Resultados do Oscar 2015

Por André Dick

Birdman.Oscar

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas escolheu este ano Neil Patrick Harris como apresentador. As participações dele foram discretas, mas sua presença não chegou a ser cansativa como poderia ser; o número musical do início teve certa qualidade depois daquele que causou polêmica há dois anos, com o diretor de Ted, Seth MacFarlane. Trouxe as presenças de Anna Kendrick e Jack Black e lembrou um pouco os números conduzidos por Billy Cristal nos anos 90, principalmente. Ainda assim, a cerimônia se estendeu como de costume e sem destacar a apresentação feita a cada filme, apresentados em grupo, como se não houvesse tempo: como se sabe, há. Um dos melhores momentos foi quando Harris imitou o personagem de Michael Keaton em um determinado momento de Birdman. A homenagem aos 50 anos de A noviça rebelde (vencedor do Oscar em 1966) apresentou Julie Andrews agradecendo emocionada. E aconteceram algumas surpresas não apenas nas categorias principais, como também nas técnicas.

Birdman.Oscar 2

Melhor filme 

Se há um filme que realmente cumpriu as expectativas nas categorias para as quais era indicado é O grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson. Nenhum filme do cineasta havia recebido um Oscar anteriormente e neste ano conseguiu 4 conquistas na parte técnica. Os filmes de Anderson sempre foram visualmente muito atrativos, mas depois de Moonrise Kingdom havia a impressão de que nunca conseguiria chegar ao Oscar. Depois de quase 15 anos da obra que ainda é a melhor de sua trajetória, Os excêntricos Tenenbaums, Anderson consegue avançar em Hollywood para continuar produzindo seus projetos independentes e criativos. Ainda que não tenha recebido o Oscar de melhor roteiro e direção, ou seja, continue sem receber os principais, Anderson se credencia para novos projetos.
O filme que realmente parece ter “encolhido” na chegada final da disputa foi Boyhood – Da infância à juventude. É estranho que tivesse sido lembrado no Oscar, uma premiação avessa a produções que se rotulam como “indie”. Ao contrário de Wes Anderson, que apresenta junto com sua imaginação um lado histórico em O grande Hotel Budapeste, Richard Linklater continua usando sua simplicidade conseguida na série Antes do amanhecer/Antes do pôr do sol/Antes da meia-noite. Filmado durante 12 anos, Boyhood tem um afeto incalculável e, se a premiação que obteve de atriz coadjuvante (para Patricia Arquette) é bastante justa, não parece ter sido seu esquecimento em outras categorias.
A grande surpresa foi Whiplash – Em busca das perfeição, que recebeu os Oscars de ator coadjuvante (J.K.Simmons), montagem e mixagem de som (depois da premiação, fui conferir se entre os produtores do filme estavam os Irmãos Weinstein, que conseguiram um feito parecido com O discurso do rei, mas não os encontrei).
Diante de surpresas ou não, Birdman se antecipou como o grande ganhador da noite quando Sean Penn, ator de 21 gramas, de Alejandro González Iñárritu, subiu ao palco para apresentar o Oscar de melhor filme. Eis um filme que, depois de Boyhood, era um merecedor desse prêmio e um daqueles com menos tendência, pelo menos antes das indicações, a recebê-lo. Não que o trabalho de fotografia de Emmanuel Lubezki não seja excepcional, mas porque Birdman era dirigido novamente por um mexicano, que havia recebido o prêmio de diretor no ano passado (Alfonso Cuarón). E Iñárritu não apenas recebeu o prêmio de direção, como de roteiro e de filme. Contrariou-se também a lógica dos últimos anos, quando se deu o Oscar de melhor direção para quem não dirigiu o melhor filme, apenas para contrabalançar. Apesar de ser uma crítica aos filmes de super-heróis, o diálogo com Batman, em razão de Michael Keaton, é evidente e não deixa também de ser uma homenagem. E, ao contrário do que costuma recitar certa crítica, que aponta falhas nos filmes de Iñárritu, seus filmes, mesmo o problemático Biutiful, têm qualidade de autor. Não deixa de ser uma confirmação dos talentos do México que se firmaram neste século, com uma geração que tem, além de Iñárritu e Cuarón, os nomes de Guillermo del Toro, Carlos Reygadas, diretor de filmes como Luz silenciosa e Luz depois das trevas, e Amat Escalante, pupilo de Reygadas e diretor de Heli. 
Os demais indicados, O jogo da imitação, A teoria de tudo, Sniper americano e Selma, saíram, cada um, com Oscar. Um grande acerto do Oscar foi não ter incluído Foxcatcher entre os indicados à categoria principal e não ter premiado o filme de Miller.
Embora entre os indicados contássemos com filmes inferiores à indicação para melhor filme, não chegando à qualidade vista em 2012 e 2013, foi um ano muito bom (ver mais sobre filmes esquecidos em “Indicados ao Oscar 2015”).

Melhor diretor

Birdman.Oscar 3

O mexicano Iñárritu já havia sido indicado a melhor direção pelo ótimo Babel e seu 21 gramas havia concorrido a dois Oscars. Seu último trabalho, Biutiful, havia sido menor em sua trajetória exitosa, que, como a de Cuarón, atinge seu ponto de conhecimento popular com Birdman. Seu filme é raro, assim como o trabalho que compôs, e na categoria os principais concorrentes eram Wes Anderson e Richard Linklater. As indicações de Bennett Miller, por Foxcatcher, e Morton Tyldum, por O jogo da imitação, a meu ver, já ocupam espaço de diretores que tiveram um trabalho bastante superior no ano passado, para citar alguns Paul Thomas Anderson (Vício inerente), Christopher Nolan (Interestelar), J.C. Chandor (O ano mais violento) e Pawel Pawlikowski (Ida).

Melhor ator

A teoria de tudo.Filme 2

Mesmo depois de sua participação em O destino de Júpiter, Eddie Redmayne manteve o favoritismo e recebeu o Oscar por sua atuação irrepreensível em A teoria de tudo. Michael Keaton teve o mérito de estar no filme ganhador do prêmio principal. O ótimo Benedict Cumberbatch certamente terá outras oportunidades, assim como Bradley Cooper, muito bem em Sniper americano (lamenta-se que o filme seja irregular), enquanto Steve Carell, com toda minha apreciação, não se mostra bem em Foxcatcher. Para seu lugar, havia possibilidade de nomes como Matthew McConaughey (Interestelar), Joaquin Phoenix (Vício inerente), Jake Gyllenhaal (O abutre ou O homem duplicado), Bill Murray (Um santo vizinho), Ellar Coltrane (Boyhood) e Oscar Isaac (O ano mais violento).

Melhor atriz

Para sempre Alice

Julianne Moore merece o prêmio por Para sempre Alice, pelo conjunto da obra feita no ano passado também em Mapas para as estrelas (pelo qual venceu em Cannes) e Jogos vorazes: A esperança – Parte I. Marion Cotillard, de qualquer modo, tem a melhor atuação em Dois dias, uma noite. Não concordo tanto com as indicações de Rosamund Pike (Garota exemplar), Reese Whiterspoon (Livre) e Felicity Jones (A teoria de tudo). Poderiam ser lembradas Kristen Wiig (Amores inversos ou Irmãos desastre), Jennifer Aniston (ótima em Cake) ou Shailene Woodley (A culpa é das estrelas ou Pássaro branco na nevasca).

Melhor ator coadjuvante

Whiplash.Oscar

J.K. Simmons teve uma vitória novamente predeterminada, como Jared Leto no ano passado, sem o devido merecimento, embora esteja bem como o Sr. Fletcher em Whiplash. Mais uma vez Ethan Hawke foi injustiçado na categoria, como havia sido em Dia de treinamento. Edward Norton também está excelente em Birdman, e Mark Ruffalo tem a presença mais humana de Foxcatcher. E Robert Duvall era a lembrança afetiva do grande ator em O juiz. Três coadjuvantes que poderiam estar nessa lista são Robert Pattinson (The Rover – A caçada), Richard Armitage (O hobbit) e Josh Brolin (Vício inerente).

Melhor atriz coadjuvante

Boyhood.Oscar 9

A atriz Patricia Arquette acabou recebendo o prêmio simbólico para Boyhood. Ela, de certo modo, representa bem a proposta do filme. As demais atrizes estão bem, como Emma Stone, em Birdman, mas sem a mesma presença, inclusive Laura Dern, uma das atrizes mais talentosas de Hollywood, prejudicada pela montagem adotada em Livre. Um esquecimento nesta categoria foi o de Jessica Chastain, destaque em O ano mais violento. Também Adriana Barraza (em Cake), Naomi Watts (em Um santo vizinho ou Birdman) e Whiterspoon (ótima em Vício inerente) poderiam ter sido lembradas.

Melhor roteiro original

Birdman.Oscar 4

Este é um dos prêmios merecidos da noite: Birdman tem um jogo de linguagens muito instigante e é assinado a oito mãos (Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo), embora os trabalhos de O grande Hotel Budapeste e Boyhood também sejam ótimos. Gosto menos dos trabalhos de O abutre e, sobretudo, de Foxcatcher, o mais fraco desses indicados. Foram esquecidos os roteiros de J.C. Chandor para O ano mais violento; de Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz para Ida; de Bilge Ceylan e Ebru Ceylan para Winter sleep; e de Jean-Pierre e Luc Dardenne para Dois dias, uma noite, todos muito bons.

Melhor roteiro adaptado

O jogo da imitação

O vencedor foi Graham Moore pelo roteiro de O jogo da imitação. Nessa categoria, havia, no entanto, o trabalho excelente de Paul Thomas Anderson em Vício inerente, adaptando o livro de Thomas Pynchon, que merecia o prêmio. Dos demais indicados, o roteiro mais interessante era o de A teoria de tudo.

Melhor filme estrangeiro

Ida.Oscar

O filme polonês Ida é de uma beleza extraordinária, apesar do previsível hype contrário que se estabeleceu, quando se tornou conhecido, depois de chamar atenção em festivais, e tinha Leviatã, da Rússia, também excelente, como principal concorrente. Os outros filmes têm qualidades (embora alguns deles passageiras), mas a Academia mais uma vez deixou pontos de interrogação no que se refere a não ter indicado Força maior, Winter sleep e Dois dias, uma noite.

Melhor filme de animação

Operação Big Hero.Oscar

Depois da exclusão de Uma aventura LEGO, a Walt Disney, assim como no ano passado com Frozen – Aventura congelante, novamente vence na categoria com Operação Big Hero.

Melhor fotografia

Birdman.Oscar 5

No ano passado, quando Emmanuel Lubezki recebeu o Oscar por Gravidade, já era o melhor diretor de fotografia da atualidade, por seus trabalhos com Terrence Malick. Birdman talvez tenha levado ao limite essa escolha. Apenas se lamenta que novamente Roger Deakins tenha perdido o prêmio com seu trabalho impressionante em Invencível. Os trabalhos de Robert Yeoman em O grande Hotel Budapeste e de Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski em Ida são memoráveis; se não tivessem o trabalho de Lubezki como parâmetro, mais chamativo, poderiam receber o prêmio com merecimento também.

Melhor trilha sonora

O grande Hotel Budapeste.Filme

Finalmente, o grande Alexandre Desplat recebeu o Oscar, com a trilha de O grande Hotel Budapeste (também era indicado por O jogo da imitação). Ainda assim, particularmente, a melhor trilha é a de Hans Zimmer para Interestelar, como já era, no ano passado, a de 12 anos de escravidão. Muito bela a trilha também de Jóhann Jóhannsson, em A teoria de tudo.

Melhor montagem

Whiplash.Oscar 2

Nesta categoria, foi dada preferência ao trabalho de montagem de Whiplash em detrimento daquele de Boyhood, que torna orgânica uma filmagem de 12 anos, e de O grande Hotel Budapeste, que comprime várias histórias em 100 minutos. Os trabalhos apresentados em Birdman e Interestelar não foram lembrados.

Melhor design de produção

O grande hotel Budapeste 8

O design de produção feito por Adam Stockhausen e Anna Pinnock para O grande Hotel Budapeste é extraordinário. Merecido, como seria em quase todos os filmes de Wes Anderson. Seu mais forte concorrente era o trabalho mostrado em Interestelar.

Melhor figurino

O grande hotel Budapeste 5

O figurino de Milena Canonero em O grande Hotel Budapeste é um destaque. Canonero é um dos nomes geniais dessa área, e já havia vencido por Barry Lindon, Carruagens de fogo e Maria Antonieta. Para Wes Anderson, já havia feito os figurinos de A vida marinha com Steve Zissou.

Melhor maquiagem e penteado

O grande Hotel Budapeste 21

Um prêmio para Frances Hannon e Mark Coulier que sustenta ainda mais a parte técnica de O grande Hotel Budapeste, embora o destaque se concentre no caso de Tilda Swinton.

Melhor canção

Selma.Oscar 2

Composta por John Stephens e Lonnie Lynn, “Glory”, de Selma, foi a escolhida, numa categoria que contava ainda com “Everything is awesome”, de Shawn Patterson (Uma aventura LEGO) e “Lost Stars”, de Gregg Alexander e Danielle Brisebois (Mesmo se nada der certo). Foram boas as apresentações de todos nessa categorias, entre os melhores momentos da noite, inclusive a de “I’m not gonna miss you”, de Glen Campbell e Julian Raymond (Glen Campbell…I’ll be me).

Melhores efeitos visuais

Interestelar.Oscar

O único prêmio, e merecido, para Interestelar, com os melhores efeitos especiais, apesar de os trabalhos apresentados pelos concorrentes serem de qualidade.

Melhor mixagem de som

Whiplash.Oscar 4

Havia dois trabalhos excepcionais concorrendo com o vencedor Whiplash: Interestelar e Invencível.

Melhor edição de som

Sniper americano

O filme de Clint Eastwood Sniper americano teve sua vitória na categoria em que O hobbit – A batalha dos cinco exércitos obteve uma solitária indicação, ao lado de grandes trabalhos apresentados em Birdman, Invencível e Interestelar.

Melhor documentário em longa-metragem

O documentário O sal da terra, de Wim Wenders e Juliano Salgado, sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, acabou perdendo para Citizenfour, apontado como favorito anteriormente.

Melhor curta-metragem

The phone call

Melhor documentário em curta-metragem

Crisis Hotline: Veterans Press 1

Melhor animação em curta-metragem

Feast

Leviatã (2014)

Por André Dick

Leviathan.Filme 4

Representante da Rússia no Oscar de filme estrangeiro e vencedor do Globo de Ouro, Leviatã talvez seja o filme mais melancólico deste início de ano, no sentido de que faz um retrato direto de seu país de origem, pela quantidade de personagens envolvidos por uma situação delicada, e consegue, em igual tom, ser uma sátira direta a certo comportamento humano ligado ao Estado e aos meios que este domina. Desde o seu início, mostrando imagens das ondas do mar batendo em rochas, passando por restos de um barco perdido na areia (como se fossem esqueletos) até a imagem da casa da família principal, ao longe, há a sensação de abandono do lugar enfocado, a cidade costeira de Pribrezhny. Enquanto Ida, o principal concorrente dele no Oscar, mostra uma Polônia pós-Segunda Guerra Mundial, ainda em recuperação, pela quantidade de desaparecidos e cicatrizes familiares que não se fecham, Leviatã não evita colocar os olhos no próprio sistema em que o diretor Andrey Zvyagintsev, o mesmo de O retorno, vive; ele o faz com determinação e conhecimento cinematográfico, o que torna Leviatã um filme, acima de tudo, com uma estética definida.
O pai da família Kolya (Aleksey Serebryakov), um mecânico de carros, casado com a segunda mulher, Lilya (Elena Lyadova) e pai de um adolescente, Roma (Sergey Pokhodaev), vai à estação de trem receber seu antigo amigo, Dmitriy (Vladimir Vdovichenkov), um amigo dos tempos em que era militar e que agora trabalha como advogado em Moscou para ajudá-lo a manter sua casa. O prefeito do lugar, Vadim (Roman Madyanov), sempre conduzido por seguranças com uma dose etílica a mais, deseja a propriedade, mostrando seu poder não apenas junto às autoridades locais que deveriam ser independentes dele, mas em relação a sua presença na sociedade.

Leviathan.Filme 9

Leviathan.Filme 2

Leviathan.Filme 3

Se as imagens captadas com excelência por Mikhail Krichman parecem graves o suficiente, e com uma simetria bastante parecida com a de certo cinema que busca influência em Abbas Kiarostami, há, em justas medidas, um humor involuntário em determinadas situações, como aquela em que os juízes dão o seu parecer sobre a terra, em que uma fala ininterrupta provoca nervosismo e enigma no espectador, pela aceleração dada. Não para trás, a figura do prefeito Vadim, mais do que uma crítica à política (que o governo russo não admirou, certamente pelo destaque dado pelo diretor a um retrato na sala da prefeitura), é certamente de uma figura levada ao limite da própria condição e a cena em que ele reúne seus assessores  cria um paralelo risível àquela em que se aconselha com uma figura que guia a pequena cidade. Leviatã não é um filme exatamente sutil – porém, ele não está interessado exatamente em ser sutil, e sim em atacar um estado de coisas que considera semiapocalíptico.
Por trás da melancolia, e a despeito de que seria excessivo, Leviatã é o que se pode chamar de cinema de alta definição. Ele se desenvolve numa lentidão em movimento, como o cinema do turco Ceylan, ou seja, uma lentidão que nunca interrompe o seu fluxo. Aqui se encontra um elenco em grande sintonia com o roteiro e a excepcional fotografia.
A cidade de Pribrezhny adquire uma atmosfera notável com os enquadramentos do diretor, como se colocasse sempre os personagens ou os carros nas estradas em pequenos pontos espalhados por um cenário que não parece abandonado apenas para seus habitantes, como também por uma possível esperança para que todos consigam sair da situação em que se encontram. Eles também bebem muito e esgotam a vodka de todas as estações em uma rodada noturna, como se estivessem entoando Dostoiévski a cada vez que sentam numa mesa ou ficam ao ar livre diante de um lago.
Nenhum deles é exatamente perfeito: Kolya é um personagem complicado, assim como sua esposa, e Dmitriy não é exatamente um exemplo, apesar de sua persuasão e de parecer, por um instante, um agente da KGB em ação; a questão, em Leviatã, é que há figuras ainda mais complicadas, e que dizem respeito a um panorama amplo do que o diretor pretende mostrar, não apenas por meio desses personagens, mas também Pacha (Aleksey Rozin), Angela (Anna Ukolova) e Ivan (Sergey Bachurskiy). Com um olhar interessado em desenhar ligações sem necessidade deixá-las evidentes, Zvyagintsev, a partir de um determinado acontecimento, deixa o espectador indeciso sobre o que exatamente aconteceu numa passagem, o que confere ao filme uma tensão ainda maior e própria de um thriller. E, como no cinema de Ceylan, o amanhecer e o anoitecer adquirem uma atmosfera especial, com as luzes das casas recém-acesas e o movimento das pessoas em estradas quase desertas. Muito da aceitação de Leviatã é perceber justamente nessa falta de movimento o que leva cada um a se modificar ou criar alguma mudança.

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Leviathan

As figuras de um vilarejo onde o prefeito dita os rumos parecem ecoar uma repetição de algo já visto, historicamente falho. Mas, em meio à falta de esperança aparente e concentrada, Leviatã reserva uma possibilidade de mudança. Há uma certa sensação no filme de estar se chegando ao limite, no entanto este conserva o diálogo com as mudanças registradas pela história que o filme critica. Com perícia técnica, o diretor Zvyagintsev aponta que o grande leviatã, seja aquele que simboliza o Estado visto por Thomas Hobbes, ou aquele bíblico não é o mais importante: o que vem à tona, no filme de Zvyagintsev, são as mudanças do mar e da natureza. Este Leviatã que na Bíblia era visto como o maior monstro marítimo, se transforma, neste filme, numa carcaça de baleia na areia da praia, para onde o menino Roma corre em determinado momento. Esta carcaça já está cercada pela areia, embora em outro momento Lylia aviste uma espécie de baleia em alto-mar, nas ondas do impressionante Mar de Barents. Ao mesmo tempo, se há uma figura que Kolya lembra, na Bíblia, como apontam algumas análises do filme, é Jó: como no filme dos irmãos Coen, Um homem sério, há uma série de questões a ser resolvidas também num plano metafísico, o que se acentua com a atuação excelente do elenco, sem exceções e com destaque para Serebryakov e Madyanov, que se enfrentam como se fossem realmente opostos de uma sociedade. Há uma crítica, sem deixar de lado a qualidade artística, de a obra sobreviver por si só – o que torna também admirável este trabalho de Zvyagintsev.
No filme, o leviatã, de forma apropriada, também surge ao som da trilha sonora extraordinária de Philip Glass. Uma carcaça gigante onde é possível sentar – para esperar a próxima maré. Como Ida, seu principal concorrente, Leviatã não tem sobras: pode-se acusá-lo de simples, embora não seja, porque se não teríamos muitos outros filmes assim. Não há, e quando há parece determinante encontrá-los, por mais que traga um retrato por vezes tão cinza.

Leviafan, RUS, 2014 Direção: Andrey Zvyagintsev Elenco: Aleksei Serebryakov, Roman Madyanov, Vladimir Vdovichenkov, Elena Lyadova, Sergey Pokhodaev, Aleksey Rozin, Anna Ukolova, Sergey Bachurskiy Roteiro: Oleg Negin, Andrey Zvyagintsev Fotografia: Mikhail Krichman Trilha Sonora: Phillip Glass Produção: Alexander Rodnyansky, Sergey Melkumov Duração: 140 min. Distribuidora: Sony Pictures Classics

Cotação 5 estrelas

 

Sniper americano (2014)

Por André Dick

Sniper americano 5

O filme mais polêmico a ser indicado ao Oscar deste ano parece ser Sniper americano, a nova obra de Clint Eastwood. No ano passado, o cineasta já havia feito Jersey Boys – Em busca da música, que foi recepcionado em grande parte por críticas negativas. Se nele Eastwood mostrava uma originalidade ao conjugar trama biográfica e musical, com um insuspeito bom humor, inexistente em sua trajetória, em Sniper americano ele se volta ao lado da guerra do Iraque, que marcou os Estados Unidos depois, principalmente, dos atentados de 11 de setembro. Este enfoque custa aos filmes que tratam dessa guerra como exploradores de violência, o que foi o caso, por exemplo, de A hora mais escura, de Kathryn Bigelow, criticado, na época de seu lançamento, pelas cenas de tortura.
Alguns anos depois deste filme, Eastwood vai ao campo de combate mais uma vez, para mostrar a história de Chris Kyle, considerado o maior atirador dos Estados Unidos, vivido por Bradley Cooper. Eastwood, conhecido por seu talento em mostrar cenas de guerra, como em Cartas a Iwo Jima e A defesa da honra, segue o seu enfoque militarista. No entanto, este não é o seu segundo O destemido senhor da guerra, uma produção de guerra que mesclava o ambiente militar com humor. Sniper americano é uma espécie de segundo A hora mais escura, utilizando a mesma paleta de cores e a mesma movimentação de câmera – em determinado momento, o espectador parece assistir a entrada dos militares na casa de Bin Laden, mas desta vez é o grupo de Kyle (as imagens, se montadas em conjunto, se passariam pelo mesmo filme).
A crítica Pauline Kael, crítica severa de Eastwood, certamente ficaria surpresa com a recepção a este filme nos Estados Unidos, depois de ele arrecadar quase 300 milhões de dólares desde sua estreia no início de janeiro. Segundo ela, não havia um pingo de bom senso em algumas obras de Eastwood e este possivelmente seria a sua gota-d’água: Sniper americano, mesmo que não seja exatamente pró-violência (ele lida com os personagens de maneira quase documental), tem um discurso estranhamente desvalorizado pelo ritmo empregado e por diálogos que não chegam a soar críveis ao espectador. A impressão é que Bradley Cooper, que ajudou a financiar o projeto, chamou Eastwood, um cineasta reconhecido, para criar um candidato ao Oscar. O filme não apresenta elementos psicológicos que caracterizam os últimos filmes dele e, mesmo quando ele tenta transformar a violência cotidiana em elemento de heróis, como Gran Torino, há alguém de visão atrás das câmeras.

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Sniper americano é um retrato sobre o peso da violência na sociedade dos Estados Unidos. Depois de uma década de 90 irreparável, com quatro peças excelentes (Coração de caçador, Os imperdoáveis, Um crime perfeito e As pontes de Madison), Eastwood, nos últimos anos, tem tentado investigar o que corre embaixo da superfície social dos Estados Unidos, em peças como Sobre meninos e lobos, Gran Torino e J.Edgar, ou da política mundial, em Invictus, embora se permita a filmes com temática mais religiosa (Além da vida). E o diretor nunca propagou a violência, a exemplo do que vemos em Os imperdoáveis e Menina de ouro, sempre mostrando indivíduos afetados por um universo violento, mas que desejam, afinal, se afastar dele. Ou seja, sempre foi, embaixo de sua visão de cowboy americano, um cineasta de ideias intimistas.
Há esta tentativa de intimismo em Sniper americano, mas Eastwood esbarra no roteiro de Jason Dean Hall, de uma limitação visível, a partir das memórias de Chris Kyle. Um dos filmes anteriores com roteiro de Hall é Jogando com prazer, com Ashton Kutcher, e ele mostra bem as limitações de escrita: difícil em Sniper americano o espectador ver mais do que balas varando a câmera para atingir americanos ou inimigos dos americanos. E Cooper, na mesma medida em que oferece um personagem introspectivo – o espectador não fará ideia de quem foi Kyle, além de ser alguém abalado pela guerra –, desempenhando com certa solidão as linhas do roteiro, jamais se aproxima do que seria a ideia do filme: ser contra a violência utilizando dela a todo o custo. Para Eastwood, Kyle não é um atirador exímio porque teria sangue frio para tal: ele age como tal porque a cultura o produziu assim e tudo o que fez é como se fosse uma expectativa depositada nele por seu país. Este olhar exclui notavelmente o indivíduo em si mesmo, e Eastwood julga que Kyle é um herói não por se considerar desse modo, e sim porque seus colegas militares acharam que ele estava fadado para ser um sniper. O fato de o personagem não estar satisfeito com esta condição é claro, porém este aspecto não é trabalhado no sentido de criar uma tensão dramática.

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O máximo de profundidade que este personagem atinge é ficar em dúvida se atira ou não em crianças no cenário de guerra. Ele conseguiria conviver tranquilo tendo um filho e tendo de matar, ao mesmo tempo, crianças no Iraque? É uma das questões que o filme suscita, mas deixa pelo caminho, com receio de se comprometer, mesmo porque o roteiro não a elabora. Há um possível número de conceitos (e todos poderiam ser feitos a partir apenas do trailer) a respeito disso, só não são apresentados com traços interessantes. Enquanto Bigelow não faz elogios a governos pós-11 de setembro, avaliando, numa crítica ao sistema americano, que os métodos usados para extrair informações de suspeitos são encobertos e tortuosos, para Eastwood os métodos de Kyle fazem apenas parte de uma cultura de guerra, sendo apenas uma extensão do Velho Oeste.
Há, ao longo do filme, tentativas de equilibrar o racionalismo de Kyle com o de sua mulher, Taya (Sienna Miller, muito bem), entretanto Eastwood, aqui, não encontra a medida exata, mesmo contando com uma bela atuação de Bradley Cooper, possivelmente a melhor e mais discreta de sua carreira, apesar de limitada pelo roteiro. Muito em Sniper americano soa como se costurado em fragmentos indecisos, e parece que as ações não têm o impacto que deveriam na construção da narrativa, apesar de Eastwood continuar com um talento para filmar cenas de tiroteio (sobretudo na quarta ida de Kyle ao Iraque). Isso se deve não apenas ao roteiro de Hall, como também a uma escolha de montagem equivocada: querendo potencializar o lado dramático que seu filme, e em relação ao qual tem consciência, não possui, embora pareça – pelo próprio cenário de guerra –, Eastwood tenta tirar a linearidade da narrativa. Nisso, ele acaba deixando de lado os personagens, que soam como se estivessem apenas de passagem ao lado de algum tanque, com diálogos sem ênfase e dramaticidade e uma justificativa histórica falha para a Guerra do Iraque, várias vezes já desmentida. Este é um filme de ideias instigantes, com um bom ator principal e um diretor talentoso atrás das câmeras que simplesmente não funciona em boa parte, apesar de ser assistível e com sequências de guerra encaixadas. E, como o personagem de Kyle, não há uma explicação exata para isso.

American sniper, EUA, 2014 Diretor: Clint Eastwood Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Luke Grimes, Max Charles, Kyle Gallner, Brando Eaton, Jake McDormanRoteiro: Jason Dean Hall Fotografia: Tom Stern Produção: Andrew Lazar, Bradley Cooper, Clint Eastwood, Peter Morgan, Robert Lorenz Duração: 132 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Warner Bros. 

Cotação 3 estrelas

Dois dias, uma noite (2014)

Por André Dick

Dois dias, uma noite 5

Os personagens dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne sempre aparecem em situações delicadas: em Rosetta,  uma jovem busca trabalho para sustentar a mãe; em A criança, um jovem, em troca de dinheiro, prefere se desfazer do filho recém-nascido, e em O garoto da bicicleta o menino Cyril se mostra sempre deslocado e precisa pedir para que possa participar de uma determinada convivência que poderia ser mesmo rotineira para alguns. Esses temas se proliferam, com algumas modulações, em outros filmes da dupla, como O silêncio de Lorna, uma das grandes peças de interpretação da década passada, e O filho.
Os personagens de Cyril e o de Rosetta de certo modo se refletem bastante naquele que Marion Cotillard interpreta em Dois dias, uma noite, novamente em grande momento como atriz, num tom semelhante àquele que adota em Era uma vez em Nova York. No entanto, Cotillard encontra aqui diretores e um roteiro mais interessantes, em uma espécie de narrativa na qual os Dardenne são especialistas. Ela é Sandra, que se encontra num momento especialmente delicado: moradora de Seraing, cidade industrial de Liège, na Bélgica, à medida que está afastada do trabalho, onde lida com painéis solares sob o comando de Jean-Marc (Olivier Gourmet), se mantém em casa, solitária, em seu quarto, tentando encontrar uma alternativa. Seja ao telefone ou no contato com os filhos, ela está visivelmente desesperada. Quando decide, de fato, ir à procura de uma solução, precisa falar com colegas de trabalho para recuperar seu emprego – e falar no sentido de buscar o encontro com a humanidade e a generosidade. Isso se torna, em certo ponto, imprevisto e até mesmo emocionante, como se um fato a princípio do cotidiano tivesse um impacto maior na vida de todos, mesmo que às vezes de forma implícita. É deste modo que Rosetta e O filho receberam a Palma de Ouro em Cannes, mesmo festival em que estreou Dois dias, uma noite.

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Nessa procura para que seus antigos colegas possam ouvi-la e pensar sobre um bônus que devem ou não receber para que ela consiga obter seu espaço de volta – e a justificativa que oferece, em relação ao tratamento dado para sua saída, nunca fica claro –, os diretores revelam seu estilo. Num momento, aqui, o ser humano mostra um lado mais amigável; logo em seguida, ele se volta apenas para si mesmo, porém os Dardenne não fazem nenhum tipo de julgamento, pois todos fazem parte do mesmo panorama, e este, como o filme retrata, de uma Europa atingida pela crise, pelas relações complicadas de direitos de trabalho, é conturbado. Alguns terão receio, outros irão partir para o enfrentamento; e terão aqueles dedicados sempre a ficar à margem da questão alheia. Os Dardenne registram tudo como se a personagem partisse para um confronto não apenas contra as suas limitações, e sim contra o que não será interrompido, independente do resultado. Sandra é uma espécie de símbolo, mas nunca deixa de atrair simpatia e afeto e, apesar do tom de voz baixo dado à personagem, Cotillard consegue encontrar fugas do roteiro para encontrar sua humanidade.
Novamente os Dardenne escolhem cores para caracterizar os personagens – como o vermelho da jaqueta do personagem central de O garoto da bicicleta. Aqui é o rosa da blusa que a personagem de Cotillard utiliza em boa parte do filme, combinando com a cor verde de vários ambientes ou objetos. Fabrizio Rongione, como seu marido Manu, tem uma grande atuação, como é requisito entre os coadjuvantes dos Dardenne, imprimindo um bom complemento à presença de Cotillard. Todas as cenas em que ambos aparecem são caracterizadas por tons diferentes, como aquela em que conversam num banco de praça, mas sobretudo numa sequência mais ao final, decisiva para o filme, demonstrando aqui uma conciliação entre pessoas diferentes.

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Com sua propriedade em abordar temas humanos, principalmente aqueles que envolvem um personagem diante de uma linha tênue entre o encontro e o afastamento, ao lado de alguma pressão financeira, como é o caso de Sandra, os filmes da dupla podem ser vistos, em determinados momentos, até mesmo como presos a algum ideal. No entanto, o roteiro não oferece a ideia de que o sistema denigre o ser humano, e sim aponta a possibilidade de que ele encontre um novo ânimo diante da sociedade e dos problemas que ela traz quando leva ao limite da condição existencial. Para os Dardenne, só pode haver um encontro entre duas pessoas por por uma decisão pessoal; não por acaso, seus personagens são quase sempre solitários, e o sentido que eles têm dessa união é sempre resultado de um afeto intransferível a qualquer outro. Se o cotidiano, em sua obra, não funciona como deveria ser, não deixa de ser também a justificativa para que os personagens prossigam, sem um tom de conciliação que inexiste quando cada qual se depara, obrigatoriamente, com seu rumo, que pode ser decidido por um diálogo ou um ombro. A sensibilidade, aqui, é sempre mostrar como o ser humano pode ser forte quando compartilha com o outro seus problemas, mas sem constituir um rótulo: temas sensíveis não pertencem a nenhuma corrente. Mesmo porque os personagens de Jean-Pierre e Luc Dardenne não conseguem delinear uma liberdade, apesar de, por exemplo, em O garoto da bicicleta, essa ser representada pela ideia de família.
Não deixa de haver uma certa manipulação em alguns olhares, mas a questão é que, no movimento em que o espectador é inserido, é difícil dizer que o filme não retrata de maneira fiel os acontecimentos mais próximos do cotidiano. No entanto, a dupla de diretores não adota um realismo teatral, ou seja, seus personagens parecem estar numa condição de silêncio real, e não se tornam falantes apenas para que transcorra a história. Há silêncios incômodos e amargurados e a personagem não passa por situações exatamente agradáveis. Talvez a melhor sequência esteja ligada à da personagem Anne (Christelle Cornil), que Sandra procura evidentemente para relatar sua questão e coloca a vida da amiga mais próxima de uma mudança, mesmo que a dela – Sandra – continue imprevisível. Tudo isso seria talvez ineficaz não fosse a presença de Cotillard, certamente a melhor atriz indicado ao Oscar deste ano, numa presença que lembra muito aquela de Ferrugem e osso, seu maior papel antes deste filme (apesar de ter recebido muitos elogios por Piaf, no qual também está bem). Ela mostra uma presença física e psicológica resistente e sólida durante toda a narrativa. E, para os Dardenne, contra a presença opressiva da situação humana, a saída pode ser a escolha de um rock no rádio do carro. Momentos que parecem efêmeros e dispensáveis são o que tornam, como parece sempre acontecer na obra dos irmãos belgas, Dois dias, uma noite em uma obra de grande sensibilidade.

Deux jours, une noit, BEL/FRA, 2014 Diretores: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne Elenco: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Pili Estacada, Simon Caudry, Catherine Salée, Baptiste Sornin, Alain Eloy, Myriem Akheddiou, Fabienne Sciascia, Timur Magomedgadzhiev, Hicham Slaoui, Olivier Gourmet Fotografia: Alain Marcoen Produção: Denis Freyd, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne Duração: 95 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Les Films du Fleuve

Cotação 5 estrelas

O destino de Júpiter (2015)

Por André Dick

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Se os irmãos Andy e Lana Wachowski têm uma qualidade inegável é que eles sabem produzir, por meio de seus filmes, bastante polêmica. Depois de Matrix, qualquer título deles tem a qualidade de despertar o mesmo ânimo antes da estreia. No entanto, depois, seja com Speed Racer ou Cloud Atlas, embora haja uma variedade de críticas, normalmente são recebidos com certa decepção. Nunca há o mesmo impacto causado por Matrix – e mesmo as continuações dessa referência dos anos 90 foram recebidas com desconfiança. Ainda assim, os filmes considerados falhos dos irmãos são realmente interessantes: o visual e a inspiração nos quadrinhos de Speed Racer são bem trabalhados e Cloud Atlas consegue ser uma ficção científica que arrisca lidar com vários temas em conjunto. E difícil duvidar do talento de uma dupla cuja estreia é Ligadas pelo desejo, uma mistura de suspense e obra noir.
No ano passado, O destino de Júpiter era visto previamente como um fracasso antecipado de bilheterias e teve seu lançamento adiado pela Warner Bros em muitos meses, para uma possível melhora em seu acabamento e um substancial corte na metragem – ou talvez porque fosse confundido com outros filmes mais imediatos da temporada. Ele parece ser um pouco resultado desse limite entre o gênero de ficção científica e as produções de super-heróis.
Sua história já indica isso. Tudo inicia com um homem, Maximilian Jones (James D’Arcy), observando as estrelas e conhecendo a futura esposa Aleksa (Maria Doyle Kennedy) em São Petersburgo. Algum tempo demais, com a mulher já grávida, ele decide que sua filha se chamará Jupiter. Em poucos minutos, já mostra que ela cresceu (agora Mila Kunis) com familiares russos em Chicago e trabalha limpando casas. Com o desejo de comprar um telescópio, ela atende a um pedido do seu primo Vladie (Chute Gurry), enquanto, num momento delicado, surge Caine Wise (Channing Tatum).

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Os Wachowski misturam essa trama – para que as duas se completem – com a de três filhos da Casa de Abrasax, uma dinastia que comanda a Terra, ou seja, Balem (Eddie Redmayne), Kalique (Tuppence Middleton) e Titus (Douglas Booth), que estão atrás de Jupiter. Caine e Jupiter encontrarão Dtinger Apini (Sean Bean) e o capitão Diomika Tsing (Nukking Amuka-Bird) e tudo poderá se transformar numa ópera espacial, mesclado a uma mistura entre história da Roma Antiga (Titus, Balem) e nomes que evocam algum humor (Jupiter Jones ou Caine, para não dizer logo “canine”, uma mistura entre humano e lobo mais parecido com um fauno da mitologia).
Desde o início, O destino de Júpiter não fica a dever para suas principais inspirações: os quadrinhos de ficção científica dos anos 30, os mesmos que envolvem Flash Gordon. E quando se vai ao filme, percebe-se que os Wachowski continuam entre os raros cineastas que ainda querem construir um universo à parte. Mas, ao contrário de seus filmes anteriores, esse visual não marca pela originalidade. Enquanto em Matrix, Speed Racer e Cloud Atlas, havia uma elaboração criativa de cenários, desta vez tudo se sente um pouco emprestado: nos cenários das naves, a Matrix Cloud Atlas; no planeta distante, a Thor e O senhor dos anéis; numa seção de burocracia espacial, a Brazil – O filme; e mesmo a trilha de Michael Giacchino, uma das qualidades para dar ênfase às cenas de ação, têm correspondência direta com a da segunda trilogia de Star Wars. E O destino de Júpiter prova, novamente, a originalidade de algumas ficções dos anos 80 (Flash Gordon, Duna) que, quando lançadas, enfrentaram críticas. São referências que devem se moldar a uma nova criatividade, o que, infelizmente, acontece apenas em parcelas. Isso, em termos dos Wachowski, é uma surpresa. Eles mantêm o cuidado com o acabamento, inclusive com os figurinos e os efeitos especiais espetaculares, no entanto é visível que eles tentaram tornar seu cinema mais acessível, embora continuem interessados em teorias.

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O destino de Júpiter

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Depois de Cloud Atlas, a sua obra-prima, isso soa como uma tentativa de eles não terem o desejo de ser ligados a temas considerados intimistas. Eles querem tornar as críticas aos seres humanos num plano declaradamente pop, além de forçadas por um determinado discurso contra o consumismo que pode ser revertido ao se constatar que a obra custou em torno de 200 milhões de dólares, com o uso do 3D (prejudicial por tirar as cores originais, o que é essencial no gênero da fantasia) para aumentar as bilheterias. Há traços nisso de autoria, no entanto não é o que eles têm de mais interessante: os Wachowski, de certo modo, menosprezam seu próprio talento ao lançar um filme que tenta fazer do humor sua seriedade. Nesse sentido, por um lado, ele tem um certo descompromisso, mas não o bastante para deixar de se levar a sério. Em alguns momentos, eles enveredam claramente pela sátira, porém há algo na engrenagem que não funciona, e eles recuam. Não é como o caminho adotado pelo Flash Gordon dos anos 80, em que o ator que vivia o herói, Sam Jones, realmente fazia humor com sua inexpressividade e os cenários (realmente originais) complementavam sua presença. Além disso, é difícil acompanhar as linhas escritas pelos Wachowski, tornando a família russa de Jupiter num elemento à parte.
Este é um detalhe que dificulta a ligação do espectador com os personagens: os personagens parecem carregados de uma despretensão e, ao mesmo tempo, de frases expositivas, que lidam com várias teorias ligadas ao surgimento da Terra e, consequentemente, a Jupiter Jones, a abelha-rainha da grande colmeia sideral. Pode-se imaginar quantos momentos realmente temos os personagens tratando das próprias situações pelas quais passam: todos eles estão dominados por discursos, que remetem a vários conceitos extraídos de programas de TV, livros e quadrinhos, mas, principalmente, de Eram os deuses astronautas?. Isso, inegavelmente, poderia trazer uma certa inteligência à base do roteiro, no entanto fica deslocado quando se tenta enveredar por momentos de humor sem o equilíbrio necessário, que acabam destoando do que aparenta ser sério.

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E a questão seria, também, quais as indicações feitas pelos Wachowski a Eddie Redmayne para que ele compusesse o vilão. Com uma participação visivelmente diminuída pela sala de montagem, Redmayne compõe um vilão severo, mas procurando por vida e, certamente prejudicado pelo roteiro, ele se lança na única saída: o overacting mais complicado. Ele se sente como a tragédia personificada da vilania; exagerado ou não, Redmayne parece levar todas as suas falas com uma seriedade assustadora, de fazer tremer as cadeiras do cinema, mesmo que seja com sussurros. É interessante como, diante dele, mesmo Channing Tatum é beneficiado com algumas falas bem-humoradas, como aquela em que faz perguntas ao amigo Dtinger sobre dívidas passadas ou simplesmente por sua falta de expressão chega a despertar algum divertimento. Desse roteiro, o melhor beneficiado é Booth, com ironia de um lorde na medida exata, e, mesmo com pouca participação, Bean também se mostra presente. Entretanto, Mila Kunis parece outra escolha problemática: os Wachowski teriam aqui um papel para Natalie Portman, ainda que certamente lembrasse sua personagem de Thor. Kunis nunca parece de fato estar em seu papel. No entanto, a escolha do elenco talvez não repercutisse em algum resultado.
O que mais se lamenta no filme dos Wachowski é o quanto ele tem um potencial em movimento, com o mesmo montador Alexander Berner e o diretor de fotografia John Toll, de Cloud Atlas, com todas as cenas de ação bem filmadas – uma batalha nos céus de Chicago parece ser a melhor – e, ainda assim, se ressente de um traço emocional para que possa fazer uma diferença. A sensação é que o filme entretém, mas é difícil encontrar nele algo a mais além das imagens. O cinema dos Wachowski ser genuíno e sincero dentro de suas possibilidades mostradas em Cloud Atlas não parece lhes dar o direito de negarem o próprio talento: eles tinham tudo, aqui, para colocar em ação uma homenagem decisiva ao cinema de ficção científica. Embora possa ser visto daqui a alguns anos como um cult, ou mesmo melhorar numa versão mais longa, O destino de Júpiter se sente como uma obra que continua visivelmente inacabada.

Jupiter ascending, EUA, 2015 Diretores: Andy Wachowski e Lana Wachowski Elenco: Mila Kunis, Channing Tatum, Eddie Redmayne, Douglas Booth, Sean Bean, Tuppence Middleton, Doona Bae Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Andy Wachowski, Lana Wachowski Duração: 127 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 2 estrelas e meia

 

Livre (2014)

Por André Dick

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No ano passado, o diretor canadense Jean-Marc Vallée teve grande sucesso com seu filme Clube de compras Dallas, bem aceito pelo público e pela Academia de Hollywood, recebendo três Oscars, inclusive os de ator (McConaughey) e ator coadjuvante (Jared Leto). Em Livre, ele mostra as memórias de Cheryl Strayed, interpretada por Reese Whiterspoon, que decide sair em viagem pelos Estados Unidos, passando por paisagens desertas, estradas sem nenhum movimento, estabelecimentos quase abandonados: essa viagem era feita pelos beatniks nos anos 60, sobretudo partindo de San Francisco, mas Cheryl está mais interessada em rever e refletir sua vida até então.
Whiterspoon havia desaparecido das premiações desde o excelente Johnny & June, pelo qual havia ganho o Oscar de melhor atriz. Depois de sua imagem ter ficado colada a Legalmente loira, ela foi perdendo a referência de atriz indie, conquistada com muito esforço no curioso A vida em preto e branco, no ótimo Eleição e na vingança pop baseada em Ligações perigosas, Segundas intenções. Aqui ela tenta, como nos recentes Amor bandido e Sem evidências, uma espécie de regresso àquela época em que era um rosto do cinema independente, fazendo um papel muito mais físico e talvez mais difícil. Ainda assim, algo de sua empatia – que seria essencial para Livre – acabou se perdendo; ela parece de fato uma atriz que não consegue transpor para as telas o drama existencial do papel.

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Desde o início, com a personagem caindo na estrada, o filme tem uma atmosfera que remete a uma das obras mais melancólicas deste século, Na natureza selvagem, de Sean Penn. No entanto, logo se percebe que a obra de Vallée não procura exatamente o mesmo que a de Penn: Cheryl não está em viagem para exatamente fugir dos preceitos e exigências sociais; ela viaja para esquecer seu próprio passado, em que há um risco moral permanente por causa de suas escolhas. Vallée vai introjetando, a cada sequência de Livre, flashbacks da vida anterior de Cheryl. Esta escolha, sendo consciente, pois costura toda a narrativa, parece ser o que atrai o interesse para o material adaptado pelo escritor Nick Hornby das memórias de Cheryl. Como os escritos de Hornby, a personagem terá contato com poemas de Emily Dickinson e outras leituras. Mas Cheryl é uma personagem, mais do que o de Chris McCandless, em Na natureza selvagem, permanentemente solitária – e o espectador, convidado a participar de sua viagem, em nenhum momento parece se sentir próximo a ela.
Livre é uma espécie de filme-conceito em que a liberdade é representada por ficar presa a lembranças permanentes, que perseguem a personagem principal de maneira contínua, não havendo respiros para o espectador. Nesse sentido, o diretor adota uma montagem arriscada: enquanto acompanhamos a viagem de Cheryl, na verdade pouco interessa nela, pois tudo se concentra em flashes do passado. Com isso, o filme, numa espécie de montanha-russa da montagem, vai e vem no tempo sem nunca estar exatamente em algum lugar – e, apesar de Vallée imaginar que isso traria originalidade, acaba por arrastá-lo a um beco sem saída. Ou seja, as paisagens imensas e o ar livre, a atmosfera de liberdade, de contato com os animais e a natureza, representa, na verdade, uma imersão no que a personagem considera sua melancolia: a vida familiar e o apego à mãe (Laura Dern, uma excelente atriz prejudicada pela montagem e incluída no Oscar desta vez de modo injusto, quando havia Jessica Chastain em O ano mais violento). Tudo o que significa sua liberdade desse contexto remete a livros lidos à luz de velas, e é para isso que serve a literatura, afinal, segundo Hornby e Vallée: para que o contato com a natureza se materialize numa estética.

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Desse modo, Livre acaba sendo quase todo uma viagem de estética: de estética para vermos as paisagens fotografadas quanto para acompanharmos o esforço físico da personagem. Mas nunca estamos de fato com os pensamentos nela; há algo nesses pensamentos um tanto desgovernados e um incapazes de prender a atenção do espectador, levado a navegar entre vários até que todos desapareçam finalmente. Livre acaba trazendo um cansaço que, longe de ser o mesmo da viagem que retrata, é desanimador de algum modo, pois entende-se que a personagem está em permanente infelicidade sem sabermos exatamente o que a levou a tal condição, até que vamos montando as peças. Essas se mostram, enfim, bastante previsíveis, como se Vallée quisesse deixar sofisticado um drama, apesar de comovente, bastante simples – e esta simplicidade faria bem à narrativa. Ou seja, parece um filme que foi definido na sala de montagem, e o diretor quis fazer algo diferente (além de extremamente longo). Além disso, a personagem, de fato, quer conviver com sua solidão, e o espectador, ao acompanhá-la, parece na verdade importuná-la. Os únicos momentos em que o espectador se sente mais próximo é quando Cheryl se interessa em conversar com seres humanos, pois é justamente esses que a levam nessa jornada. No entanto, como ela constantemente presa ao passado e às ausências que ele proporciona, é como se não nos interessássemos também pelo presente que ela vivencia. Para Hornby, assim, a natureza não traria nenhuma saída, e com isso o sentimento é de dupla tristeza, pela personagem e pela narrativa. No entanto, Livre é, acima de tudo, um filme que depende muito da simpatia que o espectador tem pela personagem: Witherspoon, apesar de tentar um papel difícil, particularmente, não parece a escolha adequada. Era preciso uma atriz que trouxesse mais dor real ao personagem e uma mistura de sensações. A única sensação é de que o espectador não se sente livre ao vê-la se perder nessas paisagens, ou seja, nos últimos anos, Whiterspoon, exceto em Sem evidências e no recente Vício inerente, pelo qual, este sim, poderia ter sido lembrada pelo Oscar, não consegue passar uma variedade de conflitos. O olhar dela é sempre o mesmo do início, e nisso Vallée acaba perdendo boa parte de sua história.

Wild, EUA, 2014 Diretor: Jean-Marc Vallée Elenco: Reese Witherspoon, Michael Huisman, Gaby Hoffmann, Laura Dern, Thomas Sadoski, Kevin Rankin, Brian Van Holt, Charles Baker, W. Earl Brown, Cliff De Young Roteiro: Cheryl Strayed, Nick Hornby Fotografia: Yves Bélanger Produção: Bruna Papandrea, Reese Witherspoon Duração: 116 min. Distribuidora: Fox filmes Estúdio: Fox Searchlight Pictures

Cotação 2 estrelas

 

A teoria de tudo (2014)

Por André Dick

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Ao longo da história do cinema, não são poucas personalidades que suscitaram a criação de filmes. Embora se possa dizer que nos últimos anos foi criado quase um novo gênero – o da cinebiografia –, também é possível avaliar o quanto essas histórias inspiram não apenas a equipe que as transpõe para as telas, como também o público que pode conhecer muitas  figuras que às vezes não ficariam tão conhecidas de outro modo. Em relação a este segundo ponto, não seria o caso exatamente de A teoria de tudo, que relata parte da história vivida por Stephen Hawking, visto como o maior físico teórico e cosmólogo da atualidade. Lidar com um nome que se torna, dentro de seu campo, numa espécie de mito, não é fácil para um cineasta e para o ator encarregado de interpretá-lo. Por isso, não deixa de ser interessante que A teoria de tudo pareça, à primeira vista, um filme até descompromissado e, dentro daquilo que costuma ser visto como cinebiografia, sem a pretensão de definir o homem que retrata.
Se, por um lado, isso pode impedir o espectador de ter acesso às teorias mais detalhadas de Hawking, por outro, temos acesso à vida do biografado, mesmo que seja pela parcela de relacionamento com sua primeira mulher, Jane, e seus filhos, o que pode ser avaliado como uma oportunidade de instigar um lado mais acentuadamente dramático e explicado pelo fato de o filme se basear no livro Travelling to Infinity: My Life with Stephen, escrito exatamente por ela.

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A teoria de tudo.Filme 7

O filme de James Marsh – o mesmo do elogiado O equilibrista – inicia mostrando Hawking (Eddie Redmayne) numa festa na Universidade de Cambridge, onde conhece Jane Wilde (Felicity Jones). As escolhas de Marsh para a fotografia do filme já se mostram neste instante, quando há uma luz azulada que dá contorno ao ambiente e aos personagens. Essa cor azul se contrapõe logo a uma festa em que os dois vão juntos, na qual o diretor de fotografia Benoît Delhomme faz o amarelo de um carrossel se corresponder com os fogos de artifício no céu. A teoria de tudo reserva esses fogos de artifício como as verdadeiras estrelas para onde os olhos de Hawking apontam. Neste sentido, Marsh está interessado na relação que Hawking estabeleceu com Jane e os filhos que viriam a ter juntos, assim como o dia a dia vivido pela mulher para também se adequar à realidade do marido com quem casou.
O momento em que ele passa a ter mais problemas motores, na universidade, antecipando a doença degenerativa ELA (esclerose lateral amiotrófica), dialoga diretamente com a maneira como Ron Howard apresenta o matemático feito por Russell Crowe em Uma mente brilhante, mas quem realmente consegue proporcionar dosagem às cenas de maneira equilibrada e bastante justificada é o ator Eddie Redmayne. Ele já havia feito alguns anos atrás o assistente que se apaixona por Marilyn Monroe nos bastidores de uma filmagem em Sete dias com Marilyn e Marius, o amado de Cosette (Amanda Seyfried), no musical subestimado Os miseráveis, mas é aqui que ele tem a grande oportunidade de demonstrar seu talento. Sabendo-se que o cinema não é apenas uma maneira de verter um biografado para a tela de maneira convincente, é interessante dizer que Redmayne em nenhum momento foge ao que se espera de uma grande atuação. Ela não é exagerada, tentando acentuar os problemas de Hawking, nem tímida, no sentido de não querer arriscar onde o biografado certamente pensaria se é interessante que sua vida seja revelada de modo aberto na tela, em sua intimidade. Possivelmente se fosse um ator comum, Redmayne cairia numa simples reprodução das dificuldades de Hawking: ele é um ator que, pelo contrário, consegue ser espontâneo nessa reprodução, sem cair em exageros. Nesse campo, só há uma atuação nas últimas décadas que pareça chegar ao que ele alcança em A teoria de tudo: a do escritor e artista plástico Christy Brown, feita por Daniel Day-Lewis, em Meu pé esquerdo, com o qual recebeu seu primeiro Oscar.

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O diretor Marsh conduz os tons amarelos de momentos em que Hawking e sua esposa se casam para ambientes mais fechados, onde Hawking lida com a descoberta de equipamentos que podem ajudá-lo ou mesmo na avaliação em sua universidade – e o professor que mais o ajuda é Dennis Sciama (David Thewlis, dentro do tipo de papel eficiente que costuma desempenhar) –, quando recebe a desconfiança também de alguns pares não tão interessados em aceitar as suas teorias sobre o universo. O que Marsh faz – e não é comum numa cinebiografia de um físico renomado – é trazer humor a algumas situações, principalmente quando ele conhece Elaine Mason (Maxine Peake), apoiado numa trilha sonora não menos do que bela de Jóhann Jóhannsson. Há um limite tênue entre a dificuldade vivenciada por Hawking, e que o espectador normalmente não veria como um espaço para humor, e a verdadeira experiência que mostra Marsh ao revelar os bastidores de sua vida, também desenvolvidos quando Jane conhece Jonathan Jones (Charlie Cox). Nesse momento, o filme desenha uma passagem do ambiente universitário para o conflito familiar e religioso, que acaba dialogando com a própria aversão de Hawking à figura divina.
Se em alguns momentos essa abordagem acaba sendo direta demais, e Marsh não consiga mostrar o suficiente o real conflito entre esses personagens, para suas vidas e em relação à vida do outro, os compromissos assumidos ou abandonados, até onde pode despertar o sentido de manter a família – e às vezes os lances de roteiro se pareçam muito ajustados a um filme que estreia na temporada do Oscar –, quando consegue adotar um equilíbrio, ela mostra a verdadeira dor que ronda A teoria de tudo. É quando o personagem, que abre suas teorias para o mundo e o transforma, não consegue, em termos físicos, realizar movimentos comuns.

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A teoria de tudo.Filme 4

No entanto, muito em razão de Redmayne, este plano não soa emocional demais, pois ele consegue mesclar o humor e alguns elementos de convencimento em suas falas que impedem o filme de ser um aplauso em público comovido a Hawking. Sem dúvida, há um material que poderia se tornar manipulável aqui, em termos emocionais, mas Marsh está mais interessado no que interessa a Hawking em conjugar seus estudos do universo e a criação dos filhos e o quanto não se pode adotar uma visão cosmológica quando não há uma noção familiar e de relação com os outros. Mesmo a relação de Hawking com os ambientes e a matéria suscitam momentos interessantes em A teoria de tudo: quando ele observa, por exemplo, uma escada em espiral, como se ela subisse até o céu, ou o café se integrando ao leite numa xícara, como se observasse o espaço, ou quando tudo parece reduzido depois dos exames que comprovam sua doença e ele está com o rosto contra a cama – num ambiente asséptico e tecnológico, mas não plenamente humano, diante das suas dificuldades –, assim como no momento em que um de seus colegas o coloca nos braços de uma estátua da Rainha Victoria.
Essas relações com pessoas e objetos circulam ao redor do momento em que Hawking consegue adquirir a estrutura necessária para escrever aquele livro que o tornou mais conhecido, Uma breve história do tempo. Mas o filme não está exatamente interessado no sucesso que teve a obra de Hawking ou mesmo em suas possibilidades cosmológicas de perceber as possibilidades de criação do Universo. A teoria de tudo se concentra mais no olhar do físico diante de sua realidade e a possibilidade, afinal, de reverter a própria vida para se atingir de novo a possibilidade de se reinventar – o que o filme de Marsh indica é que não importa o ponto zero da criação, mas as relações infinitas que podem se produzir a partir de um olhar para as pessoas ao redor, como em seu primeiro encontro com Jane. Acometido por uma doença que poderia impossibilitá-lo a pensar sobre o universo, Hawking, na figura de Redmayne, não se torna apenas uma figura de superação e uma inspiração: ele é, de fato, um ser humano, e o que prova isso é a sua busca pelo entendimento do outro.

The theory of everything, ING, 2014 Diretor: James Marsh Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Charlie Cox, David Thewlis, Harry Lloyd, Maxine Peake, Simon McBurney, Emily Watson Roteiro: Anthony McCarten Fotografia: Benoît Delhomme Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Anthony McCarten, Eric Fellner, Tim Bevan Duração: 123 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Working Title Films

Cotação 3 estrelas e meia