Guerra nas estrelas (1977)

Por André Dick

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Nove anos antes do lançamento de Guerra nas estrelas, 2001 havia cercado o gênero da ficção científica com uma aura de complexidade. Em 1971, na sua estreia no cinema, Lucas resolveu seguir os passos de Kubrick e fazer uma ficção com fundo subjetivo e um clima de lugar ao mesmo tempo futurista e irreal, materializada em THX 1138, com uma atuação interessante de Robert Duvall. Já em Guerra nas estrelas, ele queria também queria diversão em escala grandiosa – diversão inteligente, que soubesse atrair plateias jovens e adultas. Para chegar ao seu objetivo, mesclou elementos medievais (o caráter heroico e guerreiro de seus personagens do bem) com elementos da “era videogame” (espaçonaves, espadas de luz, armas de raio laser, robôs), de forma que acabou conquistando não só esses dois públicos díspares como uma legião universal de fãs, que idolatrou Luke e trupe como os “trekkers”, como são chamados os fãs de Jornada nas estrelas.

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Steven Spielberg, como conta o livro Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Holywood, de Peter Biskind, estava com expectativa de que Contatos imediatos do terceiro grau não fizesse tanto sucesso quanto o de seu amigo George Lucas, em Guerra nas estrelas – criticado, como relata Biskind, pelos amigos de Lucas, menos exatamente Spielberg. Se há uma semelhança entre os dois filmes, ela está no poder que exerce o interesse pelo que está além das estrelas. Spielberg sempre foi um diretor interessado no afastamento da rotina, mas ainda situado no plano real, mesmo de forma indireta, como vemos não apenas em Contatos, como também em E.T., e Lucas sempre mesclou esse afastamento com a construção de um universo paralelo. Pode-se imaginar o quanto Guerra nas estrelas tem da própria concepção existencial de Lucas.
Luke Skywalker, o jovem guerreiro Jedi; Darth Vader, o lado sombrio da força; o mercenário Han Solo; seu amigo Chewbacca; o sábio Obi-Wan Kenobi; os robôs R2-D2 e C-3PO, entre outros, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos – apesar de a história não passar na Terra, seus cenários e paisagens lembram dela – se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores e os ensinamentos espirituais de luta ganham, na trilogia de Lucas, contornos ao mesmo tempo medievais e futuristas.

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Sua história parece formulaica: numa galáxia distante, o jovem Luke Skywalker (Mark Hamill), cujo maior sonho é tornar-se um piloto da Aliança Rebelde, vai embora do planeta desértico Tatooine, onde morava com os tios, para resgatar a princesa Leia (Carrie Fisher), capturada por Darth Vader (David Prowse, com voz marcante de James Earl Jones), o vilão do elmo soturno, que coordena o “império do mal” em sua Estrela da Morte, uma espécie de esfera de metal suspensa no espaço.
Ao lado de Luke, estão o sábio Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness, ótimo, indicado, na época, ao Oscar de melhor ator coadjuvante), Han Solo (Harrison Ford) e Chewbacca (Peter Mayhew), que possuem a Millenium Falcon, uma nave com problemas de ignição, e a dupla de robôs atrapalhados R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). A mensagem por trás das palavras de Obi Wan podem, hoje, parecer ingênuas – e foi criticada à época principalmente por amigos próximos do diretor –, contudo George Lucas conseguiu sintetizar o panorama de uma geração por meio de suas batalhas estelares e criar um cinema de qualidade para a diversão massificada.

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Mesmo tendo criado os personagens e a história-base da trilogia inicial, Lucas dirigiu apenas Guerra nas estrelas, deixando Irvin Kershner e Richard Marquand a cargo, respectivamente, de O império contra-ataca e O retorno de Jedi. A autoria de Lucas, de qualquer modo, é sentido em todos os capítulos. Se Guerra nas estrelas não apresenta ainda figuras trazidas em O império contra-ataca, como o pequeno sábio Yoda, com um direcionamento transcendente, que procura mostrar a Luke o caminho da força e do bem, com o objetivo de transformá-lo num guerreiro Jedi, nem cenários extraordinários, como a Cidade das Nuvens e o planeta gelado Hoth, tampouco a revelação surpreendente para a compreensão da trilogia, Lucas costura tudo de maneira extremamente simples, mas nunca efêmera.
Nesse sentido, embora talvez seja episódio mais reconhecido da trilogia, O império contra-ataca não desperta a surpresa de Guerra nas estrelas, marcando um início da saga que mostra o embate entre o bem e o mal, revelando, por vezes, uma atmosfera sombria, em que estão presentes razões psicológicas que movem o ser humano inserido num universo fantástico, enquanto traz uma vertente mais bem-humorada e, por fim, memorável, da Princesa Leia, de Han Solo, Chewbacca e os robôs, principalmente por causa das atuações de Fisher e Ford. Vencedor dos Oscars de melhor trilha sonora, montagem, direção de arte, figurino, som, efeitos sonoros e efeitos especiais (também teve indicações, entre outras, a melhor filme e direção, apenas se deparando com Noivo neurótico, noiva nervosa, de Woody Allen), Guerra nas estrelas estabelece um ambiente mitológico e coerente com a sua proposta, capaz de remeter a várias épocas e figuras que o estabelecem como uma referência histórica do seu gênero. Mesmo depois de vários episódios e da nova franquia, ainda parece o mais contemporâneo de todos (ao lado, particularmente, de O retorno de Jedi), o que não deixa de ser um feito.

Star Wars, EUA, 1977 Diretor: George Lucas Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing, Alec Guinness, David Prowse, James Earl Jones, Peter Mayhew, Kenny Baker, Anthony Daniels Roteiro: George Lucas Fotografia: Gilbert Taylor Trilha Sonora: John Williams Produção: Gary Kurtz Duração: 121 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: 20th Century Fox

 

Blade Runner 2049 (2017)

Por André Dick

Lançado em 1982, Blade Runner – O caçador de androides, de Ridley Scott, teve uma recepção tímida por parte da crítica e do público, mas acabou se transformando num grande cult, uma obra-prima da ficção científica. Visto como um filme intocável, foi estranho à primeira vista imaginar uma continuação, e sem a direção de Scott. Foi ele, como produtor executivo, quem convidou Denis Villeuneuve para estar à frente da sequência. O diretor canadense se notabilizou nos últimos anos por transitar entre gêneros diferentes, em filmes como Polytechnique, Incêndios, Os suspeitos, O homem duplicado e Sicario – Terra de ninguém. No ano passado, ele fez a elogiada ficção científica A chegada, sobre a tentativa de contato humano com extraterrestres.
Por toda a carga de expectativa, ele parecia cada vez o melhor nome para dirigir Blade Runner 2049. Tendo como base o roteiro de Hampton Fancher (que colaborou no primeiro) e Michael Green, baseado nos personagens de Philip K. Dick, o filme mostra um novo caçador, K (Ryan Gosling), um replicante, que trabalha para a tenente Joshi (Robin Wright), da LAPD, e, quando vai atrás de um replicante mais datado, Sapper Morton (Dave Bautista), numa sequência que lembra a de Leon (Brion James) no original, descobre uma árvore com uma ossada escondida embaixo dela.

Levando os dados para sua equipe em Los Angeles, tão chuvosa quanto no clássico de Scott (spoiler até o fim deste parágrafo), descobre-se que seria da replicante Rachael (Sean Young), desaparecida com Rick Deckard (Harrison Ford) muitos anos antes. K, certamente uma homenagem ao segundo nome do autor que criou esse universo (Kindred), vai atrás de dados dela na corporação comandada por Niander Wallace (Jared Leto), assessorado por Luv (Sylvia Hoeks), que segue a linha da Tyrell original. Nisso, um pequeno cavalo de madeira é a pista para lembranças decisivas, em paralelo com o unicórnio da obra de Scott. Há uma analogia desse símbolo com a árvore sustentada por cordas e uma pequena flor que K recolhe perto dela como se precisasse dela para uma pesquisa científica, tamanha a raridade.
Além disso, K tem uma relação cibernética com Joi (Ana de Armas), um programa de computador que reproduz uma imagem feminina, nos moldes de Ela, mas, como os replicantes do primeiro filme, que então só podiam viver em colônias da Terra, deseja, de forma angustiada, ser humano. Para quem gosta do estilo de atuação de Ryan Gosling (o meu caso), Blade Runner 2049 certamente funcionará melhor. Gosling, como nos filmes de Refn (Drive e Apenas Deus perdoa), usa o mínimo de expressões, mas de maneira relevante e sua busca pelo lado humano que pode existir nele é o mote do roteiro e da direção sensível de Villeuneuve. Suas memórias, mesmo implantadas, são o guia desta viagem. A todo instante, a história pergunta se as sensações são reais ou imaginárias.

O diretor canadense nunca apresentou personagens extremamente simpáticos, e sim conflituosos, e aqui não é diferente. K é um Deckard ainda mais frio, mais concentrado na investigação de por que Rachael morreu e quem seria seu elo de ligação – e sua busca por si mesmo dialoga com a do personagem de Scarlett Johansson em Ghost in the shell este ano. Do lado contrário, Luv faz as vezes de Roy Batty, personagem de Rutger Hauer, com um sentido implacável de abreviar a vida de quem pretende descobrir um determinado mistério decisivo para a trama. Eles são opostos que se complementam. K não deixa de ser um Batty às avessas, com sua paixão real não pela própria existência, mas para compartilhar com os outros sua experiência de vida. O afeto que tem por Joi é real, mesmo romântico (numa cena embaixo da chuva, muito bem filmada por Villeneuve), não o que tem Niander por suas criações – o beijo nelas, depois de deslizarem por uma espécie de placenta plastificada, é um sinal de abandono. O corpo é sempre o símbolo de um prazer proibido (spoiler: K vai ver sua musa desnuda apenas num holograma ao final do filme e sua relação com ela, por meio de Mariette (Mackenzie Davis), é quase impessoal).
Seria talvez desnecessário elogiar a parte técnica, que certamente reproduziria a competência mostrada em Blade Runner. No entanto, é obrigatório: o trabalho de Roger Deakins na fotografia e Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch na trilha sonora (captando as sensações daquela clássica de Vangelis) são exemplos notáveis de como ajudar a contar uma história e tornar este um blockbuster sem elementos de blockbuster (talvez por isso como o primeiro tenha estreado mal nas bilheterias). Além disso, os efeitos visuais trazem um realismo poucas vezes visto em tempos de CGI exagerado: as naves espaciais têm uma movimentação verossímil e Villeneuve, como em Sicario, aproveita para fazer tomadas áreas sobre o deserto de maneira particular. E, na parte de efeitos sonoros, há ecos de A chegada, principalmente, embora aqui sejam mais impactantes.

O filme anterior era mais uma perseguição incessante e atmosférica; este é mais uma investigação, e com todas as minúcias do gênero. Menos noir que o anterior, ele sai de Los Angeles e vai para outros lugares, mostrando mais a amplidão de 2049 do que a opressão da metrópole na vida desses personagens. Isso fica claro desde o início, quando K está atrás de Morton numa espécie de fazenda na Califórnia. Como em Sicario, Villeuneuve está interessado em mostrar cenários imensos, em que o horizonte se perde, e nunca deixa de inserir o espectador num universo futurista incontestável. Se no primeiro Los Angeles parecia Tóquio, com uma profusão infinita de neons, em seu retrato cyberpunk, este lembra mais o deserto… de Las Vegas. No apartamento de K, as luzes do lado de fora remetem mais ao filme de 1982, mas Villeneuve não tenta copiar o estilo de Scott, preferindo os ambientes mais assépticos e menos coloridos, sem também as luzes entrando pelas janelas, uma característica das narrativas noir e dos anos 80. A corporação de Niander lembra muito a do original, mas, ainda assim, parece mais labiríntica, como se a identidade das pessoas se perdesse em corredores e salas frias. Villeneuve sempre foi cuidadoso com o design, mas ele se supera em Blade Runner 2049, levando o espectador realmente para outro universo, com certa influência ainda de Inteligência artificial, na maneira como torna os ambientes desolados e, sobretudo, na sequência passada em Las Vegas, quando há também referências musicais por meio de hologramas e aos duelos de faroeste, que, se resolvidos, só poderiam terminar na mesa de um bar. Em determinado momento, também há uma referência pertinente à exploração do trabalho infantil, porém sem nenhum traço facilitador ou piegas, numa ilha de sucata remetendo a Eraserhead, de Lynch, contrastando com uma reunião de crianças imaginária ao redor de um bolo de aniversário.

Embora Leto e Hoeks tenham participações breves, ambos estão muito bem, assim como Ana de Armas e Robin Wright. Já Harrison Ford, voltando como Deckard, é particularmente emocionante, mais do que sua retomada como Han Solo em Star Wars. Este elenco conserva uma particularidade pessoal, tornando Blade Runner 2049 numa obra bastante independente da primeira, apesar dos óbvios diálogos visuais e temáticos. Se o de Scott tinha uma atmosfera mais pessimista, o novo é mais esperançoso, mas não no sentido do lugar-comum e sim na maneira como visualiza principalmente o trajetória de K. Este é um personagem que amplia a solidão anunciada no clássico de 1982 e, mais ainda, sinaliza para um futuro real. A longa duração (quase 50 minutos a mais que o original) não prejudica; pelo contrário, torna as sequências mais definidas e compostas com um cuidado extremo, fazendo com que cada uma ressoe junto ao espectador. São belas principalmente as que trazem simbologias, como o fogo (nas lembranças de K) e a água (representando a morte e a vida), encontrando na neve (imaginária ou não) o meio-termo para as lágrimas na chuva, da mensagem de Batty, que tanto comovia minha mãe, admiradora do primeiro filme e que, imagino, apreciaria muito também esta nova obra-prima. É um filme que, à medida que é assistido, cresce na imaginação: nunca um replicante do primeiro, mas uma obra grandiosa.

Blade Runner 2049, EUA, 2017 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Dave Bautista, Edward James Olmos, Wood Harris, Mackenzie Davis, Hiam Abbass, David Dastmalchian, Tómas Lemarquis Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer Produção: Andrew A. Kosove, Broderick Johnson, Bud Yorkin, Cynthia Yorkin Duração: 163 min. Estúdio: Warner Bros. Distribuidora: Sony Pictures

Blade Runner – O caçador de androides (1982)

Por André Dick

Os produtores da Warner Bros investiram 30 milhões de dólares nesta ficção científica visualmente brilhante, pensando em repetir o êxito de Alien (do mesmo Ridley Scott). Na primeira exibição, ficaram avessos ao filme, achando-o muito sério e complicado. Preferiram algo parecido com Guerra nas estrelas, ou seja, mais ação e menos reflexão, solicitando que se colocasse uma narração em off do personagem central (Harrison Ford). Resultado: um fracasso de público e recepção dividida da crítica, apesar de indicações ao Oscar e ao Bafta, mas é esta versão que conheci em VHS no final dos anos 80 (com suas imagens finais extraídas de O iluminado, de Kubrick). Porém, ao longo dos anos, o diretor conseguiu definir a sua versão, que não é a relançada em 1992 nos cinemas e sim um corte que veio a público em 2007 (com 117 minutos). Com sua continuação programada para este ano, Blade Runner 2049, dirigida por Denis Villeneuve e novamente com Ford, mas acréscimo de Ryan Gosling, a obra de Scott volta a ser cada vez mais debatida.

Harrison Ford interpreta Rick Deckard, escolhido para capturar um grupo de replicantes (androides com características humanas) que perambula pela Los Angeles de 2019, por seu ex-supervisor, Harry Bryant (M. Emmet Walsh), e recebe a companhia de Gaff (Edward James Olmos). Esses replicantes são proibidos de vir à Terra, pois só podem trabalhar em colônias espaciais.
Mesmo não gostando da tarefa, o policial acaba aceitando, mas se apaixona por uma replicante, Rachael (Sean Young, no filme que a revelou), que trabalha para o criador dos novos seres, Eldon Tyrell (Joe Turkel). O líder dos androides, Roy Batty (o espetacular Rutger Hauer), tenta obter informações sobre quem é: ele deseja, como seus companheiros, ter o tempo de vida de um ser humano e não de um androide (4 anos), e para isso tenta buscar seu criador a fim de que possa se perpetuar. Há uma que trabalha se apresentando com uma serpente, Zhora (Joanna Cassidy), numa boate, numa referência, inclusive literal, a Adão e Eva, e outro extremamente violento, Leon (Brion James). Por sua vez, a androide feita por Daryl Hannah, Pris, aliada a uma maquiagem diferente, é a mais assustadora, ao mesmo tempo que remete a uma imagem de contos de fadas ou de bonecas infantis, indo atrás de quem os confeccionou artesanalmente, J.F. Sebastian (William Sanderson), um homem de 25 anos, porém envelhecido devido a uma doença, que trabalha com Tyrell.

Baseada na novela “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, de Philip K. Dick, com uma grande adaptação feita por David Webb Peoples (que faria o roteiro de Os imperdoáveis, de Clint Eastwood) e Hampton Fancher, a narrativa de Blade Runner por vezes é confusa, mesmo com seus atos dividindo bem esta situação mostrada, entretanto tentar entender seus detalhes sempre dá acesso a um lugar diferente. Deve-se destacar o figurino dos personagens (parecem estar nos anos 40) e a trilha sonora de Vangelis. E, claro, há o impressionante desenho de produção (de Lawrence J. Paull), indicado ao Oscar, mostrando uma Los Angeles futurista, com chuva ácida, mas ainda assim antiga e nos moldes dos anos 80 (com seus néons), com traços góticos e de pirâmides, apoiado na belíssima fotografia de Jordan S. Cronenweth, com luzes vazando pelas janelas e um aspecto soturno que certamente influenciou inúmeros filmes depois, a exemplo de Batman, de Tim Burton. E temos a canção nostálgica “One more kiss dear”. Mas não é para qualquer público ou espectador mais avesso a uma narrativa lenta, o que lhe rendeu o status de cult. Ele tem mais correspondência com um THX 1138 ou um O enigma de Andrômeda do que exatamente com peças mais comerciais, em que os personagens se transformam quase em réplicas de efeitos ou cenários. Aqui os cenários e objetos neles são também personagens: um enorme zepelim futurista anuncia visita a novos mundos e um enorme painel publicitário faz companhia às naves que passam. Os efeitos visuais de Douglas Trumbull (2001, A árvore da vida), também indicados ao Oscar, são notáveis.

Na versão considerada final, há o sonho de Deckard com um unicórnio, o que remete não apenas ao filme seguinte de Scott, A lenda, como também a uma surpresa de Scott que inexistia no original, e que leva a narrativa para um campo ainda mais complexo. Esta é uma legítima ficção científica que consegue amplificar seus conceitos e não pertencer exclusivamente a seu gênero: há um drama localizado em cada um desses personagens, mesclado com uma influência policial noir, que torna Blade Runner numa obra atemporal, baseada em significados culturais mais profundos. É interessante notar também como Scott dispõe a narrativa de modo bastante simples, focando praticamente apenas uma única situação, da qual ele extrai uma investigação realmente inovadora. Acima de tudo, porém, é o olhar poético que Scott tem em relação ao conflito entre humanos e replicantes – a começar pelo teste Voight-Kampff, que aproxima o avaliador do olho do ser investigado. Em outros momentos, Scott destaca os olhos, como os de uma coruja de Tyrell ou quando Batty usa dois de plástico para cobrir os seus, parecendo um desenho animado. Mesmo com a referência à serpente do paraíso por meio de Zhora, ainda mais referencial à religião é Batty e o encontro com o seu criador. Blade Runner não mostra igrejas do futuro, mas seu pano de fundo é sobre a ideia de um divino a ser alcançado. Isso não está longe do cineasta que viria a fazer A lenda, Gladiador, CruzadaPrometheus e Êxodo. De qualquer modo, é seu final (que tanto emocionava a minha mãe, que o tinha como um de seus filmes favoritos) o motivo para se colocar esta obra de Scott entre as maiores já feitas.

Blade Runner, EUA, 1982 Diretor: Ridley Scott Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, William Sanderson Roteiro: Hampton Fancher, David Webb Peoples Fotografia: Jordan S. Cronenweth Trilha Sonora: Vangelis Produção: Michael Deeley, Charles de Lauzirika (Versão Final) Duração: 117 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: The Ladd Company / Shaw Brothers / Warner Bros. Pictures / Michael Deeley Production / Ridley Scott Productions

Cotação 5 estrelas

Star Wars – O despertar da força (2015)

Por André Dick

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Depois de O retorno de Jedi, em 1983, George Lucas resolveu fazer uma segunda trilogia, contando a origem de Darth Vader, e os filmes que conhecemos (de 1999, 2002 e 2005) alternaram bons e maus momentos, mas não chegando a capturar novamente a magia da saga inicial. Era de se esperar, a partir daí, que não houvesse mais filmes envolvendo a família Skywalker nem suas gerações futuras. Não era o que pensava George Lucas quando vendeu os direitos de sua criação para os estúdios Walt Disney pela bagatela de 4 bilhões de dólares. Naturalmente, os estúdios Disney passaram a conceber uma nova trilogia, que desse sequência a O retorno de Jedi e trouxesse de volta os personagens que arrebataram fãs entre o fim dos anos 70 e o início dos anos 80 e constituem uma mitologia à parte dentro do cinema. Para lidar com mitologias cinematográficas, o nome mais acessível nos últimos anos é o de J.J. Abrams. Criador da série Lost, ele fez a terceira parte de Missão impossível e, em seguida, produziu uma espécie de mistura entre Godzilla e Alien em Cloverfield. Mas foi justamente com a retomada de Star Trek, mostrando os personagens em sua juventude, que elevou Abrams ao status de diretor de franquias. Super 8 e a segunda parte de Star Trek apenas antecederam o que ele entrega de melhor: a nostalgia de se reviver um cinema que parecia perdido no tempo.

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O seu Star Wars – O despertar da força é baseado justamente nessa configuração que o levou a ser o cineasta predileto para retomadas de um universo. Ao contrário de Star Trek, no entanto, percebe-se que em Star Wars Abrams não teve a mesma disponibilidade e segurança para empregar o seu próprio universo, que alterna um humor quase desleixado, se não fosse também bastante elaborado. Sua parceria com Lawrence Kasdan – roteirista de O império contra-ataca e O retorno de Jedi – na elaboração da história (a presença de Michael Arndt não parece tão grande) mostra que ele quis retomar alguns caminhos já entregues na primeira trilogia. Desta vez, quem vive no deserto – de outro planeta, Jakku, reservado a ferro-velho – é Rey (Daisy Ridley), em busca de sucata para conseguir mantimentos e sobreviver, que determinado dia encontra um androide perdido, BB-8, que pode trazer, como o R2-D2 no filme inaugural, dados importantes para localizar um determinado personagem. Ao mesmo tempo, temos o dilema de Finn (John Boyega), um stormtrooper que não pretende seguir os mandamentos do novo senhor do lado escuro, Kylo Ren (Adam Driver) – que age ao lado de General Hux (Domhnall Gleeson, nunca antes tão vilão) – e pretende ter uma nova vida.
Abrams tem um grande cuidado ao introduzir esses novos personagens, com o carinho que George Lucas tinha com os seus na primeira saga. Rey é, inicialmente, uma personagem já bastante próximo do público, por sua personalidade cercada de um heroísmo sem o lado espetaculoso. Sua intérprete, Daisy Ridley, é uma descoberta, também por sua semelhança com os registros mais recentes de Keira Knightley, em Anna Karenina e Mesmo se nada der certo, quando sua porção como atriz melhorou muito. Por sua vez, Finn é decisivamente firmado pela interpretação de Boyega, que consegue despertar uma empatia imediata com o espectador. Suas ações vão se encontrar – e isso não é um spoiler – com os personagens antigos, Han Solo (Harrison Ford, em bela atuação) e Chewbacca (Peter Mayhew), num emaranhado de situações que podem lembrar desde o recente Guardiões da galáxia até os filmes antigos da saga, principalmente O império contra-ataca e O retorno de Jedi.

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Abrams tem um cuidado visual muito grande em sua obra, e com Star Wars não é diferente. As partes que alternam lugares com árvores remetem a O retorno de Jedi e as paisagens geladas recordam imediatamente O império contra-ataca. Ainda assim, sente-se que Abrams realmente quer dar um toque autoral ao filme quando escolhe, nesse caminho, focar no conflito trazido pelo vilão Kylo Ren. Não lembro de outra atuação tão efetiva de Adam Driver em sua curta trajetória, mais conhecido pelas peças que fez com Noah Baumbach e nos quais não chega a ter um brilho especial. Como vilão, Driver potencialmente consegue mostrar um componente trágico e que leva a narrativa a uma situação realmente devastadora. Ele não tem a mesma contundência daquela que mostra Benedict Cumberbatch no segundo Star Trek, mas não deixa a dever em termos de ameaça quando finalmente tem um roteiro para trabalhar.
Ainda assim, Abrams fornece ao espectador alguns problemas que não eram encontrados em Star Trek: vejamos como ele elabora rapidamente as ligações de alguns personagens, mas não consegue dar o mesmo fluxo emocional, em razão, principalmente, de estar preso à continuação de uma linhagem. Em Star Trek, ele tinha liberdade porque estava subvertendo o imaginário de Roddenberry, oferecendo uma nova roupagem a Kirk e a Spock. Ele não pode fazer o mesmo com Han Solo ou Princesa Leia, personagens icônicos e que os admiradores da série ligam aos filmes originais. De qualquer modo, ele consegue, principalmente com Han Solo e Chewbacca, mais uma parceria baseada em certo bom humor que consegue agradar ao espectador. E Carrie Fisher surpreende com segurança, sendo, em certa medida, desperdiçada, pelo menos quanto ao potencial que seu personagem apresenta para o núcleo da história.

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Abrams também tem um olho muito atento para os cargueiros e as naves imperiais, além das naves dos rebeldes (novamente), assim como com os stormtroopers, como se ele pudesse reviver parte da infância brincando com esses objetos e efeitos especiais. Há sequências de batalha muito bem filmadas, principalmente uma em que se pronuncia sobre as ruínas de um determinado local, bastante longe do CGI apresentado por Lucas na sua segunda trilogia – é visível como Abrams tentou realmente construir os cenários e evitar a computação gráfica. Existe uma imponência maior no que se refere ao tamanho das naves e aos detalhes que elas carregam, quase inexistentes nos originais. Em alguns momentos, há cenários e figurinos um pouco desajeitados na tentativa de atingir a atmosfera dos originais, sobretudo de clubes esfumaçados com criaturas estranhas, em que surge Maz Kanata (Lupita Nyong’o, por trás da maquiagem e dos efeitos especiais), contrabalançado por uma fantástica concepção de paisagens invernais ao som do que o espectador deseja presenciar nessa continuidade da saga. Abrams não é tão cuidadoso quanto Lucas ao mostrar criaturas horrendas: se Lucas quer focar seu lado cômico, Abrams as emprega com ameaça, como em Super 8 e Cloverfield (não há humor, e sim violência nelas). Há uma certa dose desmedida de violência atípica para uma produção da Disney e mesmo em relação aos episódios anteriores de Star Wars, mais distante da fantasia.
Em termos de visão política, se George Lucas quis carregar todas as tintas na analogia de sua segunda saga com o Senado norte-americano do período de George W Bush, aqui em Star Wars o novo império surge quase como um Terceiro Reich, principalmente numa sequência grandiosa, parecida com o que veríamos num filme sobre a Alemanha nazista. Este elemento destoa, em parte, do universo fantástico que vemos – e Lucas não arriscou sequer em seu segundo filme –, mas não tira o mérito de Abrams.

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Ele, na verdade, parece querer reprisar o que Lucas fez em Guerra nas estrelas com um olhar moderno. Em certos momentos, consegue atingir isso: mostra como os destroços podem constituir uma linguagem. Em outros, apenas se confunde, não dando a importância necessária a personagens como os de Poe Dameron (uma boa criação de Oscar Isaac, ainda que ligeira, pelo menos neste primeiro capítulo da nova trilogia) e Lor San Tekka (Max von Sydow), além do ótimo androide BB-8. É difícil dizer, mas Abrams não consegue a mesma imponência de Kershner e Marquand nos filmes que seguiram ao primeiro Guerra nas estrelas porque lhe falta, aqui, em parte, a liberdade que necessitava, que era justamente empregar sua visão mais pessoal ao universo de Lucas. Sem o grande criador, parecia que estava sendo mais livre, no entanto o contrário acontece algumas vezes: Abrams se apega demais à arquitetura original, sem acrescentar muito da sua, o que se apresenta, principalmente, no terceiro ato. Ele, de certo modo, acerta mais quando cria uma certa aura de mistério, entregando os personagens de modo enviesado. Em alguns momentos, por outro lado, as ações deles não parecem ter a devida ênfase e a interação mais possível. Isso não tira seus méritos na recuperação desse universo, na sua tentativa explícita de se declarar a ele, como quando se busca a mesma força dos novos personagens centrais, que atraem grande parte da energia dessa história e realmente guardam para o espectador um universo grandioso. É muito bom estar de volta a esse universo e à continuação de uma linhagem extraordinária.

Star Wars: The force awakens, EUA, 2015 Diretor: J.J. Abrams Elenco: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Max von Sydow, Peter Mayhew, Gwendoline Christie, Ken Leung, Greg Grunberg Roteiro: J.J. Abrams, Lawrence Kasdan, Michael Arndt Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: John Williams Produção: Bryan Burk, J.J. Abrams, Kathleen Kennedy Duração: 136 min. Estúdio: Bad Robot / Lucasfilm Ltd

Cotação 4 estrelas

Apocalypse now (1979)

Por André Dick

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O cineasta Francis Ford Coppola foi sempre reconhecido, desde o início da saga de O poderoso chefão, como muito próximo da megalomania. Apesar disso, ele teve uma função de destaque ao ajudar novos talentos da Nova Hollywood, como George Lucas, com quem brigou e fez as pazes algumas vezes e que quase realizou Apocalypse now. Se hoje Coppola realiza produções mais discretas (como Tetro e Twixt), ficaram na memória dos produtores os riscos dos anos 80, com O fundo do coração e Cotton Club, e o grandioso Drácula de Bram Stoker, do início dos anos 90. Ainda assim, as filmagens de Apocalypse now, adaptação do livro de guerra “O coração das trevas”, de Joseph Conrad, que podiam aproximá-las de um retrato próximo do inferno, foram as mais conturbadas em muitos anos, e Cimino tentou copiá-las (com êxito) em O portal do paraíso.
Um ator principal substituído depois de cenas rodadas (Harvey Keitel por Martin Sheen, conhecido por Terra de ninguém, de Malick, e que sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens), no período mais chuvoso das Filipinas, a equipe atacada por doenças de todos os tipos, e Marlon Brando fazendo inúmeras exigências e cachê milionário para fazer quase uma participação (embora especial) são os principais elementos dessa produção que se atreveu a desafiar o próprio desastre anunciado pela Guerra do Vietnã, tornando-se, por si só, um desastre financeiro. Continua atual a saga do capitão Benjamin Willard (Sheen), convocado por superiores para tentar encontrar o Coronel Walter E. Kurtz (Brando), que abandonou o exército e se embrenhou nas matas do Camboja com uma espécie de seita a segui-lo como um messias. Homem exemplar do exército, a única razão para suas atitudes seria: a guerra o enlouqueceu.

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Imerso no álcool, o comandante fica impassível diante do pedido, mas segue com um grupo para ajudá-lo. Todos inexperientes e pouco adequados ao cenário da guerra, como um conhecido surfista, Lance (Sam Bottoms). Quando eles chegam a um campo de batalha, e Willard pergunta quem manda ali, sem que se saiba realmente, eles encontram o Tenente Coronel Bill Kilgore (um Robert Duvall antológico), que logo se encanta com a presença do conhecido surfista. Seu hobby é justamente surfar (ou tentar surfar) nas águas do Vietnã. Depois de um ataque orquestrado pela “Cavalgada das Valquírias” e cercado de bombas, ele diz: “Adoro o cheiro de napalm pela manhã”. Com um chapéu de caubói, não há mais índios para matar, e sim vietcongs.
Tudo em Apocalypse now é simbólico, mesmo quando o helicóptero desce num acampamento carregado de coelhinhas da Playboy, e imaginamos não muito diferente o set de filmagem de Coppola, com uma série de rebeldes típicos dos anos 70 (não apenas Brando, como também o “sem destino” Dennis Hopper e, claro, Coppola), sendo possível ver uma atmosfera de show de Jim Morrison no The Doors. Esta primeira parte de Apocalypse now, com seu ritmo entre o violento e o meditativo, é clássico, pois acompanhamos a emoção de Coppola ao adentrar na floresta, com as curvas sinuosas dos rios, as palmeiras e cabanas construídas milimetricamente para sequências de ação grandiosas e que mesmo hoje parecem superar muitos filmes de guerra (os helicópteros em cadeia e em fúria martelam os ouvidos). Ele realmente consegue examinar a guerra como um lugar da loucura forçada, sobretudo na figura de Bill Kilgore. À medida que a selva vai ficando densa, Coppola parece carregado, e carrega o espectador, para o próprio “coração das trevas”. “É o horror, é o horror”, vai repetir mais tarde o coronel Kurtz para um impassível Willard.

Apocalypse now

Apocalypse now, que dividiu o prêmio principal do Festival de Cannes com O tambor, é resultado de idiossincrasias misturadas com genialidade e, à medida que o espectador se torna mais familiarizado com o ambiente, é como se também não conseguisse sair dele. Ainda estamos longe dos humores de Forrest Gump correndo para salvar seus companheiros em meio a bombas de napalm, e a meditação constante de Willard vai se perdendo, como os vultos de seus companheiros, na própria loucura que gerou também a seita de Kurtz e os fez reféns de uma espécie de paraíso perdido em meio à mata. Coppola também evidencia seu cansaço, ao se entregar e entregar sua equipe à própria insegurança do cenário. “Por que Kurtz fez isso?”, vem sempre à mente de Willard, e para o espectador isso passa a exigir não apenas expectativa de um reencontro, inclusive também aversão a ele ter de existir, assim como da compreensão de que ele também, afinal, inserido no mesmo contexto, pode vir a ficar louco. Pois o Coronel Kurtz é Marlon Brando, um ator que um ano antes havia feito o pai de Superman e antes foi o Dom Corleone supremo. Ele é a própria metáfora de Coppola para a guerra do Vietnã: ele fala em ritmo trôpego, e não sabemos exatamente por que há tantas pessoas a segui-lo (Brando se negou a contracenar com Hopper, que faz um fotógrafo seguidor que nunca encontra o mestre, ou melhor, este anuncia o que o próprio ator acaba enfrentando no filme). Mas entendemos toda a atmosfera. Quando surge o território de Kurtz, detrás da neblina, o espectador parece chegar a um espaço habitado pelos povos indígenas, e o cheiro de napalm se mistura com outros.
Atrás das sombras, com a água gotejando da careca, Brando olha para Sheen como Coppola olha para o espectador: por trás de uma possível genialidade, há um vulto precário. Nesse sentido, Coppola metaforiza a guerra do Vietnã como o fracasso de um homem para enfrentar uma guerra e sua busca por aquilo que pode ser capaz de reverter sua expectativa diante do outro. O contraponto não podia ser mais exato do que Willard. Ele viaja para cumprir uma missão. Será que, de fato, ele conseguirá entender esse homem que acaba buscando no material de pesquisa que leva junto consigo? É possível manter uma esperança e uma fidelidade àquilo que se imagina conhecer?

Apocalypse now 6

As respostas não estão dentro do filme, mas em sua moldura. Por mais que surjam novos fotógrafos, é importante lembrar que um dos trunfos de Apocalypse now, para que se conte esta história terrível da guerra, é o italiano Vittorio Storaro, vencedor do Oscar pelo trabalho. Imaginam-se as dificuldades pelas quais a equipe tenha passado, mas não interfere, em nenhum momento, no trabalho brilhante de Storaro, que consegue iluminar e encobrir as cenas com névoa e fumaça da maneira mais adequada – ele consegue destacar filmes como O céu que nos protege e Dick Tracy de forma iniguavável. A fotografia, nesse sentido, é um personagem tão forte quanto os que circulam no filme, sustentando, por exemplo, boa parte da atuação de Brando e mesmo de Sheen, um ator mais introspectivo (para não dizer exatamente limitado, pois deve ter sido uma dificuldade chegar ao fim das filmagens), e que, por isso, é filmado de maneira discreta. No entanto, o mérito dessa escolha é de Coppola, o qual consegue, em seu filme, antecipar o que Oliver Stone e Kubrick fariam tão bem, em Platoon e Nascido para matar, retratando o calor da selva como motivo para a loucura e a transgressão, embora não seja o motivo para que esta guerra seja enfrentada. Para Coppola, a guerra traz a síntese do povo que dela faz parte. É muito difícil, diante dessa verdade, não enlouquecer.

Apocalypse now, EUA, 1979 Diretor: Francis Ford Coppola Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Frederic Forrest, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Albert Hall, Harrison Ford, Dennis Hopper, Scott Glenn, Bo Byers, Linda Carpenter Produção: Francis Ford Coppola Roteiro: Francis Ford Coppola, John Milius, Michael Herr Fotografia: Vittorio Storaro Trilha Sonora: Carmine Coppola, Francis Ford Coppola Duração: 153 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Zoetrope Studios

Cotação 4 estrelas

Vencedor.Palma de Ouro no Festival de Cannes

O retorno de Jedi (1983)

Por André Dick O retorno de Jedi 5 Uma das séries de ficção científica mais conhecidas do cinema, Guerra nas estrelas foi relançada no início de 1997, depois de ser revista pelo diretor, produtor, roteirista e mentor George Lucas. Era formada, até aquele momento, por Guerra nas estrelas (1977), O império contra-ataca (1980) e O retorno de Jedi (1983), respectivamente quarto, quinto e sexto capítulos de uma saga planejada por Lucas para ter três trilogias. Tal relançamento se devia, então, ao fato de Guerra nas estrelas estar comemorando vinte anos e, acima de tudo, pelo fato de Lucas estar planejando os novos capítulos da série (na verdade, o início de uma nova trilogia), intitulados A ameaça fantasma, O ataque dos clones e A vingança do Sith. No entanto, passados todos esses anos, parece que o episódio da primeira trilogia que mais ganha vitalidade é O retorno de Jedi (o famoso capítulo que seria dirigido por David Lynch, que o preteriu em favor de Duna), apesar de ser menos lembrado e muito criticado. 2001 havia cercado o gênero “ficção científica” com uma aura de complexidade. Ao contrário de Stanley Kubrick, George Lucas também queria diversão. Mas diversão inteligente, que soubesse atrair, em escalas iguais, plateias jovens e adultas. Para chegar ao seu objetivo, Lucas mesclou elementos medievais – o caráter heroico e guerreiro de seus personagens do bem – com elementos da de ficção científica – espaçonaves, espadas de luz, armas de raio laser, robôs –, de forma que acabou conquistando não só esses dois públicos como uma legião de fãs, apesar da surpresa inicial (em sessões-teste, Lucas teria visto o primeiro da série ser desaprovado por amigos, com exceção de Spielberg). Em O retorno de Jedi, Lucas apresenta a síntese dessas misturas, por meio da direção de Richard Marquand (O fio da suspeita), com personagens que não são unidimensionais, apesar de aparentarem, e ganham novo ânimo, num roteiro de Lawrence Kasdan (diretor de filmes como O reencontro e O turista acidental), que consegue equilibrar a mitologia de ficção com ensinamentos orientais. O retorno de Jedi 20 O retorno de Jedi 6 O retorno de Jedi 16 Trata-se de um segmento que prefere a diversão à psicologia (fundamental para a série) de O império contra-ataca, amarrando as pontas soltas deixadas por este, sobretudo no que se refere ao triângulo Luke-Leia-Han Solo, mostrando basicamente a mesma história dos anteriores: a Aliança de rebeldes e os companheiros de Luke Skywalker (Mark Hamill) pretendem destruir, de uma vez por todas, o “império do mal” e Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones). Na jornada, Luke e companhia – Princesa Leia (Carrie Fisher) e Lando Calrissian (Billy Dee Williams) – enfrentam o monstruoso Jabba  the Hutt no deserto Tatooine, quando tentam salvar Han Solo (Harrison Ford, desta vez menos aproveitado) e Chewbacca (Peter Mayhew), aprisionados por ele. Esta sequência, impressionante pela grandiosidade dos cenários e da ambientação cavernosa, delineia o contato de George Lucas com o primeiro filme da série e cria uma ponte com o primeiro da segunda trilogia: Tatooine tem todos os perigos que podem se apresentar, e Jabba não é controlado pelos poderes do jedi Luke, nem abre espaço para os robôs R2-D2 (Kenny Baker) e C-3PO (Anthony Daniels). Pelo contrário, esses, como a princesa Leia, seminua, tornam-se escravos, servindo apenas à sua tirania, enquanto Han Solo, carbonizado, é apenas um enfeite na sala do trono, que lembra, pela coleção de bizarrices, uma espécie de cabaré espacial. Depois de uma passagem pelo deserto, onde Jabba pretende matar os adversários com requientes de crueldade, Luke vai até Dagobah, reencontrar-se com Yoda, a fim de completar o treinamento, quando se depara com o espírito de Obi Wan-Kenobi (Alec Guiness). Em seguida, na armada contra o império, Luke e seus companheiros se deparam com os ursinhos Ewoks na lua florestal de Endor e partem para atacar a nova Estrela da Morte, ainda sendo construída, desligando seu campo de energia, embora tudo possa ser apenas um plano para atrair Luke e a Millenium Falcon de Han Solo para a destruição. O retorno de Jedi 11 O retorno de Jedi 12 O retorno de Jedi 13 Considerado surpreendentemente o mais fraco da primeira trilogia – com uma “linha narrativa praticamente inexistente”, conforme Vincent Canby, e “exemplo de cinema impessoal”, com “personagens de quadrinhos vagando num pastiche piadístico das lendas arturianas”, para Pauline Kael –, O retorno de Jedi expande o universo de Lucas, lidando com centenas de figuras num espaço curto de tempo (pouco mais de duas horas) e oferece instantes de magia que me parecem ainda atuais, além de trazer uma direção de arte fascinante de Norman Reynolds (indicada ao Oscar), o mesmo de Os caçadores da arca perdida e Império do sol, assim como algumas das melhores trilhas sonoras de John Williams (também nomeada ao prêmio). Não me parece feito exclusivamente para agradar ao público infantojuvenil, mas material raro de ficção científica – desde a ida de Luke a Tatooine, tentando resgatar Han Solo, ao duelo de motos voadoras na floresta. As cenas revistas por George Lucas na edição especial são poucas, mas essenciais: um número musical no palácio de Jabba (brincando com os musicais de Hollywood dos anos 30), o monstro do deserto, mais detalhado. Elas acompanham a batalha derradeira entre a Aliança rebelde (com a presença dos Ewoks, como se fosse o primitivo contra a tecnologia) e o império, além do duelo definitivo entre Vader e Luke, diante do Imperador, naquele que apresenta um dos momentos mais impactantes da série. Os conflitos familiares de Luke, quando precisa enfrentar o pai e contar a verdade a Leia, são trabalhados num plano mais íntimo. No momento em que são capturados pelos ewoks, eles ficam nas árvores, como se concentrassem ali o mundo fabuloso dos outros dois, e a própria base que os forma. Quando C-3PO é confundido como uma espécie de xamã, de curandeiro, pelos ewoks, isso se comprova ainda mais, fazendo com que conte histórias a essas criaturas de Endor. As histórias, numa espécie de metalinguagem, são sobre as aventuras de Luke e companhia, e a recordação, aqui, é colocada como uma espécie de revitalização dos personagens antes do ato derradeiro. Ao mesmo tempo, há humor que não existia em igual quantidade nos demais, estabelecendo uma ligação direta com a série Indiana Jones, parceria entre Lucas e Spielberg do mesmo período, e os ewoks são fundamentais para isso – para alguns, certamente irritantes e uma desculpa para vender bonecos; dentro do filme, curiosamente primitivos. Eles são o vínculo  entre o passado de Luke – Tatooine – e o futuro – depois do império. Conservam as fábulas e os mitos da floresta, antes das espaçonaves, e anunciam uma derrota para o poderio da tecnologia e da força militar do império, com pedras e troncos de árvores, arcos e flechas, e pendurados em cipós ou galhos. O retorno de Jedi 4 O retorno de Jedi 8 O retorno de Jedi 9 Como os personagens da série, são figuras inseridas num mundo onde os valores humanos se misturam à mais avançada tecnologia de naves e novos universos. Por isso, os enfrentamentos entre o bem e o mal, os temores, os ensinamentos espirituais de luta, ganham, na trilogia de Lucas, e  definitivamente em O retorno de Jedi, contornos ao mesmo tempo passadistas e futuristas. A maioria dos cenários parece constituído in loco – e não frutos de tecnologias excessivas, que prejudicaram a segunda trilogia de Guerra nas estrelas. Mas Marquand e Lucas conseguem ainda mais: um clímax no qual três sequências de ação ocorrem ao mesmo tempo, o que confere à meia hora final substancialmente um grande momento. Nesse sentido, o conflito de Luke passa a ser enfrentar o seu passado, fazendo com que o filme não reprise Star Wars ou O império contra-ataca, e sim avance significativamente. A figura de Palpatine (Ian McDiarmid), o Imperador, que comanda Darth Vader, é este elo que liga Luke a uma tentativa de reinserir a família na personalidade do pai e com os três primeiros episódios de Star Wars. O passado e o futuro se interligam por meio de sua figura, e é preciso recorrer a Yoda e Obi-Wan para enfrentá-lo, pois Lucas está tratando, acima de tudo, de uma genealogia desses personagens. Isto está bem claro na luta final, quando Luke Skywalker parte realmente para o duelo quando Vader diz que tentará trazer sua irmã, Leia, para o lado negro da força. A câmera de Marquand se aproximando do rosto de Luke embaixo da escada, em meio às sombras, querendo evitar a destruição de Darth Vader, é antológica, assim como a sensação de proximidade e receio quando eles se encontram em Endor. Não há equilíbrio sem que haja o real fato que cerca tudo, explicado depois, embora de modo capenga, pela segunda trilogia. O retorno de Jedi, desse modo, consegue ao mesmo tempo trazer discussões apresentadas em O império contra-ataca, mas com uma leveza que o primeiro da série possuía, com uma linha de efeitos especiais espetaculares, os melhores da série, produzindo um universo que ainda hoje, vinte anos depois, continua a suscitar admiração pela competência com que foi criado. Para alguns, Star Wars pode ser uma mera antecipação da era dos video games e dos bonecos que acompanham fast-foods; para quem consegue ver na série o que ela traz, pode ser uma entrada num universo de grande criatividade.

Return of the Jedi, EUA, 1983 Diretor: Richard Marquand Elenco: Mark Hamill, Alec Guinness, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Anthony Daniels, Peter Mayhew, David Prowse, Ian McDiarmid Produção: Howard G. Kazanjian, Rick McCallum Roteiro: George Lucas, Lawrence Kasdan Fotografia: Alan Hume Trilha Sonora: John Williams Duração: 133 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Lucasfilm Ltd.

Cotação 5 estrelas

Blade Runner (1982)

Por André Dick

Os produtores da Warner Bros investiram 30 milhões de dólares nesta ficção científica visualmente brilhante, pensando em repetir o êxito de Alien (do mesmo Ridley Scott). Na primeira exibição, com a montagem sem som, detestaram o filme, achando-o muito sério e complicado. Preferiram algo parecido com Guerra nas estrelas, ou seja, mais ação e menos reflexão. Assim, fizeram vários cortes e solicitaram que se colocasse uma narração em off do personagem central (Harrison Ford). Resultado: um fracasso de público e recepção dividida da crítica. Porém, com o passar dos anos, o diretor resolveu lançar a sua versão. Fato é que Blade Runner não necessitava dessa nova versão, pois é um clássico – e tem ação na medida certa para o clima em que se os personagens se inserem. Harrison Ford é Rick Deckard, nomeado para capturar um grupo de replicantes (androides com características humanas) que perambula pela Los Angeles de 2019.
Mesmo não gostando da tarefa, o policial acaba aceitando, mas acaba se apaixonando por uma replicante (Sean Young, no filme que a revelou) e tem de enfrentar a burocracia da polícia. O romance é meio morno, mas o líder dos androides (o espetacular Rutger Hauer) tenta justificar a violência na parte final. Eles querem ser vistos como humanos, e não meramente como androides. A androide feita por Daryl Hannah, aliada a uma maquiagem diferente, é a mais assustadora, ao mesmo tempo que remete a uma imagem de contos de fadas ou de bonecas infantis. A máquina de Blade Runner por vezes é confusa, entretanto tentar entender seus detalhes sempre dá acesso a um lugar diferente. Repare no figurino dos personagens (parecem estar nos anos 40) e ouça a trilha sonora de Vangelis, que vale a pena. E, claro, há o impressionante desenho de produção (de Lawrence J. Paull), mostrando uma Los Angeles futurista, com chuva ácida, mas ainda assim antiga e anos 80 (com seus néons). Além da canção nostálgica “One more kiss dear”. Mas não é para qualquer público ou espectador.

Blade Runner, EUA, 1982 Diretor: Ridley Scott Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, William Sanderson Produção: Michael Deeley, Charles de Lauzirika (Versão Final) Roteiro: Darryl Ponicsan, David Peoples Fotografia: Jordan S. Cronenweth Trilha Sonora: Vangelis Duração: 118 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: The Ladd Company / Shaw Brothers / Warner Bros. Pictures / Michael Deeley Production / Ridley Scott Productions

Cotação 5 estrelas