The Square – A arte da discórdia (2017)

Por André Dick

O premiado pela Palma de Ouro em Cannes 2017, The Square – A arte da discórdia, traz à cena a discussão artística, em torno do curador do museu X-Royal, em Estocolmo, Christian (Claes Bang), que pretende tornar o lugar numa referência de vanguarda. O diretor Ruben Östlund, como em Força maior, utiliza o personagem central como uma referência para explorar temas relacionados à estrutura da sociedade. Inicialmente, Christian tem sua carteira e smartphone furtados na rua, e ele consegue rastrear as peças roubadas, chegando a um bloco de apartamentos na periferia. Junto com o funcionário Michael (Christopher Læssø), ele deixa uma carta ameaçadora a todos os moradores para ver se as obtém de volta.

Isso é apenas uma justificativa para Östlund brincar com um homem que parece inserido na vida artística, no quadrado conceitual que guia a narrativa, e se dilui em discursos desconexos de sua realidade. Neste quadrado, “todos compartilhamos direitos e obrigações iguais”. Ora, sabemos quem Östlund está satirizando. A mania de enquadrar indivíduos é própria de um sistema do qual eles não podem mais sair, e o diretor empreende essa ideia literalmente, colocando o quadrado como um dispositivo para determinadas sequências: desde o momento em que se coloca uma marcação em neon diante do museu ou quando Christian chega em casa e há um quadro na parede com o mesmo formato daquele que é usado como símbolo artístico.
É como se o quadrado fosse o lugar em que esses personagens na verdade habitam, mas quando escapam deles a realidade prepondera. Veja-se a sequência em que Christian pula uma janela, como se ela fosse um quadrado, para chegar a detritos de lixo. Para Östlund, o museu tenta esconder essa realidade, utilizando o pó (da existência, como numa de suas exposições) ou as cadeiras empilhadas como símbolos de que a realidade existe ali apenas de forma indireta. Ou seja, quem entende essa farsa literalmente talvez não chegue ao que o diretor quer mostrar: ele revela, por meio de um homem longe de problemas reais, apesar de servir a pessoas necessitadas com lanches ou gorjetas, uma certa casta que vive encastelada com discursos que querem exatamente dominar a sociedade que desconhecem. Não se duvide que, por meio do museu, Christian acredita estar na vanguarda da sociedade. O seu discurso evidencia isso.

No meio do caminho ele se envolve com uma jornalista, Anne (Elizabeth Moss), que parece viver no mesmo apartamento de Sr. Oscar de Holy Motors, o que significa o salto do personagem para o universo que gostaria de entender e não entende, mesmo no relacionamento com as duas filhas pequenas: o feminino. Logo na sequência inicial, quando ambos se conhecem e ela utiliza uma citação dele, sem nexo algum, sobre a arte, ambos os personagens se definem: ela surge como que para descortinar esse homem por trás da figura do museu. Numa sequência significativa, ele fica com receio de que ela possa querer, num subterfúgio, engravidar dele, e a atitude dela é equivaler o comportamento a uma das tantas peças que habitam o museu.
No entanto, nisso, em meio aos resíduos de obras do museu e uma performance primata de Oleg (Terry Notary, o mesmo que fez os movimentos do gorila gigante de Kong – A Ilha da Caveira), The Square mostra que tudo que foge à segurança do quadrado pode também incluir peças descartáveis. O filme busca uma certa crítica corrosiva a peças que se consideram provocativas, mas, no fim das contas, se inserem apenas no mesmo establishment que contestam. Nisso, inclui-se o discurso de Christian, em determinado momento, ao telefone. Não se trata de uma crítica previsível a curadores de museu; trata-se de um olhar sobre a sociedade a partir da estrutura de um museu. Uma das cenas mais divertidas é aquela em que o público aguarda ansiosamente que o discurso de Christian termine para que possam jantar (e é em outro jantar que acontece a cena-chave, já referida, da obra de Östlund, na qual o artista Julian (Dominic West) é desafiado).

The Square não é sem falhas: há alguns problemas de transição e nota-se que há cenas deixadas na sala de edição para que isso aconteça, além de a personagem da jornalista não ser totalmente aproveitado, levando em conta que Moss está excelente. Porém, sua temática consegue se sobressair a esses problemas. Não por acaso, Östlund insere uma criança para ser a peça-chave desse caos que o personagem pretende causar, que não afete nunca, claro, a sua vida. O comportamento do curador é desproporcional diante da reação de uma criança, mas são reflexos um do outro. Numa sequência impactante, ao final, Christian vê suas filhas participarem de uma apresentação de colégio dentro de um enorme quadrado. Quando saem de lá, ele volta ao mesmo bloco de apartamentos da periferia, que remete bastante a Caché, de Michael Haneke, outro vencedor da Palma de Ouro, em 2005. Ou seja, da segurança ilusória proposta pelo quadrado, em que todos seriam iguais, ele se estende para a realidade. O olhar da filha de Christian, por baixo do boné, é o dele próprio, no círculo de sempre, do discurso que visa à transformação de tudo e todos e termina, conscientemente, no mesmo lugar.

The Square, SUE/ALE/FRA, 2017 Diretor: Ruben Östlund Elenco: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary, Dominic West, Christopher Læssø Roteiro: Ruben Östlund Fotografia: Fredrik Wenzel Produção: Erik Hemmendorff, Philippe Bober Duração: 151 min. Estúdio: Plattform Produktion, Coproduction Office Distribuidora: TriArt Film

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A melhor escolha (2017)

Por André Dick

Depois de Boyhood e Jovens, loucos e mais rebeldes!!, o imprevisível Richard Linklater volta seu olhar para a Guerra, seja a do passado, seja a do presente, em A melhor escolha. Para isso, adapta um romance de Darryl Ponicsan, com a ajuda do próprio autor, relatando a história de Larry “Doc” Shepherd (Steve Carell), que primeiro vai ao encontro de um antigo amigo com quem serviu no Vietnã, Sal Nealon (Bryan Cranston), atualmente dono de um bar. Ambos viajam para encontrar outro companheiro, Richard Mueller (Laurence Fishburne), que se transformou num pastor. Num jantar na casa de Mueller, onde conhece a esposa dele, Ruth (Deanna Reed-Foster), Doc revela que precisará da ajuda emocional dos dois para que possa enterrar seu filho, que acabou de perder na Guerra do Iraque. Para isso, eles precisam ir para uma base aérea localizada em Dover. Doc pretende se insurgir contra a ideia de uma homenagem militar nos moldes padronizados antecipadamente.

Linklater utiliza um argumento bastante simples para mostrar a complexidade do sistema norte-americano, voltado a uma tradição de guerra, e seu filme é quase um complemento de A longa caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee, além de travar um diálogo com A última missão, de Hal Ashby, dos anos 70, adaptado de um livro também de Ponicsan e que serve como prelúdio desta história. Em 2017, o roteirista de Sniper americano, Jason Haal, também dirigiu o interessante Thank you for your service, ainda inédito no Brasil, com Miles Teller, sobre três jovens que regressam da Guerra do Iraque com traumas em suas vidas, e também esta obra pode dialogar com o de Linklater.
A melhor escolha cresce quando mostra Charlie Washington (J. Quinton Johnson), o amigo do filho de Doc, que está presente na chegada do corpo e tem revelações a fazer sobre o que teria acontecido, contra a vontade do tenente coronel Willits (o ótimo Yul Vazquez), mas ainda mais mostra seu êxito com a química entre Carell (ator múltiplo, capaz de na mesma temporada entregar essa atuação e a de A guerra dos sexos), Fishburne e Cranston, os três extraordinários, que valeriam o filme por si só. Interessante como Linklater mostra os militares norte-americanos, longe do bom humor com que normalmente revela em suas peças sobre a juventude. Também não há nenhum sinal de suas experimentações com o universo da animação ou alguma nostalgia romântica que vemos em sua trilogia com Hawke e Delpy. E, embora Boyhood tenha inclinações políticas bastante claras, elas eram sobrepujadas pela narrativa existencial. A interação entre esses personagens lembra os melhores momentos de qualquer obra de Linklater, seja em seu descompromisso, seja em seu rigor com um certo sentimento perdido no tempo.

O filme poderia muito bem ficar numa certa teatralidade, com um número considerável de diálogos, mas o elenco exerce um atrativo muito grande e consegue tornar os temas mais evocativos do que se imaginava. Os companheiros são diferentes e complementares: Doc é discreto, Sal é um falastrão e Richard não tem praticamente nenhuma característica de quando os conheceu. O passado aqui se repete em ações e sob um céu soturno, que abre, no entanto, espaço para uma amizade que foge aos limites de tempo. Há um aproveitamento de cenários internos como se vê em poucos filmes, assim como uma espécie de transição entre lugares diferentes que remete também ao modo como os personagens se sentem, um tanto desamparados, com o auxílio de Shane F. Kelly, habitual diretor de fotografia de Kelly.
Os conflitos no que se refere a questões cotidianas, sociais ou políticas se concentram na humanidade que muitas vezes passa sem que se note. Nesse sentido, A melhor escolha trabalha uma visão social sobre a sociedade dos Estados Unidos, em suas angústias e expectativas diante de uma tradição de guerra. Os personagens parecem resistir para passar esse bastão adiante, também por meio de seus filhos, e é quando o filme de Linklater talvez melhor se expresse em sua visão sobre a solidão de oportunidades para uma reconciliação. Possivelmente é o momento mais político do diretor ao lado de Nação fast food – A rede de corrupção, na qual mostrava como a indústria de carne se fazia no interior dos Estados Unidos. Essas duas obras dialogam não exatamente pelo tema e sim por seus personagens em busca de uma explicação para sua existência, o que traz sempre um material muito amplo no caso de um cineasta talentoso e que apenas nesta década entregou uma obra-prima como Boyhood. A melhor escolha foi um dos filmes mais subestimados da temporada do Oscar, um verdadeiro encontro entre amigos que precisam redescobrir seu rumo.

Last flag flying, EUA, 2017 Diretor: Richard Linklater Elenco: Steve Carell, Bryan Cranston, Laurence Fishburne, Deanna Reed-Foster, J. Quinston Johnson,Yul Vazquez Roteiro: Richard Linklater e Darryl Ponicsan Fotografia: Shane F. Kelly Trilha Sonora: Graham Reynolds Produção: Ginger Sledge, John Sloss Duração: 124 min. Estúdio: Amazon Studios, Big Indie Pictures, Detour Filmproduction Distribuidora: Amazon Studios, Lionsgate

Aniquilação (2018)

Por André Dick

Alguns anos atrás, Alex Garland surgiu à frente da direção de Ex Machina, ficção científica bastante cultuada e premiada com um (inexplicável) Oscar de efeitos visuais. Ele regressa em Aniquilação, desta vez uma produção conturbada, que a Paramount não quis lançar nos cinemas mundialmente (nos Estados Unidos, chegou a estrear na rede) e estabeleceu parceria com a Netflix para que isso acontecesse.
Uma professora de biologia celular da Universidade Johns Hopkins, Lena (Natalie Portman), é recrutada pelo governo dos EUA para visitar uma determinada área X, onde se encontra o que se chama de “O brilho”, uma redoma com cores psicodélicas que cerca um determinado espaço, a partir de um farol da costa, de onde nenhuma equipe militar volta. Lena é casada com Kane (Oscar Isaac), que participou de uma dessas missões, e é recrutada também por ter sido uma militar. Ela parte numa peregrinação com a psicóloga Dr. Ventress (Jennifer Jason Leigh), a física Josie Radeck (Tessa Thompson), a geomorfologista Cass Sheppard (Tuva Novotny) e a paramédica Anya Thorensen (Gina Rodriguez). Enquanto isso, no presente, a personagem central é interrogada por um cientista (Benedict Wong).

Garland cria uma atmosfera muito interessante na primeira meia hora da narrativa, com ecos claros de A chegada (inclusive com o mesmo uniforme laranja) e Stalker (de Tarkovsky), mas inegável interesse particular, com idas e vindas no tempo. As personagens também interessam, a começar por Lena, numa bela atuação, mais uma vez, de Portman. Há uma sequência envolvendo um crocodilo mutante que demarca a qualidade até então do filme. No entanto, a história precisa ser desenvolvida e, como em Ex Machina, é aqui que Garland se perde um pouco. Baseado em obra de Jeff VanderMeer (que não li), a trama não apresenta muitas novidades além daquelas que vemos num gênero. De maneira geral, Garland tem certo interesse pela influência da tecnologia na vida do ser humano, e as implicações que ela traz para a sobrevivência de quem realmente somos. Se em Ex Machina ele visualizava isso de maneira sob certo ponto de vista pessimista, não o é muito diferente em Aniquilação: para ele, as falhas da humanidade se voltam contra ela.
Em termos visuais, as influências são claras quando a violência se intensifica, remetendo a momentos de Jurassic Park e O enigma de outro mundo. É estranho Aniquilação ser tão bem recebido por um público e crítica tão avessos a Alien: Covenant, muito mais impactante e com estilo e temática arriscada. E os efeitos visuais… se começam bem (exceção feita à redoma de “O brilho”), aqueles do terceiro ato desviam o espectador da narrativa de tão mal elaborados. Uma pena que, neste caso, a Paramount pareça ter estabelecido uma qualidade de filme B, sobretudo para seu desfecho, capaz de desinteressar mesmo quem estava gostando da premissa.

Além disso, os personagens, se pareciam interessantes, principalmente a de Dra. Ventress (por causa do desempenho competente de Jason Leigh), apenas se reduzem a figuras cercadas por um mistério. Do mesmo modo, mesmo que isso na verdade não importe tanto numa mescla entre fantasia, terror e ficção científica, a função de cada integrante na equipe não fica esclarecida, parecendo que suas escolhas são aleatórias, e em determinado momento se percebe que isso joga contra o roteiro adaptado por Garland. Como grande atriz que é Portman, vinda de dois filmes excepcionais de Terrence Malick e de uma atuação irretocável em Jackie (que deveria ter lhe rendido o segundo Oscar de melhor atriz, depois de Cisne negro) oferece credibilidade a cada cena, assim como Isaac (presente na obra anterior de Garland) cria impacto nas poucas cenas em que aparece, no entanto a sensação ao final é de ter se visto um remake de O predador (em especial a segunda versão lançada na década passada, com Adrien Brody) e não muito bem solucionado. Pelo filme de estreia e este subsequente, não parece haver dúvida de que Garland é bastante estimado pela crítica; só ela poderia alçar esse trabalho a um status de cult, quando fez uma severa avaliação há menos de um mês uma ficção científica substancialmente superior da Netflix (Mudo).

Annihilation, EUA/Reino Unido, 2018 Diretor: Alex Garland Elenco: Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodriguez, Tessa Thompson, Tuva Novotny, Oscar Isaac Roteiro: Alex Garland Fotografia: Rob Hardy Trilha Sonora: Ben Salisbury e Geoff Barrow Produção: Scott Rudin, Andrew Macdonald, Allon Reich, Eli Bush Duração: 115 min. Estúdio: Skydance Media, DNA Films, Scott Rudin Productions Distribuidora: Paramount Pictures (América do Norte e China) e Netflix (International)

Resultados do Oscar 2018

Por André Dick

Melhor filme

Quando a dupla de Bonnie e Clyde Faye Dunaway e Warren Beatty voltou a subir ao palco para a entrega do prêmio de melhor filme, uma justa homenagem de reparação da Academia, as apostas estavam concentradas em três filmes: A forma da água, Três anúncios para um crime e, em razão do resultado do Independent Spirit Awards, Corra! Antes das premiações de início de ano um dos favoritos, Lady Bird – A hora de voar ficou em segundo plano.
Gosto tanto da seleção do Oscar deste ano quanto a do ano passado. Há uma obra-prima (Trama fantasma), três filmes excelentes (Lady Bird, A forma da água e Três anúncios para um crime), um muito bom (Corra!) e um historicamente interessante e bem interpretado (O destino de uma nação). Não sou apreciador, no entanto, de Dunkirk, The Post – A guerra secreta e de Me chame pelo seu nome.  Eu teria substituído esses três filmes por Blade Runner 2049De canção em canção e Projeto Flórida, e acrescentaria um décimo: Todo o dinheiro do mundo ou Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi. Como Blade Runner 2049, por exemplo, não chegou à média para ser indicado na categoria principal tendo ganho 2 Oscars?
Dos indicados a melhor filme, A forma da água saiu com 4 prêmios, Dunkirk com 3, O destino de uma naçãoTrês anúncios para um crime com 2 e Corra!, Trama fantasma e Me chame pelo seu nome com 1 Oscar cada.

Desde Birdman, em 2015, o escolhido em melhor filme não vencia também o Oscar de direção. E justamente com outro mexicano, Alejandro G. Iñárritu; desta vez foi Guillermo del Toro. E importantíssima a vitória de A forma da água: é o único filme de fantasia a ganhar o Oscar principal ao lado de O senhor dos anéis – O retorno do rei, este em 2004, na história da Academia de Hollywood.
A ordem dos meus preferidos a melhor filme era a seguinte:

A apresentação de Jimmy Kimmel foi muito melhor do que a do ano passado. Como homenagem aos 90 anos da premiação, houve várias seções com imagens de filmes que participaram ou não do Oscar ao longo desse tempo. Incluiu-se um belo in memoriam a artistas da indústria que faleceram, ao som de Eddie Vedder, encerrado com imagens de Jerry Lewis. Kimmel suscitou o caso Harvey Weinstein, sendo sucedido por lembranças aos movimentos Me Too e Time’s Up por meio de apresentadore(a)s e sobre imigrantes, nas falas de Lupita Nyong’o, Kumail Nanjiani e Del Toro. Igualmente, Kimmel fez várias referências ao sucesso do filme Pantera Negra. E, nos agradecimentos, foram ótimos os de James Ivory (roteiro adaptado), Gary Oldman (ator), Frances McDormand (atriz) e Roger Deakins (fotografia). Del Toro fez uma homenagem singela a Spielberg, mas este parecia ainda impactado pelas poucas chances de The Post. Entre os apresentadores de categorias, destaques para Mark Hamill, BB8 e Maya Rudolph. Entretanto, para uma festa em que as mulheres tiveram especial atenção, o Oscar foi pouco afeito a premiá-las. Greta Gerwig (que parecia a única na plateia realmente emocionada pela indicação, ao lado do marido, o cineasta Noah Baumbach) não ter recebido um sequer aceno para seu Lady Bird – o único a não ganhar um Oscar entre os indicados a melhor filme ao lado do fraco The Post – marca o Oscar 2018 como aquele em que “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

Melhor direção

Guillermo del Toro sempre teve seu nome associado a fantasias soturnas, como O labirinto do fauno A colina escarlate. Também fez dois filmes para uma franquia (Hellboy), uma fantástica homenagem a monstros e robôs (Círculo de fogo), entre outros, além de ter ajudado a escrever, por exemplo, a trilogia O hobbit. Depois dele, possivelmente Jordan Peele e Greta Gerwig concorriam mais ao prêmio, por Corra! e Lady Bird, respectivamente, estreia de ambos na direção. Christopher Nolan fez um trabalho elogiado por Dunkirk, mas ele não havia sido indicado por trabalhos superiores (a trilogia Batman e Interestelar). Indicado antes por Sangue negro a melhor diretor, Paul Thomas Anderson concorria por Trama fantasma e merecia ganhar.

Melhor ator

Gary Oldman, apontado sempre como o favorito, ganhou por sua personificação de Winston Churchill em O destino de uma nação. Como no ano passado, Denzel Washington perdeu por Roman J. Israel, esq. (no qual está ótimo); ele ganharia o terceiro Oscar, depois de Tempo de glória e Dia de treinamento. Já Daniel Day-Lewis, por Trama fantasma, corria por fora, mesmo com três Oscars no currículo (Meu pé esquerdo, Sangue negro e Lincoln). Surpreendente a indicação de Timothée Chalamet por Me chame pelo seu nome, num papel bastante superstimado. Daniel Kaluuya tem bela atuação em Corra!, mas não sei se comportaria uma indicação.

Melhor atriz

Depois de ganhar um Oscar por Fargo, dos irmãos Coen, em 1997, Frances McDormand voltou ao palco por Três anúncios para um crime. É uma bela atuação, mas quem possivelmente merecia mais é Sally Hawkins, de A forma da água, cuja atuação em Maudie – Sua vida e sua arte também é brilhante. Saoirse Ronan aparece muito bem em Lady Bird, ainda que suas chances tenham diminuído muito com as premiações pós-Globo de Ouro. Margot Robbie é ótima atriz, o que já provou em O lobo de Wall Street, no entanto não merecia estar entre as indicadas por Eu, Tonya. E, principalmente, Meryl Streep. Seu papel em The Post – A guerra secreta só justifica uma indicação por quesitos extra-artísticos. Lembremos as atrizes que ficaram de fora: Jennifer Lawrence (mãe!), Sareum Srey Moch (Primeiro, mataram o meu pai), Rooney Mara (Una ou De canção em canção), Emma Stone (A guerra dos sexos), Danielle Macdonald (Patti Cake$), Alexandra Borbély (Corpo e alma), Daniela Vega (Uma mulher fantástica), Haley Lu Richardson (Columbus), Nicole Kidman (O sacrifício do cervo sagrado e O estranho que nós amamos), Vicky Krieps (Trama fantasma), Michelle Williams (Todo o dinheiro do mundo), Jessica Chastain (A grande jogada) e Brooklynn Prince (Projeto Flórida).

Melhor ator coadjuvante

O grande favorito Sam Rockwell levou o prêmio com Três anúncios para um crime, superando o companheiro de elenco Woody Harrelson e outros grandes intérpretes: Christopher Plummer (Todo o dinheiro do mundo), Willem Dafoe (Projeto Flórida) e Richard Jenkins (A forma da água).

Melhor atriz coadjuvante

Talvez na premiação mais injusta da noite, Allison Janney, habitualmente ótima, recebeu um Oscar inexplicável por seu papel unidimensional e com overacting em Eu, Tonya. Ela ganhou de atuações excelentes: Laurie Metcalf (Lady Bird), Mary J. Blige (Mudbound), Lesley Manville (Trama fantasma) e Octavia Spencer (A forma da água).

Melhor roteiro original

Jordan Peele recebeu o Oscar por Corra! No entanto, fez com que Greta Gerwig saísse do Oscar sem prêmio algum por Lady Bird, uma injustiça da Academia, como já observado. A forma da água ficou inviabilizado nessa categoria depois de processo por plágio e Três anúncios para um crime era outro favorito que não confirmou.

Melhor roteiro adaptado

O agradecimento de James Ivory, diretor de filmes como Vestígios do dia e Retorno a Howard’s End, foi tão emocionante ao ganhar o prêmio pelo roteiro adaptado de Me chame pelo seu nome que me fez esquecer o quanto Aaron Sorkin merecia por A grande jogada. Outro trabalho excepcional da categoria era o de Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi, escrito por Virgil Williams e Dee Rees.

Melhor animação

Viva – A vida é uma festa, da Disney/Pixar, era o grande favorito e cumpriu a expectativa, deixando em segundo plano Com amor, Van Gogh e The breadwinner.

Melhor filme estrangeiro

Antes das indicações, o favorito era o alemão Em pedaços. Ele caiu entre os pré-finalistas e passou o bastão para The Square – A arte da discórdia, vencedor do Festival de Cannes. No entanto, Uma mulher fantástica, do Chile, foi o premiado, ficando à frente, também, dos comentados Sem amor (Rússia) e Corpo e alma (Suécia), este vencedor do Festival de Berlim. É uma grande obra, com ótima atuação de Daniela Vega, trazendo um suspiro para o cinema da América Latina. O Brasil já deveria ter ganho um Oscar da categoria por Central do Brasil ou Cidade de Deus (não indicado a filme estrangeiro, mas a quatro Oscars no ano seguinte de seu lançamento) e nesta década já foi esquecido de forma significativa pela obra-prima O som ao redor, sequer indicado. Neste ano, Bingo – O rei das manhãs foi escolhido de maneira equivocada para representar o Brasil (não tem o estilo requisitado, apesar da excelente atuação de Vladimir Brichta), quando os candidatos poderiam ter sido O filme da minha vida ou As duas Irenes.

Melhor documentário em curta-metragem

Heaven is a traffic jam on the 405

Melhor documentário em longa-metragem

Icarus

Melhor curta-metragem

The silent child

Melhor curta em animação

Dear basketball

Melhor fotografia

O britânico Roger Deakins finalmente vence, em sua 14ª indicação, por Blade Runner 2049, mostrando um trabalho de cores e luzes praticamente insuperável, sem querer apenas imitar a estética do original de Ridley Scott. Ele superou outros fortes candidatos, como Hoyte Van Hoytema por Dunkirk, Dan Laustsen, por A forma da água e Rachel Morrison por Mudbound, esta a primeira mulher indicada na categoria. Talvez os trabalhos de fotografia que poderiam ter rivalizado com Blade Runner 2049 sejam os de Trama fantasma, feito pelo próprio diretor, Paul Thomas Anderson, que não se creditou, e De canção em canção, do já oscarizado três vezes Emmanuel Lubezki, sempre esquecido por suas parcerias com Terrence Malick depois de A árvore da vida.

Melhor trilha sonora

Depois de vencer por O grande Hotel Budapeste, o francês Alexandre Desplat voltou ao palco para receber o novo prêmio por A forma da água, embora Jonny Greenwood tenha composto uma trilha memorável para Trama fantasma.

Melhor canção original

“Remember me”, de Viva – A vida é uma festa, escrita por Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez, já era a esperada vencedora. As apresentações das candidatas foram muito boas, principalmente as de “Mighty river” (Mudbound) e “This is me” (O rei do show).

Melhor edição

Lee Smith recebeu o prêmio por Dunkirk. No ano passado, outro filme de guerra havia vencido na categoria, Até o último homem. Smith superou fortes concorrentes, como A forma da água, Três anúncios para um crime e Em ritmo de fuga.

Melhor figurino

Mark Bridges recebeu o prêmio, merecido, por Trama fantasma. É seu segundo Oscar, depois de O artista, e trata-se de um trabalho refinado do habitual colaborador de Paul Thomas Anderson, reconstituindo-se o vestuário dos anos 50 com designs criados especialmente pelo estilista feito por Day-Lewis.

Melhor design de produção

Paul D. Austerberry, Jeffrey A. Melvin e Shane Vieau receberam o prêmio por A forma da água, embora os trabalhos de Blade Runner 2049 e A bela e a fera fossem ótimos. O trabalho extraordinário de Trama fantasma não chegou a ser indicado.

Melhor maquiagem e cabelo

Kazuhiro Tsuji, David Malinowski e Lucy Sibbick foram os vencedores por O destino de uma nação.

Melhor mixagem de som

Mark Weingarten, Gregg Landaker e Gary A. Rizzo ganharam por Dunkirk, superando os trabalhos elogiados de Em ritmo de fuga e Star Wars – Os últimos Jedi e a excelência de Blade Runner 2049.

Melhor edição de som

Alex Gibson e Richard King receberam o prêmio por Dunkirk, superando os competitivos Blade Runner 2049 e Em ritmo de fuga.

Melhores efeitos visuais

John Nelson, Paul Lambert, Richard R. Hoover e Gerd Nefzer venceram o Oscar por Blade Runner 2049, superando o favoritismo de Planeta dos macacos – A guerra e a competência técnica de Star Wars – Os últimos Jedi. Uma homenagem também aos técnicos que realizaram a primeira parte em 1982, um marco da ficção científica.

Uma mulher fantástica (2017)

Por André Dick

O diretor chileno Sebastián Lelio está à frente de Uma mulher fantástica, indicado ao Oscar de filme estrangeiro e que estreou no Festival de Berlim, tendo como uma de suas coprodutoras a alemã Maren Ade, de Toni Erdmann, e como um de seus produtores Pablo Larraín, responsável pelos ótimos No e Jackie. Talvez ele tenha se tornado muito comentado devido a seus temas centrais, no entanto é inegável que sua construção de modo competente se dá pela aliança entre narrativa e elenco. Marina Vidal (Daniela Vega) pretende ser cantora e trabalha como garçonete, ao mesmo tempo que tem um relacionamento com Orlando (Francisco Reyes), mais velho do que ela. Numa determinada noite, Orlando não se sente bem e precisa ir para o hospital. Daí em diante, surge o preconceito contra Marina, que é uma mulher transexual. A polícia desconfia, por exemplo, do fato de ela sair do hospital sem avisar ninguém, como se tivesse cometido um crime. O mais interessante é como Lelio – que já tem um novo filme, Desobedience, com Rachel McAdams e Rachel Weisz – constrói essas cenas iniciais, aliando drama, romantismo e suspense, principalmente porque nunca indica o que irá acontecer depois que Orlando se sente mal.

Lelio administra os personagens e a história de maneira que nunca o espectador se sente manipulado, mas inserido num universo em que o ser humano muitas vezes é incapaz de agir sob qualquer sensibilidade ou racionalidade. Mesmo que o irmão de Orlando, Gabo (Luis Gnecco), procure um diálogo com ela, o encontro de Marina com a ex-esposa de Orlando, Sonia (Aline Küppenheim), e com o filho dele, Bruno (Nicolás Saavedra), são verdadeiramente tensos. Nesse sentido, Uma mulher fantástica é quase um thriller a partir de um acontecimento central que desencadeia todos os fatos. Há uma espécie de fantasma que ronda o tempo todo a personagem central sem que ela possa se defender à altura do comportamento que recebe das pessoas em torno. A maneira com que Adriana (Amparo Noguera), a detetive da Unidade de Ofensas Sexuais, cerca a vida de Marina toma contornos dramáticos, até o momento em que eclode uma situação delicada.

A atuação de Vega, primeira atriz e modelo transgênero do Chile, é fora de série, compondo uma personagem ao mesmo tempo marginalizada, mas que deseja ir contra literalmente a corrente de vento que tenta derrubá-la ou barrá-la. Vega possui uma presença de cena que dificilmente outro integrante do elenco alcança, tornando-se determinante para o resultado final, embora os coadjuvantes, principalmente Nicolás Saavedra, sejam excepcionais. Lelio utiliza imagens por vezes reais, por vezes líricas, com um bom aproveitamento da fotografia, e nunca se torna condescendente com a situação, tentando mostrá-la da maneira mais incisa o possível. Em alguns momentos, como aquele em que ela está num momento delicado diante de alguns homens, Lelio exagera um pouco, sem aliviar o resultado. A fotografia de Benjamín Echazarreta ajuda a tornar esta situação pela qual passa Marina numa espécie de navegação solitária pelas ruas da cidade. É possível associar algumas escolhas narrativas com aquelas usadas por Fassbinder em O direito do mais forte, de 1975, não fosse a personagem Marina não tão ingênua quanto o personagem do filme alemão.

Com a ajuda do corroteirista Gonzalo Maza, Uma mulher fantástica trata basicamente de como a sociedade está moldada por uma certa visão pré-determinada da qual Marina se sente a principal excluída. O diretor não joga os sentimentos de acordo com intenções meramente sociais e sim sentimentais, equivalendo, da melhor maneira, o objetivo de representar um drama autêntico e a tentativa de colocá-lo como um símbolo de um discurso à margem. Trata-se de um filme raro, com temática densa e bem elaborada, além de optar uma edição de alta agilidade, que faz o espectador se inserir na história sem nunca perder o fio da meada.

Una mujer fantástica, Chile, 2017 Diretor: Sebastián Lelio Elenco: Daniela Vega, Francisco Reyes, Luis Gnecco, Aline Küppenheim, Nicolás Saavedra, Amparo Noguera Roteiro: Sebastián Lelio e Gonzalo Maza Fotografia: Benjamín Echazarreta Trilha Sonora: Matthew Herbert  Produção: Juan de Dios Larraín, Pablo Larraín, Sebastián Lelio, Gonzalo Maza Duração: 104 min. Estúdio: Fabula, Komplizen Film Distribuidora: Sony Pictures Classics

Projeto Flórida (2017)

Por André Dick

Se o filme anterior de Sean Baker, Tangerine, teve grande aceitação, com seus elementos de estilo indie, Projeto Flórida tem conseguido uma aceitação popular e de crítica maior ainda. No entanto, depois de iniciar a temporada de premiações, embora indicado a algumas, foi quase que esquecido (no Oscar, obteve apenas a de ator coadjuvante). Isso se torna especialmente decepcionante porque se trata de uma obra que foge ao mainstrem com um cuidado visual que muitas vezes foge ao gênero.
Nas férias de escola, Moonee (Brooklynn Prince), de seis anos, vive com sua mãe Halley (Bria Vinaite) no Magic Castle, motel na Flórida, pintado de púrpura, muito perto do parque Disney World. O gerente do local se chama Bobby Hicks (Willem Dafoe), pai de Jack (Caleb Landry Jones, de Três anúncios para um crime, Corra!, Twin Peaks – O retorno…).

Moonee passa o dia em companhia de Scooty (Christopher Rivera), filho de Ashley (Mela Murder), e Dicky (Aiden Malik). Certo dia, depois de uma breve confusão, eles fazem amizade com Jancey (Valeria Cotto), criada pela avó Gloria (Sandy Kane).
A fotografia esplendorosa do filme é de Alexis Zabe, habitual parceiro de Carlos Reygadas em Luz silenciosa e Luz depois das trevas. Grande parte da atmosfera de Projeto Flórida – com o céu quase sempre azul, repleto de nuvens que fazem lembrar uma espécie de éden infantil – existe por causa de seu trabalho, que influenciou o de Emmanuel Lubezki, com uma movimentação elegante de câmera. Não por acaso, há cenas despretensiosas que lembram os movimentos estabelecidos por Terrence Malick para o universo infantojuvenil em A árvore da vida, com crianças correndo pela grama ou pela vizinhança atrás de casa abandonadas com vidraças para quebrar. O design de produção, inspirado em parte em Wes Anderson, traz cenários que fazem o espectador se inserir neste universo.
No entanto, o roteiro de Sean Baker e Chris Bergoch é o grande atrativo, com uma trama fina e sólida, costurando as relações entre as crianças e dessas com Halley e Bobby. Quase não se percebe a construção da trama e ela existe, o que lembra American honey, de Andrea Arnold, com seus personagens à margem e vendendo assinaturas de revistas de porta em porta no interior dos Estados Unidos. Personagens na mesma linha já apareciam em Tangerine, filme anterior de Baker, mas se fazem verdadeiramente envolventes aqui.

Não apenas a atuação elogiada de Dafoe é ótima, mas sobretudo da menina Brooklynn Prince e de Vinaite, perspicaz nos momentos certos. A presença de Prince é tão destacada que poderíamos imaginar o que faria Meryl Streep indicada a alguma premiação por The Post. Há um afeto intangível entre os personagens, mesmo que não se esclareça, e o filme possui um ambiente de solidão e, ao mesmo tempo, de acolhimento. Bobby tenta organizar o local, tentando impedir o topless de uma moradora, Gloria (Sandy Kane), ou consertando a eletricidade que as crianças ajudaram a estragar, e Dafoe entrega um papel verdadeiramente humano. Os momentos em que ele briga com Halley, por causa de aluguéis atrasados, ou com as crianças é com a necessidade e o dever de precisar manter tudo organizado, não dentro de um sistema, contudo para sua compreensão existencial, representada pela sequência em que ele precisa agir de forma vigorosa com um intruso (Carl Bradfield), que ameaça este éden infantil. A sequência em que ele espanta alguns flamingos caminhando nas redondezas do motel expõe o realismo do personagem: aquela cena é quase paradisíaca, lembrando muito as obras do mexicano Reygadas, e parecem não se inserir nessa realidade de famílias que se hospedam em lugares simples, que podem pagar com muita dificuldade.

De modo original, Projeto Flórida (nome anterior ao de Disney World) descortina um universo expondo certas dificuldades, mas extremamente otimista em sua profusão de cores e contato com o imaginário infantil proporcionado por Baker e Zabe. Em seus momentos mais profundos, a obra de Baker mostra como os adultos podem servir de espelho para as ações de uma criança, no entanto não o faz de um ponto de vista moralista: apenas mostra essa interação que se confunde com o movimento da vida e da existência das relações. É curioso que o nome da personagem principal seja Moonee, lembrando a sonoridade de Monet, e o filme se passe muitas vezes numa espécie de pintura viva, pois os figurinos parecem, por exemplo, rimar com a cor do hotel. Mesmo as tatuagens (em forma de flores) e o boné da mãe de Moonee dialogam com o cenário em torno. Baker distribui essas cores em camadas ao longo da narrativa, influenciado por peças recentes (a exemplo de Moonlight), no entanto sem nunca perder a originalidade.

De qualquer modo, embora esse cenário esteja à margem de um grande parque de diversões ela se destaca por seus elementos naturais. Há uma cena em que Moonee e sua amiga brincam diante de um campo rural com vacas que parece extraída do início de Luz depois das trevas, de Reygadas: é como se esse universo campestre representasse o verdadeiro ingresso num mundo fantasioso coberto de nuvens que dialoga com os estabelecimentos de alimentação. Algumas esculturas em forma de foguetes ao longo deste cenário lembram uma já longínqua corrida espacial. É um grande passo na carreira de Baker e dos atores aqui envolvidos. Não se sente nunca como um semidocumentário, problema em que poderia ter incorrido, e sim num retrato de um cotidiano que se movimenta como as corridas de um lado para o outro em busca de descoberta. Por isso, Projeto Flórida se destaca como um dos filmes mais belos do ano, com um aspecto humano comovente que poucas vezes se vê retratado com tanta ênfase.

The Florida Project, EUA, 2017 Diretor: Sean Baker Elenco: Willem Dafoe, Brooklynn Prince, Bria Vinaite, Valeria Cotto, Christopher Rivera, Caleb Landry Jones Roteiro: Sean Baker e Chris Bergoch Fotografia: Alexis Zabe Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Sean Baker, Chris Bergoch, Kevin Chinoy, Andrew Duncan, Alex Saks, Francesca Silvestri, Shih-Ching Tsou Duração: 111 min. Estúdio: Cre Film, Freestyle Picture Company, Cinereach, June Pictures Distribuidora: A24 Release date