Os incríveis 2 (2018)

Por André Dick

Há três anos, Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível mostrava mais uma tentativa de Brad Bird em dirigir filmes com humanos. Precedido por desenhos animados importantes, como O gigante de ferroOs incríveis e Ratatouille, Bird estreou em Missão fantasma – Protocolo fantasma à frente de um elenco. Se o episódio que fez de Ethan Hunt não possui a mesma vibração da terceira parte, de J.J. Abrams, pode-se dizer que ele conseguiu acertar nas sequências de movimento incessante e Tomorrowland, apesar do fracasso financeiro, foi uma ficção científica diferenciada. Com grande divulgação da Walt Disney, aos poucos Tomorrowland foi sendo comparado a John Carter, principalmente pela bilheteria, que equivaleu, no momento, a pouco mais de seu orçamento e teria provocado, inclusive, o cancelamento das filmagens de um possível terceiro Tron. Com essa decepção em sua curta e relevante filmografia até agora, Bird voltou à area da animação, com a sequência Os incríveis 2.

Ele retoma a história dos integrantes da família Parr – Bob (Craig T. Nelson), Helen (Holly Hunter), Dash (Huck Milner), Violet (Sarah Vowell) e Jack-Jack (Eli Fucile) – que formam os super-heróis intitulados Incríveis. Durante uma ação contra um ato de vilania, o agente Rick Dicker (Jonathan Banks) avisa que o programa do qual fazem parte será desativado, o que força os super-heróis a terem de se manter secretos o tempo todo. A família em seguida é contatada por Winston Deavor (Bob Odenkirk), fã de super-heróis e dono da DEVTECH, assessorado pela irmã Evelyn (Catherine Keener). Helen é escolhida, com sua identidade Elastigirl, a ser a primeira a ser uma espécie de relações públicas da empresa, por ser mais delicada do que seu marido, Bob, conhecido também por seu temperamento. Weaver, por sua vez, deixa os incríveis morando numa mansão extraordinária, e Bob assume o papel de cuidar dos filhos enquanto a mulher vai combater o crime. Em meios às reviravoltas, também temos o personagem Lucius (Samuel L. Jackson).
Há uma questão preocupante: o bebê da família, Jack-Jack, começa a descobrir também seus poderes, e Bob o leva para Edna Mode (Brad Bird), a estilista de super-heróis que já aparecia na primeira parte. A primeira grande ação de Elastigirl é impedir ataque a um trem sofisticado, numa sequência que remete a Operação França, de William Friedkin, dos anos 70. Surge a verdadeira ameaça: um vilão, Screenslaver (Bill Wise), que hipnotiza as pessoas com telas de TV, celulares e óculos.

Os incríveis 2 tem todos os elementos já vistos no primeiro, de 2004, com um bom humor e ação mesclados e uma família disfuncional muito interessante. Não chego a ter nostalgia do primeiro (não está entre minhas animações preferidas), por isso não me parece tão destoante considerar este segundo mais bem resolvido. Ele ingressa na linha das continuações da Pixar com real qualidade, a exemplo dos subestimados Universidade Monstros e Carros 3. O primeiro tinha os dois primeiros terços bem resolvidos, mas caía um pouco no lugar-comum na última parte. Este, muito em razão de Jack-Jack, o bom humor se espalha em núcleos até a resolução de tudo, brincando com o próprio gênero de maneira bem-humorada. Bird sempre se mostrou um exímio diretor no sentido de utilizar esses elementos na pérola O gigante de ferro, que o levou à Disney, e mesmo em Tomorrowland, muito contestado, conseguia utilizá-los em boa proporção. Bird tem uma leveza para abordar temas que poderiam ser forçados: ele não abdica de uma visão moderna sobre os super-heróis, porém nunca a coloca com uma seriedade pré-programada.

O fato de Helen sair de casa, enquanto o marido tenta cuidar dos filhos, é uma abordagem certamente interessante, à medida que no ano passado Mulher-Maravilha recebeu tanto destaque. Elastigirl fornece, além disso, uma composição de imagens em ação bastante satisfatórias (da família, é certamente aquela com super-poderes mais interessantes). No entanto, Bird tem um verdadeiro encanto em homenagear antigos filmes em suas obras. Se O gigante de ferro possuía referências claras a E.T. – O extraterrestre e Tomorrowland dialogava com Os Goonies, Os incríveis 2, além de sua homenagem constante a 007, como o anterior, evoca Velocidade máxima 2 numa passagem surpreendente, além de desenhar uma aeronave como aquela de Interestelar, de Christopher Nolan. Também temos lembranças, em algum momento do vilão e de sua hipnose, do recente Thelma – uma tentativa sueca de fazer uma mulher com poderes paranormais (embora se lamente que uma animação utilize imagens que podem provocar problemas em quem possui fotossensibilidade, pois seria dispensável esse recurso para fazer a narrativa funcionar) – e de toda obra visual de Tim Burton, especialmente das propagandas do Coringa na televisão de Batman. E, assim como o primeiro, há homenagem constante à discussão do papel do super-herói na sociedade, como em Watchmen. Mesmo a figura de Helen é claramente inspirada visualmente na de Laurie Juspeczyk/Espectral II (vivida no cinema por Malin Åkerman), dos criadores Alan Moore e Dave Gibbons. Visualmente, Bird está entre os melhores diretores da atualidade: Os incríveis 2 mostra isso de maneira notável, com design de produção meticuloso e uma ambientação que leva o espectador a ingressar em cada cenário como se fosse verdadeiro. Seu senso de divertimento nunca se desequilibra e nunca torna os personagens em caricaturas, como poderia acontecer de modo indevido.

Incredibles 2, EUA, 2018 Diretor: Brad Bird Elenco: Craig T. Nelson, Holly Hunter, Sarah Vowell, Huck Milner, Samuel L. Jackson, Bob Odenkirk, Catherine Keener Roteiro: Brad Bird Fotografia: Mahyar Abousaeedi Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: John Walker, Nicole Paradis Grindle Duração: 118 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Pixar Animation Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

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Kong – A Ilha da Caveira (2017)

Por André Dick

O clássico King Kong de 1933 marcou não apenas sua época, como a história do cinema, e quando Dino De Laurentiis produziu uma refilmagem em 1976 foram poucos os que se atreveram a elogiá-la ou traçar comparações dela com o original. Obviamente, uma falha gigantesca: o King Kong dos anos 70, com sua crítica à indústria petrolífera, é, como diz Pauline Kael, um filme muito divertido. Em 2005, Peter Jackson fez a segunda refilmagem, numa obra grandiosa e com vigor incomum. O interessante é que as duas refilmagens ganharam o Oscar de efeitos visuais. Em Kong – A Ilha da Caveira não temos exatamente uma nova versão da mesma história. Pelo contrário.
Desde o início, quando se mostra uma queda em 1944 durante a Segunda Guerra Mundial de dois caças numa ilha do Pacífico Sul, temos uma liberdade histórica mais abrangente para a figura central.  Em 1973, James Conrad (Tom Hiddleston) é selecionado por um agente do governo norte-americano, Bill Randa (John Goodman), para ser guia de uma expedição exatamente a essa Ilha da Cavaleira, recém-localizada e que desperta o interesse governamental. Para a missão, também é chamado o Coronel Preston Packard (Samuel L. Jackson), com seu esquadrão Sky Devils, constituído por combatentes da Guerra do Vietnã, tendo como braço direito o major Chapman (Toby Kebbell). Junta-se ao grupo também Mason Weaver (Brie Larson), uma fotógrafa pacifista.

A chegada a ilha marca uma situação até então prevista, quando os personagens são lançados em meio a uma espécie de Apocalypse now, como muitos têm falado sobre o filme. Mas, desde o recrutamento de Conrad, num local conturbado, passando pelo soldado Reg Slivko (Thomas Mann), que usa uma bandana vermelha como Christopher Walken em O franco-atirador, este Kong é um subtexto do filme de Michael Cimino vencedor do Oscar principal em 1978. Com suas menções históricas a Richard Nixon, a história do monstro se confunde com a da própria América. A Ilha concentra não apenas King Kong, como também outros animais pré-históricos gigantes e muitas, muitas ossadas de animais já mortos, o que concede uma grande variedade de efeitos visuais e uma fotografia esplêndida de Larry Fong, habitual colaborador de Zack Snyder, com suas colorações destacando o criativo design de produção.
Na jornada, seguem Conrad, Weaver, os biólogos San Lin (Jing Tian), Houston Brooks (Corey Hawkins), os soldados Slivko e Cole (Shea Whigham) o empregado Victor Nieves (John Ortiz), entre outros, que encontram os indígenas do local – como de praxe nos outros da série – e a figura de Hank Marlow (John C. Reilly), um combatente de guerra que vive ali há anos com um aspecto de Capitão Ahab de Moby Dick.

O lugar onde eles vivem remetem claramente à aldeia administrada pelo personagem de Marlon Brando em Apocalypse now, e Marlow se torna a figura mais significativa e interessante da narrativa, graças à boa atuação de Reilly. Ele é como se fosse um elo de ligação entre a época das versões passadas nos anos 30 com a dos anos 70 – e mesmo a tribo não é mostrada como ameaçadora e sim pacífica, tanto que em certo momento se brinca com o lema “Paz e amor”, típico da década de 1970. É uma pena que, em meio a cenas realmente atrativas de ação e um fantástico arsenal de efeitos, os personagens de Conrad e Weaver se sintam tão fracos – ao contrário de Jeff Bridges e Jessica Lange no filme de 76 e de Naomi Watts e Adrien Brody no de 2005. Não porque Hiddleston e Larson não atuem bem, mas porque o arco deles não é suficientemente desenhado e deixe dois dos melhores nomes da atualidade com uma participação excessivamente discreta. Nesse sentido, esta nova obra envolvendo King Kong não prima exatamente pela faceta dramática ou elegância na construção dos personagens – como era o de Jackson principalmente –, sendo muito mais um blockbuster real e de peso, literalmente, o que não tira seus méritos, sobretudo aqueles que envolvem escolhas pessoais do diretor Jordan Vogt-Roberts em relação ao material de origem.

O filme cresce mais em sua analogia da Ilha da Caveira com a Guerra do Vietnã e o roteiro, escrito por Dan Gilroy, o diretor de O abutre, Max Borenstein, que escreveu o Godzilla de 2014, e Derek Connolly, responsável pela narrativa de Jurassic World, nunca deixa de encadear sequências com grande agilidade e ainda assim com lógica, sem quedas abruptas ou mudanças de rumo inaceitáveis. Quando Marlow faz um discurso sobre a onipresença de King Kong na ilha, ele parece estar se referindo ao que o exército dos Estados Unidos achou ser no Vietnã e, quando ele se refere aos pais mortos da criatura, parece delimitar uma época: algo aqui se perdeu. O exército de Packard chega à ilha com helicópteros e bombas, mas este é um novo lugar onde eles não conseguirão mudar o rumo da história. Tudo se sente como um início de franquia, o que, se por um lado incomoda quem gosta do personagem na roupagem mais clássica, por outro promete novos embates. Esses são claramente inspirados pela versão de Peter Jackson e, onde eram comparáveis quase a um video game de destruição, não deixam de ter uma textura verdadeira e até ameaçadora. Ou seja, o filme consegue lidar melhor com seus elementos de origem do que, por exemplo, Jurassic World em relação ao clássico de Spielberg. Quando vemos King Kong em ação, ele parece realmente uma figura em movimento, não um mero produto de efeitos visuais e CGI. É o que concede emoção particular a esta obra de Vogt-Roberts.

Kong: Skull Island, EUA, 2017 Direção: Jordan Vogt-Roberts Elenco: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, John Goodman, Brie Larson, Jing Tian, ​​Toby Kebbell, Corey Hawkins, Shea Whigham, Jason Mitchell Roteiro: Dan Gilroy, Max Borenstein, Derek Connolly Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Jon Jashni, Mary Parent, Thomas Tull, Alex Garcia Duração: 118 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Legendary Pictures / Warner Bros.

 

 

O lar das crianças peculiares (2016)

Por André Dick

o-lar-das-criancas-peculiares-5Faz dois anos que Tim Burton tentou seguir um novo caminho em sua trajetória, com Grandes olhos, logo após o fracasso de crítica e público do subestimado Sombras da noite, um de seus melhores filmes. Eles eram antecedidos pelo grande sucesso de público Alice no país das maravilhas, um dos filmes estranhamente mais impessoais do diretor, mesmo com sua carga estilística. Agora, com O lar das crianças peculiares, baseado no romance de Ransom Riggs, ele tenta mesclar os dois caminhos: um de temática mais adulta e outro de fantasia proeminente, o que já víamos, por exemplo, no aparentemente infantil A fantástica fábrica de chocolate, com seu humor corrosivo. Depois de anos, de artista respeitado por seus atrevimentos Burton passou a ser visto sempre numa zona de conforto, quando na verdade expandiu seu estilo para outros campos – e podemos ver em Sombras da noite, principalmente, um desenho dos anos 1970 de Amargo pesadelo cercado de um inevitável bom humor.
Um adolescente, Jacob/Jake Portman (Asa Butterfield), acompanhado de sua supervisora Shelly (O-Lan Jones), encontra seu avô, Abrãao “Abe” Portman (Terence Stamp), numa situação difícil e, a partir de uma estranha aparição, lembra das histórias que ele contava sobre lutas contras monstros e um lar da senhora Peregrine para crianças peculiares, localizado na costa do País de Gales. Isso, claro, é uma espécie de primeiro passo para uma expansão do que Burton trabalhava em Peixe grande, com seu universo de histórias familiares.

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Jacob passa a consultar a psiquiatra Dr. Golan (Allison Janney), onde tem suas visões colocadas em dúvida, e determinado dia, quando chega a um aniversário surpresa, sua tia Susie (Jennifer Jarackas) lhe entrega o presente de aniversário do seu avô, com uma carta de Miss Peregrine a ele, de apenas dois anos antes.
Jacob e seu pai, Franklin (o subestimado Chris O’Dowd), vão para o País de Gales e alugam um quarto no hotel da ilha, que bem poderia servir como diálogo com os habitantes de O homem de palha. Lá, ele encontra a casa de Miss Peregrine em ruínas por causa de uma bomba lançada durante a Segunda Guerra Mundial. Ele viaja repentinamente no tempo e é acusado de ser um espião nazista, sendo salvo pelo grupo de Miss Alma LeFay Peregrine (Eva Green), que lhe explica que eles vivem sempre no dia 3 de setembro de 1943 e pode se transformar num pássaro (lembrando especificamente a feiticeira de Willow). Na casa havia vivido Victor Buntley (Louis Davinson), até ser morto por um Hollowgast, grupo liderado por Mr. Barron (Samuel L. Jackson). O interesse de Jacob passa a ser por Emma Bloom (Ella Purnell), que precisa usar sapatos de chumbo para não sair flutuando, enquanto conhece as crianças do lugar: Enoch O’Connor (Finlay MacMillan), Olive Abroholos Elephanta (Lauren McCrostie), Millard Nullings (Cameron King), Fiona Frauenfeld (Georgia Pemberton), Bronwyn Buntley (Pixie Davies), Horace Somusson (Hayden Keeler-Stone), Hugh Apiston (Milo Parker), Claire Densmore (Raffiella Chapman) e os gêmeos (Joseph e Thomas Odwell), cada um com suas peculiaridades (e estranhezas à la Burton), quase uma equipe do X-Men em plena Segunda Guerra Mundial, e não por acaso o roteiro adaptado é assinado por Jane Goldman, de X-Men: Primeira classe. São crianças de um mundo à margem, em que a Segunda Guerra Mundial não consegue tocar com sua violência, mesmo que insista com seu relógio do tempo inabalável.

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E são deslocadas como são a maior parte dos personagens de Burton, que de um curta-metragem dos anos 80 passou a um longa há alguns anos sobre um cão que lembra Frankenstein, em Frankenweenie. Essas figuras não atraem pela fantasia: elas são sumariamente estranhas e deslocadas no tempo e espaço pela própria condição. Na ilha, Jacob também tem contato com a Miss Esmeralda Alvocet (Judi Dench) e um ornitólogo (Rupert Everett).
Este universo à parte tem muitos elementos da filmografia de Burton (as esculturas no jardim de Edward mãos de tesoura, os esqueletos do videoclipe que dirigiu para o The Killers, inspirados, por sua vez, em Ray Harryhausen, as cenas aquáticas que lembram Sombras da noite, assim como as da mansão, a floresta noturna que evoca A lenda do cavaleiro sem cabeça, a direção de arte que remete por vezes a Os fantasmas se divertem), mas, de modo geral, tudo é levado num ritmo de episódio de No limite da realidade, quando, por exemplo, Jacob é confundido com um nazista, e com influências nítidas de Feitiço do tempo e de um grande filme de Del Toro sobre um orfanato perdido no deserto em meio à Guerra Espanhola (elementos que devem ter inspirado o romancista que deu origem ao filme, já que o livro é bastante recente, de 2011). Burton sabe, como tem conhecimento cinematográfico, que as referências do livro partem de uma boa parte da história do gênero de fantasia e consegue, como é costume em sua filmografia, não reduzi-la a elementos previsíveis.
Em termos de elenco, chama atenção como Burton extrai uma atuação mais madura de Green, muito exagerada em Sombras da noite, e principalmente de Butterfield, que mostrara talento em A invenção de Hugo Cabret para se perder em meio à ficção adolescente de Ender’s game. Ele consegue tomar esses dois atores no melhor que há neste filme, em que Samuel L. Jackson encarna um vilão exagerado.

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A utilização efetiva de elenco sempre foi um traço de Burton, mas ele vem melhorando ainda mais com a maturidade, ao mesmo tempo que aqui a direção de arte não parece tão destacada dos demais elementos, fazendo uma fusão mais natural com os personagens, comportamentos e figurinos. Há alguns problemas de narrativa, sobretudo quando se tenta explicar a presença dos monstros que ameaçam Miss Peregrine e Jacob, no entanto é justamente em elementos de singularidade que Burton tece sua trama de maneira atrativa. Isso porque ele é acompanhado novamente pelo diretor de fotografia Bruno Delbonnel (O fabuloso destino de Amélie Poulain), seu parceiro desde Sombras da noite, e o figurino de Colleen Atwood, exímios em sua facilidade de compor um universo verdadeiramente marcante. Nesse sentido, O lar das crianças peculiares conduz sua temática de maneira que costumamos ver na obra de Burton, apenas com o acréscimo de um lado soturno menos fantasioso, algo que ele tentou fazer em sua adaptação de Alice sem conseguir com a mesma eficiência. Embora o terceiro ato se pareça com muitas peças no estilo Disney e blockbusters, esta ainda é uma peça com sensibilidade rara.

Miss Peregrine’s home for peculiar children, EUA, 2016 Diretor: Tim Burton Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett, Allison Janney, Chris O’Dowd, Terence Stamp, Ella Purnell, Finlay MacMillan, Lauren McCrostie, Hayden Keeler-Stone, Georgia Pemberton, Milo Parker, Raffiella Chapman, Pixie Davies Roteiro: Jane Goldman Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Jenno Topping, Peter Chernin Duração: 127 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Chernin Entertainment / Tim Burton Productions

cotacao-3-estrelas-e-meia

 

A lenda de Tarzan (2016)

Por André Dick

A lenda de Tarzan.Filme 4A última adaptação do personagem de Tarzan, criado por Edgar Rice Burroughs, havia sido Greystoke – A lenda de Tarzan, o rei da selva, nos anos 80, com Cristopher Lambert no papel principal e grande êxito dramático e de recriação da atmosfera selvagem, com macacos criados por Rick Baker, mestre da maquiagem. Era inevitável que uma história mais moderna do personagem, em meio à tecnologia atual, se rendesse a muitas cenas de efeitos especiais. Desde os trailers, isso já era esperado em A lenda de Tarzan, nova empreitada do competente David Yates, responsável por quatro filmes da saga Harry Potter, inclusive o seu melhor (particularmente) As relíquias da morte – Parte 1, e de Animais fantásticos e onde habitam, que estreará no final do ano, baseado também em J.K. Rowling.
Tendo à frente do elenco Alexander Skarsgård (mais conhecido pela participação em Melancolia, de Von Trier) como o herói, Yates prefere partir de um conceito interessante: ele trata Greystoke como uma espécie de primeira parte dessa obra, recuperando flashbacks que lembram o filme de Hugh Hudson. Como explica o início do filme, o Congo foi dividido entre a Bélgica e o Reino Unido. Como a Bélgica está num estado de falência, seu rei, Leopoldo II, envia Léon Rom (Cristoph Waltz) para conseguir diamantes preciosos de Opar, e ele vai tocando a vegetação africana como quem está prestes a destruí-la de fato. A expedição dele é cercada pelo Chefe Mbonga (Djimon Hounsou), numa sequência capaz de evocar o encontro da tripulação do barco petrolífero com a tribo indígena da Ilha da Caveira do King Kong de 1976, que lhe faz um determinado pedido para que não seja morto.

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Enquanto isso, Tarzan já está perfeitamente adaptado à sociedade, como Jack Clayton III, Lorde Greystoke, casado com Jane Porter (Margot Robbie), e recebe um convite do presidente do Congo para visitar o país, por meio do primeiro-ministro da Inglaterra (Jim Broadbent). George Washington Williams (Samuel L. Jackson), dos Estados Unidos, deseja que Greystoke aceite o convite porque acredita que os planos da Bélgica é escravizar o povo do Congo. No entanto, parece mais uma emboscada. Yates escolhe um tom quase descompromissado para seu filme, fazendo lembrar, sob um ângulo positivo, produções de uma certa infância já perdida no tempo e bastante nostálgica. Há, não raramente, uma sucessão de acontecimentos que parecem dar justificativa apenas para o próximo passo. Se Tarzan entra em conflito com Jane, pois não a quer na empreitada, logo o roteiro opta por mostrar esse ambiente como, ao mesmo tempo, acolhedor e ameçador. A chegada de Tarzan ao Congo é um sinal claro disso. Os flashbacks servem não apenas para contar o passado de Tarzan, como também o de Jane, quando foi ao Congo com o pai que ensinava inglês, e se no início parecem atrapalhar a narrativa, com o andamento servem quase como um complemento a Greystoke. A partir daí, Yates opta em fazer de Tarzan uma espécie de libertador do Congo, com todas as cenas de ação a que se tem direito.

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Em relação a Greystoke, este A lenda de Tarzan se sente um filme pleno de aventura, sem a mesma tentativa de estabelecer o personagem como uma figura antropológica. Ainda assim, é claro, por trás dos temas de escravidão, que se trata de um personagem que une o que se considera civilização e o primitivo, sem que se saiba onde um começa exatamente e onde outro termina. E Clayton, abalado por não poder ter tido ainda um filho com Jane, tem sua infância traumática recuperada – seu encontro com crianças se mostra não como um ensinamento de como viver na selva, mas sim um desejo de reencontrar a infância. Em paralelo, Jane ensina num museu sem deixar de sentir que o passado de outro lugar distante lhe interessa mais.
A primeira preocupação com esta releitura do personagem se concentra em sua naturalidade ou não. Perto de Greystoke, é visivelmente um filme moderno. No entanto, mesmo apurado tecnologicamente, ele consegue ser mais eficiente na reconstituição do que outros, e se há uma cena específica com elefantes que lembra Mogli – O menino lobo, grande sucesso de Favreau deste ano, ele consegue ser superior à reconstituição dos primatas do que os dois últimos Planeta dos macacos.
As belezas naturais se mostram ao longo da navegação do barco de Rom – que podem lembrar, em parte, Fitzcarraldo, em parte Aguirre, ambos de Werner Herzog, com um grande acerto na fotografia de Henry Graham. Em se tratando do elenco, se Skarsgård é levemente contido, funcionando nas cenas de ação e menos dramaticamente, Robbie consegue fazer uma Jane interessante, e Waltz se mostra mais uma vez um vilão capaz de sustentar a trama – e já é o terceiro seguido dele, antecipado pelo de Grandes olhos e 007 contra Spectre –, mas é Samuel L. Jackson que funciona de maneira decisiva, uma grande variação em seus papéis recentes, embora seu roteiro não seja muito expansivo.

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Yates utiliza esse elenco demarcando cenas de ação em acréscimo a flashbacks e nunca deixando o ritmo esmorecer. Ele tem um olhar para os detalhes e os conflitos nunca se sentem sem tensão, principalmente naqueles em que Tarzan enfrenta macacos ou quando há um determinado estouro de animais em direção a uma cidade. Se o filme não chega a ser um triunfo épico – e duvido que tenha sido sua pretensão –, ele possui uma contundência e leveza, ao mesmo tempo que expõe seus argumentos sobre a invasão do homem branco na selva. É, sem dúvida, uma história anticolonialista, assim como Greystoke mostrava a falência da aristocracia e uma necessidade de voltar ao habitat natural. Entende-se que às vezes A lenda de Tarzan possa ser visto como uma caricatura dessa tentativa de invasão e de exploração, jogando os temas um atrás do outro sem uma maior reflexão. Por outro lado, o que no início soa apenas como um jogo político para despertar uma conquista pode, ao final, tomar um nascimento verdadeiro. Num blockbuster comum, inevitavelmente poderia ser visto de maneira enviesada, porém no filme de Yates soa mais comovente.

The legend of Tarzan, EUA, 2016 Diretor: David Yates Elenco: Alexander Skarsgård, Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Djimon Hounsou, Jim Broadbent Roteiro: Adam Cozad, Craig Brewer Fotografia: Henry Braham Trilha Sonora: Mario Grigorov Produção: Alan Riche, David Barron, David Yates, Jerry Weintraub, Mike Richardson Duração: 110 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Dark Horse Entertainment / Jerry Weintraub Productions / Riche Productions / Village Roadshow Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

 

Os oito odiados (2015)

Por André Dick

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Depois de Django livre, Tarantino volta ao gênero do faroeste em que desenhava um panorama da escravidão nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que oferecia uma vingança a seu personagem principal, interpretado por Jamie Foxx. Em Os oito odiados, novamente com uma fotografia excepcional de seu habitual parceiro, Robert Richardson, Tarantino volta a mostrar não exatamente surpresas na estrutura do roteiro (dividido em capítulos como os seus melhores filmes, a começar por Bastardos inglórios), mas na maneira de captar a ação. É como se ele tivesse vendo a estrutura de alguns filmes europeus (vide O gebo e a sombra), com uma caracterização quase teatral. Enquanto Django livre era um faroeste inteligente e plástico, sua sustentação se dava principalmente pelas cenas de tiroteio com a característica mais pop de Tarantino.
Em Os oito odiados, John Ruth (Kurt Russell) leva uma prisioneira algemada a seu braço, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), numa diligência conduzida por OB Jackson (James Parks), quando se depara com a figura do Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e, em seguida, com aquele que se diz novo xerife de Red Rock, Chris Mannix (Walton Goggins). Numa nevasca complicada, eles acabam parando na hospedaria acolhedora de Minnie, antes de onde deveriam ficar, exatamente a cidade de Mannix. Na hospedaria, encontram o General Sandy Smithers (Bruce Dern), Oswaldo Mobray (Tim Roth, pouco mais de vinte anos depois de fazer o assaltante nervoso de Pulp Fiction), Bob (Demian Bichir) e Joe Gage (Michael Madsen).

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Interessante como cada personagem parece ter uma característica que parece defini-lo, a começar com Mannix, visto como um covarde por John Ruth e Major Marquis. Oswaldo Mobray é uma espécie de inglês elegante apegado às vítimas que ainda fará, Bob se mostra como o mexicano solícito, Joe Gage (talvez uma brincadeira com John Cage, o músico de vanguarda) como aquele interessado em visitar a sua mãe e escrever em seu diário, e o General Sandy Smithers não pretende sair de seu silêncio numa poltrona acomodada longe da porta.
Todos esses personagens ganham um espaço e a demora que leva para cada um entrar ou sair do estabelecimento de Minnie concedem suspense para a narrativa, justificando a montagem de Fred Raskin, colaborador de Tarantino desde Django livre e substituto de Sally Menken, a montadora dos clássicos do diretor. Há uma base nítida não apenas em filmes europeus (o já citado O gebo e a sombra e O cavalo de Turim); Tarantino leva para o cinema a mesma peça que encenou inicialmente quando ainda decidia se faria o filme ou não. A colocação de estacas pelos personagens para encontrar o banheiro na nevasca é um exemplo claro de que se dá importância aqui a uma lentidão que não havia na narrativa apressada de Django livre. Ou quando Ruth adentra a hospedaria e procura por comida ou café, sem considerar quem se encontra no lugar.
Ao mesmo tempo, o design de produção deste filme parece mais rico e dialogar mais com o Velho Oeste do que o de Django livre. Todos os detalhes (da paisagem invernal à concepção rústica da hospedaria) recebem um cuidado por parte de Tarantino, inclusive alguns que não são comuns em sua trajetória. Outro exemplo: a trilha sonora de Ennio Morricone (cujas notas lembram aquelas de Os intocáveis) supera a escolha de canções dos últimos filmes de Tarantino que mais usavam esse elemento (Kill Bill – Vol 1 e Django livre). Ou seja, nesses filmes, em algum momento, o diretor parecia não mesclar música e imagens, senão simplesmente colocar a imagem como pano de fundo para a música que transcorria – a longa cavalgada de Django até a fazenda do vilão feito por DiCaprio é um exemplo clássico dessa tendência de Tarantino.

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Além disso, a trilha de Morricone parece soar estranha no conjunto, pois lembra mais os acordes empregados num filme de terror ou de suspense, mais especificamente com outro filme em que homens ficam presos num lugar, numa determinada estação do Ártico, em O enigma de outro mundo. Tarantino imagina, mais do que John Carpenter, de qualquer modo um Sam Peckinpah. Ao contrário de discussões sobre quem pode carregar um alien, há referências à escravidão, à aversão aos mexicanos, ao racismo, à rivalidade entre o sul e o norte dos Estados Unidos e nenhum dos personagens se coloca como isento de culpa.
Em termos plásticos, mesmo pela fotografia cuidadosa de Richardson, não se pode deixar de ver algumas semelhanças do filme, como O regresso, diante da obra O portal do paraíso, de Cimino, sobretudo porque a ação se passa no Wyoming, e com a obra estrelada por Warren Beatty nos anos 70, Quando os homens são homens, tanto pelas paisagens gélidas quanto pelo inesperado comportamento dos personagens. Esta plasticidade, no entanto, só é realmente destacada por causa do elenco, sobretudo Samuel L. Jackson, que consegue suas melhores atuações justamente com Tarantino. Assim como em Pulp Ficition, ele é aquele que tece o elo entre os personagens, entre a justificativa de vingança e a necessidade de estabelecer acordos, entre a intranquilidade e o sossego diante das piores situações. É um personagem bastante ambíguo, como todos os outros, ao qual Tarantino dá especial atenção porque sabe que sua obra depende dele para render.
E Tarantino sempre cresce, com seus personagens, em lugares delimitados, e por isso suas obras Kill Bill – Vol. 1 e Django livre se sentem um pouco mais dispersas exceto nas sequências de confrontos pessoais.

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Assim, ele parece conduzir melhor seus filmes quando coloca os personagens em situações no limite em lugares demarcados. A interação do personagem de Jackson com os demais é sustentada pelo confronto de olhares, uma especialidade do ator e também de seu companheiro de cena, Bruce Dern, logo depois de Nebraska e numa situação mais delicada, enquanto Russell e Jason Leigh compõem uma dupla inquieta e implacável – e quando surge um momento de alívio, e é dada à personagem dela o direito de cantar uma música, Tarantino lembra de que seu filme trata de outro tema. A aparenta passividade dos personagens contrasta com a violência que carregam, principalmente de Ruth e sua prisioneira. O sangue, no filme, respinga sobre o gelo e não há fogo que possa aquecer esses personagens, em razão da frieza que carregam. Nesse sentido, Tarantino compõe um faroeste que tem as características do gênero apenas em sua superfície – quando esconde, mais ao chão, sua verdadeira subversão e seus diálogos que rumam a uma situação indefinida.
Daí, talvez, ser Os oito odiados o filme mais violento de Tarantino, com cenas realmente de desviar o olhar, numa espécie de diálogo com o mais recente Refn, de Drive e Apenas Deus perdoa. E talvez por isso ele coloque em cena imagens religiosas que possam tentar salvar esse universo e os homens e mulheres que habitam esse universo – sendo a mulher o símbolo da solidão e uma espécie de figura associada às bruxas, como era vista em uma determinada época. A violência contra a mulher em Os oito odiados é perturbadora, mais do que em qualquer obra de Tarantino, mas cria uma correspondência com a imagem de Jesus Cristo crucificado logo no início do filme, quando surge, ao fundo, a diligência que dá início à história. E a narrativa centra também suas expectativas em discussões políticas, sobre a Guerra Civil dos EUA e sobre uma determinada carta de Abraham Lincoln a um de seus personagens, podendo ser verdadeira ou não. O encontro entre esses personagens não é motivo apenas para uma sequência ininterrupta de diálogos, alguns deles extensos, e num contato direto com outras obras de Tarantino, e sim com uma teatralidade conduzida com esmero impressionante. A maneira como o cineasta leva seu elenco, principalmente Russell, Samuel L. Jackson e Goggins, é notável, e Leigh rouba a cena sempre que é chamada à aparição. Visto como uma peça quase política pelo tom de suas ideias – e muitas têm a ver diretamente com o sistema norte-americano –, Os oito odiados é um dos grandes filmes da trajetória de Tarantino e uma referência para quem gosta de cinema ousado.

The hateful eight, EUA, 2015 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Walton Goggins, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, Demian Bichir, Bruce Dern, Michael Madsen, James Parks Roteiro: Quentin Tarantino Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: Ennio Morricone Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher Duração: 182 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Columbia Pictures / The Weinstein Company

Cotação 5 estrelas

Star Wars: Episódio III – A vingança dos Sith (2005)

Por André Dick

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Seria difícil que George Lucas, após 22 anos afastado das câmeras, como diretor, conseguisse criar uma obra equivalente à primeira trilogia, no primeiro episódio da segunda franquia de Guerra nas estrelas, intitulado A ameaça fantasma. Não querendo oferecer seu novo projeto a outros diretores, como fez com O império contra-ataca e O retorno de Jedi, ele tentou evitar aquilo que os fãs mais fiéis temiam: que o estilo e magia da saga se perdessem pelos corredores de sua empresa ILM. O mais interessante nesse filme é, dessa maneira, a maneira como Lucas não chega a congelar os personagens, que, mesmo não substituindo o carisma dos originais, conseguem, num primeiro momento, agradar: por exemplo, interpretando o mestre Jedi Qui-Gon Jinn, Liam Neeson comprova ser um bom ator, substituindo o estilo sábio de Alec Guiness do primeiro Guerra nas estrelas e, entre excessos de efeitos especiais, as paisagens de Tatooine tinham o mérito de dialogar com a saga original.
O descompromisso de A ameaça fantasma não anuncia o estilo do segundo, O ataque dos clones, cujo tom interno é mais melancólico e mesmo arriscado, contrariando, ao contrário do primeiro desta trilogia, a franquia antiga, mesmo com a habitual trilha de John Williams. Continuam nele os problemas de A ameaça fantasma, em que existia pouco humor, mesmo mostrando R2-D2 e C-3PO, mas se anuncia a base da história que repercutirá em A vingança dos Sith. Percebe-se que Annakin Skywalker (agora Haydeen Christensen) quer tomar o lugar do mestre Obi-Wan Kenobi (McGregor) e confrontar Yoda – em movimento –, assim como Mace Windu (Samuel L. Jackson).

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A questão política envolvendo a princesa Amidala (Natalie Portman), por quem Annakin se apaixona, continua presente, e Palpatine tenta organizar o jogo. No entanto, nem os cenários diferentes e a presença de Jango Fett (Temuera Morrison), pai de Boba Fett (da série antiga), acabam conferindo ao filme uma ação interessante. Outro vilão, Conde Dooku (o ótimo Cristopher Lee), não chega a ter uma relação direta com a ação, e os personagens estão constantemente passando em frente a cenários magníficos, ou trocando ideias com fundo político, mas parecem não fazer parte deles. Ou seja, o chroma-key, aqui, é desgastante. No entanto, há algumas qualidades: há um bom ritmo, com uma perseguição inicial que remete a Blade Runner, as paisagens reproduzem um visual fascinante e tudo se encaminha para uma grande luta de jedis numa caverna do deserto.
A segunda trilogia de George Lucas precisava encerrar com um filme pelo menos superior aos dois primeiros, sobretudo o segundo Suas cenas de ação ininterruptas e o excesso de acontecimentos não chegam a cansar e, em A vingança dos Sith, Lucas entrega uma obra à altura da saga original, embora sempre sem o mesmo humor e sem os mesmos personagens expressivos (apesar de Yoda e da reaparição, por momentos, de Chewbacca). O cineasta, na verdade, não quis abrir a concessão de que a tecnologia da nova trilogia não substitui um elenco interessante e interessado. Embora Lucas ainda continue um diretor com dificuldades para lidar com atores, Christensen, McGregor e Portman, desperdiçada em diálogos sem muito vigor nos filmes anteriores, passam por acontecimentos que merecem destaque e conseguem diminuir a distância emocional que havia entre eles. Na pele da rainha Amidala, especialmente Portman, alguns anos depois da atuação em O profissional, sem sinais do futuro Cisne negro, não desaponta, apresentando uma atuação conflitante. Parece ser de Ewan McGregor, como Obi-Wan Kenobi, a atuação menos convincente, levemente deslocado, mesmo em comparação a Christensen, que consegue fugir um pouco ao estilo consagrado em Jumper – mas o final surpreende quando finalmente ele adquire uma ressonância que faltou à trilogia.

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A vitalidade também resulta dos efeitos especiais, mas pertence muito mais a uma montagem que não deixa de amarrar a história da traição de Palpatine (o excelente Ian McDiarmid) e a transformação consequente em mestre de Annakin (e Andersen, que parecia apático no segundo, transmite uma expressão pessoal de desespero), a um passo de se tornar Darth Vader. E o jedi Mace Windu finalmente tem uma participação decisiva na história.
A revolta de Annakin tem um lado bastante obscuro, aqui, pela primeira vez, aliada a um grande sentimento de perda, em relação a seu próprio futuro; mais do que uma fantasia, o comportamento dele decisivamente é perturbador. Annakin, portanto, quando viaja para outro planeta, a fim de deflagrar o domínio da galáxia, leva todos os personagens ao que seria a antiga trilogia, com figuras estranhas, robôs mais inovadores do que os dois primeiros episódios da nova trilogia e cenas de batalha realmente notáveis, sobretudo no início do filme e na investida contra os jedis da República. Existe, no personagem, um conflito com a imagem da infância, e é esta torna o olhar de Lucas mais compenetrado e negativo. Ao contrário da primeira trilogia, O ataque dos clones já tinha uma tristeza impenetrável, mas este, sem negá-la, consegue inseri-la numa narração, tornando alguns dos momentos interessantes e de significado para a ligação com a primeira trilogia, e a sensação é uma mescla de perda e nostalgia. Há um trabalho elaborado de fotografia tanto no que diz respeitado ao jogo de luzes (a chegada de Annakin à Terra e o reencontro com Amidala ganha um tratamento específico de Lucas) quanto ao uso de cores (a primeira batalha antecipa boa parte dos efeitos usados hoje em produções recentes) e de movimentação de câmeras que remetem ao talento inicial de Lucas para uma visão futurista, entregue em THX 1138, seu filme ainda mais experimental.
A vingança dos Sith ganha elementos próprios mesmo em relação aos outros da série, com uma certa ambiguidade na ação dos personagens, tornando-o talvez o mais denso. Com direção de arte impressionante, figurino rebuscado, lutas com certo impacto – quase ausentes no segundo, por exemplo –, o episódio faz esquecer, em parte, o desapontamento visível na comparação com a primeira trilogia. Uma das poucas ficções interessantes deste início de século. Lucas realmente demonstra interesse em finalizar a trilogia e nos guarda uma peça a ser revista, forte o suficiente para não ter o impacto reduzido dez anos depois.

Star Wars: episode III – Revenge of the Sith, EUA, 2005 Diretor: George Lucas Elenco: Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Frank Oz, Anthony Daniels, Christopher Lee, Keisha Castle-Hughes, Silas Carson, Jay Laga’aia, Bruce Spence, Wayne Pygram, Temuera Morrison, David Bowers, Oliver Ford Davies  Roteiro: George Lucas Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: John Williams Produção: Rick McCallum Duração: 140 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas e meia

Vingadores – Era de Ultron (2015)

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Desde o grande sucesso do primeiro Os vingadores, a mobilização dos estúdios Disney e da Marvel para os filmes dos super-heróis ligados a esta franquia tem sido mais assídua. Logo após os acontecimentos que colocaram Nova York em estado de alerta para possíveis invasões vindas do espaço, foi lançado Homem de ferro 3, seguido por Thor – O mundo sombrio e, no ano passado, Capitão América 2 – O soldado invernal, com a presença também da Viúva Negra. Além desta e do Gavião Arqueiro, Hulk também continua ainda sem o filme próprio com Mark Ruffalo, levando em conta que tem as versões com Eric Bana e Edward Norton. Se Os vingadores continua ainda sendo confundido com uma marca, mais do que uma obra ou adaptação de história em quadrinhos de Stan Lee, e se queira às vezes considerá-lo como mais um blockbuster, deve-se dizer que Vingadores – Era de Ultron traz Joss Whedon ainda tentando lidar com suas primeiras impressões como diretor, mesmo que nesse intervalo tenha feito Muito barulho por nada, uma adaptação moderna de Shakespeare e em preto e branco. Whedon, antes de ganhar esta oportunidade, era mais conhecido como o criador da série Buffy – A caça-vampiros e roteirista de Toy Story, e, de certo modo, tem um manancial de escolhas depois de realizar a primeira parte, entre elas a de lidar com atores que possuem uma carreira própria e mesmo em filmes ditos de público mais restrito, como Scarlett Johansson em Ela e Sob a pele; Ruffalo em Margaret e Mesmo se nada der certo; e Hemsworth em Rush e Hacker. Isso oferece a ele um caminho interessante, de colocar atores não normalmente vistos neste gênero – apesar de também terem suas trajetórias ligadas a ele, como Hemsworth – no centro da ação.

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Na primeira parte de Vingadores, Whedon revela uma determinada tentativa de já colocar todos os personagens em ação, literalmente invadindo a tela num salto em conjunto, numa missão a Sokovia, país fictício do leste europeu, em combate ao Barão Wolfhang von Strucker (Thomas Kretschmann). Ao invés de coordenar um grupo de experiência com outro intuito – político –, o barão Strucker está à frente de uma equipe que tem usado o cetro usado por Loki e como resultado de sua experiência com humanos, ligada à Hydra, os gêmeos Pietro (Aaron Taylor-Johnson) e Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) adquirem super-poderes. Esta passagem por Sokovia antecede uma série de experiências que o próprio Stark tentará fazer, com a ajuda do Dr. Banner, o que pode colocar em risco não apenas o seu grupo, como a própria humanidade – e aqui Whedon desliza para uma discussão que vem desde o primeiro filme de Homem de ferro: até onde pode ir a ciência para que não se coloque em risco a humanidade, envolvendo Jarvis (Paul Bettany), o sistema com inteligência artificial de Stark.
No entanto, os vingadores estão dispostos a fazer uma pausa, e compartilham uma festa na mansão de Stark; nesta longa sequência, desenham-se alguns caminhos tanto para a narrativa presente quanto para os próximos, que incluem não apenas Steve Rogers, o Capitão América, com seu amigo Sam Wilson (Anthony Mackie), que aparece em O soldado invernal, como também a relação entre Bruce Banner e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), e a amizade de Stark por James Rhodes (Don Cheadle). Há uma tentativa clara de Whedon, também, em esclarecer o paradeiro de outros personagens que não aparecem aqui, como Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e Jane (Natalie Portman) e, nessa preocupação, se esvaem alguns minutos que certamente não compreenderiam a história, pois se trata de uma explicação estranha, à medida que, por um lado, pode não ter havido espaço no roteiro ou simplesmente as duas atrizes não puderam interpretá-las.

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Essas explicações, ao mesmo tempo que soam necessárias para quem acompanha todos os filmes de Marvel, fazem com que o roteiro se desvie em alguns momentos de seu foco principal. Mas, se há uma qualidade que já havia ficado clara com o primeiro Os vingadores é que Whedon tem uma disposição de desenvolver esses personagens em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. Desta vez, ele coloca os heróis não apenas diante de uma ameaça enigmática, que pode colocar a ciência em xeque, como também em contrapor e unir todos em relação aos gêmeos. Nisso, há imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remete a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los, o que era incentivado no primeiro filme por Philip Coulson (Clark Gregg). Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses acabam servindo como impulso para uma das melhores sequências, que se liga a um ambiente campestre e no qual podemos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação (além de criar um diálogo com a ficção científica Interestelar, em que um aviador se escondia na pele de um fazendeiro e poderia ajudar a humanidade a se salvar de um desastre). Se as cenas de ação dos filmes dos heróis isolados parecem interessantes, nenhuma soa tão grandiosa quanto aquelas que víamos em Os vingadores.
Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não fica a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato parece preparar a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais soam tão boas ou ainda melhores do que as da primeira parte, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas sitações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, que soa original e espetacular, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco,

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Em meio às sequências de ação, há uma sucessão contínua de traços de humor, no entanto, pendendo mais para a série Thor do que para o terceiro Homem de ferro, eles conseguem dar uma solidez para a narrativa. Whedon tem uma agilidade grande em captar essas cenas sem que elas pareçam exageradas ou desprovidas de algum elemento humano, e neste ponto o que poderia ser apontado como desconexão entre algumas linhas de roteiro se transforma naquilo que é essência: esses heróis, para Whedon, são mitológicos e trabalham com as mesmas emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como, aqui, todos ganham linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark: eles estão, de certo modo, sempre ligados ao passado – e a única maneira apontada para uma condição de satisfação humana é aquela do Arqueiro. Este, inclusive, ressoa uma fala de Coulson do primeiro Os vingadores quando trata do uniforme feito para Steve Rogers. Mas, se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais foi obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.
Todos os super-heróis conseguiram desenvolver também, com a ajuda dos filmes próprios, uma personalidade características, e são auxiliados pelas atuações de Johansson, Hemsworth e Evans, além de Ruffalo e Renner (que no anterior passava quase toda a metragem sob domínio de Loki). Downey Jr. não desaponta no papel, entretanto é cada vez mais visível seu desconforto, assim como no terceiro Homem de ferro. Não apenas pelo roteiro, é exatamente o personagem de Banner que mais se destaca, muito pela presença de Ruffalo, cuja atuação mais interessante é aquele empregada em Zodíaco, mas que consegue, aqui, seguir na linha de Bill Bixby, da série de TV.

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Embora faça falta exatamente Loki (em razão do ótimo ator Tom Hiddleston), o vilão deste filme, por causa da voz de James Spader, soa com um fundo ameaçador, ainda que não totalmente desenvolvido por causa da quantidade de perspectivas que a narrativa adota, com ações ocorrendo ao mesmo tempo e em lugares diferentes, com vários personagens. Ainda assim, mesmo os coadjuvantes, como o próprio Aaron Taylor-Johnson, Olsen, Claudia Kim (como a cientista Helen Cho), Andy Serkis (como o traficante de armas Ulysses Klaw) e Cobie Smulers (como Maria Hill) estão bem em seus respectivos papéis, além de uma inesperada Linda Cardellini (da saudosa série Freaks and geeks) num papel discreto, mas eficiente. Este conjunto muitas vezes consegue levar o roteiro de Whedon para um estágio em que os vínculos entre as pessoas podem ser o único motivo, como no primeiro Os vingadores, de a humanidade ter, realmente, a sua sobrevivência. E, como o primeiro, o fato de este ter quase duas horas e meia não registra o tempo transcorrido: se o espectador está disposto a se entregar a um universo desta espécie, verá um grande encontro, já desde a primeira sequência.

Avengers: age of Ultron, EUA, 2015 Diretor: Joss Whedon Elenco: Robert Downey Jr.,  Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Mark Ruffalo, Chris Evans, Chris Hemsworth, Aaron Taylor-Johnson, Andy Serkis, Anthony Mackie, Claudia Kim, Cobie Smulders, Don Cheadle, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson, Idris Elba, James Spader,  Linda Cardellini, Paul Bettany, Stan Lee, Stellan Skarsgård Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman e Brian Tyler Produção: Kevin Feige Duração: 141 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

Os vingadores (2012)

Por André Dick

Os vingadores.Filmes 3Embora Os vingadores seja uma criação de Stan Lee, nesta adaptação para o cinema Joss Whedon conseguiu confeccionar uma espécie de imaginário para o que se restringe, sob certo ponto de vista mais apressado, a um universo em que os super-heróis Thor, Capitão América, Hulk e Homem de Ferro pretendem salvar a Terra de terríveis ameaças. Em seus filmes isolados, Thor e Capitão América tinham certas qualidades – embora nunca totalmente viabilizadas, apesar de seus diretores Kenneth Branagh e Joe Johnston –, Hulk, nem tanto, enquanto Homem de Ferro certamente se destacava, pela interpretação de Robert Downey Jr. Foi preciso que Joss Whedon, um dos criadores de Buffy e um dos roteiristas de Toy Story, conseguisse dar uma unidade a eles. A dificuldade seria justamente esta: reunir tantas figuras no mesmo espaço e ainda dar uma certa importância determinada a cada uma (daqui em diante, spoilers).
Locki vem de novo do planeta Asgard, a fim de roubar o Tesseract, um aparelho capaz de colocar a Terra em polvorosa e permitir uma invasão alienígena. Diante de armamentos militares, Locki, já no início, interrompe qualquer chance de defesa, trazendo para o seu lado o cientista Erik Selvig (Stellan Skarsgård) e Clint Barton, o arqueiro (Jeremy Renner), e se movimenta sobre uma caminhonete para um deserto, perseguido pelo helicóptero de Nick Fury (Samuel L. Jackson). Ele escapa. Para detê-lo, é preciso uma medida mais urgente: a convocação de heróis que possam eliminar qualquer ameaça à integridade das pessoas. Não só à integridade: Locki é interpretado com um misto de caricatura e ódio por Tom Hiddleston (ótimo ator, como comprova também em Amor profundo), cujo desejo é fazer os outros se ajoelharem diante dele, quase como o trio que persegue o homem de aço em Superman II.

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Há sequências não leves, mas a apresentação de cada personagem, ou a simples retomada de episódios anteriores de cada herói, traz humor, incluindo-se, aqui, a presença de Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson). Ela, depois de um encontro com gângsteres, no qual usa os pés da cadeira como arma de combate, precisa ir à Índia e convocar o Dr. Banner para a batalha e quando este se transforma, sabe-se, vira Hulk. Quando Locki é capturado, Thor surge no ar, mas logo entra em atrito com o Homem de Ferro. Brigando, caem em meio a árvores de uma montanha. Stark, o Homem de Ferro, lhe pergunta: “O que é isso? Shakespeare no parque?” (certamente Muito barulho por nada).
Todos são levados para um porta-aviões, também uma espécie de nave espacial, para onde se leva Locki quando ele é preso. O Homem de Ferro dá choques no braço de Dr. Banner com o intuito de ver a fera; quando se dão por conta, fazem parte do plano de Locki em destruí-los. Há um fã desses heróis, principalmente de Steve Rogers, o Capitão América, que trabalha para Nick Fury, Philip Coulson (Clark Gregg), que guarda as cartas de cada um como se quisesse reprisar a infância. “O uniforme não é antiquado?”, pergunta Steve sobre o uniforme do herói que encarna. “Talvez seja o que as pessoas esperam”, lhe responde Phillip. No entanto, Whedon, em meio aos subterfúgios do roteiro, consegue amplificar um cenário de guerra: o porta-aviões se transforma num palco para os confrontos desastrados dos heróis com Locki, ou entre eles mesmos, desentendendo-se. Não há nada tão espetacular assim no cinema recente e amplificado, sonoramente, em todos os níveis, ao som da trilha de Alan Silvestri, uma espécie de mistura entre seus trabalhos de De volta para o futuro e Forrest Gump. A destruição não chega a ser gratuita, mas é pomposa, e Whedon acelera os níveis de ação em cada herói que traz à cena para a grade de duelo e, em seguida, tenta guiá-los para um caminho mais afeito a defenderem em conjunto a Terra.

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Os vingadores se ressente de ser um filme bastante específico em suas partes: início (apresentação dos heróis), meio (todos no porta-avião) e fim (a ida para Nova York), mas há abrigado nessa estrutura previsível um filme bastante divertido e mais equilibrado do que aparenta. Há um uso frequente de CGI e montagem frenética, demorando a criar um corpo próprio, em razão de uma determinada direção de arte apressada e pela própria inclusão de vários heróis, com alguns personagens sendo relegados necessariamente a segundo plano (uma esposa de Stark, Gwyneth Palthrow, isolada do marido; um arqueiro na pele de um ator sem carisma, Renner), mas ainda assim formando uma coesão nos momentos de luta e enfrentamento. Há detalhes que impactam (a descida de Thor por força de Loki) e divertidíssimas (o expressivo e imprevisível Harry Dean Stanton tenta acordar Banner do meio de escombros, perguntando se ele tem algum tipo de problema), ao mesmo tempo em que o mote – uma invasão alienígena a partir dos arranha-céus de Nova York – é previsível, embora nem por isso menos espetacular, lembrando dragões gigantes de Chinatown planando sobre toda a cidade.
Whedon é um diretor com referências pop, mas que não consegue ainda não consegue elaborar a narrativa de forma mais expansiva, ainda preso a referências externas (dos outros filmes da série). É interessante que ele tenha dirigido recentemente sua pontaria para Spielberg e Lucas, falando de piadas autorreferentes de Indiana Jones e o templo da perdição e do final inconcluso de O império contra-ataca, quando ele deve sua formação a esses nomes. Mas isso possivelmente aconteceu pelas conferências de Spielberg e Lucas, este também, de forma indireta, dentro da Walt Disney, não reconhecendo uma nova geração, além do nome de J.J. Abrams. Whedon tem em seu currículo o roteiro de Toy Story e ajudou a criar a série Buffy, mas suas contribuições de roteiro para O segredo da cabana e Alien – A ressurreição (que ajudou a terminar com a primeira franquia) são bastante problemáticas, embora Muito barulho por nada seja uma curiosidade entre as adaptações de Shakespeare e sua ideia de lançar o filme In your eyes, do qual é autor do roteiro, também via internet certamente terá influência.

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Os vingadores confere por meio de sua trama, uma espécie de alma aos quadrinhos, ao contrário das maquetes militarizadas de Transformers, e uma espécie de reminiscência do que foi Superman um dia, não em sua versão de 2006, mas numa tentativa de volta aos tempos primordiais de tranquilidade, sem contar as rotações que devem ser feitas ao redor da Terra para que tudo volte a como era antes. Isso se deve ao elenco que faz os heróis. Robert Downey Jr., Mark Ruffalo e Chris Hemsworth são atores que conseguem expressar uma espécie de dramaticidade contida em meio a uma sucessão de explosões, enquanto Johansson, com sua limitação já conhecida (pelo menos antes de Ela), consegue, de determinado modo, mostrar uma espécie de mescla entre receio e bravura, quando precisa, afinal, se deparar com Hulk. Se Evans, na pele de Capitão América, consegue transparecer um homem dos anos 40 congelado para enfrentar os dias presentes, o melhor nome para reuni-los é, sem dúvida, Samuel L. Jackson, com sua presença cênica entre o trágico e o cômico, mas sem decepcionar o espectador.
Diante desses personagens, o filme de Whedon se constitui numa espécie de retomada de um instinto humano de sobrevivência e de crença na fantasia, como lembra Coulson em determinado momento. Parece ser, basicamente, em meio ao roteiro com poucos diálogos, uma síntese da hora final, com direito até à participação de Stan Lee, disfarçado em meio a pessoas, ou um refúgio para os heróis num lugar a ser reconstruído, para que, finalmente, os super-heróis possam se reunir numa taverna em que os donos recolhem os escombros da guerra.

The avengers, EUA, 2012 Diretor: Joss Whedon Elenco:Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Chris Evans, Samuel L. Jackson, Jeremy Renner, Stellan Skarsgård, Cobie Smulders, Gwyneth Paltrow, Tom Hiddleston, Paul Bettany (voz), Amanda Righetti, Lou Ferrigno (voz), Clark Gregg, Jenny Agutter, Walter Perez, Alicia Sixtos, Evan Kole, Sean Meehan, Carmen Dee HarrisRoteiro: Joss Whedon Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora:Alan Silvestri  Produção:Kevin Feige Duração: 136 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Marvel Enterprises / Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

 

RoboCop (2014)

Por André Dick

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Em 1987, o primeiro RoboCop apresentava, mais do que a violência conhecida, uma espécie de imaginação referente ao universo futurista, em que os policiais humanos poderiam começar a ser substituídos por robôs. Mas o que mais chamava a atenção é que o filme do holandês Paul Verhoeven lidava, de forma interessante, com uma linguagem de quadrinhos, influenciando de forma decisiva o Batman de Tim Burton, sobretudo pela inserção de noticiários em meio à trama. E era nisto que morava a sua diversão. No entanto, ninguém falava em RoboCop como ícone de um novo cinema, da corrosão (literal) de Verhoeven, da sátira incrivelmente costurada.
Nisto reside a surpresa de, no novo século, RoboCop ser uma espécie de obra-prima da ficção científica e o remake de José Padilha ser uma espécie de ameaça a esta aura de filme inalcançável. Quando soube dessa refilmagem, a primeira sensação foi de temor. RoboCop figura como um dos melhores filmes dos anos 1980, mas basicamente ele é (e foi) um filme que tentava ser pop – e se transformou em cult justamente por essa mistura entre um lado mais popular e a estranheza, com seu elenco original e cenas de extrema violência, o que Verhoeven usaria novamente em O vingador do futuro. O mesmo Verhoeven praticamente afastado de Hollywood por causa de sua joia menosprezada Showgirls – e mesmo com seu Tropas estelares, visto em seu lançamento como apenas um cinema trash no espaço – hoje é exemplo do que deveria ser um diretor de ficção científica. Verhoeven tinha elementos que nem os diretores de Hollywood do gênero possuíam: uma vontade de misturar elementos de filme B com uma sofisticação. É isto que vemos em vários de seus filmes, mesmo de outros gêneros, como Instinto selvagem. Mas o RoboCop original não tem a dose fora de série de humor pelo qual é conhecido nem esta crítica ferina implacável – ele tem, aqui e ali, elementos de crítica ao sistema, contanto nada extraordinário – e tem um ambiente muito mais perverso, com violência explícita, não necessariamente uma qualidade, e drogas sendo usadas. Ou seja, era uma visão pessoal de Verhoeven.

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Padilha é precedido pelos dois Tropa de elite e teria sugerido assumir a refilmagem de RoboCop a produtores da MGM. Depois de recusar o roteiro da versão de Darren Aronofsky, que se retirou para dirigir Cisne negro, ficou claro que ele próprio tinha uma concepção particular do projeto. A questão passaria a ser as inevitáveis comparações com o filme de Verhoeven. Onde este é mais violento, o novo RoboCop passaria a ser mais asséptico; onde o do diretor holandês era mais bem-humorado e agressivo, mostrando o uso de drogas, o novo seria menos intenso e mais comedido. Quando se inicia o filme com os drones ED-209 nas ruas de Teerã, tentando garantir a segurança da população, com uma equipe de filmagem do programa de Pat Novak (Samuel L. Jackson) a postos, e os olhares de alguns moradores pela janela, fica claro que o novo RoboCop não agradaria quem esperava uma espécie de figura do futuro, mas afastada da política. No entanto, o novo RoboCop não chega a ser um filme estritamente político – como foram os filmes anteriores de Padilha, inclusive Ônibus 174. Nem mesmo quando logo se mostra, em seguida, a inoperância da polícia em perseguir um traficante na Detroit de 2028. O policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) se culpa pelo ferimento do parceiro numa cena de guerra e, depois de voltar para casa e reencontrar a mulher, Clara (Abbie Cornish), e o filho, David (John Paul Ruttan). O que acontece daí em diante o levará para a sala de pesquisas do dr. Dennett Norton (Gary Oldman), que está a serviço de Raymond Sellars (Michael Keaton), dono da OmniCorp. O governo americano não quer aprovar uma lei que permita uso de robôs em combate policial, e Sellars pede a Norton um robô com certa percepção humana. Murphy acaba servindo a isso – e é nisto que o novo RoboCop se baseia.
Mais do que um filme de ação ou do que um remake da obra de Verhoeven, o novo RoboCop discute a fusão possível entre o homem e a máquina. Quando Murphy se conhece pela primeira vez com a armadura, há um salto considerável da obra de Verhoeven para a obra de Padilha. Não há, nessa conversão, artifícios de um mero blockbuster, com orçamento milionário. O filme tem, e isso é considerável, uma alma definida. Ele mostra o reconhecimento de um homem diante de sua nova vida, não apenas alguém que é utilizado por uma corporação para se tornar um exemplo de policial do futuro.
Mas Padilha não se concentra especificamente no drama familiar, pois isso tiraria a mitologia do personagem, também ligada à ação. E, se há um equilíbrio bastante claro entre as questões científicas e vilões ambíguos de todos os tipos, temos também um filme de ação vigoroso, cuja montagem (com a presença de Daniel Rezende, que colaborou em Cidade de Deus e A árvore da vida) é não menos do que perfeita. Embora tenham deslizes e um excesso de narração em off, não se pode falar que os dois Tropa de elite sejam filmes sem uma autoria. Em RoboCop, o excesso de diálogos se converte numa síntese, como a armadura do personagem central, e se o poder da versão de Verhoeven era sua autenticidade o de Padilha é justamente um trato emocional. O momento especialmente em que RoboCop surge é simbólico, sobretudo quando ele se encontra, em determinado momento, em meio a um campo de plantações semelhante àqueles do Vietnã, embora na China – não antes sem uma homenagem clara a Avatar, de James Cameron. No futuro, a corporação norte-americana não consegue fugir de seu passado. Nesse sentido, os diálogos sobre salvar vidas humanas ou não, usando robôs sem uma porção emocional ou não, são muito interessantes, e Padilha vai além do que imaginou Verhoeven nos anos 80. Quando se importa em quantos milésimos de segundo alguém será morto, o filme pergunta se a vida de uma criança em cena de guerra será realmente importante para quem fabrica armas – e a relação do RoboCop com o filho estabelece uma ligação direta com o início do filme em Teerã. Padilha trata o personagem não com reverência, mas como parte de um contexto, sem afastá-lo, no entanto, de sua mitologia e da diversão. E talvez toda essa comparação com o anterior e um certo saudosismo ofusque o mais evidente: o novo RoboCop é impressionante.

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Padilha extrai das reações humanas e não dos diálogos a peça para seu filme funcionar, o que não seria possível sem o elenco. Gary Oldman é um excelente Norton, provando novamente ser um grande ator, capaz de extrair emoção de um material que nas mãos comuns se tornaria indefensável, e Joel Kinnaman é uma revelação como RoboCop. Peter Weller, do primeiro, nunca foi grande ator (pelo menos até sua atuação no recente Star Trek). Kinnaman não é apenas mais ator, como também consegue transparecer emoção num roteiro que pode ser considerado, dentro de determinados limites, um clichê (embora quando se ouve falar que Ela, de Spike Jonze, é um filme de clichês, os parâmetros ficam mais delicados). Sua transformação de simples policial no personagem-título é grande. Por sua vez, o até então desaparecido Michael Keaton consegue fazer uma mistura entre Miguel Ferrer e Ronny Cox da primeira versão, assim como Jennifer Ehle consegue desempenhar a assessora do cientista Liz Kline com grande eficácia, e Jackie Earle Haley também consegue boas linhas como Rick Mattox. Samuel L. Jackson, por sua vez, como o Pat Novak, colabora com a porção de crítica, discutindo o militarismo, embora alguns instantes de sua participação soem um pouco artificiais e encaixados de forma mais esquemática diante do restante. Mas a questão está lá: desde Fahrenheit 11/9, a obsessão norte-americana pelo militarismo não era tão criticada e, se Padilha não tem o sarcasmo de Verhoeven, as farpas de seu RoboCop ressoam muito mais do que a Detroit imaginada em 1987.
Todos esses personagens são envolvidos numa narrativa que se costura rapidamente, sem grande complexidade, mas que soa verdadeira e sem deixar pontas soltas, com o auxílio de efeitos visuais preciosos e uma direção de arte urbana alternando com corredores e salas de pesquisa. Há alguns elementos do início do filme que mostram uma certa dificuldade de adaptação ao cenário, uma certa experimentação com a atmosfera (e entre dedilhados de violão e uma música de Frank Sinatra não parecemos estar num filme de ficção científica), mas aos poucos se percebe que este tratamento é proposital, para que Murphy passe de sua forma humana a uma fusão com seu futuro, e tente se adaptar a ela. Em nenhum momento, sente-se o filme como um arremedo solto, tentando agradar infalivelmente a plateia, e mesmo onde há falhas logo a montagem consegue preencher a lacuna. Os sentimentos de Alex Murphy conseguem sustentar com segurança todo o ato final, com uma sequência de cenas de ação compactadas e bem resolvidas, e sentimos que há uma mão coordenando tudo, sem menosprezar o espectador. O mais importante parece ser que este RoboCop não pede desculpas a seu original e tenta seguir seu próprio caminho. O de Verhoeven sempre vai habitar a imaginação como um filme brutalmente original, mas este de Padilha possivelmente será mais reconhecido – não tanto agora, pois é muito recente – por seu impacto em termos de emoção e angústia humanas.

RoboCop, EUA, 2014 Diretor: José Padilha Elenco: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Samuel L. Jackson, Abbie Cornish, Jackie Earle Haley, Michael K. Williams, Jennifer Ehle, Jay Baruchel, John Paul Ruttan Roteiro: James Vanderbilt, Joshua Zetumer, Nick Schenk Fotografia: Lula Carvalho Trilha Sonora: Pedro Bromfman Produção: Eric Newman, Gary Barber, Marc Abraham, Roger Birnbaum Duração: 117 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Strike Entertainment

Cotação 4 estrelas e meia

Pulp Fiction – Tempo de violência (1994)

Por André Dick

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É  preciso ingressar no universo de Quentin Tarantino para gostar de seus filmes, feito a partir de referências cinematográficas, musicais e de quadrinhos, mas com um senso de espaço e tempo notáveis. Realizado quase ao mesmo tempo em que contribuiu com roteiros para Oliver Stone (Assassinados por natureza) e Tony Scott (Amor à queima-roupa), Pulp Fiction – filme que sucedeu Cães de aluguel – começa com Vincent Vega (Travolta) e Jules (Jackson) indo cobrar dívidas com um sujeito que não cumpriu acordo com o chefe deles, Marsellus Wallace (Ving Rhames), enquanto caminham tranquilamente por um corredor numa manhã que se anuncia como calma. Vincent está preocupado porque precisará fazer companhia à mulher do chefe, Mia (Uma Thurman), por uma noite. Tarantino leva o casal o casal para uma lanchonete estilizada, uma homenagem a Elvis Presley, também com sósias de James Dean e Marilyn Monroe, onde Vincent tenta demonstrar ou esconder interesse pela mulher do chefe, ao fazer comentários sobre o preço abusivo do milk-shake e comentar sobre o passado de outro capanga selecionado para cuidá-la. De acordo com o ambiente, a conversa desvia para o plano da atuação:  Mia participou de um piloto de série de TV, e Vincent, com suas pulp fictions de bolso, deseja participar desse universo paralelo. Trata-se de uma das sequências mais divertidas, com elementos de videoclipe, e referências a Os embalos de sábado à noite, ainda que vaga e estranha, pois não se sabe ao certo se termina em um episódio que não deve ser contado a Marcellus e envolve um casal suburbano (Eric Stoltz e Patricia Arquette), amigo de Vincent.

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Em outra história, temos Butch (Bruce Willis), boxeador que precisa perder uma luta e pensa, antes de tudo, viver tranquilamente com sua namorada (Maria de Medeiros). Quando criança, ele ganhou um relógio importante deixado por seu pai a um amigo (Cristopher Walken), escondido num lugar delicado durante um longo tempo, na II Guerra Mundial. A história de Butch se cruzará com as de Vincent e de Marcellus – desta vez num ambiente inesperado e filmado por Tarantino com requintes de crueldade e de histórias em quadrinhos perversas, mas também, e eis o diferencial do diretor, com um aspecto de humanidade (além de uma homenagem aos filmes dos anos 50, com a conversa de Butch com uma taxista, tendo um fundo externo acertadamente falso). E, por mais que os personagens se castiguem, a recompensa acaba sendo uma espécie de saída da rotina em que estão inseridas, mesmo que Tarantino nunca seja complacente nas imagens, tornando uma singela loja numa espécie de superfície do subterrâneo também do seu dono.
Pulp Fiction não deixa de ser o segundo passo, depois de Cães de aluguel, com sua conhecida sequência final, que trabalha com diferentes histórias a fim de compor um painel do submundo e de gângsteres que podem se arrepender e mesmo perdoar diante de uma situação extrema, ou se ajudarem quando se encontram com uma situação pior do que aquela que causam. Daí, Tarantino transitar por conversas sobre as drogas de Amsterdã e o Big Mac de Paris e pelos personagens de Samuel L. Jackson (que recita versículos da Bíblia para suas vítimas) e Travolta discutindo porque nenhum deles quer limpar o banco do carro ensanguentado depois de um acontecimento acidental; nesse caminho, é possível que haja a mudança completa para um deles e se passa a falar de redenção, capaz até mesmo de poder convencer dois assaltantes (Amanda Plummer e Tim Roth) que pretendem mudar sua vida passando a assaltar lanchonetes.

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São poucas as tramas, assim como mostraria em Kill Bill e Bastardos, mas Tarantino dá um tratamento especial a cada uma delas, e dar atenção significa transformar os diálogos em camadas, assim como lança mão de uma fotografia especial de Andrzej Sekula (contrastando as cenas que se passam à noite e de manhã cedo) e uma montagem com precisão rítmica de Sally Menke, que participou dos filmes de Tarantino até Bastardos inglórios e veio a falecer em 2010 (e é justamente a montagem que veio a prejudicar longas sequências de Django livre). Quando Vincent e Jules precisam buscar abrigo na casa de um conhecido (Tarantino) e necessitam da ajuda de um especialista para se livrar de um corpo, conhecido singelamente como Wolf (Harvey Keitel, em momento excelente), que sai de uma festa familiar diretamente para o serviço, o filme se encaminha como um quebra-cabeças que deve ser completado, pois podemos tanto estar no início do filme quanto em seu final. Mas esse detalhe não é brusco, ou seja, não se sente a quebra da narrativa. Como em poucos filmes, parece que, mesmo na antilinearidade, existe uma narrativa que se adianta e volta sem que haja sobressaltos. Tarantino filma grande parte das cenas de Pulp Fiction com câmera quase imóvel, e os travellings servem para dar velocidade à trama. Sua melhor característica está lá, desde o início: são os diálogos ditos com velocidade, e ainda assim calculados, um a um, apesar de muitas vezes parecerem dispersos, o que se revela também em suas trajetórias de vingança, Kill Bill, Bastardos inglórios e o recente Django livre. Ao mesmo tempo em que usa muitos diálogos, conserva uma narrativa limpa, sem excessos, à medida que a percepção de Tarantino da montagem de um filme (com a colaboração de Menke) consegue sempre transformá-lo numa peça que vai tomando mais força. E impressiona como as atitudes dos personagens vão mudando conforme a necessidade, como o intervalo que se dedica a Butch e a Marcellus, com um ato derradeiro impressionante e que antecipa Kill Bill, ou quando percebemos que Vincent e Jules podem estar no passado de uma história que já teve seu final.
Neste filme, que melhora muito com uma revisão – ao contrário, parece-me, que Cães de aluguel, ele ganha mais amplitude –, Tarantino também retoma atores improváveis (como Eric Stoltz no papel de um vendedor de drogas, que seria, a princípio, de Kurt Cobain; o próprio Willis como um boxeador; e Travolta, quase esquecido durante toda a década de 80, como o capanga), além de confirmar o talento de outras (Uma Thurman, Jackson, Keitel), tornando Pulp Fiction, que recebeu a Palma de Ouro, em Cannes, de melhor filme e o Oscar de roteiro original (tendo sido indicado a melhor filme, entre outros), uma espécie de retrato demarcado de um período, mas capaz de dialogar com outros e com uma visão própria do universo que Scorsese ajudou a dar uma definição derradeira, com Os bons companheiros.

Pulp Fiction, EUA, 1994 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: John Travolta, Samuel L. Jackson, Tim Roth, Amanda Plummer, Eric Stoltz, Bruce Willis, Ving Rhames, Phil LaMarr, Maria de Medeiros, Rosanna Arquette, Peter Greene, Uma Thurman, Steve Buscemi, Christopher Walken, Quentin Tarantino, Harvey Keitel Produção: Lawrence Bender Roteiro: Quentin Tarantino, Roger Avary Fotografia: Andrzej Sekula Trilha Sonora: Karyn Rachtman Duração: 154 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Miramax Films / Jersey Films / A Band Apart

Cotação 5 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes