Resultados do Oscar 2017

Por André Dick

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Melhor filme

Ninguém pode dizer que o Oscar 2017 não foi surpreendente. Quando a dupla de Bonnie e Clyde Faye Dunaway e Warren Beatty subiu ao palco para a entrega do prêmio de melhor filme, nada indicaria que o vencedor anunciado, La La Land, não seria de fato o escolhido. Depois de toda a equipe de La La Land agradecer, Beatty ressurgiu para explicar que o vencedor era Moonlight – Sob a luz do luar. No envelope lido por Dunaway, aparecia Emma Stone (La La Land), que havia vencido como melhor atriz. Envelope duplicado? Beatty, por aparentar não conseguir ler o envelope, foi visto pela imprensa como responsável pela confusão – o que é lamentável, assim como nenhuma indicação para seu mais recente e ótimo filme, Rules don’t apply. Mas quem o leu foi Dunaway, que nunca imaginaria que o envelope entregue estava errado. Culpa dos atores? Isso seria desconsiderar que uma organização não deve abrir espaço para a possibilidade de um equívoco desse tamanho. E avaliar que Beatty e Dunaway, astros históricos de Hollywood, quiseram prejudicar a premiação é ainda mais injusto.
Gosto mais da seleção deste ano do que a dos três anos anteriores. Há dois filmes excelentes, La La Land e Moonlight, dois ótimos (Manchester à beira-mar e Lion), dois muito bons (Até o último homem e A qualquer custo), dois particularmente sustentados por grandes atuações (Um limite entre nós Estrelas além do tempo) e uma ficção científica interessante e que melhorou em duas revisões que fiz (A chegada) em relação à primeira vez. La La Land saiu com 6 prêmios, Moonlight com 3, Até o último homem e Manchester à beira-mar com 2 e Um limite entre nós e A chegada com 1.

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Desde Crash, em 2005, o escolhido a melhor filme não vencia exatamente 3 Oscars. E, assim como em outros anos, especificamente aqueles em que Ang Lee foi escolhido melhor diretor (em O segredo de Brokeback Mountain e As aventuras de Pi), ou quando Cuarón recebeu o Oscar por Gravidade e Iñárritu em O regresso, o melhor diretor não acompanha melhor filme.
Novamente a Academia não atinge 10 concorrentes. Numa décima vaga, poderiam ter lembrado de Silêncio, JackieA lei da noiteLoving, Elle, Florence – Quem é essa mulher?, PatersonA longa caminhada de Billy LynnAnimais noturnos e vários outros sequer cotados, a exemplo de Ave, César!, Cavaleiro de copasA criada, A luz entre oceanos, Jovens, loucos e mais rebeldes!!Wiener-dogDocinho da América, Beleza ocultaMais forte que bombas, Dois caras legais, A garota no trem, Café Society e Demônio de neon.
A ordem dos meus preferidos a melhor filme era a seguinte:

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A apresentação de Jimmy Kimmel, de forma geral, foi vaga e pouco inspirada, destacando-se apenas em meio à confusão no final, e os números musicais foram um tanto apagados. Houve um belo in memoriam a artistas da indústria que faleceram, encerrado com Carrie Fisher. E, nos agradecimentos, apenas as falas de Viola Davis e Mahershala Ali foram realmente comoventes. Artistas que ganham o prêmio muito jovens, como Casey Affleck e Emma Stone, não costumam render bons discursos de agradecimento, assim como o do diretor Damien Chazelle foi apagado.
O fato é que, tirando esse momento histórico de gafe da organização, o Oscar aconteceu com premiações bastante previstas.

Melhor direção

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Damien Chazelle, logo depois de Whiplash, consegue seu prêmio como melhor diretor, de forma merecida e com somente 32 anos. Com um belo musical, ele conseguiu extrair grandes atuações de seu elenco. Seu concorrente mais forte, Jenkins, de Moonlight, acabou sendo agraciado com o melhor roteiro adaptado. Alguns esperavam uma possível surpresa de Mel Gibson ou Kenneth Lonergan, mas ambos não tinham potencial para atingir os votantes, e Villeneuve é ainda um nome com futuros projetos de destaque, a exemplo de Duna e Blade Runner 2049, e certamente será relembrado.

Melhor ator

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Nos últimos dias, Denzel Washington era apontado como favorito ao prêmio por Um limite entre nós, mas quem ficou com a estatueta foi o desde sempre favorito Casey Affleck, de Manchester à beira-mar. Pelo olhar de Washington, foi uma derrota sentida – ele ganharia o terceiro Oscar, depois de Tempo de glória e Dia de treinamento. Andrew Garfield, particularmente o melhor entre os concorrentes, era visto com uma possibilidade por sua atuação em Até o último homem, mas tem uma longa carreira pela frente, o que indica também Silêncio, em que faz um padre. Viggo Mortensen não estava muito cotado por Capitão Fantástico, nem Ryan Gosling por La La Land, embora seu Sebastian seja um ponto de equilíbrio para o filme ter êxito.

Melhor atriz

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A ótima Emma Stone, depois da indicação a coadjuvante por Birdman, superou as atuações de Isabelle Huppert em Elle e Natalie Portman em Jackie, superiores à dela. Mesmo Ruth Negga, em Loving, apresenta um trabalho mais marcante. Já Meryl Streep, excelente em Florence Foster Jenkins, apenas cumpria a sua participação. Mas Emma é uma atriz que tem uma longa carreira pela frente e já fazia por merecer indicações desde A mentira e Histórias cruzadas.

Melhor ator coadjuvante

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Mahershala Ali era o favorito e ganhou por Moonlight, num papel que domina todo o primeiro ato da narrativa. Jeff Bridges apresenta um trabalho excelente em A qualquer custo, mas não muito diferente do que já apresentara em Bravura indômita, enquanto Michael Shannon reafirma seu estilo singular em Animais noturnos e Dev Patel mostra um lado desconhecido de emoção em Lion – Uma jornada para casa.

Melhor atriz coadjuvante

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A grande Viola Davis finalmente venceu o Oscar, por seu papel em Um limite entre nós. Depois de várias indicações e ser favorita ao prêmio, em Histórias cruzadas, ela já havia sido premiado por esse papel pelo Tony, quando o representou na Broadway. Naomie Harris está bastante convincente em Moonlight, como a mãe de Cherrie, enquanto Victoria Spencer novamente é carismática em Estrelas além do tempo. Nicole Kidman está muito bem em Lion, enquanto Michelle Williams faz participação em Manchester à beira-mar.

Melhor roteiro original

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Kenneth Lonergan subiu ao palco por Manchester à beira-mar. Deixou para trás a estranheza do roteiro de O lagosta, a agilidade narrativa de A qualquer custo, a alegria agridoce de La La Land e o trabalho excepcional de Mike Mills em Mulheres do século 20, o melhor, a meu ver, nesta categoria.

Melhor roteiro adaptado

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Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney levaram o prêmio por Moonlight – Sob a luz do luar, superando os trabalhos elogiados de A chegada, Um limite entre nós e Estrelas além do tempo.

Melhor animação

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O grande favorito, Zootopia, foi o escolhido, superando o blockbuster Moana e o cult A tartaruga vermelha, além do influenciado por animações orientais, Kubo e as cordas mágicas.

Melhor longa estrangeiro

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O favorito e superestimado Toni Erdmann viu sua corrida encolher na reta final, e Asghar Farhadi recebeu o prêmio pelo excepcional O apartamento. Ele já havia recebido o prêmio com A separação, em 2011, e não compareceu à premiação por causa da política de imigração atual dos Estados Unidos, enviando uma mensagem. Um homem chamado Ove também possuía boas características para ser lembrado, embora os grandes esquecidos tenham sido Elle e É apenas o fim do mundo (esta obra de Xavier Dolan chegou a figurar entre os nove pré-finalistas).

Melhor documentário em curta-metragem

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Os capacetes brancos

Melhor documentário em longa-metragem

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O.J. – Made in America

Melhor curta-metragem

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Sing

Melhor curta em animação

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Piper

Melhor fotografia

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O sueco Linus Sandgren quebra a sequência de Emmanuel Lubezki, sequer indicado, com o belíssimo trabalho de luzes de La La Land. Embora muitos vissem James Laxton um potencial concorrente forte com Moonlight e Rodrigo Prieto, a indicação solitária de Silêncio, de Scorsese, uma possibilidade, não há maneira de dizer que Sandgren não tenha modernizado Los Angeles com uma nostalgia recorrente ao passado. Ele tem clara influência dos trabalhos de Lubezki e escolhe uma paleta de cores que transforma a narrativa numa referência.

Melhor trilha sonora

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Justin Hurwitz foi o vencedor pela belíssima trilha de La La Land, embora Mica Levi apresente um trabalho excepcional em Jackie e Nicholas Britell traga notas musicais interessantes para os conflitos de Moonlight.

Melhor canção original

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“City of Stars”, música de Justin Hurwitz, canção de Benj Pasek e Justin Paul, de La La Land, foi a grande vencedora, um clássico instantâneo. Destaque-se que a canção aparece melhor no filme, com Ryan Gosling, do que na performance de John Legend durante a apresentação.

Melhor edição

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John Gilbert recebeu o prêmio por Até o último homem. Prêmio que costuma acompanhar melhor filme, mas não foi o caso desta vez. O trabalho de montagem de La La Land é excepcional, e os de A qualquer custo e Moonlight conseguem mesclar boas passagens de tempo.

Melhor figurino

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Depois de ganhar o prêmio por ChicagoMemórias de uma gueixa e Alice no país das maravilhas, Coleen Atwood recebe um novo Oscar por Animais fantásticos e onde habitam, superando o favoritismo de La La Land e Jackie. Interessante que nenhum filme da série Harry Potter tenha recebido um Oscar sequer.

Melhor design de produção

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David Wasco (design de produção) e Sandy Reynolds-Wasco (decoração de set) receberam o prêmio por La La Land, embora os trabalhos de Animais fantásticos e Ave, César! não fiquem distantes em termos de qualidade, o primeiro na passagem do universo literário de J.K. Rowling para as telas e o segundo na reelaboração de uma Hollywood já histórica.

Melhor maquiagem e cabelo

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Alessandro Bertolazzi, Giorgio Gregorini e Christopher Nelson receberam o prêmio por Esquadrão suicida, um dos filmes mais subestimados de 2016. Jared Leto estaria rindo agora da crítica que o menosprezou ou a crítica que disse que Esquadrão nunca poderia concorrer ao Oscar estaria chorando?

Melhor mixagem de som

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Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mckenzie e Peter Grace receberam o prêmio por Até o último homem, embora o trabalho de La La Land fosse suficientemente forte, assim como os de Rogue One e 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi.

Melhor edição de som

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Sylvain Bellemare recebeu o único prêmio de A chegada, de forma merecida, com um trabalho competente, principalmente quando os personagens adentram a espaçonave principal da obra, superando o favorito La La Land.

Melhores efeitos visuais

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Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones e Dan Lemmon receberam o Oscar por Mogli – O menino lobo, superando Doutor Estranho e Rogue One. O visual belíssimo da nova adaptação da Disney é um destaque desde o seu lançamento e traz inovação para o campo.

 

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Moonlight – Sob a luz do luar (2016)

Por André Dick

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O diretor e roteirista Barry Jenkins lançou em 2008 sua primeira obra, Medicine for melancholy, cujo título poderia servir como pista básica para o estilo que apresenta na obra seguinte, que vem precedida por várias indicações a prêmios e recepção exitosa. Baseado na peça In Moonlight Black Boys Look Blue, de Tarell Alvin McCraney, Moonlight – Sob a luz do luar apresenta a trajetória de Chiron (Alex Hibbert), cujo apelido é “Little” e que se vê sempre perseguido por colegas da escola, por causa de seu jeito tranquilo. Num determinado dia, ele é ajudado por Juan (Mahershala Ali, excepcional em sua discrição), nascido em Cuba, que vende drogas e leva Chiron para a casa da namorada, Teresa (Janelle Monáe). O menino não gosta de conviver com a mãe, Paula (Naomie Harris, excepcional), que está sempre às voltas com novos homens e problemas emocionais, e tem como melhor amigo Kevin (Jaden Piner).

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Já mais velho, Chiron (Ashton Sanders) continua a sofrer intimidações e bullying por parte de colegas, como Terrel (Patrick Decile), e continua a ser amigo de Kevin (Jerome Jharrel). Sua mãe tornou-se viciada e ele continua a buscar refúgio na casa de Teresa. Quando se percebe, ele já está adulto (Trevante Rhodes) e com características semelhantes a uma pessoa que tinha como referência.
É difícil falar de Moonlight sem recorrer a algumas informações básicas, que já constam no trailer, mas ainda mais difícil não falar de seu trabalho de fotografia magistral de James Laxton, em que a luz do luar do título se reproduz nas imagens e cores da narrativa, quando o personagem está em determinadas situações-chave.
O que mais chama a atenção é como Barry Jenkins se afasta de um determinado estilo concebido por Spike Lee em Faça a coisa certa e que acaba refletindo em boa parte das obras com temáticas de que trata Moonlight, a exemplo do clássico Os donos da rua e o recente Dope. Jenkins escolhe uma narrativa com trilha sonora quase ausente, usando muito os ruídos da natureza, a exemplo do mar em algumas sequências, embora a trilha de Nicholas Britell, quando surja, seja sensível.

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Ele tem um olhar muito interessante para a condição de Cherrie, assim como extrai grandes atuações de cada componente do elenco, visualizando a sua trajetória como Linklater faz com o jovem de Boyhood: há um sentimento de solidão fortíssimo em Moonlight, de elementos que se estendem ao longo do tempo e que não deixam mais de fazer parte do indivíduo, de lembranças que perduram e atitudes que, por mais que se esforce, não podem ser perdoadas. Ainda assim, chama a atenção como Jenkins aborda os assuntos com uma sabedoria calma e, na condução de algumas cenas, quase poética (numa determinada cena, um jukebox serve como um regresso a outra época).
A maneira como Jenkins filma o personagem, mostrando-o muitas vezes pelas costas, lembra o estilo de Terrence Malick ou Aronofsky em certos instantes. Há um manuseio de câmera que às vezes parece flutuar e vem exatamente de Amor pleno e A árvore da vida, no entanto Jenkins costuma se concentrar mais no rosto de cada personagem e às vezes usa a câmera lenta para extrair a raiva de determinados comportamentos, como o da mãe de Cherry em determinado momento. Este estilo se fecha perfeitamente com a maneira que Jenkins deseja abordar os temas na narrativa: este é um filme sobre um menino que cresce, mas que continua menino, e não consegue se resolver emocionalmente diante das novas direções que sua vida toma.

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Os atores que representam Cherrie nas três fases da vida apresentam características que levam a crer que parecem realmente a mesma pessoa, e este é outro acerto de Jenkins. O personagem acaba tendo uma ênfase que não se dá por meio dos diálogos (eles quase inexistem de sua parte) e Jenkins dá uma espécie de transcendência a momentos focados do cotidiano. É como em Linklater: pequenos gestos se tornam eternos, mesmo que no momento em que acontecem pareçam dispensáveis ou efêmeros. Há elementos, ao mesmo tempo, que evocam uma ligação com o recente American honey: esta América do filme, ou mais especificamente Miami, é reveladora do comportamento humano.
Interessante, igualmente, como se mostra a analogia entre o mar (símbolo principal da história, onde em determinado momento se mostra o encontro do personagem com a segurança e com a memória alheia) e a água de casa, o gelo depois da violência e o sangue estampado no rosto quando o personagem, depois de determinada ocorrência, se olha no espelho. Durante quase todo a narrativa, ele tem receio justamente de se enxergar, de saber o que realmente deseja em relação ao que se passa à sua volta, e isso se mostra ainda mais quando Jenkins lança a analogia entre as cores de sequências diferentes para interligá-las. Se para alguns isso pode soar apenas visualmente interessante, estilo sobre a substância, é preciso dizer que ele realmente consegue efetuar um desenho para cada símbolo que vai evocando, principalmente mais ao final, de maneira extraordinária. Essas cenas dispersas parecem banhadas literalmente pela luz do luar, assim como o momento definidor para o sentimento de Cherry se dá à noite em frente ao mar. É uma obra absolutamente comovente, sem fazer nenhuma força para que isso aconteça.

Moonlight, EUA, 2016 Diretor: Barry Jenkins Elenco: Mahershala Ali, Janelle Monáe, Naomie Harris, Ashton Sanders, Jharrel Jerome, Trevante Rhodes, André Holland Roteiro: Barry Jenkins, Tarell McCraney Fotografia: James Laxton Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Adele Romanski, Dede Gardner, Jeremy Kleiner Duração: 110 min. Estúdio: A24 / Plan B Entertainment

cotacao-5-estrelas

 

O apartamento (2016)

Por André Dick

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O cineasta Ashgar Farhadi vem se destacando desde À procura de Elly, de 2009, mas foi com A separação, de 2011, que ele recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro. Dois anos depois, ele tentou repetir o êxito com O passado, mas contava com uma história excessivamente calculada. Sua volta se deu no Festival de Cannes com este O apartamento, em que Emad (Shahab Hosseini) e sua esposa, Rana (Taraneh Alidoosti), se mudam para um novo apartamento em razão de o prédio antigo onde moravam estar condenado pela falta de infraestrutura. Ele é professor e ambos atuam numa adaptação de A morte do caixeiro viajante, de Arthur Miller, da qual faz parte Babak (Babak Karimi), que lhes indica a nova moradia.
O filme inicia com o cenário dessa peça de teatro, com neons multicoloridos indicando um cenário norte-americano, mas o peso da cultura iraniana se impõe aqui como um subterfúgio para o estilo do cineasta. O que acontece em seguida é impactante: tendo sido um apartamento habitado antes por uma prostituta, e com objetos ainda dela nos cômodos (em certo momento, mostra-se um armário cheio de sapatos dos mais diferentes tamanhos), alguém se dá a liberdade de atacar Rana, fazendo com que ela seja conduzida para um hospital.

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No entanto, ela não se mostra propensa a contar sua história para a polícia, por vergonha. A partir daí, o desentendimento entre os dois se acentua, e Emad, antes agradável com os alunos, se torna mais violento e impaciente. Ele, de qualquer modo, passa a investigar o que pode ter acontecido no dia fatídico, não sem tentar colocar a culpa em Babak, que lhe indicou o imóvel, falando dos vizinhos pouco agradáveis.
Como em seus outros filmes Ashgar Farhadi utiliza um acontecimento do cotidiano para traçar uma visão humana de notável percepção, em que os indivíduos se movem pela dor e pela irracionalidade diante de uma situação. Não por acaso, a mulher que é vítima aqui sofre um corte na altura do olho e passa a usar um curativo onde antes usava o véu, como se este fosse uma imposição violenta do Estado, não apenas para cobrir o rosto, e sim suas perspectivas de mudança. Ao dialogar com a peça de Miller, O apartamento se sente com referências não apenas ao recente Birdman, mesmo sob outro ponto de vista, assim como a Noite de estreia, o clássico de John Cassavetes, em que o comportamento da atriz fora dos ensaios influenciava diretamente o resultado da peça a ser concretizada. No filme de Farhardi, a peça teatral se sente como uma extensão de suas vidas, e Emad passa a acrescentar diálogos mostrando seu incômodo com a situação à qual ele e sua esposa são conduzidos.

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Trata-se de uma obra especialmente surpreendente tanto pelo elenco extraordinário quanto pela atmosfera de insegurança e angústia que proporciona: temos aqui o Farhardi de A separação, com os pés inseridos na condição humana, e menos em O passado, que se baseava mais em conceitos e tinha um elenco menos forte. Na realidade, ele trata de como o ser humano reage diante de uma violência: ele deve buscar a própria alternativa para se vingar ou seguir as autoridades e mesmo a compaixão.
Farhadi, exímio em colocar o espectador em dúvida quanto à moral de seus personagens, faz com que se tenha uma certa compaixão mesmo diante da agressão cometida. É inegável que ele produz um sentimento conflitante no espectador, fazendo com que pensemos no indivíduo responsável pela agressão como uma figura tão destituída de qualquer misericórdia que se torna insuficientemente incapaz de produzir um sentimento de justiça. Alguns indicam que este é um thriller de investigação à moda iraniana: não chegaria a tanto. Ele possui uma atmosfera ameaçadora do prédio que remete aos melhores momentos de O som ao redor, no qual certamente vai buscar influência.

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Como A separação e mesmo À procura de Elly, que tinha uma primeira metade esplendorosa para uma segunda de menos impacto, O apartamento joga com o sentimento do espectador de modo a fazê-lo entender os sentimentos de vingança e de perdão em igual sintonia. Sabemos por que a raiva transborda e entendemos quando ela deixa de ter efeito, quando as pessoas se desnudam diante de um acontecimento e se mostram simplesmente pelo que são. Há uma influência visível do cinema de Abbas Kiarostami, recentemente falecido, e dos irmãos Dardenne, que no Festival de Cannes de 2016 lançaram A garota desconhecida, uma espécie de thriller envolvendo uma médica.
Vencedor dos prêmios de melhor roteiro e ator em Cannes, O apartamento é um dos indicados com merecimento ao Oscar de filme estrangeiro e sua qualidade se dá nessa base narrativa situada entre o universo iraniano e a peça de origem norte-americana de Miller, instituindo um paralelo entre os personagens representados e os da realidade, assim como o belo cenário teatral cria um contraste com o apartamento real cheio de rachaduras e ainda não habitado por completo, à medida que o casal deseja sair dele. Quando Rana se sente mal na peça, é evidente que aquele cenário escapista com neons não satisfaz a uma mudança que deve ocorrer. Para Rana, haverá esquecimento do que aconteceu apenas quando abandonarem o apartamento. Mas abandonar o apartamento não significa abandonar o que aconteceu: segundo Farhardi, é justamente na lembrança que o ser humano constrói sua base de confiança e percepção sobre a realidade. Seu filme é o exemplo mais claro desta audácia de mostrar que somos feitos de cotidiano e o olhar que ele lança sobre o envelhecimento é, ao mesmo tempo, terno e sem sentimentalismo.

فروشنده, Irã, 2016 Diretor: Asghar Farhadi Elenco: Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti, Farid Sajjadi Hosseini, Babak Karimi, Mina Sadati, Mojtaba Pirzadeh, Ehteram Boroumand, Shirin Aghakashi, Emad Emami, Sam Valipour Roteiro: Asghar Farhadi Fotografia: Hossein Jafarian Trilha Sonora: Sattar Oraki Produção: Alexandre Mallet-Guy, Asghar Farhadi Duração: 125 min. Distribuidora: Pandora Filmes Estúdio: arte France Cinéma / Farhadi Film Production / Memento Films Production / The Doha Film Institute

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A grande muralha (2017)

Por André Dick

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Para os fãs mais puristas do diretor chinês Zhang Yimou, A grande muralha deve soar como um diretor de arte se vendendo para o sistema de blockbusters norte-americano. Seu ritmo não tem nenhuma relação, além do visual espetacular, com Lanternas vermelhas, Herói ou O clã das adagas voadoras, mas esta é a primeira real colaboração do cinema norte-americano e do cinema chinês, numa época em que o universo da história se mescla com o da fantasia.
O filme se passa durante a dinastia Song, quando William Garin (Matt Damon), Pero Tovar (Pedro Pascal) e outros sobreviventes de um grupo de mercenários europeus estão à procura de uma determinada relíquia para defesa, um pó escuro (que muitos vão chamar de pólvora). Depois de enfrentarem um monstro, eles chegam no dia seguinte à muralha da China, onde são levados como prisioneiros por uma Ordem sem Nome, representada pelo general Shao (Zhang Hanyu), pela comandante Lin Mae (Jing Tian) e pelo estrategista Wang (Andy Lau). Eles se preparam para uma invasão que acontece a cada sessenta anos de monstros chamados Taotie, e Garin pode se mostrar muito útil, devido a ser um exímio arqueiro. A dupla central acaba por conhecer Sir Ballard (Willem Dafoe), europeu que também está atrás do pó escuro que os demais procuram.

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Resultado de um Yimou em início de carreira, Lanternas vermelhas, indicado ao Oscar de filme estrangeiro e incluído na lista de melhores da década de 1990, é um referencial com o qual A grande muralha dialoga. Grande parte da crítica surpreendeu-se com o trabalho fotográfico de Zhao Fei, que aprisiona os personagens num castelo dominado por túneis, descidas, curvas, de atmosfera fria, onde moram quatro mulheres, casadas com o dono do local. Quando solicitadas por ele, seus respectivos quartos são preenchidos por lanternas vermelhas, penduradas nas paredes. Isto cria uma rivalidade para ver quem mais satisfaz o amante. Em A grande muralha, temos a mesma sensação transmitida pela fotografia: os personagens se esgueiram em túneis, salas isoladas, ou lugares para banquetes grandiosos.
Se em Lanternas vermelhas, as lentes privilegiam a beleza plástica de Gong Li, na figura da mocinha Songlian, ex-estudante de faculdade e obrigada a abandonar a família e virar concubina, em A grande muralha isso passa a ser mérito da comandante Lin Mae. Em ambos os filmes Yimou trabalha com a representação feminina, mas em Lanternas vermelhas o papel da mulher não muda, sendo um ciclo, como as estações que demarcam as passagens de tempo do filme; neste novo filme, ela se transforma numa guerreira e numa referência para combate.

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Depois de se notabilizar por fazer grandes sequências de ação de forma artística em Herói e O clã das adagas voadoras, que influenciaram diretamente Wong Kar-Wai em O grande mestre e Hsien em A assassina, Zhimou se encaminha para o que pode ser visto como uma mistura entre O senhor dos anéis, Warcraft, Círculo de fogo e, pela quantidade de flechas e catapultas, o épico Cruzada, de Scott. Não há mais os cenários mais fechados de Herói, que evocavam uma claustrofobia e uma produção mais precária em termos de interiores, e sim um fantástico diálogo visual da grande muralha com as montanhas e vales que a cercam. A fotografia de Stuart Dryburgh é impecável no uso de cores e movimentação, como já havia acontecido em A vida secreta de Walter Mitty e Alice através do espelho. O tratamento no contraste das cores, por outro lado, é acertado e vai do vermelho (as flechas do arqueiro) e azul (os uniformes das guerreiras) até as cores mais gélidas (cinza, verde apagado), como se cada cenário representasse o desenvolvimento da ação.
Yimou, de certa maneira, aprisiona os personagens numa redoma de vidro, a muralha, e depois lhe proporciona balões fantásticos como numa obra de Terry Gilliam, na qual o filme certamente se inspira também, e salões luxuosos como em A maldição da flor dourada. O interessante, diante dos pressupostos para a aceitação ou não desta obra de Yimou, é sua qualidade ou não de roteiro, quando ele apresenta tão poucos diálogos e tramas quanto um Herói ou A assassina, mas, por ser blockbuster, passa a ser por isso menos reverenciado (e, mesmo que a obra de Hsien seja superior, não é por causa disso que essa fantasia seja menos importante).

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Enquanto em Lanternas vermelhas, a jovem caminhava num pátio de pedra iluminado por elas, relacionando os enquadramentos a pinturas chinesas antigas, aqui Yimou contempla cada sequência de maneira que lembra seus melhores momentos como diretor, mas com senso de ritmo próximos dos cineastas norte-americanos de fantasia, a exemplo de Peter Jackson. Os monstros do filmes são resultado de efeitos visuais de impacto, mas também com um design que lembra o trabalho artesanal de Emilio Ruiz del Río, que trabalhou em Conan, o destruidor, Duna e O labirinto do fauno. Perceba-se também o uso dos figurinos espetaculares de Mayes C. Rubeo (Avatar, John Carter, Apocalpypto) e a atuação discreta de Damon, que, após Jason Bourne, redescobre outra opção no campo da aventura, sem ficar com um tom excessivamente calculado como poderia. Essa é a mais custosa produção feita na China (150 milhões), que nos poucos países em que estreou até agora está fazendo valer o investimento. O que é merecido: trata-se de um filme que evoca épicos da sessão da tarde com um grande senso de magnitude.

The great wall/長城, EUA/China, 2017 Diretor: Zhang Yimou Elenco: Matt Damon, Jing Tian, Willem Dafoe, Andy Lau, Pedro Pascal, Zhang Hanyu, Lu Han, Lin de Kenny, Eddie Peng, Huang Xuan, Ryan Zheng, Karry Wang Roteiro: Carlo Bernard, Doug Miro, Tony GilroyFotografia: Stuart Dryburgh Trilha Sonora: Ramin Djawadi Produção: Jon Jashni, Peter Loehr, Thomas Tull Duração: 104 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Atlas Entertainment / Kava Productions / Le Vision Pictures / Legendary East / Legendary Pictures

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A lei da noite (2017)

Por André Dick

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Pode-se sentir que em geral há uma preocupação grande com o que Ben Affleck possa ter sido ou vir ainda a ser. Em 2016, depois da polêmica em torno de Batman vs Superman, ele se transformou num dos atores mais visados, principalmente quando decidiu anunciar que iria dirigir The Batman. Este A lei da noite acabou atraindo um comportamento crítico em geral que parecia mais interessado no que ele estaria planejando do que de fato apresenta aqui, e, por problemas de divulgação, acabou se transformando numa falha significativa de ignição na bilheteria. Em seguida, foi anunciada sua saída da direção do novo filme do super-herói de Gotham, trazendo ainda mais indefinição sobre o seguinte fato: esta seria sua obra a ser esquecida?
A lei da noite possui uma das narrativas de gângster mais focadas num personagem, no caso Joe Coughlin (Ben Affleck), um veterano da I Guerra Mundial e filho de Thomas (Brendan Gleeson), capitão da polícia de Boston. Ele está apaixonado por Emma Gould (Sienna Miller), amante do gângster Albert White (Robert Glenister), e pratica atividades criminosas, para preocupação do pai. Pela narração, sabemos que ele não quer mais trabalhar para ninguém como fez durante a Guerra.

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O mafioso Maso Pescatore (Remo Girone) chantageia Joe justamente para matar o rival White. Depois de contratempos, Joe é levado a Ybor City, Tampa, Florida, com o parceiro Dion Bartolo (Chris Messina), onde conhece Graciela Corrales (Zoe Saldana), a irmã de um homem de negócios do local cubano. Ele se aproxima do xerife do local, Irving Figgis (Chris Cooper), pai de Loretta (Elle Fanning), e enfrenta um homem ligado à Ku Klux Khan, RD Pruitt (Matthew Maher).
Baseado num romance de Dennis Lehane, A lei da noite tem uma reconstituição de época notável e não por acaso era visto como um dos potenciais candidatos ao Oscar. Para isso, a colaboração do diretor de fotografia Robert Richardson, habitual colaborador de Tarantino e Oliver Stone, é fundamental. Trata-se de um recorte histórico em que a vida de mafiosos se encaixa com a história da América e, principalmente, do preconceito existente nela, contra latinos e negros, a presença da Ku Klux Khan e a vigência da Lei Seca. Joe é um personagem indefinido entre uma certa gentileza e uma violência extrema, e Affleck, um ator muitas vezes bastante limitado, consegue equilibrar essas duas facetas principalmente nas sequências em que empreende diálogos com amigos ou inimigos. O seu grande adversário tem sobrenome White, e os preconceitos destilados ao longo da metragem do filme se direcionam principalmente às escolhas pessoais que Coughlin vai realizando.

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Ele conduz o início da trama com uma agilidade que repercute principalmente na segunda metade, mais interessada em fazer analogias entre religião e cinema, violência e arte, culpa e constituição de uma família. Do elenco, não apenas Affleck está bem (o que acontecia raramente em sua carreira até iniciar sua trajetória como diretor), mas, principalmente, Gleeson, Cooper, Maher, Girone, Miller e Fanning, esta num diálogo comovente com Joe em determinado momento, mostrando seu talento. É destacada a maneira como Coughlin representa uma espécie de indefinição entre ser realmente mau ou adotar apenas uma persona, o mesmo acontecendo com a personagem de Loretta, que se transforma numa ameaça para seus negócios. Não apenas o fato de terem pais que também são policiais que os aproximam, nem o fato de Coughlin ter um primo trabalhando como roteirista em Hollywood, para onde ela deseja ir, e sim a insegurança de não saber se terão culpa pelo que cometeram ou irão cometer.
Vendo os filmes de Ben Affleck, pode-se perceber o seu interesse pelo universo do crime. Em Atração perigosa, ele interpreta um Doug MacRay, amigo de James Coughlin (interpretado por Jeremy Renner), sobrenome do seu criminoso de A lei da noite.

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Os dois são assaltantes de bancos e a partir daí se desenha uma série de subtramas sustentadas por grandes atuações tanto de Affleck quanto de Renner, Jon Hamm, Blake Lively e Rebecca Hall. Se em Medo da verdade, o detetive feito por Casey Affleck estava às voltas com os criminosos de um bairro pobre, seu Doug tenta uma nova chance com a mulher feita por Hall.
O tema sempre presente em sua filmografia é a crença na mudança: em Medo da verdade, visualizada na criança; em Atração perigosa, no amor por uma mulher. Em A lei da noite, o tema da criminalidade se mescla com linhagens familiares, e em Atração perigosa não era diferente, na figura de Chris Cooper, como Stephen, pai de Doug. Muito interessante como Affleck desenha os conflitos entre policiais e criminosos, como em Medo da verdade, como se fizessem parte realmente do mesmo universo, o que vai se intensificar em A lei da noite. Surpreende que logo após esses dois filmes iniciais ele tenha feito Argo, uma obra destinada a vencer o Oscar, como aconteceu, mas sem a qualidade deles e, principalmente, de A lei da noite.

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a-lei-da-noite-38Quase não há mais obras sobre gângsters e este especificamente traz uma mistura de Os intocáveis, Dália negra e Dick Tracy (os tiroteios são filmados com uma precisão irretocável), além de Inimigos públicos, de Michael Mann, principalmente na maneira como Affleck apresenta seus personagens. A reconstituição fina oferecida pelo filme não é menos atrativa do que sua narrativa desenhada com recursos mínimos a partir do romance de Dennis Lehane, autor também do livro que deu origem a Medo da verdade. Não há o mesmo nervosismo urbano de seus primeiros filmes, justamente pela atmosfera, e sim uma frieza impactante nas entrelinhas, acrescentada pela narração esporádica de Coughlin. Também não há nenhum humor aqui: esta é uma tentativa de empregar o mesmo clima das peças de gângsters dos anos 40 e 50. Talvez seja ainda mais: Affleck mostra como os gângsters estão presos a um momento histórico e a um comportamento que apenas pretende flertar com a violência, sem ter nenhuma ideia do que ela acarreta. É difícil determinar por que este filme foi recebido com tanta rejeição, mas talvez seja em razão de um certo distanciamento desse gênero. O roteiro se esclarece como poucas obras conseguem, ou seja, se não é uma das realizações do ano, difícil saber muitas outras que seriam. Intimista, feito à moda antiga, fascinante, com um olhar quase europeu por Affleck, A lei da noite é um acerto de qualidade que só o tempo irá reconhecer.

Live by night, EUA, 2017 Diretor: Ben Affleck Elenco: Ben Affleck, Elle Fanning, Brendan Gleeson, Chris Messina, Sienna Miller, Zoe Saldana, Chris Cooper, Robert Glenister, Matthew Maher, Anthony Michael Hall, Scott Eastwood Roteiro: Ben Affleck Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Ben Affleck, Chat Carter, Jennifer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio Duração: 128 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Appian Way / Pearl Street Films

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John Wick – Um novo dia para matar (2017)

Por André Dick

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Em 2014, foi lançado o personagem de John Wick em De volta ao jogo, com Keanu Reeves, que se caracterizava pelo visual potencialmente distinto e com violência extrema. A crítica e o público o elegeram como um destaque, fazendo com que houvesse logo essa continuação. John Wick – Um novo dia para matar já começa apenas quatro dias depois dos acontecimentos do original, com o personagem indo atrás de seu Mustang 1969 totalmente escuro, que se encontra com Abram Tarasov (Peter Stormare), irmão dos principais antagonistas da primeira história.
Achando que voltou à tranquilidade, com um novo cão e a ajuda de Aurelio (John Leguizamo), para arrumar seu carro, John recebe a visita do italiano Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio), que lhe apresenta um medalhão que obrigaria John a lhe prestar serviços. No entanto, é o que ele menos quer: seu desejo é ficar recolhido em sua casa, recordando da esposa. O roteiro de Derek Kolstad tem a qualidade de apresentar os personagens com agilidade e, mesmo que não saibamos muito sobre eles, as principais características estão desenhadas e se pode focá-las com evidência.

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Winston (Ian McShane), que é o dono do hotel Continental em Nova York, onde o primeiro filme tinha cenas substanciais, lembra a Wick que ele não pode rejeitar o medalhão, pois senão estará colocando em risco sua figura no submundo. D’Antonio quer que Wick mate sua irmã Gianna (Claudia Gerini), em Roma, para que possa ingressar numa espécie de alto conselho da criminalidade. Ares (Ruby Rose) é uma guarda-costas de D’Antonio que segue o assassino profissional, e Cassian (Common) também segue em seu encalço, sem a princípio o espectador entender o motivo. Gianna é uma das personagens mais marcantes num filme de ação, apesar da breve presença, porque parece retratar todo o mistério desse submundo que persegue o personagem central, do qual ele não consegue se desvencilhar em nenhum momento, precisando estar sempre preparado para o combate. Gerini contribui com uma cena verdadeiramente impactante.
Desta vez, o diretor Chad Stahelski mostra um personagem envolvente e cenas de ação que parecem saídas de um filme de arthouse de ação. Se eu imaginasse um Wong Kar-Wai ou um Nicolas Winding Refn fazendo uma obra urbana com uma sequência impressionante de mortes seria esta (e Refn de certo modo já fez uma de forma mais simbólica, Apenas Deus perdoa, em que Stahelski busca claramente inspiração, principalmente no uso de cenários com neons). E, mais do que trazer uma influência de Johnnie To – uma referência para filmes de máfia oriental e que se liga a um certo exagero cênico –, John Wick – Um novo dia para matar parece envolver mais bom humor embutido na tragédia.

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Desde o início, quando o personagem sai com seu carro capenga do confronto com os inimigos, isso fica bastante claro, mas se acentua ainda mais na ida para Roma, onde vira uma espécie de perseguido pelas ruas. Há algo de engraçado e trágico, ao mesmo tempo, na figura do personagem central, e Keanu Reeves consegue desenvolvê-lo com rara perspicácia. As cenas são coreografadas de maneira espetacular e talvez aqui estejam algumas das melhores cenas de embate filmadas neste século.
O primeiro filme ficou conhecido como aquele em que um homem se vingava daqueles que mataram seu cão, e aqui John Wick parece estar mais associado a uma espécie de linhagem da qual não consegue se livrar e, ao contrário do original, cada cena segue outra com grande naturalidade.
E, naturalmente, surge uma aproximação com James Bond num encontro num museu de Wick com D’Agostino, que remete a uma conversa entre o agente inglês e Q (Ben Widshaw) em 007 – Operação Skyfall. Com isso, há uma tentativa de tornar o personagem praticamente invencível, uma espécie de Matrix.

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Não são poucas vezes que se lembra da trilogia das hoje irmãs Wachowski, não apenas porque Reeves está à frente em cada cena, e sim porque o jogo que se desenha por trás de sua presença perturbadora é bastante focada numa mitologia, embora aqui, claro, mais real, em locações de Roma. Também há uma longa sequência numa estação de trem que recorda tanto elementos de Brian De Palma em O pagamento final e Um tiro na noite, como, exatamente, Neo em Matrix reloaded e Matrix revolutions, quando ficava preso entre mundos diferentes.
Nisso, há uma espécie de lembrança da saga O poderoso chefão, com seu punhado de personagens envolvidos em tragédias passadas em escadarias. É natural, ao longo da narrativa, o jogo de espelhos do filme, pelo visual extraordinário, com um jogo de luzes primoroso, concedido por Dan Laustsen (que trabalhou para Del Toro no fantástico A colina escarlate), e pela maneira que o próprio personagem se vê, sempre preso dentro de si mesmo, do seu próprio labirinto. Reeves, ator que se sente muito bem nesses papéis, faz de maneira exata seu John Wick. Seu semblante entre a passividade e a fúria joga com o duplo que seu personagem desempenha: em nenhum momento o espectador se pergunta por que ele age dessa maneira; ele apenas se pergunta por que querem tanto que ele aja assim. Isso é um dos mistérios de John Wick e, pelo que se percebe, com sua recepção, dessa franquia.

John Wick – Chapter 2, EUA, 2017 Diretor: Chad Stahelski Elenco: Keanu Reeves, Common, Laurence Fishburne, Riccardo Scamarcio, Ruby Rose, John Leguizamo, Ian McShane, Bridget Moynahan, Lance Reddick, Thomas Sadoski, David Patrick Kelly, Peter Stormare Roteiro: Derek Kolstad Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Joel J. Richard, Tyler Bates Produção: Basil Iwanyk Duração: 110 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Lionsgate Films / PalmStar Media / Thunder Road Pictures

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LEGO Batman – O filme (2017)

Por André Dick

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Depois do grande sucesso de Uma aventura LEGO, tendo na direção a mesma dupla de Anjos da lei, Cristopher Miller e Phil Lord, nada mais esperado que o regresso desses personagens em formato de peças em outro projeto. Desta vez, em LEGO Batman – O filme, o diretor Chris McKay, cocriador de Uma aventura LEGO, reúne vários personagens do universo do vigilante de Gotham City.
O filme já inicia em alto movimento, com Batman (Will Arnett) tendo de enfrentar o Coringa (Zach Galifianakis), que pretende novamente destruir Gotham, mas quer, sobretudo, ouvir do seu rival que ele é importante em sua vida. Claro que as brincadeiras com o personagem se sucedem em ritmo de fazer inveja ao primeiro longa com as peças do Lego, e aqui vai ganhando acréscimos, com os personagens de Dick Grayson (Michael Cera), que se transformará em Robin, Barbara Gordon (Rosario Dawson) e seu mordomo Alfred (Ralph Fiennes).
Barbara está assumindo a polícia de Gotham no lugar do pai Jim (Héctor Elizondo) e se prepara uma grande festa para sua posse, na qual se desenham algumas diretrizes para a polícia local (e uma é que Batman não poderá mais ser tão importante). Na festa, aparecem o Coringa, Arlequina (Jenny Slate), Duas Caras (Billy Dee Williams) e outros criminosos, surpreendentemente se entregando. Tudo isso parece um plano evidente para colocar Batman em uma situação complicada, não mais do que seu conflito permanente com Superman (Channing Tatum) e um tanto afastado da Liga da Justiça.

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McKay brinca com as principais características do herói: sua mania de resolver as questões por conta própria, a vida solitária na mansão Wayne (onde há um cinema no qual o personagem assiste a um clássico filme de Tom Cruise) e a saudade dos pais. É destacada, no entanto, a sua constante necessidade de estar afastado de todos, o que rende algumas cenas muito divertidas. De certa maneira, é uma maneira hiperbólica de ver o personagem, e Will Arnett faz um trabalho primoroso de voz. O Robin, em segundo plano, é a figura mais divertida, pois Cera sabe compô-lo por meio da voz, seguida pela do Coringa, com um trabalho notável de Galifianakis, sem parecer exagerado ou deslocado mesmo no tempo e espaço de piadas que recebe em seus diálogos, que é substancial.
De modo geral, como Uma aventura LEGO, este filme se sente como uma homenagem a muitas obras, não apenas aos de Batman, como também a King Kong, O senhor dos anéis e Harry Potter, ou seja, franquias que se consolidaram ou tentam se consolidar da Warner Bros. Há uma metalinguagem a cada instante, uma gag escondida em cada quadro, e muitas funcionam graças ao roteiro ágil. Apenas quando o filme se encaminha para a ação, e ela não deixa de homenagear a série do herói dos anos 60, há uma certa intensidade apressada que poderia ser atenuada, como fizeram Lord e Miller ao final de Uma aventura LEGO. Há muita ação e feita de maneira tecnicamente impecável, mas nisso vem embutido um certo sentido de caos, que os diretores do primeiro filme conseguiam de certo modo evitar na transição de tempos diferentes e entrada e saída de personagens diferentes, compondo um universo menos específico, mas que aqui chega a ser cansativo.
É interessante como, de modo geral, a crítica resolveu adotar um certo discurso de que aqui os personagens do universo da DC funcionariam. Mais ainda: porque mostraria um Batman menos soturno.

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Isso certamente decorre da má recepção em geral de Batman vs Superman, no ano passado, e alguns cogitaram até se não seria melhor trocar atores pelas pecinhas de Lego. Por mais que se entenda a sátira e mesmo a aversão a alguns ao universo que está iniciando da DC nos cinemas, parece exagerado focalizar neste filme como uma referência capaz de rivalizar com as visões, por exemplo, de Burton, Nolan e Snyder.
É uma diversão infantojuvenil capaz de agradar ao público adulto, feita com esmero inabitual, com uma explosão de cores fantástica, mas, acima de tudo, é uma sátira com este personagem. Tentar reduzi-lo, por outro lado, a essa sátira é evitar, naturalmente, a graça que se possa fazer em cima de suas qualidades mais soturnas. Ou seja, parece haver um encanto artificial da crítica e dos espectadores de que este seria o tom certo a ser adotado para os filmes considerados mais sérios. Enquanto LEGO Batman se sente uma obra que se sustenta por si só, é irremediavelmente composta por referências que os personagens adquiriram em sua versão dramática, e a trilha sonora de Lorne Balfe mescla os trabalhos de Danny Elfman e Hans Zimmer e Junkie XL para compor uma com tom que dá ritmo às sequências.

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É bem verdade que as cores aqui estão mais próximas da visão que Joel Schumacher tentou trazer a este universo, com Batman eternamente, indicado ao Oscar de fotografia justamente pela contribuição de cores diversas. No entanto, LEGO Batman se movimenta sobre sentimentos reais, que não existiam no filme de Schumacher, mas se encontram em suas demais versões, inclusive na série lembrada aqui dos anos 60, com Adam West.
O roteiro, escrito nada mais nada menos do que a dez mãos (Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington), tenta reunir várias referências que são entendidas por todos ou apenas pelos fãs. Eles fizeram um bom trabalho, principalmente quando se entende que este é um universo realmente atrativo e conseguem, ainda, com outras referências, dialogar tanto com Esquadrão suicida quanto com o ainda a ser lançado Liga da Justiça, embora a longa-metragem evite o impacto que poderia ter, em razão do ato final que se estende além do tempo. Como os brinquedos da Lego, estamos lidando aqui com futuros lançamentos, independente de serem peças ou não do mesmo movimento. Divertido para alguns, para outros não, mas ainda com a tentativa de divertir.

The Lego Batman movie, EUA, 2017 Diretor: Chris McKay Elenco: Will Arnett, Zach Galifianakis, Michael Cera, Rosario Dawson, Ralph Fiennes, Mariah Carey, Jenny Slate, Billy Dee Williams, Héctor Elizondo, Conan O’Brien, Channing Tatum, Jonah Hill Roteiro: Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Dan Lin, Phil Lord, Cristopher Miller, Roy Lee Duração: 104 min. Distribuidora: Warner Bros. Pictures

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Um homem chamado Ove (2016)

Por André Dick

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Dirigido por Hannes Holm, Um homem chamado Ove foi indicado aos Oscars de melhor filme estrangeiro, pela Suécia, e melhor maquiagem e cabelo. Ele acompanha a vida de Ove (Rolf Lassgård), de 59 anos, que atua como líder de um bairro fechado, tentando impor regras intransferíveis, e sofre demissão do emprego, alguns meses depois de perder a sua esposa. Abalado, ele quer se matar e, para isso, compra uma corda, que tenta pendurar no teto de sua sala. Este início lembra muito As confissões de Schmidt, de Alexander Payne, e são raros os filmes que tratam da terceira idade de maneira realmente vigorosa.
Certo dia, chegam ao local Parvaneh (Bahar Pars), que está grávida, acompanhada de seu marido, Patrick (Patrik Tobias Almborg), e suas duas filhas (Nelly Jamarani e Zozan Akgün). Ao derrubarem a caixa postal de Ove com o carro, eles arranjam a princípio um incômodo, pois o que mais o vizinho faz é gritar para os que tentam andar de carro nas redondezas; em seguida, essas mesmas pessoas poderão fazer parte de uma mudança. Ove, em cada tentativa de suicídio, lembra de dias passados, seja na infância (Viktor Baagøe), quando tem uma relação concreta com o pai (Stefan Gödicke), um ferroviário, seja na juventude (quando é interpretado por Filip Berg) e conhece Sonja (Ida Engvoll), justamente num trem.

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Este filme de Hannes Holm é baseado num best-seller de Fredrik Backman e trabalha com temas distintos a cada passagem: Ove em sua idade mais velha é ranzinza, enquanto jovem era inseguro, e Sonja é a representação do que melhor lhe aconteceu. Holm conta essa história com flahbacks sem cansar, apesar de algumas cenas mal encaixadas (a ida ao hospital, por exemplo). Suas lembranças costuram a narrativa de maneira interessante, pois são desenvolvidas de maneira a contrapor duas versões de épocas diferentes da mesma pessoa. Há uma certa atmosfera buscada em Cloud Atlas, principalmente da história que foca um editor de livros que acaba parando num asilo e relembra de uma antiga amante – inclusive o trabalho com cores é o mesmo. Mais interessantes ainda são suas relações com Parvaneh, iraniana, quando resolve lhe oferecer algumas aulas de direção, Jimmy (Klas Wiljergård), que sempre está atrás dele sorridente, mesmo sendo menosprezado, e Rune (Börje Lundberg), um amigo do qual se afastou porque teria comprado algo que o deixou enciumado. É Parvaneh que, afinal, o aproxima novamente de uma vida real, e passa a ser emocionante a cena em que ambos vão a uma cafeteria.

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O mais interessante em Um homem chamado Ove não é apenas o elenco excelente, a começar por Rolf Lassgård, extremamente bem maquiado para aparentar mais idade, mas também a fotografia encantadora de Göran Hallberg, situando o personagem quase num universo irreal, em que tudo aparenta ser simétrico, como as casas de um bairro em que é preciso manter todos longe da corrida de um carro, o que acaba lhe rendendo um adversário inconveniente. Para complicar as coisas que devem ser simétricas e no horário certo, Ove se depara com um gato que passa a andar às voltas de sua casa. Todas essas manias do personagem parecem decorrer exatamente dos milésimos de segundo que transformam sua vida em duas situações que o diretor mostra com clareza: ou seja, sua mania em coibir a pressa das pessoas está justamente ligada a acontecimentos pontuais marcados por veículos que o atormentam. Dessa maneira, parece que o personagem não apenas responde por sua própria complexidade, como também pelo passado dos demais que o cercam e, igualmente, acabam por enredá-lo num mesmo lugar. Outros objetos, a exemplo da bicicleta, também são sintomáticos desse apego do personagem ao passado, assim como de sua obsessão pela marca de carros.

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O filme tem todos os elementos dramáticos para ser chamado de manipulador e possui algumas mudanças de tom mais abruptas e deslocadas, mas ele consegue conservar um sentimento especial pelos personagens e por breves aparições de uma juventude que se foi ou uma infância guardada como algo longínquo e é tão permanente quanto as coisas que realmente oferecem segurança. Ove é um personagem que se situa entre extremos, e nenhum deles é mostrado com aspecto desagradável, muito por causa da atuação realmente excelente de seu ator, capaz de desenhar nuances inesperadas mesmo dentro daquilo que já se espera dele. A lembrança dele de sua esposa e as idas recorrentes ao cemitério para visitá-la em sua sepultura costuram uma narrativa que poderia redundar num drama trágico quando parece trazer muito mais um reencontro com uma possibilidade de mudança. Pode ser visto como apelativo e previsível, por outro lado é simples e emociona.

En man som hetter Ove, SUE, 2016 Diretor: Hannes Holm Elenco: Rolf Lassgård, Filip Berg, Ida Engvoll, Bahar Pars, Tobias Almborg, Klas Wiljergård, Chatarina Larsson, Börje Lundberg, Stefan Gödicke, Anna-Lena Bergelin, Simeon Lindgren, Maja Rung, Fredrik Evers, Poyan Kamiri Roteiro: Fredrik Backman, Hannes Holm Fotografia: Göran Hallberg Trilha Sonora: Gaute Storaas Produção: Annica Bellander, Nicklas Wikström Nicastro Duração: 116 min. Estúdio: Tre Vänner Produktion AB

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Lion – Uma jornada para casa (2016)

Por André Dick

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Este parecia ser, antes das indicações ao Oscar saírem, o filme que mais tinha iscas para o prêmio, pela comoção de mostrar um drama a partir da infância. Não à toa. Ele apresenta a trajetória de uma criança indiana, Saroo (o excepcional Sunny Pawar, numa atuação que lembra a de Jacob Tremblay em O quarto de Jack, pela naturalidade e competência), que se perde do seu irmão Guddu (Abhishek Bharate) depois de ficar numa estação de trem e embarcar num vagão que o leva para longe de casa, Madhya Pradesh, inclusive da sua mãe Kamla Munshi (Priyanka Bose). O início de Lion é realizado em movimento contínuo, como se estivesse acontecendo uma verdadeira transformação na vida desse indivíduo: a infância que tinha, com problemas ou não, está ficando para trás na velocidade de um trem sobre trilhos, e o espectador é levado junto.
Perdido, ele acaba se transformando num menino de rua, tentando escapar de pessoas que raptam crianças à noite na estação do trem, o que rende algumas sequências de tensão. Este início de filme pode remeter a Pixote – A lei do mais fraco, de Babenco, pela situação em que Saroo se encontra e a maneira como o espectador se angustia. Mas, se em Babenco a história é mais crua, em Lion tudo parece ser levado a uma alternativa. Depois de enfrentar uma situação ainda mais delicada, quando o espectador é levado a crer que ele não percebe o meio em que se encontra, ele é encaminhado para um reformatório de Calcutá, havendo a tentativa de reencontrar sua família.

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No entanto, ele é adotado por um casal australiano, Sue (Nicole Kidman) e John Brierley (David Wenham), assim como Mantosh (o ótimo Divian Ladwa). O diretor Garth Davis, com o apoio de uma fotografia exuberante de Greig Fraser (com elementos que já mostrava em A hora mais escura, como tomadas noturnas e diurnas captando o movimento ou isolamento de cenários), mostra a solidão de um indivíduo desde a infância, e quando ele cresce e vira Dev Patel a intensidade aumenta, pois se trata da grande atuação de sua carreira. Sua relação com a namorada Lucy (Rooney Mara, como sempre agradável e convincente) é autêntica, assim como com a mãe adotiva, em bela atuação, apesar de breve, de Nicole Kidman.
Todo o filme possui uma atmosfera situada entre a insegurança a que o personagem central é conduzido e a beleza de se ter uma nova oportunidade, de reencontrar pessoas que podem ter ficado num passado longínquo. A Calcutá com uma população enorme, que deixa as ruas abarrotadas, é um contraponto à costa australiana, onde o mar afasta o personagem de seu lugar de origem, assim como de agrupamentos. Saroo frequenta apenas alguns grupos de colegas, e isso parece deslocá-lo da realidade em que se encontra, pois não consegue se afastar das ruas pelas quais peregrinou.

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Sua tentativa inicialmente de se integrar vai, aos poucos, o afastando, fazendo com que fique distante de festas e encontros familiares. É como se cada vez mais que se intensificasse certa tranquilidade e alegria em seus afazeres mais ele despertasse para o fato de que, afinal, há familiares em outra parte do mundo certamente querendo saber do seu paradeiro.
É neste ponto que se acentua o conflito entre o que sente pela mãe verdadeira e pela mãe adotiva. E, quando se acentua a procura, o passado vai se infiltrando não apenas por meio das lembranças, como por meio de caminhadas, gestos e olhares, como se o personagem trouxesse dois dentro dele, divididos e juntos, distantes e próximos, compondo uma série de sensações por meio de imagens muitas vezes poéticas. O diretor atinge emoção por meio de imagens bastante objetivas, sem um excesso de camadas, mas que acabam dialogando com o espectador de modo a vê-las como parte de um grande mosaico destinado a compor o personagem central, assim como ele vai encaixando as informações que precisa num grande quadro, em que peças que lembram o colorido da infância se confundem com mapas que o levam a uma jornada mais interna do que externa.

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Isso porque, para o diretor, a jornada aqui é principalmente subjetiva. Uma das qualidades de Davis é também não rotular a cultura indiana como estamos acostumados a ver em outros filmes e programas de TV, não tentando vislumbrá-la sob um ponto de vista exótico ou excêntrico, como vemos, aliás, em outros filmes com Patel, Quem quer ser um milionário? e O exótico Hotel Marigold. Este é uma espécie de As aventuras de Pi localizado em centros urbanos, mas cuja lógica de mudança interna é repassada a todo instante para o personagem central. Como toda obra dividida em duas partes distintas, há alguns espectadores que irão preferir a primeira e outros a segunda. Particularmente, impressiona como Patel consegue replicar a densidade do olhar de Sunny Pawar: quando o vemos, identificamos claramente tudo aquilo que ele teria passado no início do filme. Um dos momentos mais tocantes, nesse sentido, é quando Saroo está esperando seu irmão adotivo acordar: para ele, este irmão que não desejaria é aquele que mais o leva de volta às ruas indianas das quais só saiu para ter uma oportunidade.
Pode-se apontar que Lion tem todos os elementos de um filme para o Oscar, inclusive uma mensagem edificante. Neste filme, ela não soa simplesmente forçada: é realmente bela, graças, particularmente, ao sentimento de angústia transmitido por Patel. Embora o roteiro se demore em alguns momentos ao final (privilegiando certos meios de busca), Lion tem um coração real.

Lion, AUS, 2016 Diretor: Garth Davis Elenco:Dev Patel, Rooney Mara, Nicole Kidman, David Wenham, Sunny Pawar, Divian Ladwa, Abhishek Bharate, Priyanka Bose Roteiro: Luke Davies Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Dustin O’Halloran, Volker Bertelmann Produção: Angie Fielder, Iain Canning Duração: 118 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Aquarius Films / Screen Australia / See-Saw Films / Sunstar Entertainment

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Aliados (2016)

Por André Dick

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Depois de apostar em animações na década passada, como Beowulf, O expresso polar e Os fantasmas de Scrooge, Robert Zemeckis vai aos poucos regressando aos filmes com atores: primeiro, foi O voo, com uma atuação notável de Denzel Washington, o segundo A travessia, apresentando Joseph Gordon-Levitt num papel curioso, e agora Aliados. Zemeckis foi uma das grandes descobertas de Steven Spielberg. Revelado no divertido Febre da juventude, sobre um grupo de jovens que tentava chegar aos Beatles antes de eles se apresentarem num programa dos Estados Unidos, Zemeckis coescreveu 1941 e realizou algumas pérolas dos anos 80, a exemplo de Tudo por uma esmeralda, De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, esses dois últimos produzidos por Spielberg. Nos anos 90, completou a trilogia de De volta para o futuro e dirigiu Forrest Gump, que lhe deu os Oscars de melhor filme e direção, além da já clássica ficção científica Contato, tendo Jodie Foster e Matthew McConaughey à frente do elenco. Ainda na virada do século ele realizou uma das melhores obras com Tom Hanks, Náufrago.
Baseado num roteiro de Steven Knight, Zemeckis mostra o encontro na Segunda Guerra Mundial de um oficial da inteligência canadense Max Vatan (Brad Pitt) e a integrante da Resistência Francesa Marianne Beausejour (Marion Cotillard). Eles viajam para Casablanca, no Marrocos, a fim de empreenderem uma missão contra nazistas. Isso porque Marianne tem contatos com os alemães e faz com que ambos possam ingressar num determinado local.

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Ambos se mostram interessados em serem verdadeiramente um casal, também para disfarce, principalmente por parte de Marianne. A aproximação surge aos poucos, embora a princípio Max queira se concentrar apenas nas suas tarefas como espião, e uma tempestade no deserto é vista como o ponto de conciliação entre duas pessoas solitárias. Já envolvido, ele passa a desconfiar que Marianne pode ser uma espiã da Alemanha. Os seus superiores, principalmente Frank Heslop (Jared Harris) e um oficial da SOE (Simon McBurney), passam a querer que ele faça testes a fim de provar isso, e o filme segue a linha de um thriller de espionagem com toques de romance.
Max entra em contato com alguns homens, Guy Sangster (Matthew Goode), e um piloto chamado George Kavanagh (Daniel Betts), a fim de descobrir se ela de fato pode não ser a pessoa que diz que é. Sua única familiar a dividir seus receios é a irmã Bridget (Lizzy Caplan, subaproveitada) e, a partir desse ponto, Aliados se mostra como a construção de um homem acuado por um futuro que terá de construir em desconfiança. Nesse sentido, Cotillard constrói uma Marianne de maneira interessante: se, por um lado, sabemos que ela tem um preparo para o combate, ela se mostra vulnerável na maioria das vezes. O espectador, porém, não tem certeza se ela é uma pessoa que pode prejudicar ou não Max e viver uma vida tranquila com ele.

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A narrativa simples trata, na verdade, do enigma de estar apaixonado por alguém que verdadeiramente não se conhece, o que rende, por parte do roteiro, sequências em que o personagem de Pitt se sente realmente conturbado. É interessante como ele em nenhum momento se sente disponibilizado às tarefas que precisa efetuar e, nesse sentido, a possível vida tranquila que poderia ter com Marianne representa o reencontro com suas próprias origens longe da carreira que empreendeu. Os símbolos que Zemeckis distribui ao longo da história remetem algumas vezes a outras obras, como Império do sol e Ponte dos espiões, ambos de Spielberg, principalmente na empatia melancólica que os personagens centrais despertam – longe de qualquer manifestação de êxito, esses são personagens que procuram apenas o sossego em meio ao eclipse humano de uma Guerra Mundial.
Até certo ponto, parece que Zemeckis deseja oferecer uma versão romântica da Segunda Guerra Mundial – e as batalhas aéreas que ele filma lembram sobretudo as de Esperança e glória, dos anos 80 – quando, na verdade, está mostrando como esta faceta pode ser colocada em dúvida ou mesmo corrompida quando não existe num ambiente capaz de mantê-la.

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A química entre Pitt e Cotillard só perde em destaque para a fotografia brilhante de Don Burgess e para a reconstituição de época detalhista. Existe aqui, no mote da história de Knight, autor de roteiros como o de Senhores do crime, de Cronenberg, não apenas uma clara homenagem ao clássico Casablanca, como referências a O céu que nos protege e Bastardos inglórios. Como nesses filmes – o de Bertolucci mostra especificamente um casal em crise numa viagem pelo Saara depois da Segunda Guerra Mundial –, os personagens são enigmáticos, e não se sabe muito bem qual o posicionamento de cada um. O clima é de uma peça europeia, bem mais lento do que normalmente um filme norte-americano costuma ser, com revelações sendo feitas aos poucos, sem nenhuma pressa. Possivelmente faltam alguns elementos: a narrativa não desenvolve os personagens centrais de maneira que o espectador possa se interessar mais por eles, e algumas soluções soam excessivamente fáceis. De qualquer modo, esta é uma história com reais atrativos e que Zemeckis entrega ao espectador com sua competência habitual de artesão.

Allied, EUA, 2016 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Brad Pitt, Marion Cotillard, Jared Harris, Matthew Goode, Lizzy Caplan,Simon McBurney Roteiro: Steven Knight Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Graham King, Robert Zemeckis, Steve Starkey Duração: 124 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: GK Films / Paramount Pictures

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