Mogli – Entre dois mundos (2018)

Por André Dick

Em 2016, a Walt Disney lançou o live-action de Mogli – O menino lobo, cuja adaptação para o cinema mais conhecida era a animação de 1967, dirigida pelo alemão Wolfgang Reitherman. que transformou a história original de Rudyard Kipling em algo realmente universal. Foi a caixa mágica que se esperava: depois de se aproximar do 1 bilhão nas bilheterias, o estúdio planejou inúmeros live-actions para os próximos anos.
Ao contrário do filme de 67, Favreau prefere atenuar a parte do humor e os números musicais (mantendo alguns, é verdade) para fazer uma espécie de épico, em que a animação muitas vezes se parece com cenários reais mais do que vemos em filmes – e a sensação é a de que estávamos vendo uma mistura entre As aventuras de Tintim e Avatar. Favreau e sua equipe se esmeraram em criar uma atmosfera realmente de selva para o filme. Os seus detalhes são, nesse sentido, espetaculares e, apesar de a animação de 1967 ter um trabalho de cores belíssimo, é a versão de Favreau que dá a sensação de estarmos mesmo em meio aos perigos de uma floresta, tendo merecido o Oscar de efeitos visuais.

Era muito cedo para uma novo olhar sobre a história, mas aqui está ela: Mogli – Entre dois mundos foi produzido pela Warner Bros. Diante da versão da Disney e o risco de não conseguir uma boa bilheteria, quem o lança diretamente em streaming é a Netflix. O curioso é que ele foi rodado em 2015 e seu primeiro lançamento se daria exatamente no ano em que foi liberado o filme de Favreau, sendo adiado por motivos óbvios. Enquanto a obra da Warner começou a ser discutida em 2012 (tendo como possível diretor, entre outros, Iñárritu), o anúncio de que a Disney faria uma nova adaptação foi oficializado em 2013, então não se sabe o que, nos bastidores, uma influenciou a outra. Estamos diante, aqui, ao que parece, de um estúdio ter trabalhado mais rapidamente do que o outro para lançar antes.
A história mostra Mogli (Rohan Chand) sendo inicialmente salvo por Bagheera (Christian Bale) – uma pantera –, enquanto seus pais são mortos por uma fera, quando é levado a uma matilha de lobos, na qual é adotado por Nisha (Naomie Harris), Vihaan (Eddie Marsan) e o chefe Akela (Peter Mullan). Ele vive ao lado de seus irmãos lobos e do amigo Bhoot (Louis Ashbourne Serkis) quando surge o ameaçador tigre Shere Khan (Benedict Cumberbatch), auxiliado pela hiena Tabaqui (Tom Hollander). Já o urso Baloo (com voz do próprio Serkis) tem um papel diferente nesta versão: ele ensina a matilha em técnicas de caça e corrida pela floresta. Serkis, ao contrário de Favreau e Reitherman, não lida tanto com o humor.

Esta visão de Andy Serkis, conhecido principalmente pela desenvoltura como ator na captura de imagens de personagens como Gollum (O senhor dos anéis e O hobbit) e César (na recente trilogia do Planeta dos macacos), trabalha mais num plano às vezes de uma escuridão, e personagens que pareciam apenas bem-humorados no primeiro se transformam em ameaçadores aqui, como a cobra Kaa (Cate Blanchett). A adaptação de Serkis também remete a algumas passagens do Apocalypto, de Mel Gibson. A violência é acentuada: animais são devorados e os machucados do pequeno herói se mostram presentes durante toda a metragem.
A sequência em que o menino precisava escapar de um determinado confronto e se via no meio de um estouro de búfalos da obra de Favreau lembrava um pouco a cena dos dinossauros de King Kong (2005), e Serkis, que trabalhou na versão de Peter Jackson dando movimentos ao gorila gigante, repete algumas linhas do cineasta que praticamente o consagrou, com o Gollum, também colocando o personagem perto de desfiladeiros. A hiena lembra exatamente o Gollum de O senhor dos anéis, enquanto a cena com os macacos (engraçados nas versões anteriores) evocam os Orcs, assim como os melhores momentos da versão de Serkis incluem os elefantes – e se destaca mais a violência contra esse animal, quando Mogli entra em contato com os humanos, principalmente John Lockwood (Matthew Rhys), ecoando Nas montanhas dos gorilas, dos anos 80. Por sua vez, Messua (Freida Pinto) representa a maternidade que Mogli não teve e os cantos dos indianos, assim como certo design de produção, remetem a Indiana Jones e o templo da perdição e a As aventuras de Pi.

Não se sabe se por causa da adaptação de Favreau Serkis divide a sua obra em dois atos: a primeira passada numa selva tão imaginária e espetacular quanto a da versão de 2016 e a outra passada numa tribo de indianos. E, nisso, é lamentável que o filme de Serkis, com efeitos visuais realmente excelentes e uma bela fotografia de Michael Seresin (da série Planeta dos macacos), acabe sendo tomado em pontos comparativos tão determinados com o de Favreau, mas a questão é que a Warner parece ter lamentavelmente se atrasado na confecção de sua ideia – e seria este o filme que se destacaria – e, mesmo talvez ela sendo original, aparenta ser uma cópia principalmente no plano visual, com exceção de certa temática sobre a identidade do personagem central mais adulta e cenas mais violentas. Isso a prejudica em parte, no entanto se o espectador der uma oportunidade para uma atuação muito boa de Rohan Chand, no papel central (melhor do que Neel Sethi, da obra da Disney) e para o trabalho de vozes acertado de todo o elenco, além da homenagem ao universo de Kipling, terá uma boa experiência.

Mowgli – Legend of the jungle, EUA/ING, 2018 Diretor: Andy Serkis Elenco: Christian Bale, Cate Blanchett, Benedict Cumberbatch, Naomie Harris, Andy Serkis, Matthew Rhys, Freida Pinto, Rohan Chand Roteiro: Callie Kloves Fotografia: Michael Seresin Trilha Sonora: Nitin Sawhney Produção: Steve Kloves, Jonathan Cavendish, David Barron Duração: 104 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, The Imaginarium Distribuidora: Netflix

Pantera Negra (2018)

Por André Dick

No Festival de Sundance de 2013, Fruitvale Station, estreia de Ryan Coogler na direção e produzido por Forest Whitaker, foi escolhido como melhor filme pelo júri e pelo público. O diretor obtinha grandes atuações de todo o elenco e não havia um excesso narrativo, mas a composição de quadros que iam compondo a figura do personagem central. No seu filme seguinte, Creed, Coogler convocou novamente Michael B. Jordan, astro de Fruitvale Station, para interpretar Adonis, filho de Apollo Creed treinado por Rocky Balboa, e voltou a mostrar um trabalho exímio.
Diante desses dois filmes, era de se esperar que Pantera Negra fosse um significativo avanço no universo compartilhado da Marvel. O filme mostra o herói que já havia estreado em Capitão América – Guerra Civil, quando seu pai, o rei T’Chaka (John Kani), acabava deixando o trono de Wakanda, nação fictícia da África, para T’Challa (Chadwick Boseman). Este é o Pantera Negra, que tem uma força sobrenatural por causa de um metal raro, o vibranium, e é acompanhado por Nakia (Lupita Nyong’o), W’Kabi (Daniel Kaluuya, logo depois de Corra!) e pela irmã Shuri (Letitia Wright).

A história tem como referência inicial o ano de 1992, em Oakland, Califórnia, mas logo se desloca para Wakanda, uma nação altamente tecnológica, onde T’Challa precisa enfrentar o líder da tribo Jabari, M’Baku (Winston Duke), para se tornar finalmente o líder, sob o olhar de Zuri (Forest Whitaker) e sua mãe Ramonda (Angela Bassett). Enquanto isso, Erik Killmonger (Michael B. Jordan) está atrás de relíquias de Wakanda num museu, com a ajuda de Ulysses Klaue (Andy Serkis, mostrando sua fraqueza como ator quando não está interpretando personagens digitais). No meio do caminho, o Pantera Negra com seus amigos verão seu caminho cruzar com o agente Everet K. Ross (Martin Freeman).
Pantera Negra tem um aspecto de filme de espionagem, lembrando em alguns momentos Capitão América – O soldado invernal, principalmente na passagem por um cassino da Coreia do Sul, que também remete a 007 – Operação Skyfall. Ele tem o objetivo de mesclar realidade e fantasia, com belos figurinos que evocam as cores de Rainha de Katwe, sobre uma menina que joga xadrez em Uganda, e O jardineiro fiel, de Fernando Meirelles. Há boas cenas de ação, algumas em slow motion, e um senso de grandeza em algumas delas. No entanto, para além de seus objetivos, Pantera Negra tem uma estrutura muito clara em sua bela concepção, com a fotografia de Rachel Morrison (Mudbound). E esta estrutura tem a finalidade de se enquadrar no universo compartilhado da Marvel: lá estão rápidas referências a Guerra Civil e a inclusão de Ross, que participava do filme dos irmãos Russo, para dar uma impressão de continuidade.

Também se apaga quase totalmente o estilo de Ryan Coogler, exceto pela inclusão de uma trilha sonora com alguns raps. Dizem que ele teria exigido concessões ao produtor Kevin Feige e que de fato as obteve, mas isso não fica claro na narrativa. Não há uma movimentação de câmera que tenha seu estilo, nem o elenco, mesmo muito bom, tem grandes chances, em razão do roteiro previsível. É preciso dizer que, tanto quanto Doutor Estranho e Thor: Ragnarok, a impressão que se tem é que algumas obras da Marvel são recebidas com um entusiasmo acima da qualidade que possuem. Nos filmes da companhia, falhas visíveis – como o CGI de má qualidade – não são assinaladas, e atos definidos com a previsibilidade de uma narrativa comum como os que mostram Pantera negra se sentem aliviados pela crítica em geral, além do humor forçado (neste, M’Baku é uma espécie de Grão-Mestre, personagem de Jeff Goldblum em Thor: Ragnarok). O design de produção se sente sem imaginação, com interiores que remetem a Os vingadores de Joss Whedon e, mais ao final, a Tron – O legado, sem o mesmo trabalho de cores. Para uma produção de 200 milhões de dólares, falta em parte atestar o investimento na tela (basta comparar o uso de espaçonaves aqui e em Star Wars – O último Jedi). As sequências com rinocerontes digitais parecem mais antigas que as criaturas de O senhor dos anéis – O retorno do rei.
Coogler certamente se esforça em dar seu estilo ao filme: há um certo poder em cenas nas quais Pantera Negra se vê como um líder a ser seguido, como em Creed. No entanto, ele não possui espaço para jogar com seu estilo de narrativa. Se determinadas cenas poderiam lembrar o mistério de A marca da pantera, de Paul Schrader, no recuo a um passado ainda mais tribal, tudo é revertido em CGI que desveste as cenas de solidez. Alguns diálogos se encadeiam como passes para a montagem progredir, e não para se envolver com os personagens. Lupita Nyong’o e Michael B. Jordan, principalmente, são convincentes em seus personagens, e Freeman é um alívio cômico, porém não têm muito o que fazer com um roteiro tão limitado.

É interessante observar que um filme tão em linha reta quanto Pantera Negra seja recebido como uma novidade no gênero. De certo modo, o universo partilhado da Marvel planifica uma ideia de cinema que se repete apenas para registrar um certo poder de indústria. O impacto de cada lançamento não vem dele e sim do que ele pode suscitar em termos de notícia. Há uma específica frieza no tratamento de temas relacionados aos afrodescendentes, como se fossem implicados para o filme se inserir em discussões e não pela importância vital que naturalmente teriam (sugere-se, nesse sentido, o recente representante do Senegal ao Oscar de filme estrangeiro, Félicité). Seria válido, não soasse tão pouco autêntico e sem emoção dosada, ainda mais vindo de Coogler, que revitalizou o debate sobre a comunidade afrodescendente em Creed e Fruitvale Station. Algumas vezes, os personagens são utilizados não como peças narrativas. Talvez quem tenha produzido Pantera Negra ache que reunir um diretor e um elenco extraordinários reverteria exatamente numa obra épica, apostando principalmente no discurso que traria por meio de seu roteiro. Se houvesse real espaço para as ideias que Coogler aplicaria num blockbuster mais independente de uma linha a ser seguida, Pantera Negra possivelmente seria um filme diferenciado. Da maneira como foi montado e pensado, parece seguir o que já mostra certo desgaste.

Black Panther, EUA, 2017 Diretor: Ryan Coogler Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Winston Duke, Angela Bassett, Forest Whitaker, Andy Serkis Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Kevin Feige Duração: 134 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

Star Wars – Os últimos Jedi (2017)

Por André Dick

Responsável por um excelente filme de adolescentes em homenagem ao noir, A ponta de um crime, e por uma ficção científica que soava como um quebra-cabeça, Looper, Rian Johnson foi convidado a dirigir e escrever o roteiro de Star Wars – Os últimos Jedi, a continuação de O despertar da força, o reinício da série criada por George Lucas desta vez por meio dos estúdios Disney, que comprou os direitos da franquia. No episódio anterior, dirigido por J.J. Abrams, havia uma necessidade clara de retomar a nostalgia do filme dos anos 70, mas com novos personagens reencontrando alguns dos antigos, Han Solo e Princesa Leia.
Os últimos Jedi mostra a perseguição da Primeira Ordem aos rebeldes liderados pela princesa Leia (Carrie Fischer), entre eles Poe Dameron (Oscar Isaac). O Supremo líder Snoke (Andy Serkis) está raivoso com o general Hux (Domhnall Glesson) por não conseguir impedir a escapada deles do planeta onde foram localizados. Sabe-se o quanto o anterior repetia referenciais de Uma nova esperança, o episódio de 77. Desta vez, as referências são O império contra-ataca e O retorno de Jedi. E não se trata de coibir a nostalgia.

O episódio derivado da série, Rogue One, do ano passado, se fazia em cima disso também, com talento insuspeito por Gareth Edwards. A questão é que aqui Rey (Daisy Ridley) está numa ilha do planeta aquático Ahch-To, onde se esconde Luke Skywalker (Mark Hamill), querendo ser treinada por ele. A aproximação com Yoda em O império contra-ataca não se dá apenas pela argumentação, como por meio de imagens e simbologias: as conversas sobre a individualidade se dão em cavernas e a heroína tem conversas psíquicas com Kylo Ren (Adam Driver), uma interessante opção, enquanto Chewbacca tenta cuidar a Millennium Falcon em meio a uma invasão de determinadas criaturas voadoras.
Entre os rebeldes, Poe (Oscar Isaac), Finn (John Boyega), BB-8 e a mecânica Rose Tico (Kelly Marie Tran) estão envolvidos numa missão para chegar a um rastreador da Primeira Ordem. Rian Johnson divide a ação entre Rey e seus companheiros e isso torna Os últimos Jedi num dos filmes com montagem mais estranha dos últimos anos, tentando, com isso, empregar um ritmo incessante, como Kershner fez em O império contra-ataca.

Enquanto Luke é tratado como um ícone perturbado pelo que lhe aconteceu, e Hamill entrega a melhor atuação do filme com um tom de eremita consciente, ao lado daquelas de Ridley e Fisher (ambas tentando transcender o material que receberam, a segunda em sua despedida), os demais se sentem com conflitos leves demais e com atitudes pouco reflexivas. Não há uma exploração do que torna cada um com identidade própria, como havia mesmo no anterior de maneira superficial. E a impressão é que Johnson, como Abrams, não sabe direito como encaixar os antigos personagens, com novas motivações. Mesmo Chewbacca (Joonas Suotamo), R2-D2 (Jimmy Vee) e C-3PO (Anthony Daniels) não chegam a ser valorizados, cabendo a BB-8 o espaço bem-humorado, que funciona ora sim, ora não. No início, tudo é mais calibrado e coeso, mas no meio do caminho a trama vai dando espaço a excessos.
Johnson tenta retomar elementos de O retorno de Jedi por meio de um cassino no planeta Canto Bight, mas de forma um pouco desajustada e com um tom predominantemente infantojuvenil, mesmo com sua crítica às armas e aos maus tratos a animais (temas que soam deslocados, como muitos outros). Se há algo claro nesta reinicialização de Star Wars é uma obsessão em conversar com o público mais jovem, mais do que os antigos. Johnson está sempre tentando inserir crianças em meio à ação. Edwards conseguiu bom resultado em Rogue One porque era um derivado, com mais liberdade, uma interessante narrativa sobre uma rebelde que quer reencontrar o pai e integra um grupo capaz de arriscar sua vida, mas Os últimos Jedi é uma coleção de frases já ouvidas em outros filmes da saga, com comportamentos e situações idênticas. Por isso, não é frutífera a ideia de que, havendo queixas, é porque se tenta deixar o passado de lado nesses novos Star Wars: o passado está presente o tempo inteiro, só por meio mais de outros personagens. Nem assim a diversão é menor em vários momentos.

O visual tenta um jogo interessante de cores. As batalhas são espetaculares, mesmo sem originalidade, e aqui se insere um slow motion poético com a personagem de Leia. O design de produção é arenoso e ainda assim atrativo, principalmente o da ilha onde está Luke e de uma sala vermelha que remete a Ran e Kagemusha, de Akira Kurosawa. E Adam Driver, apesar de um pouco de dificuldade de desenvolver seu vilão porque seus dilemas apenas repetem os de Darth Vader, tem boa atuação, enquanto Snoke (num CGI desanimador, quando cresceria com uma verdadeira maquiagem) é apenas outro Palpatine, contudo sem nenhum lado verdadeiramente ameaçador (spoiler: o encontro entre Rey, Snoke e Kylo possui diálogos semelhantes aos que vemos em O retorno de Jedi, com Palpatine, Luke e Darth Vader).
Johnson tenta oferecer a seus personagens uma base dramática intensa, principalmente ao focar a relação entre Rey e Luke, que fornece bons momentos, contudo suas tentativas se deparam com uma certa limitação e apresentado como uma coleção de imagens já pertencentes a um imaginário, mas não interessantes como eram. Assim, ele tenta closes e enquadramentos diferentes (aquele em que Rey usa um sabre de luz e Johnson o filma de um determinado ângulo para que se misture à cor do céu é muito belo), zooms inusuais na saga, além de um humor mais acessível, sustentados por uma boa trilha sonora de John Williams. O estranho é que ele deseja ir para a frente, mas retrocede constantemente, em comportamentos já vistos e flashbacks (e não lembro de flashbacks na saga Star Wars, a não ser um rapidamente na obra de Abrams). Isso, no entanto, acaba rendendo a volta de um personagem icônico, depois de uma batalha de sabres na escuridão da ilha, momento mais soturno da saga ao lado do embate entre Vader e Luke em O império contra-ataca e de Anakin e Obi-Wan em A vingança dos Sith.

Os conflitos existentes aqui entre a almirante Amilyn Holdo (Laura Dern, certamente com saudade da peruca que usa em Twin Peaks – O retorno) e Poe Dameron, por exemplo, soam um tanto distantes, e desperdiçam grandes nomes, como Dern e Isaac, este num personagem que era animado no anterior e aqui se aproxima perigosamente de uma falta de empatia. Por sua vez, John Boyega é um ótimo ator (vejamos ele em Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow), mas é bastante subaproveitado. Para compensar, no ato final, nos últimos 30 minutos, Johnson filma uma sequência irretocável. Embora seu estilo visual não tenha o mesmo refinamento mesmo do de Edwards em Rogue One ou de Luc Besson, este ano, em Valerian e a cidade dos mil planetas, a execução dos efeitos visuais é excelente.
Se o episódio de Abrams era uma espécie de serviço para os fãs, pelo menos ele tinha um senso de espaço e movimentação, o que falta a Johnson em algumas passagens como aquela do cassino, embora ele apresente densidade em algumas cenas, sendo muito mais nebuloso, indefinido, o que faltava na peça de Abrams. Tratar as prequels de Lucas como um desserviço ao cinema e este filme como o melhor da saga, segundo alguns, é, por outro lado, no mínimo questionável. Há uma evidente desproporção no que se refere a como os novos Star Wars são recebidos: sem se basear na nostalgia, mas nenhuma dessas obras recentes tem o peso e a intensidade da trilogia original. Havia um nome que conduzia tudo, mesmo sem dirigir algumas vezes: George Lucas, aquele que para alguns teria arruinado a série com a segunda trilogia, mas pelo menos não tentava reviver a trilogia original tentando fazê-la passar por uma nova, mesmo tendo em vista a qualidade. Basta comparar A vingança dos Sith, por exemplo, com esta obra para notar que muitas coisas devem ser revistas e reconsideradas. O que permanece em Os últimos Jedi tem qualidades verdadeiras e, ao final, atrai uma terceira parte, mas se espera que com elementos mais originais.

Star Wars – The last jedi, EUA, 2017 Diretor: Rian Johnson Elenco: Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio del Toro, Joonas Suotamo, Jimmy Vee Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Ram Bergman Duração: 152 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

Star Wars – O despertar da força (2015)

Por André Dick

Star Wars VII.6

Depois de O retorno de Jedi, em 1983, George Lucas resolveu fazer uma segunda trilogia, contando a origem de Darth Vader, e os filmes que conhecemos (de 1999, 2002 e 2005) alternaram bons e maus momentos, mas não chegando a capturar novamente a magia da saga inicial. Era de se esperar, a partir daí, que não houvesse mais filmes envolvendo a família Skywalker nem suas gerações futuras. Não era o que pensava George Lucas quando vendeu os direitos de sua criação para os estúdios Walt Disney pela bagatela de 4 bilhões de dólares. Naturalmente, os estúdios Disney passaram a conceber uma nova trilogia, que desse sequência a O retorno de Jedi e trouxesse de volta os personagens que arrebataram fãs entre o fim dos anos 70 e o início dos anos 80 e constituem uma mitologia à parte dentro do cinema. Para lidar com mitologias cinematográficas, o nome mais acessível nos últimos anos é o de J.J. Abrams. Criador da série Lost, ele fez a terceira parte de Missão impossível e, em seguida, produziu uma espécie de mistura entre Godzilla e Alien em Cloverfield. Mas foi justamente com a retomada de Star Trek, mostrando os personagens em sua juventude, que elevou Abrams ao status de diretor de franquias. Super 8 e a segunda parte de Star Trek apenas antecederam o que ele entrega de melhor: a nostalgia de se reviver um cinema que parecia perdido no tempo.

Star Wars VII.3

Star Wars VII.2

Star Wars VII.7

O seu Star Wars – O despertar da força é baseado justamente nessa configuração que o levou a ser o cineasta predileto para retomadas de um universo. Ao contrário de Star Trek, no entanto, percebe-se que em Star Wars Abrams não teve a mesma disponibilidade e segurança para empregar o seu próprio universo, que alterna um humor quase desleixado, se não fosse também bastante elaborado. Sua parceria com Lawrence Kasdan – roteirista de O império contra-ataca e O retorno de Jedi – na elaboração da história (a presença de Michael Arndt não parece tão grande) mostra que ele quis retomar alguns caminhos já entregues na primeira trilogia. Desta vez, quem vive no deserto – de outro planeta, Jakku, reservado a ferro-velho – é Rey (Daisy Ridley), em busca de sucata para conseguir mantimentos e sobreviver, que determinado dia encontra um androide perdido, BB-8, que pode trazer, como o R2-D2 no filme inaugural, dados importantes para localizar um determinado personagem. Ao mesmo tempo, temos o dilema de Finn (John Boyega), um stormtrooper que não pretende seguir os mandamentos do novo senhor do lado escuro, Kylo Ren (Adam Driver) – que age ao lado de General Hux (Domhnall Gleeson, nunca antes tão vilão) – e pretende ter uma nova vida.
Abrams tem um grande cuidado ao introduzir esses novos personagens, com o carinho que George Lucas tinha com os seus na primeira saga. Rey é, inicialmente, uma personagem já bastante próximo do público, por sua personalidade cercada de um heroísmo sem o lado espetaculoso. Sua intérprete, Daisy Ridley, é uma descoberta, também por sua semelhança com os registros mais recentes de Keira Knightley, em Anna Karenina e Mesmo se nada der certo, quando sua porção como atriz melhorou muito. Por sua vez, Finn é decisivamente firmado pela interpretação de Boyega, que consegue despertar uma empatia imediata com o espectador. Suas ações vão se encontrar – e isso não é um spoiler – com os personagens antigos, Han Solo (Harrison Ford, em bela atuação) e Chewbacca (Peter Mayhew), num emaranhado de situações que podem lembrar desde o recente Guardiões da galáxia até os filmes antigos da saga, principalmente O império contra-ataca e O retorno de Jedi.

Star Wars VII.15

Star Wars VII.14

Star Wars VII

Abrams tem um cuidado visual muito grande em sua obra, e com Star Wars não é diferente. As partes que alternam lugares com árvores remetem a O retorno de Jedi e as paisagens geladas recordam imediatamente O império contra-ataca. Ainda assim, sente-se que Abrams realmente quer dar um toque autoral ao filme quando escolhe, nesse caminho, focar no conflito trazido pelo vilão Kylo Ren. Não lembro de outra atuação tão efetiva de Adam Driver em sua curta trajetória, mais conhecido pelas peças que fez com Noah Baumbach e nos quais não chega a ter um brilho especial. Como vilão, Driver potencialmente consegue mostrar um componente trágico e que leva a narrativa a uma situação realmente devastadora. Ele não tem a mesma contundência daquela que mostra Benedict Cumberbatch no segundo Star Trek, mas não deixa a dever em termos de ameaça quando finalmente tem um roteiro para trabalhar.
Ainda assim, Abrams fornece ao espectador alguns problemas que não eram encontrados em Star Trek: vejamos como ele elabora rapidamente as ligações de alguns personagens, mas não consegue dar o mesmo fluxo emocional, em razão, principalmente, de estar preso à continuação de uma linhagem. Em Star Trek, ele tinha liberdade porque estava subvertendo o imaginário de Roddenberry, oferecendo uma nova roupagem a Kirk e a Spock. Ele não pode fazer o mesmo com Han Solo ou Princesa Leia, personagens icônicos e que os admiradores da série ligam aos filmes originais. De qualquer modo, ele consegue, principalmente com Han Solo e Chewbacca, mais uma parceria baseada em certo bom humor que consegue agradar ao espectador. E Carrie Fisher surpreende com segurança, sendo, em certa medida, desperdiçada, pelo menos quanto ao potencial que seu personagem apresenta para o núcleo da história.

Star Wars VII.4

Star Wars VII.10

Star Wars VII.18

Abrams também tem um olho muito atento para os cargueiros e as naves imperiais, além das naves dos rebeldes (novamente), assim como com os stormtroopers, como se ele pudesse reviver parte da infância brincando com esses objetos e efeitos especiais. Há sequências de batalha muito bem filmadas, principalmente uma em que se pronuncia sobre as ruínas de um determinado local, bastante longe do CGI apresentado por Lucas na sua segunda trilogia – é visível como Abrams tentou realmente construir os cenários e evitar a computação gráfica. Existe uma imponência maior no que se refere ao tamanho das naves e aos detalhes que elas carregam, quase inexistentes nos originais. Em alguns momentos, há cenários e figurinos um pouco desajeitados na tentativa de atingir a atmosfera dos originais, sobretudo de clubes esfumaçados com criaturas estranhas, em que surge Maz Kanata (Lupita Nyong’o, por trás da maquiagem e dos efeitos especiais), contrabalançado por uma fantástica concepção de paisagens invernais ao som do que o espectador deseja presenciar nessa continuidade da saga. Abrams não é tão cuidadoso quanto Lucas ao mostrar criaturas horrendas: se Lucas quer focar seu lado cômico, Abrams as emprega com ameaça, como em Super 8 e Cloverfield (não há humor, e sim violência nelas). Há uma certa dose desmedida de violência atípica para uma produção da Disney e mesmo em relação aos episódios anteriores de Star Wars, mais distante da fantasia.
Em termos de visão política, se George Lucas quis carregar todas as tintas na analogia de sua segunda saga com o Senado norte-americano do período de George W Bush, aqui em Star Wars o novo império surge quase como um Terceiro Reich, principalmente numa sequência grandiosa, parecida com o que veríamos num filme sobre a Alemanha nazista. Este elemento destoa, em parte, do universo fantástico que vemos – e Lucas não arriscou sequer em seu segundo filme –, mas não tira o mérito de Abrams.

Star Wars VII.12

Star Wars VII.19

Star Wars VII.5

Ele, na verdade, parece querer reprisar o que Lucas fez em Guerra nas estrelas com um olhar moderno. Em certos momentos, consegue atingir isso: mostra como os destroços podem constituir uma linguagem. Em outros, apenas se confunde, não dando a importância necessária a personagens como os de Poe Dameron (uma boa criação de Oscar Isaac, ainda que ligeira, pelo menos neste primeiro capítulo da nova trilogia) e Lor San Tekka (Max von Sydow), além do ótimo androide BB-8. É difícil dizer, mas Abrams não consegue a mesma imponência de Kershner e Marquand nos filmes que seguiram ao primeiro Guerra nas estrelas porque lhe falta, aqui, em parte, a liberdade que necessitava, que era justamente empregar sua visão mais pessoal ao universo de Lucas. Sem o grande criador, parecia que estava sendo mais livre, no entanto o contrário acontece algumas vezes: Abrams se apega demais à arquitetura original, sem acrescentar muito da sua, o que se apresenta, principalmente, no terceiro ato. Ele, de certo modo, acerta mais quando cria uma certa aura de mistério, entregando os personagens de modo enviesado. Em alguns momentos, por outro lado, as ações deles não parecem ter a devida ênfase e a interação mais possível. Isso não tira seus méritos na recuperação desse universo, na sua tentativa explícita de se declarar a ele, como quando se busca a mesma força dos novos personagens centrais, que atraem grande parte da energia dessa história e realmente guardam para o espectador um universo grandioso. É muito bom estar de volta a esse universo e à continuação de uma linhagem extraordinária.

Star Wars: The force awakens, EUA, 2015 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Max von Sydow, Peter Mayhew, Gwendoline Christie, Ken Leung, Greg Grunberg Roteiro: J.J. Abrams, Lawrence Kasdan, Michael Arndt Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Bryan Burk, J.J. Abrams, Kathleen Kennedy Duração: 136 min. Estúdio: Bad Robot / Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas

King Kong (2005)

Por André Dick

King Kong 12

A partir de O senhor dos anéis, sempre irá se esperar muito de Peter Jackson. Nesta refilmagem de King Kong, depois das versões de 1933 e de 1976 (conhecida pelas atuações de Jeff Bridges e Jessica Lange), o cineasta ainda sofre a influência de ter realizado uma das séries mais fantásticas de todos os tempos, o que se percebe pelo ritmo que emprega, dispondo detalhes necessários para sua empreitada difícil. O grande personagem que se apaixona por uma mocinha (interpretada nesta versão por Naomi Watts) numa ilha de aborígenes só poderia render mais imagens extraordinárias para este cineasta. Como um designer e um artesão, capaz de mesclar elementos fantásticos, ele não desaponta, mesmo que seja apenas numa segunda revisão que se perceba melhor a forma como ele optou por narrar a fabulosa história.
O filme inicia na Depressão dos anos 1933, numa referência ao primeiro filme, mostrando animais no zoológico de Nova York. Todo o clima que ele prepara para a chegada à ilha de King Kong, a Ilha da Caveira – com o navio carregando mercenários e uma equipe precária de cinema, tendo à frente um cineasta inescrupuloso, Carl Denham (Jack Black, o único deslocado), acompanhado de seu assessor (Colin Hanks), o capitão Englehorn (Thomas Kretschmann), seu auxiliar (Evan Parke), o protegido deste (Jamie Bell, de As aventuras de Tintim) e um casal à la Hollywood, Burt Baxter (Kyle Chandler) e Ann Darrow (Naomi Watts) em um filme roteirizado por um escritor que pensa mais na arte do que no dinheiro, Jack Driscoll (Adrien Brody), com direito a pores do sol – resulta em algo espetacular quando vemos o navio ser lançado a enormes rochedos que circundam a ilha depois de uma neblina. Mesmo que seja um tanto demorado.

King Kong 3

King Kong 4

King Kong 6

Esta parece ser a única falha do filme de Jackson: a demora em situar os personagens no cenário, afinal, mitológico para as três versões de King Kong. Se a versão produzida por De Laurentiis nos anos 70 desvirtuava um pouco o motivo da ida para a ilha (estavam procurando por petróleo), aqui se retoma, portanto, a equipe de filmagens se deslocando para um lugar selvagem, intocado pelo homem, com a colaboração decisiva da fotografia excepcional de Andrew Lesnie (O senhor dos anéis e O hobbit).
O sequestro da atriz Ann Darrow para ser oferendada a Kong é uma das passagens mais fantasiosas do filme, e a tribo lembra os orcs de O senhor dos anéis, o que não chega a ser uma analogia interessante para este caso, mas vale porque depois dela conhecemos o Kong mais realista das três versões – embora saibamos que esteja por trás Andy Serkis (que faz o cozinheiro do navio e o gestual de Gollum) e as sequências lembrem sobretudo a versão de 1933. Percebemos, em alguns momentos, as maquetes do filme, também o CGI é evidente, mas a sinestesia das imagens de Jackson, como em O senhor dos anéis, passa a vigorar, como na corrida dos brontossauros à beira de um abismo. E, nesse sentido, o filme acaba mostrando o gorila gigante como um personagem mais humano do que os anteriores, capaz de enfrentar um Tiranossauro Rex para salvar a mocinha, a qual passa a proteger. Nesta aproximação, que começa com Darrow imitando os passos de Charlie Chaplin, com uma bengala, no alto de uma colina, Jackson tenta desenhar uma espécie de núcleo emotivo, o que consegue efetivamente na analogia entre o pôr do sol e o nascer do sol, em momentos diferentes. Enquanto isso, Driscoll, mostrando uma faceta de herói, segue na pista de Darrow e do gorila gigante, mostrando a maior transformação do filme. A obsessão de Denham em realizar as filmagens também ganha foco, mesmo que em alguns momentos isso possa ser visto como constrangedor, sobretudo pela atuação deslocada de Black.

King Kong 17

King Kong 9

King Kong 14

A verdade é que o filme vai em ritmo alucinante do primeiro ao último minuto, mesmo com sua versão inserida de Jurassic Park, com a aparição de figuras pré-históricas, principalmente quando a tripulação do navio enfrenta uma determinada situação, quando se depara com o desconhecido, não necessariamente funcionando, por outro lado, nos momentos em que se tenta desenhar uma lição de moral, tudo levado pela música de James Newton Howard.
E King Kong é exatamente isso: o encontro com algo desconhecido com a estranheza: sua grandiosidade comum. Mas é também a porta de descoberta para as coisas mais comuns: a atriz que deseja o estrelato poderia se contentar com um pôr do sol numa ilha ou na cidade grande? O dramaturgo conseguiria reproduzir em suas peças a realidade da perda? Sentir também é isso, nos fala o diretor. Se em alguns momentos ele cai na pieguice (como a cena romântica do Central Park), é possível sentir, nisso, uma certa preservação dos anos 30, quando se passa a história, e a queda econômica também simboliza a queda de um poder de ganância. Não tememos em falar de spoilers, pela mitologia que cerca King Kong desde sua primeira versão, mas Jackson, aqui, consegue mesclar a chegada de Kong à cidade com elementos da história contemporânea dos Estados Unidos. Poucos como Peter Jackson conseguiriam trazer uma sequência final como aquela, tanto na maneira com que foi filmada quanto no sentimento especial que suscita.

King Kong, Nova Zelândia/EUA/Alemanha, 2005 Diretor: Peter Jackson Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Andy Serkis, Evan Parke, Jamie Bell, Lobo Chan, John Sumner, Craig Hall, Kyle Chandler Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: James Newton Howard Duração: 188 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Universal Pictures / WingNut Films / Big Primate Pictures / MFPV Film

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

 

Vingadores – Era de Ultron (2015)

Vingadores.Filme 32

Desde o grande sucesso do primeiro Os vingadores, a mobilização dos estúdios Disney e da Marvel para os filmes dos super-heróis ligados a esta franquia tem sido mais assídua. Logo após os acontecimentos que colocaram Nova York em estado de alerta para possíveis invasões vindas do espaço, foi lançado Homem de ferro 3, seguido por Thor – O mundo sombrio e, no ano passado, Capitão América 2 – O soldado invernal, com a presença também da Viúva Negra. Além desta e do Gavião Arqueiro, Hulk também continua ainda sem o filme próprio com Mark Ruffalo, levando em conta que tem as versões com Eric Bana e Edward Norton. Se Os vingadores continua ainda sendo confundido com uma marca, mais do que uma obra ou adaptação de história em quadrinhos de Stan Lee, e se queira às vezes considerá-lo como mais um blockbuster, deve-se dizer que Vingadores – Era de Ultron traz Joss Whedon ainda tentando lidar com suas primeiras impressões como diretor, mesmo que nesse intervalo tenha feito Muito barulho por nada, uma adaptação moderna de Shakespeare e em preto e branco. Whedon, antes de ganhar esta oportunidade, era mais conhecido como o criador da série Buffy – A caça-vampiros e roteirista de Toy Story, e, de certo modo, tem um manancial de escolhas depois de realizar a primeira parte, entre elas a de lidar com atores que possuem uma carreira própria e mesmo em filmes ditos de público mais restrito, como Scarlett Johansson em Ela e Sob a pele; Ruffalo em Margaret e Mesmo se nada der certo; e Hemsworth em Rush e Hacker. Isso oferece a ele um caminho interessante, de colocar atores não normalmente vistos neste gênero – apesar de também terem suas trajetórias ligadas a ele, como Hemsworth – no centro da ação.

Vingadores.Filme 35

Vingadores.Filme 36

Vingadores.Filme 18

Na primeira parte de Vingadores, Whedon revela uma determinada tentativa de já colocar todos os personagens em ação, literalmente invadindo a tela num salto em conjunto, numa missão a Sokovia, país fictício do leste europeu, em combate ao Barão Wolfhang von Strucker (Thomas Kretschmann). Ao invés de coordenar um grupo de experiência com outro intuito – político –, o barão Strucker está à frente de uma equipe que tem usado o cetro usado por Loki e como resultado de sua experiência com humanos, ligada à Hydra, os gêmeos Pietro (Aaron Taylor-Johnson) e Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) adquirem super-poderes. Esta passagem por Sokovia antecede uma série de experiências que o próprio Stark tentará fazer, com a ajuda do Dr. Banner, o que pode colocar em risco não apenas o seu grupo, como a própria humanidade – e aqui Whedon desliza para uma discussão que vem desde o primeiro filme de Homem de ferro: até onde pode ir a ciência para que não se coloque em risco a humanidade, envolvendo Jarvis (Paul Bettany), o sistema com inteligência artificial de Stark.
No entanto, os vingadores estão dispostos a fazer uma pausa, e compartilham uma festa na mansão de Stark; nesta longa sequência, desenham-se alguns caminhos tanto para a narrativa presente quanto para os próximos, que incluem não apenas Steve Rogers, o Capitão América, com seu amigo Sam Wilson (Anthony Mackie), que aparece em O soldado invernal, como também a relação entre Bruce Banner e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), e a amizade de Stark por James Rhodes (Don Cheadle). Há uma tentativa clara de Whedon, também, em esclarecer o paradeiro de outros personagens que não aparecem aqui, como Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e Jane (Natalie Portman) e, nessa preocupação, se esvaem alguns minutos que certamente não compreenderiam a história, pois se trata de uma explicação estranha, à medida que, por um lado, pode não ter havido espaço no roteiro ou simplesmente as duas atrizes não puderam interpretá-las.

Vingadores.Filme 17

Vingadores.Filme 21

Vingadores.Filme 22

Essas explicações, ao mesmo tempo que soam necessárias para quem acompanha todos os filmes de Marvel, fazem com que o roteiro se desvie em alguns momentos de seu foco principal. Mas, se há uma qualidade que já havia ficado clara com o primeiro Os vingadores é que Whedon tem uma disposição de desenvolver esses personagens em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. Desta vez, ele coloca os heróis não apenas diante de uma ameaça enigmática, que pode colocar a ciência em xeque, como também em contrapor e unir todos em relação aos gêmeos. Nisso, há imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remete a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los, o que era incentivado no primeiro filme por Philip Coulson (Clark Gregg). Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses acabam servindo como impulso para uma das melhores sequências, que se liga a um ambiente campestre e no qual podemos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação (além de criar um diálogo com a ficção científica Interestelar, em que um aviador se escondia na pele de um fazendeiro e poderia ajudar a humanidade a se salvar de um desastre). Se as cenas de ação dos filmes dos heróis isolados parecem interessantes, nenhuma soa tão grandiosa quanto aquelas que víamos em Os vingadores.
Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não fica a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato parece preparar a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais soam tão boas ou ainda melhores do que as da primeira parte, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas sitações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, que soa original e espetacular, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco,

Vingadores.Filme 37

Vingadores.Filme 5

Vingadores.Filme 24

Em meio às sequências de ação, há uma sucessão contínua de traços de humor, no entanto, pendendo mais para a série Thor do que para o terceiro Homem de ferro, eles conseguem dar uma solidez para a narrativa. Whedon tem uma agilidade grande em captar essas cenas sem que elas pareçam exageradas ou desprovidas de algum elemento humano, e neste ponto o que poderia ser apontado como desconexão entre algumas linhas de roteiro se transforma naquilo que é essência: esses heróis, para Whedon, são mitológicos e trabalham com as mesmas emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como, aqui, todos ganham linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark: eles estão, de certo modo, sempre ligados ao passado – e a única maneira apontada para uma condição de satisfação humana é aquela do Arqueiro. Este, inclusive, ressoa uma fala de Coulson do primeiro Os vingadores quando trata do uniforme feito para Steve Rogers. Mas, se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais foi obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.
Todos os super-heróis conseguiram desenvolver também, com a ajuda dos filmes próprios, uma personalidade características, e são auxiliados pelas atuações de Johansson, Hemsworth e Evans, além de Ruffalo e Renner (que no anterior passava quase toda a metragem sob domínio de Loki). Downey Jr. não desaponta no papel, entretanto é cada vez mais visível seu desconforto, assim como no terceiro Homem de ferro. Não apenas pelo roteiro, é exatamente o personagem de Banner que mais se destaca, muito pela presença de Ruffalo, cuja atuação mais interessante é aquele empregada em Zodíaco, mas que consegue, aqui, seguir na linha de Bill Bixby, da série de TV.

Vingadores.Filme 27

Vingadores.Filme 2

Vingadores.Filme 23

Embora faça falta exatamente Loki (em razão do ótimo ator Tom Hiddleston), o vilão deste filme, por causa da voz de James Spader, soa com um fundo ameaçador, ainda que não totalmente desenvolvido por causa da quantidade de perspectivas que a narrativa adota, com ações ocorrendo ao mesmo tempo e em lugares diferentes, com vários personagens. Ainda assim, mesmo os coadjuvantes, como o próprio Aaron Taylor-Johnson, Olsen, Claudia Kim (como a cientista Helen Cho), Andy Serkis (como o traficante de armas Ulysses Klaw) e Cobie Smulers (como Maria Hill) estão bem em seus respectivos papéis, além de uma inesperada Linda Cardellini (da saudosa série Freaks and geeks) num papel discreto, mas eficiente. Este conjunto muitas vezes consegue levar o roteiro de Whedon para um estágio em que os vínculos entre as pessoas podem ser o único motivo, como no primeiro Os vingadores, de a humanidade ter, realmente, a sua sobrevivência. E, como o primeiro, o fato de este ter quase duas horas e meia não registra o tempo transcorrido: se o espectador está disposto a se entregar a um universo desta espécie, verá um grande encontro, já desde a primeira sequência.

Avengers: age of Ultron, EUA, 2015 Diretor: Joss Whedon Elenco: Robert Downey Jr.,  Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Mark Ruffalo, Chris Evans, Chris Hemsworth, Aaron Taylor-Johnson, Andy Serkis, Anthony Mackie, Claudia Kim, Cobie Smulders, Don Cheadle, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson, Idris Elba, James Spader,  Linda Cardellini, Paul Bettany, Stan Lee, Stellan Skarsgård Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman e Brian Tyler Produção: Kevin Feige Duração: 141 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

As aventuras de Tintim (2011)

Por André Dick

As aventuras de Tintim 4

Tintim é um menino repórter com característica detetivesca, enquanto Indiana Jones era um arqueólogo. Foi justamente depois de Os caçadores da arca perdida que Spielberg tomou conhecimento do personagem de Hergé, ao qual compararam Indiana (em 1983, Spielberg iria conhecer Hergé durante as filmagens de Indiana Jones e o templo da perdição quando este veio a falecer). Spielberg, no entanto, havia prometido ao criador do Tintim que adaptaria as aventuras do personagem para o cinema. O resultado é surpreendente, com potencial para resultar em várias imitações e continuações (apesar de não ter sido um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos). A animação é feita sobre atores reais, mas nem por isso deixa de ser animação: pelo contrário, parece ser uma animação ainda mais densa (não lembro de outro desenho que tenha tanta profundidade nas imagens, quanto aos detalhes e à ambientação). Não há como comparar Tintim com desenhos recentes e sem o mesmo toque de criatividade, apenas tentando ingressar no que a Pixar e a Disney entregaram em momentos altos.
Os caçadores, como se sabe, é a aventura que consagrou o arqueólogo Indiana Jones como o herói da década de 1980, uma espécie de 007 sem sustentação política que dá aulas de História, graças, em grande parte, à atuação de Harrison Ford. Na primeira jornada, já começa em plena ação, sendo perseguido por uma tribo indígena depois de apanhar uma relíquia numa caverna cheia de pistas falsas – essa introdução é memorável. Logo em seguida, procurado pelo governo dos Estados Unidos na universidade onde dá aula, ele vai em busca da arca perdida, onde Moisés teria deixado a Tábua dos Dez Mandamentos. Enfrentando uma trupe de nazistas, que tem como arqueólogo o francês Belocq, ele ainda arranja tempo para namorar a divertida heroína (Karen Allen, que regressaria em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal), que reencontra num bar com mau destino depois de uma sequência de lutas divertidas e violentas.
A passagem dele pelo Egito, em busca do objeto divino, é a melhor parte do filme, mostrando como Spielberg está em busca não apenas da aventura, mas do mistério de relíquias históricas. As idas e vindas do roteiro (não sabemos se a mocinha escapou de uma explosão, por exemplo) são exploradas ao limite, entretanto sem menosprezar a inteligência do espectador. Mais do que um professor e aventureiro, Indiana Jones encarna a tentativa de encontrar a história na rotina e, por isso, apesar de parecer simples, é um personagem complexo. Ele e, claro, seus medos: de cobra, sobretudo. Seu visual (um arqueólogo de chapéu e chicote) remete aos filmes de infância, ainda que não sabemos bem a quais. E alguém que precisa se deparar não só com o roubo histórico, como também com o próprio nazismo e a obsessão de Hitler em tomar contato com o que, em sua visão, é capaz de deixá-lo com mais poder ainda.

As aventuras de Tintim

As aventuras de Tintim 2

Tão bom ou melhor que os antigos seriados de TV, arrebatou cinco Oscars (montagem, direção de arte, som, efeitos sonoros, efeitos especiais), tendo sido ainda indicado aos Oscars de melhor filme, direção e roteiro (de George Lucas e Phillip Kaufmann, diretor de A insustentável leveza de ser), fotografia e músico (mais um trabalho irrepreensível de John Williams).
Tintim (Jamie Bell), que para Spielberg é um reingresso naquele universo de Os caçadores da arca perdida (e não tanto da série Indiana Jones subsequente), para descobrir um mistério relacionado à réplica em miniatura de um galeão, vai até um navio de verdade, com seu cão Milu, encontrando o capitão Haddock (com movimentos de Andy Serkis captados para a transformação em desenho), que passa quase o tempo todo sem sobriedade alguma. Além do seu humor, Haddock é a peça-chave para conectar o passado e o presente, histórias de piratas e tripulações, mas, sobretudo, de um mistério familiar. Depois, enfrentam o mar e o deserto, além do vilão Sackharine (Daniel Craig). A maneira como Spielberg lida com a amizade de Tintim e Haddock é, aliás, exemplar. Ambos os personagens mostram as aspirações deste universo entre o desconhecido e o real, e representam parte da trajetória de Spielberg: entre o menino curioso em descobrir detalhes que possam levá-lo a um tesouro (o que já vimos em Os Goonies) e um personagem como Haddock, que precisa encontrar seu passado e sua herança familiar para, enfim, conseguir mais clareza em sua trajetória, o que acontece numa fabulosa viagem pelo Saara, com uma ação inesgotável.
Enquanto os personagens centrais vão parar em lugares diferentes, uma dupla de detetives, Dupond e Dupont (Simon Pegg e Nick Frost), em Bruxelas, investiga quem pode ser um batedor de carteiras. Esta faceta de humor é dificilmente encontrada na trajetória de Spielberg (apenas quando o roteiro não costuma ser dele, como na série Indiana Jones ou em E.T. – O extraterrestre). Contudo, lá está Milu, um cãozinho com destreza capaz de dialogar com aquele que desconfia da presença do extraterrestre na casa de Elliott. E lá estão os vilões que não querem deixar o personagem sossegar e, muito mais, como a família Fratelli, em Os Goonies, não estão para brincadeira.

As aventuras de Tintim 5

Há, também, uma parte do filme passada no Marrocos que evoca a parte de Os caçadores passada no Egito, inclusive com a cenografia semelhante, captada pela fotografia notável do habitual colaborador de Spielberg, Janusz Kaminski, e a trilha de John Williams (que ressoa a de Prenda-me se for capaz).
Além do humor, seu excesso de ação garante boa diversão – é de se lembrar, também, a presença de Peter Jackson, de O senhor dos anéis, na produção. Alguns reclamam que o personagem principal não tem vida, ou não se tem nenhuma informação sobre sua família, ou o que a ação é absolutamente inverossímil, mas na verdade se esquece que estamos diante de uma fantasia, em que os personagens de Hergé ganham vida em estilo adequado e, embora não totalmente fiel (pois Spielberg também emprega suas características na montagem da narrativa), ainda assim adequado. Talvez nenhum outro cineasta conseguiria adaptar tal personagem como o faz Spielberg. Como Indiana Jones em 1981 – cujo lado familiar só viria mais à cena em Indiana Jones e a última cruzada.
Excetuando algumas sequências de maior violência para as crianças, este filme de Spielberg é um dos seus melhores nos últimos anos (talvez encontre correspondência apenas com suas peças dos anos 80, excetuando, recentemente, Prenda-me se for capaz). Além disso, para quem pode assisti-lo em 3D, pôde ver o quanto ele foi bem utilizado, ao contrário de em outros filmes, visando apenas o comércio. É impressionante como Spielberg consegue converter em espetáculo o que costuma ser apenas um acréscimo, e como consegue ser mais efetivo do que em Cavalo de guerra, com seu classicismo mal elaborado e mesmo, sem soar pejorativo, antiquado, e como lida melhor com a aventura do que em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Tintim representa o reencontro de Spielberg com a vertente que o tornou conhecido e reconhecido.

The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, EUA/Nova Zelândia, 2011 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Daniel Craig, Simon Pegg, Jamie Bell, Andy Serkis, Cary Elwes Produção: Peter Jackson, Kathleen Kennedy, Steven Spielberg Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 108 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / The Kennedy/Marshall Company / WingNut Films / Columbia Pictures / Paramount Pictures / Nickelodeon Movies / Hemisphere Media Capital

Cotação 4 estrelas

 

O senhor dos anéis (2001, 2002, 2003)

Por André Dick

O senhor dos anéis.SérieA saga O senhor dos anéis, adaptada dos livros de J.R.R. Tolkien, teve uma transposição para o cinema à altura de seu desafio. Apesar de Peter Jackson não ter dado provas anteriores de que seria capaz de adaptar com tal força a trilogia (esteve à frente, por exemplo, de Os espíritos), é bem verdade que ele consegue um resultado superior ao que um diretor comum ou consagrado conseguiria. Ou seja, ele não era nem um cineasta do underground nem alguém incorporado a superproduções hollywoodianas. Talvez por tudo isso ele tenha criado um ritmo tão equilibrado para os três filmes, baseado em locações fantásticas da Nova Zelândia e um trabalho de adaptação e incorporação de cada personagem no imaginário de modo notável.
No primeiro, A sociedade do anel, ele apresenta os personagens, o surgimento do anel e o tom da série, passada na Terra-média. Gandalf (Ian McKellen) vai ao Condado dos hobbits para a festa de despedida de Bilbo (Ian Holm). Este tem um sobrinho, Frodo Bolseiro (Elijah Wood), amigo de Sam (Sean Astin). Gandalf acaba descobrindo que seu amigo carrega o anel do poder, ou seja, aquele que o possuir estará dominado pelas trevas e o desejo de poder. Ele pede que Frodo saia em jornada, com Sam – os quais, pelo caminho, encontram Pippin (Billy Boyd) e Merry (Dominic Monaghan) –, levando junto o anel, em direção ao vilarejo soturno de Bri, onde eles se encontram com Aragorn (Viggo Mortensen), que os ajuda a fugir de cavaleiros assustadores, em meio às árvores do Condado. Frodo entende, aos poucos, que sua missão não é tão simples quanto se imagina. Depois de um novo enfrentamento e serem salvos pela elfa Arwen (Liv Tyler), os hobbits vão para Valfenda, onde a sociedade do anel do subtítulo se reúne por meio da figura de Elrond (Hugo Weaving). Nela, há um elfo, Legolas (Orlando Bloom), um anão, Gimli (Rhyam-Davies), e Boromir (Sean Bean), que se integram à “sociedade do anel”, e o filme intensifica o poderio das imagens – constituindo o elo entre os três filmes. Eles precisam ajudar Frodo a chegar à Montanha da Perdição, em Mordor, onde o anel deverá ser destruído, em meio a provocações entre o anão e o elfo e o desequilíbrio de Boromir. Ao mesmo tempo, Gandalf precisa enfrentar Saruman (Cristopher Lee), que tem planos de seguir o Olho de Mordor, o qual deseja recuperar o anel. Saruman (Cristopher Lee) aprisiona Gandolf em Isengard, a princípio – depois de uma cena de embate em que os cajados representam a força de cada um –, mas logo é enfrentado.

O senhor dos anéis.A sociedade do anel 3

O senhor dos anéis

Neste primeiro filme, além da apresentação dos personagens, há detalhes surpreendentes, sobretudo quando eles chegam às Minas de Moria. Deparando-se com um monstro submarinho com tentáculos, o grupo foge para dentro dessa caverna, sem saber que nela os espera algo pior e aterrorizador. Peter Jackson consegue emprestar a sequências magníficas um tom, ao mesmo tempo, de pesadelo e fantasia, sem nunca cair num excesso; pelo contrário, a cada desmoronamento de uma montanha ou a abertura de um chão repleto de escadarias, apesar de sua grandiosidade, é dado um aspecto fabular inesquecível e modificador também para a narrativa.
No segundo filme, As duas torres, Frodo e Sam, já separados do restante do grupo, continuam a ser seguidos por Gollum (numa atuação de Adam Serkins), dono anterior do anel, que não consegue ficar longe dele, ao qual chama de “precioso”. Ao mesmo tempo, vemos Aragorn, Gimli e Legolas atrás de Pippin e Merry, que foram levados por orcs. Sarumon quer destruir a Terra-média, no entanto sabemos que há as árvores da Floresta de Fangorn para impedi-lo. Nela, Merry e Pippin conhecem a Barbárvore, que pertence aos ents e é incitado a se revoltar contra Saruman, que está querendo destruir, por meio dos orcs, toda a vegetação para a construção de seu exército. No meio do caminho, Aragorn e seus amigos precisam salvar o Rei Theoden (Bernard Hill) de um feitiço de Saruman, preservado por Gríma Língua de Cobra (Brad Dourif), fazendo com que se desloquem todos para o Abismo de Helm. Ele é pai de Éowyn (Miranda Otto), que se apaixona por Aragorn. Porém, precisam enfrentar uma batalha imprevisível – com um desfecho impressionante. Há, como se vê, uma miscelânea de histórias, mas que Jackson consegue unificar com raro empenho, nunca permitindo que determinados personagens sumam de vista (mesmo que personagens como o de Galadriel, de Cate Blanchett, e de Elrond, de Weaving, sejam menos interessantes para o andamento).

O senhor dos anéis.As duas torres

O senhor dos anéis.A sociedade do anel 2

Já Sam e Frodo, na continuação da viagem, precisam enfrentar Faramir (David Wenham), irmão de Boromir, interessado no destino do anel. Nessas sequências fantasiosas (em pântanos, sobrevoados pelos Cavaleiros Negros, e montanhas), vemos o maior potencial de O senhor dos anéis: o delírio de imagens, aliadas aos efeitos especiais, é forte o bastante para sustentar a atenção do espectador. A batalha do Abismo de Helm, por exemplo, apresenta-se antológica, fabulosa, sobretudo quando vemos a muralha desabar para a entrada assustadora dos orcs, debaixo da chuva, com os urros no meio da noite e luzes de tochas ao longe.
No terceiro filme, O retorno do rei, sabemos que Peter Jackson está desenhando um epílogo que deve estar de acordo com a série. Apresenta uma primeira hora um tanto devagar, com alguns traços românticos – entre Aragorn e a elfa –, para, então, ao mesmo tempo que acompanha a jornada de Frodo, Sam e Gollum, até a destruição do anel, vermos o que falta ainda ser resolvido, o que inclui uma batalha entre orcs e fantasmas, a loucura de Denethor (John Noble), pondo a Terra-média em risco, uma aranha gigante tentando enredar o personagem principal, a escalada na Montanha da Perdição passando em meio a tropas de orcs. Novamente, Jackson imprime uma montagem rápida, com talento especial para construir cenários fantásticos, e a verdade é que as versões estendidas – cada filme com vários minutos a mais, alguns se transformando em outros filmes, inclusive com peças mais bem-humoradas – são melhores do que as originais, o que impressiona, pois O senhor dos anéis, no original, já tem uma significativa extensão: mais de 9 horas no total. Peter Jackson tem uma tendência para a grandiosidade, o que ele viria a mostrar em King Kong, mas é ainda melhor quando se restringe a elementos básicos ao sucesso de um filme.

O senhor dos anéis 3

O senhor dos anéis.O retorno do rei

O cineasta é fiel às características de cada personagem, colocando Gollum como uma criatura de dupla face, assim como situando os dois lados da magia, nas figuras de Gandalf e Saruman. Gollum é apenas um ser levado pelos eventos e pela própria incapacidade de administrar o poder que o anel tem sobre ele, enquanto os dois magos são decisivos para a existência ou não da Terra-média. Por sua vez, Frodo é combativo e não se entrega ao objeto, mesmo que ele possa levá-lo a momentos de perigo, inclusive desconfiando de Sam. No entanto, é preciso, afinal, acreditar na amizade e não no anel. E assim o que poderia se transformar numa espécie de contemplação da fantasia forçada – vemos o elfo brigando sempre com o anão, para saber quem é o mais ágil; a amizade entre Frodo e Sam sem cair em pieguice; a alegria de Gandalf ao avistar os hobbits depois de muitas batalhas – transforma-se em referência.
O que torna O senhor dos anéis uma trilogia respeitável como a do primeiro Guerra nas estrelas é seu talento em humanizar personagens que poderiam ser vistos como estereótipos de um mundo mágico, imersos num cenário que poderia não parecer verdadeiro, contudo acontece o contrário, costurado pelos figurinos, uma fotografia sempre adequada e uma trilha musical esplêndida – como se Jackson tivesse visto, enfileirados, os clássicos de fantasia dos anos 80 e pretendido revitalizá-los com o olhar e a tecnologia contemporâneos. Jackson está interessado em ver o que há atrás dessas personagens, seus significados mais densos e suas preocupações com o que pode ser dito nas fábulas a serem contadas a partir de seus feitos (o que se corresponde com o próprio Tolkien). Por isso, vai apresentando e dando espaço um a um, aos poucos. Claro que as cenas de batalha são muitas e preenchem boa parte da trilogia, mas o aspecto humano nunca escapa às suas lentes, que procuram a dramaticidade mesmo nos momentos em que flechas e fogos disparam para todos os lados e espadas necessariamente se confrontam, em meio à violência da batalha. É claro, também, que sem o elenco de que dispunha não daria certo: McKellen faz um Gandalf antológico, assim como Morttensen um Aragorn sem exageros, apoiados nos momentos bem-humorados de Orlando Bloom e John Rhys-Davies e no cast juvenil dos hobbits (Sean Astin é um destaque, enquanto Elijah consegue mostrar um herói bastante pressionado pela situação, no tom certo), além das antológicas participações de Cristopher Lee e Bernard Hill. Se alguns do elenco não estão à altura (Hugo Leaving e Cate Blanchett), em momento algum prejudica.

O retorno do rei.Série

O retorno do rei.Série 2

Pois, se no início a vida dos hobbits é vista como tranquila, com tocas em meio a montanhas de verde e simpáticas a ponto de parecerem convidar a nossa visita, e os fogos de artifício se transformando em um dragão dão a medida exata dessa fantasia que se inicia, o mundo que se desvenda para os hobbits é muito mais perverso: depois de Valfenda, com suas belas paisagens, eles precisam enfrentar cavernas, vales imensos, sendo perseguidos por orcs, finalmente pântanos (com as imagens de almas), montanhas pouco convidativas e uma caverna habitada por uma aranha gigante. Todavia, esta jornada não é sem efeitos e sem recompensas: os hobbits sabem que estão crescendo em enfrentar tal caminho, e Jackson está interessado em mostrá-lo da maneira mais completa possível. O que poderia ser apenas uma saga para tentar vender mais livros se transforma numa antologia cinematográfica. Peter Jackson entrega uma trilogia clássica, como poucas que conhecemos.

The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, EUA/Nova Zelândia, 2001 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies Produção: Peter Jackson, Fran Walsh, Tim Sanders, Barrie M. Osborne Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 178 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company / WingNut Films

Cotação 5 estrelas

The Lord of The Rings: The Two Towers, EUA/Nova Zelândia, 2002 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies, Brad Dourif, Miranda Otto, Bernard Hill Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Tim Sanders Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens, Stephen Sinclair Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 179 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company

Cotação 5 estrelas

The Lord of The Rings: The Return of The King, EUA/Nova Zelândia, 2003 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies, Bernard Hill, Miranda Otto, Brad Dourif (versão extendida), Christopher Lee (versão extendida) Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Frances Walsh Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 201 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company / WingNut Films

Cotação 5 estrelas