O que te faz mais forte (2017)

Por André Dick

O espectador deve se lembrar do ataque terrorista que ocorreu durante a maratona de Boston, nos Estados Unidos, em 2013, quando diversos civis foram atingidos. No ano passado, Peter Berg focou o acontecimento em O dia do atentado, com Mark Wahlberg, com um viés mais policial e de investigação. O diretor David Gordon Green mostra essa história a partir de um jovem, Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), que estava no local para assistir à ex-namorada Erin Hurley (Tatiana Maslany) correndo, ela com o objetivo de ajudar o hospital onde trabalha.
Jeff mora com a mãe, Patty (Miranda Richardson), separada de seu pai Jeff (Clancy Brown), num apartamento de dois quartos, e tem sua vida totalmente transformada pelo acontecimento, à medida que os médicos precisam amputar suas pernas devido aos ferimentos causados pela bomba.

Ele conta aos familiares que viu o responsável pela bomba antes da explosão, e se torna não apenas o retrato da resistência local como uma espécie de herói para os demais habitantes. É disto que O que te faz mais forte trata em linhas gerais. No entanto, não apenas: ele trata da guerra sendo trazida para dentro dos Estados Unidos. Se A longa caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee, mostra um jovem soldado sendo homenageado por uma situação de guerra (no Iraque), e Thank you for your service (com Miles Teller) um grupo traumatizado pelo campo de combate, aqui a figura proeminente é um cidadão até então desconhecido. No momento em que por exemplo leva a bandeira dos Estados Unidos antes de um jogo dos Bostons Bruins, diante de uma multidão e de flashes sucessivos, há uma lembrança decisiva para o personagem central, como se o caos da sociedade alimentasse o momento definidor para ele. A pressão de Jeff não é apenas suportar o que lhe aconteceu, mas o que a sociedade espera dele, como uma espécie de testemunha e sobrevivente desse terrível acontecimento. O roteiro de John Pollono baseado no livro de Jeff Bauman e Bret Witter revela soluções para o encadeamento das ações, nunca se transformando apenas numa cinebiografia e sim ressaltando os elementos universais que coexistem na narrativa de modo intenso.

Tendo tido algumas das melhores atuações nos últimos anos, em filmes como O homem duplicado, O abutre, Demolição e Animais noturnos, Gyllenhaal se recupera muito bem do seu terrível overacting em Okja. Trata-se de uma atuação comovente na medida certa, em seus conflitos com Erin e sua mãe, Patty, assim como os momentos de reconciliação. Jeff começa a se mostrar justificadamente abalado e atraído pela bebida para tentar esquecer sua situação. No entanto, o que o diretor Green faz é muito mais eficaz: ele mostra como um determinado acontecimento lida não apenas com o extremo da pessoa visivelmente atingida como aqueles familiares que o cercam, do mesmo modo que os amigos próximos. Maslany, como a namorada de Jeff, tem uma atuação extraordinária, assim como Carlos Sanz na pele de Carlos Arredondo e Richardson como sua mãe. São os coadjuvantes que ajudam Gyllenhaal a ter uma atuação ainda melhor e indicar momentos que talvez não fossem tão intensos, a exemplo da discussão que se dá num pub com homens desconfiados de que Jeff teria participado de algo combinado de antemão, numa paranoia extrema.

O que te faz mais forte tem elementos que lembram Sully, o filme de Clint Eastwood sobre  o piloto de avião que aterrissou no Rio Hudson, talvez pela simplicidade narrativa e por acreditar na força de seu personagem central para contar uma história decisivamente humana. Quando Jeff Bauman precisa lidar com sua condição nas primeiras vezes, é o retrato contundente de uma superação na qual a construção da família se torna outro pilar para se mostrar sempre aguerrido. Sua reaproximação da antiga namorada se dá de maneira sinuosa, sem uma predisposição dramática intensa e sim uma tranquilidade de que a mudança deve se mostrar mais efetiva.
Diretor de obras indies respeitadas (George Washington, Contra corrente), Gordon Green nos últimos anos se situou entre comédias desconexas (Sua alteza), retratos de um homem comum (Joe) e uma análise semidocumental das eleições (Especialista em crise, uma espécie de No com Sandra Bullock), mas volta a mostrar seu melhor em O que te faz mais forte. Isso inclui diálogos críveis e uma montagem suficientemente atraente para que não esqueçamos da importância de cada personagem e do drama existencial maior que cerca cada pessoa. Seu filme comove do melhor modo e dá a importância adequada aos acontecimentos enfocados.

Stronger, EUA, 2017 Diretor: David Gordon Green Elenco: Jake Gyllenhaal, Tatiana Maslany, Miranda Richardson, Clancy Brown, Carlos Arredondo Roteiro: John Pollono Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Michael Brook Produção: Jake Gyllenhaal, Michel Litvak, Scott Silver, Todd Lieberman, David Hoberman Duração: 119 min. Estúdio: Bold Films, Mandeville Films, Nine Stories Productions Distribuidora: Lionsgate, Roadside Attractions

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Okja (2017)

Por André Dick

O diretor Bong Joon-ho tem um clássico incontestável chamado Memórias de um assassino, de 2003, que inspirou diretamente Zodíaco, de David Fincher. Em Okja, lançado no Festival de Cannes sob protesto, em razão de ser distribuído pela Netflix, ele parece querer uma mescla entre O hospedeiro, sua obra mais cultuada, e a fantasia de filmes norte-americanos, além de referências a animações orientais. Em 2013, com O expresso do amanhã, o cineasta já tentava um salto para Hollywood, o que acontece plenamente aqui: este é um filme, apesar de não aparentar, extremamente comercial, e de modo algum é seu problema.
Começa mostrando em 2007 Lucy Mirando (Tilda Swinton), da Mirando Corporation, que faz um anúncio: sua empresa está criando um concurso cuja finalidade é escolher um super-porco. Vinte e seis dos melhores porcos são enviados a diferentes partes do mundo para que sejam criados por diferentes pessoas e culturas. Passam-se 10 anos e conhecemos Mija (Ahn Seo-hyun). Ela vive feliz com seu amigo animal, chamado Okja, no alto de uma montanha na Coreia do Sul, junto com seu avô (Byun Hee-bong). Esses momentos lembram as melhores peças sobre o cotidiano familiar de Hirokazu Koreeda, com um aproveitamento da natureza de maneira efetiva – e a cena na qual Mija corre perigo é especialmente bem feita, com auxílio da fotografia sempre excelente de Darius Khondji.

Eles recebem a visita do zoólogo e apresentador de TV a serviço da Mirando Corporation, Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal), que declara Okja como o ganhador do prêmio, um pequeno porco de ouro. Como o avô dizia que iria comprar o animal para Mija, ela fica desapontada e resolve seguir seu melhor amigo até Nova York. No entanto, ainda em Seul, um grupo chamado Frente de Libertação Animal, liderado por Jay (Paul Dano), tenta salvar a rara criação numa sequência de ação muito bem feita. Esta FLA tem todo o histórico de um grupo do gênero: denunciar a violência que se praticamente contra animais, e se vê a raridade desse tema, pois pouquíssimos filmes o apresentam da maneira que surge aqui, e trata-se de um ponto interessante.
Bong Joon-ho tem um humor excêntrico em seus filmes e não é diferente em sua nova obra. Os vinte minutos iniciais são certamente os melhores, mostrando a convivência de Mija e Okja. No entanto, à medida que a trama progride e entram novos personagens, não há um bom desenvolvimento. O diretor sempre teve alguns problemas em dosar drama e humor e aqui ele pende para o lado excêntrico, subutilizando Swinton e Gyllenhaal, ambos talvez em seus piores momentos.

Swinton, particularmente, exagera de forma desmedida e, sendo uma das coprodutoras do filme (ao lado de Brad Pitt), tem mais participação do que merecia sua personagem (em que ela aparenta tentar uma semelhança com o Willy Wonka de Johnny Deep), o que prejudica muito a história. Por sua vez, Gyllenhaal tenta uma caricatura que seja engraçada, no entanto o roteiro que recebe não é bom e sua alternativa acaba sendo a saída menos exitosa. Ahn Seo-hyun, para compensar, tem uma excelente atuação, embora a ligação com o avô ganhe pouco espaço (e Byun Hee-bong está ótimo) e Paul Dano, apesar de um personagem oscilante, também convence. Apenas não é dosada sua participação: uma cena específica quase tira o espectador do filme, completamente deslocada. A talentosa Lily Collins, entretanto, é desperdiçada como Red, uma das integrantes do grupo de proteção aos animais.
Claro que a mensagem está evidente a cada minuto e é inspiradora num universo em que os animais são submetidos a maus tratos inaceitáveis. No entanto, o diretor não consegue mesclar o pano de fundo sério com a comédia que tenta fazer em algumas situações: tudo soa excessivamente forçado e desgastante para o espectador. O tom é certamente o grande problema da narrativa, saltando do drama para a comédia sem nuances e um trabalho de elaboração dos personagens. Nisso, a violência, se não é forte como a de Fast food nation, de Linklater – sobre matadouros na fronteira com o México –, ou do recente terror Raw – que mostra estudantes de veterinária sem muita compaixão pelos animais –, soa pouco encaixada e como uma tentativa de esclarecer o que o espectador já entende em relação aos personagens maléficos. Isso já acontecia em O hospedeiro, no qual o suspense se diluía com um bom humor intruso.

A figura de Okja é extraordinária, parecendo um hipopótamo com agilidade de um cão, extremamente marcante, e os efeitos visuais muito bons, mas se sente desperdiçada, quase como um personagem central que realmente não tem destaque – concentrando-se tudo nos humanos. A crítica às corporações e às mídias sociais soa caricato e apressado, nivelando tudo com uma excentricidade que não cabe na narrativa e tentando ser didático demais para o espectador. A ironia é melhor aproveitada: “O inglês abre portas. Aprenda”, diz um integrante do FLA a Mija, sendo que os norte-americanos são os vilões explícitos. Okja era um dos filmes que eu mais esperava no ano – e sua decepção é lamentável. Ele tinha potencial para ser excelente e não chega, particularmente, a ser bom. No entanto, ele tem todas as características para se tornar um cult realmente apreciado e lembrado por causa de seus temas. Ou seja, Okja funciona mais em seu diálogo com a realidade, mesmo com elementos de fantasia, do que como obra cinematográfica.

Okja, EUA, 2017 Diretor: Bong Joon-ho Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Ahn Seo-hyun, Byun Hee-bong, Steven Yeun, Lily Collins, Yoon Je-moon, Shirley Henderson, Daniel Henshall, Devon Bostick, Choi Woo-shik, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal Roteiro: Bong Joon-ho, Jon Ronson Trilha Sonora: Jaeil Jung Fotografia: Darius Khondji Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Lewis Taewan Kim, Dooho Choi, Seo Woo-sik, Bong Joon-ho, Ted Sarandos Duração: 120 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Lewis Pictures, Kate Street Picture Company Distribuidora: Netflix

 

Vida (2017)

Por André Dick

Qualquer filme situado no espaço sideral com uma ameaça iminente de um ser indefinido remete a Alien, o clássico de Ridley Scott. A obra de Scott foi tão definidora para o gênero que todas que tentam repeti-la – inclusive o diretor, em Prometheus – são criticadas, com exceção de John Carpenter em O enigma de outro mundo, embora baseado numa ficção dos anos 50 e localizado numa estação da Antártida. Quando se trata de um filme que inicia uma sequência sem cortes mostrando astronautas em uma estação espacial, uma homenagem a Emmanuel Lubezki, pode-se perceber que a outra influência é mais clara ainda: Gravidade, de Alfonso Cuarón. Esses dois elementos se reúnem em Vida, dirigido pelo sueco de ascendência chilena Daniel Espinosa. E apenas essa mescla serviu para que a crítica em geral demitisse o filme ou o classificasse como sem nenhuma qualidade à vista. Embora não haja como fugir à comparação, não há por que destituí-lo de qualidades por causa justamente disso.
Seu roteiro mostra inicialmente a rotina de seis membros da Estação Espacial Internacional: o diretor médico David Jordan (Jake Gyllenhaal); a oficial britânica Miranda North (Rebecca Ferguson); o engenheiro de sistemas Rory Adams (Ryan Reynolds); o piloto japonês Sho Murakami (Hiroyuki Sanada); o biólogo britânico Hugh Derry (Ariyon Bake); e a comandante russa Ekaterina Golovkina (Olga Dihovichnaya).

Essa equipe multiétnica aguarda uma sonda que volta de Marte com uma pequena amostra do solo capaz de trazer alguma evidência de que há vida no planeta vermelho. Estudada por Hugh, ela logo se torna um organismo complexo, embora mais parecido com uma folha de planta em movimento saída de alguma animação da Pixar, e recebe o apelido de “Calvin”. Pode-se perceber o diálogo com outro biólogo que habitou o planeta, justamente o personagem de Matt Damon em Perdido em Marte. Por sua vez, Reynolds, que trabalhou com o diretor em Protegendo o inimigo, ao lado de Denzel Washington, mostra uma composição dramática eficiente que faz lembrar um de seus melhores momentos como ator, em À procura, e Gyllenhaal, dentro do que se propõe, entrega a ênfase necessária para seu personagem. No entanto, de todos no elenco, são Rebecca Ferguson e Ariyon Bake que mostram a sensação própria que caracteriza a obra de Espinosa: esta parece uma cápsula congelada na qual o espectador adentra com certa resistência.
O que aproxima Vida ainda mais é o fato de que o filme não se passa num futuro longínquo e sim com matéria atual, em que os personagens veem a Terra da estação sideral e querem trazer para a ciência a descoberta de algo novo: eles não estão em busca de minério, como a nave de Alien, e sim à espera do que anuncia Marte (cada vez mais em voga). Junto a essa visão de uma equipe com pessoas de vários países, Vida se sente mais realista do que uma ficção científica concebida para fugir ao gênero: o que vai acontecendo surge com o choque de partir de elementos reais ou que tentam se aproximar mais da realidade. Como no projeto de Cuarón, esses homens e mulheres podem estar em qualquer estação espacial fora da Terra.

Com uma fotografia excepcional de Seamus McGarvey, habitual colaborador de Joe Wright, e uma trilha imponente de Jon Ekstrand, Vida poderia ser apenas mais um genérico. No entanto, em seus elementos de produção, ele não fica nada a dever aos melhores filmes de ficção científica. A direção de arte de Steven Lawrence (Rogue One e Batman – O cavaleiro das trevas) e e os efeitos visuais são excepcionais, principalmente quando mostra os personagens fora da estação ou percorrendo seus túneis. Mais: se Espinosa não traz questionamentos existenciais, o seu suspense não fica a dever para os melhores de seu gênero, principalmente no sentido de criar sustos. O roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick, parceiros também em Deadpool e Zumbilândia, mescla um senso de espaço e de desespero depois de meia hora que poucas vezes se vê em filmes ambientados no espaço, mesmo porque quase inexistem. Se há algum problema se encontra no prólogo dado aos personagens antes de desencadear a situação-chave, nunca devidamente interessante: o espectador é apresentado muito rapidamente a cada personagem, vendo suas características básicas, embora mesmo assim nos interessemos por cada um deles, por causa das atuações, muitas delas minimalistas dentro do contexto em que são oferecidas, mas verossímeis, com envolvimento em cada cena.

Ao mesmo tempo, Vida causa um desconforto não apenas em relação ao isolamento dessas figuras no espaço quanto a real claustrofobia de se encontrar numa situação bastante inesperada. O diretor utiliza o capacete dos astronautas para acentuar esse ambiente sufocante com extrema eficácia. Isso é visto poucas vezes no cinema de maneira tão clara – a última vez foi exatamente em Gravidade. Se no filme de Cuarón a saudade da astronauta feita por Sandra Bullock era da Terra, aqui se pensa em apenas uma coisa: em evitar que qualquer ameaça de fora chegue ao planeta. Essa batalha é travada com diálogos suficientemente angustiantes para dar à história um tom de perplexidade. Que o baixo orçamento desse filme (58 milhões), um pouco mais do que metade daquele de Gravidade, mais do que visíveis na tela, tenha retornado tão pouco em termos de bilheteria até agora (68 milhões), é de se lamentar. Vida é um exemplar que se insere num padrão esperado e ainda assim consegue ser mais do que eficiente.

Life, EUA, 2017 Diretor: Daniel Espinosa Elenco: Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds, Hiroyuki Sanada, Ariyon Bakare, Olga Dihovichnaya Roteiro: Paul Wernick, Rhett Reese Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Jon Ekstrand Produção: Bonnie Curtis, Dana Goldberg, David Ellison, Julie Lynn Distribuidora: Sony Pictures / Sony Pictures Home Entertainment Estúdio: Columbia Pictures / Skydance Media / Sony Pictures Entertainment (SPE)

Animais noturnos (2016)

Por André Dick

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O cineasta Tom Ford estreou em Direito de amar, em 2009, com uma atuação vigorosa de Colin Firth indicada ao Oscar antes do papel que lhe renderia de fato o prêmio, no ano seguinte, com O discurso do rei. Ligado ao universo da moda, cujos trabalhos incluem ser diretor criativo na Gucci e Yves Saint Laurent, Ford demonstrava talento numa trama minuciosa e uma bela fotografia em preto e branco. No seu segundo experimento, Animais noturnos, ele mostra Susan Morrow (Amy Adams), proprietária de uma galeria de arte, que recebe o manuscrito do livro Nocturnal animals, de seu ex-marido, Edward Sheffield (Jake Gylleenhaal). Seu casamento com Hutton Morrow (Armie Hammer) passa por um momento delicado, com infelidelidade da parte dele.
Susan inicia o livro e, a partir daí, vemos Ford alternar entre o que acontece nele e a realidade da personagem. No romance, Tony Hastings (Gyleenhaal) viaja com a esposa, Laura (Isla Fisher), e a filha, India (Ellie Bamber), por uma estrada do Texas, quando são abordados pelo carro de Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson), Lou (Karl Glusman, cada vez mais presente depois de sua boa participação em Love, de Gaspar Noé) e Turk (Robert Aramayo). O que acontecerá a eles será o mote da narrativa, principalmente para construir um elo entre o presente de Susan e o passado em que estava casada com o marido e teria um filho. No livro, chega-se ao ponto em que Tony precisa recorrer a um xerife, Bobby Andes (Michael Shannon, espetacular).

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Susan não consegue dormir – ela ganha o apelido de “animal noturno” por causa disso – e em sua galeria, também em razão da maquiagem que utiliza, parece mais uma espécie de vampira. Há claras referências aqui, nos cenários e comportamentos dos personagens, a filmes de David Lynch, especificamente A estrada perdida, Coração selvagem e Veludo azul. Onde Lynch é mais interessante – na maneira como consegue conciliar suas narrativas a um surrealismo quase natural -, Ford é mais comedido, embora às vezes imite até as roupas e maquiagens do filme de Lynch. Quando Laura Linney aparece como Anne Sutton, mãe de Susan, é claro que ela deve lembrar Diane Ladd em Coração selvagem, assim como Andrea Riseborough, no papel de Alessia Holt, casada com Carlos (Michael Sheen), evoca qualquer estranheza de Twin Peaks.
Animais noturnos tem um início um pouco desinteressante, na maneira que salta da vida de Susan para as páginas do livro, mas, à medida que a trama avança, o paralelo começa a ser construído de maneira eficiente, com atuações notáveis de todo elenco. Amy não chega a construir um personagem por completo, e ainda assim está excelente, assim como Taylor-Johnson surpreende e Gyleenhaal volte a mostrar por que se trata de um ator excepcional para papéis curiosos. Ford utiliza o subtexto – o romance – como uma forma eficiente de entender o casamento de Susan e Edward, o que se esclarece nas digressões, em que ela relembra como o conheceu e como eram os dois quando casados. Esses flashbacks se situam entre a atmosfera soturna a vida de Susan e o frio oposto ao calor do lugar onde Edward situa sua história: quando há uma determinada revelação, ele se encontra embaixo da chuva. A fotografia de Seamus McGarvey, habitual colaborador do diretor inglês Joe Wright, utiliza esse conflito de atmosferas para fazer brilhar sua iluminação, dialogando com outro sucesso deste ano, A qualquer custo, com Jeff Bridges (que será lançado em fevereiro).

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Nesse sentido, além de ser uma sátira ao papel da arte na vida do indivíduo – vejam-se, por exemplo, as esculturas da galeria de Susan, ou o vestuário de sua funcionária, Sage Ross (a sempre estranha Jena Malone), e mesmo o nome de uma amiga, que remete a um personagem clássico do terror, Samantha Van Helsing (Kristin Bauer van Straten) -, Animais noturnos é um exemplo de como mesclar ficção, realidade e cinema, além de homenagens ao cinema surrealista. O comportamento do xerife, muito por causa da atuação de Shannon, adquire um ar de impacto que falta ao início do filme, com a revelação de que ele está com uma doença e precisa lidar com os criminosos da maneira mais direta possível. E Shannon joga todas suas cenas com uma frieza que teria feito bem à composição de seu Zod em Homem de aço, uma mescla entre um personagem de Fargo e de um xerife de faroeste dos anos 50. Uma cena exemplar dessa situação surreal é quando ele encontra o criminoso Ray Marcus num momento que deveria ser privado – e Aaron Taylor-Johnson parece ser como uma escultura viva da galeria de Susan, tamanho o absurdo da situação em que se encontra. Formado em arquitetura, Tom Ford também sabe construir cenários que ele dispõe como peças de um grande tabuleiro, em que um vai se ligando ao outro de maneira ousada e inquestionavelmente interessante, transformando Animais noturnos nos símbolos que questiona a cada momento.

Nocturnal animals, EUA, 2016 Diretor: Tom Ford Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Aaron-Taylor Johnson, Michael Shannon, Armie Hammer, Isla Fisher, Ellie Bamber, Andrea Riseborough, Michael Shannon, Karl Glusman, Robert Aramayo Roteiro: Tom Ford Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Abel Korzeniowski Produção: Robert Salerno, Tom Ford Duração: 115 min. Distribuidora: Universal Estúdio: Focus Features / Universal Pictures

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Zodíaco (2007)

Por André Dick

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O cineasta David Fincher, depois de realizar o subestimado Alien 3, regressou com Seven, que traz Brad Pitt e Morgan Freeman, como investigadores de um serial killer. Em Seven, os diálogos não se mostram tão importantes quanto o clima mórbido, com reviravoltas e uma experiência sensorial, cercada por uma galeria de mortes inspirada nos sete pecados capitais. Fincher pinta um retrato cruel da sociedade, sobretudo impactante. Depois de Clube da luta e Vidas em jogo, ele realizou O quarto do pânico, ainda tateando, indefinido, como nesses anteriores, entre a estética e a história bem contada, mostrando uma mãe (Jodie Foster) e sua filha (Kristen Stewart), com problema de asma, presas num quarto do pânico, por causa de um assalto que acontece em sua casa. Se há problemas narrativas, Fincher trabalha de forma notável o elemento claustrofóbico.
Em Zodíaco (daqui em diante, possíveis spoilers), Fincher volta ao clima de perseguição a um psicopata de Seven com todas as doses de suspense de que é capaz e consegue solucionar o clima de O quarto do pânico de forma efetiva. Mostra isso ao começar contando a história do assassino que se autonomeia Zodíaco (ele mandava cartas para jornais, incitando a polícia e novas vítimas), mas nunca consegue ser descoberto, ao longo de anos, mesmo investigado por um policial, David Toschi (Mark Ruffalo), acompanhado de William Armstrong (Anthony Edwards), sob o comando do Capitão Marty Lee (Dermot Mulroney).

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Esses investigadores ganham a parceria de Jack Mulanax (Elias Koteas), em Vallejo, e Narlow Ken (Donal Logue), em Napa. Todos os seus crimes são cometidos sem deixar pistas: inicia-se no dia 4 de julho de 1969, em meio a festividades dos Estados Unidos, com fogos de artifício riscando o escuro da noite e a quebra com a inocência dos anos 50 e 60 – depois de os personagens pararem numa lanchonete à la American graffiti –, e o mais impactante é um à beira de um lago, quando um casal é abordado pelo criminoso que surge por trás das árvores (com o Zodíaco desenhado em sua roupa), e sua tentativa mais assustadora aquela em que aborda uma mulher na estrada.
Fincher mostra a repercussão dos assassinatos do Zodíaco no San Francisco Chronicle, com a cobertura de um jornalista alcoólatra, Paul Avery (Robert Downey Jr., excelente). Todas as tramas ganham o interesse de um cartunista do jornal, Robert Graysmith (Jack Glylenhaal, no melhor papel de sua carreira, escolhido por Fincher depois de assistir a Donnie Darko), obcecado pelo caso e pela criptografia enviada pelo Zodíaco para provocar os leitores do jornal. Trata-se de um caso quase impossível e coloca até sua mulher, Melanie (Chloë Sevigny), e seus filhos em perigo para conseguir obter novas pistas, sobretudo quando a polícia se mostra cansada com a procura sem resolução.
Graysmith se torna amigo de Avery, tentando fazer parte da investigação, e são especialmente divertidos os momentos em que o jornalista diz a seu chefe que está sendo ameaçado. Além disso, Fincher, com seus ambientes amarelados, por meio do auxílio da excelente fotografia de Harris Savides, dialoga abertamente com Todos os homens do presidente, de Alan J. Pakula, sobretudo nos debates da redação sobre como os crimes do Zodíaco devem ser abordados. Também provoca suspense a procura para desvendar a caligrafia do assassino, com um especialista, Sherwood Morrill (Phillip Baker Hall), além de haver as tentativas de um apresentador de TV, Melvin Belli (Brian Cox), em estabelecer uma ligação com o assassino pretendendo antecipar suas ações.

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Ao contrário de Seven, não temos, aqui, crimes a serem solucionados da noite para o dia, mas uma indagação que percorre anos, décadas, desde os anos 1960, entrelaçando diferentes personagens interessados ou não pelo crime. Fincher não entrega qualquer resposta, pois no fim das contas quer relatar como uma história hedionda pode perpassar a própria atemporalidade das pessoas envolvidas, que vão do ápice ao desaparecimento, ou ao contrário, em segundos. Nesse sentido, sua aproximação de Memórias de um assassino, de Joon-Ho Bong, se destaca, com a obsessão da polícia em capturar um criminoso imprevisível durante anos (o filme de Fincher apenas tem menos humor). Quando surge Arthur Leigh Allen (John Carroll Lynch), essa sensação se mostra ainda mais presente. Aos poucos, cada policial começa a imaginar que as demais investigações só podem andar se o Zodíaco for preso; é como se ele fosse um impecilho em suas vidas. Do mesmo modo, Graysmith passa a se desentender com a mulher, à medida que, mesmo com filhos, concentra seu olhar numa possível investigação pessoal, trazendo para casa telefonemas anônimos. O tempo corre para todos, mas o espectador não o vê passar na Golden Gate Bridge, apenas na construção de edifícios e na passagem de datas assinalada pelo diretor, além de na clara construção psicológica dos personagens.
A cada pista não correspondida, Fincher não mostra nenhum mistério solucionado e cenas de perseguição gratuitas, mantendo-se mais no plano da investigação em cima de materiais enviado pelo Zodíaco ao jornal de San Francisco e nos documentos de delegacias e depoimentos. Ele parece interessado, muito mais, em cada personagem do que em Seven ou qualquer outro filme – talvez pela admiração que tem com os personagens reais, pois trata-se de uma história que habitou sua infância. Está lá também sua homenagem ao cinema, quando Graysmsith encontra Toschi na sala em que é exibido Dirty Harry – com Clint Eastwood –, cuja história tem ecos de Zodíaco. Toschi sai do cinema perturbado por exatamente não conseguir solucionar o crime que lembra o do filme.

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Numa metalinguagem sensível à obra de Fincher, mais bem solucionada do que normalmente, o diretor ainda mostra um encontro entre Graysmith e alguém que teria trabalhado com o assassino num cinema. Nele, pode-se dizer que Fincher brinca claramente com a obra de Hitchcock, quase sendo uma homenagem à parte. Mais interessante é que surge uma amizade também entre Graysmith e Toschi, e a habitual competência de Ruffalo para compor papéis cotidianos com sensibilidade cria um grande vínculo com a insistência cercada de ingenuidade de Glyllenhall.
Como em O curioso caso de Benjamin Button, A rede social e Millennium, Fincher está interessado na progressão que cada um desses personagens tem para a história e na história, deslocando-se de uma década para a outra sem nenhum sobressalto, mas como se tudo fosse atemporal. Isso ganha a colaboração da excelente trilha sonora e da fotografia de Savides. Se em seu início a estética crescia sobre o roteiro e os personagens, em Zodíaco Fincher começa a atingir o equilíbrio. Com isso, revela-se, em toda sua abrangência, a obsessão pelos detalhes e pelos personagens complexos. E ainda revela mais: um dos artesãos mais sensíveis que o cinema ofereceu nos últimos 20 anos, pelo menos.

Zodiac, EUA, 2007 Diretor: David Fincher Elenco: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr., Brian Cox, John Carroll Lynch, Richmond Arquette, Bob Stephenson, John Lacy, Chloë Sevigny, Elias Koteas, Dermot Mulroney, Philip Baker Hall, David Lee Smith, J. Patrick McCormack, Adam Goldberg, James LeGros Roteiro: James Vanderbilt Fotografia: Harris Savides Trilha Sonora: David Shire Produção: Ceán Chaffin, Brad Fischer, Mike Medavoy, Arnold Messer, James Vanderbilt Duração: 158 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Warner Bros. Pictures / Phoenix Pictures

Cotação 5 estrelas

 

Chamada.Filmes dos anos 2000

O abutre (2014)

Por André Dick

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Os filmes que avaliam criticamente o jornalismo estiveram sempre em alta desde Todos os homens do presidente e Rede de intrigas. Nos anos 80, tivemos peças excelentes, como Ausência de malícia e Nos bastidores das notícias, nos anos 90 os quase esquecidos O jornal e A testemunha ocular e mais recentemente Boa noite e boa sorte. Este ano, o filme a figurar com este tema é O abutre, que relata a história de Louis Bloom, um jovem que determinado dia, ao ver alguém cobrindo um determinado acidente, decide conseguir uma câmera de maneira ilícita e começar a trabalhar por conta própria. Como cinegrafista amador, mas com vontade de se profissionalizar, ele se torna uma espécie de rival para Joe Loder (Bill Paxton), o único cara da cidade que parece ter o mesmo interesse do que ele em captar imagens fortes, e cria uma amizade com uma produtora da TV, Nina Romina (Rene Russo), bastante interessada em violência, preferencialmente em bairros ricos. Eles se complementam e as cenas em que ficam diante da imagem de Los Angeles à noite diz muito do reflexo que ambos projetam.
Com um discurso pronto para o convencimento alheio, de que tem tudo à mão para ser um grande representante da captação de imagens violentas para o sucesso dos noticiários que se alimentam dela, Louis também acaba se mostrando alguém que se importa com um rapaz, Rick (Riz Ahmed), sem paradeiro definido. É Rick quem Bloom escolhe para que o acompanhe nas jornadas à noite, em busca de notícias e, consequentemente, de imagens, alimentado pelas mesmas informações que os policiais recebem. Ele se torna uma espécie de mensageiro daquilo que especifica o título original: da vida noturna de Los Angeles. Não por acaso, esse personagem usa óculos escuros de dia: ele se alimenta da noite e a praia para ele significa apenas a possibilidade de roubo para trocar por mercadorias que lhe interessem. Ele é Bloom como o personagem de Joyce em Ulisses, que atravessa o dia e a noite para perceber que tudo continuará indefinido.

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Jake Gylenhaal chama a atenção como este papel leva sua maneira de interpretar discreta a um extremo contrário: ele é a figura principal de O abutre, e o filme, consequentemente, se baseia nele e seus freqüentes exageros e nervosismo. Ele mostrava o contrário este ano com O homem duplicado, quando, com suas características de interpretação, Gyllenhaal desenhava um perfil interessante de alguém com dupla personalidade. Mas, se lá o roteiro era um enigma, aqui ele procura a mudança em seu físico (seus olhos nunca lembraram tanto os da irmã, e igualmente boa atriz, Maggie) e a tentativa de introduzir uma maneira de falar diferente. Depois de um início um pouco mal resolvido, com personagens servindo mais como exemplos de corrupção e de ambição do que como seres independentes, O abutre tem uma hora final digna de um verdadeiro thriller urbano – e é quando a atuação por vezes exagerada de Gyllenhaal adquire um ar verdadeiramente dramático e ele toma conta da tela, sobretudo quando se vira para o parceiro de empreitada fazendo promessas fantásticas de como conseguirão, juntos, alavancar a produtora de que se diz dono. Cogita-se mesmo uma indicação ao Oscar para Gyllenhaal – ele já foi indicado ao Globo de Ouro –, o que indica como parte da crítica gosta de atuações em ritmo de overacting, quando o ator já se mostrou muito competente em momentos mais discretos.
Ele já parece começar o filme como Jack Torrance, mas impressiona como Gyllenhaal leva o personagem a uma condição diante da qual o espectador teme a reação e em relação ao qual imagina sempre – e não seria diferente diante do seu comportamento – o pior. É uma atuação sem dúvida, a partir de determinado momento, muito competente e bem resolvida dentro de suas linhas com cargas dramáticas mais acentuadas alternadas com humor invariavelmente pesado e sem grande alívio para quem assiste. As risadas que o personagem de Gyllenhaal provoca são nervosas em sua maior parte, e às vezes ele se sente como um coelho que não consegue sair da sua toca de dia porque pretende rever as cenas que colheu para o noticiário e se aproveitar mais uma vez da tragédia alheia. Trata-se de um homem que não tem a menor ideia do quanto seus movimentos envolvem a ética ou o respeito aos acontecimentos fatídicos.

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Gyllenhaal cresce com as ótimas atuações tanto de Russo quanto de Riz Ahmde. Mas, de algum modo, os personagens que eles interpretam, assim como o de Bill Paxton, são apenas notas de rodapé para o desempenho de Gyllenhaal, e isso termina por, paradoxalmente, reduzir o filme a um retrato direto e não tão complexo, pois não são fornecidas subtramas capazes de ampliar o seu escopo. Todos os personagens são conduzidos por Bloom, assim como este é conduzido pela noite e pela iluminação que sai da sua câmera, sempre em busca de novos fatos, inclusive para configurá-los à sua maneira.
O que incomoda em O abutre é justamente achar que está definindo algo quando, com o mínimo de crítica, todos sabem o que cerca o jornalismo sensacionalista. Se alguns jornalistas estão pouco preocupados com os humanos que retratam, tampouco Gilroy está preocupado com seu espectador e coloca as ideias de maneira muito clara, sem deixar que ele pense sobre o que está vendo; apenas se certifique e assine embaixo, sem contestação. Com uma narrativa até determinado ponto plana e sem grandes reviravoltas, O abutre às vezes é simplista na maneira como coloca suas ideias, assim como não apresenta nada de realmente original em seu tema, embora o diretor Dan Gilroy às vezes se mostre como alguém que oferece realmente algum olhar novo, embora nunca caia na simples manipulação de, por exemplo, um 15 minutos. Trata-se da estreia na direção do roteirista de O legado Bourne, Gigantes de aço e The fall, e O abutre vem sendo recebido como uma das grandes obras do ano (foi escolhido como um dos dez melhores filmes do ano pelo American Film Institute), indicado a vários prêmios e talvez leve satisfação mais ao espectador que não espera tanto dele. E junto com as sequências de ação, que lembram não apenas o recente Drive, de Refn, como também sua inspiração original, The driver, de Walter Hill, Gilroy consegue potencializar ainda mais a fotografia de Robert Elswit, que joga com as luzes com a mesma competência que já mostrou inúmeras vezes ao longo de sua carreira exitosa. Esse é o maior mérito de O abutre, junto com a atuação de Gyllenhaal: ele captura de maneira perfeita a noite de Los Angeles, assim como evita mostrar esses personagens à luz do dia porque justamente seu habitat é uma noite contínua, sem intervalos para o alívio.

Nightcrawler, EUA, 2014 Diretor: Dan Gilroy Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Riz Ahmed, Bill Paxton, Kevin Rahm, Ann Cusack Roteiro: Dan Gilroy Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Lancaster, Jake Gyllenhaal, Jennifer Fox, Michel Litvak, Tony Gilroy Duração: 117 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Bold Films

3 estrelas e meia

 

O homem duplicado (2013)

Por André Dick

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Baseado num romance de José Saramago, O homem duplicado foi filmado quase simultaneamente com Os suspeitos, do mesmo diretor canadense Denis Villeneuve, tendo novamente a presença de Jake Gyllenhaal, mais conhecido por O segredo de Brokeback Mountain, que costuma ser um ator menos valorizado do que deveria: além de possuir um ar um tanto descompromissado, consegue passar uma ideia sempre de insegurança e de conflito emocional, como vemos em Donnie Darko e Zodíaco. Não se trata de um tipo de interpretação fácil, por mais que pareça, e cada vez que o vemos em cena percebemos certamente alguém em evolução dentro de seu campo, procurando novas nuances.
Talvez no melhor momento de sua carreira, ele interpreta Adam Bell, um professor universitário de História que determinado dia se depara com um duplo (como no recente filme, bastante interessante e baseado por sua vez em Dostoiévski, com Jesse Eisenberg), chamado Anthony Claire, que trabalha como ator. O encontro se dá porque um colega de trabalho comenta sobre um filme, e Adam vai à locadora alugá-lo. O filme tem Anthony como coadjuvante, e Adam procura, nos créditos finais, o seu nome completo e passa a tentar encontrá-lo.
Ele é casado com uma mulher que está grávida, Helen (a ótima Sarah Gadon, que interpreta a esposa do milionário feito por Pattinson em Cosmópolis), enquanto o professor namora uma executiva, Mary (Mélanie Laurent, menos aproveitada), a qual encontra quase sempre à noite, num apartamento bastante escuro em uma Toronto com tons amarelos. No entanto, esta é a ordem que vemos antes de tudo se tornar um pouco mais caótico – e a epígrafe inicial pode ajudar nesta proposta. Com elementos claros da obra de David Cronenberg (como A mosca e Gêmeos – Mórbida semelhança), mas até certo ponto melhor desenvolvidos, como a obra recente de Shane Carruth, Cores do destinoO homem duplicado é um raro filme que não se enquadra em nenhum gênero específico: ele desliza do drama para o suspense e mesmo para um sentimento aterrorizante, com excelentes efeitos especiais e a fotografia notável de Nicolas Bolduc.

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Villeneuve havia escolhido o mestre Roger Deakins para fazer a fotografia de Os suspeitos, mas, enquanto neste a trama evoluía para várias direções e acabava, em determinado ponto, se perdendo, em O homem duplicado, justamente por seu minimalismo, parece haver um crescimento na proposta de Villeneuve, também conhecido por Incêndios, um filme razoavelmente difícil, embora já demonstre suas características. O diretor certamente gosta de investigar questões familiares e a duplicidade do ser humano – em que um psicopata pode se esconder num bairro aparentemente tranquilo e influenciar quem está a seu redor a também ter um questionamento duplo sobre suas próprias ações.
Em O homem duplicado (breves spoilers neste parágrafo), Adam e Anthony representam duas visões: a do professor, imobilizado pelas aulas repetitivas, e a do ator, que pretende se vestir de modo diferente para interpretar papéis distintos. O professor se divide entre explicações sobre o funcionamento do domínio de opinião e Hegel – passando para a metafísica. Era Hegel quem dizia que o Ser é a pura indeterminação, e Adam Bell vive sempre numa indeterminação sobre quem realmente é, o que possivelmente ajude a esclarecer que a história não começaria por seu final, mas simboliza a representação dupla de um inconsciente. Também é sugestivo que Villeneuve tenha mudado o nome do personagem de Saramago (Tertuliano Máximo Afonso) para Adam com o intuito não apenas de simplificá-lo, como também de evocar o nome do primeiro homem segundo o relato bíblico – embora aqui a maçã esteja cercada por aranhas. Nesse sentido, O homem duplicado dá a sensação de reproduzir a mente de um professor que pretendia ter a criatividade de um ator para encobrir relacionamentos e romper qualquer desejo de compromisso.

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É interessante como a direção de arte dialoga com o símbolo central do filme. Podemos ver os postes de eletricidade de Toronto, assim como os guindastes de construção e um vidro de carro quebrado como teias, assim como se pode observar as cadeiras, as luminárias e as paredes e cortinas dos apartamentos – veja a visita de Adam à sua mãe, feita por uma Isabella Rossellini, em homenagem indireta a David Lynch, certamente inspiração para o filme. Do mesmo modo, vemos o professor, em alguns momentos, num clube noturno, que evoca Clube da luta, de David Fincher, em que uma stripper pode pisar sobre uma aranha com seu salto alto, numa espécie de reprodução do inconsciente dele.
O cenário da cidade do filme acaba parecendo envolvido sempre por uma grande teia – e o amarelo da fotografia de Bolduc se mescla a uma sensação de afastamento do mundo e de uma escapada para a análise em que a mente do ser humano adentra numa espécie de escuridão ameaçadora. Esta simbolização foge a Saramago, mas encontra, na verdade, o cinema de Villeneuve, bastante preocupado em usar símbolos para revelar determinada proposta – em Os suspeitos, eram terríveis cobras em determinado momento. As aranhas, aqui, são o símbolo do filme, representando as mulheres, e o homem sempre tenta escapar sem que elas percebam. No entanto, a interpretação bíblica vem novamente à tona: em determinado momento, Mary, num ônibus, usa um salto alto com couro de cobra, enquanto é observada por Anthony.
É como se Adam e Anthony estivessem sempre ameaçados pelo casamento e pela fidelidade que não podem cumprir e, apesar de não haver reviravoltas envolvendo crimes diversos, a sensação que o espectador tem, diante de O homem duplicado, é estar vivenciando um thriller psicológico no qual tudo isso pode acontecer, mas não exatamente num plano real ou que conduz a investigações policiais claras, como num suspense de Hitchcock.

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O filme de Villeneuve se presta a inúmeras interpretações, e elas, de forma justificada, crescem, a cada espectador, criando quase um filme paralelo ao oficial. Se pode haver um certo ar previsível nesta tentativa de confundir, Villeneuve acertadamente não transforma esses enigmas numa justificativa para não fazer um grande filme, um thriller com poder sensorial, cuja tensão é opressora e vai sendo criada com o andamento de uma narrativa que nunca se esclarece, e faz por bem adotar esse caminho, a fim de não reduzir o olhar sobre a própria obra. Há uma maior proximidade com Cidade dos sonhos, de Lynch, do que com A passagem, de Marc Forster, uma derivação com Naomi Watts e Ryan Gosling, em que a confusão não justificava uma trama sobretudo mal distribuída. Ao mesmo tempo, se havia problemas em Os suspeitos, em razão dos excessos de metragem e de tentativas de fazer reviravoltas, O homem duplicado cresce justamente por causa de seu minimalismo, oposto à literatura de Saramago (do qual Villeneuve preserva o trabalho simbólico, mesmo que reinventado): quando se vê, o filme passou de forma tão ágil que gostaríamos logo de retomá-lo para tentar procurar outras pistas para o esclarecimento (nunca total, apesar de diversas interpretações) da obra. Talvez seja justamente o caminho mais adequado de Villeneuve, neste que é um dos melhores filmes do ano, por tudo aquilo que oferece, tanto num primeiro quanto num segundo (e possivelmente necessário) olhar.

Enemy, CAN/ESP, 2013 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini Roteiro: Javier Gullón Fotografia: Nicolas Bolduc Trilha Sonora: Danny Bensi, Saunder Jurriaans Produção: M.A. Faura, Niv Fichman Duração: 90 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Mecanismo Films / Rhombus Media / Roxbury Pictures

Cotação 5 estrelas

 

Donnie Darko (2001)

Por André Dick

Este filme de Richard Kelly virou cult. Parece um filme de jovens rodado por David Lynch – tendo como assistente de direção Tim Burton –, com uma fotografia muito parecida com a dos filmes dele. Mas tem personalidade própria e um humor negro eficiente e atrativo. Além disso, apresenta, no elenco, alguns nomes conhecidos no elenco (Mary McDonnell, de Dança com lobos, Drew Barrymore e Patrick Swayze) e revelações (o casal de irmãos Jake Gyllenhaal e Maggie Gyllenhaal, também irmãos no filme), ao som de uma trilha sonora de bandas dos anos 80 (como Eccho and the Bunnymen, Tears for Fears, Joy Division e Duran Duran), que cria um contraste, muitas vezes, em relação ao que vemos.
Donnie Darko (Jack, com uma atuação que conseguiria repetir poucas vezes nos filmes seguintes) é um jovem estranho, sonâmbulo (o filme já inicia com ele numa estrada deserta, com uma atmosfera de pesadelo, apenas interrompida pela trilha sonora) e tem visões de um coelho assustador, chamado Frank, cercado de acontecimentos estranhos: como uma turbina de avião cair em seu quarto quando ele sai de casa. Não se sabe por que ele imagina esse coelho, mas ele frequenta a psicóloga (a pedido sobretudo da mãe, que se preocupa com seu comportamento) e é bastante temido no colégio por professores, pois questiona várias ordens e mensagens. A escola é um ambiente opressivo – e as cores alternando entre o azul e o verde conferem ainda mais gravidade ao contexto, diferenciando-se dos filmes dos anos 80 (mesmo que tenha uma trilha sonora bastante semelhante). Ele vive deprimido – mas é nesta depressão que ele parece alcançar vigor para o que pretende questionar, sem, entretanto, o filme fazer qualquer apologia a qualquer ideal ou algo parecido. Os seus professores utilizam também as mensagens de um autor de livros de autoajuda da cidade (Patrick Swayze), com o qual se confronta o personagem. No colégio, ele se apaixona por uma menina e faz amizade com um professor, que fala em viagens no tempo (o filme deve certamente ter inspirado Damon Lindelof e J.J.Abrams para a criação de Lost), entregando a ele um livro de sua vizinha, uma velha que passa o filme indo ver se há alguma carta em sua caixa de correio (e parece alguma figura saída de um filme de Tim Burton), atravessando uma estrada quase deserta da região.
Temos, pelo filme, vários símbolos espalhados (o coelho é um deles; o quadro negro da escola é outro, além de um sofá em meio a um capinzal onde Darko e seus amigos se encontram, mostrando a tentativa de inserção da casa em um cenário externo) e uma atmosfera lúgubre (como no momento em que o personagem vai ao cinema com a namorada e vê o coelho sentado a seu lado – no que remete a Império dos sonhos, uma retribuição de Lynch). Este coelho, mesmo com o final, continua um mistério. Talvez seja um símbolo que remete também a Alice no país das maravihas – era perseguindo um coelho que ela chegava ao universo paralelo.
Em A caixa, um dos filmes seguintes de  de Kelly, o diretor também ia para uma espécie de universo paralelo, em outra trama misteriosa, mostrando um casal que recebe certo dia a visita de um homem misterioso (Frank Langella), que lhes entrega uma caixa e diz que, se eles a apertarem, ganharão 1 milhão de dólares e uma pessoa morrerá. Isso é motivo para Jenkins se arriscar em algumas cenas surreais, como a da festa, em que o homem vê sempre um sujeito, que é garçom, sorrindo para ele. Trata-se de uma história fantástica, que envolve a Nasa, viagens ao espaço e lembranças infantojuvenis – sendo a disposição de tudo bastante assustadora. A professora feita por Cameron Diaz dialoga com a professora Karen (Drew Barrymore), de Donnie Darko. É bastante discreta, mas o filme não: ele investe no fantástico e pretensioso, com bela fotografia e cenas de suspense aterradores (como as do hotel e da biblioteca), que aprofundam o que é entrevisto neste, sobretudo com suas casas pretensamente tranquilas, com árvores nas calçadas.
Ademais, Donnie Darko quer subverter as casas simétricas dessa cidade, ver a escuridão onde há jardins verdejantes, campos de golfe e porões escondidos, e o personagem central é essencial para que isso aconteça; é, como se diria, a ponte entre a realidade e o onírico. O personagem parece nunca estar totalmente desperto (no momento em que visualiza, por exemplo, o movimento das pessoas ao redor, fazendo uma trajetória previsível) e as discussões dele sobre viagens temporais suspendem qualquer realidade – embora Donnie não vivencie uma experiência divertida e excêntrica como a do Marty McFly oitentista de De volta para o futuro –, e o diretor vai soltando algumas falas como se dispersas, porém que num todo fazem sentido, pela maneira como o espectador as monta, pois o intuito é distribuir as sequências de modo que elas façam mais sentido ao final. Diante da composição familiar – representada também pela irmãzinha de Donnie, que se apresenta no colégio, numa peça tipicamente infantil – infundada para Donnie, até determinado momento, vemos que seu objetivo não é afundar a adolescência ou a vida adulta, mas salvar a infância. Para Donnie, ela não sobreviverá a seus próprios pesadelos e ao coelho que o visita (não deixando de estabelecer uma ligação com A caixa, sobretudo com a situação do filho do casal no clímax). Depois de uma festa das bruxas com toques de anos 80, mas ao som de Joy Division (com sua sonoridade melancólica), e com o figurino que lembra o Daniel Larusso da festa inicial de Karatê Kid, embora com um viés mais dark, Donnie, ao avistar do alto da montanha (onde se inicia o filme) o futuro, parece que deseja regressar e não vivenciar todas as experiências desagradáveis será o melhor caminho, entretanto, acima de tudo, o faz por amor – não aquele, porém, solicitado pelo escritor de autoajuda que pode esconder, num realidade verdadeira ou paralela, a antítese de tudo o que diz.
O clima do filme, assim como o cuidado com as imagens, acaba deixando o espectador bastante atento ao que se desenrola. Transformou-se num merecido cult, sobretudo entre jovens, e merece ser assistido pela contundente crítica a certo comportamento social, mesmo que não apenas por isso, pois também inova na temática de idas e vindas no tempo, com uma narrativa definitivamente original.

Donnie Darko, EUA, 2001 Diretor: Richard Kelly Elenco: Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Daveigh Chase, Mary McDonnell, Patrick Swayze, Noah Wyle, Drew Barrymore Produção: Adam Fields, Sean McKittrick Roteiro: Richard Kelly Fotografia: Steven B. Poster Trilha Sonora: Michael Andrews Duração: 112 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Flower Films

Cotação 4 estrelas e meia