta dos macacos e Jogos vorazes. E o cinema brasileiro teve destaques, desde Hoje eu quero voltar sozinho a Entre nós (este com o melhor elenco brasileiro do ano).
Os filmes avaliados para a lista estrearam no Brasil entre janeiro e dezembro de 2014, inclusive aqueles indicados ao Oscar de 2013. Não foram avaliados filmes exibidos apenas em festivais ou que estrearam nos Estados Unidos e virão estrear no próximo ano em circuito comercial no Brasil.
Cinematographe apresenta primeiro duas listas (uma de menções honrosas e outra de filmes considerados superestimados ou decepções).

Menções honrosas

Oslo, 31 de agosto (Joachim Trier), Mesmo se nada der certo (John Carney), Planeta dos macacos – O confronto (Matt Reeves), O ciúme (Philippe Garrel), Guardiões da galáxia (James Gunn), Sem evidências (Atom Egoyan), Eles voltam (Marcelo Lordello), Magia ao luar (Woody Allen), Entre nós (Paulo Morelli), Uma aventura LEGO (Phil Lord, Cristopher Miller e Chris McKay), Clube de compras Dallas (Jean-Marc Vallée), Jogos vorazes: A esperança – Parte 1 (Francis Lawrence), Oldboy – Dias de vingança (Spike Lee), O menino e o mundo (Alê Abreu), Anjos da lei 2 (Phil Lord e Cristopher Miller), O abutre (Dan Gilroy), Êxodo: deuses e reis (Ridley Scott), Philomena (Stephen Frears), A menina que roubava livros (Brian Percival), Hoje eu quero voltar sozinho (Daniel Ribeiro), Ninfomaníaca – Volume II (Lars von Trier), Trapaça (David O. Russell), Confissões de adolescente (Daniel Filho e Cris D’Amato), Noé (Darren Aronofsky), Pais e filhos (Hirokazu Koreeda)

Decepções e/ou superestimados

Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum (Joel e Ethan Coen), Sob a pele (Jonathan Glazer), O passado (Asghar Farhadi), Mommy (Xavier Dolan), Riocorrente (Paulo Sacramento), Até o fim (J.C. Chandor), Bem-vindo a Nova York (Abel Ferrara), Garota exemplar (David Fincher), Era uma vez em Nova York (James Gray), The Rover – A caçada (David Michôd), Godzilla (Gareth Edwards), Miss Violence (Alexandros Avranas), Lucy (Luc Besson), Relatos selvagens (Damián Szifron), Praia do futuro (Karim Aïnouz), Debi e Loide 2 (Peter e Bobby Farrelly), John Wick – De volta ao jogo (Chad Stahelski e David Leitch), O lobo atrás da porta (Fernando Coimbra), O teorema zero (Terry Gilliam), Amantes eternos (Jim Jarmusch)

A seguir, a lista do Cinematographe com os 30 melhores filmes de 2014. Junto com ela, agradeço por sua leitura e companhia durante o ano.

Melhores filmes.Virgínia

Virgínia é a visão contemporânea de Coppola, que se arrisca a abandonar a grandiosidade de projetos que levaram sua Zoetrope à complicação financeira dos anos 80, como O fundo do coração e Cotton Club, mas é também a de um realizador que filma digitalmente um dos filmes mais bem fotografados dos últimos anos. As imagens de Virgínia gravam na memória como se fossem imagens de um livro distante e familiar, com uma espécie de relevo. É o bastante para torná-lo um filme a ser descoberto. Leia mais.

Melhores filmes.Fruitvale Station

É o personagem central deste filme, Jordan, quem acaba trazendo a ideia de que algo diferente poderá acontecer, desviando-se dos fatos, e é este fio de esperança que sustenta a narrativa. Pode-se assistir esta estreia na direção de Ryan Coogler com o pensamento de que se trata de uma história banal – sobretudo porque pode se confundir um ser humano com estatísticas –, entretanto Fruitvale Station nos faz lembrar de momentos que definem toda uma existência e a necessidade do afeto. Leia mais.

Melhores filmes.Jersey Boys

Muitos comentários feitos a respeito de Jersey Boys – Em busca da música se concentram no fato de que Clint Eastwood não era o diretor mais apropriado para dirigi-lo, pois é um filme que teria características muito diferentes de sua trajetória como cineasta. Talvez nesse sentido Eastwood seja apenas indicado para viver policiais de San Francisco que caçam criminosos a todo custo ou cowboys com conflitos existenciais no Velho Oeste. É justamente por ter dirigido desde os anos 90 filmes que quase não possuíam traços de humor ou músicas que Jersey Boys se torna tão interessante na filmografia de Eastwood.

Melhores filmes.À procura

Desde o início de À procura,  as imagens devem ser lidas, e apenas aparentemente querem evocar Fargo, dos irmãos Coen – há algo mais embaixo dessa superfície, e quando vemos uma das personagens saindo de uma festa onde teve de lidar com seu passado Egoyan nos mostra um parque de diversões à noite, como se ela estivesse ainda na noite imposta por A flauta mágica, de Mozart. Ryan Reynolds tem seu grande papel nesta nova obra de Atom Egoyan. Leia mais.

Melhores filmes.Amores inversos

A narrativa segue um ritmo do cotidiano, sem grandes acontecimentos, no entanto com uma fotografia cuidadosa de Kasper Tuxen, iluminando ambientes do interior ou da periferia de uma cidade, a diretora Liza Johnson delineia bem o afastamento da personagem central: Kristen Wiig mostra a sensação de alguém que está afastada do mundo na mesma medida em que tenta fugir do lugar-comum (a sequência em que ela tenta se inscrever na biblioteca mostra o seu talento). Leia mais.

Melhores filmes.Walt nos bastidores de Mary Poppins

É interessante como um filme no estilo de Walt nos bastidores de Mary Poppins pode ser visto apenas como sentimental. Não raro isso abre um espaço para aquilo que deve ser, na verdade, questionado em filmes cuja elaboração e pretensão se fixam num discurso que ronda sempre uma certa amargura visivelmente proposital para incomodar, mesmo que não que seja verdadeira ou se traduza em diálogo com o espectador, mantendo-se sempre perto de um conceito, teoria ou citação para serem cultuados e respeitados. Ou seja, há uma leveza nítida em Walt nos bastidores de Mary Poppins, mas bem menos prejudicial do que uma erudição calculada. Leia mais.

Melhores filmes.Uma viagem extraordinária

Cercado de uma direção de arte impecável, proporcionando a vontade de emoldurar as suas imagens, Uma viagem extraordinária é um dos filmes mais humanos lançados recentemente, e, na mesma medida em que tem pretensões artísticas, procura um diálogo direto com o universo infantil, com uma linha narrativa situada entre o poético e o tom de lição de moral, por vezes até simples, ainda que sem o lugar-comum. Há filmes que fazem o espectador se sentir bem, e Jeunet consegue lidar com este caminho como poucos cineastas. Leia mais.

Melhores filmes.A culpa é das estrelas

São delicados os diálogos sobre a importância de cada um, a necessidade de deixar uma memória e eles não vêm embalados meramente como pílulas de sabedoria, com os personagens recitando cada palavra como se pensassem apenas levar o espectador a ter um determinado sentimento. Isso não faria justiça ao trabalho de Woodley e Elgort. O diretor Josh Boone atinge um ponto delicado de afirmação desses personagens, que liberam a dor a ser sentida. Se essa dor vem com certa manipulação, a qualidade narrativa e o elenco de A culpa é das estrelas não deixam esquecer que este é um filme de verdade. Leia mais.

Melhores filmes.Transcendence

Pfister certamente não está conduzindo a humanidade, em seu filme, a uma fuga dos compromissos modernos e contemporâneos por meio dos computadores, mas vendo a base desse sentimento pela consciência artificial. Neste sentido, Transcendence, mais do que pontos bastante interessantes a serem discutidos, foge a qualquer traço de simples filme comercial, daí sua maior originalidade e aquilo que equivale a seu título. Leia mais.

Melhores filmes.Planeta solitário

Loktev mostra como uma determinada situação pode fazer um casal olhar não para o que até então procurava – paisagens com peso turístico e de recordação contínua –, mas para dentro de si mesmos, com os conflitos mais incontornáveis, em que um gesto de ajuda pode significar mais do que se imagina – e também a revolta pode existir em razão de desacordos não explícitos. E o que se consegue com este material a princípio limitado é realmente insinuante, dispondo algumas temáticas implícitas. Leia mais.

Melhores filmes.RoboCop

Quando se importa em quantos milésimos de segundo alguém será morto, o filme pergunta se a vida de uma criança em cena de guerra será realmente importante para quem fabrica armas – e a relação do RoboCop com o filho estabelece uma ligação direta com o início do filme em Teerã. Padilha trata o personagem não com reverência, mas como parte de um contexto, sem afastá-lo, no entanto, de sua mitologia e da diversão. Talvez toda a comparação existente com o original e um certo saudosismo ofusquem o mais evidente: o novo RoboCop é impressionante. Leia mais.

Melhores filmes.Cães errantes

Em termos de cinema decisivamente experimental, Cães errantes é o significado próprio dessa condição, embora se perca em alguns enquadramentos exaustivamente extensos, como se o significado precisasse ser dado pela ruptura com o espaço-tempo e tudo que significasse a realidade desses personagens estivesse ligada a uma espera bastante incisiva. Não é exatamente fácil fazer este tipo de cinema experimental: se existe uma sensação de que o diretor se excede e improvisa, pode-se ver, por outros filmes com essa mesma tentativa, que é muito difícil envolver o espectador por vários minutos com uma sequência determinada de rotina. Leia mais.

Melhores filmes.Ninfomaníaca - Volume I

A personagem central deste filme de Lars von Trier não consegue sentir prazer no sexo; mais, como a personagem de Kirsten Dunst em Melancolia, o sexo é apenas um símbolo de escape da própria personalidade, perdendo-se num espaço vazio, em que a personalidade ou o desejo de se preocupar com o que a outra pessoa está sentindo não é mais presente (o que se apresentava também em Shame, de forma menos interessante). Leia mais.

Melhores filmes.Nós somos as melhores!

Nós somos as melhores! revela como poucos filmes a sensação de descoberta da adolescência: estão lá os primeiros momentos em que reunir uma coletânea de músicas era uma salto para a descoberta de uma rebeldia não apenas posada, mas capaz de estabelecer afeto, e o significado de que a música pode representar, mais do que uma diversão, uma maneira de estabelecer ligação entre pessoas tão diferentes. Leia mais.

Melhores filmes.O gebo e a sombra

Embora se diga que este estilo teatral é seguido por causa de sua idade, o que Oliveira faz aqui não é pouco: por meio de um elenco de grande qualidade e uma troca rápida de diálogos, O gebo e a sombra, passado praticamente diante de uma mesa, com um ar soturno de uma casa que dificilmente viu ou vê a claridade do dia, oferece a sensação de ter mais movimento e emoção do que muitos blockbusters recentes. Leia mais.

Melhores filmes.O Hotel Budapeste

Para Wes Anderson, sempre pode haver no microscópio algo a ser transformado, atingindo tamanho desconhecido. Tudo é muito ordenado neste universo, desde a direção de arte que dialoga novamente com a de O iluminado, de Kubrick, e de filmes como A viagem do capitão TornadoNicholas e Alexandra Arca russa, até a fotografia e seus movimentos sempre calculados ao extremo, porém Anderson reflete sobre a violência histórica que também pode atravessar e perturbar este universo a princípio intocado. Leia mais.

Melhores filmes.12 anos de escravidão

A saída mais elaborada por McQueen de uma possível dramaticidade forçada é exatamente seu realismo narrativo e montagem trepidante. 12 anos de escravidão é um dos filmes mais bem arquitetados dos últimos anos, no qual não se percebe a passagem do tempo, mas sentimos todo o peso dela nos minutos em que vemos Solomon ficar às voltas com seus algozes. Sua amizade com Patsy é também uma das pontes estabelecidas mais sensíveis, um diálogo direto da amizade entre Celie e Sofia em A cor púrpura. Junto à montagem, a trilha sonora de Hans Zimmer composta para 12 anos de escravidão é esplendorosa. Leia mais.

Melhores filmes.O lobo de Wall Street

Este filme pode ser, além de grande cinema – nem todos o receberam assim –, o primeiro real acerto na parceria de Martin Scorsese com DiCaprio. Na verdade, seus encontros nunca haviam dado realmente certo, sempre cercados por uma necessidade de provarem a si mesmos que podem conquistar o mundo. Quase como Jordan Belfort. E aqui estamos: O lobo de Wall Street, embora não possa ser enquadrado num gênero definido, é também, por causa dos dois, uma das melhores tragicomédias dos últimos tempos. Leia mais.

Melhores filmes.A imagem que falta

Este documentário, que perdeu o Oscar de filme estrangeiro injustamente para A grande beleza, mostra os efeitos do regime no Camboja sobre o seu narrador. A maneira como ele conta de que os seus familiares foram desaparecendo (pais, irmãos, primos), depois de expulsos de Phnom Penh, quando ele tinha apenas 13 anos de idade, em 1975, para dar lugar a um trabalho escravo em lavouras e plantações, interrompidas apenas por palestras sobre como todos deveriam estar reunindo sob um determinado manto de justiça, é lancinante.

Melhores filmes.Nebraska

Nebraska mostra que a herança é uma espécie de sonho particular estendido às novas gerações, e Bruce Dern revela esta ideia da melhor forma, numa atuação contida e comovente. O diretor Alexander Payne mais uma vez não desaponta quem espera uma narrativa com elementos de humor, e, ao mesmo tempo, densa e trabalhada num crescente. Seu filme mais introspectivo até o momento, Nebraska nos faz lembrar de como o ser humano pode se reconhecer sempre não apenas pelo passado, como também pelo futuro, por mais limitado que pareça, afinal, segundo Payne, tudo pode reservar um alento. Leia mais.

Melhores filmes.Vidas ao vento

Com vários simbolismos remetendo à passagem rápida do tempo, principalmente para Naoko, como as nuvens no céu, Miyazaki consegue mesclar informações históricas com uma narrativa que contempla a cultura oriental em detalhes. O resultado é uma animação não apenas com pano de fundo real, como também com sentimentos reais e uma cena final especialmente tocante. Como Ponyo e Meu amigo Totoro, este é um exemplo de desenho animado impressionante.

Melhores filmes.Homens, mulheres e filhos

Parece precipitado classificar esta nova obra de Jason Reitman, que nos lembra das relações também fora desse universo como algo escapista, sob o ponto de vista de predominância da tecnologia, principalmente quando sua qualidade é maior do que está sendo apontada e seus temas são permanentes. Há elementos de afeto e de aproximação em cada personagem e, ao mesmo tempo, uma ideia de que a solidão é apenas aparente quando vista diante de um universo em expansão, podendo ser revertida por uma simples visita à janela de casa. Leia mais.

Melhores filmes.Heli

Heli tem várias cenas em que há uma opressão, tanto aquelas que se passam na fábrica quanto na casa ou mesmo numa planície deserta, levando o espectador a um lugar desconhecido, também para os personagens. Não apenas essa opressão – a das inter-relações que parecem cada vez mais vagas –, como também a suspensão de qualquer confiança no aparato policial que serviria normalmente de ajuda para superar o desastre existencial pelo qual os personagens passam marca Heli de ponta a ponta. Mas tudo isso pode escapar à rotina se há um parque de diversões ou se finalmente as crianças da casa podem dormir abraçadas diante de uma cortina aberta. Leia mais.

Melhores filmes.O homem duplicado

Se havia problemas em Os suspeitos, em razão dos excessos de metragem e de tentativas de fazer reviravoltas, O homem duplicado cresce justamente por causa de seu minimalismo, oposto à literatura de Saramago (do qual Villeneuve preserva o trabalho simbólico, mesmo que reinventado): quando se vê, o filme passou de forma tão ágil que gostaríamos logo de retomá-lo para tentar procurar outras pistas para o esclarecimento (nunca total, apesar de diversas interpretações) da obra. Leia mais.

Melhores filmes.O grande mestre

A parceria entre Leung e Ziyi se dá num plano de duelo e de ressonância emocional, um interesse amoroso que se perde por meio de cartas, mas que vai desaparecendo conforme as estações mostradas pelo diretor com a sensibilidade de descoberta. O amor entre os dois é como a troca de palavras colocada no lugar da luta. No entanto, no caso deles, o silêncio pode provocar um apego ainda maior à melancolia, e O grande mestre se mostra o símbolo mais próximo da passagem de tempo. Leia mais.

Melhores filmes.O hobbit

Se a partir do segundo filme poderia haver uma desconfiança em relação a Peter Jackson, ele finaliza a trilogia com um êxito que certamente traria percalços a quem não dirigiu O senhor dos anéis. O hobbit – A batalha dos cinco exércitos não é apenas um grande filme de fantasia ou de ação, ou uma adaptação à altura do universo imaginado por Tolkien. Do mesmo modo, não é um filme apenas para os fãs dessa obra, como muitas vezes é recebido, e sim para quem admira um cinema no qual é possível rever e guardar parte da própria imaginação. Leia mais.

Melhores filmes.Ela

A principal ideia de Ela, que parece não oferecer a segurança para um filme, torna-se, aos poucos, cada vez mais plausível e, quando percebemos, estamos inseridos na história de amor talvez mais original já feita, não exatamente pela relação virtual, e sim como ela é abordada de modo verdadeiro e sem artifícios. Quando Samantha diz a Theodore que ele a ajudou a se descobrir, não estamos mais lidando com um sentimento virtual, com uma fuga da realidade, desculpando-se pela solidão, mas com o pleno entendimento do amor. É o que torna Ela um filme tão próximo, com seu universo aparentemente tão distante: ele nos lembra de nós mesmos. Leia mais.

Melhores filmes.Ida

A fotografia em preto e branco de Ida não corresponde apenas a uma escolha estética, mas ao fato de que não apenas o seu tema está divido entre o que está descoberto e o que é implícito. Os personagens precisam enfrentar o inverno exterior como as perdas que ficam escondidas dentro: a neve que o sol não derrete em determinado momento é tão nebulosa quanto o espectro de um passado que a personagem central precisa encontrar, a fim de se reerguer de uma vida misteriosa. Leia mais.

Melhores filmes.Interestelar

Em Interestelar, e poucos filmes conseguem isso com a mesma ênfase e sem reduzir os personagens a símbolos, o amor se revela no plano da memória, mas uma memória sem tempo definido. Filhos encontram pais e vice-versa, no entanto não sabemos quais são aqueles capazes de demonstrar melhor a memória da humanidade. Podem existir outros planetas, no entanto quem fornece sentido a eles é a ligação entre seres diferentes. Cristopher Nolan e Matthew McConaughey oferecem uma emoção memorável nesta viagem tanto ao espaço sideral quanto para dentro de cada um. Leia mais.

Melhores filmes.Boyhood

Nesta obra, Linklater não trabalha o roteiro de modo a trazer núcleos determinados, que chamem especial atenção do espectador, ou que sejam demarcados, nem com pontos-chave que sejam recuperados ao longo dos anos, mas de uma forma aparentemente dispersa, no entanto bastante orgânica, sem grandes saltos no comportamento dos personagens. Esta aparenta dispersão, e ela poderia se explicar também pelos saltos temporais nas filmagens, não atinge o núcleo do filme, nem o impede de ter diálogos que fluem de maneira preciosa, mesmo que não estejam interligados com clareza. Com 165 minutos, Boyhood demarca um tempo raro. Leia mais.

Melhores filmes de 2014.Cinematographe

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Melhores de 2014 (diretores, atores, atrizes… e categorias técnicas)

Por André Dick

O Cinematographe apresenta, a seguir, listas dos cinco melhores nas categorias principais (diretor, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro original e roteiro adaptado) e técnicas (fotografia, trilha sonora, coletânea musical, montagem, direção de arte, figurino, maquiagem, efeitos visuais e efeitos sonoros) de filmes exibidos no Brasil ao longo de 2014. Não há, nelas, ordem de preferência. O próximo post apresentará os melhores filmes do ano.

Melhor diretor

Richard Linklater (Boyhood) * Wong Kar-Wai (O grande mestre) * Cristopher Nolan (Interestelar) * Spike Jonze (Ela) * Pawel Pawlikowski (Ida)

Melhor diretor

Melhor ator

Ellar Coltrane (Boyhood) * Ryan Reynolds (À procura) * Leonardo DiCaprio (O lobo de Wall Street) * Michael Lonsdale (O gebo e a sombra) * Matthew McConaughey (Interestelar)

Melhor ator

Melhor atriz

Kristen Wiig (Amores inversos) * Judi Dench (Philomena) * Scarlett Johansson (Ela) * Shailene Woodley (A culpa é das estrelas) * Zhang Ziyi (O grande mestre)

Melhor atriz

Melhor ator coadjuvante

Ethan Hawke (Boyhood) * Christian Slater (Ninfomaníaca – Volume I) * Gary Oldman (RoboCop) * Robert Pattinson (The Rover – A caçada) * Richard Armitage (O hobbit – A batalha dos cinco exércitos)

Melhor ator coadjuvante

Melhor atriz coadjuvante

Lupita Nyong’o (12 anos de escravidão) * Anne Hathaway (Interestelar) * Mira Grossin (Nós somos as melhores!) * Leonor Silveira (O gebo e a sombra) * Judy Greer (Homens, mulheres e filhos)

Melhor atriz coadjuvante

Melhor roteiro original

Richard Linklater (Boyhood) * Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz (Ida) * Bob Nelson (Nebraska) * Spike Jonze (Ela) * Xu Haofeng, Zou Jingzhi, Wong Kar-Wai (O grande mestre)

Melhor roteiro original

Melhor roteiro adaptado

Terence Winter, baseado no livro de Jordan Belfort (O lobo de Wall Street) * John Ridley, baseado no livro de Solomon Northup (12 anos de escravidão) * Manoel de Oliveira, baseado na peça de Raul Brandão (O gebo e a sombra) * Javier Gullón, baseado no romance de José Saramago (O homem duplicado) * Jason Reitman e Erin Cressida Wilson, baseados em romance de Chad Kultgen (Mulheres, homens e filhos)

Melhor roteiro adaptado

Mehor fotografia

Thomas Hardmeier (Uma viagem extraordinária) * Inti Briones (Planeta solitário) * Robert Yeoman (O grande Hotel Budapeste) * Phillipe Le Sourd (O grande mestre) * Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski (Ida)

Melhor fotografia

Melhor trilha sonora

Denis Sanacore (Uma viagem extraordinária) * Arcade Fire (Ela) * Hans Zimmer (12 anos de escravidão) * Richard Skelton (Planeta solitário) * Hans Zimmer (Interestelar)

Melhor trilha sonora

Melhor coletânea musical

Guardiões da galáxia * Nós somos as melhores! * O lobo de Wall Street * Mesmo se nada der certo  * Homens, mulheres e filhos

Melhor coletânea musical

Melhor montagem

Joe Walker (12 anos de escravidão) * Thelma Schoonmaker (O lobo de Wall Street) * Sandra Adair (Boyhood) * Peter McNulty e Daniel Rezende (RoboCop) * Jaroslaw Kaminski (Ida)

Melhor montagem

Melhor direção de arte

Tony Au, William Chang, Alfred Yau (O grande mestre) * Aline Bonetto, Jean-Andre Carriere, Paul Healy (Uma viagem extraordinária) * Stephan O. Gessler, Gerald Sullivan, Steve Summersgill, Anna Pinnock (O grande hotel Budapeste) * Nathan Crowley, Kendelle Elliott, Eggert Kettilson, David F. Klassen, Gary Kosko, Josh Lusby, Eric Sundhal, Dean Wolcott, Gary Fettis (Interestelar) * Dan Hennah, Simon Bright, Andy McLaren, Ra Vincent (O hobbit – A batalha dos cinco exércitos)

Melhor direção de arte

Melhor figurino

William Chang (O grande mestre) * Moa Li Lemhagen Shalin (Nós somos as melhores!) * Bob Buck, Lesley Burkes-Harding, Ann Maskrey (O hobbit – A batalha dos cinco exércitos) * Milena Canonero (O grande Hotel Budapeste) * Mary Zophres (Interestelar)

Melhor figurino

Melhor maquiagem

Virgínia * O hobbit – A batalha dos cinco exércitos * O grande Hotel Budapeste * Guardiões da galáxia * Noé

Melhor maquiagem

Melhores efeitos visuais

RoboCop * Noé * Uma aventura LEGO * O hobbit – A batalha dos cinco exércitos * Interestelar

Melhores efeitos especiais

Melhores efeitos sonoros

Transcendence – A revolução * RoboCop * Noé * O hobbit – A batalha dos cinco exércitos * Interestelar

Melhores efeitos sonoros

Garota exemplar (2014)

 Por André Dick

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Depois de praticamente ter reinventado o thriller de suspense no cinema, com os filmes Zodíaco, Seven e Millennium, e ter conseguido tornar a criação do Facebook num drama contemporâneo real, Fincher é um cineasta a ser sempre visto. Mesmo porque ele também possui em sua trajetória alguns filmes estranhamente esquecidos, como O curioso caso de Benjamin Button, um daqueles a melhor mostrar as contradições de tempo na vida humana, e o surpreendente Vidas em jogo (ainda do início de sua carreira). Ao anunciar que adaptaria para o cinema o romance Garota exemplar, de Gillian Flynn, era natural que se criasse uma grande expectativa em torno, sobretudo porque volta ao gênero que o consagrou com obras tão diferenciadas e complementares.
No início de Garota exemplar, os personagens demoram a ganhar força, sendo apresentados de maneira um tanto abrupta. Acompanhamos Nick Dunne (Ben Affleck), que depois de parar no bar que administra com a irmã gêmea, Margo (Carrie Coon), volta para a casa e vê sinais de briga na sala. A questão é que sua mulher, Amy (Rosamund Pike), desapareceu, e Fincher retoma em flashbacks o momento em que ambos se conheceram. Assim como o presente dado por Nick a Margo, tudo passa a ser um jogo. A polícia da pequena cidade do Missouri para onde Nick e Amy se mudaram, depois de ambos terem uma trajetória como escritores em Nova York, começa a segui-lo. A partir daí, preocupado em estar num capítulo de Law & Order, Nick tem sua vida invadida pelos questionários da detetive Rhonda Boney (Kim Dickens) e do oficial James Gilpin (Patrick Fugit), assim como a TV dos Estados Unidos concentra seu espaço no desaparecimento. Fincher emprega um ritmo cada vez mais crescente, apresentando alguns novos personagens e sempre levando o espectador para um universo aparentemente de rotina, mas enigmático. É o que Garota exemplar tem de mais interessante: a atmosfera criada é basicamente de um filme de Fincher, e isso diz muito da sua qualidade visual.

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Acompanhar as lembranças de Amy por meio de um diário ajudam a dar um registro de sinuosidade à trama, mas, assim como Ben Affleck se mostra quase ao limite indefinido sobre qual tom deve seguir, Rosamund Pike é possivelmente uma das escolhas de elenco mais problemáticas da trajetória de Fincher: ela não possui a força necessária para levar o personagem adiante. Em determinados momentos, ela lembra muito o estilo de atuação usado por Rooney Mara não em Millennium, de Fincher, mas em Terapia de risco, de Soderbergh, e quando a assistimos atuando tudo é tão elaborado que não resta nenhuma espécie de tom humano – e não há nuances, pois Amy parece se comportar como se estivesse numa propaganda da Dolce & Gabbana. É justamente isso o que falta em Garota exemplar e havia com tanta intensidade nos filmes anteriores de Fincher: os personagens não são guiados pelo sentido de descoberta e de suspense inerente ao comportamento de cada um, mas estão claramente atendendo aos passos de uma trama, de um labirinto, e Fincher, por mais que tente adaptar o romance com apoio da própria autora, com certa dedicação e fidelidade, nunca consegue apresentá-los com insegurança, medo, solidão. Talvez pela falta de amplitude nas atuações de Affleck e Pike, o filme se coloca num meio-termo entre a avaliação psiquiátrica de um matrimônio conturbado e a crítica aos meios de comunicação sobre quererem interferir na condução de um caso.
Desse modo, o que parece estar nas margens de Garota exemplar se torna estranhamente central e destacado, sem discrição. Isso já ocorria em outros filmes de Fincher, como Clube da luta, em que o discurso que habitava a mente conturbada do personagem de Edward Norton sobrepujava toda a narrativa e a fazia ligada de maneira equivocada do início ao fim. Mas em Garota exemplar o eixo é ainda mais destacável, pois trata-se de uma história que depende de o espectador estar ligado ou não aos personagens. Que o personagem de Nick Dunne não tem a vida necessária isso parece claro por causa das limitações conhecidas de Affleck, mas seu comportamento certamente não poderia ser tão descompromissado diante da situação, seja qual fosse o objetivo da trama. Fincher não consegue também colocar o roteiro como algo que pudesse reparar pelo menos a falta de condução do elenco (não são raras as vezes em que se tem a impressão de que Fincher não realizou uma segunda tomada com Affleck e Pike).

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A adaptação de Garota exemplar foi feita pelo próprio autor do romance, porém, ao contrário de outros filmes notáveis de Fincher (e sua obra-prima permanece sendo Zodíaco), há algumas escolhas bastante estranhas e confusas (neste parágrafo, spoilers menores). É difícil indicar, num thriller, o que pode ser desconsiderado, para que se dê mais espaço aos imprevistos, mas o roteiro de Garota exemplar possui algumas lacunas consideráveis, sobretudo da metade para o final quando Fincher desloca suas câmeras da investigação policial – e os integrantes da polícia acabam sumindo de cena mesmo quando possuem em mãos uma das provas que podem incriminar Dunne – para coadjuvantes num hotel de beira de estrada ou para o milionário Desi Collings (Neil Patrick Harris), assim como surge um advogado, Tanner Bolt (Tyler Perry), que, depois de parecer indicar todas as soluções, acaba sendo colocado de lado em qualquer decisão.
Essa transição não é feita de maneira clara e compassada por Fincher, fazendo com que os personagens fiquem prejudicados ou deixados em segundo plano, para que se possa desenhar um pretenso estudo psicológico da personagem de Amy. Este estudo não apenas afeta o filme como um todo, em razão da atuação excessivamente posada de Pike, como leva Garota exemplar a ter duas personalidades, e quando os avisos de passagem de tempo surgem, mostrando os impactos na vida de Dunne e sua corrida para tentar convencer a todos de que não tem ligação com o desaparecimento da mulher, são apenas uma maneira de estabelecer ainda mais a distância que o espectador vai criando em relação à narrativa, mesmo que a atmosfera acabe atraindo a atenção.
Os melhores momentos de Garota exemplar são aqueles que justamente dialogam com  outras obras de Fincher: as lanternas dos investigadores remetendo a Zodíaco e a Seven; o bairro onde mora Nick com a solidão do campus de A rede social à noite; as imagens da natureza de rios pela manhã como em O curioso caso de Benjamin Button; as imagens de casas ou bares à noite retratando uma sugestiva perfeição. Outros momentos (como inúmeras pessoas num campo esverdeado ou ao lado de um rio atrás do paradeiro) remetem a O círculo vermelho, de Jean-Pierre Melville, thriller referencial dos anos 70. Para um filme de quase duas horas e meia, esta atmosfera hipnotiza – e Fincher fazer isso com o roteiro que tem em mãos mostra o quanto tecnicamente é um autor sem sobressaltos. Não há como não prestar atenção num filme assim. No entanto, são artifícios, que tentam constantemente desviar o espectador das atuações problemáticas, da falta de um roteiro realmente surpreendente e de duas atuações centrais e de alguns coadjuvantes (sobretudo Patrick Harris, Fugit e Dickens) sem o ânimo necessário, embora Coon e Perry tragam um sopro de humanidade.

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Garota exemplar

Isto pesa no resultado final, em razão dos desdobramentos nem sempre necessários. Garota exemplar vai criando várias camadas de enredo e a energia aos poucos diminui, mostrando que Fincher teve dificuldade de lidar com o tema mais básico do roteiro – a relação entre o homem e a mulher – que nunca foi seu predileto. Nos filmes de Fincher, quando casais são enfocados, eles nunca formam o centro, mas sim servem apenas para ressaltar a solidão do homem (os personagens de Pitt e Gyllenhaal em Seven e Zodíaco, o Mark Zuckerberg de A rede social, o Benjamin Button, o jornalista e a hacker de Millennium); em Garota exemplar, embora pareça que o enfoque seja a solidão de Nick ou de Amy, Fincher é chamado a tratar realmente das relações entre o homem e a mulher. No entanto, como não consegue retratá-las, ele desvia para outros temas: as exigências feitas à mulher de um casamento perfeito, a manipulação da mídia em relação a um caso (e todas as jornalistas são caricaturais), e nisso Fincher não é sugestivo, mas impõe sua visão. Ou seja, só existe o terceiro ato de Garota exemplar – e ele é eminentemente falho em todas as suas soluções – porque Fincher e a roteirista e autora do romance Flynn acreditam que não há saída para essa idealização: a saída é a entrega a uma determinada loucura ou cinismo diante da realidade. Para Fincher, o casamento só pode ser enfocado de maneira irônica e sem explicação e o círculo da investigação se completa. Não raramente, com a trilha intrusiva de Atticus Ross e Trent Reznor, o filme acaba tendo um tom frequente de autoimportância, como se estivesse recontando o gênero do qual faz parte, quando não consegue ser efetivo nos caminhos que escolhe. Nessa linha de ideias mal solucionada, Fincher acaba caindo numa espécie de indefinição, o que é bastante raro em sua trajetória. Isso não torna Garota exemplar dispensável, mas não tira seu impacto de jogo previsível.

Gone girl, EUA, 2014 Diretor: David Fincher Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Carrie Coon, Kim Dickens, Patrick Fugit, Casey Wilson, Missi Pyle, Sela Ward Roteiro: Gillian Flynn Fotografia: Jeff Cronenweth Trilha Sonora: Atticus Ross, Trent Reznor Produção: Arnon Milchan, Ceán Chaffin, Joshua Donen, Reese Witherspoon Duração: 149 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: New Regency Pictures / Pacific Standard / Regency Enterprises

Cotação 2 estrelas e meia

 

Cães errantes (2013)

Por André Dick

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O cinema de Tsai Ming-liang, nascido na Malásia, é caracterizado justamente pela lentidão de sua narrativa. Quando se está diante de um filme seu, percebe-se que ele está tentando dizer algo quando posiciona a câmera e deixa as cenas transcorrerem como se estivéssemos diante de um aparelho de vídeo que registrasse as pessoas caminhando na rua ou dentro de uma casa. É um cinema essencialmente de imagens e de como elas se correspondem entre si, fazendo o possível para soarem até mesmo complexas em sua simplicidade. Quando ele consegue acertar, o espectador parece realizado; quando se estende, é possível até se aproximar de uma sensação implacável de tédio. Não é um cinema exatamente descompromissado em sua aparente despretensão no que se refere à composição de imagens. Cada enquadramento de Tsai pode suscitar uma vontade de segui-lo, tamanha a fascinação que cria, ou abandoná-lo, pela sua pouca vontade de agradar a quem o assiste, não pela falta de beleza das imagens, mas por seu despojamento.
O filme Cães errantes, vencedor do Grande Prêmio Especial do Júri em Veneza, mostra uma família que vive nas ruas de Taipei, capital da República da China. O pai, Lee (Lee Kang-sheng), carrega placas de propaganda (curiosamente remetendo a uma imobiliária), quase um outdoor humano, e fica imóvel ao lado de semáforos, enquanto os carros passam ou param, seja no vento ou na chuva. Durante o dia, os filhos (Lee Yi-chieh e Lee Yi-cheng) ficam em lugares diferentes, como num abrigo em ruínas, ou caminhando em meio a matagais. A comida é vista como um prazer raro, e uma mulher (Lu Yi-ching), que trabalha num supermercado, também ajuda os filhos de Lee, não sendo esclarecida exatamente sua ligação com eles (no início do filme, aparece o que entendemos ser também mãe deles, escovando o cabelo, interpretada por Yang Kuei-mei). É neste supermercado que o diretor oferece o ponto de vista de dentro de um refrigerador, ao mesmo tempo que as pessoas seguidamente o abrem para apanhar a comida.

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As crianças também utilizam as dependências de estabelecimentos comerciais para tomarem banho ou lavarem o cabelo na pia. Impressiona o modo como Tsai filma cada um desses movimentos, revelando, em igual intensidade, a opressão da grande cidade (e ela se mostra em suas ruas extensas ou nos neons noturnos) e a delicadeza de uma caminhada à beira de um lago. Também pode-se assistir essas imagens com a incessante continuidade de sons de todos os tipos: são feitas analogias entre o pai na chuva (com a câmera ao longe e em close, mostrando ele cantar um poema) e uma das crianças secando seu cabelo num aparelho de banheiro comercial; entre a chuva do dia e a da noite, com seu vento devastando paisagens. Em determinado momento, a sensação é de estar vendo um filme de suspense ou terror, e há visivelmente diálogos com a obra de David Lynch, pois Tsai Ming-liang filma a realidade como uma vertente do surrealismo: uma criança espiando por uma fresta de porta deve claramente ao personagem de Laura Palmer na versão para o cinema de Twin Peaks. Andar por uma casa vazia, envidraçada, que parece um abrigo para o abandono que a cerca, dialoga com a obra de Terrence Malick – com suas cortinas brancas esvoaçantes. Os sons dialogam entre si: do vento na rua, da chuva e das goteiras nas ruínas. O sr. Lee, em determinado instante, que abre um intervalo de espera no filme, devora um repolho, que pode se transformar numa espécie de boneca, e os sons se misturam com o ambiente como se fossem uma composição apenas, assim como em outro momento o soluço e as lágrimas se confundem com as gotas de chuva, numa sobreposição que impressiona.
Cães errantes é dividido em duas partes: na primeira, mostrando a rotina dia a dia; na segunda parte, a família está dentro da casa em ruínas, e vemos cenas de aniversário e uma tentativa exasperante de conciliação de Lee com aquela que entendemos ser sua mulher (Chen Shiang-Chyi), diante de uma parede com uma pintura, que significa não apenas a desolação do lugar, como também sua tentativa de ingressar essa família em outro ambiente que não aquele. Esses momentos ecoam claramente Em busca da vida, de Jia Zhangke, quando vemos as ruínas da cidade às margens de uma grande obra hidrelétrica. Em Cães errantes, a grande obra acaba sendo uma faceta da condição humana da família de Lee.

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Em termos de cinema decisivamente experimental, Cães errantes é o significado próprio dessa condição, embora se perca em alguns enquadramentos exaustivamente extensos, como se o significado precisasse ser dado pela ruptura com o espaço-tempo e tudo que significasse a realidade desses personagens estivesse ligada a uma espera bastante incisiva. Não é exatamente fácil fazer este tipo de cinema experimental: se existe uma sensação de que o diretor se excede e improvisa, pode-se ver, por outros filmes com essa mesma tentativa, que é muito difícil envolver o espectador por vários minutos com uma sequência determinada de rotina; é preciso que haja um sentido e razão para haver a duração do que se vê (o exemplo máximo, nesse sentido, é Jeanne Dielman). Tudo no cinema de Tsai remete a uma constante espera, seja pela humanidade, seja por um novo estado de coisas, e Cães errantes, como cinema, recompensa o espectador com uma densidade ligada ao ser humano que parece constantemente à margem, mas que tenta se colocar no centro das situações. Esta tentativa é feita com uma ligação direta com a natureza, e assim como esses personagens enfocados parecem abandonados e errantes, não é sem grande diferença em relação à natureza: eles estão soltos como a natureza é independente. O diálogo acaba se estendendo a um dos principais filmes de Tsai, O buraco, do final dos anos 90, mas particularmente de menos impacto em relação a Cães errantes, pois este consegue atingir um panorama mais amplo e se torna facilmente uma obra comovente dentro de seus objetivos de mostrar o afastamento entre as pessoas, mas ao mesmo tempo a necessidade que elas têm de conduzir o sentimento a um ambiente familiar, em que podem buscar um sinal de luz diante de um enquadramento, de uma escadaria ou de uma pintura.

Jiao you/Stray dogs, Taiwan/França, 2013 Diretor: Tsai Ming-liang Elenco: Lee Kang-sheng, Lee Yi-Chieh, Lee Yi-cheng, Yang Kuei-mei, Lu Yi-ching, Chen Shiang-Chyi, Wu Jin Kai Fotografia: Pen-jung Liao, Qing Xin Lu Produção: Jacques Bidou Duração: 138 min.

Cotação 4 estrelas e meia

 

À procura (2014)

Por André Dick

À procura

Para quem este ano foi alertado de todas as maneiras para filmes terríveis, sempre na linha de um determinado consenso preestabelecido, estamos agora diante do que seria o Transcendence do gênero policial, À procura. O filme estreou no Festival de Cannes sob vaias este ano, o que não comprova exatamente se será problemático, pois outras grandes produções saíram do evento do mesmo modo, como o mais novo de David Cronenberg, enquanto Adeus à linguagem, de Godard, foi ovacionado. E é justo que haja uma avaliação do que o cineasta produziu antes e agora, no caso o diretor egípcio naturalizado no Canadá Atom Egoyan recebeu o Grande Prêmio do Júri em Cannes com a obra, bastante considerada, Um doce amanhã e teve outros destaques nos anos 90, como Exótica e Calendário. Aqui ele se volta a um gênero do qual se espera suspense e agentes à caça de psicopatas. Tudo isso tem um nome: movimento, ação, reviravoltas e de preferência nenhum sentimento exatamente incômodo para o espectador.
Em À procura, a narrativa se concentra na menina Cassandra (Peyton Kennedy quando criança e Alexia Fast quando jovem), que tem nove anos de idade e faz patinação no gelo, seguida de perto por seus pais, Matthew (Ryan Reynolds) e Tina (Mireille Enos). Enquanto a mãe trabalha na área da limpeza de hotéis, o pai é paisagista, no norte do Canadá. Certo dia, ele a deixa no banco de trás da sua caminhonete para comprar tortas numa loja à beira da estrada – quando ele volta, ela já desapareceu, vítima de um grupo que pratica crimes contra a criança, também pela internet. No entanto, essas informações não são passadas ao espectador de maneira linear, como é bastante comum na trajetória de Egoyan: ao mesmo tempo que mostra essa situação, ele já revela o que se passa anos depois dela, apresentando suas consequências. Há também uma equipe de investigadores, com Jeffrey (Scott Speedman) e Nicole (Rosario Dawson) à frente, e o vilão Mika (Kevin Durand).

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Ao contrário de cineastas como David Fincher e no ano passado Dennis Villeneuve, Egoyan nunca teve nenhum apreço pelo suspense de fato. Isso pode ser um erro mortífero em alguns casos, mas é interessante que desde o início À procura dá preferência a personagens que reagem à mesma situação em tempos diferentes – e o quanto, na verdade, eles estão, como mostram as paisagens do filme, fotografadas de maneira minuciosa por Paul Sarossy, congelados, sem nenhum tipo de movimento para saírem do lugar. As cataratas do Niágara que aparecem em algumas sequências como pano de fundo de gravações em vídeo mostram essa passagem do tempo, que os personagens não conseguem sentir. Para quem aprecia o suspense policial nos moldes de Zodíaco e mesmo Os suspeitos, possivelmente desgostará de À procura, que se concentra em cada situação mostrada, não em revelar quem é o vilão – uma vez que o filme já inicia mostrando ele – ou mesmo em reviravoltas (não necessariamente surpreendentes).
Alguns desses personagens têm suas vidas filmadas pelo sequestrador de Cassandra, e esta em determinado momento – não se sabe com certeza, pois Egoyan dificilmente explica as motivações de cada um – parece estar imersa na perturbação do psicopata. Egoyan torna as coisas bastante difíceis e mexe com o psicológico do espectador quando, mesmo ele sabendo que as coisas podem ser mais previsíveis, não consegue também desatar os nós da trama, pois o comportamento dos personagens não é normal em nenhum momento. Diante do sequestro, não se entende por que a menina serve como um ponto de apoio para Mika em vigiá-los por meio de câmeras, a fim de notar o sofrimento marcado por essa passagem de tempo, nem como ela consegue lidar com o universo musical para esquecer a realidade à sua volta ou aceitar que seja envolvida no mesmo crime cometido contra ela – a não ser que se pense numa possível Síndrome de Estocolmo. Os filmes de sequestro, e não por acaso o roteiro e o vilão de À procura dialogam com a peça A flauta mágica, de Mozart, costumam esconder a figura negativa, enquanto aqui ele logo se mostra, embora Durand esteja algumas notas acima do tom; Egoyan apresenta também os policiais agindo de maneira confusa, impondo, no caso de Jeff, por exemplo, uma necessidade de criar redes mirabolantes em sua mente sobre o comportamento do pai de Cassandra.

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Essa confusão do sistema que poderia ajudar a descobrir onde está Cassandra afeta não apenas a busca, como também coloca os pais numa sucessão de conflitos e de afastamento, com cobranças amargas principalmente de Tina em relação a Matthew. Ou seja, mesmo a dupla de investigadores, que no início se mostra um tanto rival e com o tempo inicia laços familiares, parece estar imobilizada pelas próprias obsessões: enquanto Jeffrey tenta capturar os criminosos lançando contra eles uma busca incessante, a investigadora tenta se recuperar de questões traumáticas em sua vida. Neste sentido, o psicopata lida com esses personagens como se estivesse perto deles e filmasse seu dia a dia. Para Mika, o que importa neles é justamente colocá-los sempre presos à situação causada por ele, por isso não importam as mudanças de estação. Todos os personagens, deliberadamente, acabam caindo nesta teia armada, em que cada lembrança pode significar também o que pode ocorrer no futuro, uma vez que as paisagens continuam iguais, assim como o comportamento de cada um. Em À procura, os vídeos não servem para a procura de figuras desaparecidas: eles servem para lidar com uma dor – a dos pais – presente de forma contínua, independente de lugar, e são registrados como um presente. Não existe aqui uma ruptura: o diretor Egoyan coloca os personagens em momentos diferentes ao longo de 8 anos, e mostra como a natureza deles está ligada à mesma espera, lidando com isso de maneira a colocar o espectador com uma espécie de sentimento agonizante. Nessas idas e vindas de tempo, há não raramente algumas lacunas de roteiro, mas a base da proposta de Egoyan continua presente.
Em relação a Um doce amanhã, considerado ainda a grande obra do diretor, embora não tenha o ritmo necessário, À procura tem vários detalhes semelhantes: a necessidade de a família reunir todo sentimento e aproximação, mas sobretudo as paisagens invernais do Canadá. No entanto, parece que em seu novo filme Egoyan consegue fazer um trabalho mais detalhado na movimentação de imagens, assim como acerta na escolha do elenco. Ator com sérios problemas para desenvolver personagens, Ryan Reynolds tem aqui a interpretação de sua carreira: a maneira como ele se mostra ao espectador é cortante; em intensidade próxima, embora não igual, estão Dawson, Speedman e Enos. Esse elenco é uma grande pista para o filme se mostrar não exatamente como um thriller nos moldes de Hollywood, mas como uma análise do comportamento humano diante de uma situação trágica de abuso infantil e de sequestro. As imagens, desde o início de À procura, devem ser lidas, e apenas aparentemente querem evocar Fargo, dos irmãos Coen – há algo mais embaixo dessa superfície, e quando vemos uma das personagens saindo de uma festa onde teve de lidar com seu passado Egoyan nos mostra um parque de diversões à noite, como se ela estivesse ainda na noite imposta por A flauta mágica, de Mozart. E quando o diretor ingressa no clímax de seu filme, já podemos saber de antemão a resolução, no entanto não sabemos o que se esconde por trás disso tudo: À procura indica que a vida continuará praticamente a mesma para todos os envolvidos, mas que não existe a saída da infância quando há um trama desse porte. O que permanece é apenas a falta de resolução de tudo que poderia ser resolvido, e como o quebra-cabeças de À procura anuncia: não há o fio da meada. E, se há, ele pode ser puxado.

The captive, CAN, 2014 Diretor: Atom Egoyan Elenco: Ryan Reynolds, Scott Speedman, Rosario Dawson, Mireille Enos, Kevin Durand, Alexia Fast, Peyton Kennedy, Bruce Greenwood Roteiro: Atom Egoyan, David Fraser Fotografia: Paul Sarossy Trilha Sonora: Mychael Danna Produção: Atom Egoyan, Jennifer Weiss, Simone Urdl, Stephen Traynor Duração: 112 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Ego Film Arts / The Film Farm

Cotação 4 estrelas

Homens, mulheres e filhos (2014)

Por André Dick

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O universo da tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano desde o início deste século, com sua febre de produtos cada vez maior e em maior proporção. Para enfocar essa mudança, o diretor Jason Reitman fez o que David Fincher já havia feito em A rede social no sentido de crítica a este universo, embora nunca deixando de considerá-lo fascinante – e Fincher ainda extraía conflitos verdadeiramente humanos ao redor da criação do Facebook. Em seu filme Homens, mulheres e filhos, Reitman conserva o estilo já demonstrado em outros projetos, como Amor sem escalas e Jovens adultos, no sentido de destacar o elenco, conservando uma simplicidade na narrativa que se confunde às vezes com esquecimento de uma maior densidade no trato de personagens e situações.
Embora tenha sido recebido de outra maneira pelos filmes que realizou (exceto por Refém da paixão), Reitman não havia experimentado o fracasso financeiro e de crítica: Homens, mulheres e filhos não conseguiu arrecadar praticamente nenhum valor nos cinemas dos Estados Unidos e sofreu a mesma perseguição que os personagens desse filme sofrem dos pais com a indicação de que o filme seria uma condenação da internet, do uso de celulares, de tablets, smarthphones, vendo perigo em tudo o que a tecnologia nos apresenta. O mais interessante quando se vê de fato o filme e não se lê suas críticas partindo desse pressuposto de lições de moral disparadas na velocidade de um tweet, é o quanto Homens, mulheres e filhos parece tratar disso, mas na verdade trata do seu pano de fundo.

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Reitman, também autor da adaptação do romance de Chad Kultgen, com Erin Cressida Wilson, esquece um pouco os filmes de histórias necessariamente interligadas, a exemplo de Crash e Short Cuts, para enfocar as ruas de um subúrbio nos Estados Unidos, depois de passar pelo espaço sideral e pela narração de Emma Thompson. Essa mudança do espaço para os subúrbios fornece uma ideia de que esses seres humanos também são vistos a distância, como se olham entre si. Don Truby (Adam Sandler) é casado com Rachel (Rosemarie DeWitt), e utiliza o computador do filho, Chris (Travis Tope), para buscar aventuras que o casamento parece não permitir mais. O filho tem interesse em Hannah (Olivia Crocicchia), uma moça que vive sendo seguida pela mãe, Donna Clint (Judy Greer), que tira fotografias dela para seu website comprometedor. No bairro onde moram, eles têm a liderança de Patricia Beltmeyer (Jennifer Garner), que reúne os pais para demonstrar os males da tecnologia, mas consegue impedir sua filha Brandy (Kaitlyn Dever) de utilizá-la. Brandy usa o Tumblr como fuga e ao mesmo tempo atrai a atenção de Tim Mooney (Ansel Elgort), um jovem decidido a encerrar sua carreira como jogador de futebol do seu colégio e filho de Kent (Dean Norris), ainda sem se recuperar da partida da mulher. Há também uma menina, Allison (Elena Kampouris), filha do Sr. Doss (J.K. Simmons), e que atua como animadora de torcida ao lado de Hannah, com problemas de anorexia. Esses personagens são colocados por Reitman de maneira descompromissada, enquanto ele vai costurando suas relações seja ao vivo, seja por meio de redes sociais ou por celulares e muitos tweets.
Este ano, Jon Favreau lidou com o tema no interessante, mas superficial, Chef, e o jovem que ingressava na banda do interessantíssimo Frank também queria conquistar as redes sociais, mas Reitman tem outro objetivo: por meio de uma fala de Tim sobre Carl Sagan, ele faz a ligação entre as pessoas com dificuldade de se conectarem com a dificuldade de estabelecer qualquer ligação com a própria origem (ideia implicita no discurso de Mason em determinado momento de Boyhood). Reitman analisa, misturando uma trilha sonora criativa, essas relações sem incorrer em alívios cômicos excessivos ou excessos dramáticos, mas simplesmente procurando o enfoque direto dos personagens, no entanto sem reduzi-los.

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O filme apresenta temas seculares (sobre o casamento, a amizade, a melancolia, a descoberta sexual, a pressão de seguir um determinado rumo dependente de aprovação dos pais) e Reitman mostra como os meios tecnológicos podem potencializar algumas sensações de solidão e desamparo, como vemos principalmente nos personagens de Tim e Brandy, pelo paradoxo de tentar ouvir justamente a todos – longe ou perto. E Reitman comprova como palavras digitadas no teclado ecoam mais na reação de outra pessoa do que um simples encontro ao vivo, assim como sensações deixam de ser compartilhadas no âmbito privado para serem compartilhadas no público, do mesmo modo como o destino da mãe de Tim. São ideias, a princípio, bastante óbvias, mas Homens, mulheres e filhos talvez seja o primeiro filme a mostrar isso de maneira mais clara e elucidativa, não coberto por uma superfície de moralidade, e sim com a tentativa de mostrar como se comporta um grupo que vive no subúrbio dos Estados Unidos – que pode ou não dialogar com o restante da humanidade, no entanto certamente têm elementos em comum.
Reitman registra com sensibilidade as relações entre o casal Don e Rachel e o casal de jovens Tim e Brandy. De alguma maneira, ambos acabam agindo de maneira parecida no sentido de esconderem o que na verdade querem, independente da idade. Tudo isso talvez não fosse possível sem o elenco, tendo à frente o jovem Elgort, como Tim, com o talento já mostrado em A culpa é das estrelas, enquanto sua parceira Kaitlyn Dever mostra-se excelente, sobretudo em seus duelos verbais com a mãe, feita por uma Jennifer Garner concentrada. Junto com eles, Olivia Crocicchia e Elena Kampouris conseguem dar uma dimensão maior a papéis que poderiam ser esquecíveis. Esse elenco se junta com Greer, Norris e Sandler, todos excelentes em seus papéis, principalmente Greer – e na parcela de entendimento de certa juventude contemporâneo Reitman é mais interessante aqui do que em Juno, filme que conseguiu fazer grande sucesso em cima de temas tão cotidianos quanto esses.

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Homens, mulheres e filhos

Nesse sentido, Homens, mulheres e filhos ainda tem um dos melhores elencos do ano, e quando vemos lamentos em razão de Marion Cotillard (uma grande atriz) não estar recebendo tanto destaque nas premiações por sua atuação limitada pela direção no épico vastamente falho e com um revisionismo autossatisfeito Era uma vez em Nova York, pergunta-se se o elenco do filme de Reitman deveria ser esquecido. Evitando seguir o conceito de clássico seguro e sem riscos, uma uma das qualidades de Homens, mulheres e filhos, Reitman apresenta de maneira consistente cada um dos núcleos, mesmo que em determinados momentos a montagem às vezes seja atropelada, pois tudo é registrado de forma veloz e o interesse se concentra sobretudo nos momentos em que esses personagens se afastam da tecnologia para se dedicarem diretamente uns aos outros. Parece precipitado classificar um filme que nos lembra das relações também fora desse universo como algo escapista, sob o ponto de vista de predominância da tecnologia, principalmente quando sua qualidade é maior do que está sendo apontada e seus temas são permanentes. Há elementos de afeto e de aproximação em cada personagem e, ao mesmo tempo, uma ideia de que a solidão é apenas aparente quando vista diante de um universo em expansão, podendo ser revertida por uma simples visita à janela de casa. É isso que torna Homens, mulheres e filhos um filme a ser revalorizado mesmo que tenha sido lançado há tão pouco tempo.

Men, women & children, EUA, 2014 Diretor: Jason Reitman Elenco: Kaitlyn Dever, Ansel Elgort, Adam Sandler, Rosemarie DeWitt, Jennifer Garner, Emma Thompson, Judy Greer, Dean Norris, Travis Tope, Olivia Crocicchia, Elena Kampouris  Roteiro: Chad Kultgen, Erin Cressida Wilson, Jason Reitman Fotografia: Eric Steelberg Produção: Helen Estabrook, Jason Reitman Duração: 119 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Paramount Pictures / Right of Way Films

Cotação 5 estrelas

O abutre (2014)

Por André Dick

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Os filmes que avaliam criticamente o jornalismo estiveram sempre em alta desde Todos os homens do presidente e Rede de intrigas. Nos anos 80, tivemos peças excelentes, como Ausência de malícia e Nos bastidores das notícias, nos anos 90 os quase esquecidos O jornal e A testemunha ocular e mais recentemente Boa noite e boa sorte. Este ano, o filme a figurar com este tema é O abutre, que relata a história de Louis Bloom, um jovem que determinado dia, ao ver alguém cobrindo um determinado acidente, decide conseguir uma câmera de maneira ilícita e começar a trabalhar por conta própria. Como cinegrafista amador, mas com vontade de se profissionalizar, ele se torna uma espécie de rival para Joe Loder (Bill Paxton), o único cara da cidade que parece ter o mesmo interesse do que ele em captar imagens fortes, e cria uma amizade com uma produtora da TV, Nina Romina (Rene Russo), bastante interessada em violência, preferencialmente em bairros ricos. Eles se complementam e as cenas em que ficam diante da imagem de Los Angeles à noite diz muito do reflexo que ambos projetam.
Com um discurso pronto para o convencimento alheio, de que tem tudo à mão para ser um grande representante da captação de imagens violentas para o sucesso dos noticiários que se alimentam dela, Louis também acaba se mostrando alguém que se importa com um rapaz, Rick (Riz Ahmed), sem paradeiro definido. É Rick quem Bloom escolhe para que o acompanhe nas jornadas à noite, em busca de notícias e, consequentemente, de imagens, alimentado pelas mesmas informações que os policiais recebem. Ele se torna uma espécie de mensageiro daquilo que especifica o título original: da vida noturna de Los Angeles. Não por acaso, esse personagem usa óculos escuros de dia: ele se alimenta da noite e a praia para ele significa apenas a possibilidade de roubo para trocar por mercadorias que lhe interessem. Ele é Bloom como o personagem de Joyce em Ulisses, que atravessa o dia e a noite para perceber que tudo continuará indefinido.

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Jake Gylenhaal chama a atenção como este papel leva sua maneira de interpretar discreta a um extremo contrário: ele é a figura principal de O abutre, e o filme, consequentemente, se baseia nele e seus freqüentes exageros e nervosismo. Ele mostrava o contrário este ano com O homem duplicado, quando, com suas características de interpretação, Gyllenhaal desenhava um perfil interessante de alguém com dupla personalidade. Mas, se lá o roteiro era um enigma, aqui ele procura a mudança em seu físico (seus olhos nunca lembraram tanto os da irmã, e igualmente boa atriz, Maggie) e a tentativa de introduzir uma maneira de falar diferente. Depois de um início um pouco mal resolvido, com personagens servindo mais como exemplos de corrupção e de ambição do que como seres independentes, O abutre tem uma hora final digna de um verdadeiro thriller urbano – e é quando a atuação por vezes exagerada de Gyllenhaal adquire um ar verdadeiramente dramático e ele toma conta da tela, sobretudo quando se vira para o parceiro de empreitada fazendo promessas fantásticas de como conseguirão, juntos, alavancar a produtora de que se diz dono. Cogita-se mesmo uma indicação ao Oscar para Gyllenhaal – ele já foi indicado ao Globo de Ouro –, o que indica como parte da crítica gosta de atuações em ritmo de overacting, quando o ator já se mostrou muito competente em momentos mais discretos.
Ele já parece começar o filme como Jack Torrance, mas impressiona como Gyllenhaal leva o personagem a uma condição diante da qual o espectador teme a reação e em relação ao qual imagina sempre – e não seria diferente diante do seu comportamento – o pior. É uma atuação sem dúvida, a partir de determinado momento, muito competente e bem resolvida dentro de suas linhas com cargas dramáticas mais acentuadas alternadas com humor invariavelmente pesado e sem grande alívio para quem assiste. As risadas que o personagem de Gyllenhaal provoca são nervosas em sua maior parte, e às vezes ele se sente como um coelho que não consegue sair da sua toca de dia porque pretende rever as cenas que colheu para o noticiário e se aproveitar mais uma vez da tragédia alheia. Trata-se de um homem que não tem a menor ideia do quanto seus movimentos envolvem a ética ou o respeito aos acontecimentos fatídicos.

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Gyllenhaal cresce com as ótimas atuações tanto de Russo quanto de Riz Ahmde. Mas, de algum modo, os personagens que eles interpretam, assim como o de Bill Paxton, são apenas notas de rodapé para o desempenho de Gyllenhaal, e isso termina por, paradoxalmente, reduzir o filme a um retrato direto e não tão complexo, pois não são fornecidas subtramas capazes de ampliar o seu escopo. Todos os personagens são conduzidos por Bloom, assim como este é conduzido pela noite e pela iluminação que sai da sua câmera, sempre em busca de novos fatos, inclusive para configurá-los à sua maneira.
O que incomoda em O abutre é justamente achar que está definindo algo quando, com o mínimo de crítica, todos sabem o que cerca o jornalismo sensacionalista. Se alguns jornalistas estão pouco preocupados com os humanos que retratam, tampouco Gilroy está preocupado com seu espectador e coloca as ideias de maneira muito clara, sem deixar que ele pense sobre o que está vendo; apenas se certifique e assine embaixo, sem contestação. Com uma narrativa até determinado ponto plana e sem grandes reviravoltas, O abutre às vezes é simplista na maneira como coloca suas ideias, assim como não apresenta nada de realmente original em seu tema, embora o diretor Dan Gilroy às vezes se mostre como alguém que oferece realmente algum olhar novo, embora nunca caia na simples manipulação de, por exemplo, um 15 minutos. Trata-se da estreia na direção do roteirista de O legado Bourne, Gigantes de aço e The fall, e O abutre vem sendo recebido como uma das grandes obras do ano (foi escolhido como um dos dez melhores filmes do ano pelo American Film Institute), indicado a vários prêmios e talvez leve satisfação mais ao espectador que não espera tanto dele. E junto com as sequências de ação, que lembram não apenas o recente Drive, de Refn, como também sua inspiração original, The driver, de Walter Hill, Gilroy consegue potencializar ainda mais a fotografia de Robert Elswit, que joga com as luzes com a mesma competência que já mostrou inúmeras vezes ao longo de sua carreira exitosa. Esse é o maior mérito de O abutre, junto com a atuação de Gyllenhaal: ele captura de maneira perfeita a noite de Los Angeles, assim como evita mostrar esses personagens à luz do dia porque justamente seu habitat é uma noite contínua, sem intervalos para o alívio.

Nightcrawler, EUA, 2014 Diretor: Dan Gilroy Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Riz Ahmed, Bill Paxton, Kevin Rahm, Ann Cusack Roteiro: Dan Gilroy Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Lancaster, Jake Gyllenhaal, Jennifer Fox, Michel Litvak, Tony Gilroy Duração: 117 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Bold Films

3 estrelas e meia

 

Lucy (2014)

Por André Dick

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É cada vez mais difícil encontrar filmes que conseguem mesclar uma pretensa realidade com toques de ficção científica e extraordinário. Neste ano, tivemos Sob a pele, com Scarlett Johansson, ficção bastante elogiada e com cenários estranhos, ligados ao interior da Escócia, permeados por uma sensação solitária, de afastamento da Terra – e o visual nunca chegava a combinar diretamente com a narrativa. Tendo no elenco a mesma Scarlett, Luc Besson fez este Lucy. Bastante conhecido desde os anos 80, quando fez o cult movie Subway, com Cristophe Lambert (um dos produtores de Lucy) e Isabelle Adjani, Besson se consagrou principalmente no início dos anos 90, quando realizou O profissional, um belo thriller com Jean Reno, Gary Oldman (no papel de um vilão assustador) e a revelação Natalie Portman. Mas alguns anos ele já realizado um filme com nível parecido, Nikita, sobre uma agente assassina e com passado obscuro. Nesses filmes, Besson mudava totalmente seu estilo mais contemplativo de seus experimentos iniciais, o referido Subway e Imensidão azul. Ainda nesta década, em 1997, ele realizou a ficção científica mais cara já feita na Europa, O quinto elemento, protagonizado por Bruce Willis e Milla Jovovich, trazendo uma direção de arte bastante interessante. Ainda com Milla Jovovich, ele compôs o grandioso Joana D’Arc, mas algo em seu cinema havia se perdido, o que se constatou na primeira década deste século.
O ritmo angustiante de O profissional pode ser percebido na primeira meia hora de Lucy, quando a personagem-título é levada por um namorado recente, Richard (Pilou Asbæk), a entregar uma pasta num hotel direcionada a um determinado Sr. Jang (Choi Min-sik). Levando-se em conta que ela está em Taipé, Taiwan para estudar e seu novo namorado é um cowboy com certo ar psicodélico, isso não é um bom sinal. Em poucos minutos, o plano não tem o melhor resultado, e Lucy é conduzida a um mundo desconhecido, do qual não conseguirá libertar tão cedo, mesmo porque precisa carregar dentro de si alguns pacotes com uma fórmula experimental capaz de alterar não apenas o comportamento, como a força e a inteligência. Nessa primeira meia hora, bastante audaciosa no sentido do ritmo e da montagem, a presença de Lucy é alternada com um discurso do cientista e professor Samuel Norman (Morgan Freeman, depois de Transcendence sempre envolvido com inteligências fora do habitual), tratando da inteligência humana, além de se criar uma analogia entre a situação dela e a de animais na natureza.

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Essas sequências têm uma beleza visual própria ao melhor cinema de Besson e parecem reservar algo grande. O que vem daí por diante, no entanto, muito possivelmente não compreenda as melhores características do cinema de Besson – aquelas dos anos 80 e 90 –, principalmente porque Scarlett Johansson, a princípio numa bela atuação, mostrando a angústia de se encontrar numa situação sem saída aparente, não consegue tornar o roteiro verossímil. Que Lucy tenha comparações com A árvore da vida e 2001 parece muito mais por brincadeira do que realmente ter algo para dizer de substancial. Avaliar que há um elemento divertido nessas comparações diz muito mais do roteiro problemático do que sua qualidade, tanto que Lucy, um sucesso de bilheteria incomum (mas não podemos esquecer que este ano Godzilla também o foi), foi recebido com certo ânimo não emprestado a filmes significativamente melhores. Há quem diga que se trata de uma “porcaria muito divertida”, seja lá o que isto quer dizer.
Em que pese a grandiosidade pretendida por Lucy, o filme vai se revelando, no seu encadeamento, numa enigmática decepção, pelos envolvidos e pelo inesperado caráter de obra realizada com certo descompromisso no mau sentido, uma espécie de filme B sem autoconsciência (e o diretor avaliar, numa entrevista, que mescla O profissional, A origem e 2001 não ajuda em sua simplicidade nem sugere que ele tenha consciência sobre o que filmou). Às vezes, a dúvida seria se a contagem colocada ao longo da história não deveria ser regressiva, simbolizando talvez o esgotamento da paciência do espectador diante da sucessão de acontecimentos imprevisíveis. Ou seja, Lucy reserva uma camada de leveza em sua temática – quando a personagem, por exemplo, precisa enfrentar seus poderes –, mas logo isso é esquecido no sentido de se buscar algo como o Neo de Matrix (e Besson utiliza a câmera tecnológica usada por David Fincher principalmente em Clube da lutaO quarto do pânico). Enquanto vemos a transformação de Lucy, vemos o filme se transformar também numa grande bagunça.

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Besson possui características que apontam como um cineasta de linha de montagem, mas Nikita e O profissional eram filmes muito bem feitos e pensados, e se O quinto elemento não justificava sua ambição de ser uma ficção científica de ponta, pelo menos conduzia sua narrativa a momentos de diversão interessantes. Sua predileção por figuras femininas à frente de seu cinema sempre foi motivo para descobrirmos personalidades interessantes e complexas. No entanto, em Lucy, Besson não consegue, nesse meio tempo, costurar os personagens, todos desenvolvidos num plano superficial e também por causa da metragem reduzida. Veja-se, por exemplo, o policial Amr Waked (Pierre Del Rio), que surge em determinado momento e não estabelece nenhuma ligação entre o que vem antes e depois, a não ser para lembrar que Besson nasceu em Paris (sendo que é visto com muitas reservas na França por ter feito parte de sua carreira dentro da indústria de cinema dos Estados Unidos) e a recepção desconfiada do cientista à existência de Lucy, que nem Freeman, com sua habitual competência, consegue justificar o suficiente. Johansson mostra um potencial subaproveitado, como em Sob a pele, não conseguindo ainda alcançar com plenitude o desempenho que teve com a voz em Ela. A impressão é que Besson quis fazer uma narrativa extremamente sintética, aliviada por cenas de lutas e perseguições de carros, mas que não combina com sua tentativa de discussão científica e mesmo filosófica, relacionada a conceitos, que exigiriam maior atenção. Desse modo, mesmo trazendo belas imagens algumas vezes, o filme não consegue transpirar confiança no que está tentando elaborar. Diante de críticas a Transcendence, por exemplo, este ano, Lucy se descobre este sim como aquilo que, segundo certo consenso, Transcendence seria: uma história capaz de atrair o espectador, mas não tem o impacto necessário para fazê-lo confiar no que está vendo.

Lucy, EUA/FRA, 2014 Diretor: Luc Besson Elenco: Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Choi Min-sik, Amr Waked, Julian Rhind-Tutt, Pilou Asbæk Roteiro: Luc Besson Fotografia: Thierry Arbogast Trilha Sonora: Eric Serra Produção: Christophe Lambert, Luc Besson, Virginie Silla Duração: 89 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Universal Pictures

1 estrela e  meia

 

A culpa é das estrelas (2014)

Por André Dick

A culpa é das estrelas

Adaptado de um dos livros que fizeram mais sucesso neste início de década, A culpa é das estrelas traz no elenco o mesmo casal de outro sucesso juvenil, Divergente: Shailene Woodley e Ansel Elgort. Filmes enfocando doenças costumam trazer à tona uma determinada manipulação emocional, pelo menos desde que Arthur Hiller reuniu Ryan O’Neal e Ali MacGraw em Love Story. Desde o marketing feito, tende-se a eliminar qualquer tipo de expectativa em relação a filmes do gênero, principalmente quando, muito possível, ele atrairá doses de emoção desmedida, o que costuma ser visto com reservas e mesmo uma determinada pré-concepção de que isto extrai a qualidade do relato que a envolve. Assim como para cada dez filmes de adolescentes é muito raro se encontrar uma peça como As vantagens de ser invisível. A culpa é das estrelas consegue antecipar várias dessas características já no marketing em torno. Junto com essas características, tudo o que pode ser visto como sério já parece ser barrado por um tratamento mais pop, em razão da trilha sonora.
Woodley interpreta Hazel Grace Lancaster, que tem câncer, cuja progressão é atenuada por um remédio ainda em experimento, e carrega consigo um aparelho de oxigênio, enquanto Elgort faz Gus, que teve osteossarcoma e precisou amputar uma das pernas, precisando desistir da carreira de jogador de basquete. Eles se conhecem numa reunião de jovens com câncer, sob a liderança de Patrick (Mike Birbiglia), que toca violão e suscita uma tentativa de integrar diferentes personalidades. Em casa, Hazel tem um bom relacionamento com a mãe, Frannie (Laura Dern), e o pai, Michael (Sam Trammell). Diante de sua situação, no entanto, ela não consegue seguir o otimismo de seus colegas, no que Gus vem a ser o oposto – e A culpa é das estrelas se baseia, no início, neste conflito de personalidades. Mas há um livro no caminho de ambos: “Uma aflição imperial”, escrito por Peter van Houten, um escritor que preferiu se exilar em Amsterdã. Hazel é fã de sua obra e a indica para Gus. Depois de uma troca de e-mails com o escritor, é dada a oportunidade de visita a ele. A questão é se ela poderia viajar.

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A adaptação do livro de John Green foi feita por Scott Neustadter e Michael H. Weber, dois especialistas em temáticas jovens. Eles fizeram não apenas o bastante conhecido (500) dias com ela, como também o recente e por vezes esquecido O maravilhoso agora, também com Shailene (e Miles Teller, que está em Whiplash). Ambos são especialistas em darem uma sinceridade e uma humanidade a seus personagens, mesmo que às vezes se aponte clichês na estrutura de suas histórias. Não apenas O maravilhoso agora conseguia lidar com reais condições neste campo, como A culpa é das estrelas registra a procura por uma linguagem ao mesmo tempo sensível e reflexiva, sem abdicar da faceta pop. Mas a principal referência para o diretor Josh Boone parece ter sido um filme que há dois anos chegou a ser bastante cogitado para o Oscar, e teve nas atuações de John Hawkins e Helen Hunt trunfos excepcionais: As sessões. Assim como este filme, A culpa é das estrelas consegue conciliar o drama mais trágico – o enfrentamento de uma doença grave – com um lado mais ensolarado das coisas que nos cercam e que, como Gus diz, devem ser vistas e valorizadas. Pode-se aceitar que A culpa é das estrelas circule ao redor de um tema potencialmente emocional e que convoca o espectador a lidar com sentimentos de conquista, de perda e da valorização das coisas que realmente importam, mas isso não costuma ser lembrado pela maioria das produções e tampouco recebe o tratamento cuidadoso que o diretor Boone oferece. Ele caminha numa linha muito difícil: o tema, se visto sob o enfoque mais despojado, pode se tornar tão manipulador quanto se visto sob o lado aparentemente mais sério, como Love Story. Nesse sentido, o filme também possui alguns tons colhidos em 50%, em que Joseph Gordon Lewitt fazia um jovem com câncer que se envolve com a psicóloga que busca tratá-lo diante das dificuldades. No entanto, assim como 50% tinha um elenco excelente, A culpa é das estrelas prefere lidar com as atuações de Shailene e Elgort num enfoque em que eles parecem crescer juntos.

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Poucas vezes é vista uma interação como a de ambos na tela, não apenas pelo registro suave de Woodley quando precisa conversar com ele à noite como pela reunião entre humor (numa cena em que o personagem homenageia Richard Gere em Uma linda mulher, numa limusine) e drama. Com ambos, os coadjuvantes nunca são menos do que notáveis: Laura Dern mostra como, desde Império dos sonhos, é uma atriz indispensável mesmo para papéis aparentemente fáceis e Nat Woolf mostra novamente o talento já revelado no impactante Palo Alto, de Gia Coppola, como um amigo do casal, Isaac, que enfrenta a possibilidade de ficar cego – e, quando precisa enfrentar uma desilusão amorosa, pede a Gus para quebrar objetos em seu porão. Em alguns momentos, diante do tema, o filme dá a impressão de ficar leve demais, no entanto Boone consegue encontrar um equilíbrio interessante.
A culpa é das estrelas não tenta apenas tornar este drama numa espécie de revitalização de pequenas coisas, como consegue, por meio do personagem do escritor, Van Houten (um excepcional Willem Dafoe), colocar aquilo que Vida de adulto já revelava: uma brincadeira com o universo literário. Hazel, como a personagem de Emma Roberts naquele filme, visualiza o final de um romance não como seu final, mas como a possibilidade de uma continuidade, mas Van Houten não é a pessoa mais adequada para tratar disso. A passagem por Amsterdã simboliza a tour cultural de A culpa é da estrelas, numa visita à casa de Anne Frank (que proporciona um diálogo com a juventude da qual não é possível escapar ilesa de Hazel) e é quando a possibilidade de permanecer por meio da cultura se torna um diálogo com o que se consideram coisas efêmeras e a tentativa de negar o comportamento alheio, com a ajuda de Lidewij Vligenthart (Lotte Verbeek). São delicados os diálogos sobre a importância de cada um, a necessidade de deixar uma memória e estaria sendo cínico se dissesse que elas vêm embaladas meramente como pílulas de sabedoria, com os personagens recitando cada palavra como se pensassem apenas levar o espectador a ter um determinado sentimento. Isso não faria justiça ao trabalho de Woodley e Elgort. O diretor Josh Boone atinge um ponto delicado de afirmação desses personagens, que liberam a dor a ser sentida. Se essa dor vem com certa manipulação, a qualidade narrativa e o elenco de A culpa é das estrelas não deixam esquecer que este é um filme de verdade.

The fault in our stars, EUA, 2014 Diretor: Josh Boone Elenco: Shailene Woodley, Ansel Elgort, Laura Dern, Nat Wolff, Sam Trammell, Willem Dafoe, Lotte Verbeek, Mike Birbiglia Roteiro: Michael H. Weber, Scott Neustadter Fotografia: Ben Richardson Produção: Marty Bowen, Wyck Godfrey Duração: 125 min. Estúdio: Temple Hill Entertainment

Cotação 4 estrelas

 

O hobbit – A batalha dos cinco exércitos (2014)

Por André Dick

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Depois de receber os Oscars de melhor filme e direção pela terceira parte de O senhor dos anéis, Peter Jackson iniciou a sua fase de adaptação a um cinema sem tanta mitologia, mas, mesmo assim, ele refilmou King Kong e tentou fazer uma história sobre o além em Um olhar do paraíso. Sem ter o êxito esperado, ele voltou ao universo de Tolkien, desta vez para a trilogia de O hobbit. No entanto, além de ficar razoavelmente circunscrito a este universo, ele passou a não ser visto mais como um cineasta de especial criatividade, justamente pela opção em transformar um livro de Tolkien em três filmes, parecendo mais interessado no lucro proporcional da franquia. O primeiro O hobbit (Uma jornada inesperada) foi recebido com desconfiança pela crítica, embora, particularmente, seja um filme de muita qualidade, enquanto A desolação de Smaug, a segunda etapa da peregrinação de Bilbo e os anões foi melhor aceito, mas tinha dificuldade de criar o movimento necessário porque justamente Jackson o projetou depois de conceber O hobbit em apenas duas partes.
Essa decisão praticamente afastou Jackson de uma pretensa admiração pela obra de J.R.R. Tolkien, na visão de muitos: ele parecia mais interessado em fazer render a franquia e proporcionar uma tentativa de se equivaler com O senhor dos anéis. Finalmente chegamos à parte final da série, O hobbit – A batalha dos cinco exércitos, e já podemos ter uma noção bastante clara no sentido comparativo com a trilogia anterior.  Como se avalia desde o início, O hobbit não foi concebido, ainda em livro, para ser um épico na proporção de O senhor dos anéis, nem tinha, apesar dos personagens interessantes, o número proporcional de situações e reviravoltas. Nesse sentido, Jackson, ao incluir novamente Legolas e mais uma elfa na linha de frente, desde A desolação de Smaug, fazia o possível para lançar seu olhar pessoal para a obra de Tolkien, a meu ver sem tanta efetividade. Mas a questão é que o segundo filme tinha um encerramento sem ligação com seus longos 160 minutos e personagens ficavam soltos, sem nenhum direcionamento específico, inclusive Bilbo, que praticamente não aparecia, além de alguns personagens serem acrescentados sem a devida força.

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A terceira parte de O hobbit começa justamente onde o segundo terminou (e aqui há possíveis spoilers para quem também não viu A desolação de Smaug), com o ataque do dragão à Cidade do Lago. Jackson coloca uma dinâmica espetacular nessa sequência, com uma sucessão de efeitos especiais notáveis e um trabalho sonoro minucioso, além da agilidade da fotografia de Andrew Lesnie, o referencial desde a primeira trilogia. Este ataque de Smaug é certamente o clímax do filme passado transposto para o início deste, e o espectador logo teme que Jackson, em seguida, tome mais alguns minutos de exposição para o que acontecerá, sem o devido ritmo. Aos poucos, ele estabelece a narrativa, mas sem lacunas e demoras, ao mostrar Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) dentro da Montanha enfrentando o que os seus companheiros de viagem chamam de “doença do dragão”. Considerando-se um rei, Thorin esquece suas promessas aos habitantes da Cidade do Lago para tentar abraçar o ouro de sua morada. Bilbo tenta contornar a situação com a ajuda sobretudo a Balin (Ken Scott), mas nada impedirá uma guerra por causa justamente de vários povos saberem do que aconteceu e irem atrás do ouro – daí os cinco exércitos do título.
A saída de Jackson para sua saga poderia render certamente batalhas e destruições em massa, com o mesmo enfoque de outros filmes de fantasia. Mas, de forma inusitada, pois Jackson se mostrava excessivamente confiante com a segunda parte da série – justamente a que foi filmada em grande parte depois de ele terminar a saga, ou seja, ele a criou para formar uma trilogia –, O hobbit derradeiro é um filme que consegue lembrar não apenas os melhores momentos de O senhor dos anéis, como apontar uma maneira original de ver esses personagens que havia, a meu ver, em Uma jornada inesperada. Ou seja, enquanto no segundo Jackson parecia fazer cenas de ação simplesmente para estender poucos argumentos do roteiro, aqui ele consegue, como em O senhor dos anéis, justificar a ação por meio da decisão de seus personagens. Há filmes de ação, que surgem principalmente no verão, que não trazem nenhuma dosagem dramática; O hobbit – A batalha dos cinco exércitos faz sua ação a partir do drama dos personagens, um elemento que Jackson resgata sobretudo da batalha do Abismo de Helm em As duas torres.

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Para quem esperava encontrar novamente ligações entre os personagens na Terra-média, finalmente temos uma presença bastante interessante de Thorin Escudo de Carvalho, numa atuação definitiva de Richard Armitage, fazendo algo difícil: colocar o espectador como alguém que tem aversão a seu comportamento, mas também atrair a empatia. Bilbo, praticamente esquecido no segundo filme, servindo como coadjuvante de Bard, o arqueiro, consegue novamente se sobressair, como no primeiro, sobretudo em alguns lances de humor e comoção do ótimo Martin Freeman. Não apenas esses personagens surpreendem, como também o próprio arqueiro consegue uma justificativa para sua presença – e Luke Evans finalmente tem reações emocionais quase ausentes no primeiro filme –, assim como Legolas (Orlando Bloom), Tauriel (Evangeline Lilly) e Kili (Aidan Turner) arquitetam uma trama paralela com interesse o suficiente para o espectador, inclusive em sua relação com Thandruil (Lee Pace), embora não sejam expansivos como os de O senhor dos anéis. Contudo, são personagens, pelo menos neste filme, com motivações humanas e uma procura inata pela nobreza que independe de guerra ou linhagem, mesmo que haja um paralelismo: em determinado momento a Arkenstone desejada por Thorin pode se passar por sementes: aquela simboliza o domínio sobre o reino; as sementes simbolizam o domínio da natureza sobre os poderes e os reinos que passam. Kili pode dar uma peça pessoal a Tauriel, e ela contém sempre uma aproximação, tendo como figura contrária a de Alfrid (Ryan Gage), que acompanha os habitantes da Cidade do Lago com outro objetivo.
Esse elenco consegue criar um equilíbrio com a parte técnica do filme. Um dos maiores incômodos da segunda parte de O hobbit era sua parte técnica com alguns problemas. Em razão de muitas cenas terem sido filmadas depois da rodagem oficial ser concluída, havia um excesso de CGI nos cenários, sobretudo na passagem pela cidade dos elfos. Aqui, se continua havendo CGI, deve-se reconhecer a riqueza de detalhes, acompanhada por figurinos que dialogam com as cores captadas por Lesnie, e Jackson coloca finalmente uma coleção de imagens fantásticas capazes de lembrar não apenas O senhor dos anéis, mas fábulas fantasmagóricas e assustadoras. Os interiores da Montanha Solitária ganham detalhes imprevistos, assim como Jackson consegue obter um olhar de 360 graus sobre o que cerca a Montanha e as batalhas em seu centro, tendo Azog (Manu Bennett) como o grande inimigo, à frente de milhares de orcs. Trata-se de um final ao mesmo tempo com tom dramático, mostrando várias ações paralelas, e teatral, como se tudo precisasse ser decidido num único lugar, em que todos os personagens se reúnem para a alegria ou a tragédia.

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Parte desta decisão se deve ao fato de ter se dividido as duas partes em três, mas o fato é que O hobbit – A batalha dos cinco exércitos funciona de maneira emocional, dramática e com um palco aberto a cenas fantásticas e de resolução que não havia em A desolação de Smaug. Um duelo do qual faz parte Gandalf (Ian McKellen, compensando a dificuldade com que fez o filme, por motivos de doença, com sua empatia) em meio a figuras fantasmagóricas apenas anuncia esse eixo em que os personagens se reúnem pela sua vida ou morte (e por um instante mesmo Galadriel, numa cena magnífica, parece lembrar a cena derradeira do Padre Karras de O exorcista, mas potencializada com mais efeitos especiais). Nesse sentido, a presença não apenas de Bilbo, como também do arqueiro, mostram sempre a necessidade de se buscar um sentido para a casa. O arqueiro, à frente daqueles que sobraram da Cidade do Lago, precisa dar um novo lar a seu povo, enquanto Thorin não entende por que Bilbo coleciona motivos para levar ao condado.
Há uma cena magnética em que Thorin, dentro da Montanha, enfrenta seu próprio eu e imagina um piso banhado de ouro – numa atuação excepcional de Armitage. Esta sequência estabelece uma relação direta com uma situação em que Thorin precisa lutar sobre a água, simbolizando sua origem, e não mais sobre o ouro. Também chama a atenção uma fala de Bilbo sobre as águias que remete ao final de Uma jornada inesperada, quando ele e Thorin conversam no alto de uma montanha sobre ter um lar. Essa motivação pessoal vai ao encontro daquela de Legolas, sobre voltar ou não para seu povo. Existiam esses elementos em O senhor dos anéis, e aqui eles são expostos de maneira sensível, em meio a batalhas ruidosas e fantásticas, assim como uma bela ligação das paisagens mais ensolaradas de Uma jornada inesperada com o cinza e a ambientação mais fria de A batalha dos cinco exércitos, como se as estações da jornada se completassem.
Neste sentido, este O hobbit consegue estabelecer pontes diretas com os filmes anteriores sem levar o espectador a se perguntar por que Jackson está estendendo determinada cena. E, em meio a sequências com um ritmo contínuo (e pela primeira vez a metragem não é excessiva, levando o espectador a se interessar pelo material que foi excluído), Jackson forma uma unidade interessante com O senhor dos anéis. Se a partir do segundo filme poderia haver uma desconfiança em relação ao cineasta, ele finaliza a trilogia com um êxito que certamente traria percalços a quem não dirigiu O senhor dos anéis. O hobbit – A batalha dos cinco exércitos não é apenas um grande filme de fantasia ou de ação, ou uma adaptação à altura do universo imaginado por Tolkien. Do mesmo modo, não é um filme apenas para os fãs dessa obra, como muitas vezes é recebido, e sim para quem admira um cinema no qual é possível rever e guardar parte da própria imaginação, que cresce como as sementes que Bilbo carrega.

The Hobbit – The battle of the five armies, EUA, 2014 Diretor: Peter Jackson Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Aidan Turner, Luke Evans, Lee Pace, Stephen Fry, Ken Stott, Benedict Cumberbatch, Cate Blanchett, Manu Bennett, Hugo Weaving, Christopher Lee, Billy Connolly, Ian Holm  Roteiro: Fran Walsh, Guillermo del Toro, Peter Jackson, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Carolynne Cunningham, Fran Walsh, Peter Jackson Duração: 144 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: 3Foot7 / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / New Line Cinema / WingNut Films

Cotação 5 estrelas