Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância) (2014)

Por André Dick

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Antes de assistira Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), é natural que se espere mais um filme superestimado, em razão do número de críticas prontas para apontar inúmeras virtudes, sobretudo numa época em que muitos filmes são lançados com o objetivo de participar de alguma premiação. O mexicano Alejandro González Iñárritu é um diretor que agradava à Academia de Hollywood, depois das indicações de 21 gramas e Babel, mas não havia lidado até agora com um material que não envolvesse um drama caracterizado até mesmo pela tragédia, como vimos em Biutiful, na interpretação de Javier Bardem. Com a colaboração do fotógrafo Emmanuel Lubezki (Gravidade e dos filmes mais recentes de Terrence Malick), ele provoca uma espécie de deslocamento em sua carreira, mesmo que não se afaste completamente de características da sua trajetória, e consegue apresentar Birdman como se fosse um único plano-sequência, mostrando os ensaios de uma peça teatral adaptada de Raymond Carver, no Teatro St. James de Nova York.
Esta peça tem à frente da adaptação e do elenco o ex-ator de sucessos de Hollywood Riggan Thomson (Michael Keaton), que interpretava o super-herói Birdman até 1992 (como o próprio Keaton quando fez Batman) e deixou de fazê-lo no terceiro filme da franquia. Longe dos holofotes, Thomson está em conflito com alguns integrantes do elenco, como Mike Shiner (Edward Norton), e sua tentativa de estabelecer um relacionamento com a filha, Sam (Emma Stone), enquanto tenta lidar com a ex-mulher, Sylvia (Amy Ryan). Ele ainda precisa buscar o equilíbrio na relação com duas atrizes: Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), mas ainda enfrenta o pior: a voz de Birdman – que lembra tanto a de Batman quanto a de Beetlejuice – em sua mente, ditando o que deve fazer. A questão é se seus poderes o ajudarão a se livrar de um ator que está jogando a peça para baixo.
Um dos componentes mais interessantes de Birdman é justamente ser um filme que mostra uma peça teatral baseada em “Do que falamos quando falamos de amor”, de Carver, em que temos alguns temas suscitados ao longo de sua história: a relação problemática entre o homem e a mulher e, sobretudo, a vida como um limite tênue com o desespero e a busca pela personalidade. No entanto, a obra de Iñárritu não se sustenta apenas por ser um filme de referências e autorreferências, ainda que uma conversa no início remeta a Roland Barthes, um dos teóricos da metalinguagem.

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Misturando o movimento nos bastidores da peça e os arredores do teatro, na Times Square, as tomadas de Lubezki conseguem envolver o espectador numa atmosfera ao mesmo tempo familiar e enigmática, e o uso de luzes nos bastidores e no palco desempenha quase um elemento narrativo, principalmente porque algumas luzes representam situações ou sensações dos personagens. Não há muitos filmes, como Birdman, que apresentem a sensação de estarmos num teatro e na vida real (A viagem do Capitão Tornado, filme italiano de Ettore Scola, e Sinédoque, Nova York podem ser mais lembrados). Ele talvez soasse pretensioso, mas não é sentido desta maneira: Birdman consegue unir vida “real” e teatro de uma maneira criativa, por meio do plano-sequência adotado por Iñárritu, intercalado pelos solos de bateria e das trocas de roupa, maquiagem e uso de perucas de Riggan.
Diante de críticas a este estilo de filmagem, pode-se imaginar se há uma espécie de surpresa em relação a ele e Lubezki terem conseguido, por efeitos especiais, essa ilusão, ou imperícia crítica de acreditar que ele existe apenas para uma espécie de enfeite: a sensação é de que Birdman tenta costurar aquele ambiente teatral que havia nos filmes de Robert Altman, sobretudo um filme bastante esquecido de 1976, Oeste selvagem, em que Paul Newman interpretava Buffalo Bill e o fazia como se estivesse em um teatro ao ar livre.
Para dar a impressão de acompanharmos os movimentos dos bastidores, da peça e da vida “real” de cada personagem, Iñárritu filma longas sequências com diálogos, obtendo um sentido de continuidade e de variações de cada um e os duplos de cada personagem, nos bastidores e à frente do público. Trabalha-se com os duplos a todo instante, não apenas dentro da narrativa apresentada, como também em relação a outras obras, numa sucessão de piadas culturais, mesmo que possam ser vistas como descartáveis: enquanto Keaton já foi Batman, Norton atuou como Hulk, mas substancialmente, e isso se relaciona com a questão da duplicidade de Riggan, esteve em Clube da luta (também evocado em determinada sequência), enquanto Naomi Watts homenageia Cidade dos sonhos e seu papel no King Kong de Peter Jackson, como atriz selecionada por Jack Black. Por sua vez, Emma já fez par com Ryan Gosling, a quem o personagem de Norton se compara em Birdman, em dois filmes. Nesse sentido, esses atores não estão desempenhando apenas personagens, como também satirizando a própria carreira, além de remeterem às inúmeras histórias de outro livro de Carver, este adaptado para o cinema, pelo próprio Altman: Short Cuts – Cenas da vida.

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Lembrando-se que o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan filma diálogos de 15 a 20 minutos em Winter sleep, vendedor em Cannes no ano passado, tendo como personagem central um ex-ator, Iñárritu emprega um filme que parece não ter cortes e onde tudo deve ser ensaiado, mas que quase nunca resulta no que se ensaiou. As conversas entre Riggan e seu agente, Jake (Zach Galifianakis), são divertidas porque justamente abordam essa linha de abordagem – os imprevistos da montagem teatral -, enquanto a atriz Lesley tenta obter seu primeiro sucesso na Broadway e não raramente costura algumas brigas nos bastidores, mesmo tentando, em seguida, a reconciliação. E Shiner se torna o principal ponto de provocação para Riggan, pois atrai o público para as bilheterias, a principal lembrança guardada pelo ex-Birdman dos tempos de fama e seu calcanhar de Aquiles.
Num instante em que Keaton entra num estabelecimento tomado de luzes aparentemente natalinas, mas no formato de pimentas mexicanas, Birdman também tenta voar como Enter the void, de Gaspar Noé. O espectador sente a profundidade dos ambientes, embora haja a opção, na maior parte do tempo, do diretor e de Lubezki pelos closes. É muito interessante a cena em que Keaton precisa enfrentar o Times Square (está no trailer) e as pessoas na multidão fazem comentários sobre seu estado físico ou querendo aparecer com ele em câmeras de celulares. Trata-se de uma sequência que poderia ser previsível, com sua evidente sátira ao show business, mas recebe um tratamento tão interessante por Iñárritu e Lubezki, como apoio de Keaton, que se torna quase uma síntese da narrativa. Do mesmo modo quando os personagens entram e saem do teatro como se fôssemos conhecendo diferentes níveis de consciência de cada um, sobretudo nos encontros entre Sam e Shiner no alto do teatro, de onde se pode ver a Broadway. Se, por um lado, Birdman é uma ode ao mundo do teatro e das múltiplas interpretações, ele também é um palco aberto para figuras bastante solitárias, com seus dramas de rotina.

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É a solidão de Riggan que se torna o diálogo perfeito para O fantasma da ópera, que aparece em propagandas, na Broadway, pois o personagem de Keaton não deixa de habitar os bastidores e sua persona dupla não deixa de ser um fantasma do seu eu, sobretudo por sua tentativa de conviver com as mulheres ao redor que, como aparece na peça de Carver, o abandonam ou se afastam por seu comportamento ambíguo. No entanto, é um fantasma menos taciturno, e algumas falas dele com uma crítica de teatro, Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), são bastante engraçadas, à medida que o desabafo se torna uma metalinguagem descompromissada. Como grande diretor de atores,  Iñárritu extrai de Keaton uma excelente interpretação (no ano passado, ele já estava bem no mais recente RoboCop), assim como do elenco coadjuvante, cumprindo à risca as mudanças de tom e direcionamentos (com destaque para os ótimos Norton, Watts e Stone) e se o filme tem um problema é não dar um desfecho à altura para cada um dos personagens.
Por meio da figura de Dickinson, Iñárritu faz, com certeza, algumas provocações pessoais ao universo da crítica, assim como leva Keaton também a falar contra quem o vê apenas como Batman, e ainda sobram referências cômicas a atores que fazem super-heróis, além da sátira às redes sociais (pela qual Jason Reitman pagou por todos em Homens, mulheres e filhos). Destacado por seu visual atrativo, Birdman é uma mescla entre estilo e substância e torna-se melhor quando o espectador se surpreende com a mudança de ambientes, mesmo dentro de um mesmo espaço, ou de situações, sempre com o ritmo de um ator que precisa jogar suas falas para a plateia de uma peça, com o calor das luzes do teatro St. James chegando também ao espectador. Há emoção nele, traduzida pelo elenco com interesse e, ainda que em seu plano mais emocional tenha elementos claros de outros filmes (como Cisne negro Asas da liberdade), é uma peça muito calibrada de cinema. Mesmo o final, aparentemente rápido demais, é capaz de estabelecer a passagem da natureza interna para a externa que o cineasta deseja mostrar, formando, com seu elenco estelar, um filme estranhamente de arte sem deixar de lembrar Hollywood. Uma obra sobre a própria vida e os clichês que costumam movimentá-la, mas não sem emoção, por meio da representação e do desejo de nunca ser o mesmo.

Birdman or (The unexpected virtue of ignorance), EUA, 2014 Diretor: Alejandro González Iñárritu Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo, Nicolás Giacobone Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Naomi Watts, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Lindsay Duncan Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Antonio Sánchez Produção: Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole, John Lesher Duração: 119 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Regency Enterprises / Worldview Entertainment

Cotação 5 estrelas

Grandes olhos (2014)

Por André Dick

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Nos últimos anos, sobretudo depois de sua versão para O planeta dos macacos e de sua adaptação para a Disney de Alice no país das maravilhas, tem existido uma aversão geral a novos filmes de Tim Burton, sobretudo quando há uma comparação com aqueles que o tornaram conhecido na década de 80 (Os fantasmas se divertem e Batman) e na década de 90 (Edward mãos de tesoura, Ed Wood e A lenda do cavaleiro sem cabeça). Nesse meio tempo, no entanto, Burton fez alguns muito interessantes, mesmo aprovados de maneira quase unânime (Peixe grande), tendo sido Sombras da noite – em mais uma contestada parceria com Johnny Depp – e Frankenweenie, uma versão em desenho animado do clássico curta de 1984, os mais recentes.
Grandes olhos, como em toda a trajetória do diretor, realmente vale por toda sua criação de ambiente: a reconstituição de época e os figurinos são excelentes, mas tem ainda a atuação de Amy Adams. Em termos visuais, apesar do colorido, é o que mais lembra Ed Wood – uma das obras mais acertadas do diretor – e um pouco Peixe grande. Burton trouxe de volta o diretor de fotografia com quem trabalhou em Sombras da noite, o bastante talentoso Bruno Delbonnel, de O fabuloso destino de Amélie Poulain, Across the universe e Inside Llewyn Davis. É ele o principal responsável por situar tão bem o filme nas décadas de 50 e 60 e, se o orçamento do diretor desta vez era de filme quase independente, mesmo na esteira da companhia dos Weinstein, o que se vê na tela é um cuidado meticuloso (neste campo, é o grande esquecido do Oscar este ano, ao lado de Invencível). Não raramente, por se tratar de um filme envolvendo a pintura, sente-se que Grandes olhos é uma coleção não apenas de belas imagens, mas de pinturas, desde as casas de bairro com jardins verdejantes do início – remetendo a Edward mãos de tesoura – até as estradas, clubes noturnos e parques de domingo. No entanto, Burton e Delbonnel também querem retratar, no meio dessa claridade de uma América sendo descoberta, um pouco da escuridão desses personagens a princípio iluminados.

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Talvez o espectador se surpreenda mais com Grandes olhos se não tiver muitos detalhes da história, baseada em fatos reais. A história da pintora Margaret Ulbrich (Amy Adams), que sai de casa com sua filha, Jane (Delaney Raye), para tentar a carreira em San Francisco, traz consigo um retrato interessante sobre como um(a) artista pode ser subjugado. Ela conhece outro pintor, Walter Keane (Cristoph Waltz) quando está mostrando seus trabalhos num parque. Ameaçada pelo ex-marido, ela se casa com Walter e se torna Margaret Keane. Walter se mostra um homem educado e atencioso, querendo mostrar o trabalho da esposa primeiro a um expositor de galeria Ruben (Jason Schwartzmann), depois nos fundos de um clube noturno, administrado por Enrico Banducci (Jon Polito). De um trabalho considerado estranho, a obra de Margaret passa a ser vista como algo realmente original, atraindo a atenção de um crítico, Dick Nolan (Danny Huston), além de milionários e políticos estrangeiros. Quando perguntada por que desenha olhos grandes e tristes em todas as suas figuras humanas, Margaret remete à sua infância – e é nisso que se baseia boa parte da obra de Tim Burton e a excelente atuação de Amy Adams.
O roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski – os mesmos de Ed Wood – trabalha com preconceito baseado no sexo e em rótulos que a sociedade aceita comovida, como a ideia de pintar figuras com grandes olhos ter vindo da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo que as pinturas são aceitas, há um afastamento de Margaret de sua amiga DeAnn (Krysten Ritter) e se perde o limite entre criação e fama, à frente ou atrás dos bastidores. Embora os diálogos não sejam tão eficientes, há boas referências a rótulos dos artistas da época em que a história se passa (todos parecem ter ido a Paris) e à aceitação (ou não) da mulher no meio artístico.

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Burton utiliza Cristoph Waltz para eliminar a carga dramática que poderia haver com um papel que ele já encarnou outras vezes. Aqui ele não se sai tão bem, no entanto a direção de Burton é eficiente e acaba, por baixo de toda a luz do filme e seus cenários coloridos, revelando um pouco da complexidade dos personagens principais, mesmo que eles não pareçam afetados por uma emoção especial (o filme concorreu ao Globo de Ouro de melhor filme de comédia, embora também não se enquadre exatamente no gênero). O tom adotado por Burton é claramente proposital, e fundamentalmente ele mostra como Keane tinha uma predisposição a ser um autopromover, além de oferecer detalhes que correspondem, segundo relatos, ao seu perfil. É curioso como os momentos mais melancólicos estejam sempre associados à realização das pinturas, e os “grandes olhos” representassem justamente isso. O ateliê de pintura de Margaret, antes ao sol no início do filme, com pessoas sendo desenhadas diante de paisagens belas, se torna uma espécie de lado escuro da personagem, por um motivo que vai se revelando ao longo do filme.
Ao mesmo tempo que a obra de Margaret chega à luz dos holofotes da fama, por outro lado, a arte vai ficando impregnada de culpa, de mentiras e por um caminho difícil de ser aceito. Se no início Margaret mostra suas pinturas num parque ao lado da igreja, depois ela tenta se confessar, e a claridade do início se contrapõe ao segredo do confessionário, mostrando a personagem culpada por encobrir uma verdade. São estes detalhes que possivelmente atraíram a atenção de Burton e, quando se vê as pinturas de Keane, com a expressão dos olhos, entende-se por que o cineasta, que começou como um diretor de animações (no curta Vincent), se interessou pela história: há algo bastante melancólico nessas pinturas e traços que remetem à sua animação A noiva cadáver. Para que o filme não seja confundido com um drama, pois a história tem elementos de absurdo que talvez não fossem revertidos da melhor maneira sob o ponto de vista mais discreto, Burton lança essa luz solar sobre os cenários, o que se confunde com a natureza em que os Keane se abrigam.

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Há uma discussão relevante sobre a propriedade de uma criação e Burton, e do mesmo modo não nega uma certa sátira a Andy Warhol, um artista que confundiu, em sua arte, o que seria cópia ou criação, embora exclusivamente dentro do campo artístico. É Warhol o principal ponto para se definir alguns caminhos de Grandes olhos – e a arte de Keane chegou a influenciar outros artistas reconhecidamente pop, inclusive a capa do disco Reality, de David Bowie. Ainda, Burton consegue, num momento excelente, num supermercado, mesclar a imagem de Margaret à frente de embalagens de produtos – que seriam essenciais para a composição da obra de Warhol – a seu encontro com figuras humanas exatamente com grandes olhos, conjugando a arte com o plano onírico ou de culpa diante da verdade que realmente esconde.
Terence Stamp surge como um crítico bastante agressivo das obras de Keane, enxergando todas como arte barata. Toda sua postura, de certa maneira, dialoga com alguns personagens de Os fantasmas se divertem e sua predisposição a discutir esculturas estranhas. No entanto, Burton não chega a adotar um discurso sobre a arte e as concepções possíveis que ela abrange, nem mesmo em relação à influência que Keane pode ter tido realmente no meio artístico. Ou seja, em nenhum momento o filme se afasta de sua proposta inicial, de contar a história de uma estranha relação entre os Keane, ajudado pelo elenco coadjuvante excelente, embora não apareça tanto. De algum modo, Grandes olhos também lembra do início da carreira de Burton, em As grandes aventuras de Pee-wee, saudado anos depois de seu lançamento como uma obra original. Nesta sua estreia em longas em 1985, Burton lançava um personagem num meio em que tudo afinal existia para terminar em arte. Como esta obra, talvez Grandes olhos seja mais reconhecido daqui a alguns anos também: é um filme à primeira vista superficial, mas repleto de arte e do modo de se contar histórias.

Big eyes, EUA, 2014 Diretor: Tim Burton Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Jason Schwartzman, Danny Huston, Terence Stamp, Madeleine Arthur, Delaney Raye Roteiro: Larry Karaszewski, Scott Alexander Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Larry Karaszewski, Lynette Howell, Scott Alexander, Tim Burton Duração: 106 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Electric City Entertainment / Silverwood Films / Tim Burton Productions / The Weinstein Company

Cotação 3 estrelas e meia

Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo (2014)

Por André Dick

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Depois de sua estreia no Festival de Cannes de 2014, Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo tem feito uma trajetória à altura do que se esperava para uma obra de Bennett Miller, o mesmo de Capote e O homem que mudou o jogo, filmes com atuações memoráveis de Philip Seymour Hoffman (que lhe rendeu o Oscar) e Brad Pitt e Jonah Hill, respectivamente. Miller sempre esteve preocupado com o discurso referente aos Estados Unidos – e foi assim que construiu seu início de trajetória e foi premiado como melhor diretor em Cannes. Mas Foxcatcher traz uma história, embora sobre esportes, como O homem que mudou o jogo, muito diferente: há algo nele que tenta se estabelecer para longe do discurso que adota em sua narrativa.
Baseado em fatos reais, já no início vemos os dois personagens vitais para a narrativa, os irmãos Mark (Channing Tatum) e Dave Schultz (Mark Ruffalo), treinando luta greco-romana. Mark  vive solitário, enquanto David tem mulher, Nancy (Sienna Miller) e filhos. Depois de ganhar a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1984, Mark ainda vai a colégios tentar incentivar crianças a adotarem o esporte. Certo dia, o milionário John Du Pont (Steve Carell) o procura. Ele pretende treiná-lo para que possa competir nas Olimpíadas de Seul em 1988, e Mark precisa ir morar na sua mansão, chamada Foxcatcher e afastada de tudo. Du Pont é um indivíduo que vai se mostrando cada vez mais estranho – sempre em busca de um domínio sobre os esportistas que treina, no grupo que denomina também Foxcatcher, e por meio dos quais não quer descontentar sua mãe Jean (Vanessa Redgrave). No entanto, ele não consegue obter a participação de Dave, com quem Mark consegue treinar no seu máximo. Esta é uma história aparentemente excepcional e chama a atenção como Miller no início obtém uma transformação dos atores, principalmente Tatum, que sempre pareceu um ator intruso, e tem aqui, na primeira hora, seu melhor momento no cinema.

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Depois dessa primeira hora interessante, Foxcatcher passa a criticar o patriotismo americano muitas vezes de maneira deslocada, como se quisesse adotar um tom de autoimportância – mas filmes não são bons porque são patrióticos ou antipatrióticos, e o de Miller atesta isso. Se no início Du Pont representa a chance do “sonho americano” ser concretizado, aos poucos a sua mansão vai adquirindo uma ambientação mais fúnebre, com o cenário sempre cinza, o céu encoberto, como se os personagens estivessem num universo à parte, em que não pudessem nunca se sentir felizes, e a relação de Du Pont e Mark vai se intensificando com um comportamento misterioso e não solucionado por Miller em nenhum momento. De todos os motivos, o principal no fundo é o seguinte: Du Pont poderia ser feliz, mas não é, porque carrega os males da América, a ganância, o desejo de superar qualquer outro. E carrega a tradição de sua família, o peso de sua vida. Há uma crítica a este “sonho americano” sobretudo porque Du Pont não é exatamente o que mostra ser, repetindo isso várias vezes em seu helicóptero para que o espectador não esqueça. De qualquer modo, o filme está sempre em busca da quebra de ritmo dos personagens, e a passagem dos anos nunca fica muito clara, fazendo com que não seja bem calculada por Miller, pelo menos para o êxito da trama. Para isso, Miller se apoia no trabalho de fotografia de Greig Fraser, que fotografa o filme com os mesmos tons que adotou para o bosque de Branca de Neve e o caçador, desta vez como se estivessem infiltrados numa espécie de pesadelo e não de fábula.
Os personagens de Foxcatcher em nenhum momento esboçam uma tranquilidade ou um alívio; não raramente, servem como símbolos do que o diretor pretende dizer, e isso vem acontecendo muito desde O homem da máfia, também com Pitt: a sociedade norte-americana não pode mais ser salva, e é isso que Foxcatcher tenta reafirmar a cada instante. Se há uma espécie de glorificação do esporte nos Estados Unidos, Miller alerta para o fato de que ele pode esconder apenas seres tristes e autoconcentrados. As lutas, mesmo nas Olimpíadas, parecem não representar o esporte, sendo apenas uma antecipação para um cortejo fúnebre. O sentimento em relação ao filme pesa como chumbo, com o objetivo de fazer o espectador se sentir claustrofóbico em meio a todas as situações mostradas, sem nunca conseguir se aproximar de suas figuras. Enquanto criticam Angelina Jolie pela direção “conservadora” de Invencível, Miller ganhou em Cannes e foi indicado ao Oscar por um estilo que tenta emular o de cineastas europeus e produções da Nova Hollywood dos anos 70, porém naquela época era sinal de termos Michael Cimino, um criador de atmosferas poucas vezes visto.

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Depois de um início bastante promissor, mesmo surpreendente, Steve Carell, ao longo do filme, tenta equilibrar a prótese em seu nariz colocando sua cabeça para trás em poltronas, sofás e cadeiras, indo nisso boa parte da energia para compreender seu personagem. Aos poucos, é possível perceber que não há um minuto de espontaneidade na sua interpretação, baseada de modo fundamental no Don Corleone de O poderoso chefão, sobretudo pelos gestos mínimos e pela maneira de olhar as pessoas sem necessariamente falar, como se estivesse ameaçando. O espectador muitas vezes se sente intimidado e fica surpreso de ver o mesmo ator de O virgem de 40 anos e Amor a toda prova com um ar tão grave e comedido – a pergunta é onde estaria esse ator antes e a resposta certamente seria: em algum lugar onde não estivesse pensando em ser indicado ao Oscar. Carell é um excelente ator, mesmo com elementos dramáticos, como já mostrou em Pequena miss Sunshine, Um divã para dois e Procura-se um amigo para o fim do mundo, mas o excesso de destaque dado a ele também prejudica o filme, pois é difícil ver qualquer naturalidade em seu comportamento: o ator é mecânico em suas variações e sentimentos em relação aos demais personagens, tentando evidenciar que está representando uma persona e de como ela seria difícil de ser reproduzida. Tatum e Ruffalo poderiam oferecer essa tonalidade mais humana (ambos estão muito bem), no entanto Miller os emprega de maneira equivocada no terceiro ato, longo e monocórdio, como se tudo estivesse antecipando o clímax moral a ser atingido pelo diretor. Em vez de analisar também a relação entre os irmãos, a parcela certamente mais sensível do filme, Miller quer apenas destacar sua crítica ao sistema.
Foxcatcher, nesse sentido, é melancólico como a atuação propositadamente grave de Carell: não há nada no filme que busque compreender esses personagens, pois Miller está interessado exclusivamente nessa crítica ao establishment norte-americano. No entanto, ele, ao mesmo tempo, duvida da inteligência do espectador, colocando constantemente símbolos dos Estados Unidos: bandeiras, águias etc. para onde quer que sua câmera aponte. Esta crítica adquire, aos poucos, um tom de impropriedade, e mina toda a estrutura do roteiro, que já carece de entendimento e desenvolvimento.
Os personagens estão à deriva porque Miller, na verdade, como um diretor de dentro da indústria, não quer se comprometer: ele deixa o terceiro ato todo de Foxcatcher transcorrer em silêncio e comportamentos ambíguos porque não quer assumir de fato o seu discurso. Ele parece ter certo receio de chocar o espectador com alguma revelação que possa abalar o público a que se destina – predominantemente norte-americano – e esconde seus personagens por trás de silêncios que, ao contrário do que vemos nos filmes que inspiram Miller, os europeus, não dizem substancialmente algo de importante. O que mais Foxcatcher consegue ser é uma infalível isca para o Oscar: ele teve cinco nominações (melhor direção, ator, ator coadjuvante, roteiro original, maquiagem e cabelo), mas não a principal, de melhor filme. Talvez Foxcatcher se sinta excluído por pensar dizer alguma verdade incômoda sobre a sociedade dos Estados Unidos; mais provável é que se trata de um filme infelizmente pouco marcante. É Miller quem ao final gostaria de estar gritando: “USA! USA!”. Afastado de tudo e de todos, Du Pont tem as mesmas características deste cinema, que se afasta do espectador para tentar ser diferente, mas carrega consigo todos os clichês imaginados. E quer soar poderoso, mesmo que não seja mais do que parte do mundo, nem mais nem menos.

Foxcatcher, EUA, 2014 Diretor: Bennett Miller Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Vanessa Redgrave, Sienna Miller, Anthony Michael Hall Roteiro: Dan Futterman, E. Max Frye Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Mychael Danna, Rob Simonsen Produção: Anthony Bregman, Bennett Miller, Jon Kilik, Megan Ellison Duração: 130 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures / Likely Story / Media Rights Capital

Cotação 2 estrelas e meia

 

Êxodo: deuses e reis (2014)

Por André Dick

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Desde Gladiador, Ridley Scott tem tentado repetir o sucesso com filmes relacionados à história da humanidade. Se no filme com Russell Crowe ele conseguia mesclar uma visão da Roma Antiga com o cinema de entretenimento de Hollywood, recebendo por ele o Oscar de melhor filme, no recente Êxodo: deuses e reis Scott tenta enfileirar as características já exibidas em Cruzada e Robin Hood. Do primeiro, há as cenas com visual magnífico incrustadas em algum ponto entre a Espanha e o Oriente Médio, e o segundo possuía a história mais densa sobre o ladrão da Floresta de Sherwood, embora não com a qualidade correspondente. Nos últimos anos, pelo menos desde o ótimo Falcão negro em perigo, Scott tem tentado produzir filmes com bastante desenvoltura e pouco espaçamento entre um e outro. Bastante criticado, Prometheus prometia trazer o cineasta a seus melhores anos, os que se situam entre Os duelistas e A lenda.
Scott nunca teve entre seus méritos o trabalho com o roteiro. Sua estreia em Os duelistas tem um visual magnífico, característico de sua obra, mas uma dificuldade de estabelecer conexões entre os personagens. O mesmo acontece em outras obras importantes suas, mas em Êxodo, pela preocupação em fazer o relato bíblico estabelecer uma ligação direta com o cinema de aventuras de Hollywood, parece que Scott não está preocupado exatamente com a história: surpreende que haja entre os roteiristas o talentoso Steven Zaillian (Tempo de despertar, A lista de Schindler e O homem que mudou o jogo). Talvez com preocupação de desagradar ao público mais religioso, Scott procura tornar seu filme muito mais propenso a não se envolver com nenhum dos lados retratados. Ou seja, Êxodo: deuses e reis lida com a narrativa bíblica de modo a não se incomodar ou ser incomodado – e, se há algumas liberdades maiores no que se refere ao Antigo Testamento, parece não ser exatamente a vontade de Scott em desafiar as versões oficiais, mas apenas para acomodar sua história a um amplo estado cinematográfico.

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É um filme ao mesmo tempo arrebatador – pela quantidade de belas imagens e um senso de design primoroso – e, pelos lapsos da história, com uma sucessão de diálogos não tão interessantes, problemático, na sua estrutura. A história inicia com uma batalha em que Moisés (Christian Bale) e Ramsés II (Joel Edgerton) terão, cada qual, um desfecho que interessa às profecias. O faraó Seti (John Turturro), pai de Ramsés II, confia mais em Moisés, no entanto o que acontece a partir daí é uma espécie de reprodução da história de Gladiador baseada nos relatos bíblicos. Moisés é enviado para Phitom, a fim de ter uma reunião com Hegep (Ben Mendelsohn), à frente dos escravos hebreus. A figura de Nun (Ben Kingsley) surge para tentar avisar Moisés sobre a profecia que o cerca, mas não consegue ser ouvido. Moisés se torna um exilado e, sem seguir nenhum preceito religioso, é procurado por Malak (Isaac Andrews), que configura a presença de Deus na história. Moisés acaba conhecendo seu amor, Zipporah (María Valverde), e recebe o chamado para defender os hebreus dos egípcios numa batalha que poderá ser épica. No entanto, são quase 130 minutos até a batalha, e Scott, além da tentativa de ser fiel ao relato bíblico, com ligeiras adaptações – e deve-se dizer que Aronofsky, em Noé, conseguia trabalhar melhor a passagem bíblica do dilúvio, com menos informações de que Scott dispõe em Êxodo – precisa fazer um filme de entretenimento.
Particularmente eficaz a atuação do elenco. Scott sempre foi um especialista em extrair boas interpretações, e Bale consegue demonstrar seu talento como em outras obras. Edgerton não tem exatamente uma sequência de diálogos, nem parece o mais adequado para o papel, mas tem certa presença de cena. E Mendelsohn é mais uma vez um vilão interessante, embora não traga exatamente nada de novo.  O restante do elenco, como o excelente Kingsley e Weaver, como a rainha Tuya, mãe de Ramsés II, aparecem desperdiçados e não ficam claras quais as intenções de Scott com os personagens suplementares. O que interessa a Scott, muito mais, é tornar a narrativa de Êxodo num conjunto de imagens espetaculares – e principalmente aquelas que lidam com Moisés em contato com as mensagens divinas, a primeira logo depois de subir uma montanha com as ovelhas, em que Scott o lança numa espécie de sono tenebroso, e a fotografia de Dariusz Wolski se encarrega de colocar Bale numa situação claustrofóbica.

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O que incomoda por vezes em Êxodo é o quanto não parece haver a conexão necessária entre alguns personagens, não apenas por causa do roteiro com lacunas, mas em razão da própria direção de Scott. Não saberia se uma versão estendida do filme – e há uma para Cruzada, do qual vi apenas o corte feito para os cinemas, irregular, considerada melhor – ajudaria a eliminar o incômodo da montagem ou das passagens mal esclarecidas. O filme, no entanto, tem alguns méritos bastante claros, além do design fundamentalmente interessante: quando são mostradas as dez pragas do Egito, Scott lida com um cinema não apenas calibrado em termos de efeitos especiais – todos, sem exceção, espetaculares –, mas impactante o suficiente para atrair a atenção do espectador. Do mesmo modo, quando Scott mostra inicialmente os personagens ou quando retrata os diálogos de Moisés com Malak, além daqueles em que revela os conflitos de Ramsés com sua cúpula política, há também bons momentos.
Scott parece reencontrar sua linha como artesão do cinema capaz de retratar cenários espetaculares, como aqueles que encontramos em suas ficções científicas (Blade Runner e Prometheus) ou em suas fantasias (A lenda). No entanto, em muitos momentos, ele opta por uma montagem que joga a narrativa para vários lados ao mesmo tempo. É uma maneira de contar que prefere muitas vezes os cortes e a ação, bastante evidentes quando se inicia a caçada aos hebreus, do que a contemplação. Nas cenas com as pragas que abatem o Egito, Scott consegue produzir sensações de espanto – como aquela que envolve os crocodilos – e coloca em prática seu talento para a reprodução de cenários históricos, como havia em 1492 – A conquista do paraíso, por exemplo, ou mesmo Cruzada, com fundo religioso. Mesmo A lenda era uma espécie de transposição para um universo fantástico do relato bíblico sobre Adão e Eva.

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Em determinados momentos, personagens desaparecem e reaparecem (a exemplo de Nun, Tuya e Josué, feito por Aaron Paul) sem motivação especial ou explicada, e as perseguições aos hebreus se sucedem com bastante barulho, numa certa desordem, mas Bale oferece ênfase à figura de Moisés quando é escolhido seu caminho, tentando reatar as pontas do roteiro proporcionado por oito mãos a Scott. E com Moisés há certamente as sequências que valem a pena, como todas em que encontra a figura de Deus em Malak, ou quando precisa enfrentar a própria humanidade para saber se deve escolher seu caminho longe da comunidade em que está estabelecido como pastor.
Se falta a síntese e a complexidade de embate que havia em Gladiador, além de personagens que não saiam de cena sem dizer exatamente a que vieram, Êxodo pelo menos se arrisca. O interessante é que possui problemas que um cineasta como Scott saberia resolver, mas aqui ele não parece estar à vontade para isso, possivelmente preocupado em descontentar correntes religiosas ou mesmo por problemas particulares (a perda de Tony, seu irmão, a quem o filme é emocionalmente dedicado). Ainda assim, Êxodo é o retrato de um cineasta que se propõe a fazer algo espetacular para ser visto – e a cena que evoca o Mar Vermelho é portentosa – e mostra uma preocupação de estabelecer eixos temporais dentro de seu cinema, desde a ficção científica, passando pelo mundo de fábulas, até retratos contemporâneos de qualidade, como Thelma & Louise, Falcão negro em perigo e Rede de mentiras. Só parece lhe faltar, em algumas obras, como as que tentam reproduzir Gladiador, o lado mais dramático que possa se encaixar com as imagens espetaculares ou a direção de arte.

Exodus: gods and kings, EUA/ESP/Reino Unido, 2014 Diretor: Ridley Scott Elenco: Christian Bale, Joel Edgerton, Aaron Paul, Sigourney Weaver, Ben Kingsley, Indira Varma, María Valverde, John Turturro, Golshifteh Farahani, Ben Mendelsohn Roteiro: Adam Cooper, Jeffrey Caine, Bill Collage, Steven Zaillian Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Alberto Iglesias Produção: Adam Somner, Mark Huffam, Michael Schaefer, Peter Chernin, Ridley Scott Duração: 149 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Babieka / Chernin Entertainment / Scott Free Productions

Indicados ao Oscar 2015

Por André Dick

Oscar 2015

Sniper americano
Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)
Boyhood – Da infância à juventude
O grande Hotel Budapeste
O jogo da imitação
Selma
A teoria de tudo
Whiplash – Em busca da perfeição 

Boyhood.Oscar

Depois do Globo de Ouro, já se dava como certa a presença de três filmes na lista da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Boyhood, Birdman e O grande Hotel Budapeste. O Oscar tem uma tendência a gostar de cinebiografias, e por isso também eram esperadas as indicações para Selma, A teoria de tudo e O jogo da imitação. Como filme independente, se ano passado tivemos Philomena, desta vez o espaço foi reservado para Whiplash. Foi surpreendente a exclusão do aclamado Garota exemplar e cogitava-se que Caminhos da floresta (do vencedor do Oscar por Chicago) tivesse a indicação que costuma ser reservada a musicais.
Ao mesmo tempo, surpreende a indicação de Sniper americano, também uma cinebiografia, um dos trabalhos mais fracos da trajetória de Clint Eastwood (Jersey Boys, bastante criticado, também de 2014, é melhor), no entanto prova sua influência em Holywood, assim como a de Kathryn Bigelow, em cujo cinema o filme é claramente inspirado.
Parece que a disputa ficará entre Birdman, O grande Hotel Budapeste e Boyhood, porém não se duvida que a Academia escolha algum filme mais histórico, na linha de O discurso do rei, e neste sentido crescem as chances de O jogo da imitação. A teoria de tudo não parece favorito, assim como Selma perdeu bastante força sendo nomeado apenas para o Oscar de melhor canção além do principal. As duas nomeações, sendo uma delas à categoria principal, tornam estranhas as exclusões de Interestelar e Foxcatcher, ambos indicados em cinco categorias, sendo que o segundo nas principais, embora seja um filme que decepciona. De qualquer modo, eu não duvidaria, contra o favoritismo de Boyhood e Birdman, da vitória de O grande Hotel Budapeste.
O hype antecipado prejudicou bastante o filme Invencível, de Angelina Jolie, com um cuidado de reprodução de época intenso, assim como O ano mais violento, de J.C. Chandor. Dos cotados, eles mereciam estar na lista. E um ano com tantos filmes bons ter 8 indicados ao contrário de 9 ou 10 possíveis escolhas parece não ter seu potencial valorizado pela própria indústria de cinema.
Lamento, desses modo, a não inclusão de alguns filmes (embora nenhum estivesse cotado em listas anteriores): Vício inerente, O hobbit – A batalha dos cinco exércitos, Mulheres, homens e filhos, Interestelar e Ida nas categorias principais. São filmes realmente extraordinários.

Birdman 4

Melhor diretor

Alejandro González Iñárritu, por Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)
Richard Linklater, por Boyhood – Da infância à juventude
Wes Anderson, por O grande Hotel Budapeste
Morton Tyldum, por O jogo da imitação
Bennett Miller, por Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo

Todos eram nomes esperados – talvez o de Miller menos, mesmo tendo sido premiado em Cannes. É interessante que Anderson ganhe sua primeira indicação ao Oscar de melhor direção; parece que a Academia, que antes parecia quase ignorar seu trabalho, se rendeu à aclamação que vem sobretudo da Europa. Sua trajetória prova que a indicação é tardia – embora antes já tenha sido lembrado como roteirista por Os excêntricos Tenenbaums e Moonrise Kingdom, além de pela animação O fantástico Sr. Raposo. Iñárritu já havia sido indicado por Babel, e é bastante merecida sua indicação aqui, com a criatividade de elaborar, com Emmanuel Lubezki, um filme todo com, pelo menos aparentemente, um plano sequência. Linklater vem fazendo um grande trabalho há alguns anos e também é merecedor – junto com Anderson, é um nome que vem do cinema independente, e isso é ótimo. Surpreende as exclusões de David Fincher, por Garota exemplar, e de Ava DuVernay, por Selma. A atriz Angelina Jolie mostra talento como diretora em Invencível e deve ser lembrada outras vezes.
Outros nomes esquecidos foram os de Paul Thomas Anderson, que merecia uma indicação por Vício inerente, e Christopher Nolan por Interestelar; J.C. Chandor faz um filme clássico dos anos 70 em pleno século XXI, em O ano mais violento, mas sem diluições; talvez Pawel Pawlikowski pudesse ser o nome estrangeiro do ano na categoria, por Ida. A indicação de Bennett Miller, por Foxcatcher, é no mínimo injusta em relação a esses nomes descartados.

A teoria de tudo

Melhor ator

Benedict Cumberbatch, por O jogo da imitação
Michael Keaton, por Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)
Bradley Cooper, por Sniper americano
Steve Carell, por Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo
Eddie Redmayne, por A teoria de tudo

Já poderia ter sido indicado a ator coadjuvante por Star Trek no ano passado o ator inglês Benedict Cumberbatch. Eddie Redmayne tem uma atuação extraordinária em A teoria de tudo e merece realmente a indicação. Steve Carell é bastante elogiado em Foxcatcher, em que, por outro lado, tenta se modificar tanto que acaba perdendo a espontaneidade (ele é um grande ator de comédia dramática, como já mostrou em Amor a toda prova e Um divã para dois, e poderia ter sido reconhecido assim). Bradley Cooper está bem em Sniper americano, de Clint Eastwood; apenas se lamenta que o filme não esteja à sua altura. Mas tudo indica, se não houver mais reviravoltas, que o prêmio será de Michael Keaton, ator historicamente injustiçado, depois de filmes como Os fantasmas se divertem, Marcas de um passado, Minha vida e Jackie Brown (ele aparece bem como coadjuvante em RoboCop).
Estavam cotados Ralph Fiennes, por O grande Hotel Budapeste, e Timothy Spall por Sr. Turner. Gyllenhaal tem feito um grande trabalho nos últimos anos, em filmes como Os suspeitos e O homem duplicado, e era cogitado (apesar do overacting em alguns momentos) por O abutre. David Oyelowo era cogitado por Selma (ele aparece também em O ano mais violento). Também é bastante destacado o trabalho de Jack O’Connell em Invencível.
Entre os esquecidos (também nas listas de previsões), a atuação de Brendan Gleeson em Calvary é muito boa. Assim como a de Oscar Isaac em O ano mais violento, bastante superior à de Inside Llewyn Davis, quando consideraram injustiça não ter sido indicado. E Ryan Reynolds foi prejudicado pela péssima recepção de À procura, de Atom Egoyan, filme em que aparece excelente. Aprecio muito também o trabalho de Jesse Eisenberg em O duplo (e ele estava também em Night moves). O mesmo em relação a Jim Broadbent em Le week-end. Bill Murray foi indicado ao Globo de Ouro por Um santo vizinho, mas outra vez não foi para o Oscar. E Joaquin Phoenix, como antes de O mestre, sob a direção de Anderson, aparece mais uma vez fora de série em Vício inerente – no entanto, é uma interpretação bem-humorada, o que não conta pontos, infelizmente. John Lithgow também era bastante elogiado por O amor é estranho. E o esquecimento de Matthew McConaughey no Oscar e premiações anteriores por Interestelar é certamente relevante.

Dois dias, uma noite

Melhor atriz

Marion Cotillard, por Dois dias, uma noite
Julianne Moore, por Para sempre Alice
Rosamund Pike, por Garota exemplar
Reese Witherspoon, por Livre
Felicity Jones, por A teoria de tudo

É grande a surpresa pela não inclusão de Jennifer Aniston, por Cake, indicada ao Globo de Ouro, em que tem ótima atuação. Mais interessante foi a inclusão de Marion Cotillard, preferida por Dois dias, uma noite, em vez de Era uma vez em Nova York (sua atuação no filme dos Dardenne é superior). Com um ano espetacular, também por causa de Mapas para as estrelas, Julianne Moore desponta como a favorita por Para sempre Alice, porém Cottilard realmente parece merecer mais – principalmente porque o filme de Moore é irregular. Não sou apreciador da atuação de Rosamund Pike por Garota exemplar, mas ela tem muitos defensores e sua indicação era esperada. Reese Whiterspoon, depois de anos, volta a ser indicada, por Livre (e é interessante que ela seja uma das produtoras de Garota exemplar e tenha tentado o papel que ficou para Pike) e está ótima também como coadjuvante em Vício inerente. Gostei da atuação de Felicity Jones em A teoria de tudo; a dúvida é se comporta uma indicação.
Kristen Wiig poderia ter sido lembrada: ela está muito bem em Amores inversos e The skeleton twins, mostrando que Missão madrinha de casamento não era apenas um momento. A Academia também poderia ter lembrado de Shailene Woodley, que teve um grande ano, com A culpa é das estrelas e Pássaro branco na nevasca. Amy Adams recebeu o Globo de Ouro de atriz comédia/musical por Grandes olhos, no qual aparece muito bem, mas o filme de Burton foi esquecido. A inglesa Emily Blunt está em Caminhos da floresta e já foi destacada outras vezes, mas novamente não chegou até a linha final. Tentaram criar espaço para outra indicação para Hillary Swank por Dívida de honra, e não houve êxito.

Birdman 17

Melhor ator coadjuvante

Robert Duvall, por O juiz
Ethan Hawke, por Boyhood – Da infância à juventude
Edward Norton, por Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)
Mark Ruffalo, por Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo
J.K. Simmons, por Whiplash – Em busca da perfeição

Duvall está de volta este ano com O juiz, ao lado de Robert Downey Jr., e conseguiu uma nova indicação. De qualquer modo, Norton está muito bem em Birdman e Simmons atrai a atenção para Whiplash. Já Ruffalo é indicado por Foxcatcher – é boa atuação, mas o roteiro do filme o prejudica. De todos ainda prefiro a atuação de Hawke em Boyhood, um ator subestimado.
Christian Slater aparece ótimo em Ninfomaníaca – Volume I, assim como Robert Pattinson em The Rover – A caçada e Richard Armitage em O hobbit. Outro coadjuvantes de destaque: Josh Brolin em Vício inerente; sua presença quase ofusca a de Phoenix nas cenas em que aparecem juntos; Riz Ahmed em O abutre; e Alfred Molina em O amor é estranho.

Livre 2

Melhor atriz coadjuvante

Patricia Arquette, por Boyhood – Da infância à juventude
Keira Knightley, por O jogo da imitação
Emma Stone, por Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)
Meryl Streep, por Caminhos da floresta
Laura Dern, por Livre

São indicações merecidas: Arquette fez um grande trabalho em Boyhood, e Knightley em A imitação do jogo (ela fez também no ano passado o simpático Mesmo se nada der certo). Por Birdman, Emma Stone reafirma seu talento, já mostrado em Histórias cruzadas, Amor a toda prova e Magia ao luar, entre outros. Meryl Streep era um nome esperado… Laura Dern foi uma grata surpresa – ela havia sido esquecida injustamente por Império dos sonhos, de David Lynch, e este ano aparece também muito bem em A culpa é das estrelas, como a mãe da personagem central. Jessica Chastain foi esquecida pela atuação em O ano mais violento, assim como Judy Greer poderia ter sido lembrada por Homens, mulheres e filhos, ignorado pelas premiações, e Anne Hathaway, por Interestelar; Mira Grossin em Nós somos as melhores!; Adriana Barraza em Cake; e Katherine Waterston e Witherspoon, ótimas em Vício inerente.

O grande Hotel Budapeste.Filme 7

Melhor roteiro original

Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo, por Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)
Richard Linklater, por Boyhood – Da infância à juventude
Max Frye e Dan Futterman, por Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo
Wes Anderson e Hugo Guinness, por O grande Hotel Budapeste
Dan Gilroy, por O abutre

Apesar de apreciar muito os roteiros de Boyhood e O grande Hotel Budapeste, o de Birdman me pareceu, apesar de leves clichês (que os outros também têm), o mais trabalhado. O roteiro de O abutre é razoável, e o único do qual realmente não gosto é o de Foxcatcher, cujo terceiro ato é bastante prejudicado pela direção fria de Miller.
Poderiam ter indicado o roteiro de Lars von Trier para Ninfomaníaca, se o filme tivesse sido bem aceito. Os roteiros de J.C. Chandor para O ano mais violento; de Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz para Ida; de Bilge Ceylan e Ebru Ceylan para Winter sleep; e de Jean-Pierre e Luc Dardenne para Dois dias, uma noite são muito bons também.

Vício inerente.Filme 3

Melhor roteiro adaptado

Jason Hall, por Sniper americano
Graham Moore, por O jogo da imitação
Paul Thomas Anderson, por Vício inerente
Anthony McCarten, por A teoria de tudo
Damien Chazelle, por Whiplash – Em busca da perfeição

Todos os indicados eram esperados e aprecio especialmente o roteiro adaptado de Vício inerente, que provoca fascínio justamente por sua complicação. Não aprecio o trabalho feito nos roteiros de Whiplash e Sniper americano. O de A teoria de tudo é bom, mas muito esquemático. E a indicação para O jogo da imitação era esperada. Surpreende a exclusão para a adaptação de Garota exemplar – pelos prognósticos. Particularmente, gosto muito dos roteiro dos independentes  Palo Alto (adaptado de livro de James Franco) e Frank (adaptado de obra de Jon Ronson) Também aprecio a adaptação feita para o cinema de A culpa é das estrelas, apesar de o elenco ser o forte do filme, e de O homem duplicado, do romance de Saramago. E as adaptações do conto de Alice Munro em Amores inversos, do romance de Chad Kultgen Homens, mulheres e filhos, da peça musical Jersey Boys para o filme de Eastwood e do livro de Dostoiévski em O duplo também são muito boas.

Ida.Filme 7Melhor filme estrangeiro

Ida (Polônia)
Leviatã (Rússia)
Tangerines (Estônia)
Timbuktu (Mauritânia)
Relatos selvagens (Argentina)

Já se esperava as indicações para Ida e Leviatã (vencedor do Globo de Ouro), e o argentino Relatos selvagens era cogitado. A exclusão do sueco Força maior surpreende. Os grandes esquecidos na categoria foram Winter sleep, de Ceylan, filme turco vencedor de Cannes, com enorme beleza, e Dois dias, uma noite, dos irmãos Dardenne, eliminados já entre os pré-finalistas.

Operação Big Hero

Melhor longa de animação

Operação Big Hero
Os Boxtrolls
Como treinar o seu dragão 2
Song of the Sea
O conto da princesa Kaguya

Uma surpresa grande a não inclusão de Uma aventura LEGO. Como treinar seu dragão 2 vem antecedido pelo Globo de Ouro.

O sal da terra

Melhor documentário em longa-metragem

Citizenfour
Last Days in Vietnam
Virunga
Finding Vivian Maier
The Salt of the Earth

O sal da terra, dirigido pelo cineasta alemão Wim Wenders e por Juliano Salgado, filho de Sebastião, o fotógrafo, destacado pelo documentário, vem ganhando destaque desde sua estreia no Festival de Cannes e enfrenta o talvez favorito Cintizenfour, sobre Edward Snowden. O documentário Jodorowsky’s Dune poderia ter sido indicado.

Melhor documentário em curta-metragem

Crisis Hotline
Joanna
Our Curse
The Reaper
White Earth

Melhor animação em curta-metragem

The Bigger Picture
The Dam Keeper
Feast
Me and My Moulton
A Single Life

Melhor curta-metragem

Aya
Boogaloo and Graham
Butter Lamp
Parvaneh
The Phone Call

Categorias técnicas

Invencível 17

Melhor fotografia

Emmanuel Lubezki, por Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)
Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski, por Ida
Robert Yeoman, por O grande hotel Budapeste
Dick Pope, por Sr. Turner
Roger Deakins, por Invencível

Sr. Turner

Melhor figurino

Colleen Atwood, por Caminhos da floresta
Anna B. Sheppard e Jane Clive, por Malévola
Jacqueline Durran, por Sr. Turner
Milena Canonero, por O grande Hotel Budapeste
Mark Bridges, por Vício inerente

Sniper americano 2

Melhor montagem

Joel Cox e Gary D. Roach, por Sniper americano
Sandra Adair, por Boyhood – Da infância à juventude
Barney Pilling, por O grande Hotel Budapeste
William Goldenberg, por O jogo da imitação
Tom Cross, por Whiplash – Em busca da perfeição

Foxcatcher.Filme 7

Melhor maquiagem e cabelo

Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo
O grande Hotel Budapeste
Guardiões da galáxia

Caminhos da floresta

Melhor trilha sonora

Hans Zimmer, por Interestelar
Alexandre Desplat, por O grande hotel Budapeste
Alexandre Desplat, por O jogo da imitação
Gary Yershon, por Sr. Turner
Jóhann Jóhannsson, por A teoria de tudo

Selma

Melhor canção original

“I’m not gonna miss you”, de Glen Campbell e Julian Raymond (Glen Campbell…I’ll be me)
“Everything is awesome”, de Shawn Patterson (Uma aventura LEGO)
“Grateful”, de Diane Warren (Além das luzes)
“Lost Stars”, de Gregg Alexander e Danielle Brisebois (Mesmo se nada der certo)
“Glory”, de John Stephens e Lonnie Lynn (Selma)

Interestelar.Filme 17

Melhor design de produção

O grande Hotel Budapeste
Interestelar
Caminhos da floresta
O jogo da imitação
Sr. Turner

O jogo da imitação

Melhor edição de som

Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)
Sniper americano
Interestelar
O hobbit – A batalha dos cinco exércitos
Invencível

Whiplash

Melhor mixagem de som

Sniper americano
Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)
Interestelar
Invencível
Whiplash – Em busca da perfeição
 

Guardiões da galáxia.Filme 10

Melhores efeitos visuais

Capitão América 2 – O soldado invernal
Guardiões da galáxia
Planeta dos macacos – O confronto
Interestelar
X-Men – Dias de um futuro esquecido

As categorias técnicas mostram um pouco da força de O grande Hotel Budapeste e Interestelar, com todas as indicações merecidas. No entanto, O hobbit receber apenas uma indicação em edição de som parece um caso clássico de querer ignorar uma grande obra em todos os quesitos técnicos (design de produção, figurino, efeitos especiais…) – e o fato de não ter sido indicado em maquiagem parece antecipar tudo (é o Cloud Atlas deste ano). A inclusão de Alexandre Desplat por duas trilhas sonoras chama a atenção, embora a de Hans Zimmer pareça ainda melhor. Invencível merece as indicações de fotografia e edição de som, mas poderia ter sido lembrado pelo design de produção e pelo figurino. Os épicos bíblicos Noé e Êxodo: deuses e reis não foram lembrados nem em figurinos nem em design de produção. O novo RoboCop se encaixaria em várias categorias técnicas, no entanto foi duramente criticado e não conseguiria se encaixar nas campanhas realizadas. Muito justa a lembrança de Ida na categoria de melhor fotografia. E de Guardiões da galáxia em melhores efeitos visuais e maquiagem. O filme de Tim Burton, Grandes olhos, com visual muito cuidado, foi esquecido mesmo nas categorias técnicas – em que Caminhos da floresta foi indicado pelo figurino e design de produção, categorias nas quais o filme de Burton deveria ter sido lembrado. O filme Sr. Turner, de Mike Leigh, também cotado para as categorias principais, foi lembrado por elementos de produção destacáveis.

A cerimônia de entrega será no dia 22 de fevereiro.

Invencível (2014)

Por André Dick

Invencível 10

É comum, todo ano, escolherem um filme com todos os componentes para o Oscar e em 2014 foi o caso do segundo trabalho de Angeline Jolie à frente da direção, Invencível. Anunciado meses antes de sua estreia como o mais fácil candidato aos prêmios da Academia de Hollywood, parecia estranho, depois de seu lançamento, que a crítica e o público já haviam diminuído a expectativa. A questão é que qualquer excesso de expectativa pode ser prejudicial, ainda mais quando estamos lidando com uma das atrizes mais conhecidas de Hollywood ainda pouco experiente na direção e foi protagonista recentemente de um sucesso infantojuvenil, Malévola, dos estúdios Disney.
Particularmente, não chego a apreciar Jolie nem mesmo nos filmes em que ela despontou, como Garota, interrompida, pelo qual recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Dito isso, não estava aguardando especialmente esta obra, apesar do interesse pela reprodução de época, à medida que Invencível se enquadra naquele tipo de biografia histórica tão aos moldes da Academia de Hollywood. Trata-se de um projeto, por tudo que o cercou, muito pessoal para a atriz e cineasta: a vida de Louis Zamperini (Jack O’Connell), que foi um atleta olímpico. O filme inicia mostrando-o como soldado, num avião B-24, em meio a uma batalha sobre o Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, contra japoneses. Esses minutos iniciais já compõem o que será Invencível: é um filme bastante econômico na montagem e com uma fotografia inacreditavelmente bela assinada por Roger Deakins.

Invencível

Invencível 4

Invencível 3

É difícil recordar outro filme recente com uma batalha aérea tão detalhada e compassada como esta que abre Invencível e, se ela é cortada por flashbacks do personagem central em direção à sua infância na Califórnia (então interpretado por CJ Valleroy), quando era perseguido por colegas e, devido à necessidade, precisava correr, passando por isso a ser treinado pelo irmão Peter (John D’Leo), logo Jolie nos coloca em meio aos objetivos de Zamperini: tornar-se atleta olímpico, para competir nas Olimpíadas de 1936. Há, nesta parte de filme, muito claramente um diálogo com Carruagens de fogo, um dos filmes de esporte mais fascinantes de todos os tempos, apesar do comum desapreço por ter recebido justamente o Oscar de melhor filme de 1981. A partir daí, é mostrada a trajetória de Zamperini, tendo de enfrentar inúmeras adversidades, tanto em alto-mar, quando está ao lado de Russell Phillips (Domhnall Gleeson) e Francis McNamara (Finn Wittrock), quanto num campo de concentração japonês, para onde é mandado e conhece Mutsuhiro“Bird”Watanabe (o músico Miyavi), que se torna seu inimigo, além de Fitzgerald (Garrett Hedlund).
Jolie, de forma reveladora, tem um olhar bastante claro para o que pretende mostrar, independente do discurso que contenha: não são poucas as vezes que Invencível dá a impressão de não ter um roteiro sólido. A cineasta deixa de se concentrar em diálogos para narrar o filme por meio de imagens, e elas nunca são menos do que impressionantes, não apenas pelo trabalho fotográfico de Deakins, mas porque o astro Jack O’Connell se coloca como uma extensão entre o espectador e o cenário. São aparadas todas as arestas, e Invencível se desenvolve de maneira ágil, mesmo ignorando sua duração. Escusado será dizer que em alguns momentos o excesso de castigos imputados a seu personagem parecem exceder o bom senso, mas O’Connell nunca deixa de carregar uma fagulha de emoção em sua atuação física que, pelas circunstâncias mostradas, lembra a de Christian Bale em O sobrevivente, de Herzog. Porém, se o filme de Herzog ainda tem uma linha de diálogos mais extensa, os silêncios de Invencível remetem mais à obra-prima de Nagisa Oshima, Furyo – Em nome da honra, que mostrava um soldado neozelandês (feito por David Bowie) enfrentando um capitão japonês (o também músico Ryûichi Sakamoto), numa estranha relação.

Invencível 11

Invencível 18

Invencível 6

Os silêncios da narrativa, entrecortados por imagens de uma ponte, interligando o campo de concentração com a civilização ou uma pintura de Hokusai num restaurante onde vai se alimentar, dialogando com as cenas em que o personagem central precisa enfrentar problemas em alto-mar, mostram uma complexidade, tornando Invencível sobre um grito recolhido, não de vitória (como Zamperini gostaria de ouvir na pista de corrida), mas de desespero, diante da barbárie a que é submetido. Angelina Jolie tem um olhar muito claro em relação ao que deseja mostrar a partir de um roteiro adaptado por Richard LaGravenese e William Nicholson, e também pelos irmãos Joel e Ethan Coen, do romance de Laura Hillenbrand (autora de Seabiscuit): para ela, a história é feita da insistência em não ser esquecido e os elementos da natureza que são dispostos (do ar, passando pela água, depois pelo fogo e pela terra, quando é preciso enfrentar o trabalho forçado) ajudam a formar não apenas a narrativa, como o próprio personagem central. E a arte e os esportes são uma maneira muito clara de eternizar a própria condição efêmera da guerra. Invencível se propõe a colocar o personagem dentro dessa rede de conceitos interessante, fazendo com que ele possa se autossolucionar independendente de sua imagem ligada à guerra. Apenas se lamenta que, com esse destaque dado ao personagem central quase de forma absoluta, alguns personagens coadjuvantes não possam ter um desenvolvimento maior, como o de Fitzgerald.

Invencível 2

Invencível 15

Invencível 7

Embora haja alguns elementos patrióticos no filme, eles não são excessivos quando condicionados pela atuação de O’Connell, que realmente representa esse elenco com a força necessária individual (e parecem menos previsíveis do que a crítica ao patriotismo ianque de um Foxcatcher). Deakins faz um passeio pela história proporcionando ao espectador imagens aproximadas a quadros de ambientes que realmente existiram, e para isso o desenho de produção e o figurino atuam com perícia. Jolie, num terreno já frequentado antes por grandes e renomados cineastas, como Clint Eastwood, consegue encontrar emoção e estranheza na condição de Zamperini diante do que precisa enfrentar.
Não se trata de um caminho fácil; assim como mostra a contemplação diante de cenas fortes graficamente, Jolie compõe algumas cenas de movimento com grande êxito, como aquelas em alto-mar, que se aproximam do trabalho de Ang Lee em As aventuras de Pi, no entanto com uma tensão própria. É notável, em igual escala, o modo como a claridade é captada por Deakins no início do filme, com os flashbacks da infância de Zamperini, e o quanto ela vai desaparecendo, embora não totalmente, ao longo do filme, até se conciliar à frieza dos trabalhos forçados num cenário completamente cinza. Se está sendo feito um filme com base na história, esta não pode ser colocada em segundo plano, assim como a narrativa, em busca sempre de um equilíbrio. Mesmo que Invencível se sinta de algum modo como um projeto em construção (comenta-se que a montagem não teve concordância completa da diretora), principalmente ao final, quando cede a um intervalo mais pop, ele tem uma força e ressonância próprias, capazes de fazer o espectador se interessar não apenas pelo tema, como também pela própria figura enfocada e sua constante superação pessoal. Este filme é um relato de sobrevivência transparente tanto de um indivíduo quanto de um tipo de cinema que retoma o passado procurando esclarecer os caminhos a seguir.

Unbroken, EUA, 2014 Diretor: Angelina Jolie Elenco: Jack O’Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Finn Wittrock, Jai Courtney, Alex Russell, Luke Treadaway, Miyavi Roteiro: Richard LaGravenese, William Nicholson, Joel e Ethan Coen Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 137 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: 3 Arts Entertainment / Jolie Pas / Legendary Pictures

Cotação 4 estrelas

Whiplash – Em busca da perfeição (2014)

Por André Dick

Whiplash 14

As proximidades da temporada de premiações em Hollywood costumam anunciar uma série de filmes com predisposição a conquistar prêmios e a crítica. No ano passado, tivemos talvez a melhor safra desde que o Oscar começou a selecionar nove ou dez títulos na categoria principal. Mas, entre eles, há sempre obras superestimadas, com uma qualidade inferior à recepção que atingem. Em 2013, este era o caso de O lado bom da vida e em 2014 de Trapaça, ambos curiosamente de David O. Russell e com qualidade, mas não a ponto de serem indicados a todos os prêmios principais.
Este ano o filme independente com força para estar em inúmeras listas e premiações é Whiplash – Em busca da perfeição. Seu tema não é corrente no universo cinematográfico – o mundo dos alunos de jazz – e não é comum a parceria existente entre Miles Teller e J.K. Simmons. Teller faz Andrew Neiman, que entra no Conservatório Schaffer. Ele deseja ser um baterista reconhecido e nos horários de folga costuma ir ao cinema com o pai Jim (Paul Reiser), enquanto se interessa por uma universitária que trabalha nele, Nicole (Melissa Benoist). É também observado pelo exigente professor Terence Fletcher (Simmons), que o convoca a participar de sua banda, para tocar, entre outras composições, aquela que dá nome ao filme e cuja altura da voz ultrapassa a dos solos de bateria. Enquanto tenta participar do melhor modo da banda, Andrew é constantemente pressionado a melhorar – e cadeiras podem voar na sua direção se não atender ao que o professor exige.
O diretor Damien Chazelle soube tocar as plateias que assistiram a Whiplash, e isso lhe rendeu inicialmente prêmios no Festival de Sundance. Depois, ele soube selecionar dois grandes nomes para os papéis principais: Teller se afirmou, depois do interessantíssimo Reencontrando a felicidade, no ótimo e quase esquecido O maravilhoso agora, no qual tem seu melhor momento como ator, e Simmons é um dos nomes preferidos de Jason Reitman, curiosamente o produtor executivo deste sucesso de público e crítica nos Estados Unidos quando dirigiu esta temporada o superior Homens, mulheres e filhos (em que aparece Simmons). Whiplash tem um roteiro com elementos interessantes, como o duelo interno entre as personalidades de Andrew e Fletcher.

Whiplash 6

Whiplash 11

Whiplash 9

Mas Chazelle não esconde a sua inexperiência e, se há excelentes enquadramentos no momento em que os músicos se reúnem, e a montagem é satisfatória o bastante para que nunca percamos de vista os personagens centrais (auxiliada pelo fato de que Teller realmente tem experiência como baterista), falta a ele o que havia em Alan Parker quando dirigiu o excepcional Fama, do qual Whiplash extrai muito, desde o sonho de ser artista e reconhecido até seus momentos em que a plateia entra em simbiose com o personagem principal e a torcida é voltada para seu sucesso, além da primeira meia hora, com a disposição dos integrantes em estúdios de música. Parece não haver uma tentativa maior de estabelecer ligações entre os personagens e analisar a fundo o que exige a fama e como músicos a exemplo de Andrew querem se transformar em ídolos para, então, combater os próprios ídolos num patamar exigente de competição entre aqueles que não são considerados menos do que geniais. Para Whiplash, a arte é uma maneira apenas de sobrepujar o outro e os gênios não compõem, são apenas intérpretes com força e devem ser acordados de preferência com um balde de gelo ao lado. Não pode haver amizade entre quem investe na competição e para se atingir o sucesso é preciso não dar espaço (nisso, quem derrama lágrimas deve se lembrar de que não sofreu nada). Ao mesmo tempo, as comparações que o filme faz do personagem com o saxofonista Charlie Parker, cuja cinebiografia, Bird, foi feita por Clint Eastwood nos anos 8o, não são corretas, pois este foi um criador musical incomum, e não alguém dedicado puramente à virtuose.
Em meio à trama central, Whiplash necessitaria de um roteiro mais interessante, com personagens coadjuvantes mais expressivos. A utilização de Nicole como interesse amoroso e do pai são caminhos aceitáveis, mas em Whiplash eles não são sequer elaborados. Há uma fala de Nicole numa lanchonete em que ela menciona o que o roteiro deveria desenvolver, mas não consegue, por isso coloca em sua personagem uma espécie de síntese. São detalhes que apenas circulam ao redor da trama principal, mas eles parecem subitamente expostos, assim como uma reunião em que Andrew quer deixar claro a todos que está sendo colocado em segundo plano.

Whiplash 3

Whiplash 2

Whiplash 12

Impressiona, neste caso, não que Whiplash seja visto como um representante de qualidade do cinema independente, mas que outros filmes potencialmente superiores nesse campo sejam deixados em segundo plano. Também em razão das atuações vigorosas de Teller e Simmons, há uma constante vontade em Whiplash de estabelecer agrados por meio dos personagens centrais, evitando que Andrew e Fletcher sejam mais do que iguais ou opostos; havia realmente complexidade nesta relação, que o diretor reduz a solos de bateria não apenas pelo tema, mas porque não tem real interesse em ver tudo além de um embate entre mestre e aluno. Mais interessante é ver como Andrew vai mostrando sua aversão a críticas alheias e comportamentos capazes de ignorar seu talento; se no início Teller faz um jovem recém-saído da adolescência com receio de demonstrar suas habilidades como músico, Whiplash mostra, aos poucos, como é possível buscar crescimento em sua própria aversão ao receio de demonstrar sua explosão pessoal. Este é um filme sobre um personagem que surge de uma determinada maneira e progressivamente piora, em busca da homenagem à virtuose – e parece ser aqui que a história é basicamente sobre um indivíduo autocentrado. A música, em Whiplash, não representa uma libertação, mas sim aquilo que irá prender seu personagem; é uma sensação estranha, mas parece ser o que mais agrada ao espectador.
No entanto, os caminhos adotados pela narrativa não são o bastante para transformar o filme numa referência como os músicos do jazz são para Andrew, ou seja, os conflitos entre aprendiz e mestre nunca trazem algo de realmente original – e Fletcher dirá impropérios contra o pai de seu pupilo por este não ser o que sonhou, numa espécie de verniz psicológico desnecessário. Não chega a haver intensidade nos conflitos que não tenha sido vista antes com mais propriedade em Cisne negro (entre os personagens de Vincent Cassel e Natalie Portman) ou Sociedade dos poetas mortos (embora Simmons não tente ser agradável como o professor feito por Robin Williams).
Ainda assim, há algo nele profundamente sincero, em meio aos seus problemas narrativos: assim como o próprio diretor, embora pareça, os personagens de Whiplash não estão interessados no que a plateia vai considerar de seu talento ou não; eles simplesmente se entregam ao momento para obterem a rivalidade a ser buscada em qualquer situação. É exatamente o que a plateia tem em mãos: Whiplash parece ter um monte de talento guardado, mas ele pouco está interessado na sua recepção. É, na verdade, uma história sobre um mentor e um aprendiz que se unem para ignorar o público. Para eles, esta é a perfeição a ser buscada.

Whiplash, EUA, 2014 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Melissa Benoist, Paul Reiser, Austin Stowell, Nate Lang Roteiro: Damien Chazelle Fotografia: Sharone Meir Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: David Lancaster, Helen Estabrook, Jason Blum, Michel Litvak Duração: 106 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Blumhouse Productions / Bold Films / Right of Way Films

Cotação 2 estrelas e meia