Twin Peaks – O retorno (Episódio 10) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Revendo a primeira temporada de Twin Peaks na semana passada, ficaram mais claras as diferenças em relação à terceira: 1) enredo mais clássico, no bom sentido; 2) humor mais direto; 3) paralelos com a novela “Invitation to love”, com metalinguagem mais acessível; 4) montagem mais ágil e cenas curtas, mostrando que a nova temporada diz muito sobre o amadurecimento de Lynch, sem querer explicitar nada; 5) intrigas sobre a serraria e tráficos de drogas na cidade como tópicos centrais, além da investigação de quem matou Laura Palmer. Finalmente o motivo pelo qual pedem a volta do verdadeiro agente Cooper e de Audrey Horne: eles se destacam acima de todos. Dana Ashbrook, como Bobby Briggs, também está ótimo e mostra por que Lynch o destaca nesta terceira, em relação aos demais personagens antigos.
E finalmente o motivo pelo qual Lynch não se concentra em tramas envolvendo personagens jovens: ele não conseguiria repetir o que já mostrou. Embora eu aposte – mesmo com índices de exibição abaixo do esperado – numa quarta temporada, em que ou Lynch vai explorar os mistérios investigados pelo FBI ou vai se concentrar apenas na cidade, com o agente Cooper indo morar nela e trabalhando na polícia local. Uma dúvida é certa: o agente Cooper ficará com Janey-E ou Audrey Horne? Difícil escolha. Naomi Watts e Sherilyn Fenn são grandes atrizes.

Dito isso, o décimo episódio da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) mostra que David Lynch também tem direito a suas falhas: trata-se, pela minha lembrança, talvez do episódio mais fraco das três temporadas (incluindo em relação àqueles da segunda que muitos criticam). Se até então ele estava desinteressado em prosseguir definitivamente com o estilo apresentado na primeira temporada e, até agora, preferia dialogar com os episódios mais importantes da segunda – do 9º ao 15º e do 22º ao 29º, com as referências ao Black Lodge – e com Twin Peaks – Fire walk with me, parece que desta vez ele tenta retomar a agilidade das duas primeiras temporadas, com cenas curtas. O resultado: não se compara em efetividade e se torna bastante confuso. Falta o trabalho de edição de Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch, que participou das duas primeiras temporadas e do filme.
Janey-E (Naomi Watts) finalmente consegue levar Dougie Jones (Kyle MacLachlan) ao médico, Dr. Ben (John Billingsley), e, quando se depara com o físico da nova versão de seu marido, parece que há uma atração imediata. Lynch mostra com desenvoltura o resultado da atração de Janey-E, numa das cenas cômicas melhor resolvidas, em razão das ótimas atuações de Watts e de MacLachlan. Como em outros episódios dessa temporada, o tempo com os Jones vale a visão, e Janey-E é o melhor personagem novo dessa temporada.

Anthony Sinclair (Tom Sizemore) encontra os irmãos Bradley (James Belushi) e Robert Mitchum (Robert Knepper), observado pelas pin-ups que apareciam no quinto episódio, a mando de Duncan Todd (Patrick Fischler). Ele quer que Anthony diga aos Mitchum que Douglas Jones quis prejudicá-los no recebimento pelo seguro do incêndio de um dos seus hotéis. Os Mitchum já estavam desconfiados depois de verem a matéria na TV em que Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek) é preso depois de ter sido enfrentado por Dougie, o mesmo que saiu com mais de 400 mil dólares do cassino deles. Lynch tenta destacar uma das pin-ups que acompanham os Mitchum, Candie (Amy Shiels), mas o humor, de forma notável, não funciona. Tampouco a participação das outras duas, Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal).
Steven Burnett (Caleb Landry Jones, do recente Corra!), depois de procurar emprego em Twin Peaks, violenta Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick). Eles moram no mesmo parque de trailers administrado por Carl Rodd (Harry Dean Stanton), que tenta cantar uma música de sua autoria, “Red river valley”, mas é interrompido pela briga dos dois. “É um pesadelo”, reclama ele, lembrando sua participação em Twin Peaks – Fire walk with me e dando o tom cômico certo que falta ao restante do episódio. A briga de Becky parece revelar que o passado de Shelly, o violento Leo, está no encalço também de sua filha. A cena, no entanto, é tão rápida que nada parece justificá-la. Há, claro, uma tentativa de Lynch em contrapor a violência contra a mulher com a atitude de Candie em relação a seu Robert Mitchum e como as vibrações positivas, na música de Rodd, podem ser quebradas.

No entanto, o episódio parece ser mais de Richard Horne (Eamon Farren), que primeiro mata Miriam (Sarah Jean Long), testemunha do atropelamento no sexto episódio. A composição da cena é impressionante – e repare-se numa estátua de anjo à frente do trailer de Miriam, dialogando com o anjo de Laura Palmer –, entretanto há um erro de continuidade grave também. A polícia não estava investigando o responsável? Como Miriam preferiu escrever uma carta ao xerife contando a história? Claro que Richard entra em contato com Chad Broxford (John Pirruccello), o policial corrupto, para impedir a chegada da carta às mãos do xerife. E Chad engana Lucy (Kimmy Robertson), conseguindo esconder a carta.
Depois, Richard vai à casa da avó, Sylvia Horne (Jan D’Arcy), para assaltá-la, sendo observado por Johnny Horne (Eric Rondell). Lynch tenta claramente estabelecer um vínculo com Laranja mecânica nessa sequência, mas soa desconjuntado e falha, apesar das atuações de Farren, D’Arcy e Rondell.
Tammy Preston (Chysta Bell) e o agente Gordon Cole (David Lynch) estão felizes com Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) jantando com a legista Constance Talbot (Jane Adams). Depois de rabiscar um desenho que lembra a mão de Bob saindo do Black Lodge ao final da segunda temporada, Gordon atende à porta de seu quarto de hotel e vislumbra a imagem de Laura Palmer chorando (é uma imagem extraída de Twin Peaks – Fire walk with me, quando Laura vai pedir ajuda à Donna Hayward depois de ter visto Bob em sua casa e considerar que seria seu pai, Leland, na segunda fotografia abaixo). Albert alerta sobre uma mensagem que Diane teria respondido ao duplo mal de Cooper, colocando-a sob desconfiança, e Tammy mostra uma imagem do Mr. C em frente ao cubo de vidro de Nova York, do primeiro episódio desta temporada.

Outras passagens parecem sobras de material de cenas já vistas: o doutor Lawrence Jacoby (Russ Tamblyn) brada em seu programa de internet observado por Nadine (Wendy Robbie), e Hawk (Michael Horse) conversa com Senhora do Tronco (Catherine Coulson), e esta diz que Laura é única. São cenas gravadas com a mesma fotografia e figurino daquelas apresentadas no primeiro e quinto episódios, respectivamente. Pela rapidez, a cena com a Senhora do Tronco, apesar de bela, não parece ter o peso que deveria pela edição excessivamente rápida do episódio, sem a aura de mistério habitual: Laura é a escolhida conforme o oitavo episódio? Possivelmente, no entanto não há o cuidado habitual de Lynch em não mostrar isso com certa obviedade. Algo muito interessante: a Senhora do Tronco fala no som da eletricidade, certamente aquele do Great Northern, onde está Ben (Richard Beymer) sabendo o que aconteceu à sua ex-mulher.
Se havia um episódio que poderia significar uma fraqueza na estrutura pode ser exatamente este. Cenas soltas ou, quando mais longas, sem uma substância real, com personagens estabelecidos de forma fraca, como os Mitchum, parecem trazer um dos problemas da série: ou ela segue o ritmo lento e trabalhado ou vai parecer uma sucessão de encadeamentos remotos. É difícil acompanharmos Jerry Horne (David Patrick Kelly) há três episódios perdido na floresta e não vermos a trama caminhando em outros pontos, ou mesmo na volta de alguns personagens, a exemplo de Audrey Horne, para dar espaço a outros não tão interessantes, como o de Candie. E como aceitar um episódio mais fragmentado como este depois do oitavo, um divisor de águas? Lynch é um grande artista e provocador, porém se sente, pelo menos aqui, que está sendo autoindulgente, além de querer destacar Gordon Cole mais do que Dale Cooper (que, a partir daqui, talvez apareça em apenas meia dúzia de episódios como de fato é, com a ressalva de que Dougie Jones é uma ótima criação). E, fazendo referência clara a Cidade dos sonhos, temos Rebekah Del Rio cantando na Roadhouse, ao lado de Moby (!). Ela tem um vestido que lembra o chão do Black Lodge. Seria espetacular, não fosse num episódio tão irremediavelmente estranho na filmografia de Lynch e que claramente destoa da qualidade da série.

Twin Peaks – Episode 10, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Chrysta Bell, Caleb Landry Jones, Amanda Seyfried, Eamon Farren, James Belushi, Robert Knepper, Russ Tamblyn, David Patrick Kelly, Wendy Robbie, Jane Adams, John Pirruccello, Pierce Gagnon, Harry Dean Stanton, Richard Beymer, Eric Rondell, John Billingsley, Christophe Zajac-Denek, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Kimmy Robertson, Jan D’Arcy, Rebekah Del Rio, Moby Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 53 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 9) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Depois do revolucionário oitavo episódio da série Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch volta, digamos assim, à narrativa mais estruturada que marcava os episódios iniciais. Não era possível imaginar que o mesmo tom experimental se mantivesse, embora não saibamos o que Lynch prepara para os próximos, talvez mesmo uma retomada. Desta vez, acompanhamos o Mr. C (Kyle MacLachlan), o duplo mal de Cooper, voltando da sua noite complicada por um tiro e pelos woodsmen para encontrar dois funcionários seus numa fazenda, Hutch (Tim Roth) e Chantal (Jennifer Jason Leigh). Ele liga para outro funcionário, Duncan Todd (Patrick Fischler), situado num cassino em Las Vegas, como já vimos em episódios anteriores, certamente cobrando pela morte não consumada de Dougie. Por sua vez, Hutch tenta agradar a Mr. C. cobrando de Chantal um tratamento mais íntimo. Enquanto isso, Gordon Cole (David Lynch) pede para o piloto do avião levar sua equipe, Diane (Laura Dern), Tammy Preston (Chrysta Bell) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), para Buckhorn.

Eles ficam sabendo que encontraram o corpo do Major Briggs por meio da tenente Knox (Adele René). Coisas estranhas no ar. Em Las Vegas, os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner), interrogam o chefe de Dougie Jones, Bushnell Mullins (Don Murray). Incomodado com a falta de reação dos detetives às suas dúvidas, Bushnell parece preparar seus punhos de tempos de boxeador. Dougie/Cooper (MacLachlan) e Janey-E (Naomi Watts) estão na sala de espera. “Será que é bom interrogá-lo?”, pergunta um dos irmãos. “É como falar com um cachorro”, responde D. Fusco. Bem, o espectador sabe que Dougie é mais divertido do que todos que tentam fazer rir nesta temporada. Eles descobrem quem tentou matar Dougie: foi Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), antigo conhecido. Os policiais conseguem localizar o quase anão. Já Dougie/Cooper observa a sala de espera da delegacia e nota que a haste que sustenta a bandeira dos Estados Unidos lembra uma haste que há no Black Lodge, assim como associa o vermelho do sapato de uma mulher que passa ali com as cortinas do lugar onde ficou preso 25 anos e olha fixamente para duas tomadas, talvez lembrando por onde passou até voltar.
Chegando a Buckhorn, a equipe de Gordon conversa com o detetive Dave Mackley (Brent Briscoe) e a legista Constance Talbot (Jane Adams) e ficam sabendo que encontraram o anel de Dougie Jones dentro do corpo do Major Briggs. Tammy Preston vai interrogar William Hastings (Matthew Lillard), o diretor da escola. Ele manteria um blog com a ajuda da bibliotecária que teria assassinado, Ruth Davenport – tema do primeiro e segundo episódios principalmente. Neste blog, ele trata de um universo alternativo, onde teria encontrado o Major Briggs. Esse universo possivelmente tem relação com o Black Lodge, apresentado desde a origem por Lynch no oitavo episódio. Mais do que em outros momentos desta temporada, este é um momento que dialoga com Arquivo X, sabendo-se que esta série foi influenciada por Twin Peaks. A atmosfera na sala de interrogatório é apresentada de modo irretocável por Lynch.

Em Twin Peaks, Bobby Briggs (Dana Ashbrook), o xerife Truman (Robert Forster) e Hawk (Michael Horse) vão à casa da mãe de Bobby, Betty (Charlotte Stewart). Ela relata que o Major havia lhe avisado que eles a procurariam para tratar do agente Cooper, antes de morrer. Ele teria deixado um objeto escondido numa cadeira. As palavras que Betty diz ao filho lembram as do major no primeiro episódio da segunda temporada, quando ele se encontra com Bobby no Double R. Indo à delegacia, descobrem que dentro do objeto há dois pedaços de papel com pistas para saber onde estaria o agente Cooper. Trata-se da indicação de um lugar apelidado quando criança por Bobby de Palácio de Jack Rabbit. A maneira como essa informação é descoberta lida com o som, tão presente de forma temática na obra de Lynch, desde os módulos usados pelos Fremen em Duna até a orelha encontrada em Veludo azul e que levava à descoberta de um universo subterrâneo na pequena cidade do personagem central.
Se Lucy (Kimmy Robertson) e Andy (Harry Goaz) discutem sobre a cor do sofá que pretendem comprar para sua casa e Chad Broxford (John Pirruccello) usa a sala de reuniões para almoçar e é repreendido, respondendo não saber o motivo, pois todos vivem comendo donuts ali, Jerry Horne (David Patrick Kelly) continua em viagem com psicotrópicos no bosque de Twin Peaks, tentando analisar sua perna, e seu irmão Ben (Richard Beymer) continua flertando com a secretária Beverly Page (Ashley Judd) ao mesmo tempo que procuram novamente identificar de onde vem um estranho barulho na eletricidade do escritório, agora muito parecido com o do objeto deixado pelo Major Briggs. Não parece haver dúvida de que o som está anunciando a volta de Cooper.

David Lynch insere, em meio a isso, duas passagens estranhíssimas: Johnny Horne (Eric Rondell), filho de Benjamin, correndo por uma casa até bater com a cabeça numa parede e, principalmente, duas jovens conversando na Roadhouse e uma delas (a cantora Sky Ferreira, surpreendentemente bem, parecendo uma junkie) com uma certa alergia inconveniente numa das axilas. Lembremos que no piloto da primeira temporada Johnny ficava batendo com a cabeça (sempre coberta por um cocar indígena) em sua casinha de madeira para brincar, pois Laura Palmer, que havia sido assassinada e era sua professora, não estava com ele.
Lynch retoma neste episódio a trama que se estende desde o primeiro, com a prisão de Hustings e a descoberta do corpo de Briggs. Ele extrai uma performance brilhante de Lillard como Hustings, mas aqui sobretudo confere grandes falas a Albert. Num dos momentos mais interessantes do episódio, quase caseiro, Gordon e Tammy vão fazer companhia a Diane, que está fumando, e ela compartilha o cigarro com o antigo chefe, que parou de fumar. É uma cena lenta, mas compensa pela intimidade entre Lynch e Dern, aqui mais comedida em relação ao episódio 7, no qual surgiu com mais destaque. Este episódio, assim como o primeiro, o quarto e quinto lidam mais com investigações por meio de interrogatórios, fazendo lembrar a segunda temporada da série, com um certo tom mais soturno, embora muitas vezes bem-humorado.

Para quem esperava mais explicações sobre os acontecimentos do episódio 8, esta nova etapa da série pode decepcionar, mas Lynch consegue extrair muito de pequenas situações, concretizando melhor o tom cômico de Diane nas suas passagens, assim como a estranheza dos irmãos Fusco na investigação sobre Dougie Jones/Cooper. Lamenta-se, porém, a pouca presença de Dougie e Janey-E, sempre propensos a bons momentos de comicidade. A maior presença de Bobby Briggs, assim como o ressurgimento de sua mãe, por outro lado, é uma bela retomada das primeiras temporadas de Twin Peaks (Dana Ashbrook está muito bem), embora ainda não tenhamos nenhum sinal de Audrey Horne. Onde ela estaria? Esperamos que David Lynch nos traga de volta uma das melhores personagens da série, o quanto antes. O que temos, ainda bem, é o prosseguimento de uma série que se mostra a cada episódio excelente, com ou sem surrealismo e a fotografia notável de Peter Deming, jogando com as luzes e sombras, de maneira muito sutil. Percebe-se que Lynch, pela maneira como apresenta a história, parece confiar numa quarta temporada: determinados personagens têm surgido e desaparecem com a clara proposta de que suas histórias serão desenvolvidas em novos episódios desta ou de uma próxima temporada. O Showtime, levando em conta a recepção da série, não pensará duas vezes.

Twin Peaks – Episode 9, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Patrick Fischler, David Lynch, Laura Dern, Chrysta Bell, Miguel Ferrer, Adele René, Larry Clarke, Eric Edelstein, David Koechner, Don Murray, Naomi Watts, Christophe Zajac-Denek, Brent Briscoe, Jane Adams, Matthew Lillard, Dana Ashbrook, Robert Forster, Michael Horse, Kimmy Robertson, Harry Goaz, John Pirruccello, David Patrick Kelly, Richard Beymer, Ashley Judd, Eric Rondell, Sky Ferreira Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – Fire walk with me (1992)/Twin Peaks – O retorno (2017)

Por André Dick

Depois do capítulo 8 de Twin Peaks – O retorno, uma espécie de divisor de águas na série e na história da televisão, podemos traçar alguns paralelos entre o que está acontecendo nesta temporada e alguns elementos de Twin Peaks – Fire walk with me. Como se sabe, este filme de David Lynch foi lançado em 1992, no Festival de Cannes, sob vaias, um ano depois do cancelamento da série de televisão. Imagina-se que neste filme David Lynch também estava procurando convencer o público que a série deveria ter uma terceira temporada, pois há elementos nele que estão sendo recuperados/explicados melhor agora. As analogias mostradas aqui em tópicos não pretendem, claro, esclarecer a chave para os enigmas da série, e sim apenas notar como o universo de Lynch é arquitetado de modo surrealista, mas sempre com ligações interessantes.
1) No filme, o personagem de Phillip Jeffries (David Bowie) é um agente do FBI desaparecido há dois anos e que ressurge numa conversa em sonho com Cooper (Kyle MacLachlan), Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer). Ele diz ter participado de uma reunião em cima da Loja de Conveniência com Bob (Frank Silva) e o Braço/Anão (Michael Anderson). Nesta temporada, a Loja de Conveniência é exatamente onde se reúnem os woodsmen, as almas que estão ligadas ao primeiro experimento da bomba atômica, onde surge Bob, localizada em White Sands, no Novo México.

Jeffries tem uma participação estendida em Twin Peaks – As peças que faltam, uma coletânea de cenas excluídas da montagem final do filme, lançadas num Blu-ray com 91 minutos em 2014. Nessas cenas, vemos Jeffries na Argentina, exatamente o país para o qual são disparadas mensagens nesta terceira temporada e que resultam no encolhimento de uma caixa. Também vemos Jeffries, ao que parece, ser transportado por eletricidade e ele fala, com o rosto sobre a mesa de Cole, exatamente a data em que Laura Palmer será morta. Essas sequências transformam o material num item necessário para a compreensão de alguns detalhes, e principalmente a reunião no Black Lodge mostra que Twin Peaks envereda pelo gênero do terror, como parte da segunda temporada da série.
2) Em Twin Peaks – Fire walk with me, vemos aquelas estranhas figuras pintadas de carvão – os woodsmen –, que surgem com destaque na terceira temporada da série, principalmente no oitavo episódio, em dois momentos: um no Hap’s Diner, em que conversam com os agentes Chester Desmond (Chris Isaak) e Sam Stanley (Kiefer Sutherland). No segundo momento, eles aparecem nas imagens que se mesclam ao que Jeffries lembra da Loja de Conveniência. O woodsman em destaque está à direita e é interpretado por Jürgen Prochnow, que fez o Duque Leto em Duna. No oitavo episódio, enquanto o woodsman envia sua mensagem pelas ondas do rádio vemos um inseto entrar pela janela do quarto da jovem, assim como Bob entra pela janela em Twin Peaks – Fire walk with me.

3) Na reunião da Loja de Conveniência que Philip Jeffries testemunha, o Braço/Anão fala do “garmonbozia” (dor e tristeza). Trata-se de um creme de milho lembrado também pelo Homem de um Braço Só (Al Strobel) quando encontra Laura Palmer e seu pai perto de um avenida de Twin Peaks numa sequência do filme. Logo depois de Laura comentar sobre o cheiro de algo queimando, o que remete ao “fogo”, o Homem de um Braço Só revela, numa cena bastante intensa, que Leland (Ray Wise) roubou o “milho” da loja de conveniência. O creme de milho é justamente dado a Laura na mesma manhã do dia de sua morte, depois de ela ter descoberto quem era, afinal, Bob. No segundo episódio da segunda temporada, Donna Hayward (Lara Flynn Boyle) faz uma visita aos Tremond: eles são uma velhinha (Frances Bay, de Veludo azul) e seu neto (interpretado na série pelo filho de Lynch, Austin Jack Lynch; no filme, por Jonathan  J. Leppell), que fazem parte do Black Lodge. Donna substitui Laura Palmer na entrega de refeições da lanchonete, leva comida à senhora Tremond, e ela pergunta se há creme de milho em seu prato. Primeiro há; depois, não: o neto faz com que desapareça, reaparecendo em sua mão, pois seria um mágico. No terceiro episódio da nova temporada, lembremos que o milho intoxicante do duplo mal de Cooper manda alguns policiais para o hospital e faz Dougie Jones em seguida ir para o Black Lodge.

4) No filme, o Homem de Um Braço Só é um dos que portam o anel da Coruja. Este anel é usado por Teresa Banks (Pamela Gidley), a primeira vítima no filme, e entregue, num sonho, pelo Braço/Anão a Laura Palmer. Chester Desmond, quando investiga o assassinato de Teresa, desaparece depois de encontrar justamente esse anel embaixo do trailer dos Tremond (ou Chelfont). O anel vai ser entregue pelo Homem de um Braço Só a Laura Palmer no vagão de trem em que ocorre seu trágico desaparecimento, numa das sequências mais fortes da filmografia de Lynch. Em As peças que faltam, Annie Blackburn sairá do Black Lodge com este anel. Na terceira temporada, ele está sendo usado por Dougie Jones (MacLachlan) antes de dar espaço ao agente Cooper. No Black Lodge, quando Dougie desaparece, o anel é recolhido pelo Homem de Um Braço Só.

5) No início do sétimo episódio, Hawk (Michael Horse) e o xerife Truman (Robert Forster) analisam papéis encontradas numa porta do banheiro da delegacia. Eles são do diário de Laura Palmer, remetendo a uma passagem do filme. Depois de ter um sonho, Laura sente o braço adormecer, como aconteceu com Teresa Banks e, quando acorda, vê Annie Blackburn (Heather Graham) ao seu lado (Annie é a namorada de Dale Cooper na série, a qual ele tenta resgatar do Black Lodge), assim como o anel em sua mão (num close exatamente igual, em sua mão ao que Lynch faz na mão de Paul Atreides quando este segura o anel deixado pelo pai em Duna). Annie diz para Laura anotar em seu diário que o bom Cooper está preso no Black Lodge e é exatamente o que leem Hawk e Truman. Toda essa parte simboliza, não há dúvida, numa tentativa de Lynch vincular Laura com o agente que, no futuro, investigará sua morte, sem saber o que é futuro ou é passado.

6) Outro elemento interessante é que David Lynch utiliza a eletricidade como uma espécie de sinal de que há figuras do Black Lodge ou do White Lodge. Vejamos que no filme, quando Laura está indo para a escola, ela vê postes de luz com imagens em chuviscos de uma televisão. Também ela parece ficar sob domínio do ventilador de sua casa. Num determinado momento no qual os agentes do FBI Desmond e Stanley visitam o trailer de Teresa Banks e surge uma senhora quase anã cobrindo um dos olhos com uma bolsa-d’água, David Lynch destaca duas tomadas de luz – e é exatamente por uma tomada que o agente Cooper consegue sair do Black e do White Lodge. Nisso, surge um poste de eletricidade com o som indígena feito pelo Braço/Anão e na reunião da Loja de Conveniência Bob diz “Electricity”. Do mesmo modo, o agente Cooper e Gordon Cole veem que Philip Jeffries visitou realmente o FBI por meio de uma gravação em vídeo, sendo que numa das imagens ao lado aparece Chester Desmond: é como se os personagens estivessem presos na eletricidade do Black Lodge. Na terceira temporada, veja como David Lynch filma Richard Horne (Eamon Farren) depois de ter atropelado uma criança (com os postes de eletricidade logo acima de sua imagem).

7) Nesta terceira temporada, finalmente temos mais conhecimento do que seriam os casos encaixados na modalidade “Blue Rose”. Quando o agente Chester Desmond conhece Lil em Twin Peaks – Fire walk with me, ela traz em seu vestido uma rosa azul. Os casos “Blue Rose” são aqueles não explicados normalmente, ou seja, com elementos sobrenaturais. Gordon Cole e Albert Rosenfield falam disso ao final do quarto episódio. Já no terceiro episódio, o agente Cooper ainda não tomou o lugar de Dougie Jones, ele sobe num cubo suspenso no espaço sideral e vê a imagem do Major Briggs (Don S. Davis) passando nas estrelas e soletrando exatamente “Blue Rose”. Não há como ficar mais azul que isso, como diz Gordon Cole a Albert Rosenfield ao final do quarto episódio, em uma cena filmada apropriadamente com um tom da cor mencionada.

8) Na terceira temporada, temos o ressurgimento de Carl Rodd (Harry Dean Stanton), responsável pelo parque de trailers onde morava Teresa Banks e que é interrogado pelos agentes Chester Desmond e Sam Stanley e depois conhece o agente Cooper. No episódio 6, ele testemunha a alegria de uma mãe e seu filho antes de acontecer algo trágico na mesma esquina em que o Homem de um Braço Só, no filme Twin Peaks – Fire walk with me, avisa a Laura que o culpado é seu pai. Rodd enxerga a imagem de uma alma saindo da criança, mostrando que é um personagem-chave desse universo enigmático.

9) O White Lodge, no oitavo episódio da nova temporada, tem um cenário com um grande sino ligado à eletricidade. Em Twin Peaks – Fire walk with me, há a imagem de um sino na parede do escritório de Gordon Cole. Não se trata de coincidência, à medida que nessa temporada há tanto o quadro com a imagem da bomba atômica numa parede ao fundo quanto uma pintura com uma espiga de milho, remetendo ao “garmonbozia” (e não esqueçamos da fotografia de Franz Kafka).

10) Ainda tratando do episódio 8, um dos traços mais interessantes é o que nos revela o desenho da Caverna da Coruja, que aparece no episódio 20 da segunda temporada: 1) Gigante do White Lodge e o Braço/Anão do Black Lodge; 2) O mesmo círculo de woodsmen que vemos no episódio 8 ao redor do duplo mal de Cooper; 3) Os sinos de eletricidade do White Lodge; 4) A imagem do fogo; e 5) e 6) Imagens que remetem à bomba atômica que explode no oitavo episódio.

11) O misterioso cavalo branco, que aparece numa das alucinações de Sarah Palmer (Grace Zabriskie) em Twin Peaks – Fire walk with me, assim como na série dos anos 90, e reaparece na terceira temporada, uma vez no Black Lodge e outra na mensagem deixada pelo Woodsman na rádio de White Sands, México, em 1956, será um dos elementos que podem ajudar a explicar o que está acontecendo aqui?

12) Lynch mostra no episódio 8 a concepção de Laura Palmer a partir do White Lodge dentro de uma esfera dourada e que dialoga com a figura do anjo que ela vislumbra no final de Twin Peaks – Fire walk with me. É como se ela fosse destinada a barrar a imagem da maldade no mundo, mesmo sob o peso do que lhe aconteceu em vida. Trata-se do oposto do que acontece a Leland, suspenso no ar, e cujo “garmonbozia” o Braço/Anão exige da figura de Bob no filme. O sangue, ao final, transformando-se em creme de milho mostra a “garmonbozia” (mistura de dor e sofrimento) do Braço/Anão e toda a simbologia da série – do menino Tremond, passando pela cena do jantar e do café da manhã na casa dos Palmer, até o menino atrás da máscara (o mesmo menino Tremond), comendo o creme de milho. É como se o mundo se alimentasse também dessa dor e através desse alimento nativo, de séculos. A floresta de Lynch representa séculos de simbologia – nela, esconde-se algo sempre estranho, uma ameaça. E os clarões na floresta, onde mora a Senhora do Tronco, iluminam, na verdade, os personagens do outro mundo, que não existem. Numa das cenas deletadas de Twin Peaks – Fire walk with me incluídas em As peças que faltam, o Major Briggs lê passagens bíblicas do Apocalipse, que remetem ao mesmo tempo à figura do anjo, fundamental para entender a narrativa. Mostra como Lynch trabalha de maneira extremamente simbólica esse universo, respeitando o espectador na mesma medida em que não deixa nada muito explicado. É uma arte verdadeira, repleta de pontos de ligação.

Mais sobre Twin Peaks aqui.

Twin Peaks – O retorno (Episódio 8) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

A terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) recebeu, em seu oitavo episódio, tudo que parecia faltar no anterior: cenas vagarosas e sem linearidade alguma. Para David Lynch, este sempre é o melhor caminho, em se tratando de ele não estar acostumado a histórias mais comuns ou um humor mais superficial, como aquele visto na personagem de Diane, em desempenho de Laura Dern, ainda a ser melhor avaliado com participações futuras.
O episódio anterior terminou com o duplo mal de Cooper (Kyle MacLachlan) e seu parceiro Ray Monroe (George Griffith) escapando da prisão, depois de o primeiro chantagear o diretor do lugar. O oitavo inicia com os dois na estrada – lembrando exatamente A estrada perdida – até que Sr. C. pede algumas informações que o outro possui. Este pede para parar o carro e quando o duplo mal de Cooper o ameaça com uma arma recebe disparos à queima-roupa. Em seguida, surgem, ao que parece, almas vindas da floresta (chamadas woodsmen) – homens que parecem escurecidos com carvão, sendo que um deles aparece no segundo episódio e outro no sétimo, quando a tenente Knox está avaliando o corpo do major Briggs – chegando até o corpo do duplo mal, até desentranhar dele a figura de Bob, para espanto de Ray, que foge, assustado, falando em seguida com Phillip Jeffries (que no filme era interpretado por David Bowie).

Corta para a Roadhouse, onde um senhor anuncia Nine Inch Nails, com uma canção de rock que remete também ao filme A estrada perdida, “She’s gone away”, e que parece dar uma nova vida ao duplo mal – lembre-se que a música é sempre, para Lynch, uma ligação entre almas e eletricidade – veja-se o episódio da segunda temporada em que se conhece o assassino de Laura Palmer por meio de outro crime e vários personagens na Roadhouse choram, como se houvesse uma tristeza no ar da cidade. A música da Roadhouse capta esse lado maligno de Cooper de alguma maneira.
Há uma volta no tempo para 1945, quando, no Novo México, explode a primeira bomba atômica. Esta imagem é filmada de maneira tão impactante que se imagina o quanto Lynch faria com um filme de orçamento blockbuster: sua câmera vai se aproximando da bomba até captar dentro dela o fogo, lampejos, luzes desfocadas, partículas, com acompanhamento de  “Threnody to the victims of Hiroshima”, de Krzysztof Penderecki. Deve-se lembrar que Gordon Cole tem uma imagem da bomba atômica em seu escritório, assim como um quadro com uma espiga de milho – milho que constitui o “garmonbozia”, mistura de “dor e tristeza”. Cole sabe de detalhes que não informa aos restantes do FBI? É uma espécie de cena da criação do mundo de A árvore da vida às avessas (como defini num tweet logo depois de assistir ao episódio na madrugada de domingo). Essa bomba dá origem exatamente à figura de Bob – dentro de um ovo – e Lynch se desloca para uma “loja de conveniência” no deserto. A “loja de conveniência” é onde Bob, segundo o Homem de Um Braço Só, habita – e aparece em Twin Peaks – Fire walk with me (primeira imagem abaixo). À frente dessa loja de conveniência, perambulam as almas que apareceram na primeira parte do episódio (no filme de 1992, era Jürgen Prochnow, sentado no fundo à direita). E Bob sendo criado em meio ao fogo da bomba atômica dá outro significado a “Fire walk with me”.

A partir daí, Lynch se desloca para um castelo em alto-mar, remetendo imediatamente ao lar dos Atreides em Duna, onde estão Señorita Dido (Joy Nash) e o Gigante (Carel Struycken), ao lado de um sino – parecido com aquele que Cooper vislumbra no terceiro episódio. Ele parece receber um chamado e se desloca, por uma escadaria, para um teatro, onde se projeta, na tela, a imagem da bomba atômica seguida pela de Bob. O Gigante se eleva no ar, aos olhos de Señorita Dido, e sai dele uma luz amarela que chega à mulher como uma bola dourada: dentro dela, está a imagem de Laura Palmer (Sheryl Lee). Esta bola é lançada no ar e entra numa espécie de gramofone gigante, direcionando-se à Terra.  Sendo tudo muito surreal, deve-se notar que essa sequência remete tanto a Duna – a mulher lembra o Barão Harkonnen, que também flutuava como o Gigante – quanto a Cidade dos sonhos – o teatro parece o Club Silencio – e Coração selvagem – na qual Sheryl Lee é a Bruxa Boa do Mágico de Oz nos dias atuais. O jogo de luzes adquire um grande impacto, com a trilha sonora emocional de Angelo Badalamenti, dando grandiosidade à encenação. Laura estaria sendo enviada à Terra para enfrentar Bob?

A história volta ao Novo México, desta vez para 1956, quando as almas do mal perambulam numa estrada pedindo fogo para um cigarro e assustando um casal de velhinhos – imagem antológica que parece sintetizar todos os filmes de terror dos anos 50. Também vemos um casal de jovens caminhando por um posto de gasolina, com uma loja de conveniência, e será encontrada uma moeda no chão (um diálogo com as moedas mágicas do traficante Red e de Hawk no sexto episódio). O rapaz (Xolo Mariduen) acompanha a adolescente (Tikaeni Faircrest) até a porta de sua casa. Lynch, então, mostra uma alma do mal (Robert Broski) descendo do espaço e se dirigindo a uma estação de rádio do lugar, onde domina a cabine de transmissão, depois de matar a recepcionista (Tracy Philips) e o disc jockey (Cullen Douglas), para lançar uma mensagem… Um mecânico e uma senhora numa lanchonete a ouvem e desmaiam. A menina que era acompanhada pelo jovem a escuta, dorme, e de repente surge um inseto gigante que havia saído de um ovo no deserto, entrando em sua boca. Seria o início de Bob? Impressiona, nessa sequência, o quanto Lynch parece fazer um Veludo azul em forma de terror no Novo México. É simplesmente brilhante a composição de imagens e a maneira como essas almas assustam os incautos – inclusive o espectador. E a caminhada do jovem casal na noite escura parece remeter mais a Twin Peaks dos anos 90 do que todos os episódios desta terceira temporada até agora.

Lynch aproveita o oitavo episódio, nesse sentido, para desenvolver a mitologia de Twin Peaks. Há uma quebra quase completa com o que estava sendo mostrado nos anteriores e pode-se sentir que, se não fossem as referências a personagens vitais de Twin Peaks, este seria um episódio de outra série. Talvez seja este o intuito de Lynch: transformar a série numa espécie de canal para suas experimentações. Isso pode provocar certo desencanto – vários personagens ainda não apareceram ou não foram desenvolvidos, e o verdadeiro agente Cooper vaga no corpo de Dougie Jones – e, por outro, um grande respeito pelo que Lynch mostra e desenvolve: ele realmente faz um surrealismo nunca visto antes, no cinema ou na televisão. É verdadeiramente notável o que ele reproduz com poucas imagens e breves diálogos. Um episódio que se sente quase à parte de toda a série – inclusive as duas primeiras temporadas – e que, de certo modo, pretende contar a origem da maldade humana e daquilo que pode combatê-la – na figura de Laura Palmer – de forma antológica. Esse episódio traz ainda mais significado à figura do anjo no final de Twin Peaks – Fire walk with me (última imagem acima) aparecendo para Laura Palmer como se fosse a sua salvação. Neste episódio, é como se Laura fosse a alma que poderia fazer frente a Bob. Para cada maldade, Lynch expõe aquilo que pode enfrentá-la de fato. Twin Peaks sempre tratou do amor e da salvação. Este episódio, que certamente será um dos mais lembrados de toda a série e da carreira de Lynch, confirma.

Twin Peaks – Episode 8, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Robert Broski, Tracy Philips, Cullen Douglas, Tikaeni Faircrest, Xolo Mariduen, Joy Nash, George Griffith, Carel Struycken Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 7) (2017)

Por André Dick

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O sétimo episódio de Twin Peaks – O retorno (disponível na Netflix) marca o reencontro com alguns personagens de peças anteriores e a inclusão de novos. Se tudo começa com Jerry Horne (David Patrick Kelly) no bosque de Twin Peaks experimentando drogas enquanto fala ao telefone com o irmão Ben (Richard Beymer), no hotel, a história se transporta para a delegacia. Hawk (Michael Horse) conversa com o xerife Truman (Robert Forster) sobre os papéis que encontrou na porta do banheiro da delegacia. São páginas rasgadas do diário de Laura Palmer, que relatam um sonho que ela teve com Annie Blackburn (Heather Graham), a namorada de Cooper, no filme Twin Peaks – Fire walk with me. Neste sonho, Annie avisa que Cooper está preso no Black Lodge e que é para Laura anotar isso em seu diário. O xerife, depois de conversar com seu irmão ao telefone, entra em contato com o Doutor Hayward (Warren Frost, falecido no início deste ano), um dos últimos a ter visto Cooper décadas atrás. Esse ingresso do Dr. Hayward traz uma aura de conversas sobre pescaria que remete às primeiras temporadas da série, contrastando com a tecnologia campestre do computador do xerife.

O corpo sem cabeça que se encontra na delegacia de Buckhorn, Dakota do Sul, é identificado como sendo do major Garland Briggs, depois que a tenente Knox (Adele René) conversa com o detetive Dave Mackley (Brent Briscoe) e a legista Constance Talbot (Jane Adams). Esta sequência lembra muito aquela dos agentes Stanley e Desmond no filme Twin Peaks – Fire walk with me. No corredor em que ela liga para seu superior, Davis (Ernie Hudson), vemos passar o que se parece com o mendigo que se encontrava numa cela do segundo episódio. Há um momento de tensão e ameaça típico de Lynch que é cortado por Gordon Cole (David Lynch) assoviando com o retrato da bomba atômica ao fundo de sua sala (e repare-se que, antes, a câmera mostra outro quadro, com uma espiga de milho, remetendo ao “garmonbozia” do Black Lodge). Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) adentra a sala dizendo que tentou falar com Diane (Laura Dern), sem êxito: ambos, então, depois de um pedido engraçado de Albert, vão visitá-la, tentando convencê-la a interrogar o agente Cooper do mal, Mr. C., na prisão de Dakota do Sul. Seguem todos para Dakota junto com Tammy Preston (Chysta Bell).
Os desentendimentos de Diane com os ex-companheiros dão um indicativo que pode se confirmar ou não: Laura Dern será uma das personagens centrais dessa temporada. Apesar de apreciar Dern, suas cenas neste episódio são levemente inclinadas ao exagero, o que descaracteriza o surrealismo despropositado de muitas passagens. O figurino e a peruca, que envelhecem a atriz, não se sentem orgânicos nas cenas em que aparece, além de o roteiro aplicar a técnica do “F***” para tentar uma comicidade forçada, pouco utilizada por Lynch em sua carreira (perceba-se como ela surge bem no recente Wilson, ao lado de Woody Harrelson, ao natural). É Diane, no entanto, que parece prever o que o Cooper do mal (Kyle MacLachlan) pode fazer, tanto que, logo depois, ele consegue uma reunião com o diretor da prisão de Yankton, Warden Dwight Murphy (James Morrison), e parece saber segredos suficientes dele para conseguir uma liberdade incondicional para ele e o parceiro Ray Monroe (George Griffith). Esta sequência é bem feita, mas talvez muito direta para os simbolismos que Lynch costuma entregar, nunca tão evidenciados.

Lynch trafega entre esses espaços com naturalidade, porém o personagem do Cooper mal não parece o melhor indicativo para o que se pode extrair com esta nova temporada: sua presença já parece suficientemente aproveitada. Será uma presença ainda muito ativa?
Enquanto Andy (Harry Goaz) tenta descobrir, de maneira estranha, o que houve com o acidente no episódio anterior, Ben Horne flerta com sua secretária Beverly Page (Ashley Judd) ao mesmo tempo que procuram identificar de onde vem um estranho barulho na eletricidade do escritório. Ele também recebe das mãos dela a chave que chegou do correio, do quarto em que Cooper estava hospedado vinte anos antes, enviada por Jade (Nafessa Williams), no quinto episódio. Nada mais interessante que a câmera se direcionar a uma das tapeçarias indígenas do Great Northern – simbolizando os enigmas da série e do bosque. E a eletricidade estaria avisando sobre a volta de Cooper?
Já a brava Janey-E Jones (Naomi Watts, em tempo exato de humor novamente) vai buscar o marido Dougie (também MacLachlan) no trabalho, quando ele é visitado por três detetives, T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner), por causa do seu carro, que explodiu do outro lado da cidade. Ele também é ajudado pelo chefe Bushnell Mullins (Don Murray), depois de ignorar o colega Anthony Sinclair (Tom Sizemore), a quem acusou de mentiroso no capítulo 5.

Na saída do trabalho, ele precisa enfrentar Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), enquanto aparece a árvore do Black Lodge, o Braço, dizendo o que ele deve fazer. Essa cena mescla estranheza e surrealismo em doses desproporcionais, e o que mais a engrandece é Cooper/Dougie ouvindo as sirenes da polícia como se estivesse recordando do passado. Ainda assim, o que seria um humor calibrado acaba se perdendo um pouco.
Há uma cena executada de forma impecável no Roadhouse, quando um homem varre o salão por alguns minutos, juntando minuciosamente a sujeira deixada pelos clientes no chão, ao som de “Green Onions”, quando ao fundo o parente de Renault (feito pelo mesmo ator, Walter Olkewicz), atende ao telefone e fala sobre negócios ilegais – o que mostra novamente a podridão da pequena cidade embaixo da tentativa de limpá-la.
Neste universo, o duplo mal de Cooper é mais do que uma ameaça: ele é realmente algo a ser combatido. David Lynch até o momento expôs uma história muito bem trabalhada em partes e misteriosa até seu cerne: resta saber o que ele pretende daqui em diante, e até que ponto ele vai utilizar a figura do duplo mal de Cooper e, principalmente, de Diane, que se sente, pelo menos neste episódio, fora do tom. Lynch diz a ela: “O microfone e a cortina são seus”, antes de ela falar com o duplo mal de Cooper, numa cena que parece saída de Império dos sonhos, sobretudo na maneira como ela é enfocada. Esperamos que ele não esteja dizendo a Laura Dern que o espetáculo é dela, como pareceu nesses primeiros momentos.

Sabe-se que desde Veludo azul, passando por Coração selvagem, até Império dos sonhos, Dern é sua atriz favorita, mas desconfia-se o que ele está pretendendo destacar nela que destoe do restante da série. Além disso, os episódios anteriores continham longas sequências primorosas – neste, Lynch parece adotar uma narrativa mais entrecortada, que remete à série antiga, entretanto sem a mesma agilidade de ligação em alguns pontos. É a primeira vez na série que ele estabelece mais de duas passagens para os mesmos personagens, de forma mais definida, e talvez este episódio se sinta mais linear, o que não é a melhor qualidade. Ou seja, até então o diferencial era exatamente esse estilo mais vagaroso, o que muda aqui, e não se sabe ainda se é necessariamente de acordo com o que virá. Não é sem explicação que a melhor cena seja aquela do flerte de Ben Horne, com uma precisão de tempo e movimentos de câmera por parte de Lynch. Perceba-se também que Lynch, além de lidar com duplos, mostra vários irmãos (os Horne, os detetives, os Truman conversando ao telefone), como se a genealogia da série fosse se estendendo. Do mesmo modo, é interessante que o diretor consiga, nos próximos episódios, trazer de volta personagens que apareceram e sumiram, como James Hurley (que teve apenas uma breve aparição ao final do segundo), Bobby Briggs (que apareceu apenas no quarto) e Lucy (Kimmy Robertson), ausente nos dois últimos, para que não percamos de vista o que está ocorrendo a eles. Isso acontece aqui com Ben Horne, que não aparecia desde o primeiro episódio. Audrey, sua filha, desta vez é mencionada. Até agora, do elenco, MacLachlan e Naomi Watts são os dois destaques, seguidos pelo próprio David Lynch, e a fotografia de Peter Deming continua irretocável. Tudo faz parte da ideia de um filme dividido em 18 episódios, mas Lynch não deve destacar alguns do seu elenco para desviar o foco do que realmente nos interessa: os enigmas de Twin Peaks.

Twin Peaks – Episode 7, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Laura Dern, Robert Forster, Mädchen Amick, Ashley Judd, Larry Clarke, Eric Edelstein, David Koechner, Don Murray, Tom Sizemore, David Patrick Kelly, Richard Beymer, Miguel Ferrer, David Lynch, Christophe Zajac-Denek, Warren Frost, Adele René, Brent Briscoe, Ernie Hudson, Jane Adams, Walter Olkewicz Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 6) (2017)

Por André Dick

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No sexto episódio de Twin Peaks – O retorno (disponível na Netflix), David Lynch retoma a história mostrando Dougie Jones/Agente Cooper (Kyle MacLachlan) ainda observando a estátua do caubói na saída de seu trabalho, tentando identificar o que ela lhe lembra de outra vida, exatamente a de um agente do FBI. Abordado por um policial que pede para sair do lugar, acaba sendo levado para casa, onde reencontra sua esposa Janey-E Jones (Naomi Watts, novamente no tempo certo de humor). Ela pede que fale com seu filho, Sonny Jim (Pierce Gagnon) antes de este dormir, e Dougie mal consegue calcular os passos para subir até o segundo andar da casa. Comendo batata frita, é chamado de volta pela esposa para explicar algumas fotos que estavam dentro de um envelope entregue por baixo da porta de sua casa nas quais aparece ao lado de Jade (Nafessa Williams). Mais do que ver em Jade apenas quem lhe deu carona, Dougie Jones/Agente Cooper precisa fazer a tarefa de casa: analisar os arquivos passados por seu chefe da companhia de seguros, Lucky 7 Insurance, para identificar possíveis erros. Depois de visualizar no chão de sua casa o Homem de Um Braço Só (Al Strobel) dizendo que ele precisa despertar – uma alusão clara a Paul Atreides de Duna, também interpretado por MacLachlan – e não morrer, Dougie Jones/Cooper começa a ver pontos luminosos do que precisa marcar em seus arquivos, e interessante também é ele ver no 7 do nome da empresa a mesma curva do piso do Black Lodge.

Se a polícia recolhe os escombros do carro de Dougie Jones que explodiu do outro lado da cidade, de pessoas para quem ele deve, Lynch vai juntando outros: apresenta o novo traficante da cidade de Twin Peaks, Red (Balthazar Getty). Ele estava flertando com Shelly no Road House ao final do segundo episódio e agora mostra drogas a Richard Horne (Eamon Farren), parente dos Horne. Balthazar estrelou A cidade perdida, de Lynch, e a estranheza do ator se manifesta ainda em seu comportamento e o gesto de mágica com uma moeda, que lembra alguns dos momentos surrealistas de Cidade dos sonhos.
Situada entre a realidade e o surrealismo é a ida de Carl Rodd (Harry Dean Stanton) de van de seu Ice Trout Trailer Park em Deer Meadow, Oregon, para Twin Peaks. Lembre-se que esse parque de trailers é administrado por ele já na época em que o FBI vem investigar o assassinato de Teresa Banks em Twin Peaks – Fire walk with me. Na mesma ida, um amigo do local, Mickey (Jeremy Lindholm), ganha carona e fala da esposa Linda, que acabou de receber uma cadeira de rodas do governo. Seriam Linda e Richard (Horne) os nomes mencionados pelo gigante a Cooper no primeiro episódio desta terceira temporada? Em Twin Peaks, sentado num banco de parque, como Dorothy Vallens ao final de Veludo azul, Carl vê uma mãe (Lisa Coronado) brincando com seu filho (Hunter Sanchez), enquanto parece ficar mais calmo olhando a copa das árvores acima.

No entanto, no mesmo cruzamento em que o Homem de um Braço Só aborda Laura Palmer e seu pai, Leland, no filme realizado para o cinema, acontecerá a morte trágica dessa criança. Rodd corre para ver o que aconteceu e visualiza uma chama de fogo subindo ao céu, quando o espectador visualiza a placa de seu parque de trailers, que era mostrada em Twin Peaks – Fire walk with me com o som indígena feito pelo anão do Black Lodge. Lynch desenha essa metafísica de sensações por meio de imagens sensíveis e violentas, desde a beleza natural que Rodd presencia ao extremo oposto. Mais estranha ainda é a violência do motorista que atropela a criança. É como se tudo fosse interligado pela natureza e um sentimento que desequilibra isso remete à eletricidade que provém do Black Lodge. E perceba-se a falta de reação dos habitantes de Twin Peaks, como se não tivessem possibilidade de sequer amparar a mãe com seu filho, mostrando que a pequena cidade ainda vive sob um peso de ameaça inexplicável, mesmo com sua aparente tranquilidade.
Em algum lugar indeterminado, um rapaz quase anão, Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), recebe as fotos de Dougie Jones e da telefonista que aparece ao início do quinto episódio, Lorraine (Tammy Baird), e Lynch, de forma assustadora, já mostra a morte dela a facadas em seguida. E ainda temos Janey-E tentando fazer com que os perseguidores de Dougie Jones, Jimmy (Jeremy Davies) e Tommy (Ronnie Gene Blevins), deixem seu marido em paz, entregando um maço polpudo de dinheiro em troca.

Enquanto Hawk (Michael Horse), na delegacia, descobre algo na porta do banheiro, sob a preocupação de Chad Broxford (John Pirruccello), o xerife Truman (Robert Forster) volta a receber sua esposa, Doris (Candy Clark), revoltada com o não conserto do carro do pai. No Double R, a garçonete Heidi (Andrea Hays), das primeiras temporadas de Twin Peaks, com sua risada característica, atende uma professora, Miriam (Sarah Jean Long), antes de conversar com Shelly (Mädchen Amick).
No entanto, talvez a sequência mais enigmática seja a de Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), depois de passar por uma chuva pesada – bradando palavras contra Gene Kelly e Cantando na chuva –, entrando num bar, onde chama por uma mulher bebendo no balcão de costas: é Diane (Laura Dern), a secretária para quem Cooper fazia suas gravações. A entrada de Dern no elenco de Twin Peaks é uma nostalgia pura de Veludo azul – e Dern, com uma peruca platinada, lembra a musa de Lynch à época de Coração selvagem, Isabella Rossellini.
E o que esperar de Dougie Jones quando reencontra seu chefe depois de novamente experimentar um café no elevador na ida para seu trabalho, ajudado por Reynaldo (o ótimo Juan Carlos Cantu)? Chamado a distância e assustado, em meio a um design da agência que remete a peças infantis, iguais a seus rascunhos, certamente, ele parece mais curioso com a imagem de seu chefe, Bushnell Mullins (Don Murray), como campeão de boxe quando mais jovem – o que remete ao agente Chester Desmond (Chris Isaak) vendo a imagem do xerife de Deer Meadow, Cable (Gary Bullock), dobrando um cabo de aço em Twin Peaks – Fire walk with me. Na hora do cumprimento, Lynch desliza sua nota cômica em um sentido mais surreal possível.

Lynch cada vez mais com a ajuda de uma fotografia belíssima de Peter Deming utiliza Kyle MacLachlan para extrair uma das atuações mais memoráveis que o espectador presencia nos últimos anos, mostrando o quanto este ator é subestimado, desde o início de sua trajetória, exatamente em Duna. Ele é impressionante na divisão entre Dougie e Agente Cooper, vivida a cada passo, literalmente, e cada gole de café. Tem a colaboração fundamental de coadjuvantes diretos, a exemplo de Watts e Murray, ou indiretos, como Dean Stanton numa participação extraordinária, com pausas no momento exato.
Em seu sexto episódio, David Lynch mostra mais uma vez que não está preocupado em contar uma história que se esclareça a cada sequência: este retorno precisa ser analisado em todos os pontos para ser essencialmente entendido. E mais: a cada episódio, expande a mitologia simbólica que era subentendida na série e explorada realmente no filme. No entanto, este episódio novamente se mantém com uma fascinação especial, com longas sequências, em que Lynch desenha um cinema de arte na televisão. É a verdadeira arthouse.

Twin Peaks – Episode 6, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Laura Dern, Robert Forster, Mädchen Amick, Eamon Farren, Miguel Ferrer, David Lynch, Pierce Gagnon, Al Strobel, Harry Dean Stanton, Candy Clark, Balthazar Getty, Sarah Jean Long, Christophe Zajac-Denek, Tammy Baird, Don Murray, Juan Carlos Cantu, John Pirruccello, Hunter Sanchez, Lisa Coronado, Jeremy Davies, Ronnie Gene Blevins, Jeremy Lindholm Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 5) (2017)

Por André Dick

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O quinto episódio da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) amplia o que Lynch vinha mostrando no terceiro e quarto episódios, com a vinda do agente Cooper (Kyle MacLachlan) para a nossa dimensão na forma de Dougie Jones. Agora ficamos sabendo que ele trabalha numa agência de seguros, Lucky 7 Insurance, mas, ao ser deixado na frente do prédio onde ela fica pela esposa Janey-E (Naomi Watts), o que o guia até o escritório é o jovem Reynaldo (Juan Carlos Cantu), carregando uma porção considerável de café para os funcionários. O agente Cooper na pele de Dougie está, claro, completamente desencontrado – e apesar de um parceiro seu, Anthony Sinclair (Tom Sizemore), dizer que o auxiliou na última escapada de casa (possivelmente com Jade, que vimos no terceiro episódio), ele não sabe o que ocorre, assim como desconhece que em outra parte da cidade seu antigo carro está sendo vigiado por duas gangues.
No entanto, é inevitável perceber a tristeza de seu olhar antes de sair de casa ao ver Sonny Jim (Pierce Gagnon), filho de Dougie e provisoriamente dele, Cooper, enquanto uma lágrima escorre do seu rosto, o que remete a alguns momentos do personagem de MacLachlan em Veludo azul. Imagens em David Lynch transcendem as analogias: são códigos e pistas, assim como as impressões que o Cooper/Dougie vai tendo quando visualiza uma estátua de um cowboy ou quando escuta a palavra “agente”. Para quem queria uma volta imediata do principal personagem da série, tudo parece estar sendo preparado para algo ainda mais surpreendente. É preciso reconhecer como admirador da série original: não imaginava os caminhos que estão sendo adotados por Lynch, e isso demonstra sua originalidade de maneira determinante.

O espectador continua recebendo as informações de Lynch aos poucos e, quando vemos um jovem, Steven Burnett (Caleb Landry Jones, do recente Corra!), procurando emprego em Twin Peaks, para ser repreendido por Mike Nelson (Gary Hershberger), o antigo amigo de Bobby Briggs, por causa de seu currículo, vamos saber cenas mais adiante que ele é namorado de Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick). Ela ainda trabalha na lanchonete Double R, de Norma Jennings (Peggy Lipton).
Esta cena antecede uma na qual ambos experimentam drogas no carro, e a filha de Shelly é levada a uma viagem por meio da música que toca no carro, “I Love How You Love Me” (The Paris Sisters) – recordando alguns dos momentos mais trágicos de Twin Peaks – Fire walk with me e também a representação que, além da permanência dos personagens, alguns problemas se repetem. Na cidade, também acompanhamos o xerife Truman (Robert Forster) sendo visitado por sua esposa, Doris (Candy Clark), cobrando agilidade nos consertos caseiros, e a contínua busca de Hawk (Michael Horse) e Andy (Harry Goaz) daquilo que está faltando na investigação de Laura Palmer a fim de se encontrar Cooper. Mais ainda: na Roadhouse, temos a primeira aparição de Richard Horne (Eamon Farren), da família Horne, capaz de lembrar outros psicopatas da filmografia de Lynch, ameaçando uma garota, Charlotte (Grace Victoria Cox), e sua amiga (Jane Levy, a atriz sósia de Emma Stone). Ele entrega um dinheiro (possivelmente relacionado a drogas) a Chad Broxford (John Pirruccello), um dos policiais da cidade que se desentendia com Andy no quarto episódio – e cujo modus operandi cria um paralelo com um policial de Twin Peaks – Fire walk with me, responsável por vender drogas a Laura Palmer e Bobby Briggs. A cena tem um significado para o inveterado fumante Lynch: nunca peça cigarros a um desconhecido.

O episódio transita entre o desencontro de Dougie e o lado violento de peças como A estrada perdida. No cassino onde Dougie/Cooper embolsou 425 mil dólares, Lynch apresenta os irmãos Bradley (James Belushi) e Robert Knepper (Robert Mitchum), que expulsam o Supervisor Burns (Brett Gelman) com uma dose de violência incontrolável – observados por meninas vestidas de pin-ups (cf. Cidade dos sonhos (ver última imagem acima) e Império dos sonhos), como se estivessem no Jack Caolho’s da antiga série. Vemos, nisso, uma analogia entre o cassino de Las Vegas e o cassino onde Cooper precisou buscar pistas para o assassino de Laura Palmer na série original. E, como nas demais sequências, são símbolos lançados por Lynch para atingir sua finalidade maior.
Novas pontes com a série original são traçadas: o psiquiatra Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) agora transmite um programa pela internet por meio do qual tenta vender as pás que pintava de ouro no terceiro episódio depois de bradar palavras sobre liberdade na América, enquanto é visto por Jerry Horne (David Patrick Kelly) e Nadine (Wendy Robbie). Nesta breve sequência, temos uma influência de outro diretor contemporâneo (no primeiro episódio, algumas tomadas lembravam de Nicolas Winding Refn): Wes Anderson (perceba os objetos utilizados por Dr. Jacoby). Mas temos, acima de tudo, o que está acontecendo com o lado mal de Cooper (também MacLachlan), preso numa cadeia de Dakota do Sul.

Ao se olhar no espelho, ele lembra a cena de encerramento da segunda temporada e, quando vai dar o telefonema permitido, acontece uma pane elétrica na cadeia – um elemento tipicamente lynchiano –, que remete imediatamente a Buenos Aires, onde estava Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me. Em meio a isso, a agente Tammy Preston (Chysta Bell), assistente do agente Gordon Cole (David Lynch), descobre mais sobre as digitais da versão maléfica do agente Cooper. Além de tudo, o início e o final do episódio entrelaçam o assassinato de Ruth Davenport, a bibliotecária encontrada em seu apartamento no primeiro episódio. A legista Constance Talbot (Jane Adams) descobre no corpo encontrado no local (não pertencente a Ruth) o anel de casamento de Dougie Jones.
Este é um dos pontos de partida para o enigma em que vai se constituindo Twin Peaks a cada episódio, envolto por surrealismo e elementos típicos da antiga série sob um ponto de vista completamente novo e, ao mesmo tempo, classicamente lynchiano. Como nos primeiros episódios, os personagens vão sendo apresentados em ritmo totalmente diferente de uma série de TV e cada episódio não se apresenta por si só e sim como parte de um conjunto maior. É essencialmente uma mescla, acrescida de novos elementos, de todos os filmes feitos por Lynch, principalmente de Veludo azul em diante, mas neste episódio há essencialmente uma presença de elementos trabalhados em A estrada perdida, na apresentação dos carros vermelho e preto que vigiam o de Dougie, na violência dos irmãos Mitchum e nas cenas da cadeia, que remetem à troca de corpo do personagem, naquele filme, de Bill Pullman. Lynch também traz seu interesse em mostrar a violência ao corpo como a oposição imediata a uma possível atração entre personagens. Veja-se o relacionamento entre os colegas de Dougie Jones ou a maneira como Lynch revela o parente mais novo dos Horne, ou quando coloca pin-ups testemunhando um ato de violência. Como Dr. Jacoby, David Lynch busca elementos que possam desvendar a própria América. Vinte e cinco anos depois de ter encontrado a maioria desses personagens, o cineasta não é mais o mesmo e a sua série também não. Esta continua imprevisível.

Twin Peaks – Episode 5, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts Michael Horse, Harry Goaz, Nafessa Williams, Robert Forster, Chrysta Bell, Caleb Landry Jones, Gary Hershberger, Amanda Seyfried, Mädchen Amick, Peggy Lipton, Eamon Farren, Grace Victoria Cox, Jane Levy, James Belushi, Robert Knepper, Brett Gelman, Russ Tamblyn, David Patrick Kelly, Wendy Robbie, Jane Adams, John Pirruccello, Pierce Gagnon, Juan Carlos Cantu Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódios 3 e 4) (2017)

Por André Dick

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O terceiro episódio de Twin Peaks – O retorno (disponível na Netflix) acentua a estranheza dos dois primeiros e pode-se vê-lo como uma espécie de contribuição de David Lynch para a mescla entre o cotidiano e o surrealismo que tanto incentivou na série original. Numa continuação do segundo episódio, o agente Cooper (Kyle MacLachlan) é lançado em outra dimensão, em que vai encontrar um oceano que remete a Solaris, de Tarkovsky. Depois de se deparar com uma mulher sem os olhos – num típico movimento de Lynch para seus curta-metragens mais experimentais –, ele fica a bordo de um cubo gigante escuro no espaço sideral (teria ligação com a caixa de vidro do primeiro episódio?). Lá, Cooper vê a imagem do Major Briggs (Don S. Davis) passar nas estrelas. O major, para quem acompanha a série desde as primeiras temporadas, é o pai de Bobby, um dos rebeldes da cidade, e aquele que conhece segredos do que acontece em Twin Peaks e no Black Lodge. Ele fala “rosa azul”, que é o código do FBI para temas que ultrapassam a nossa dimensão. Em seguida, Cooper chega a uma sala em que uma jovem (Phoebe Augustine, que fez Ronette Pulaski, amiga de Laura Palmer) fala de maneira estranha, como no Black Lodge, enquanto é transportado, pela eletricidade de um aparelho, para a nossa dimensão. Será a nossa mesmo? No filme para o cinema de Twin Peaks, o anão no Black Lodge dizia “electricity” e o som de sua voz se reproduzia nos postes de luz perto do trailer onde morava Teresa Banks, a primeira vítima. A maneira como essa passagem se dá remete não apenas a Kafka, como também a Dostoiévski, de O duplo – aqui virando um triplo.

Cooper substitui, nesta passagem pela eletricidade, um homem chamado Dougie Jones (mais uma vez MacLachlan), quase idêntico a ele, não fossem o corte de cabelo e a roupa, e que está com sua amante, Jade (Nafessa Williams), enquanto sua versão do mal (também MacLachlan) capota de carro em Dakota do Sul e vomita uma quantidade intoxicante de milho – o garmonbozia, segundo o anão do Black Lodge, nas temporadas passadas, que reúne “dor e tristeza”. Essas passagens estão entre as mais estranhas da filmografia de David Lynch, pois o homem chamado Dougie Jones, que Cooper substitui, é levado para o Black Lodge e ouve do Homem de um Braço Só (Al Strobel) que ele foi “fabricado por alguém” – para, em seguida, aparentemente se transformar em Beetlejuice e desaparecer em efeitos especiais que recordam Eraserhead e Cidade dos sonhos.
Repare-se em uma referência a Twin Peaks – Fire walk with me: Dougie, depois de acordar, sente o seu braço adormecido e ele carrega num dos dedos o anel da Coruja, símbolos, no filme, de que o personagem será vitimado, como ocorre com Laura Palmer. Cooper, sendo visto como Dougie, é levado por Jade para um cassino em Las Vegas. Mas repare-se antes disso o bairro para o qual ele foi transportado. Ele lembra aqueles bairros idílicos das peças de Tim Burton ou, mais exatamente, de Amor pleno, de Malick, e a rua onde Cooper vai parar se chama Rua dos Sicômoros (árvores da floresta que demarcam onde se dá a passagem justamente para o Black Lodge).

No cassino, acontece o mais estranho: Cooper começa a visualizar o chão e a cortina do Black Lodge sobre as máquinas de jogo. Depois de uma rápida passagem por Twin Peaks, em que Hawk (Michael Horse), Andy (Harry Goaz) e Lucy (Kimmy Robertson) continuam tentando decifrar a mensagem da Senhora do Tronco – e o tema passa a ser um coelho de chocolate (sim, Império dos sonhos) –, temos, ainda, a aparição do agente Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), acompanhados pela agente Tamara Preston (Chrysta Bell), sendo informados do que aconteceu com o casal em Nova York do primeiro episódio e que Cooper foi encontrado em Dakota do Sul. O mais interessante é que eles ficam sabendo disso numa sala que tem um quadro da bomba atômica ao fundo e numa das paredes o retrato de Franz Kafka, um dos pais do surrealismo.
Este terceiro episódio é um dos mais chamativos para o fato de que Lynch pretende usar vários estilos em conjunto na nova temporada e quase não pode ser entendido sem o conhecimento de elementos das primeiras temporadas e, principalmente, do filme Twin Peaks – Fire walk with me. A mistura é um pouco perturbadora e por vezes requisita uma atenção especial do espectador. O surrealismo entra em choque com a realidade solar, ao contrário de trabalhos anteriores de Lynch. Isso porque em Império dos sonhos, por exemplo, em que o experimentalismo era total, Lynch não mudava excessivamente os cenários e estilos de filmagem: a estranheza era permanente, do início ao fim, sem quebras.

No quarto episódio, Cooper, sendo tratado como Dougie Jones e repetindo palavras básicas como se estivesse tentando reencontrar a linguagem (e não poucas vezes recorda E.T.), é levado para a sua casa numa limousine (uma homenagem de Lynch a Leos Carax e seu Holy Motors) cheio de dinheiro que ganhou no cassino. Antes de encontrar a esposa, Janey-E (Naomi Watts), ele enxerga uma coruja – um dos símbolos de Twin Peaks – voando no céu noturno. Em seguida, a história se transporta para Twin Peaks, onde finalmente vemos o novo xerife, Frank (Robert Forster),  irmão do antigo (Michael Ontkean), que se encontra doente. Ele se reúne com Hawk para discutir a informação recebida a respeito do agente Cooper, e entre seus comandados está uma figura inesperada, que suscita uma ponte direta com a série antiga, por meio da trilha de Angelo Badalamenti e do retrato de Laura Palmer (Sheryl Lee). Também conhecemos uma figura familiar a Andy e Lucy, que protagoniza uma ótima cena com o xerife, em diálogos espantosamente desfocados e remetendo a O selvagem e a O poderoso chefão. Novamente temos a presença dos agentes federais, quando Gordon Cole encontra Denise Bryson (David Duchovny), que era uma das agentes que ajudava Cooper na segunda temporada, agora chefe do FBI.

Em seguida, ele viaja com Albert para encontrar o que consideram ser o agente Cooper, encontrado em Dakota do Sul. No entanto, este se encontra no subúrbio, ainda confundido com Dougie e tentando compreender o que se passa, além de tentar vestir sua gravata e tomar café da manhã, ao som de “Take five”, de Dave Brubek, e olhando para seu filho, ou melhor, filho de Dougie, Sonny Jim (Pierce Gagnon). Chama a atenção como alguns traços do agente Cooper se apresentam de maneira engraçada, como o sinal de positivo que ele faz, ou o café que tenta tomar (além da coruja de plástico no balcão ao fundo). Do mesmo modo, perceba-se como seu duplo do mal, que se encontra em Dakota, tem mais memória de fatos reais: ele recorda de Gordon Cole, por exemplo, e faz o sinal de positivo logo que o enxerga, falando, no entanto, com uma voz assustadora, como se a sua fala não estivesse modulada. Este episódio equilibra melhor os diferentes registros e se parece mais com o que seria o tom dos dois primeiros episódios. O diálogo final entre Cole e Albert, recordando a “rosa azul” e Phillip Jeffries (para ver mais sobre esse personagem, clique nesta outra resenha), é excepcional, com uma fotografia apropriadamente azulada, entre o dia e a noite.

Lynch encontra um novo tom para Twin Peaks nesta terceira temporada, conseguindo usar o seu surrealismo de modo eficaz mesmo em meio a passagens do cotidiano. Os dois primeiros episódios tinham longos silêncios, porém principalmente o quarto se parece muito com as duas primeiras temporadas – e se trata de um novo estilo enquadrado no antigo. A fotografia especialmente de Peter Deming é muito boa, além de MacLachlan ter uma excelente atuação, seguido por um excepcional Lynch, junto com Naomi Watts e outros coadjuvantes. Para um filme dividido em 18 episódios, como Lynch se refere a este retorno de Twin Peaks, teremos ainda partes que poderão explicar ou ampliar o que aconteceu até agora, o que é interessantíssimo. É como se, até o momento, Lynch brincasse não apenas com os duplos do agente Cooper, como também com a visão que o espectador tem de Twin Peaks e a maneira como os personagens vão sendo reinseridos e a sua linguagem fosse sendo reaprendida com novos elementos, assim como Cooper tomando o lugar de Dougie Jones, e novas abordagens. Em suma, é cinema de primeiro nível.

Twin Peaks – Episodes 3 & 4, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Naomi Watts, Kimmy Robertson, David Lynch, Michael Horse, Harry Goaz, Nafessa Williams, Michael Cera, Robert Forster, Dana Ashbrook, Al Strobel, David Duchovny, Richard Chamberlain, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Brent Briscon, Pierce Gagnon Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Duração: 114 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódios 1 e 2) (2017)

Por André Dick

Assistir a uma nova temporada de Twin Peaks é, antes de tudo, uma realização para quem acompanhava a série nos anos 1990 e teve de aceitar seu encerramento com baixos índices de audiência e uma resposta inconclusiva ao final. O filme, Twin Peaks – Fire walk with me, com sua qualidade notável, ajudou a estabelecer a mitologia dos personagens. Também é uma peça de nostalgia: lembrar que há 25 anos nunca se imaginava que ela regressaria algum dia. Quantas vezes minha esposa – também fã da série – e eu conjecturamos a volta dela, sempre com as negativas públicas de David Lynch, até que… Normalmente, o Cinematographe não fala de séries de TV. Abre uma exceção para uma série que é, na verdade, antes de tudo, cinema e por causa do diretor, particularmente o mais ousado dos últimos 40 anos, ao lado de Terrence Malick.
Ontem, finalmente, os dois primeiros episódios foram lançados pelo Showtime e distribuídos no Brasil pela Netflix, em tempo recorde (em torno de 4 horas depois da estreia nos Estados Unidos). Com uma abertura diferente, mas a mesma música de Angelo Badalamenti, David Lynch regressa depois de 11 anos sem filmar: Império dos sonhos foi seu último projeto cinematográfico. Em sua companhia, o outro criador, Mark Frost. Recordo que em 1990, quando a primeira temporada estreou no Brasil, minha mãe e eu nos tornamos fãs assíduos (ela apreciava especialmente a trilha sonora, que à época lembro de ter comprado em LP, e a interação entre os personagens). Obviamente, não havia as redes sociais para as teorias se proliferarem e não lembro de colegas de escola falando da série, mas havia bastante divulgação nos jornais e cheguei a comprar os livros O diário secreto de Laura Palmer e aquele contendo gravações do agente Cooper desde a infância. Imagino que agora, com a nova temporada, os fãs para isso terão um prato cheio.

Em seus dois primeiros episódios, Twin Peaks é Twin Peaks sem de fato ser como a série antiga. A estranheza e o humor estão lá, mas modulados pela fase cinematográfica de Lynch iniciada em Twin Peaks – Fire walk with me e continuada em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos.

Para quem não quer nenhum spoiler, sugere-se não seguir adiante.

A série tem início com imagens do agente Cooper e Laura Palmer na série antiga e, em seguida, passa para imagens em preto e branco, recordando o primeiro filme de Lynch, Eraserhead. O agente (Kyle MacLachlan, excelente) conversa com o Gigante (Carel Struycken) no Black Lodge, enquanto sai um som estranho de um gramofone, ao que tudo indica o mesmo em que Leland Palmer, pai de Laura, ouvia suas músicas nas primeiras temporadas. A partir daí, Lynch dispara em várias frentes: embora tenhamos a visualização de alguns personagens da série antiga, o episódio se concentra num diretor de escola, William Hastings (Matthew Lillard), de Buckhorn, Dakota do Sul. Ele é casado com Phyllis (Cornelia Guest), preocupada com o jantar, e não se lembra de um crime que teria cometido, o que remete ao filme A estrada perdida. O detetive Dave Mackley (Brent Briscoe), além de tudo, é seu amigo. Ainda vemos em Nova York um jovem, Sam Colby (Ben Rosenfield) filmando uma caixa de vidro com câmeras. Ele sempre recebe a visita de Tracy (Madeline Zima), interessada no que está fazendo.

Lynch obviamente andou vendo filmes de seu pupilo Nicolas Winding Refn – a primeira tomada área de Nova York é idêntica a uma de Refn sobre Los Angeles em Drive e essas sequências deixam claro isso, pela simetria e disposição de luzes no ambiente –, assim como evoca Cosmópolis e Videodrome, de David Cronenberg, diretor com o qual costuma ser comparado, embora ambos sejam muito diferentes. Também há um personagem surpreendente cuja camisa por baixo da jaqueta lembra Sailor de Coração selvagem e, junto com uma gangue, parece ser responsável por matar pessoas. Este primeiro episódio evoca bastante Cidade dos sonhos, principalmente na descoberta de um corpo, nas conversas absurdas entre alguns personagens e na imagem assustadora de uma espécie de mendigo numa cela de cadeia, que remete àquele do final da obra-prima de 2001.
No segundo episódio, Cooper trava novos diálogos com Laura Palmer (Sheryl Lee, extraordinária) e o espectador é reinserido no Black Lodge. Não há mais o anão, e sim uma árvore com uma cabeça de borracha que remete a Eraserhead e a pinturas que David Lynch expôs na Tilton Gallery em 2012. Vemos algumas figuras conhecidas. O policial Hawk (Michael Horse), de origem indígena, conversa com Margaret, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson, que fez suas cenas durante tratamento contra o câncer, o qual, infelizmente, veio a vitimá-la em 2015). Enquanto isso, a gangue do primeiro episódio tem uma cena-chave com Darya (Nicole LaLiberte). Não é bom dizer muito desta vez. É estranho. É puro David Lynch. Assim como o design de som, feito por ele mesmo.

Quando assistimos a esses dois episódios, fica claro que Lynch é um artista: ele não está interessado em apenas continuar as duas primeiras temporadas; ele quer reinserir novos elementos a partir dos antigos. O estilo é de uma elegância rara para os meios televisivos, pois é cinema em seu grau mais explorado. As cores, a colocação dos objetos em cena, as atuações – tudo é meticuloso. Os mais de dez anos de afastamento das câmeras não prejudicaram o talento do diretor. Ele também não está interessado, pelo menos ainda, a deixar claro o que está acontecendo – e quando ele esteve? Mesmo a ação da polícia para descobrir o que aconteceu dentro de um apartamento é atrasada pelo surrealismo dos personagens. Tendo seu fotógrafo Peter Deming, o que me deixava mais preocupado era o ritmo da série. Explico: Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch e montadora de seus filmes a partir de Coração selvagem, era uma parceira e certamente ajudou a emprestar a agilidade da série original. Aqui, não apenas pelo envelhecimento dos personagens, como pela estranheza geral, não há o mesmo ritmo, mas sim um ainda mais distinto, levando o surrealismo ao limite. Pode-se dizer que nada depois de Império dos sonhos tenha esta escala de originalidade que esses dois episódios possuem. Muitos vão confundir com maneirismos, mas costumam ser os mesmos que não gostam do Lynch mais experimental e consideram o filme de Twin Peaks do cinema uma traição à série. Esta nova série não pode ser entendida sem o espectador ter visto Twin Peaks – Fire walk with me; há referência, inclusive, a Phillip Jeffries, interpretado no filme por David Bowie. Os dois primeiros episódios lembram mais o terror desse filme, com algumas cenas ultraviolentas.

O que se constata aqui é que Lynch e Frost, seu parceiro de criação, querem estabelecer o Black Lodge como explicação para o mal que se comete no universo, e deve ser reparado pela bondade. Fica muito claro aqui o direcionamento que teria tido a série em 1992 se David Lynch não tivesse outros compromissos, tendo dirigido e escrito apenas alguns episódios da segunda temporada. Ou seja, Twin Peaks continua sendo uma série sobre os limites do ser humano e Lynch pretende contar esse retorno em 18 episódios, que ele considera como um filme (talvez o Decálogo desta década). Mas é claro também que quando a história se concentra exatamente na cidade-chave a atmosfera remete aos anos 90, mesmo com a passagem de tempo, principalmente quando mostra Lucy Moran (Kimmy Robertson), Andy (Harry Goaz) e os irmãos Ben (Richard Beymer) e Jerry Horne (David Patrick Kelly) no Greath Northern, estes num diálogo bem-humorado. E o final do segundo episódio evoca Julee Cruise cantando no Bang Bang Bar, desta vez com uma belíssima canção da banda The Chromatics, quando o espectador revê Shelly (Mädchen Amick) e James Hurley (James Marshall). David Lynch – e nunca se disse isso nos últimos 11 anos – está realmente de volta. O cinema (não apenas a TV, okay, Pedro Almodóvar?) agradece. Não duvide: baseando-se nesses episódios de retorno, em termos de cinema, não se verá nada como esta terceira temporada de Twin Peaks neste ano.

Twin Peaks – Episodes 1 & 2, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Kimmy Robertson, Richard Beymer, David Patrick Kelly, James Marshall, Matthew Lillard, Madeline Zima, Ben Rosenfield, Cornelia Guest, Michael Horse, Catherine E. Coulson, Harry Goaz, Carel Struycken, Brent Briscoe, Ray Wise Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 111 min. Distribuidora: Showtime

 

Pintura e cinema em David Lynch e Twin Peaks

Por André Dick

O cineasta David Keith Lynch nasceu em 20 de janeiro de 1946 em Missoula, Montana, filho de um cientista, Donald Walton Lynch, que servia o Departamento de Agricultura dos EUA, e de uma professora de inglês, Edwina “Sunny” Lynch. Depois de uma infância com várias mudanças de cidade, Lynch, em 1964, começou seus estudos na School of the Museum of Fine Arts, Boston. Voltando de uma viagem à Europa, foi estudar pintura, em 1965, na Academia de Belas Artes da Pensilvânia, na Filadélfia, onde conheceu sua primeira esposa, Peggy Reavey, com quem teve Jennifer Lynch.
Em Lynch, as imagens valem por si e se autoexplicam. Se em Veludo azul e Twin Peaks, elas evocam as pinturas de Edward Hopper, em O homem elefante e Império dos sonhos podemos perceber a influência de Francis Bacon. E a cortina é um elemento-chave, pictórico: para revelar a mulher misteriosa de Eraserhead, ou para servir de pano de fundo às apresentações de Isabela Rossellini, como a cantora Dorothy Vallens, em Veludo azul, de Julee Cruise, em Twin Peaks, e de Rebekha del Rio, em Cidade dos sonhos, por exemplo, no Club Silencio (Lynch, inclusive, projetou um lugar com este nome em Paris, inaugurado em 2011).
Há algumas tomadas de Twin Peaks, sobretudo da parte externa do Double R, quando passam caminhões com toras, que lembram pinturas em movimento de Edward Hopper.

Isso quando não são quase bastante semelhantes: o posto de Big Ed (personagem de Twin Peaks) dialoga diretamente com a pintura “Gas”, de Hopper:

Além disso, entre 1982 e 1983, Lynch fez a história em quadrinhos intitulada O cão mais raivoso do mundo. Numa entrevista ao The Guardian, explica: “I always say Philadelphia, Pennsylvania is my biggest influence. But for painters, I like many, many painters but I love Francis Bacon the most, and Edward Hopper. Both really different, but Edward Hopper makes us all dream, take off from a painting. Magical stuff. And Bacon for a whole bunch of reasons, but those two are big, big, big inspirations”. Vejamos algumas pinturas expostas por Lynch na Tilton Gallery em 2012:

Perguntado por Ana Maria Bahiana (em entrevista intitulada “David Lynch, diretor, roteirista e escoteiro”, Revista SET, ed. 41, nov. 1990) por que faz filmes, David Lynch respondeu: “Bom, eu queria ser pintor e cheguei aos filmes através das pinturas, porque eu queria que as pinturas se mexessem. E eu ouvia pequenos sons vindos da tela, enquanto pintava, daí resolvi fazer filmes, em vez de pintar”.
Especificamente de René Magritte, difícil não perceber que Lil, que vem explicar, por meio de Gordon Cole, o modo como o agente do FBI Chester Desmond deve se comportar na cidade em que investigará o assassinato de Teresa Banks, no filme de Twin Peaks, é uma pintura em movimento de “Le tombeau des lutteurs”.

E a conversa de Chester Desmond e Sam Stanley com Irene no Hap’s Diner Café remete à pintura “Nighthawks”, de Edward Hopper. Como Hopper, Lynch retrata aquilo que era seu objetivo no início da carreira: falar da vida do interior norte-americano e o que se esconde sob ela.

A mãe de Laura, quando acorda à noite, em outro momento do filme, tem uma visão que evoca “The blank shake”, pintura de Magritte, explorando ainda mais o aspecto pictórico da narrativa e sua ligação com a floresta.

Num momento determinante para a história do filme, Laura sonha e entra no quadro dado de presente pelos Tremond, uma avô e seu neto que na série aparecem na agenda de entregas de almoço que a personagem fazia para o Double R. Dentro do quadro, surgem, exatamente, a velhinha Tremond e o neto fazendo um passe de mágica, como se eles representassem uma espécie de subconsciente. Ela, então, encontra o anão do Red Room e o agente Cooper. Depois, ela acorda dentro do sonho e vai até a porta; virando-se para trás, vê sua própria imagem à porta dentro do quadro; em seguida, realmente acorda. Perceba-se que na primeira imagem há o cenário do quarto dela por trás, mas, na última imagem desta sequência, aparece a cortina vermelha do Red Room, do seu sonho. Toda essa parte simboliza uma tentativa de Lynch estabelecer uma ligação de Laura com esses personagens estranhos e com o agente que investigará sua morte – mas sobretudo com a pintura e com os sonhos.

Podemos estabelecer uma relação entre a representação existente na pintura e a realidade da pintura “La condition humaine”, de Magritte, em que a janela é ao mesmo tempo uma pintura:

Em seu quarto, Laura também possui o quadro abaixo:

Em determinado momento do filme, quando sua angústia se acentua, a figura do anjo desaparece (spoiler em seguida). No final, ao fazer reaparecer o anjo – como John Merrick sonhava em dormir normalmente, ao olhar pinturas de seu quarto, em O homem elefante –, Lynch encerra o filme com uma nota otimista, mostrando o encontro da personagem com a luminosidade e uma divindade.

David Lynch é um dos raros cineastas que conseguiram isso: transformar pinturas em filmes.

* Esta é uma síntese do texto que abriu o “Especial David Lynch“, com algumas alterações, publicado em 29 de setembro de 2012.