10 possíveis candidatos ao Oscar de melhor filme em 2017

Por André Dick

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De acordo com as projeções recentes, eu apostaria nos seguintes indicados para o Oscar de melhor filme de 2017:

A chegada, de Denis Villeneuve, com Amy Adams, Jeremy Renner e Forest Whitaker, é a ficção científica do ano: em 2013, foi Gravidade; em 2014, Interestelar; e em 2015, Perdido em Marte. Villeneuve vem numa crescente como diretor em Hollywood: depois de Os suspeitos, realizou o ótimo O homem duplicado e o impactante Sicario – Terra de ninguém. Esta ficção que antecipa Blade Runner 2049 parece ser um conjunto visualmente impressionante, assim como um núcleo de atuações memoráveis. Adams interpreta a linguista Bank, que, com o matemático e cientista Ian Donnelly (Jeremy Renner), tentará entrar em contato com os seres de estranhas naves espaciais que chegam à Terra. Isto não parece Independence day.

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La La Land – Cantando estações, de Damien Chazelle, com Ryan Gosling e Emma Stone, se seguir o que dizem as críticas, será um dos filmes do ano. Se você imagina uma espécie de O fundo do coração, de Coppola, neste século, parece ser esta peça. Mesmo que eu não seja admirador de Whiplash, Stone e Gosling sabem como atuar juntos, o que já ficou claro em Amor a toda prova e Caça aos gângsteres. E, depois de Birdman, pode ser o ano de Stone receber seu Oscar. Gosling interpreta o pianista de jazz  Sebastian Wilder que conhece a aspirante à atriz Mia Dolan (Stone) e juntos tentam realizar os sonhos prometidos por LA (Los Angeles).

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Jackie, de Pablo Larraín, apresenta a atuação mais elogiada recentemente de Natalie Portman e, pelo que se fala, poderia ser um adendo de JFK, tratando da vida da primeira-dama depois do assassinato de seu marido. O diretor tem como um precedente o belo trabalho sobre o universo da política em No e aqui tem como um dos produtores Darren Aronofksy (Cisne negro). A Frances Ha Greta Gerwig é sua principal coadjuvante.

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Sully – O herói do rio Hudson traz Tom Hanks no papel do aviador que conseguiu uma aterrisagem espetacular, e se credencia pelo diretor principalmente, Clint Eastwood, depois de conseguir indicações surpreendentes para Sniper americano. Hanks este ano também esteve no menosprezado e belo Um holograma para o rei e mais uma vez é um potencial candidato.

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Manchester à beira-mar tem atuações elogiadas de Michelle Williams e Casey Affleck e parece ser o integrante com elementos mais underground desses possíveis indicados, mesmo que Kenneth Lonergan não seja um nome afeito à Academia. Affleck é Lee, que se torna responsável por Patrick (Lucas Hedges), filho de seu irmão falecido, e passa a lidar com os conflitos vividos com sua ex-esposa Randi (Williams) quando volta à sua cidade.

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Fome de poder é o filme sobre Ray Crok, que comprou dos irmãos Mac e Dick McDonald uma grande cadeia de lojas de hambúrguer. Crok surge em desempenho de Michael Keaton, que tem a seu lado Laura Dern, Patrick Wilson e Linda Cardellini. Levando em conta que Keaton estava em Birdman e Spotlight, e o diretor é John Lee Hancock, que conseguiu indicação ao Oscar principal por Um sonho impossível, eis um filme que pode vir a concorrer. Seu filme anterior, Walt nos bastidores de Mary Poppins, foi um dos esquecidos nas premiações de 2014.

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Animais noturnos, de Tom Ford, com Jake Gyllenhaal, Amy Adams e Michael Shannon, bastante elogiado desde o Festival de Veneza, é um dos potenciais candidatos. Adams é a dona de uma galeria de arte, Susan Morrow, perseguida por seu ex-marido Edward Sheffield/Tony Hastings (Gyllenhaal). O trailer dele é grande; se o filme tiver metade de sua qualidade, o espectador já parece sair ganhando.

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Silence é o novo de Martin Scorsese, baseado em romance de  Shusaku Endo, com estreia prevista para dezembro – se estrear, é credenciado, ainda mais com o elenco: Andrew Garfield, Adam Driver e Liam Neeson. Será uma espécie de A missão passada no Oriente?

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O nascimento de uma nação é o filme polêmico de Nate Parker, contando a história de Nat Turner, escravo que liderou uma rebelião no Condado de Southampton, Virgínia, em 1831. Pelas imagens, parece uma mistura de 12 anos de escravidão e Gangues de Nova York.

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E, finalmente, A lei da noite é o novo filme dirigido, atuado e roteirizado por Ben Affleck a partir de um romance de Dennis Lehane, com a fotografia de Robert Richardson, dos filmes de Tarantino. Affleck é Joe Coughlin, filho de um capitão de polícia de Boston que acaba vendo sua vida modificada. Acompanhe alguns do elenco coadjuvante: Elle Fanning, Brendan Gleeson, Chris Messina, Sienna Miller, Zoe Saldana e Chris Cooper. Se Argo foi premiado, por que este não seria indicado, principalmente em razão de seu trailer? Tudo indica que será uma mistura entre Dick Tracy, Dália negra e Os intocáveis.

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Outras opções: Moonlight, A longa caminhada de Billy Lynn (de Ang Lee, com Kristen Stewart, Vin Diesel, Garrett Hedlund, Steve Martin e Chris Tucker), A luz entre oceanos (de Derek Cianfrance, com Michael Fassbender e Alicia Vikander), Aliados (de Robert Zemeckis, com Brad Pitt e Marion Cotillard), Beleza oculta (com Will Smith), Certas mulheres (de Kelly Reichardt, com Michelle Williams e Kristen Stewart), Hacksaw ridge (de Mel Gibson, com Andrew Garfield), A grande muralha (de Zhang Yimou, com Matt Damon), Amor & amizade (de Whit Stillman), The lost city of Z (de James Gray, com Robert Pattinson), Rainha de Katwe (de Mira Nair, com David Oyelowo e e Lupita Nyong’o), Passageiros (com Jennifer Lawrence e Chris Pratt), Ouro e cobiça (com Bryce Dallas Howard e Matthew McConaughey), Paterson (de Jim Jarmusch com Adam Driver), Fences (com Denzel Washington e Viola Davis) e Lion (com Dev Patel, Nicole Kidman e Rooney Mara). Pode-se adiantar, porém, que o filme de Lee está sendo bastante criticado, as obras de Zemeckis são vistas como excessivamente pop e Cianfrance parece meio underground demais para a Academia. No entanto, podem surpreender. Animais fantásticos e onde habitam, Sete minutos depois da meia-noite e Rogue One – Uma história Star Wars devem concorrer a vários prêmios técnicos, assim como Mogli – O menino lobo. E gostaria de incluir filmes nessa lista, como Cavaleiro de copas (Lubezki ganha Oscars com Cuarón e Iñárritu, mas é sequer indicado por seu trabalho com Malick, depois de A árvore da vida), Ave, César! (um dos filmes mais diferentes dos irmãos Coen), Jovens, loucos e mais rebeldes!! (o novo de Richard Linklater), The handmaidenDois caras legais e Café Society, no entanto dificilmente serão lembrados.

Meu amigo, o dragão (2016)

Por André Dick

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Esta refilmagem atualizada do clássico de 1977 em que o grande destaque era Mickey Rooney, passado nos anos 1900, envolvendo pescadores e o dragão do título, acompanhados de várias canções e sua mistura de humanos com animação – na época, mais de uma década após o sucesso de Mary Poppins e alguns anos depois do êxito de Se minha cama voasse – se dá num momento em que a Disney atravessa uma fase de grandes sucessos de animação, como Zootopia, e live action, como Mogli – O menino lobo. A companhia tem sido exitosa em recuperar algumas obras clássicas sob nova roupagem, emulando a mesma atmosfera de seu período mais áureo, dos anos 40 aos anos 60, além de conceder espaço à série Star Wars em grande escala depois de George Lucas vender seus direitos.
A história inicia mostrando Pete (Levi Alexander), um menino de cinco anos, que viaja com seus pais (Gareth Reeves e Esmée Myers) quando o carro acaba sofrendo um acidente. O menino se vê obrigado a entrar na floresta de Millhaven, à margem da estrada, onde passa, depois de perseguido por lobos, a ser protegido por um dragão. É um momento-chave para a história, à medida que depois desse acontecimento tudo se transformará em sua vida. Ele dá o nome de Elliot ao dragão, em razão de ser o nome do cachorro de seu livro favorito. E, se há uma coisa que os estúdios Disney gostam de fazer, é mostrar dragões em suas histórias, não apenas no clássico a partir do qual este filme parte, mas Dragonslayer, de 1981, com efeitos visuais até hoje interessantes, assinado por Matthew Robbins.

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Depois de seis anos, Pete (agora Oakes Fegley) vê o integrante de uma serraria que surge para fazer uma obra na floresta de Pacific Northwest, Gavin (Karl Urban, fazendo um personagem diferenciado do McCoy de Star Trek), e é perseguido por Natalie (Oona Laurence), filha de Jack (Wes Bentley). Quando Natalie acidentalmente cai da árvore onde tenta alcançar Pete, seus gritos atraem seu pai, e sua namorada, uma guarda florestal, Grace Meacham (Bryce Dallas Howard). Pete tenta fugir, no entanto Gavin, irmão de Jack, o derruba. O pai de Grace (Robert Redford) sempre contou sobre uma lenda de dragão nas redondezas às crianças, mas sua filha nunca acreditou nele. Isso é um bom início para mudar de ideia. E, a partir de determinado momento, o xerife Dentler (Isiah Whitlock Jr.), também vai querer conhecer melhor essa história. Nenhum dos personagens, porém, segue uma linha de completa bondade ou de vilania – todos se mantêm num meio-termo.
Se Meu amigo, o dragão conserva a magia do original, é acrescido, pelo diretor David Lowery, um tom que lembra inicialmente O quarto de Jack e Super 8, não apenas pela aparência do menino principal, como pelo drama de não ter uma família evidente. Pete é sozinho e tem em Elliot – não por acaso, nome do menino de E.T. – sua grande companhia existencial, que creem ser imaginária, inicialmente: ambos dormem numa caverna e passam o dia pela floresta, entre escaladas de árvores e passeios pelo rio (porém, o dragão, às vezes, pode não ser visto).

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A amizade entre Pete e Grace se faz rapidamente, no sentido mais apurado da fantasia e da aceitação familiar, pois é um menino que procura um núcleo. Como poucas peças hoje em dia, este é um filme que possui coração e uma certa magia que retoma elementos perdidos em algum passado longínquo. Há uma espécie de ingenuidade no bom sentido nas ações dos personagens que levam a narrativa a um espaço amplo de aceitação do espectador. Não há dúvida de que o diretor Lowery utiliza vários encaixes comuns a esse tipo de história – desta vez, porém, a arquitetura é realmente interessante, e mesmo o que poderia se transformar numa ode à defesa do meio ambiente se converte mais numa melancolia passageira relacionada aos homens que sobrevivem da floresta e de sonhos abrigados (ou esquecidos) nela.
Há elementos também de Mogli e o dragão nem de longe lembra Smaug (sendo uma criação da empresa de Peter Jackson), mas é muito mais primo distante do cão de A história sem fim – e pode-se imaginar que Pete o imagina assim também por causa de sua história favorita. O diretor Lowery fez há alguns anos um filme indie, Amor fora da lei, com Ryan Fleck e Rooney Maara, e a montagem de um cult de Shane Carruth, Upstream color. Em Meu amigo, o dragão ele focaliza bosques enevoados e um clima gélido, cercado pelo calor familiar e de Grace, com boas atuações de todo o elenco, principalmente de Fegley e Dallas Howard, atriz subestimada desde Histórias cruzadas, em que fazia um personagem que era contraponto ao de Jessica Chastain, com quem é muito parecida plasticamente, e aqui numa oposição oposta à de A vila.

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No ano passado, ela participou do grande sucesso Jurassic world, entretanto com uma personagem não exatamente interessante. Redford também está bem, com seu aspecto envelhecido sem forçar a sabedoria da idade, evocando talvez Junior Boomer, dos anos 70, o homem branco que largava a civilização para habitar a natureza, e Lowery lida com este elenco multiestelar com talento insuspeito e grande acerto na condução de cada um.
De modo geral, Meu amigo, o dragão é muito bem realizado, com efeitos visuais discretos e eficientes e um contínuo tom de descompromisso, no roteiro escrito por Lowery em parceria com Toby Halbrooks. Não há mais as canções do original, e sim algumas canções, como de Leonard Cohen, St. Vincent e The Lumineers, criando, por vezes, uma atmosfera indie de origem do diretor, com sua tentativa de dialogar com Malick. Superior a outras refilmagens, como a de Cinderela, Meu amigo, o dragão é agradável no ponto certo, emocionante sem cair na pieguice e por vezes dramático no melhor sentido.

Pete’s dragon, EUA, 2016 Diretor: David Lowery Elenco: Bryce Dallas Howard, Robert Redford, Oakes Fegley, Oona Laurence, Wes Bentley, Karl Urban, Isiah Whitlock Jr. Roteiro: David Lowery, Toby Halbrooks Fotografia: Bojan Bazelli Trilha Sonora: Daniel Hart Produção: James Whitaker Duração: 103 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Walt Disney Productions

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Boi neon (2015)

Por André Dick

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Há filmes que possuem uma parte estetizada tão forte que é costume não se encontrar com facilidade onde estaria sua parte mais humana, mesmo ela parecendo estar presente em todos os lugares. Em Boi neon (que certamente tem um dos cartazes mais belos já feitos), o diretor Gabriel Mascaro mostra a trajetória de Iremar (Juliano Cazarré), um vaqueiro que trabalha num grupo que viaja para apresentações de rodeios. São as chamadas vaquejadas, muito comuns no Nordeste brasileiro. Iremar cuida dos touros que são exibidos nas apresentações. No entanto, seu grande desejo é ser estilista, e desenha figurinos para Galega (Maeve Jinkings), que também faz danças sensuais nos eventos. Junto com eles, seguem a filha de Galega, Cacá (Alyne Santana), e Zé (Carlos Pessoa). Cacá tem como referência Iremar e sonha um dia em possuir um cavalo, sendo este animal representado como uma espécie de nobreza, mesmo em meio aos humanos. Esta companhia poderia ecoar Bye bye Brasil, de Cacá Diegues, do final dos anos 70, em que o bom humor era um despiste para a amargura dos personagens. E isto seria mote para um filme de grande humanidade: há problemas, porém, e nunca vemos os personagens mais do que como símbolos.

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É possível imaginar por que Boi neon foi tão bem recebido: ele tem elementos de arthouse, com uma fotografia plasticamente bela de Diego Garcia. Ele já trabalhou para Apichatpong Weerasethakul em Cemitério do esplendor, e pode-se dizer que Mascaro dialoga com a obra do tailandês nos cenários do Nordeste. Os personagens são sempre colocados a distância, não há trocas calorosas e diálogos aparentes, e tudo se concentra em mostrar a analogia entre a vida dessa companhia e os animais. Na obra do tailandês funciona  a presença da natureza porque ele a coloca de maneira quase orgânica, sem nenhuma imposição ao espectador; aqui não exatamente. Mascaro tem um talento evidente em compor um mosaico de imagens que contextualizam uma determinada vida; seus personagens é que parecem não ter a mesma vida encontrada no ambiente em que se inserem, sendo excessivamente simétricos ou estilizados. Quando em determinado momento surge uma nova personagem, Geise (Samya De Lavor), Mascaro a aponta como aquela que pode oferecer uma nova vida em todos os sentidos. Também surge Vinícius de Oliveira, o menino de Central do Brasil, com um estilo diferente como o de Iremar, mas que possui um rabo de cabelo tão bem tratado quanto o dos animais. Não se pode dizer que o filme tenha, como já dito, ecos de O segredo de Brokeback Mountain simplesmente por mostrar um lado mais sentimental de um vaqueiro. Boi neon se mantém mais num terreno de estranheza, jogando com imagens e dando a elas um movimento que seus personagens não exatamente possuem. Nesse universo, Iremar não quer desempenhar o papel esperado dele, assim como Galega. Eles atuam como figuras fora de seus sentimentos principais.

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Há belas analogias, mas elas funcionam mais num plano teórico do que na prática. Existe, igualmente, referências a Carlos Reygadas, principalmente na figura da Galega, que lembra uma de Luz depois das trevas ou alguma estranheza da boate de Twin Peaks – Fire walk with me, embora a referência ao neon, atualmente, seja em igual escala aos trabalhos de Refn (e lances dele se manifestem nos detalhes de cada cenário, em algum fragmento das imagens). E também temos bons momentos de humor, quando Iremar usa a revista com mulheres nuas de outro vaqueiro para desenhar em cima das imagens. Ao contrário de outro filme claro sobre o itinerário de uma companhia, o já referido Bye bye Brasil, este bom humor se dava de maneira clara; aqui, ele se revela mais nas trocas de palavrões. Tudo é encoberto por uma estranheza, que vai desde o fato de em determinado momento se tentar tirar sêmen de um cavalo valioso até o de uma égua a ser leiloada se chamar Lady Di. Tal estranheza é recorrente na obra de Mascaro, que iniciou como documentarista e enveredou pela ficção em Ventos de agosto, mesclando também trechos documentais. Nesse sentido, Boi neon procura ser uma espécie de mescla entre documentário e visão intimista de um universo reconhecido já em telenovelas, não porém sob esse ponto de vista. Este intimismo se converte em potência sexual num determinado trecho de quase seis minutos, filmado à meia luz com absoluta propriedade e que, ainda assim, não oferece à narrativa a tonalidade mais intensa.

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Ao mesmo tempo, temos uma boa atuação de Cazarré, o único realmente a se destacar, num papel curioso pela própria estranheza que desperta. Já que Maeve é subaproveitada, ao contrário do que acontece em O som ao redor, e os demais atores pouco aparecem. Todos eles parecem ter uma dificuldade de lidar com o roteiro sustentado basicamente por um encadeamento de imagens bem filmadas sem um núcleo narrativo capaz de ressoar junto ao espectador, mesmo quando sabemos que aqui o tratamento principal é mostrar o ser humano com instintos tão contidos quanto a natureza dos animais transportados em caminhões. Essa analogia é usada à exaustão, principalmente quando se coloca no mesmo quadro o gado encurralado pela cerca e o caminhão com a tenda estendida de Galega. Seria definitivo se não fosse excessivamente pré-programado, além de a narrativa não ter conflitos reais expostos (a não ser no imaginário do espectador que os interpreta de maneira literal, por meio das imagens reveladas a todo custo). Há muita vontade de ser didático ao espectador, sem deixar nenhum resquício de verdadeira liberdade para se formar uma visão à parte do filme. É de se lamentar que uma obra com temas tão instigantes se restrinja a ser apenas uma visão específica e não muito atrativa de um universo fascinante.

Boi neon, BRA/HOL/Uruguai, 2015 Diretor: Gabriel Mascaro Elenco: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Carlos Pessoa, Alyne Santana, Vinícius de Oliveira, Abigail Pereira, Roberto Berindelli, Josinaldo Alves Roteiro: Gabriel Mascaro Fotografia: Diego García Trilha Sonora: Carlos Montenegro, Otávio Santos Produção: Rachel Ellis Duração: 101 min. Distribuidora: Memento Films International Estúdio: Canal Brasil / Desvia Filmes / Malbicho Cine / Viking Film

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O lar das crianças peculiares (2016)

Por André Dick

o-lar-das-criancas-peculiares-5Faz dois anos que Tim Burton tentou seguir um novo caminho em sua trajetória, com Grandes olhos, logo após o fracasso de crítica e público do subestimado Sombras da noite, um de seus melhores filmes. Eles eram antecedidos pelo grande sucesso de público Alice no país das maravilhas, um dos filmes estranhamente mais impessoais do diretor, mesmo com sua carga estilística. Agora, com O lar das crianças peculiares, baseado no romance de Ransom Riggs, ele tenta mesclar os dois caminhos: um de temática mais adulta e outro de fantasia proeminente, o que já víamos, por exemplo, no aparentemente infantil A fantástica fábrica de chocolate, com seu humor corrosivo. Depois de anos, de artista respeitado por seus atrevimentos Burton passou a ser visto sempre numa zona de conforto, quando na verdade expandiu seu estilo para outros campos – e podemos ver em Sombras da noite, principalmente, um desenho dos anos 1970 de Amargo pesadelo cercado de um inevitável bom humor.
Um adolescente, Jacob/Jake Portman (Asa Butterfield), acompanhado de sua supervisora Shelly (O-Lan Jones), encontra seu avô, Abrãao “Abe” Portman (Terence Stamp), numa situação difícil e, a partir de uma estranha aparição, lembra das histórias que ele contava sobre lutas contras monstros e um lar da senhora Peregrine para crianças peculiares, localizado na costa do País de Gales. Isso, claro, é uma espécie de primeiro passo para uma expansão do que Burton trabalhava em Peixe grande, com seu universo de histórias familiares.

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Jacob passa a consultar a psiquiatra Dr. Golan (Allison Janney), onde tem suas visões colocadas em dúvida, e determinado dia, quando chega a um aniversário surpresa, sua tia Susie (Jennifer Jarackas) lhe entrega o presente de aniversário do seu avô, com uma carta de Miss Peregrine a ele, de apenas dois anos antes.
Jacob e seu pai, Franklin (o subestimado Chris O’Dowd), vão para o País de Gales e alugam um quarto no hotel da ilha, que bem poderia servir como diálogo com os habitantes de O homem de palha. Lá, ele encontra a casa de Miss Peregrine em ruínas por causa de uma bomba lançada durante a Segunda Guerra Mundial. Ele viaja repentinamente no tempo e é acusado de ser um espião nazista, sendo salvo pelo grupo de Miss Alma LeFay Peregrine (Eva Green), que lhe explica que eles vivem sempre no dia 3 de setembro de 1943 e pode se transformar num pássaro (lembrando especificamente a feiticeira de Willow). Na casa havia vivido Victor Buntley (Louis Davinson), até ser morto por um Hollowgast, grupo liderado por Mr. Barron (Samuel L. Jackson). O interesse de Jacob passa a ser por Emma Bloom (Ella Purnell), que precisa usar sapatos de chumbo para não sair flutuando, enquanto conhece as crianças do lugar: Enoch O’Connor (Finlay MacMillan), Olive Abroholos Elephanta (Lauren McCrostie), Millard Nullings (Cameron King), Fiona Frauenfeld (Georgia Pemberton), Bronwyn Buntley (Pixie Davies), Horace Somusson (Hayden Keeler-Stone), Hugh Apiston (Milo Parker), Claire Densmore (Raffiella Chapman) e os gêmeos (Joseph e Thomas Odwell), cada um com suas peculiaridades (e estranhezas à la Burton), quase uma equipe do X-Men em plena Segunda Guerra Mundial, e não por acaso o roteiro adaptado é assinado por Jane Goldman, de X-Men: Primeira classe. São crianças de um mundo à margem, em que a Segunda Guerra Mundial não consegue tocar com sua violência, mesmo que insista com seu relógio do tempo inabalável.

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E são deslocadas como são a maior parte dos personagens de Burton, que de um curta-metragem dos anos 80 passou a um longa há alguns anos sobre um cão que lembra Frankenstein, em Frankenweenie. Essas figuras não atraem pela fantasia: elas são sumariamente estranhas e deslocadas no tempo e espaço pela própria condição. Na ilha, Jacob também tem contato com a Miss Esmeralda Alvocet (Judi Dench) e um ornitólogo (Rupert Everett).
Este universo à parte tem muitos elementos da filmografia de Burton (as esculturas no jardim de Edward mãos de tesoura, os esqueletos do videoclipe que dirigiu para o The Killers, inspirados, por sua vez, em Ray Harryhausen, as cenas aquáticas que lembram Sombras da noite, assim como as da mansão, a floresta noturna que evoca A lenda do cavaleiro sem cabeça, a direção de arte que remete por vezes a Os fantasmas se divertem), mas, de modo geral, tudo é levado num ritmo de episódio de No limite da realidade, quando, por exemplo, Jacob é confundido com um nazista, e com influências nítidas de Feitiço do tempo e de um grande filme de Del Toro sobre um orfanato perdido no deserto em meio à Guerra Espanhola (elementos que devem ter inspirado o romancista que deu origem ao filme, já que o livro é bastante recente, de 2011). Burton sabe, como tem conhecimento cinematográfico, que as referências do livro partem de uma boa parte da história do gênero de fantasia e consegue, como é costume em sua filmografia, não reduzi-la a elementos previsíveis.
Em termos de elenco, chama atenção como Burton extrai uma atuação mais madura de Green, muito exagerada em Sombras da noite, e principalmente de Butterfield, que mostrara talento em A invenção de Hugo Cabret para se perder em meio à ficção adolescente de Ender’s game. Ele consegue tomar esses dois atores no melhor que há neste filme, em que Samuel L. Jackson encarna um vilão exagerado.

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A utilização efetiva de elenco sempre foi um traço de Burton, mas ele vem melhorando ainda mais com a maturidade, ao mesmo tempo que aqui a direção de arte não parece tão destacada dos demais elementos, fazendo uma fusão mais natural com os personagens, comportamentos e figurinos. Há alguns problemas de narrativa, sobretudo quando se tenta explicar a presença dos monstros que ameaçam Miss Peregrine e Jacob, no entanto é justamente em elementos de singularidade que Burton tece sua trama de maneira atrativa. Isso porque ele é acompanhado novamente pelo diretor de fotografia Bruno Delbonnel (O fabuloso destino de Amélie Poulain), seu parceiro desde Sombras da noite, e o figurino de Colleen Atwood, exímios em sua facilidade de compor um universo verdadeiramente marcante. Nesse sentido, O lar das crianças peculiares conduz sua temática de maneira que costumamos ver na obra de Burton, apenas com o acréscimo de um lado soturno menos fantasioso, algo que ele tentou fazer em sua adaptação de Alice sem conseguir com a mesma eficiência. Embora o terceiro ato se pareça com muitas peças no estilo Disney e blockbusters, esta ainda é uma peça com sensibilidade rara.

Miss Peregrine’s home for peculiar children, EUA, 2016 Diretor: Tim Burton Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett, Allison Janney, Chris O’Dowd, Terence Stamp, Ella Purnell, Finlay MacMillan, Lauren McCrostie, Hayden Keeler-Stone, Georgia Pemberton, Milo Parker, Raffiella Chapman, Pixie Davies Roteiro: Jane Goldman Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Jenno Topping, Peter Chernin Duração: 127 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Chernin Entertainment / Tim Burton Productions

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Cavaleiro de copas (2015)

Por André Dick

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É cada vez mais difícil se separar quem é admirador de Terrence Malick e por isso gosta de seus filmes de quem se afasta totalmente deles para tentar examinar cada obra sua como uma peça única. Parece ser esta a questão: nenhum filme de Malick responde por si só. Ele é como se fosse uma nova peça que explicasse melhor escolhas dos filmes anteriores, sobretudo A árvore da vida e Amor pleno, com uma autoconsciência dispersa. Em Cavaleiro de copas, que foi, de forma surpreendente, lançado pela Netflix, sem passar pelos cinemas brasileiros (o que mostra o estado atual de coisas, em que comédias sem valor estreiam com divulgações especiais), ele mostra o universo de Hollywood por meio de um roteirista, Rick (Christian Bale), e utiliza a fotografia de Emmanuel Lubezki para um panorama detalhado e desesperançoso da cidade de Los Angeles. Onde Drive, de Refn, é fantasioso, apesar de violento, Cavaleiro de copas ingressa numa espécie de personagens sem um direcionamento claro, inclusive todos aqueles que se atravessam no caminho de Rick, como o pai, Joseph (Brian Dennehy), e o irmão, Barry (Wes Bentley).

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Esta parte dialoga muito com Amor pleno e a história pessoal de Malick, já exposta de maneira clara em A árvore da vida: sua culpa em relação à morte do irmão e o peso do pai sobre seus ombros. É a matiz dramática mais esclarecida de Cavaleiro de copas, enquanto a vida entre festas e caminhadas na praia de Rick não sossega nem com a presença de Helen (Freida Pinto), Della (Imogen Poots), Karen (Teresa Palmer), Nancy (Cate Blanchett) e Elizabeth (Natalie Portman). Que o elenco feminino é fantástico em termos de atuação, principalmente Blanchett e Teresa Palmer, não é novidade na trajetória de Malick, mas quem realmente oferece uma grande atuação, depois de anos, é Dennehy, como o pai do personagem principal, apesar de sua brevidade na narrativa.

Se havia algum filme anterior que encantava com o glamour de Hollywood, com exceção de Cidade dos sonhos, Cavaleiro de copas dispara na direção de que este universo está previamente condenado, pela figura de Rick e sua trajetória vaga e sem nenhuma possibilidade de encontro, pelo menos aparente. É notável como, por meio, novamente, de pensamentos soltos, e um fio de ligação muito tênue entre os personagens, que Malick mostre um personagem tão solitário e trágico como o de Rick, e Bale faz por merecer uma interpretação quase sem falas e ainda assim impressionante.

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O misto entre a infância – logo no início – e as tentativas de Rick em reencontrá-la, seja por meio de uma visita a um aquário gigantesco, seja pelos encontros conflituosos com o pai (no qual visualiza o temor de também ter um filho), se mostra principalmente por suas caminhadas pela praia, à noite ou de dia. Há um sentido cósmico e religioso como no personagem de Affleck em Amor pleno, entremeado aqui por cartas e símbolos do tarô (e lances de cultura oriental). De qualquer modo, Cavaleiro de copas se sente ainda com uma narrativa mais fina do que a de Amor pleno, no sentido de que deixa ao espectador amarrar totalmente as pontas, ao som de uma trilha perturbadora e bela de Hanan Townshend.

Nisso, há o visual situado entre um presente amargamente solitário e um futuro que aparenta calmaria no tamanho imponente das casas envidraçadas e nos enormes salões e casas pelas quais Rick passa (inclusive pela mansão de Tonio, o alter ego de Antonio Banderas). Este personagem pouco tem daqueles que Antonioni mostrava em seu cinema, ou de qualquer metalinguagem: ele é simplesmente um roteirista que não vê razão em nada ao redor, mas procura, de fato, descobrir algo que o faça emergir. Malick não está oferecendo nenhuma resposta quando mostra esse personagem entre paisagens urbanas e paisagens naturais, assim como num carro pela estrada ( e a direção de arte do habitual colaborador de Malick, Jack Fisk, é extraordinária).

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Há cenas absolutamente belas, como aquelas em que mostra Portman e Bale indo a uma galeria de arte e depois a uma plataforma marítima. Malick, por outro lado, joga essas belas imagens com uma sede de repetição constituindo a rotina exasperante de Rick, como se a novidade só pudesse ser oferecida por um terremoto assustador ou por idas a clubes noturnos de mulheres (em certos momentos, ele lembra o personagem de Sam Shepard em Estrela solitária, de Wim Wenders).

Malick, ao transformar seu filme num certo momento numa sessão de fotografias, faz uma crítica não apenas a seu universo como a sua obra, que precisa dessa beleza aparentemente atordoante para poder se representar, fora a rotina que carrega em cada palmo da história. Nessa rotina Malick, ingressa símbolos enigmáticos e divinos, também representados pela figura do Fr. Zeitlinger (Armin Mueller-Stahl).

A montagem elíptica e mais lenta do que a de Amor pleno, feita a oito mãos (A.J. Edwards, Keith Fraase, Geoffrey Richman e Mark Yoshikawa), concede à fotografia de Lubezki e ao roteiro de Malick uma espécie de segunda camada: as cenas de água, recorrentes, parecem contrastar com os edifícios e as estradas com o asfalto rachado pelo sol, assim como parecem indicar o nascimento dos personagens. Depois de receber os Oscars por Gravidade, Birdman e O regresso, Lubezki revela mais uma vez seu poder de visualizar o universo de maneira irretocável e criar quase um à parte, dentro do cotidiano a que estamos acostumados.

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É muito comum se dizer que não há nada verdadeiramente humano nos experimentos mais recentes de Malick, apenas uma sequência de imagens belas. Isso certamente não corresponde à verdade, e o que Cavaleiro de copas mais apresenta é certamente uma sensação vaga referente a todos os personagens assim como o cenário que os rodeia: tudo é tão imenso que parece impalpável e do mesmo jeito o espectador se sente em relação às suas ações, como se elas fizessem parte de uma rotina pré-programada e sem novidades. Desde o início, numa narração em voice over, o personagem busca o sentido da vida como, numa história infantil, um príncipe busca sua “pérola”. Esta pérola pode ser encontrada em vários rostos, mas Rick não parece querer permanecer com eles, assim como o personagem de Affleck no filme anterior.

Mas, ao contrário de A árvore da vida  e Amor pleno, este filme parece menos esperançoso no sentido de que Malick empresta a esta palavra principalmente desde Dias de paraíso, ou seja, ele concede uma determinada abertura ao final que parece manter certas dúvidas. Há um sentimento constante de perda e de isolamento em relação ao personagem de Rick e, se não soubesse que Malick é um cineasta que costuma se esconder de eventos, eu poderia imaginar que é um alter ego dele. Eis uma Hollywood com todos os brilhos e luz intensa do sol, mas, ao mesmo tempo, sem brilhos ou sol, pois a vemos apresentada pelos olhos de Rick. É um dos filmes definitivos sobre a cidade, sobre o que ela esconde (principalmente) ou revela, da maneira como apresenta seus espaços e estúdios a céu aberto, em meio a rochedos que poderiam capturar algo da velha Hollywood (do faroeste nostálgico) e, no entanto, só trazem um pouco mais de indefinição para o personagem central.

 

Knight of cups, EUA, 2016 Diretor: Terrence Malick Elenco: Christian Bale, Brian Dennehy, Wes Bentley, Cate Blanchett, Natalie Portman, Imogen Poots, Teresa Palmer, Isabel Lucas, Freida Pinto, Antonio Banderas, Nick Offerman, Jason Clarke, Joel Kinnaman, Kevin Corrigan, Cherry Jones, Armin Mueller-Stahl Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Hanan Townshend Produção: Nicolas Gonda, Sarah Green, Ken Kao Duração: 118 min. Distribuidora: Broad Green Pictures

 

cotacao-5-estrelas