Uma cilada para Roger Rabbit (1988)

Por André Dick

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Duas crianças causam muitos problemas aos pais, até o dia em que pedem uma nova babá. Quem chega, voando de guarda-chuva, é Mary Poppins(Julie Andrews), que transforma a vida dessa família tradicional, administrada por Mr. Banks (David Tomlinson). O melhor amigo dela é um rapaz que faz apresentações no parque – talvez a interpretação mais conhecida de Van Dyke neste filme de 1964. Enquanto Mary viaja com as crianças por um mundo encantado (a primeira mistura perfeita de humanos com animação), Banks pretende associá-las ao banco onde trabalha. Alguns o consideram um musical, outros um filme direcionado ao público infantil, mas é difícil negar sua qualidade e números de dança, como o da chaminé, na qual se mistura a realidade e a fantasia para recriar um novo mundo. Desde a parte técnica, passando pela direção e elenco, Mary Poppins, de Robert Louis Stevenson, marcou época.
Em 1971, na mesma linha, foi realizado Se minha cama voasse, do mesmo diretor de Mary Poppins, também com algumas cenas animadas. A atriz da Broadway Angela Lansbury faz uma aprendiz de feiticeira na época da invasão nazista. Utiliza uma de suas mágicas para fazer uma cama voar e leva junto três crianças. Juntas, viajam para um mundo animado (com cenas que lhe valeram o Oscar de efeitos especiais).
Outra referência distante a misturar desenho animado com atores foi A canção do sul, de 1946, também dos estúdios Disney, ganhador do Oscar de canção (“Zip-A-Dee-Doo-Dah”), e com cenas antológicas. É o retrato de uma criança, que vai viver no sul dos Estados Unidos com a mãe. Lá, acaba fazendo amizade com um homem (James Baskett), contador de histórias sobre um coelho, uma raposa e um urso – as cenas animadas são ótimas –, o que acaba provocando a vaidade da mãe do garoto. É uma pequena obra-prima.

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Uma cilada para Roger Rabbit, baseado no romance homônimo de Gary K. Wolf, reuniu as técnicas desses filmes do final dos anos 1980 com os ganhos da Industrial Light & Magic de Goerge Lucas. Tecnicamente impecável – ganhou Oscars de montagem, efeitos sonoros, efeitos especiais e melhor animação especial –, é um dos melhores filme de Robert Zemeckis (Febre de juventude, De volta para o futuro e Forrest Gump), também porque consegue mostrar uma ambientação histórica (a Hollywood dos anos 40, mais exatamente de 1947, ou seja, durante a II Guerra Mundial), mais rara em sua trajetória. Ele acerta desde a escolha do elenco até os atores que dublam os desenhos.
Começa em plena ação animada, em que o coelho Roger tenta salvar Baby Herman (voz impagável de Lou Hirsch) de um tombo. Em seguida, Baby sai resmungando do estúdio, empurrando os  humanos. Isso porque os desenhos animados vivem em Toontown, em Hollywood, convivendo com seus criadores. R.K. Maroon (Alan Tilvern) contrata o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins, excelente) para investigar se Jessica, a mulher de um desenho animado, Roger Rabbit (com voz trepidante de Charles Fleischer), que trabalha para a Maroon Desenhos, está cometendo traição.
Depois de ser informado da possível traição de Jessica com Marvin Acme (Stubby Kaye), dono da Corporação Acme e proprietário da Toontown, este é morto e Roger Rabbit vira o principal suspeito. O coelho procura Valiant para tentar se salvar. O detetive, com a ajuda da namorada Dolores (Joanna Cassidy) e psicologicamente abalado depois da morte do irmão, precisa repensar na ideia de tentar ajudar um desenho – cuja imagem ainda lhe traz calafrios. Quando chega ao local do crime, o detetive conhece o juiz da Corte Superior Distrital de Toontown, Doom (Cristopher Lloyd, o Doc Brown de De volta para o futuro), que procura por Roger.

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Mistura-se a essa ideia inicial o fato de que Acme havia feito um testamento deixando Toontown para os desenhos, que não interessa a Doom, que pretende construir uma autoestrada no lugar. No entanto, ele quer mais: destruir os desenhos animados com um caldo químico verde capaz de dissolvê-los, e anda cercado de doninhas que dirigem um furgão policial.
A intensidade de cores se completa com cenas brilhantes – a perseguição no carro Benny, os personagens dos estúdios Disney desfilando pelos cenários (personagens de Fantasia, Dumbo, Peter Pan, Mickey Mouse) – e humor na medida certa (o momento em que Valiant encontra Betty Boop no show de Jessica). Os elementos anteriores da trajetória de Zemeckis estão aqui: como em Febre da juventude e De volta para o futuro, Zemeckis emprega uma sucessão de situações divertidas, mas sem o peso descartável de grande parte dos blockbusters. Do mesmo modo, consegue humanizar personagens que poderiam ser vistos apenas como rótulos. Embora Valiant represente um detetive situado nos anos 40 e numa situação, apesar de diferente, típica do cinema noir, ele consegue se desvencilhar sempre de uma pretensão extra, embora pareça, ao mesmo tempo, atingido por seu passado – e que conduz sua desconfiança ao mundo das animações. Zemeckis também consegue colocar num limite a figura de Roger Rabbit sem que ele soe insuportável, quando no início ele assiste a uma apresentação de Donald e Patolino (cada qual em seu piano, prestes a uma mútua destruição) e depois acaba tendo seu lado emotivo e transtornado à mostra – isso sem falar na cena em que ele está no cinema se divertindo com Pateta, para ele o maior astro. Com a voz de Kathleen Turner certamente reprisando Corpos ardentes e influenciada pelas divas dos anos 40, Jessica também consegue marcar presença entre Valiant e os vilões.
No entanto, há um subtexto bem mais grave nos gracejos de Uma cilada para Roger Rabbit, que é a própria condução de um personagem que deseja exterminar uma cidade de desenhos animados com um caldo químico capaz de fazê-los desaparecer (a partir daqui, spoilers). Os requintes de maldade do juiz Doom e a necessidade de passar por cima dos bondes para dar visibilidade ao seu desejo é também a necessidade de, em meio à II Guerra Mundial, lucrar não mais por meio da arte, mas em cima da destruição. O juiz Doom, de certo modo, consegue simbolizar que o maior inimigo esconde, por trás, a própria composição daqueles que combate – composição desvirtuada – e o seu figurino é similar ao do nazista de Os caçadores da arca perdida. Ou seja, ele, mais do que destruir sua origem, quer, por meio dela, atingir outra fonte de faturamento. Por isso, a cena de Roger e Jessica pendurados no final tentando fugir de uma mangueira com o produto químico que pode destruí-los, contra um muro que se abre para a cidade de Toontown, representam a linha que, assim como separa a realidade da fantasia, aproxima as duas, assim como Se minha cama voasse. Para Zemeckis, durante a II Guerra Mundial, a ideia de infância da humanidade era apagada pela tragédia. E por isso Uma cilada para Roger Rabbit conseguiu se tornar uma obra única no gênero, um dos responsáveis por reerguer o campo das animações e que, mais do que acrescentar agradáveis surpresas e reviravoltas bem delineadas, é um acabado produto histórico.

Who framed Roger Rabbit, EUA, 1988 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Bob Hoskins, Christopher Lloyd, Charles Fleischer, Joanna Cassidy, Stubby Kaye, Alan Tilvern, Lou Hirsch, Richard Le Parmentier, Betsy Brantley, Joel Silver Roteiro: Jeffrey Price, Peter S. Seaman Fotografia: Dean Cundey Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Frank Marshall, Robert Watts Duração: 104 min. Estúdio: Amblin Entertainment / Touchstone Pictures / Silver Screen Partners III

Cotação 4 estrelas e meia

Walt nos bastidores de Mary Poppins (2013)

Por André Dick

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Com a temporada de possíveis indicados ao Oscar em alta, durante o final de cada ano, há sempre algum filme que acaba por simbolizar aquela característica que a premiação tentaria deixar para trás: o intitulado melodrama capaz de manipular o espectador. Se ainda, com essa manipulação, tivermos paisagens ensolaradas, pessoas parecendo viver num ambiente paralelo, e o Mickey Mouse em cima da cadeira mais próxima, soando como uma autopropaganda incômoda em alguns momentos, este filme pode correr o risco de ser visto exatamente com mais um passatempo descartável e esquecido de categorias consideradas mais importantes. Walt nos bastidores de Mary Poppins foi o filme que representou, este ano, o anseio de a Academia negar aquilo que costuma se ter como exemplo de Oscar. Mesmo precedido por premiações como o Globo de Ouro, que indicou Emma Thompson como melhor atriz, ele nos deixou em dúvida, já pelo trailer, se seria um convite irrecusável a sair da frente da tela.
Emma faz a escritora P.L.Travers, autora de Mary Poppins, que é procurada durante décadas por Walt Disney, a fim de que ceda os direitos de sua obra para uma adaptação. No entanto, a Califórnia está longe de ser o lugar ideal para ela. Incomodada pelo editor, que considera sua decisão de não publicar mais livros e depender de direitos autorais, equivocada, ela precisa reencontrar o Mr. Banks de Mary Poppins na figura do então midas de Hollywood, Disney (Tom Hanks). Chegando aos estúdios com o motorista, Ralph (Paul Giamatti), é claro que ela irá maltratar a todos que encontra pela frente, inclusive o roteirista da adaptação, Don DaGradi (Bradley Withford), e a dupla que fará as canções do filme, Robert (B.J. Novak) e Richard Sherman (Jason Schwartzman). Travers, no entanto, não deseja músicas na transposição para o cinema e, principalmente, desenhos animados. O mais delicado, ainda, é que ela não deseja assinar o contrato cedendo os direitos autorais.

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Dizer que o diretor John Lee Hancock faz uso de várias referências à obra de Robert Stevenson, indicada ao Oscar de melhor filme em 1965, seria natural, e mais ainda os embates entre Travers e equipe que constitui o projeto. Ela pode tanto querer outro ator para o papel principal quanto desejar que não haja uma determinada cor durante todo o filme. Hancock, no entanto, em meio a isso, desenha – em ritmo de filme da Disney (sem nenhuma ambientação escura) – um paralelo com a história da infância da escritora, na qual a atriz Annie Rose Buckley desempenha o papel, em que seu pai, Travers Goff (Colin Farrell), passa por problemas em seu emprego e com suas escolhas, diante de conflitos com a esposa, Margaret (Ruth Wilson). Parece, a princípio, um elemento deslocado na narrativa, fazendo com que haja vários flashbacks, mas, aos poucos, a montagem consegue encaixar de maneira mais desenvolta esse paralelo e, aqui, apesar de elementos atenuados pelo estilo Disney, pode-se dizer que o filme passa de apenas um símbolo do escapismo e da dedicação exclusiva à arte para uma humanidade e a redescoberta da infância sob um novo olhar – principalmente num flashback que se alterna com determinada reunião em que se cria uma canção para Mary Poppins. Hancock torna o ponto central a maneira como se recria a memória por meio da arte, e como esta pode se desviar da verdadeira história. Embora em alguns momentos esse excesso nostálgico prejudique, em detrimento da presença dos irmãos Sherman e de Walt Disney, o filme de Hancock acaba dosando de modo interessante os elementos.
Seria injusto não lembrar o quanto Mary Poppins remete à infância e às primeiras idas à locadora para reconhecer filmes que não podiam ser vistos no cinema, e o quanto o filme consegue lidar com essa atmosfera capaz de despertar a imaginação. Algumas obras dos estúdios Disney simbolizam essas características, sobretudo quando trazem astros em grande momento, como Julie Andrews (vencedora do Oscar de atriz pelo papel), e Mary Poppins é uma espécie de referencial, principalmente por sua influência no cinema ao misturar atores reais com desenhos animais, o que também lhe valeria um Oscar de efeitos especiais. O que o filme de Hancock faz é traçar como a imaginação despertada por esse filme pode estar ligada a também várias negações e embates de seus envolvidos, sem conduzir para um ambiente autoindulgente, em que as conversas desaparecem com a metalinguagem. Quando Travers e Disney conversam, não temos exatamente um aprofundamento nessa caracterização de que a obra pode estar ligada à vida e vice-versa, mas do quanto ideias como essa são esquecidas em nome de uma denominada grande beleza. Em suma, Walt nos bastidores de Mary Poppins não seria mais do que um drama que pode ser considerado comum, com alguns lances de emoção certamente inevitáveis, mas que servem ao fato de a obra conseguir chegar a um objetivo, e este corresponde não apenas ao apelo dos bonecos Disney, como o filme pode deixar desastradamente subentendido, mas à própria infância – e certamente não seria mais questionável do que filmes que querem se tornar herméticos, sem êxito, e pretensamente contidos porque não possuem o que dizer.

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É interessante como um filme no estilo de Walt nos bastidores de Mary Poppins pode ser visto apenas como sentimental. Não raro isso abre um espaço para aquilo que deve ser, na verdade, questionado em filmes cuja elaboração e pretensão se fixam num discurso que ronda sempre uma certa amargura visivelmente proposital para incomodar, mesmo que não que seja verdadeira ou se traduza em diálogo com o espectador, mantendo-se sempre perto de um conceito, teoria ou citação para serem cultuados e respeitados. Ou seja, há uma leveza nítida em Walt nos bastidores de Mary Poppins, mas bem menos prejudicial do que uma erudição calculada.
E é claro que não se esperaria de uma obra produzida pelos estúdios Disney uma visão negativa do próprio criador – no entanto, o filme também o situa como certamente manipulador em busca de pegar para seu projeto de cinema uma obra alheia. Isso é colocado de maneira sutil, fazendo com que não haja uma condescendência excessiva, embora Mickey Mouse volte à cena de modo deslocado. E Tom Hanks entrega a sua melhor atuação do ano (não a de Capitão Phillips). Sua interação com o elenco é excelente e o filme melhora a cada vez que temos sua presença, mas quem entrega realmente uma atuação primorosa, no sentido de lidar com o roteiro sentimental de modo a tirá-lo de uma aproximação com o drama forçado, é Emma Thompson. Mas ela não funcionaria sem a contrapartida de Hanks e do restante do elenco, principalmente Paul Giamatti, muito bem mesmo com poucas linhas de diálogo, e Jason Schwartzmann, como Richard Sherman, trazendo sua presença bem-humorada que transformou obras como Rushmore e Maria Antonieta. Ou seja, Hancock, roteirista de um dos melhores filmes de Clint Eastwood (Um mundo perfeito) e diretor do superficial Um sonho possível (que deu o Oscar de atriz a Sandra Bullock), é extremamente feliz na escolha deste elenco. Historicamente deslocado, parecendo um filme que habita os anos 1950, com uma direção de arte e figurinos extremamente elaborados, Walt nos bastidores de Mary Poppins é uma agradável surpresa.

Saving Mr. Banks, EUA, 2013 Diretor: John Lee Hancock Elenco: Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrell, Paul Giamatti, Jason Schwartzman, Bradley Whitford, Annie Rose Buckley, Ruth Wilson, B.J. Novak, Rachel Griffiths, Kathy Baker Roteiro: Kelly Marcel, Sue Smith Fotografia: John Schwartzman Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Alison Owen, Ian Collie, Philip Steuer Duração: 125 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Walt Disney Pictures

Cotação 4 estrelas

Até o fim (2013)

Por André Dick

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Depois de saírem as indicações ao Oscar, Robert Redford, visto até então como um dos possíveis nomeados na categoria de melhor ator por seu papel em Até o fim, disse que possivelmente não havia sido lembrado em razão de o cinema ser uma indústria e o estúdio não chegou a acreditar na divulgação do filme de J.C.Chandor (Margin Call). Indicado, no entanto, à categoria do Spirit Awards, Redford já ganhou o Oscar por sua direção em Gente como a gente, e já protagonizou filmes ganhadores do prêmio principal (como Golpe de mestre e o próprio Gente como a gente). Quando vemos o seu novo filme, temos a ideia de que ele realmente não tinha uma pretensão especial para ser indicado às categorias principais. Trata-se de um filme feito especialmente com a ideia de sobrevivência – e tenta fazer dela seu conceito.
Nos últimos anos, tivemos alguns grandes filmes com este tema, especialmente dois que acabaram justamente se destacando nos Oscars: As aventuras de Pi e Gravidade. De As aventuras de Pi, temos o fato de Até o fim também ser um filme sobre um homem enfrentando os perigos em alto-mar a partir do momento em que seu barco passa a ter problemas. Mas, se na fantasia de Ang Lee havia o tigre Richard Parker, em Até o fim temos apenas o personagem de Redford, a exemplo de Tom Hanks de Náufrago. Mas, ao contrário do filme de Zemeckis, não sabemos a quem o homem de Até o fim precisa pedir desculpas em carta. Finalmente, temos o exemplo de Gravidade, o filme que rendeu a melhor atuação de Sandra Bullock, em sua fuga da morte espaço afora, tentando se prender à Terra.

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Até o fim

O filme de Chandor cede a todos os apelos de um filme nesse sentido: não raro, o espectador se sente angustiado com a citação, pois vê o personagem isolado nele, sem ter a quem pedir ajuda. Em Até o fim, parece, ainda, que o homem retratado é velejador e experiente, tamanha a sua perícia em lidar com os problemas que vão surgindo pouco a pouco – e se os restos de um cargueiro são o principal vilão, o rádio de comunicação passa a ser o único intermédio com a civilização. Com o máximo de empenho, Chandor vai buscando cada uma das ações do personagem na tentativa de sobreviver em alto-mar, tentando basear sua localização num mapa que parece mais longínquo ainda do que a ajuda para seu estado. Até o fim vem calculadamente como um engenho de roteiro prático, em que cada movimento acaba valendo mais do que uma discussão entre personagens e um conflito. O espectador é convidado a reconhecer cada um dos passos do personagem nessa tentativa de sobrevivência durante alguns dias, certamente insuficientes diante da situação que estabelece.
No entanto, talvez isto não seja o bastante para configurar uma situação ainda mais dramática. Talvez porque seja difícil ter uma proximidade maior com o personagem de Robert Redford. Sua atuação é interessante e compenetrada, mas lhe falta uma camada mais emocional. Tudo soa muito controlado num acontecimento desesperador. Redford tem uma difícil atuação por desempenhar um filme em que precisa segurar de ponta a ponta uma narrativa em que o conflito com os humanos está ausente – sendo a natureza aquela que pode ajudá-lo ou definir seu destino – e consegue se notabilizar pela paciência justamente em ter pouco a dizer. Trata-se, nesse sentido, de uma proeza. Mas o filme se contenta justamente em estabelecer esta proeza do comedimento. Em certo momento, é difícil acreditar na paciência e tranquilidade do personagem – Redford parece, neste personagem sem nome, situar seu envolvimento com a palavra em apenas um momento, e este momento é suficiente para determinar que tudo o mais parece ter sido filmado para mostrá-lo, tornando-se o núcleo e, inevitavelmente, seu problema.

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Alguns espectadores do filme ficariam contrariados, considerando que isso tiraria do filme sua atmosfera mais enigmática e abstrata: a questão é que se sente falta de conhecer mais sobre este personagem além daquilo que a narrativa revela. Não se trata de uma linearidade, mas de um estabelecimento de que a humanidade não depende apenas de um estado, mas de um vínculo. E o fato de o filme deixar questionamentos a respeito do personagem não o torna necessariamente, como é o caso, complexo – pode ser uma escolha de estrutura da narrativa apenas condensada, mas sem ser efetiva. Em certos momentos, é como se Chandor tivesse tentado filmar no mar aquela passagem do astronauta em 2001, na transição do osso para a espaçonave. Precisávamos imaginar o que ele faz naquele nesse espaço, mais do que aquilo que nos é dado. Mas Kubrick é, sensivelmente, mais diretor do que Chandor no sentido de não se querer lidar apenas com a situação, mas com o vínculo que pode se estabelecer neste espaço. Da maneira como ele estabelece as pontas do filme, parece que  estava mais preocupado com o preciosismo da motivação central, esquecendo-se do restante – e da maneira como mostraria Redford chegar a um determinado ponto de limite. Há um aspecto de documentário até a metade do filme, que a fotografia e o trabalho de som (indicado ao Oscar) não conseguem encobrir, em que a emoção é relegada em favor de um pragmatismo, e, se ele melhora em sua parte final, sobretudo porque passa a mostrar um pouco mais a expectativa do personagem no que se refere a uma possível solução, tornando-o mais plausível, não parece que muda seu estado de vida. Ou seja, se J.C. Chandor filma com competência e a trilha sonora de Alex Ebert tem bons momentos, até emocionantes, trazendo uma certa caracterização delicada aos percalços do personagem, e tornam Até o fim um filme ao menos de respeito, o resultado final acaba sendo próximo do desapontador.

Al is lost, EUA, 2013 Diretor: J.C. Chandor Elenco: Robert Redford Roteiro: J.C. Chandor Fotografia: Frank G. DeMarco, Peter Zuccarini Trilha Sonora: Alex Ebert Produção: Anna Gerb, Justin Nappi, Neal Dodson, Teddy Schwarzman Duração: 106 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Before The Door Pictures / Black Bear Pictures / Washington Square Films

Cotação 2 estrelas e meia

 

Resultados do Oscar 2014

Por André Dick

12 anos de escravidão.Filme 2

As premiações que antecedem o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (como o Globo de Ouro, Independent Spirit Awards, SAG) acabam extraindo certa surpresa na entrega daquele que é considerado o prêmio mais importante da indústria. Se suas falhas de premiação criam debate, também cresce o interesse por ele, independente de seus favoritos. Neste ano, o Oscar teve como anfitriã a apresentadora Ellen DeGeneres, e ela saiu-se melhor do que Seth MacFarlane, no ano passado, convidando o elenco de Trapaça a ser quase um coadjuvante de sua apresentação – talvez como consolo para a obra de O. Russell –, com números musicais para cada canção (ao contrário do ano passado), homenagens aos heróis do cinema (não apenas os super-heróis), a O mágico de Oz e um In Memoriam com lembrança ao documentarista brasileiro Eduardo Coutinho e finalizado com a imagem de Philip Seymour Hoffman. E, se a plateia parecia interessada na premiação, Christian Bale dava a sincera impressão de não gostar do que via. A apresentação feita aos melhores filmes, de três em três, não destaca, no entanto, cada obra como deveria, embora se acontecesse o contrário a cerimônia iria demorar ainda mais. Foi uma boa apresentação, dentro do cansaço que normalmente impõe.

Melhor filme 

12 anos de escravidão.Oscar 5

Realmente, o número de 10 indicações a Trapaça foi um exagero, mas não em termos de elenco. Se há uma qualidade relevante na obra de O. Russell, é a interação entre Bale, Cooper, Adams e Lawrence. As indicações dos quatro foram merecidas. Em termos técnicos, parece que, sim, a obra pode ser questionada: a questão é que seu design de produção não convence. Por ser um filme de época (nos anos 70), também se pode avaliar que é despretensioso em recriar este período, apoiando-se apenas num belo figurino, mas nunca, ao longo do filme, contextualizado.
É lamentável que Martin Scorsese também tenha enfrentado um ano de tão fortes concorrentes, pois O lobo de Wall Street normalmente teria chances fortes de receber o prêmio. Assim como Nebraska, de Alexander Payne. Eles, aliás, repetiram 2012, quando concorriam respectivamente com A invenção de Hugo Cabret e Os descendentes, tão bons quanto esses mais recentes, e perderam para O artista. Filmes desse porte saírem sem um prêmio é incomum. Também Philomena, de Stephen Frears, num ano menos competitivo, poderia ter saído vencedor.
Uma nota também em relação a Ela, de Spike Jonze, não ter tido a força suficiente de marketing junto aos integrantes da Academia para se demonstrar como obra merecedora de mais prêmios e indicações (como o esquecimento de Joaquin Phoenix e da voz de Scarlett Johansson), embora se possa dizer que teve um prêmio mais do que justo por roteiro original.
O independente Clube de compras Dallas acabou sendo reconhecido de forma merecida, por seu elenco, tendo à frente Matthew McConaughey e Jared Leto, saindo-se melhor do que obras de grandes estúdios.
A questão é que, como em 2010, 2012 e 2013, chegaram ao Oscar vários filmes de qualidade – e cada vez mais o aumento de vagas se mostra acertado, embora alguns filmes de menos qualidade acabem ingressando em alguns anos. Como nesses anos, trouxe pelo menos seis obras memoráveis (Ela, 12 anos de escravidão, O lobo de Wall Street, Nebraska, Gravidade, Philomena), duas de interesse (Clube de compras Dallas e Trapaça) e outra um tanto deslocada, a meu ver (Capitão Phillips).
A força histórica de 12 anos de escravidão e a sensibilidade espacial de Gravidade mereceram todos os espaços recebidos. Podem, muitas vezes, ter sido superestimados, mas são grandes obras e resultados de investimentos por parte de seus diretores: McQueen e Cuarón se revelam artesãos do cinema, cada um a seu modo, e grandes montadores. Seus filmes são concebidos dentro de uma concepção ao mesmo tempo clássica e moderna. De modo que a vitória de 12 anos de escravidão como melhor filme foi merecida, e os Oscars de direção e técnicos (no total de 6) dados a Gravidade foram também justos.
O raciocínio de divisão parece ter sido o mesmo do ano passado, quando Ang Lee recebeu o prêmio de direção por As aventuras de Pi e Argo foi o melhor filme, ou seja, a Academia considera o diretor que lida com efeitos visuais e uma história mais baseada no fantástico talvez mais competente, mas não a ponto de estar à frente do melhor filme. E este ano marcou uma curiosidade: o filme com melhor montagem, fotografia, trilha sonora e diretor não foi escolhido como melhor filme (sobretudo o prêmio de montagem costuma combinar com o principal).
A premiação de qualquer um de seis indicados, em maior ou menor conta, seria justa – e eu escolheria Ela, mas sem deixar de admirar os outros concorrentes (minha ordem de preferência é esta abaixo).

Melhores filmes.Oscar 2014

Se os esquecimentos também se concentram em produções mais independentes, como Short Term 12, Fruitvale Station e The spectacular now, assim como Azul é a cor mais quente, vencedor em Cannes, de O grande mestre e Amor pleno, não se pode dizer que os Coen foram injustiçados. De fato, Inside Llewyn Davis parece seu filme mais fraco desde E aí, meu irmão, cadê você? Uma lembrança, abaixo, de 10 filmes que poderiam ter disputado as categorias principais do Oscar.

Filmes.2014

Talvez o grande perdedor deste ano tenha sido Harvey Weinstein. Apesar de ter conseguido incluir o sensível Philomena e Álbum de família entre os indicados, ele não conseguiu as indicações pretendidas para Fruitvale Station e O mordomo da Casa Branca. Também não conseguiu indicação de O grande mestre para filme estrangeiro. O prêmio dado a O discurso do rei ainda ecoa entre aqueles filmes mais fracos a serem premiados pela Academia.

Abaixo, reproduzo cada uma das categorias (com nomes que poderiam ter sido lembrados, como uma homenagem também a outros trabalhos, a partir de observações já feitas no texto sobre os Indicados ao Oscar 2014).

Melhor diretor

Gravidade.Oscar 7

Depois dos ótimos A princesinha e Grandes esperanças, Alfonso Cuarón fez aquele que é considerado o melhor episódio da série Harry Potter (Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban) e vence seu prêmio por Gravidade, com um grande trabalho, também de artesão. E com ótimos concorrentes, sobretudo Scorsese, em seu melhor momento em anos, Steve McQueen e Alexander Payne. Payne há muitos anos merece o prêmio, mas McQueen ainda tem um caminho a trilhar e novas indicações. Sua direção em 12 anos de escravidão é ótima, entretanto é seu terceiro filme.

Melhor ator

Clube de compras Dallas.Oscar 4

Uma das categorias mais difíceis deste Oscar, pois todos os atores estão excelentes em seus papéis. É lamentável que Bruce Dern dificilmente tenha outra chance depois de Nebraska. DiCaprio também se mostrou excepcional em O lobo de Wall Street e o que talvez tenha o papel mais difícil, transitando pelo humor e pela comédia ao limite, assim como Christian Bale, em Trapaça, este com menos força dramática. Chiwetel Ejiofor fez um grande trabalho em 12 anos de escravidão, mas como considerar injusto o prêmio a Matthew McConaughey por Clube de compras Dallas?
Mads Mikkelsen poderia ter sido indicado por A caça, assim como Joaquin Phoenix (Ela), e Ethan Hawke (lembrado em roteiro adaptado) por Antes da meia-noite. No entanto, este ano ele fez outros dois filmes, e bastante contestados (Uma noite de crime e Resgate em alta velocidade), o que diminuiu seu potencial de indicação. Miles Teller também está excelente em The spectacular now.

Melhor atriz

Blue Jasmine.Oscar

Minha alegria teria sido uma vitória de Sandra Bullock por Gravidade, e, embora Cate Blanchett esteja muito bem no filme de Allen, surpreende que seja quase um consenso, pois sua atuação não é memorável. E Blue Jasmine não é um grande filme, o que dá a essa vitória um meio-termo suficiente. Judi Dench está perfeita em Philomena. Em vez de Meryl Streep, e não se lança aqui uma dúvida sobre sua competência como atriz, a Academia perdeu a chance de trazer novidades: Greta Gerwig por Frances Ha, Brie Larson por Short Term 12 e Amy Seimetz por Upstream color. E certamente a Academia teve a oportunidade de indicar a grande atriz do ano: Adèle Exarchopoulos, por Azul é a cor mais quente.

Melhor ator coadjuvante

Clube de compras Dallas.Filme 5

Aqui os comentários para Jared Leto acabaram por selar uma vitória predeterminada, sem que ele tenha espaço para definitivamente uma interpretação muito superior aos demais. Jonah Hill está ótimo em O lobo de Wall Street, assim como Fassbender em 12 anos de escravidão, Cooper em Trapaça e Abdi em Capitão Phillips. Se a Academia desse mais destaque ao gênero de ficção científica, um indicado dessa categoria deveria ser Benedict Cumberbatch, por Além da escuridão – Star Trek. Tye Scheridan também está excelente em Amor bandido. E Jake Gyllenhaal tem interpretação diferenciada em Os suspeitos. Outras grandes atuações foram as de Daniel Brühl por Rush, Steve Coogan por Philomena e Will Forte por Nebraska.

Melhor atriz coadjuvante

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A atriz Lupita Nyong’o mereceu o prêmio por sua extraordinária atuação, numa categoria de excelentes concorrentes, como June Squibb (Nebraska), Jennifer Lawrence (Trapaça) e Julia Roberts (Álbum de família). Mas é a categoria em que talvez mais atrizes pudessem ser lembradas: Léa Seydox por Azul é a cor mais quente, Annika Wedderkopp por A caça, Scarlett Johansson por Ela (sua atuação por meio da voz é antológica), Octavia Spencer, que recebeu o Oscar por Histórias cruzadas, por Fruitvale Station – A última parada, assim como Kristin Scott Thomas por Apenas Deus perdoa e Shailene Woodley por The spectacular now.

Melhor roteiro original

Ela.Filme

Um dos prêmios mais merecidos da noite, Ela tem realmente um roteiro originalíssimo de Spike Jonze. Talvez ele só tivesse dois concorrentes este ano: o roteiro de Bob Nelson para Nebraska e o de Shane Carruth para Upstream Color. Derek Cianfrance, por exemplo, merecia uma indicação por O lugar onde tudo termina. Também indicaria o roteiro de Claire Denis e Jean-Paul Fargeau para Bastardos e o de Wong Kar-wai, Zou Jingzhi e Xu Haofeng para O grande mestre.

Melhor roteiro adaptado

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Prêmio esperado e merecido para John Riley, por 12 anos de escravidão, numa categoria de fortes concorrentes, como O lobo de Wall Street, Antes da meia-noite e Philomena. Esses quatro filmes possuem diálogos interessantes capazes de sustentar a narrativa e oferecer aos atores a oportunidade de grandes interpretações.

Melhor filme estrangeiro

A grande beleza.Oscar

E, realmente de forma inexplicável, a obra de Paolo Sorrentino A grande beleza recebeu o prêmio nesta categoria, passando pelo ótimo A caça e pelo elogiado A imagem que falta. Dois filmes excelentes não estavam indicados nesta categoria, Azul é a cor mais quente e O grande mestre. Fiquei surpreso com a narrativa mal elaborada de O passado, que era um dos pré-indicados.

Melhor filme de animação

Frozen.Oscar

A Walt Disney em festas por Frozen – Aventura congelante, num ano em que Vidas ao vento era o preferido da crítica e Meu malvado favorito 2 e Os Croods os participantes indispensáveis, pois é um prêmio que destaca também as bilheterias de cada filme.

Melhor fotografia

Gravidade.Oscar 8

Emmanuel Lubezki talvez seja o maior fotógrafo do mundo neste momento depois de seus trabalhos com Terrence Malick e este Gravidade. Um prêmio merecidíssimo, embora O grande mestre também merecesse e Nebraska tenha uma visão memorável do interior dos Estados Unidos. Interessante a inclusão de Roger Deakins por Os suspeitos e de Bruno Delbonnel, responsável por trabalhos como O fabuloso destino de Amélie Poulain e Sombras da noite, por Inside Llewyn Davis, dois filmes esquecidos em categorias consideradas mais importantes. No entanto, ressente-se a ausência de Sean Bobbitt por 12 anos de escravidão e de Larry Smith, que foi habitual colaborador de Stanley Kubrick, por Apenas Deus perdoa – o grande destaque do filme de Refn. Inexplicável, ainda, a ausência de O lobo de Wall Street nesta categoria, com Rodrigo Prieto.

Melhor trilha sonora

Gravidade.Oscar 4

A trilha de Steven Price para Gravidade recebeu o prêmio, mas acho que a mais bela dentre todas era a de Ela, feita pelo grupo canadense Arcade Fire, embora ainda minha preferência seja pela de Hans Zimmer para 12 anos de escravidão, não indicada.

Melhor montagem

Gravidade.Oscar

Um dos méritos maiores de Gravidade é a montagem de Alfonso Cuarón e Mark Sanger e sem a concorrência de Rush – No limite da emoção ficou mais acessível. Mas 12 anos de escravidão também possui uma montagem irretocável.

Melhor design de produção

O grande Gatsby.Oscar 2

O design de produção de Catherine Martin e Beverley Dunn para  O grande Gatsby mereceu o Oscar. Ela e 12 anos de escravidão, no entanto, possuíam cenários irretocáveis.

Melhor figurino

O grande Gatsby.Oscar

O figurino de Catherine Martin em O grande Gatsby também foi merecedor. No entanto, o figurino de 12 anos de escravidão e O grande mestre é bastante fiel aos períodos retratados e excelente no uso de cores.

Melhor maquiagem e penteado

Clube de compras Dallas

Um prêmio talvez deslocado para Clube de compras Dallas e talvez a única categoria em que O hobbit – A desolação de Smaug, se indicado, seria imbatível.

Melhor canção

Frozen.Oscar 2

Let it Go”, de Frozen – Uma aventura congelante, foi a vencedora, fazendo com que o Oscar lembre uma escolha de Grammy. A canção do U2, “Ordinary Love”, para o filme Mandela – Long walk to freedom, parece uma clara sobra de estúdio e a melhor seria “The Moon Song”, de Ela. Pharell Williams fez uma boa apresentação para “Happy”, canção indicada de Meu malvado favorito 2.

Gravidade.Melhores do ano 6

Melhor edição de som

Glen Freemantle (Gravidade)

Melhor mixagem de som

Skip Lievsay, Niv Adiri, Christopher Benstead, Chris Munro (Gravidade)

Melhores efeitos visuais

Tim Webber, Chris Lawrence, Dave Shirk, Neil Corbould (Gravidade)

A um passo do estrelato

Melhor documentário em longa-metragem

A um passo do estrelato

Melhor curta-metragem

Helium

Melhor documentário em curta-metragem

The Lady in Number 6: Music Saved My Life

Melhor animação em curta-metragem

 Mr. Hublot

Capitão Phillips (2013)

Por André Dick

Capitão Phillips 7

Há filmes que são lançados e desde o início possuem ao redor de si um ponto de discussão abrangente e se transformam quase em referenciais, de um momento para outro, em sua tentativa de abordar temas delicados e, sobretudo, consideráveis. São filmes que, de modo geral, possuem uma ampla publicidade, uma dose de boas críticas e, quando se vai a eles, não se sabe até que ponto eles se equivaleram à publicidade ou se realmente contêm algo extraordinário a ser dito. E, quando se vê que eles de fato não parecem ser aquilo que se esperava, talvez a decepção possa ser canalizada para o primeiro blockbuster que surgir, mantendo-os como de fato são (ou se imaginam que sejam): obras raras. Do momento em que foram lançados até o momento em que se aproxima o Oscar, eles podem mesmo ser indicados aos prêmios principais da Academia. Um exemplo máximo poderia ser um determinado filme que apresenta Roma como um lugar de encontro para a melancolia de escritores, outro pode ser aquele documentário em que criminosos são vistos como figuras cinematográficas e andam de carro amarelo pelas ruas da Indonésia (e se alguém considera que Joe Pesci é revoltante em Os bons companheiros pode se ver diante de um novo show, este real, de incômodo) e o mais recente filme do diretor de Bourne, Paul Greengrass, Capitão Phillips, que pode ser visto como um exemplo de filme moderno, com sua progressão de imagens que lembram um documentário em movimento.
Tom Hanks é o Capitão Phillips que deve levar uma carga imensa seu navio Maersk Alabama e precisa passar pelos mares da Somália. O roteiro de Billy Ray, baseado em fato real e no livro de autoria do Capitão, tem seu início em Omã, com o personagem se despedindo da esposa (Catherine Keener), e os rápidos preparativos de viagem. O único problema é que pode haver piratas no trajeto. Eles surgem num grupo liderado por Muse (Barkhad Abdi), com os integrantes Bilal (Barkhad Abdirahman), Elmi (Mahat M. Ali) e Najee (Faysal Ahmed). E o embate passa a ser quem, num ambiente em alto-mar, de fato é o capitão – o mote do filme – e a corrida do bote dos piratas contra o grande navio poderia produzir, como o faz em alguns momentos, um fascinante Davi contra Golias.

Capitão Phillips 5

Capitão Phillips 6

Apesar de admirar Voo United 93, Paul Greengrass localiza sua autoria, aqui, em uma situação em alta voltagem. Em Capitão Phillips, ele mostra uma direção com uma variação de movimentos de câmera, tentando, de certo modo, se desvencilhar da dificuldade em lidar com os temas, sejam políticos ou sociais, que pretende colocar como pano de fundo. É difícil imaginar o que Greengrass quis nesta mistura de fatos reais com elementos do que existe de mais questionável nessa forma de cinema: a maneira patriótica e agressiva como ele filma ou a maneira de manipulação que ele lança sobre esses personagens, principalmente sobre os piratas da Somália. Segundo Greengrass, o objetivo desses piratas por meio do roubo seria viajar para os Estados Unidos. Os Estados Unidos permitirão isso? Greengrass tem todas as fontes para responder, mas parece uma difícil escolha.
Não chega a ser o forte de Greengrass a discussão que repercute do relato contado, mas em Voo United 93 tínhamos, ao menos, uma concepção visual de suspense, para a qual convergia o fato histórico. No entanto, Capitão Phillips também não parece funcionar exatamente como ação. Contado como uma espécie de documentário, salvo a presença de Hanks e de Barkhad Abdi (excelente), não há movimento além daquele empregado pela montagem – e um filme que pretende manter 100% de tensão acaba por vê-la diluída, fazendo de sua metade final talvez a peça mais estafante do cinema recente. A emoção costuma surgir de personagens, e não de uma ação e de uma montagem que tenta trazer a emoção: o que parece inexistir em Capitão Phillips é exatamente a ligação entre os personagens, a qual se tenta preencher com movimento. Como Greengrass pretende contar o filme em ritmo de documentário, ele faz com que não nenhuma outra ação interfira naquilo que mostra. Nisto, os personagens da Marinha não recebem um desenvolvimento e a mulher do capitão é vista apenas no início. O que temos é uma câmera em movimento atrás de um grupo de atores que oferece o máximo de si, mas não consegue desenvolver o roteiro de Ray.

Capitão Phillips 9

Capitão Phillips 8

Parece faltar algo: ele, de fato, a não ser que se julgue que Greengrass estabeleceu um novo meio-termo exato entre ficção e documentário, não é um filme realmente acabado, ficando em suspenso. Um exemplo desta falsa ação é o início, passado numa praia da Somália, na qual os personagens para o assalto em alto-mar dão a impressão de serem escolhidos a esmo, em meio a movimentos de câmera com o desejo de passar uma sensação de urgência. O diretor demonstra certo receio de interromper sua narrativa para desenvolver uma porção que seria considerada em demasia cinematográfica ou com possíveis artifícios, e nesse caminho o suspense se esvai. Isto chega à atuação de Tom Hanks, indefinido exatamente entre esses caminhos do filme (e, em se tratando do seu esquecimento no Oscar, não podemos deixar de lado filmes que ele fez nos últimos anos e foram descartados pela Academia, como Cloud Atlas), apenas compensado pela sequência final, de um desespero próximo àquele da praia de Omaha em O resgate do soldado Ryan. Mas é um desfecho visando o Oscar, e nisto acaba também soando menos impactante.
Desde o início de Capitão Phillips, as falhas no roteiro se sobressaem e a maneira com que foi filmado tem o objetivo de tentar escondê-las – e consegue, ao menos nos 30 minutos iniciais, mesmo com seus problemas, por seu apuro exemplar no que diz respeito à divisão entre o que acontece com a tripulação de Phillips e a de Muse. No entanto, quando o capitão Phillips vai pesquisar sobre piratas na Somália em alto-mar parece que o roteiro antecipa tudo; mais delicado ainda quando dorme ao lado da embarcação dos piratas sem insistir na ajuda da Marinha. São lacunas evidentes, e soam mais prejudiciais quando se sabe que o filme foi baseado em fatos acontecidos em 2009. Seria interessante saber se os personagens agiriam realmente desse modo e se as condições do navio são essas que o filme relata, inclusive no contato com uma possível ajuda em situação de desespero. O roteiro de Ray pode se basear em fatos reais, o que não significa que esses fatos estejam menos dispersos. Ao final, a impressão é de que Greengrass ingressou no filme sem saber exatamente o que faria, planejando apenas sobrevoos de câmera sobre embarcações marítimas. Se fosse de outro diretor visto como ainda mais patriótico, talvez fosse considerado terrível, sobretudo mal dirigido. Mas, como é de Greengrass e tem Hanks, a Academia lhe deu uma indicação inexplicável ao Oscar de melhor filme.

Captain Phillips, EUA, 2013 Diretor: Paul Greengrass Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Michael Chernus, Corey Johnson, Catherine Keener Roteiro: Billy Ray Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: John Powell Produção: Dana Brunetti, Michael De Luca, Scott Rudin Duração: 134 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Michael De Luca Productions / Scott Rudin Productions

Cotação 2 estrelas