Creed II (2018)

Por André Dick

A primeira parte da série Rocky, de 1976, recebeu os Oscars de melhor filme e direção e o segundo veio na esteira, tendo praticamente o mesmo estilo. Já Rocky III e Rocky IV foram feitos sob o influxo da estética do videoclipe dos anos 80, com belas canções, montagem acelerada, mas com o intuito da diversão. No quarto, especificamente, o lutador enfrentava Ivan Drago (Dolph Lundgren), boxeador russo treinado em laboratórios, depois de ele matar seu amigo Apollo Creed numa luta-evento. É justamente com este quarto filme da série que Creed II estabelece mais contato.
Michael B. Jordan regressa como Adonis, filho de um relacionamento extraconjugal de Apollo, que passou um bom tempo no reformatório até ser buscado pela esposa dele, Mary Anne (Phylicia Rashad), com quem possui um relacionamento baseado na confiança.

Depois de derrotar Danny “Stuntman” Wheeler (Andre Ward) e se tornar campeão mundial, ele é procurado por um agente, Buddy Marcelle (Russell Horsnby) para lutar com Viktor Drago (Florian Munteanu), filho de Ivan (mais uma vez  Lundgren), que matou seu pai em Rocky IV. Sem o apoio de Rocky para a nova empreitada, ele se muda para Los Angeles, onde vai treinar sob o comando de Tony “Little Duke” Evers (Wood Harris), filho do treinador de seu pai. No entanto, não apenas esses personagens atuam em sintonia, como também Tessa Thompson, na persona de Bianca Taylor, namorada de Creed. O romance entre os dois remete ao de Rocky e Adrian – e a personagem de Bianca é sensível na medida em que atinge notas conseguidas antes na série justamente apenas por Talia Shire, principalmente em Rocky II, com o qual este filme tem muitas semelhanças também. Aqui o casal em início de vida conjunta precisa estabelecer uma nova estrutura para que cada um possa se realizar em sua área: Bianca é uma música, com problemas auditivos.
Stallone está mais uma vez excepcional como um personagem que não tem mais a esposa e os amigos à sua volta e se volta à tentativa colocar Adonis como uma espécie de substituto para a paternidade falha que teve com Robert.

As nuances que Stallone entrega para seu personagem diferem daquelas exibidas em Rocky Balboa, no qual era mais bem-humorado e com uma ironia cáustica; a partir do primeiro Creed ele parece conduzir seu limite pessoal a um enfrentamento com o destino, e não é diferente aqui. Neste, a família Drago chega à Filadélfia com o objetivo de modificar a mitologia de turistas indo visitar a estátua de Rocky. Há um ressentimento de Ivan ao relação ao boxeador que o derrotou três décadas atrás, e uma tentativa de usar o filho de Creed para uma vingança pessoal. Os personagens são interdependentes. Deve-se dizer que o quinto filme, que tinha novamente John G. Avildsen na direção (como o primeiro) já apresentava um estilo que está sendo trabalhado na série Creed: embora com resultado irregular, era soturno, mais denso, mostrando a interrupção da carreira de Rocky (em razão da quantidade de socos que recebeu na cabeça), a volta para a Filadélfia (em razão de um contador desonesto) e o início de treino de um jovem com talento.
Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância, desenhando vínculos familiares. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, o jovem diretor Steven Caple Jr. consegue realmente dar sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa. Como John G. Avildsen no original, Stallone em Rocky II e Rocky Balboa e Coogler em Creed, o cineasta está interessado sobretudo nos personagens e a carga dramática que ele imprime ao filme está longe de ser superficial. Mesmo que não consiga atingir o punch de Coogler do primeiro, por contar com um roteiro mais didático e expositivo (Juel Taylor, que o assina com Stallone, é um estreante), ele extrai novamente ótimas atuações de todos (B. Jordan está novamente num dos melhores momentos de sua carreira) e encadeia a narrativa de maneira ágil do início ao fim. A sequência está no seu melhor quando mostra situações familiares de Creed, principalmente quando se vê diante de uma situação-chave em sua vida. E algumas sequências são, além de bem filmadas, simbólicas, como aquela em que o personagem central, sentindo-se destruído, tenta buscar um novo horizonte embaixo d’água, com imagens que remetem a cruzes no fundo de uma piscina, indicando vida e morte.

É uma pena que Stallone não tenha se dedicado mais em sua trajetória a obras como esta, em que encobre suas limitações com uma composição bem feita. Caple Jr. não coloca em nenhum momento a estética de videoclipe, mas mostra uma rotina de boxeador mais contida. Creed passa a viver com a namorada num apartamento vazio em Los Angeles, a academia onde treina tem uma imagem de seu pai Apollo que parece pesar sobre seus ombros; as ruas da Filadélfia e o restaurante de Rocky parecem desolados. A própria vida do filho e do pai Drago, na Ucrânia, embora não explorada como iria sugerir um roteiro superior, se dá num ambiente desolador, quase pós-guerra, com uma fotografia mais propensa a uma obra como Foxtrot, o que não deixa de ser curioso, pois Rocky IV era basicamente um documento cinematográfico da Guerra Fria nos anos 80. No entanto, o lutador pode trazer essa vida de volta – e ele traz, mas sem a alegria desenfreada da montagem fragmentada e sim sob o aspecto da fotografia e da trilha sonora casadas de maneira efetiva. A analogia que Caple Jr. faz entre os Balboa, os Creed e os Drago mostram, mais do que uma vida dedicada à luta, uma superação diária de traumas insolucionáveis, que devem ser enfrentados mesmo assim. Para esses personagens, apesar de existirem o medo e o ressentimento, não pode haver meio-termo; é preciso enfrentá-los.

Creed II, EUA, 2018 Diretor: Steven Caple Jr. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Wood Harris, Phylicia Rashad, Dolph Lundgren, Russell Horsnby, Florian Munteanu Roteiro: Juel Taylor e Sylvester Stallone Fotografia: Kramer Morgenthau Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, William Chartoff, David Winkler, Irwin Winkler Duração: 130 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer, New Line Cinema, Warner Bros. Pictures, Chartoff-Winkler Distribuidora: Metro-Goldwyn-Mayer (Estados Unidos), Warner Bros. Pictures (Internacional)

Green Book – O guia (2018)

Por André Dick

O diretor Peter Farrelly ficou conhecido por sua parceria com o irmão Bobby à frente de filmes como Debi & Loide, O amor é cego e Eu, eu mesmo e Irene. Depois de alguns exemplares que pareceram retroceder a qualidade da comédia em sua carreira (a continuação de Debi & Loide, Passe livre e Os três patetas), Peter decidiu fazer uma obra à parte de de sua trajetória. Green Book – O guia foi o resultado. Lançado no Festival de Sundance, onde foi escolhido como melhor filme, ele mostra dois personagens que existiram na vida real.
Frank Vallelonga (Viggo Mortensen), mais conhecido como Tony Lip, é um italiano do Bronx, casado com Dolores (Linda Cardellini), que é escolhido como motorista da turnê do pianista “Doc” Don Shirley (Mahershala Ali). O primeiro encontro entre os dois se dá no apartamento de Don Shirley, em cima do Carneggie Hall, onde esse surge vestido com um figurino de origem africana. Pelo tom escolhido por Farrelly, muito leve, talvez seja necessário avaliar que não há um enfoque excessivamente político nas escolhas dele. Com um roteiro de diálogos ágeis, Green Book é quase uma reminiscência dos antigos filmes de Hollywood, uma espécie de road movie nos moldes que Farrelly já fez em Eu, eu mesmo e Irene e Debi & Loide com paisagens que lembram uma espécie de sonho norte-americano perdido.

A princípio, Vallelonga é um italiano racista, mas Farrelly quer mostrá-lo como aquele que, de certo modo, vai fazer Don Shirley se autodescobrir realmente. Isso soa em parte forçado, com uma certa condescendência. No entanto, Green Book é um exemplar de cinema despretensioso em relação ao qual o espectador acaba relevando certas inconsistências de roteiro e mesmo a mensagem de pano de fundo às vezes previsível até demais. Ele tem, além de uma atmosfera trabalhada, com uma fotografia sensível de Sean Porter, que lembra a de obras recentes como Carol e Fome de poder, uma espécie de equilíbrio entre tons narrativos que não é fácil de conseguir, principalmente no cinema contemporâneo, muito mais rápido e quase sem elementos clássicos.
O debate cultural, no entanto, quando Tony aconselha o pianista a ouvir nomes da música negra da época, a exemplo de Aretha Franklin, Chubby Checker e Little Brown, para fugir um pouco do seu universo clássico de compositores como Chopin, soa um pouco forçoso, visto que é como se a figura do afro-americano tivesse de ser guiada pela do branco que aprendeu a reconhecer culturas híbridas. No entanto, é quase o discurso oposto que Spike Lee apresentava em Faça a coisa certa, quando o personagem do entregador de pizza que interpretava apontava a seu chefe, um pizzaiolo italiano, que seus ídolos eram predominantemente afrodescendentes. No entanto, ao contrário de Lee, Farrelly não chega a ser contundente ao abordar esses temas.

Sob outro ponto de vista, isso parece exatamente proposital, com uma qualidade inegavelmente certeira e voltada aos enquadramentos de uma amizade solidificada pelas atuações convincentes de Morttensen e Ali. São ambos que tornam o filme uma referência para seu gênero, com um estilo cada qual despojado e com uma empatia inusitada. As sequências nas quais estão no carro, viajando pelo interior, são as melhores: incluem aquela em que Vallelonga pega uma determinada pedra num estabelecimento e outra em que Doc visualiza afro-americanos trabalhando no campo enquanto veem o seu motorista branco abrir a porta do carro para ele. Deve-se dizer que, em alguns momentos, o posicionamento de Don Shirley não chega a ser plausível, porém o roteiro constrói a sua figura de maneira até complexa, como alguém incompleto, que se entrega ao vício quando não consegue solucionar sua própria vocação no mundo, que é tocar piano – e Ali tem grande participação no êxito do resultado, mais ainda do que em Moonlight.

Nesse sentido, talvez a maior qualidade de Green Book seja tocar em temas conflituosos de maneira menos grave do que acontece. Isso, por um lado, poderia desmerecer um pouco tais temas; por outro, mostra que há uma tentativa de mostrá-los sob outro ponto de vista, mais direcionados a uma procura de se libertar das amarras do que se espera previamente do gênero dramático. O fato de Don Shirley sentir-se deslocado em relação à cultura construída por afro-americanos e o atrito dela com o universo da composição clássica, assim como seus trejeitos mais elaborados, contribui para isso de maneira significativa, provocando no espectador uma certa compreensão mais universal. A figura do Green Book, que apontava, por exemplo, os lugares que poderiam hospedar afro-americanos no Sul dos Estados Unidos dos anos 60, acaba servindo como símbolo de que, na verdade, Toni também se sente deslocado não apenas em relação à sua cultura original quanto em relação à influência que recebe do novo amigo, ao vivenciar o preconceito junto com ele (e talvez a única cena mais deslocada seja aquela do banheiro numa mansão sulista). Em determinados momentos, esse aspecto lembra No calor da noite, premiado com o Oscar de melhor filme em 1967, com Sidney Poitier.

Aqui, na verdade, Tony representa a pouca cultura, a grosseria, os maus modos e a falta de refinamento, sempre com um cigarro caindo do canto da boca. Aos poucos, ele também vai se sentindo deslocado do antigo universo que frequentava e ganha um pouco da sofisticação que vê nas peças de Chopin tocadas por Don Shirley. Engana-se quem pensa que o diretor de Green Book busca alguma facilitação no tratamento desse “embate” entre pessoas que poderiam ser apenas estranhas uma em relação à outra durante toda a narrativa. Ele está, utilizando elementos menos dramáticos, na verdade mostrando um panorama muito interessante da época enfocada, em que dois homens que parecem opostos, em seu comportamento e cultura, na verdade se completam. Há um momento em que um policial aponta que Toni, pela origem italiana, se adapta bem a ser o motorista do músico. Nesse momento, Farrelly indica que, em graus maiores ou menores, qualquer resquício de preconceito na sociedade se corresponde, mesmo indiretamente. Isso poderia ser absolutamente previsível. Não o é, e dificilmente é tratado com tanta humanidade quanto em Green Book.

Green Book, EUA, 2018 Diretor: Peter Farrelly Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini Roteiro: Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie, Peter Farrelly Fotografia: Sean Porter Trilha Sonora: Kris Bowers Produção: Jim Burke, Brian Hayes Currie, Peter Farrelly, Nick Vallelonga Charles B. Wessler Duração: 130 min. Estúdio: Participant Media, DreamWorks Pictures, Innisfree Pictures, Cinetic Media Distribuidora: Universal Pictures

Indicados ao Oscar 2019

Por André Dick

Dos possíveis candidatos ao Oscar que apontei em setembro de 2018 (neste post), quatro chegaram às indicações de melhor filme: Infiltrado na Klan, Nasce uma estrela, A favorita e Roma. Das repescagens, Pantera Negra e Vice (à época chamado de Backseat). Entre os outros que apontei, Duas rainhas não conseguiu chegar a tempo para as indicações: o filme com Saoirse Ronan e Margot Robbie não aconteceu junto à crítica e ao público. Boy erased – Uma verdade anulada também não conseguiu transformar as presenças de Lucas Hedges, Nicole Kidman e Russell Crowe em seu elenco em referenciais atrativos. Já o antimainstream Eighth grade teve boas indicações na temporada, no entanto sem alcançar a força de Lady Bird – A hora de voar, do ano passado, com temáticas semelhantes. Com ótimas atuações de Steve Carell e Timothée Chalamet, Querido menino infelizmente não agradou aos integrantes da Academia de Hollywood, pois merecia ser lembrado. No entanto, as grandes surpresas foram O primeiro homem e Se a Rua Beale falasse, dos diretores que em 2017 quase conquistaram juntos o Oscar de melhor filme por La La Land e Moonlight, lembrados em várias premiações, serem deixados de lado.

Melhor filme

Pantera Negra
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
Green Book – O guia
Roma
A favorita
Nasce uma estrela
Vice

A seleção deste ano tem filmes excelentes (A favorita, Nasce uma estrela), um ótimo (Green Book – O guia), dois muito bons (Infiltrado na Klan e Bohemian Rhapsody) e um historicamente interessante e bem interpretado (Vice), apesar de abaixo do esperado. Pantera Negra se tornou a primeira obra de super-heróis a ser indicada ao Oscar principal, o que é um feito histórico. Novamente a Academia não atinge 10 concorrentes. Nas duas vagas não preenchidas, os votantes poderiam ter lembrado de Suspiria, de Luca Guadagnino (do superestimado Me chame pelo seu nome, do ano passado, indicado então ao prêmio principal), Maus momentos no Hotel Royale (com ótima atuação de Jeff Bridges e brilhante direção de arte), O primeiro homem (uma bela ficção científica, que se provou ao longo da temporada, e daí talvez seu esquecimento, anticomercial), Querido menino (um dos mais belos filmes já feitos sobre a relação entre um pai e um filho), A balada de Buster Scruggs (inusitado faroeste dividido em contos dos irmãos Coen), 22 de julho (melhor trabalho de Paul Greengrass, já lembrado pelo Oscar em Voo United 93 e Capitão Phillips), Hereditário (terror marcante de Ari Aster) e Vida selvagem (estreia na direção do ator Paul Dano). Estavam entre os cotados No coração das trevas (de Paul Schrader), Mais uma chance (de Tamara Jenkins) e Podres de ricos, mas não conseguiram chegar aos finalistas. E, se fosse lembrar de blockbusters, daria mais destaque a Jogador Nº 1 e Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald, menosprezados mesmo nas categorias técnicas (Animais fantásticos não ser indicado a efeitos visuais, design de produção e figurino faz lembrar o esquecimento recorrente da série Harry Potter na premiação). A Academia só nomeia os melhores filmes quando eles atingem, junto aos votantes, uma determinada média, porém é estranho peças como O primeiro homem,  A balada de Buster ScruggsSe a Rua Beale falasse, por exemplo, com indicações importantes, não chegarem a essa média. Nisso, anos que alternam entre 8, 9 ou 10 candidatos (este número apenas nos dois primeiros anos em que a regra passou a valer, em 2009 e 2010) parecem indicar uma inconstância que não está de acordo com o que acontece, pois claramente há no mínimo de 15 a 20 obras marcantes por ano.
Dos indicados, a disputa vai ficar, ao que tudo indica, entre Roma, Green Book – O guia e Nasce uma estrela. Correndo por fora paradoxalmente A favorita.

Melhor diretor

Alfonso Cuarón, por Roma
Adam McKay, por Vice
Yorgos Lanthimos, por A favorita 
Spike Lee, por Infiltrado na Klan 
Pawel Pawlikowski, por Guerra fria

O grande favorito é Alfonso Cuarón, por Roma. Apesar de ter sido premiado já com Gravidade, as premiações parecem apontá-lo como o principal nome. O grego Lanthimos já havia sido indicado pelo roteiro de O lagosta e por filme estrangeiro em Dente canino. Sua indicação é bastante merecida por A favorita. Uma surpresa a indicação de Pawel Pawlikowski por Guerra fria, contrapondo-se a Cuarón e Roma, entretanto bem-vinda: é um dos melhores cineastas surgidos na Europa nos últimos 20 anos.  E Spike Lee, normalmente negligenciado, volta a estar presente entre os indicados por Infiltrado na Klan. Talvez o mais deslocado aqui seja McKay, por um trabalho de direção até dinâmico, no entanto superficial, em Vice. Bradley Cooper, diretor exitoso em sua estreia em Nasce uma estrela, foi ignorado, o que mostra como a corrida do Oscar mudou na reta final, já que era um dos possíveis favoritos. Poderiam facilmente ter indicado Luca Guadagnino (Suspiria), Lynne Ramsay (Você nunca esteve realmente aqui), Paul Dano (Vida selvagem), Damien Chazelle (O primeiro homem), Felix Van Groeningen (Querido menino), Paul Greengrass (22 de julho) e Joel e Ethan Coen (A balada de Buster Scruggs).

Melhor ator

Rami Malek, por Bohemian Rhapsody
Christian Bale, por Vice 
Viggo Mortensen, por Green Book – O guia 
Bradley Cooper, por Nasce uma estrela 
Willem Dafoe, por No portal da eternidade

Bradley Cooper está fora de série em Nasce uma estrela. Gosto muito também da atuação de Rami Malek, e foi ele quem fez Bohemian Rhapsody chegar à temporada de premiações com tantas chances. O ator Willem Dafoe está sendo muito elogiado por sua atuação como Van Gogh em No portal da eternidade. Mais uma vez lembrado, depois de Capitão Fantástico, no ano passado, Viggo Mortensen tem boa presença em Green Book – O guia, numa apreciável parceria. O favorito parece ser, de qualquer modo, Christian Bale, que em Vice interpreta Dick Cheney com a voz sussurrada que empregou em Batman debaixo de muita maquiagem. É uma atuação correta, mas não à altura de sua trajetória, embora o roteiro não o ajude. Entre os esquecidos, aprecio em especial as performances de Steve Carell em Querido menino; John David Washington em Infiltrado na Klan; Ethan Hawke em No coração das trevas; Ryan Gosling em O primeiro homem; Joaquin Phoenix em Você nunca esteve realmente aqui e A pé ele não vai longe; e Jay Duplass em Outside in.  

Melhor atriz

Glenn Close, por A esposa 
Lady Gaga, por Nasce uma estrela 
Olivia Colman, por A favorita
Melissa McCarthy, por Poderia me perdoar
Yalitza Aparicio, por Roma

Olive Colman, das indicadas, aparecia há pouco tempo como literalmente a favorita, embora estejam a seu lado Lady Gaga e Glenn Close. Colman tem uma boa atuação, porém não saberia dizer se comporta um prêmio. Gaga é surpreendente em Nasce uma estrela e Close está muito bem em A esposa, por outro lado o filme é ligeiramente superficial. Depois de uma indicação como coadjuvante em Missão madrinha de casamento, Melissa McCarthy regressa à categoria de atriz principal por Poderia me perdoar? Yalitza Aparicio é, apesar de não ser atriz profissional, a grande figura de Roma: sua indicação é um reconhecimento. Acrescento entre as atrizes que poderiam ter sido lembradas: Rosamund Pike (A private war), Elsie Fisher (Eighth grade), Toni Collette (Hereditário), Viola Davis (As viúvas), Juliette Binoche (Deixe a luz do sol entrar), Regina Hall (Support the girls), Carey Mulligan (Vida selvagem) e Charlize Theron (Tully). Apesar de elogiada, não acredito que Emily Blunt merecesse ser indicada por O retorno de Mary Poppins ou Um lugar silencioso.

Melhor ator coadjuvante

Mahershala Ali, por Green Book – O guia 
Richard E Grant, por Poderia me perdoar?
Sam Elliott, por Nasce uma estrela 
Adam Driver, por Infiltrado na Klan
Sam Rockwell, por Vice

Indicado no ano passado por Me chame pelo seu nome na categoria de melhor ator, Timothée Chalamet poderia ter regressado nessa categoria com uma performance realmente extraordinária, em Querido menino; acabou sendo preterido. Vencedor do Oscar por Três anúncios para um crime, Sam Rockwell é lembrado por sua atuação como George W. Bush em Vice, no qual não chega a se destacar. Muito bem em Green Book, Mahershala Ali já ganhou o prêmio por Moonlight. Talvez seja sua segunda premiação. Sam Elliott, apesar de aparecer pouco, deixa sua marca na narrativa de Nasce uma estrela, e Adam Driver mostra uma boa atuação em Infiltrado na Klan (já havia sido esquecido há alguns anos por Silêncio, de Scorsese). Esquecidos: Steve Carell (Vice), Nicholas Hoult (A favorita), Daniel Kaluuya (As viúvas), Jesse Plemmons (A noite do jogo), Robert Pattinson (Damsel), Jeff Bridges (Maus momentos no Hotel Royale), Ed Oxenbould (Vida selvagem), Russell Crowe (Boy erased) e Jonas Strand Gravli (22 de julho).

Melhor atriz coadjuvante

Emma Stone, por A favorita
Rachel Weisz, por A favorita
Amy Adams, por Vice
Regina King, por Se a Rua Beale falasse
Marina De Tavira, por Roma

Emma Stone e Rachel Weisz fazem uma boa parceria em A favorita, tornando a presença de suas personagens no melhor embate da temporada. Mais uma vez, Amy Adams recebe uma indicação por Vice, novamente sem o hype de ganhar. Regina King é uma das favoritas, por Se a Rua Beale falasse. Uma surpresa a indicação de Marina de Tavira por Roma, substituindo Claire Foy, que aparece bem em O primeiro homem, embora não com a mesma contundência de suas atuações na TV, em The crown. Esquecidas: Olivia Cooke (Puro-sangue), Zoe Kazan (A balada de Buster Scruggs), Rachel McAdams (Desobediência), Tilda Swinton (Suspiria), Elizabeth Debicki (As viúvas) e Nicole Kidman (Boy erased).

Vidro (2019)

Por André Dick

O universo do cineasta M. Night Shyamalan sempre teve como base uma mistura entre realidade e fábula. Isso fica claro não apenas em A dama na água e O último mestre do ar, mas, principalmente, A vila, filme campestre de suspense e terror, com grande elenco. Trata-se de uma vila, da qual as pessoas que nela moram não podem sair, cercada por grandes cercas e sempre com um vigia à noite, pois monstros podem atacar. Já é possível ver que a história  lida com o imprevisível, mas William Hurt e Sigourney Weaver, como os mandantes desta vila, concedem credibilidade aos diálogos. Um dos jovens (Joaquin Phoenix) acaba ferido por um rapaz excepcional (Adrian Brody), que está apaixonado por uma jovem cega (Bryce Dallas Howard). Ela se disponibiliza a sair da vila para buscar remédios, embrenhando-se na floresta assustadora. O figurino é adequado para isso (todo amarelo) e é interessante imaginar que estejamos em algum século passado para vermos o modo como essas pessoas agiam.

De certo modo, essa captura de uma realidade sob a camada fantasiosa já se encontrava em Corpo fechado, no qual Bruce Willis agia como um homem com um poder: ao tocar nas pessoas, consegue ver imagens capazes de identificar se são boas ou más. Em Fragmentado (a partir daqui, spoilers ligando os filmes), uma inesperada sequência de Corpo fechado, o personagem feito por James McAvoy, Kevin Wendell Crumb, se dividia em múltiplas personalidades, principalmente “a besta”. O foco era no sequestro que ele fazia de três jovens, Claire (Haley Lu Richardson), Marcia (Jessica Sula) e Casey (Anya Taylor-Joy). Crumb está de volta em Vidro, assim como o personagem David Dunn (Bruce Willis) e seu rival Elijah Price, o Sr. Glass (Samuel L. Jackson), rivais em Corpo fechado, uma espécie de estudo cinematográfico sobre as HQs antes de elas virem ajudar a coordenar a forma como se organiza a indústria contemporânea.
Inicialmente, Shyamalan mostra Dunn procurando Crumb depois que este escapou do zoológico, sob vigia do filho, Joseph (Spencer Trate Clark). Antes guarda na Filadélfia, agora ele é dono de uma loja de equipamentos de segurança e vai encontrar novas vítimas da “besta” quando o carrega preso. No entanto, acabam parando no Hospital Psiquiátrico Ravenhill, sob investigação de Ellie Stapple (Sarah Paulson), onde se encontra internado Glass. De maneira inesperada, Shyamalan estabelece contatos entre personagens de filmes diferentes, construindo uma trilogia jamais esperada, considerando-se que Stapple dialoga com a psiquiatra Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), do filme anterior.

Do mesmo modo, quando coloca Casey (novamente Taylor-Joy) querendo ajudar Crumb, mostra uma interessante aproximação da mulher do universo dos quadrinhos enfocado principalmente em Corpo fechado e expandido aqui de modo ágil, também por meio da mãe de Price (Charlayne Woodard). Vidro consegue ser o estudo sobre três personagens, ligados por imagens de infância definidoras para seu comportamento, mesclando suspense e elementos de terror, sem nunca parecer uma obra derivada – mesmo que a visão de infância de Glass remeta ao parque de diversões de A fúria, de De Palma, uma clara influência aqui, e aos flashbacks de Casey em Fragmentado, quando os animais a serem abatidos numa caçada não eram tão ameaçadores quanto um determinado familiar. E que a infância é o mote de boa parte da filmografia de Shyamalan basta ver O sexto sentido e A visita.
Talvez seja surpreendente que Shyamalan consiga fazer, inclusive, o melhor episódio de sua trilogia, uma vez que os outros sofriam de quedas abruptas de ritmo, principalmente Fragmentado, e o primeiro possuía um final em aberto nunca satisfatório. Shyamalan adota uma variação de cenários dentro do Hospital Psiquiátrico, que acabam dialogando com os impulsos da narrativa: veja-se por exemplo a grande sala com pintura rosa, quase onírica, semi-iluminada, em que os personagens recebem perguntas da Dra. Stapple. Do mesmo modo, cada personagem adota uma cor: Glass, a roxa; Dunn, o branco; e Crumb, o amarelo, servindo como figurinos de heróis ou vilões de quadrinhos.

Shyamalan também tenta visualizar Casey como aquela que compreende a “besta” quase como Clarice na continuação de O silêncio dos inocentes em relação a Hannibal Lecter. O lugar onde Crumb prendia as jovens em Fragmentado não deixava de lembrar não apenas um labirinto humano, como também a falta de passagens para um lado equilibrado. Aqui os corredores do hospital e os quartos contrastam: os primeiros são escuros, nebulosos, e os segundos, iluminados. Nesse sentido, o trabalho de fotografia de Mike Gioulakis, o mesmo do anterior, é superior e com mais sutilezas.
Do mesmo modo, as luzes que disparam no rosto de Crumb criam uma sensação de claustrofobia e McAvoy é realmente bom aqui, sem precisar concentrar sua atuação como um destaque e sim como complemento aos demais personagens. Alternando uma estranha humanidade com uma violência de serial killer, Crumb tem um significado mais trabalhado do que no anterior e faz com que o terceiro ato se desenhe como uma espécie de mescla entre fantasia e ecos do 11 de setembro, que ocorreu um ano após o lançamento de Corpo fechado e que já se expressava na obra de Shyamalan em obras como Sinais e Fim dos tempos. A sequência em que Crumb corre como um animal contra policiais tendo ao fundo edifícios que remetem ao World Trade Center (representando, ao mesmo tempo, um ataque bestial de humanos contra humanos), é uma das melhores da trajetória o diretor. Os demais do elenco, principalmente Paulson, Willis, Taylor-Joy e Jackson, são muito competentes e ligados a um desespero humano por saber onde estamos. Eis que, para o diretor de origem indiana, os verdadeiros heróis estão concentrados todos os dias em enfrentar seus problemas de rotina. Num movimento incomum em seus filmes, Shyamalan se permite mesmo a se emocionar.

Glass, EUA, 2019 Diretor: M. Night Shyamalan Elenco: James McAvoy, Bruce Willis, Anya Taylor-Joy, Sarah Paulson, Samuel L. Jackson, Charlayne Woodard, Spencer Trate Clark Roteiro: M. Night Shyamalan Fotografia: Mike Gioulakis Trilha Sonora: West Dylan Thordson Produção: M. Night Shyamalan, Jason Blum, Marc Bienstock, Ashwin Rajan Duração: 129 min. Estúdio: Blinding Edge Pictures, Blumhouse Productions Distribuidora: Universal Pictures (Estados Unidos) e Buena Vista International (Internacional)

 

Dick Tracy (1990)

Por André Dick

Este filme teve dois atrativos de marketing, quando foi lançado: a presença de Warren Beatty à frente e atrás das câmeras, como em Reds, que lhe deu o Oscar de diretor, e a escalação de Madonna para contracenar com o herói, um detetive – além do romance entre os dois estendido para fora das telas. E a Walt Disney havia apostado todas as suas fichas nele, como se fosse, no início da nova década, um novo Popeye, mas sobretudo tentando repetir o desempenho, no ano anterior, do Batman de Tim Burton. Se em Popeye e Batman, Robert Altman e Burton contribuíram com sua visão, em Dick Tracy, Beatty fez um policial com ambiente europeu, com beleza plástica e ritmo pouco americano, e daí o seu semiesquecimento, embora hoje possa caracterizar o cinema de início da década de 90, fugindo um pouco às características dos anos 80. (Lembro de tê-lo visto pela primeira vez num cinema de rua exatamente em 1990, e o quanto a sessão foi diferente daquela de Batman, quando o público se mostrava com vontade de rir a qualquer coisa que Jack Nicholson dissesse, e hoje, revendo-o, nota-se como o filme de Beatty é mais sofisticado, embora menos envolvente, do que o de Burton.)

Sendo assim, Dick Tracy (o próprio Beatty, sem o queixo quadrado das HQs) não tem, a princípio, personalidade marcante. Quem rouba a cena são os vilões, sobretudo Big Boy Caprice, feito por Al Pacino, um mafioso impagável, dono das melhores frases do filme, baseadas em filósofos (a exemplo de Nietzsche e Platão) e políticos (Lincoln, Benjamin Franklin). Aliás, todo elenco de vilões sobrepuja o detetive: Dustin Hoffmann como Mumbles – que não consegue ver um copo-d’água –, William Forsythe como o Flattop, entre outros.
Dick Tracy combate exatamente Big Boy Caprice, que pretende controlar a cidade, eliminando de início um concorrente, Lips Manlis (Paul Sorvino, que no mesmo ano aparece em Os bons companheiros), chantageando o prefeito D. A. Fletcher (Dick Van Dyke), desviando dinheiro e roubando pontos de outros mafiosos. Apaixonado por Tess (Glenn Headly), Tracy encontra um garoto nas ruas, Kid (Charlie Korsmo, que na época apareceu também em Hook e Nosso querido Bob), que testemunhou uma situação decisiva para as investigações, e passa a cuidá-lo. Não sem antes persegui-lo perto de uma linha de trem, depois do sobrevoo da câmera pela cidade, mostrando os edifícios.

É a amizade com esse garoto que dá uma certa humanidade ao detetive, desde a cena em que surge. Em meio à trama conduzida sem excessos, mas sem toques de brilhantismo, Tracy se divide entre a amada e a cantora Breathless Mahoney, que tenta seduzi-lo com roupas transparentes e procura reprisar não apenas as estrelas antigas (Marlene Dietrich, Marilyn Monroe), mas outra atriz com inicial M (Michelle Pfeiffer), que um ano antes faria Susie e os Baker Boys, deitando-se sobre a cauda do piano. Um homem misterioso surge na cidade, e tenta, ao mesmo tempo, tirar Big Boy do centro das notícias e Tracy da polícia – cujo chefe Brandon é o saudoso Charles Durning.
Mesmo com a falta de ação e o roteiro dos autores de Top Gun, Jim Cash e Jack Epps Jr., sem grande densidade nos diálogos, trata-se de uma feliz transposição dos quadrinhos de Chester Gould para o cinema, por aquilo que cerca a trama: a produção, o cuidado com os ambientes, o interesse em estabelecer um vínculo entre visual e narrativa, as atuações equilibradas e as canções evocando um musical.

Com maquiagem impressionante de Doug Drexler e John Caglione Jr., o filme ainda tem a fotografia com assinatura de Vittorio Storaro, que recria o clima dos quadrinhos, iluminando prédios com cores básicas, do vermelho ao amarelo, no que remete especificamente a seu trabalho em O fundo do coração, com sua Las Vegas de estúdio. O mesmo acontece com a direção de arte de Richard Sylbert (vencedora do Oscar) e o figurino de Milena Canonero, com capotes de cores diversas e ternos supercoloridos. Já a trilha de Danny Elfman e as canções de Madonna trazem um certo ritmo que Beatty não imprime, de propósito, com a ação – como (spoilers) nas cenas de ascensão e queda de Big Boy Caprice, os shows da boate Ritz, o tiroteio espetacular ao final.
Nesse sentido, se a montagem do filme emula os cortes das tiras de quadrinhos, também podemos pensar que Dick Tracy envolve tanto a estética de videoclipe dos anos 80 em algumas passagens (sobretudo quando faz rodar várias imagens) quanto a de obras dos anos 50. Ao mesmo tempo, ele procura algumas imagens e transposições icônicas, como nos momentos em que Tracy e Tess passeiam de carro com Kid e vão à lanchonete, ao som de canções, e quando o detetive e Breathles se encontram em frente a um porto, com a lua ao fundo, fazendo a cor do capote de Tracy dialogar com a iluminação do cenário; ou quando se mostram cenários como o da estação de trem ou do cemitério.

Cada personagem passa a ser também um símbolo: há obviamente o maniqueísmo do herói contra os vilões terrivelmente ruins, apenas porque gostam de agir assim (e lembram as hienas que acompanham o vilão de Uma cilada para Roger Rabbit, do qual o filme, sem dúvida, é também uma extensão, por sua incorporação visível dos quadrinhos, embora não utilize exatamente a animação, com exceção do início e do final, quando as imagens parecem voltar às suas origens). Igualmente os interesses amorosos de Tracy: Tess e Breathley não fogem a uma composição de quadrinhos, embora Headly consiga imprimir certa dramaticidade em uma ou outra cena. Prejudicada pelo rótulo de femme fatale, Madonna não é ajudada pelo roteiro, que entrega algumas pérolas de mau uso verbal. Cantando em algumas sequências à frente de uma banda e uma cortina vermelha, Madonna também parece homenagear a Isabella Rosselini de Veludo azul. Ainda assim, Pacino consegue, em uma cena que parece inserida nos Tempos modernos, de Chaplin, compor um vilão ao mesmo tempo provocador e receoso de cometer qualquer ação diante da polícia. E, apesar de Beatty não ascender sobre os outros personagens, como se poderia esperar, também é verdade que ele dosa o lado ético e o lado envergonhado diante de situações românticas de modo acertado. Ou seja, Beatty oferece a Tracy, mesmo com um roteiro de punch quadrinístico, um elemento humano, e, também por estar atrás das câmeras, mostra-se interessado o bastante para que os outros personagens possam se destacar.

A narrativa, por se passar nos anos 1930, também apresenta um aspecto elementar de Grande Depressão dos Estados Unidos (o Kid parece nunca ter ido a uma lanchonete antes), de art decó, com toques do expressionismo alemão, de pintores como George Grosz e Otto Dix (influências do próprio Gould), numa sociedade, como aquela mostrada tão bem por De Palma em Os intocáveis, que só poderia fugir à realidade mergulhada em cigarros e cabarés. Não que Dick Tracy elabore um aprofundamento sobre o contexto da máfia ou dos jogos e bebidas proibidos, nem sobre a violência específica que cerca os gângsteres, mas não deixa de ser uma narrativa conduzida por elementos desta espécie.
Sim, trata-se de um filme colorido e artificioso como as histórias originais de Chester Gould, mas nunca menos que um êxito subestimado. Parece mesmo deslocado temporalmente, e ainda assim sobrevive como motivo de entretenimento, pela estranheza singular de sua narrativa.

Dick Tracy, EUA, 1990 Diretor: Warren Beatty Elenco: Warren Beatty, Charlie Korsmo, Madonna, Al Pacino, Glenne Headly, Michael Donovan O’Donnell, William Forsythe, Ed O’Ross, Seymour Cassel, James Keane, Charles Durning, Mandy Patinkin, Paul Sorvino, Dick Van Dyke, James Caan Roteiro: Chester Gould, Jim Cash, Jack Epps Jr. Fotografia: Vittorio Storaro Trilha Sonora: Danny Elfman  Produção: Warren Beatty Duração: 103 min. Estúdio: Touchstone Pictures / Silver Screen Partners IV / Mulholland Productions Distribuidora: Buena Vista Pictures