Edward mãos de tesoura (1990)

Por André Dick

Este filme é exemplo da importante contribuição de Tim Burton para o cinema, não apenas por trazer um novo estilo narrativo, em que os cenários representam as características dos personagens, mas porque consegue equilibrar sempre o elenco com uma história fabulosa. Foi assim em Os fantasmas se divertem – em que Michael Keaton era um fantasma que aterrorizava humanos –, em Batman – os cenários de Gotham City representavam a personalidade do herói – e do mesmo jeito em Edward mãos de tesoura, uma mistura de Pinóquio, O patinho feio, A bela e a fera, Batman e Os fantasmas se divertem.
Um dos melhores filmes de humor negro já feitos, este último marca o talento inicial de Tim Burton, que antes havia feito os curtas Vincent e Frankenweenie e o longa As grandes aventuras de Pee-Wee. Continua sendo seu filme mais autoral, com uma cenografia de quadrinhos, efeitos estilizados e uma maquiagem impecável, mostrando o fantasma Beetlejuice (Michael Keaton), que ajuda um casal de mortos (Alec Baldwin e Geena Davis) a tirar uma família intelectual da casa onde moravam, na nova Inglaterra. Ou seja, mesmo mortos, continuam a habitá-la. Nessa família, no entanto, há uma menina (Winona Ryder) que faz amizade com eles.

É quase um Os caça-fantasmas às avessas, sendo que a melhor piada talvez seja aquela em que a família e seus convidados são obrigados a dançar calipso. Talvez o roteiro seja irregular, assim como os atores, contudo a direção de arte é impressionante, assim como o figurino de Aggie Rodgers e a trilha de Danny Elfman, que dá o tom certo. Para um filme em que personagens deslocados se mostram tão presentes, não é de se estranhar que Burton tenha sido convidado para fazer o primeiro Batman e tenha criado Edward – assim como inseriu Pee Wee numa espécie de Disneylândia pessoal, com sua profusão de cores e invenções cotidianas.
Edward (Johnny Depp) é uma criação do cientista que o deixou num castelo abandonado, tendo morrido antes de conceder-lhe mãos humanas (feito por Vincent Price). Descoberto por uma vendedora de cosméticos Avon, Peg Boggs (Dianne Wiest), cuja procura por clientes é assídua, sem contrapartida, ele é levado para a cidade, ou uma espécie de fragmento de subúrbio dos Estados Unidos, com casas pintadas de diferentes cores, como se separadas do ambiente gótico do castelo, quando, na verdade, parecem ser o seu complemento.

Bem recebido pela família dela, o marido Bill (Alan Arkin) e o filho Kevin (Robert Olivieri), apesar de suas mãos pouco comuns e o rosto com cicatrizes, escondidas por uma branca maquiagem, Edward se apaixona pela filha da vendedora, Kim (Winona Ryder), que fica dividida entre ele e seu namorado, Jim (Anthony Michael Hall). As coisas se complicam quando Edward passa a ser visto até como uma espécie de fetiche por algumas vizinhas da região, de forma mais destacada uma cabeleireira, Joyce (Kathy Baker) e Helen (Conchata Ferrell) e, depois de começar a ser conhecido, envolve-se em problemas juvenis.
O roteiro, escrito pelo diretor e Caroline Thompson, tem raros momentos soltos, ligando as pontas de maneira clara. Burton lida com o roteiro de uma maneira que só havia conseguido em Batman e só conseguiria repetir com semelhante êxito em A lenda do cavaleiro sem cabeça, e consegue um elenco à altura. Johnny Deep transforma Edward numa referência para sua trajetória (embora também no sentido menos adequado, às vezes se encaixando num estereótipo de estranheza), Dianne Wiest é com competência sua mãe adotiva e Winona Ryder se encaixa bem no papel de adolescente apaixonada, no início de uma década em que se destacaria. Entre os coadjuvantes, Alan Arkin aparece pouco, como Bill, casado com Peg, mas Kathy Baker está ótima como a cabelereira que manifesta interesse por Edward.

Burton utiliza uma fórmula quase gasta em passagens de apelo, mostrando uma sociedade vazia e multicolorida, como um modelo autossustentável dos anos 80, em contraste com a escuridão do início dos anos 90. Para isso, os cenários de Bo Welch e os figurinos de Collenn Atwood (parceira habitual de seus trabalhos) são essenciais, sobretudo o castelo abandonado, um primor de concepção, cheio de máquinas e plantas no jardim em formato de animais, em cenários que dialogam ainda mais com As grandes aventuras de Pee-Wee, sua estreia. Trata-se, sem dúvida, de uma fábula, bastante parecida com seu primeiro curta-metragem (que viraria longa) Frankenweenie, em que Edward é uma espécie de Frankenstein contemporâneo. De certo modo, também Edward é uma reprodução excêntrica de Bruce Wayne, e Burton havia feito Batman um ano antes para a Warner.
Nesse sentido, Burton sempre coloca seus personagens numa posição à margem, como se estivessem ilhados, sem saída. Aqueles que o cercam o principal muitas vezes querem ajudá-lo, porém em Edward mãos de tesoura essa ajuda é menos efetiva, a partir de determinado ponto. O filme de Burton, basicamente, traz uma melancolia que nenhum outro dele possui, mesmo quando pareça ter, a exemplo do superestimado Peixe grande. Além da ausência de família, característica em Edward e Bruce Wayne, do Ichabord Crane de A lenda do cavaleiro sem cabeça, ou do Barnabas de Sombras da noite, Edward mãos de tesoura coloca os símbolos de uma fábula em jogo: Kim e Jim só se diferenciam, a princípio, por uma letra, mas suas decisões tomam o rumo diferente diante de uma situação-limite, embora seja Edward que vai entender, afinal, o cão caminhando pela calçada, embora não entenda o comportamento desgovernado dos habitantes deste subúrbio tipicamente americano, em que suas tesouras servem, em determinado momento, para assar pedaços de carne para a vizinhança.

Há uma espécie de onirismo nas imagens do filme de Burton que não nos permite definir exatamente esses personagens, mesmo que eles pareçam resultado de alguma fábula, pois justamente há essa solidão presente em cada passo que Edward dá (como a primeira refeição em família) e que inspiraria outras obras referenciais, como O fabuloso destino de Amélie Poulain. Edward não é simplesmente à parte do comum, mas uma representação dessas figuras que o cercam ao longo da narrativa, com todos os seus conflitos e sentido de ausência no universo. Educado com zelo por um cientista, ele pode, no entanto, ser tão perseguido e visto como uma ameaça quanto o Coringa de Nicholson. Para Burton, não há um linha definida entre as expectativas referentes a um ser humano e o encantamento por uma novidade que logo pode se converter em rotina. Burton consegue transformar Edward num personagem de notável significado quando justamente coloca a fantasia dentro da rotina: quando vemos o filme, e chegamos ao triste e melancólico teor de uma fábula, estamos diante da obra de um artista.

Edward scissorhands, EUA, 1990 Diretor: Tim Burton Elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Alan Arkin, Anthony Michael Hall, Kathy Baker, Robert Oliveri, Vincent Price Roteiro: Caroline Thompson, Tim Burton Fotografia: Stefan Czapsky Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Denise Di Novi, Tim Burton Duração: 105 min. Estúdio: Twentieth Century Fox Film Corporation

Dumbo (2019)

Por André Dick

A adaptação de Dumbo em live-action segue o cronograma dos estúdios Disney de adaptações com atores ou cenários repletos de CGI das animações clássicas do estúdio. Nos últimos anos, tivemos vários sucessos nesse campo: Malévola, Cinderela, Mogli – O menino lobo, A bela e a fera e neste ano ainda serão lançados Aladdin e O rei leão. Baseado no original de 1941, um dos filmes prediletos de Walt Disney, a nova versão é dirigida por Tim Burton.
O filme começa mostrando Holt Farrier (Colin Farrell), que está voltando da Primeira Guerra Mundial para o circo Medici Bros, coordenado por Max Medici (Danny DeVito). Ele é pai viúvo de Milly (Nico Parker) e Joe (Finley Robbins) e, tendo vindo da guerra sem um braço, é contratado para cuidar de um elefante recém-nascido, com grandes orelhas, o que o torna excêntrico, chamado Dumbo. Isso desperta o interessa de um grande empresário, VA Vandevere (Michael Keaton), que deseja comprar o circo de Medici para obter a atração e levá-la para Dreamland (um equivalente de Tomorrowland), sempre ao lado de Colette Marchant (Eva Green), uma trapezista da França.

Surge também J. Griffin Remington (Alan Arkin), um grande magnata de Wall Street. O original dos anos 40 ainda se mantém como uma animação de qualidade primorosa, mas, como alguns clássicos da Disney, se sente estranhamente incompleto. Essa é a dificuldade que Burton tem, em primeiro lugar: Dumbo não comporta uma história com muitos caminhos, sendo essencialmente a história de um filhote de elefante afastado da mãe, no original com econômicos 64 minutos (pouco menos da metade da sua versão com humanos). Isso estabelece uma emoção que é captada às vezes no original, no entanto nunca trabalhada exemplarmente, como se repete aqui. E Burton se arrisca a criar camadas de diferentes personagens, o que não havia no original, restrito quase totalmente à visão do mundo dos animais (e não há aqui, especialmente, o ratinho amigo de Dumbo) e faz algumas referências curiosas a Santa Sangre, de Jodorowsky, com o auxílio do roteiro de Ehren Kruger, que escreveu Os irmãos Grimm, por exemplo.
Com a fotografia de Ben Davis, que fez trabalhos ótimos em Guardiões da galáxia e Três anúncios para um crime, substituindo Bruno Delbonnel, parceiro de Burton em suas últimas empreitadas, o ótimo e subestimado Sombras da noite e o delicado O lar das crianças peculiares, e a trilha sonora de Danny Elfman, tentando inovar nos acordes, com eficácia, Burton realiza o que pode com o material: Dumbo é uma fantasia com elementos emotivos e de valorização da família, com um personagem marginalizado, como é de praxe na trajetória do diretor, de Batman a Ed Wood e de Edward, mãos de tesoura a Willy Wonka.

Mais: Burton consegue, por meio da figura de Marchant, criar um vínculo materno não apenas dela com as crianças de Farrier, como também com o próprio Dumbo. É Eva Green, possivelmente, o melhor elo de ligação da história com o espectador, embora Farrell também esteja bem e Keaton e DeVito bastante efetivos – principalmente Keaton, parecendo interpretar Will Arnett, de Arrested development. No caso do personagem de Medici, não há como não lembrar de outra participação de DeVito na filmografia de Burton, em Peixe grande e suas histórias maravilhosas, que contém imagens expandidas aqui, sobretudo por causa da imagem do circo no imaginário.
É possível perceber, desde a imagem do trem no início, toda a carga de estilo de Burton, que leva seu filme para pontos familiares do espectador, e fazem lembrar, sobretudo, A fantástica fábrica de chocolate (a imponência de Dreamland), no entanto inicialmente o cineasta está tentando dialogar com o cinema dos anos 40, com referências a Buck Jones por meio de Holt Farrier – ambos passaram por ferimentos na guerra. Também é interessante como Burton consegue criar uma atmosfera inovadora em seu projeto utilizando uma fotografia com cores de pôr do sol, o que remete, em determinado momento, a Cinzas do paraíso, de Terrence Malick, influenciado claramente pelas pinturas de Edward Hopper. A partir do segundo ato, ele, por meio da grandiosidade, retoma um design de produção vital de Rick Heinrichs, que remete a seus projetos desde Batman – O retorno, e Vandere lembra em parte Max Schreck, vilão daquela obra. E, se há algo que aprendemos com a filmografia de Burton, é que não se pode dissociar a narrativa que ele conta da maneira como a conta: fazer isso é simplesmente subvalorizar seu olhar atento para a captura de imagens inesquecíveis, como aquelas dos animais solitários à noite, numa selva enjaulada, em contraposição a outro momento do roteiro.

Se o desenho animado dos anos 40 é muito mais ingênuo e baseado em trapalhadas dos elefantes, assim como se utiliza deles falando, a versão de Burton, como parte de sua trajetória, é mais soturna. Mais ao final, quando os personagens infelizmente ficam em segundo plano, prejudicando Farrell e Green, fica exposta essa grande diferença. O discurso de crítica contra o corporativismo soa quase sempre estranhíssimo num filme dos estúdios Disney (num momento em que compram a Fox), no entanto está de acordo com seus projetos anteriores. Aliás, é curioso que Burton, que saiu da Disney para seguir seu caminho particular nos anos 80 (com Frankenweenie e As aventuras de Pee-Wee), tenha se voltado, desde Alice no país das maravilhas, a conversar com esse imaginário e mesmo a reproduzi-lo para novas gerações. A sua diferença é basicamente autoral: quando vemos Dumbo, sabemos estar diante de uma obra de Burton. De algum modo, mesmo que não pareça, ele nunca coloca seu universo definitivamente à venda. É curioso que neste caso ele lembre essencialmente o criador da Disney.

Dumbo, EUA, 2019 Diretor: Tim Burton Elenco: Colin Farrell, Michael Keaton, Danny DeVito, Eva Green, Alan Arkin, Nico Parker, Finley Robbins Roteiro: Ehren Kruger Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Justin Springer, Ehren Kruger, Katterli Frauenfelder, Derek Frey Duração: 112 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Tim Burton Productions, Infinite Detective Productions, Secret Machine Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

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Batman – O retorno (1992)

Por André Dick

Esta continuação fez maior sucesso do que o primeiro, de forma surpreendente, pois é um filme tematicamente mais ousado, embora perca levemente seu misto entre o lado cartunesco do Coringa de Jack Nicholson e a direção de arte intensamente soturna de Anton Furst (vencedora do Oscar). Tim Burton havia gostado muito do roteiro original de Daniel Waters, autor um ano antes do ambicioso Hudson Hawk, com Bruce Willis, que homenageia a época do expressionismo alemão, tanto nos cenários quanto na figura dos personagens (Max Schreck, o nome do vilão feito de maneira hábil por Christopher Walken, é o mesmo do antigo ator que fez Nosferatu, em 1922) e ainda explica o surgimento de novos vilões: o Pinguim e a Mulher-Gato. Como trama, o roteiro de Waters não convence, mas quanto aos diálogos há um surpreendente jogo de questões explorando a dupla personalidade dos personagens centrais.
A história se passa durante o Natal, 33 anos depois que o casal Cobblepot (Paul Reubens e e Diane Salinger) jogou seu filho defeituoso nos esgotos de Gotham City, depois de um início que remete a O milagre de Anne Sullivan, dos anos 60. A cidade está assustada com o Homem Pinguim (Danny DeVito), que vive junto a pinguins no subsolo do zoológico municipal.

Ajudado por Max Schreck, ele volta à sociedade, com a vontade de se tornar um cidadão comum, mas sempre atormentado por ter sido abandonado pelos pais. Acaba se transformando em candidato a prefeito, tendo por trás a Red Triangle Gang, uma trupe de figuras saídas de algum circo desvirtuado, e desafia Batman (a persona heroica do milionário Bruce Wayne, interpretado por Michael Keaton) a enfrentá-lo. No entanto, sua obsessão pelo abandono o leva a planejar uma determinada captura, envolvendo também Charles “Chip” Shreck (Andrew Bryniarski).
Enquanto isso, surge a Mulher-Gato da pele da secretária de Schreck, Selina Kyle (Michelle Pfeiffer, que voltaria a trabalhar com o diretor em Sombras da noite), que mora num apartamento com inúmeros gatos, em meio a neons que servem como jogo de palavras, e se mantém informada dos negócios de seu chefe. Com problemas de relacionamento, ela se modifica completamente depois de um acontecimento e passa a namorar Bruce Wayne, sem nenhum deles saber quem é, na verdade, o outro. Este envolvimento dará origem a novos conflitos irremediáveis.

Se, de um lado, os personagens procuram conviver e Wayne continue a ver um pai em Alfred (Michael Gough), por outro, as explosões e os efeitos especiais se sucedem em ritmo vertiginoso, a violência é explícita (como a cena em que o vilão, uma espécie de Edward mãos de tesoura perverso, quase arranca o nariz de um publicitário, ou quando a Mulher-Gato rasga a pele de assaltantes) e batalhões de pinguins fazem um desempenho incrível numa produção sofisticada – sobretudo de excelentes cenários. Burton tinha em mente não repetir o primeiro Batman, e realmente o fez.
O visual de Bo Welch é brilhante, com referências a Nosferatu, O corcunda de Notre-Dame, A noiva de Frankenstein O patinho feio, enquanto a atmosfera é melancólica, lembrando, assim, o período vitoriano e expressionista, em diálogo com os personagens (o Pinguim e a Mulher-Gato são pessoas abandonadas, que querem enlouquecer a cidade; a sequência em que o vilão voa com seu guarda-chuva, enquanto Batman e a Mulher-Gato se enfrentam pelos telhados da cidade é uma das mais bem solucionadas dentro das pretensões do diretor). Nesse sentido, o estilo de Burton permanece intacto, com direito a outras cenas originais: a grandiosa invasão dos pinguins nas ruas de Gotham City, por exemplo; a explosão durante a festa de Schreck. Há uma prevalência de fantasia nas imagens aqui do que na trilogia de Nolan, fazendo persistir na memória muitas sequências interessantes. Com isso, a fotografia de Stefan Czapsky explora Gotham City como uma sucessão de ruelas abafadas por edifícios imensos, e as perspectivas de filmagem remetem ao expressionismo e a uma espécie de pesadelo kafkiano.

É um filme de ação, por vezes, pesado e triste e a direção de Burton é sempre melhor do que a narrativa (que em muitos momentos cansa, pois não dosa as peças direito), procurando a estranheza dos personagens e os problemas psicológicos de cada um, com referências à psicologia de Freud, Jung e Lacan, não necessariamente nessa ordem. Todos possuem não apenas uma face dupla, como um duplo comportamento, não interagindo de maneira previsível em meio aos diferentes rumos de narrativa. Talvez Kyle seja a melhor personagem, pois se confronta com uma vida tediosa e, depois da transformação, com a descoberta de uma sexualidade que, de forma completa, a torna rejeitada. Trata-se de um filme que antecipa elementos, por exemplo, empregados por Burton em A lenda do cavaleiro sem cabeça, com seu clima vitoriano e brumas de uma fábula. Não é um filme para crianças portanto, já que as atuações de Michelle e Danny DeVito às vezes assustam, sendo, no mesmo sentido, bastante eficazes, principalmente a dela. Mais espetacular, barulhento e “filme de autor” do que o primeiro, e ainda assim inferior, Batman – O retorno, mesmo assim, é visualmente uma das melhores produções de super-heróis já feitas, de profunda influência nas obras atuais do gênero e um símbolo de que um blockbuster pode flertar realmente com ideias originais e com a história do cinema.

Batman returns, EUA, 1992 Diretor: Tim Burton Elenco: Michael Keaton, Danny DeVito, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Michael Gough, Pat Hingle Michael Murphy Roteiro: Daniel Waters Fotografia: Stefan Czapsky Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Denise Di Novi, Tim Burton Duração: 126 min. Estúdio: Warner Bros. Distribuidora: Warner Bros.

O lar das crianças peculiares (2016)

Por André Dick

o-lar-das-criancas-peculiares-5Faz dois anos que Tim Burton tentou seguir um novo caminho em sua trajetória, com Grandes olhos, logo após o fracasso de crítica e público do subestimado Sombras da noite, um de seus melhores filmes. Eles eram antecedidos pelo grande sucesso de público Alice no país das maravilhas, um dos filmes estranhamente mais impessoais do diretor, mesmo com sua carga estilística. Agora, com O lar das crianças peculiares, baseado no romance de Ransom Riggs, ele tenta mesclar os dois caminhos: um de temática mais adulta e outro de fantasia proeminente, o que já víamos, por exemplo, no aparentemente infantil A fantástica fábrica de chocolate, com seu humor corrosivo. Depois de anos, de artista respeitado por seus atrevimentos Burton passou a ser visto sempre numa zona de conforto, quando na verdade expandiu seu estilo para outros campos – e podemos ver em Sombras da noite, principalmente, um desenho dos anos 1970 de Amargo pesadelo cercado de um inevitável bom humor.
Um adolescente, Jacob/Jake Portman (Asa Butterfield), acompanhado de sua supervisora Shelly (O-Lan Jones), encontra seu avô, Abrãao “Abe” Portman (Terence Stamp), numa situação difícil e, a partir de uma estranha aparição, lembra das histórias que ele contava sobre lutas contras monstros e um lar da senhora Peregrine para crianças peculiares, localizado na costa do País de Gales. Isso, claro, é uma espécie de primeiro passo para uma expansão do que Burton trabalhava em Peixe grande, com seu universo de histórias familiares.

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Jacob passa a consultar a psiquiatra Dr. Golan (Allison Janney), onde tem suas visões colocadas em dúvida, e determinado dia, quando chega a um aniversário surpresa, sua tia Susie (Jennifer Jarackas) lhe entrega o presente de aniversário do seu avô, com uma carta de Miss Peregrine a ele, de apenas dois anos antes.
Jacob e seu pai, Franklin (o subestimado Chris O’Dowd), vão para o País de Gales e alugam um quarto no hotel da ilha, que bem poderia servir como diálogo com os habitantes de O homem de palha. Lá, ele encontra a casa de Miss Peregrine em ruínas por causa de uma bomba lançada durante a Segunda Guerra Mundial. Ele viaja repentinamente no tempo e é acusado de ser um espião nazista, sendo salvo pelo grupo de Miss Alma LeFay Peregrine (Eva Green), que lhe explica que eles vivem sempre no dia 3 de setembro de 1943 e pode se transformar num pássaro (lembrando especificamente a feiticeira de Willow). Na casa havia vivido Victor Buntley (Louis Davinson), até ser morto por um Hollowgast, grupo liderado por Mr. Barron (Samuel L. Jackson). O interesse de Jacob passa a ser por Emma Bloom (Ella Purnell), que precisa usar sapatos de chumbo para não sair flutuando, enquanto conhece as crianças do lugar: Enoch O’Connor (Finlay MacMillan), Olive Abroholos Elephanta (Lauren McCrostie), Millard Nullings (Cameron King), Fiona Frauenfeld (Georgia Pemberton), Bronwyn Buntley (Pixie Davies), Horace Somusson (Hayden Keeler-Stone), Hugh Apiston (Milo Parker), Claire Densmore (Raffiella Chapman) e os gêmeos (Joseph e Thomas Odwell), cada um com suas peculiaridades (e estranhezas à la Burton), quase uma equipe do X-Men em plena Segunda Guerra Mundial, e não por acaso o roteiro adaptado é assinado por Jane Goldman, de X-Men: Primeira classe. São crianças de um mundo à margem, em que a Segunda Guerra Mundial não consegue tocar com sua violência, mesmo que insista com seu relógio do tempo inabalável.

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E são deslocadas como são a maior parte dos personagens de Burton, que de um curta-metragem dos anos 80 passou a um longa há alguns anos sobre um cão que lembra Frankenstein, em Frankenweenie. Essas figuras não atraem pela fantasia: elas são sumariamente estranhas e deslocadas no tempo e espaço pela própria condição. Na ilha, Jacob também tem contato com a Miss Esmeralda Alvocet (Judi Dench) e um ornitólogo (Rupert Everett).
Este universo à parte tem muitos elementos da filmografia de Burton (as esculturas no jardim de Edward mãos de tesoura, os esqueletos do videoclipe que dirigiu para o The Killers, inspirados, por sua vez, em Ray Harryhausen, as cenas aquáticas que lembram Sombras da noite, assim como as da mansão, a floresta noturna que evoca A lenda do cavaleiro sem cabeça, a direção de arte que remete por vezes a Os fantasmas se divertem), mas, de modo geral, tudo é levado num ritmo de episódio de No limite da realidade, quando, por exemplo, Jacob é confundido com um nazista, e com influências nítidas de Feitiço do tempo e de um grande filme de Del Toro sobre um orfanato perdido no deserto em meio à Guerra Espanhola (elementos que devem ter inspirado o romancista que deu origem ao filme, já que o livro é bastante recente, de 2011). Burton sabe, como tem conhecimento cinematográfico, que as referências do livro partem de uma boa parte da história do gênero de fantasia e consegue, como é costume em sua filmografia, não reduzi-la a elementos previsíveis.
Em termos de elenco, chama atenção como Burton extrai uma atuação mais madura de Green, muito exagerada em Sombras da noite, e principalmente de Butterfield, que mostrara talento em A invenção de Hugo Cabret para se perder em meio à ficção adolescente de Ender’s game. Ele consegue tomar esses dois atores no melhor que há neste filme, em que Samuel L. Jackson encarna um vilão exagerado.

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A utilização efetiva de elenco sempre foi um traço de Burton, mas ele vem melhorando ainda mais com a maturidade, ao mesmo tempo que aqui a direção de arte não parece tão destacada dos demais elementos, fazendo uma fusão mais natural com os personagens, comportamentos e figurinos. Há alguns problemas de narrativa, sobretudo quando se tenta explicar a presença dos monstros que ameaçam Miss Peregrine e Jacob, no entanto é justamente em elementos de singularidade que Burton tece sua trama de maneira atrativa. Isso porque ele é acompanhado novamente pelo diretor de fotografia Bruno Delbonnel (O fabuloso destino de Amélie Poulain), seu parceiro desde Sombras da noite, e o figurino de Colleen Atwood, exímios em sua facilidade de compor um universo verdadeiramente marcante. Nesse sentido, O lar das crianças peculiares conduz sua temática de maneira que costumamos ver na obra de Burton, apenas com o acréscimo de um lado soturno menos fantasioso, algo que ele tentou fazer em sua adaptação de Alice sem conseguir com a mesma eficiência. Embora o terceiro ato se pareça com muitas peças no estilo Disney e blockbusters, esta ainda é uma peça com sensibilidade rara.

Miss Peregrine’s home for peculiar children, EUA, 2016 Diretor: Tim Burton Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett, Allison Janney, Chris O’Dowd, Terence Stamp, Ella Purnell, Finlay MacMillan, Lauren McCrostie, Hayden Keeler-Stone, Georgia Pemberton, Milo Parker, Raffiella Chapman, Pixie Davies Roteiro: Jane Goldman Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Jenno Topping, Peter Chernin Duração: 127 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Chernin Entertainment / Tim Burton Productions

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Grandes olhos (2014)

Por André Dick

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Nos últimos anos, sobretudo depois de sua versão para O planeta dos macacos e de sua adaptação para a Disney de Alice no país das maravilhas, tem existido uma aversão geral a novos filmes de Tim Burton, sobretudo quando há uma comparação com aqueles que o tornaram conhecido na década de 80 (Os fantasmas se divertem e Batman) e na década de 90 (Edward mãos de tesoura, Ed Wood e A lenda do cavaleiro sem cabeça). Nesse meio tempo, no entanto, Burton fez alguns muito interessantes, mesmo aprovados de maneira quase unânime (Peixe grande), tendo sido Sombras da noite – em mais uma contestada parceria com Johnny Depp – e Frankenweenie, uma versão em desenho animado do clássico curta de 1984, os mais recentes.
Grandes olhos, como em toda a trajetória do diretor, realmente vale por toda sua criação de ambiente: a reconstituição de época e os figurinos são excelentes, mas tem ainda a atuação de Amy Adams. Em termos visuais, apesar do colorido, é o que mais lembra Ed Wood – uma das obras mais acertadas do diretor – e um pouco Peixe grande. Burton trouxe de volta o diretor de fotografia com quem trabalhou em Sombras da noite, o bastante talentoso Bruno Delbonnel, de O fabuloso destino de Amélie Poulain, Across the universe e Inside Llewyn Davis. É ele o principal responsável por situar tão bem o filme nas décadas de 50 e 60 e, se o orçamento do diretor desta vez era de filme quase independente, mesmo na esteira da companhia dos Weinstein, o que se vê na tela é um cuidado meticuloso (neste campo, é o grande esquecido do Oscar este ano, ao lado de Invencível). Não raramente, por se tratar de um filme envolvendo a pintura, sente-se que Grandes olhos é uma coleção não apenas de belas imagens, mas de pinturas, desde as casas de bairro com jardins verdejantes do início – remetendo a Edward mãos de tesoura – até as estradas, clubes noturnos e parques de domingo. No entanto, Burton e Delbonnel também querem retratar, no meio dessa claridade de uma América sendo descoberta, um pouco da escuridão desses personagens a princípio iluminados.

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Talvez o espectador se surpreenda mais com Grandes olhos se não tiver muitos detalhes da história, baseada em fatos reais. A história da pintora Margaret Ulbrich (Amy Adams), que sai de casa com sua filha, Jane (Delaney Raye), para tentar a carreira em San Francisco, traz consigo um retrato interessante sobre como um(a) artista pode ser subjugado. Ela conhece outro pintor, Walter Keane (Cristoph Waltz) quando está mostrando seus trabalhos num parque. Ameaçada pelo ex-marido, ela se casa com Walter e se torna Margaret Keane. Walter se mostra um homem educado e atencioso, querendo mostrar o trabalho da esposa primeiro a um expositor de galeria Ruben (Jason Schwartzmann), depois nos fundos de um clube noturno, administrado por Enrico Banducci (Jon Polito). De um trabalho considerado estranho, a obra de Margaret passa a ser vista como algo realmente original, atraindo a atenção de um crítico, Dick Nolan (Danny Huston), além de milionários e políticos estrangeiros. Quando perguntada por que desenha olhos grandes e tristes em todas as suas figuras humanas, Margaret remete à sua infância – e é nisso que se baseia boa parte da obra de Tim Burton e a excelente atuação de Amy Adams.
O roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski – os mesmos de Ed Wood – trabalha com preconceito baseado no sexo e em rótulos que a sociedade aceita comovida, como a ideia de pintar figuras com grandes olhos ter vindo da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo que as pinturas são aceitas, há um afastamento de Margaret de sua amiga DeAnn (Krysten Ritter) e se perde o limite entre criação e fama, à frente ou atrás dos bastidores. Embora os diálogos não sejam tão eficientes, há boas referências a rótulos dos artistas da época em que a história se passa (todos parecem ter ido a Paris) e à aceitação (ou não) da mulher no meio artístico.

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Burton utiliza Cristoph Waltz para eliminar a carga dramática que poderia haver com um papel que ele já encarnou outras vezes. Aqui ele não se sai tão bem, no entanto a direção de Burton é eficiente e acaba, por baixo de toda a luz do filme e seus cenários coloridos, revelando um pouco da complexidade dos personagens principais, mesmo que eles não pareçam afetados por uma emoção especial (o filme concorreu ao Globo de Ouro de melhor filme de comédia, embora também não se enquadre exatamente no gênero). O tom adotado por Burton é claramente proposital, e fundamentalmente ele mostra como Keane tinha uma predisposição a ser um autopromover, além de oferecer detalhes que correspondem, segundo relatos, ao seu perfil. É curioso como os momentos mais melancólicos estejam sempre associados à realização das pinturas, e os “grandes olhos” representassem justamente isso. O ateliê de pintura de Margaret, antes ao sol no início do filme, com pessoas sendo desenhadas diante de paisagens belas, se torna uma espécie de lado escuro da personagem, por um motivo que vai se revelando ao longo do filme.
Ao mesmo tempo que a obra de Margaret chega à luz dos holofotes da fama, por outro lado, a arte vai ficando impregnada de culpa, de mentiras e por um caminho difícil de ser aceito. Se no início Margaret mostra suas pinturas num parque ao lado da igreja, depois ela tenta se confessar, e a claridade do início se contrapõe ao segredo do confessionário, mostrando a personagem culpada por encobrir uma verdade. São estes detalhes que possivelmente atraíram a atenção de Burton e, quando se vê as pinturas de Keane, com a expressão dos olhos, entende-se por que o cineasta, que começou como um diretor de animações (no curta Vincent), se interessou pela história: há algo bastante melancólico nessas pinturas e traços que remetem à sua animação A noiva cadáver. Para que o filme não seja confundido com um drama, pois a história tem elementos de absurdo que talvez não fossem revertidos da melhor maneira sob o ponto de vista mais discreto, Burton lança essa luz solar sobre os cenários, o que se confunde com a natureza em que os Keane se abrigam.

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Há uma discussão relevante sobre a propriedade de uma criação e Burton, e do mesmo modo não nega uma certa sátira a Andy Warhol, um artista que confundiu, em sua arte, o que seria cópia ou criação, embora exclusivamente dentro do campo artístico. É Warhol o principal ponto para se definir alguns caminhos de Grandes olhos – e a arte de Keane chegou a influenciar outros artistas reconhecidamente pop, inclusive a capa do disco Reality, de David Bowie. Ainda, Burton consegue, num momento excelente, num supermercado, mesclar a imagem de Margaret à frente de embalagens de produtos – que seriam essenciais para a composição da obra de Warhol – a seu encontro com figuras humanas exatamente com grandes olhos, conjugando a arte com o plano onírico ou de culpa diante da verdade que realmente esconde.
Terence Stamp surge como um crítico bastante agressivo das obras de Keane, enxergando todas como arte barata. Toda sua postura, de certa maneira, dialoga com alguns personagens de Os fantasmas se divertem e sua predisposição a discutir esculturas estranhas. No entanto, Burton não chega a adotar um discurso sobre a arte e as concepções possíveis que ela abrange, nem mesmo em relação à influência que Keane pode ter tido realmente no meio artístico. Ou seja, em nenhum momento o filme se afasta de sua proposta inicial, de contar a história de uma estranha relação entre os Keane, ajudado pelo elenco coadjuvante excelente, embora não apareça tanto. De algum modo, Grandes olhos também lembra do início da carreira de Burton, em As grandes aventuras de Pee-wee, saudado anos depois de seu lançamento como uma obra original. Nesta sua estreia em longas em 1985, Burton lançava um personagem num meio em que tudo afinal existia para terminar em arte. Como esta obra, talvez Grandes olhos seja mais reconhecido daqui a alguns anos também: é um filme à primeira vista superficial, mas repleto de arte e do modo de se contar histórias.

Big eyes, EUA, 2014 Diretor: Tim Burton Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Jason Schwartzman, Danny Huston, Terence Stamp, Madeleine Arthur, Delaney Raye Roteiro: Larry Karaszewski, Scott Alexander Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Larry Karaszewski, Lynette Howell, Scott Alexander, Tim Burton Duração: 106 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Electric City Entertainment / Silverwood Films / Tim Burton Productions / The Weinstein Company

Cotação 3 estrelas e meia

Batman (1989)

Por André Dick

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Determinados filmes conseguem, por um motivo às vezes também secundário ao cinema, marcar uma determinada época. Em 1989, o trailer de Batman, de Tim Burton, tinha uma presença destacada em salas de cinema. A diferença do mês de estreia nos Estados Unidos para o do Brasil ainda era considerável (nos Estados Unidos, a estreia se deu em junho, aqui em outubro), auxiliando num dos mais bem feitos trabalhos de marketing da história. A expectativa se dava não apenas em razão dos fatores de produção e da presença de Jack Nicholson no elenco, mas por se tratar do primeiro grande filme de Tim Burton, que havia assinado um ano antes a comédia Os fantasmas se divertem e tinha estreado em 1985 com As grandes aventuras de Pee-wee, com um personagem mais familiar para os norte-americanos. E pelo menos desde 1978, de Richard Dooner, não era feito um filme baseado em herói dos quadrinhos tão esperado. Precedido ainda por críticas elogiosas da imprensa estrangeira, a estreia de Batman se deu num ambiente receptivo – e a questão seria se sua qualidade corresponderia ao marketing.
A primeira surpresa de Batman é que se tratava de um trabalho autoral: do início ao fim, estamos diante de uma obra de Tim Burton. E, no que também inspirou a série Batman assinada por Cristopher Nolan, o trabalho de Burton era baseado na adaptação do herói feita por Frank Miller, com um tom muito mais sombrio (embora no mesmo ano, 1989, tenha sido lançado a que me parece ser a peça em quadrinhos mais vital, Asilo Arkham, de Dave McKean e Grant Morrison). Este Batman possui elementos do dia a dia (gângsteres modernos que tentam movimentar o comércio de produtos químicos, em uma metrópole dominada pela criminalidade), mas o que predomina é a indefinição histórica – ou seja, não tem a concepção mais realista (em determinados termos) daquele de Nolan, o que é uma característica de Burton. Sua Gotham City tem um ambiente europeu entre o início do século XIX e o início do século XX: muita fumaça de fábricas, como na Revolução Industrial, e os ambientes enevoados, semelhante a um filme noir, preenchidos por um design que evoca não exatamente Blade Runner, ao qual foi comparado, mas o expressionismo alemão.

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Esta proximidade aumentaria, inclusive, na continuação de Batman, em que o vilão interpretado por Cristopher Walken se chamava Max Schreck, mesmo nome do antigo ator que fez Nosferatu, em 1922. Se o Batman de Nolan parece mais um policial moderno, o de Burton ainda lembra um detetive em meio a policiais de capote. A influência mais direta no visual de Batman é o trabalho de Hammett, feito também em 1982, por Wim Wenders, em que o escritor trabalhava como detetive e tentava descobrir uma quadrilha de mafiosos no bairro Chinatown. Nesse sentido, o diálogo entre figurinos e ambiente do filme de Burton, sintetizado na direção de arte (de Anton Furst) premiada com Oscar, com cenários montados no lendário estúdio Pinewood, estabelece uma atmosfera adequada para o desenvolvimento da narrativa. Combinado com uma trilha de Danny Elfman em seu início, ainda sem os maneirismos de sua trajetória, e os efeitos especiais de Derek Meddings (Superman e Duna), numa era ainda sem a tecnologia atual, mas com uma fusão orgânica em relação à narrativa, e temos um Batman certamente interessante.
A mitologia do herói criado por Bob Kane, que participou da construção do roteiro, também é mantida (daqui em diante, possíveis spoilers). Durante o dia, Bruce Wayne (Keaton) é um milionário, mas à noite enfrenta o crime de sua cidade, como Batman, sobretudo porque aconteceu um fato em sua infância que o conduziu a este caminho. O único a saber de sua dupla identidade é o mordomo de sua mansão, Alfred (Michael Gough). Já entre os gângsteres, Jack Napier (Nicholson) faz jogo duplo com seu chefe, Carl Grissom (o ótimo Jack Palance), obedecendo suas ordens, mas o traindo com sua esposa, Alicia (Jerry Haal). Para investigar as histórias de Batman, chega à cidade a jornalista Vicki Vale (Basinger), da Time, juntando-se ao repórter desajeitado, Knox (Wuhl), para extrair informações do comissário Gordon (Hingle), próximo a Harvey Dent (Billy Dee Williams). Enquanto o departamento de jornal de Gotham City se baseia novamente nesta concepção noir, não ficam para trás as reuniões da polícia e dos políticos: os ambientes suntuosos mesclam, ao mesmo tempo, um peso atmosférico, por trás de figurinos e maquiagens. Também não se deve esquecer que o primeiro encontro entre Wayne e Vicki Vale acontece num salão com armaduras medievais, cercado de espelhos: nesta sequência, filmada com grande talento por Burton, introduzindo cada diálogo de maneira ao mesmo tempo divertida e irônica, o personagem de Bruce Wayne revela sua dualidade e antecipa que o uso de armaduras não faz parte apenas de sua história, mas foge ao limite histórico.

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As coisas vão mudar em Gotham City. Durante um roubo à empresa de produtos químicos da cidade, Napier, depois de cair num tonel cheio de ácido, fica com o rosto deformado, com um sorriso permanente, voltando para acertar contas com seu chefe. Vicki conhece Bruce Wayne e se apaixona, e ele passa a enfrentar o maior rival, o Coringa, a nova personalidade de Napier. Então, acontece o choque: Batman criou o Coringa, e quem criou Batman? Este fio de narrativa administrado por Burton de maneira efetiva guarda mais do que estamos acostumados num filme de herói. Não existe apenas o duelo entre dois personagens, mas também a tentativa de entender a origem deles.
Outra característica de Burton é a maneira como lida com a dualidade dos personagens. Talvez Bruce Wayne seja o personagem melhor delineado por Burton ao lado de Ichabod Crane de A lenda do cavaleiro sem cabeça e de Ed Wood no filme homônimo, ambos protagonizados por Johnny Depp. E isto se dá com o auxílio direto de Michael Keaton, ator que não compromete depois da pressão dos fãs, que não o queriam no papel, mas no ano anterior havia feito não apenas Os fantasmas se divertem, com Burton, mas o dramático Marcas de um passado (e neste ano, depois de sua excelente participação em RoboCop, regressa com um filme que também brinca com sua atuação aqui, em Birdman). Keaton oferece uma discrição eficiente, ao mesmo tempo em que desenvolve bem seu traço familiar, perturbado por um acontecimento decisivo.
Por sua vez, o personagem do Coringa – e antes dele de Jack Napier – é solucionado de maneira adequada por Nicholson, com sua tendência a ser o primeiro artista homicida do mundo, apesar do exagero, perfilando-se ao lado daquelas que o ator emprega em Um estranho no ninho e O iluminado, e hoje infelizmente, algumas vezes, menosprezada em relação à de Heath Ledger. Suas atitudes colaboram na condução do personagem e sua entrada num restaurante com seu grupo transformando as obras de artes expostas nele num rascunho para Duchamp, e a solução de preservar uma obra de Francis Bacon, com a música de Prince ao fundo, parece uma síntese de um certo cinema dos anos 80 e a passagem para os anos 90, em que o colorido é borrado ou ganha um tom mais soturno. Apesar de o Coringa ser certamente perigoso, Burton concede uma veia mais cômica a ele, fazendo com que seu comportamento assustador seja atenuado em favor de uma visão mais voltada à série antiga de TV, não tanto aos quadrinhos, embora Nicholson realmente traga sua carga para o papel. E, mesmo que o Superman de Donner tenha desencadeado o universo de adaptação de super-heróis para o cinema, Batman é, sem dúvida, a confirmação de que se pode fazer um filme neste campo com um peso autoral, e, sem negar a influência dos quadrinhos, fazer referência ao próprio cinema: é a principal influência de, por exemplo, Dick Tracy, dirigido por Warren Beatty no ano seguinte, com suas homenagens aos filmes de máfia e musicais dos anos 40 e 50, com cenários equivalentes aos dos quadrinhos.

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A necessidade de diálogo entre os personagens e o cenário ganha o ponto máximo na sequência da catedral de Gotham City, uma construção gótica e que destaca, por seu abandono, o principal: a cidade desses personagens não tem nenhuma espécie de religião. Com seu habitual talento para imagens, Burton faz discretamente um filme em que os temas são suscitados por cenários. Temos um senso de design onipresente ao longo do Batman de Burton e não se anuncia nenhum elemento deslocado, mesmo em cenários que nos anos 80 talvez pudessem ser menos elaborados, como o da caverna em que ele guarda suas criações e armas para o combate ao crime organizado. Este senso se encaixa de maneira equilibrada com o comportamento dos personagens: enquanto Bruce Wayne é mais afeito ao cálculo e ao comedimento, mas também avesso ao tamanho de sua mansão, Jack Napier e sua porção extravasada, o Coringa, se comporta como um anunciante de produtos e mesmo de dinheiro jogado aos ares de Gotham City. Além do seu interesse por fotografias e obras plásticas, ele tem outro: recorta fotografias até que preencham o piso do chão. Em Burton, o Coringa é a própria infância (desvirtuada) que Bruce Wayne não teve. Mas o próprio Batman não deixa de ser, para o Coringa, uma personificação da infância: “Onde ele consegue esses brinquedos?”, pergunta o Coringa em determinado momento. Há uma provocação neste comportamento de cada um que não foge a Burton, com seu olhar atento para detalhes que poderiam escapar de um cineasta comum.
De algum modo, o duelo estabelecido (também nas atuações) entre Keaton e Nicholson, ao mesmo tempo, beneficia o elenco. A descompromissada Basinger está bem – no melhor momento da sua trajetória, junto com Los Angeles – Cidade Proibida –, e Wuhl tem uma participação divertida como Knox. Mesmo Jack Palance, com o pouco tempo em cena, é marcante (dois anos antes de receber um Oscar de ator coadjuvante por um caubói em Amigos, sempre amigos), além de Michael Gough (em papel que seria na nova franquia de Michael Caine). Trata-se de uma qualidade de Tim Burton, que ele tem em comum exatamente com Donner, do primeiro Superman: seus filmes, apesar de contarem com grande orçamento, valorizam não apenas as ideias, como as atuações, e tudo acaba soando como um conjunto estabelecido. E não se tem dúvida de que, assim como muitos, Nolan sentou-se muitas vezes em frente a este Batman de Burton para imaginar como seria o seu, principalmente o ótimo Batman begins. Apesar de um tanto esquecido em relação à trilogia mais recente, o filme de Burton continua a figurar entre as maiores adaptações de quadrinhos já feitas, um verdadeiro feito diante das expectativas que se tinha em relação a ele.

Batman, EUA/Reino Unido, 1989 Diretor: Tim Burton Elenco: Jack Nicholson, Michael Keaton, Kim Basinger, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Jack Palance, Robert Wuhl, Michael Gough, Lee Wallace, Tracey Walter, Wayne Michaels, Bruce McGuire, Del Baker, Philip O’Brien, Rocky Taylor, Vincent Wong, Steve Plytas, Liz Ross, John Sterland Roteiro: Sam Hamm, Warren Skaaren Fotografia: Roger Pratt Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Peter Guber, Jon Peters Duração: 126 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros. / The Guber-Peters Company / Polygram Filmed Entertainment

Cotação 5 estrelas

Sombras da noite (2012)

Por André Dick

Um dos melhores filmes de humor já feitos, Os fantasmas se divertem marca o talento inicial de Tim Burton, que antes havia feito apenas um desenho animado (Frankenweenie), cuja refilmagem em longa-metragem lançará este ano, e um filme infantojuvenil (As grandes aventuras de Pee-wee). Continua sendo seu filme mais autoral, com uma cenografia de quadrinhos, efeitos especiais e maquiagem estilizados. A sua história mostra o fantasma Beetlejuice (Michael Keaton, em seu melhor momento), que ajuda um casal de mortos (Alec Baldwin e Geena Davis) a tirar uma família intelectual, rica e chata, da casa onde moravam, na nova Inglaterra. Ou seja, mesmo mortos continuam a habitá-la. Nessa família intrusa, no entanto, há uma menina depressiva, que faz amizade com eles (Winona Ryder).
É quase um Os caça-fantasmas às avessas. O filme possui várias situações divertidas, com méritos para Keaton, que rouba a cena, e um ritmo de histórias em quadrinhos. A melhor piada talvez seja aquela em que a família e seus convidados são obrigados a dançar calipso. Talvez o roteiro seja superficial, assim como os atores parecem estar em outro filme que não numa comédia (como Davis e Baldwin), mas a direção de arte é impressionante, assim como o figurino de Aggie Rodgers e a trilha de Danny Elfman que dá o tom certo, fazendo dele um dos referenciais dos anos 80.
Tim Burton se depara justamente com Os fantasmas se divertem na comédia de humor negro Sombras da noite, que vem sendo recebida com frieza pelo público e por parte da crítica. A questão que muitas vezes se coloca é que Burton está repetindo demais a parceria com Johnny Depp, com quem já realizou alguns de seus melhores filmes, como, entre outros, Edward, mãos de tesoura (o mais lembrado), Ed Wood, A fantástica fábrica de chocolate, além do melhor, a meu ver: A lenda do cavaleiro sem cabeça (em que o estilo se Burton melhor se funde com a direção de arte de forma completa).
Mas é exatamente Sombras da noite o filme que melhor sintetiza seus elementos, que já víamos em Os fantasmas se divertem: o diretor mostra grande talento em fazer uma comédia que parece sisuda, até determinado momento, quando vemos, na verdade, que ele não está levando nada a sério (talvez a exceção seja Marte ataca!, em que o elenco e a história não parecem conectados). E há poucos atores como Depp, que sustentam um filme com seu talento pessoal. É o que ele faz em boa parte de Sombras da noite, no papel de Barnabas Collins, cuja família veio para da Inglaterra para o Maine, em 1752, onde se tornou a líder no mercado de pesca. Uma empregada, Angelique (Eva Green), é apaixonada por ele, mas seu amor, Josette (Bella Hethcote), acaba se suicidando, sob efeito de um festiço – esta cena é de impressionante resolução. No entanto, ele não sabe que a empregada é uma bruxa, que o transforma em vampiro.
Depois de ficar enterrado num caixão por quase durante 200 anos, uma equipe de construção acaba por desenterrá-lo, em 1972. A cena em que isso acontece é digna de Beetleejuice de Os fantasmas se divertem – e muito bem feita –, resultando, em seguida, na visão de Barnabas do M de McDonalds, cujo significado, para ele, é um só: de Mefistófeles. Logo, ele segue para a casa da família, que vive uma decadência: a matriarca, Elizabeth Collins Stoddard, é vivida por uma ótima (embora subaproveitada) Michelle Pfeiffer; Roger Collins (Johnny Lee Miller), os filhos, Carolyn Stoddard (Chloë Moretz) e David Collins (Gulliver McGrath), o caseiro bêbado, Willie Lomis (Jackie Earle Harley), além de uma psiquiatra da família (Helena Bonham Carter, em uma performance curta, mas marcante) e a nova babá, Victoria (também vivida por Bella Hethcote), que entendemos ser a reencarnação de Josette e tem um passado nebuloso. Barnabas pretende recuperar o império dos Collins – mesmo que a cidade ainda se chame Collinsport –, arruinado por Angelique, nem que para isso precise ingressar no tom dos anos 70 e tentar hipnotizar pescadores que trabalham para a inimiga, que se tornou a líder do mercado de pesca da região (como o feito por Cristopher Lee, em boa participação, num bar que mais parece uma taverna da Londres antiga). A sequência em que a casa está sendo revitalizada é um primor de direção – focalizando Barnabas dormindo em lugares diferentes.
Burton havia, nos últimos anos, feito alguns filmes que se destoavam de sua trajetória, como Peixe grande – embora bastante elogiado – e Alice no país das maravilhas, obras, no entanto, com méritos, sobretudo de direção de arte elaborada e personagens curiosos. Quando ele toma o rumo de filmar os personagens como se fossem integrantes de uma história em quadrinhos – mesmo sabendo que a origem de Sombras da noite é um seriado de televisão admirado por Burton e Depp, que durou entre 1966 e 1971, o qual não vi; no entanto, não é necessário conhecê-lo para se entender o filme –, mostra seu estilo, de um apuro visual e sonoro característico. A reconstituição que ele faz de 1972, quando se passa a história (com a trilha sonora de Black Sabbath, Alice Cooper, que participa do filme, e The Carpenters), com alguns elementos específicos (como o do abajur de lava que lembra um “sangue pulsante” para Barnabas; os discos de T-Rex; cartaz de Iggy Pop; músicas de The Moody Blues), e alguns hippies – no melhor estilo Forrest Gump – é muito bem feita.

No início, quando Barnabas chega à cidade nos anos 70, além do elemento de comédia de Depp, destacada pela música de Danny Elfman, temos o anúncio, num cinema, de Amargo pesadelo, de John Boorman, filme que mostra um grupo que pretende descer um rio é atormentado por pessoas sádicas, sofrendo bastante quando levados para o meio da floresta, e em outro momento Barnabas lê o romance Love Story, que havia se transformado em filme dois anos antes, inclusive indicado ao Oscar. Nada mais anos 70: entre a descoberta da violência do interior dos Estados Unidos e da guerra do Vietnã e do romance adaptado para Hollywood.
É evidente que Burton retrata também sua infância, talvez não estranha como a desta família, entretanto cercada por elementos parecidos (sobretudo musiciais e cinematográficos). Nesse sentido, talvez seja, mais do que Os fantasmas se divertem, seu filme mais autoral. Se é evidente que ele compôs o Batman soturno que hoje dá referência a Cristopher Nolan, Burton não está interessado em heróis, mas em personagens sacrificados, como o de Barnabas, o Willy Wonka, de A fantástica fábrica de chocolate, o Ichabod Crane, de A lenda do cavaleiro sem cabeça, e, claro, o principal de todos: o Edward, mãos de tesoura, além dos outros Bs (Batman e Beetlejuice). A cena em que Barnabas se transforma em vampiro é notável – com uma grande carga de expressionismo –, com sua tristeza sendo aprofundada pelas ondas do mar que batem nas rochas onde se encontra. Nenhum desses personagens têm uma família segura, embora o sonho, de qualquer modo, seja tê-la. Aqui, como em Peixe grande, a figura paterna se desenha como referência para o personagem: ela representa o sonho de Barnabas. No entanto, se é vista, por um lado, de maneira idealizada (o diálogo entre Barnabas e o pai de David, Roger, fala disso), por outro, é vista com desconfiança – pois, em Burton, os personagens muitas vezes têm comportamentos instáveis, desestruturando o andamento da narrativa. A incapacidade de estabelecer definitivamente a união da família de Barnabas já aparecia em Edward, mãos de tesoura, A fantástica fábrica de chocolate e Os fantasmas se divertem, mais próximo desta obra. Burton sabe que ela está lá, porém tem dificuldade de estabelecer relações – costumam ser peças soltas, agindo por conta própria – e não é diferente em Sombras da noite (com a certeza de Burton em haver uma continuação também, o que, dependendo da bilheteria até aqui, pode não acontecer).
Não sabemos até que ponto Barnabas é uma vítima ou se aproveita de ser uma para adotar seus métodos pouco ortodoxos. De qualquer modo, é evidente que sua relação com Angelique – nome obviamente satírico – é estranha e obsessiva. Lamenta-se que Eva Green não seja uma atriz à altura deste embate de interpretação com Depp. Enquanto este tem noção de que está numa comédia que não se leva a sério, mas é discreta em seus propósito, Eva extravasa e fica parecendo um personagem feminino excessivamente rebelde e caricato, a começar pelo figurino (propositadamente vermelho) e pelo comportamento. Enquanto Depp tem a medida exata de cada cena, ela não consegue fazer o mesmo – e, mesmo tendo uma ou outra sequência de qualidade, não consegue, ao final, ser efetiva, fazendo com que Sombras da noite se ressinta de uma vilã (embora certamente, reiteramos, Barnabas não seja um herói) mais consistente.
O diretor Tim Burton vem tentando, ao longo dos anos, recriar algumas das histórias mais interessantes, destinadas a grandes plateias, em Batman, Planeta dos macacos, A fantástica fábrica de chocolate e Alice no país das maravilhas, entretanto é num projeto como Sombras da noite que ele revela, como já referido, seus elementos autorais mais interessantes. Tornou-se raro um diretor que, dentro do seu campo de visão – que, não poderia deixar de ser diferente em seu caso, tem falhas –, consegue trazer sempre novidades e personagens interessantes. Sua recriação de Barnabas Collins entra para a antologia do cinema: uma espécie de Nosferatu que, se deparando com o mundo moderno, consegue extrair cada acorde de terror simplesmente deitando a cabeça sobre o piano. Burton sabe que, como Barnabas, havia uma transição de época nisso tudo, e não se voltaria tão cedo aos jantares em família, mesmo que estranhíssimos, e a uma dança na sala de jantar sob o olhar incomodado dos presentes. É nesta transição que Burton foca em seu Sombras da noite, um filme cujo acabamento (tanto na direção de arte quanto no figurino, ou seja, na criação de uma atmosfera própria) e participação de Depp – e, em certa medida, de Michelle Pfeiffer e Helena Bonham Carter – tornam uma diversão de sua maturidade, do momento em que é preciso olhar para trás e ver o que se realizou antes, num regresso às origens, típico do diretor.

Dark shadows, EUA, 2012 Diretor: Tim Burton Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Michelle Pfeiffer, Chloë Grace Moretz, Eva Green, Jonny Lee Miller, Gulliver McGrath, Jackie Earle Haley, Bella Heathcote, Christopher Lee Produção: Christi Dembrowski, Johnny Depp, David Kennedy, Graham King, Richard D. Zanuck Roteiro: Seth Grahame-Smith Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Danny Elfman Duração: 113 min.  Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: GK Films / Infinitum Nihil / Warner Bros. Pictures / The Zanuck Company / Dan Curtis Productions / Tim Burton Productions

Cotação 3 estrelas e meia