Okja (2017)

Por André Dick

O diretor Bong Joon-ho tem um clássico incontestável chamado Memórias de um assassino, de 2003, que inspirou diretamente Zodíaco, de David Fincher. Em Okja, lançado no Festival de Cannes sob protesto, em razão de ser distribuído pela Netflix, ele parece querer uma mescla entre O hospedeiro, sua obra mais cultuada, e a fantasia de filmes norte-americanos, além de referências a animações orientais. Em 2013, com O expresso do amanhã, o cineasta já tentava um salto para Hollywood, o que acontece plenamente aqui: este é um filme, apesar de não aparentar, extremamente comercial, e de modo algum é seu problema.
Começa mostrando em 2007 Lucy Mirando (Tilda Swinton), da Mirando Corporation, que faz um anúncio: sua empresa está criando um concurso cuja finalidade é escolher um super-porco. Vinte e seis dos melhores porcos são enviados a diferentes partes do mundo para que sejam criados por diferentes pessoas e culturas. Passam-se 10 anos e conhecemos Mija (Ahn Seo-hyun). Ela vive feliz com seu amigo animal, chamado Okja, no alto de uma montanha na Coreia do Sul, junto com seu avô (Byun Hee-bong). Esses momentos lembram as melhores peças sobre o cotidiano familiar de Hirokazu Koreeda, com um aproveitamento da natureza de maneira efetiva – e a cena na qual Mija corre perigo é especialmente bem feita, com auxílio da fotografia sempre excelente de Darius Khondji.

Eles recebem a visita do zoólogo e apresentador de TV a serviço da Mirando Corporation, Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal), que declara Okja como o ganhador do prêmio, um pequeno porco de ouro. Como o avô dizia que iria comprar o animal para Mija, ela fica desapontada e resolve seguir seu melhor amigo até Nova York. No entanto, ainda em Seul, um grupo chamado Frente de Libertação Animal, liderado por Jay (Paul Dano), tenta salvar a rara criação numa sequência de ação muito bem feita. Esta FLA tem todo o histórico de um grupo do gênero: denunciar a violência que se praticamente contra animais, e se vê a raridade desse tema, pois pouquíssimos filmes o apresentam da maneira que surge aqui, e trata-se de um ponto interessante.
Bong Joon-ho tem um humor excêntrico em seus filmes e não é diferente em sua nova obra. Os vinte minutos iniciais são certamente os melhores, mostrando a convivência de Mija e Okja. No entanto, à medida que a trama progride e entram novos personagens, não há um bom desenvolvimento. O diretor sempre teve alguns problemas em dosar drama e humor e aqui ele pende para o lado excêntrico, subutilizando Swinton e Gyllenhaal, ambos talvez em seus piores momentos.

Swinton, particularmente, exagera de forma desmedida e, sendo uma das coprodutoras do filme (ao lado de Brad Pitt), tem mais participação do que merecia sua personagem (em que ela aparenta tentar uma semelhança com o Willy Wonka de Johnny Deep), o que prejudica muito a história. Por sua vez, Gyllenhaal tenta uma caricatura que seja engraçada, no entanto o roteiro que recebe não é bom e sua alternativa acaba sendo a saída menos exitosa. Ahn Seo-hyun, para compensar, tem uma excelente atuação, embora a ligação com o avô ganhe pouco espaço (e Byun Hee-bong está ótimo) e Paul Dano, apesar de um personagem oscilante, também convence. Apenas não é dosada sua participação: uma cena específica quase tira o espectador do filme, completamente deslocada. A talentosa Lily Collins, entretanto, é desperdiçada como Red, uma das integrantes do grupo de proteção aos animais.
Claro que a mensagem está evidente a cada minuto e é inspiradora num universo em que os animais são submetidos a maus tratos inaceitáveis. No entanto, o diretor não consegue mesclar o pano de fundo sério com a comédia que tenta fazer em algumas situações: tudo soa excessivamente forçado e desgastante para o espectador. O tom é certamente o grande problema da narrativa, saltando do drama para a comédia sem nuances e um trabalho de elaboração dos personagens. Nisso, a violência, se não é forte como a de Fast food nation, de Linklater – sobre matadouros na fronteira com o México –, ou do recente terror Raw – que mostra estudantes de veterinária sem muita compaixão pelos animais –, soa pouco encaixada e como uma tentativa de esclarecer o que o espectador já entende em relação aos personagens maléficos. Isso já acontecia em O hospedeiro, no qual o suspense se diluía com um bom humor intruso.

A figura de Okja é extraordinária, parecendo um hipopótamo com agilidade de um cão, extremamente marcante, e os efeitos visuais muito bons, mas se sente desperdiçada, quase como um personagem central que realmente não tem destaque – concentrando-se tudo nos humanos. A crítica às corporações e às mídias sociais soa caricato e apressado, nivelando tudo com uma excentricidade que não cabe na narrativa e tentando ser didático demais para o espectador. A ironia é melhor aproveitada: “O inglês abre portas. Aprenda”, diz um integrante do FLA a Mija, sendo que os norte-americanos são os vilões explícitos. Okja era um dos filmes que eu mais esperava no ano – e sua decepção é lamentável. Ele tinha potencial para ser excelente e não chega, particularmente, a ser bom. No entanto, ele tem todas as características para se tornar um cult realmente apreciado e lembrado por causa de seus temas. Ou seja, Okja funciona mais em seu diálogo com a realidade, mesmo com elementos de fantasia, do que como obra cinematográfica.

Okja, EUA, 2017 Diretor: Bong Joon-ho Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Ahn Seo-hyun, Byun Hee-bong, Steven Yeun, Lily Collins, Yoon Je-moon, Shirley Henderson, Daniel Henshall, Devon Bostick, Choi Woo-shik, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal Roteiro: Bong Joon-ho, Jon Ronson Trilha Sonora: Jaeil Jung Fotografia: Darius Khondji Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Lewis Taewan Kim, Dooho Choi, Seo Woo-sik, Bong Joon-ho, Ted Sarandos Duração: 120 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Lewis Pictures, Kate Street Picture Company Distribuidora: Netflix

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 8) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

A terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) recebeu, em seu oitavo episódio, tudo que parecia faltar no anterior: cenas vagarosas e sem linearidade alguma. Para David Lynch, este sempre é o melhor caminho, em se tratando de ele não estar acostumado a histórias mais comuns ou um humor mais superficial, como aquele visto na personagem de Diane, em desempenho de Laura Dern, ainda a ser melhor avaliado com participações futuras.
O episódio anterior terminou com o duplo mal de Cooper (Kyle MacLachlan) e seu parceiro Ray Monroe (George Griffith) escapando da prisão, depois de o primeiro chantagear o diretor do lugar. O oitavo inicia com os dois na estrada – lembrando exatamente A estrada perdida – até que Sr. C. pede algumas informações que o outro possui. Este pede para parar o carro e quando o duplo mal de Cooper o ameaça com uma arma recebe disparos à queima-roupa. Em seguida, surgem, ao que parece, almas vindas da floresta (chamadas woodsmen) – homens que parecem escurecidos com carvão, sendo que um deles aparece no segundo episódio e outro no sétimo, quando a tenente Knox está avaliando o corpo do major Briggs – chegando até o corpo do duplo mal, até desentranhar dele a figura de Bob, para espanto de Ray, que foge, assustado, falando em seguida com Phillip Jeffries (que no filme era interpretado por David Bowie).

Corta para a Roadhouse, onde um senhor anuncia Nine Inch Nails, com uma canção de rock que remete também ao filme A estrada perdida, “She’s gone away”, e que parece dar uma nova vida ao duplo mal – lembre-se que a música é sempre, para Lynch, uma ligação entre almas e eletricidade – veja-se o episódio da segunda temporada em que se conhece o assassino de Laura Palmer por meio de outro crime e vários personagens na Roadhouse choram, como se houvesse uma tristeza no ar da cidade. A música da Roadhouse capta esse lado maligno de Cooper de alguma maneira.
Há uma volta no tempo para 1945, quando, no Novo México, explode a primeira bomba atômica. Esta imagem é filmada de maneira tão impactante que se imagina o quanto Lynch faria com um filme de orçamento blockbuster: sua câmera vai se aproximando da bomba até captar dentro dela o fogo, lampejos, luzes desfocadas, partículas, com acompanhamento de  “Threnody to the victims of Hiroshima”, de Krzysztof Penderecki. Deve-se lembrar que Gordon Cole tem uma imagem da bomba atômica em seu escritório, assim como um quadro com uma espiga de milho – milho que constitui o “garmonbozia”, mistura de “dor e tristeza”. Cole sabe de detalhes que não informa aos restantes do FBI? É uma espécie de cena da criação do mundo de A árvore da vida às avessas (como defini num tweet logo depois de assistir ao episódio na madrugada de domingo). Essa bomba dá origem exatamente à figura de Bob – dentro de um ovo – e Lynch se desloca para uma “loja de conveniência” no deserto. A “loja de conveniência” é onde Bob, segundo o Homem de Um Braço Só, habita – e aparece em Twin Peaks – Fire walk with me (primeira imagem abaixo). À frente dessa loja de conveniência, perambulam as almas que apareceram na primeira parte do episódio (no filme de 1992, era Jürgen Prochnow, sentado no fundo à direita). E Bob sendo criado em meio ao fogo da bomba atômica dá outro significado a “Fire walk with me”.

A partir daí, Lynch se desloca para um castelo em alto-mar, remetendo imediatamente ao lar dos Atreides em Duna, onde estão Señorita Dido (Joy Nash) e o Gigante (Carel Struycken), ao lado de um sino – parecido com aquele que Cooper vislumbra no terceiro episódio. Ele parece receber um chamado e se desloca, por uma escadaria, para um teatro, onde se projeta, na tela, a imagem da bomba atômica seguida pela de Bob. O Gigante se eleva no ar, aos olhos de Señorita Dido, e sai dele uma luz amarela que chega à mulher como uma bola dourada: dentro dela, está a imagem de Laura Palmer (Sheryl Lee). Esta bola é lançada no ar e entra numa espécie de gramofone gigante, direcionando-se à Terra.  Sendo tudo muito surreal, deve-se notar que essa sequência remete tanto a Duna – a mulher lembra o Barão Harkonnen, que também flutuava como o Gigante – quanto a Cidade dos sonhos – o teatro parece o Club Silencio – e Coração selvagem – na qual Sheryl Lee é a Bruxa Boa do Mágico de Oz nos dias atuais. O jogo de luzes adquire um grande impacto, com a trilha sonora emocional de Angelo Badalamenti, dando grandiosidade à encenação. Laura estaria sendo enviada à Terra para enfrentar Bob?

A história volta ao Novo México, desta vez para 1956, quando as almas do mal perambulam numa estrada pedindo fogo para um cigarro e assustando um casal de velhinhos – imagem antológica que parece sintetizar todos os filmes de terror dos anos 50. Também vemos um casal de jovens caminhando por um posto de gasolina, com uma loja de conveniência, e será encontrada uma moeda no chão (um diálogo com as moedas mágicas do traficante Red e de Hawk no sexto episódio). O rapaz (Xolo Mariduen) acompanha a adolescente (Tikaeni Faircrest) até a porta de sua casa. Lynch, então, mostra uma alma do mal (Robert Broski) descendo do espaço e se dirigindo a uma estação de rádio do lugar, onde domina a cabine de transmissão, depois de matar a recepcionista (Tracy Philips) e o disc jockey (Cullen Douglas), para lançar uma mensagem… Um mecânico e uma senhora numa lanchonete a ouvem e desmaiam. A menina que era acompanhada pelo jovem a escuta, dorme, e de repente surge um inseto gigante que havia saído de um ovo no deserto, entrando em sua boca. Seria o início de Bob? Impressiona, nessa sequência, o quanto Lynch parece fazer um Veludo azul em forma de terror no Novo México. É simplesmente brilhante a composição de imagens e a maneira como essas almas assustam os incautos – inclusive o espectador. E a caminhada do jovem casal na noite escura parece remeter mais a Twin Peaks dos anos 90 do que todos os episódios desta terceira temporada até agora.

Lynch aproveita o oitavo episódio, nesse sentido, para desenvolver a mitologia de Twin Peaks. Há uma quebra quase completa com o que estava sendo mostrado nos anteriores e pode-se sentir que, se não fossem as referências a personagens vitais de Twin Peaks, este seria um episódio de outra série. Talvez seja este o intuito de Lynch: transformar a série numa espécie de canal para suas experimentações. Isso pode provocar certo desencanto – vários personagens ainda não apareceram ou não foram desenvolvidos, e o verdadeiro agente Cooper vaga no corpo de Dougie Jones – e, por outro, um grande respeito pelo que Lynch mostra e desenvolve: ele realmente faz um surrealismo nunca visto antes, no cinema ou na televisão. É verdadeiramente notável o que ele reproduz com poucas imagens e breves diálogos. Um episódio que se sente quase à parte de toda a série – inclusive as duas primeiras temporadas – e que, de certo modo, pretende contar a origem da maldade humana e daquilo que pode combatê-la – na figura de Laura Palmer – de forma antológica. Esse episódio traz ainda mais significado à figura do anjo no final de Twin Peaks – Fire walk with me (última imagem acima) aparecendo para Laura Palmer como se fosse a sua salvação. Neste episódio, é como se Laura fosse a alma que poderia fazer frente a Bob. Para cada maldade, Lynch expõe aquilo que pode enfrentá-la de fato. Twin Peaks sempre tratou do amor e da salvação. Este episódio, que certamente será um dos mais lembrados de toda a série e da carreira de Lynch, confirma.

Twin Peaks – Episode 8, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Robert Broski, Tracy Philips, Cullen Douglas, Tikaeni Faircrest, Xolo Mariduen, Joy Nash, George Griffith, Carel Struycken Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Frantz (2017)

Por André Dick

O cineasta francês François Ozon tem se tornado cada vez mais reconhecido por seu estilo eclético. Desde o início da década passada, ele tem realizado obras com uma frequência digna de artista em tempo integral, sendo talvez seu maior destaque Swimming Pool. Nos últimos anos, ele se destacou com Dentro de casa, mas havia nesta obra uma certa frieza, forçando sempre uma metalinguagem. Além disso, a mescla entre drama e humor não se fazia de todo convincente, abrindo lacunas para interpretações que dentro do contexto soavam um pouco forçadas. Essa frieza volta a ser presente em Frantz, primeiro filme dele a estrear nos cinemas este ano (o outro será O amante duplo, exibido no Festival de Cannes).
O filme se passa em 1919, quando Anna (Paula Beer), uma jovem, chora a morte do noivo, Frantz (Anton von Lucke), desaparecido em luta na Primeira Guerra Mundial. Ela vê um jovem, Adrien Rivoire (Pierre Niney), visitar dias seguidos o túmulo dele em sua cidade, Quedlinburg, na Alemanha, e fica intrigada, pois nunca o viu antes. Adrien se anuncia como um amigo de Frantz, de antes da Guerra travada, na qual franceses combateram alemães.

Anna vive com os pais de Frantz, Doutor Hoffmeister (Ernst Stötzner) e Magda (Marie Gruber), desconfiados de Adrien, o que se mostra pelos olhares trocados à mesa durante um encontro. No entanto, ela logo estabelece um vínculo com o visitante, mesmo que esteja sendo seguida por Kreutz (Johann von Bulow). A guerra é um peso para todos: está no dia a dia de cada habitante; a única saída é justamente esperar o fim dela. E, para isso, também imaginar que, de algum modo, ela não existe.
Indicado a 11 prêmios César, o Oscar francês, Frantz ganhou o de melhor fotografia, assinada por Pascal Marti, num trabalho irretocável, que lembra bastante aquele efetuado em A fita branca, de Haneke. Em muitos momentos, suas imagens lembram pinturas e até mesmo a reação dos personagens conduz à interpretação de que Ozon está, na verdade, gravando essas imagens como uma pintura em preto e branco. Nesse sentido, é um filme realmente extraordinário: tudo se sente como sendo de época. O espectador é transportado para os anos 1910, e pode-se traçar também um comparativo com a reconstituição de Mulher-Maravilha para ver como ambos são cuidadosos nesse aspecto. Além disso, o comportamento de cada personagem e os gestos feitos uns em relação aos outros se mostram completamente dotados de verossimilhança.

Os conceitos de Ozon são sempre interessantes e a narrativa muito bem focada, mas por vezes falta alguma reação mais humana, ficando tudo num plano mais literal. Algumas sequências que necessitariam de mais romantismo se sentem excessivamente demarcadas, sem expansão. Tudo, claro, parece fazer parte do objetivo: estamos assistindo praticamente a um filme não apenas passado nos anos 1910, como localizado na mais cuidadosa discrição. Muitos sentimentos ficam subentendidos e o espectador, para captá-los, deve ter, por vezes, certa paciência.
A atmosfera de Primeira Guerra Mundial do filme carrega uma espécie de sentimento de luto, que é vivenciado dia a dia pela jovem. Nesse sentido, Adrien pode ser uma espécie de libertação deste sentimento, e Ozon lida com isso de maneira a nunca perdermos de vista os personagens centrais. Ozon lida com essa relação de maneira que eles podem estar tentando suprir o sentimento de luto com a descoberta possível de um novo amor. Talvez ele seja mais previsível no modo como retrata isso: em flashbacks ou momentos especialmente felizes, Ozon traz cores para o filme, o que causa uma quebra de atmosfera substancialmente prejudicial, como se estivesse fazendo uma produção de época apenas por certa vaidade artística.

Embora Niney tenha uma bela atuação, é Beer que se destaca: ela mostra uma insegurança e uma tentativa de se manter firme que concede à obra de Ozon seu melhor elemento, além daquele contraponto que ele faz entre a velocidade do trem e a chegada da arte moderna (principalmente no terceiro ato) e a lentidão de se definir por um amor ou a permanência a uma promessa feita anteriormente. O diretor sabe escrever roteiros para figuras femininas, e aqui não é diferente: especialmente inspirada é a relação entre uma escritora e uma jovem em Swimming Pool, assim como a melancólica Isabelle de Bela e jovem. Em certos momentos, lembra um pouco o tom impresso na personagem de Audrey Tautou em Eterno amor por Jean-Pierre Jeunet, que também trata de uma mulher à espera do grande amor desaparecido durante a Primeira Guerra Mundial, transformando Anna numa mulher voltada a uma nova inspiração de felicidade. Ao final, inspirado numa peça de Maurice Rostand, que deu origem a um filme de 1932, Broken Lullaby, Frantz agrada pela sua hábil composição de imagens e pelas atuações, podendo numa segunda sessão ser até melhor apreciado.

Frantz, FRA, 2017 Diretor: François Ozon Elenco: Paula Beer, Pierre Niney, Anton von Lucke, Ernst Stötzner, Marie Gruber, Johann von Bülow, Cyrielle Clair, Alice de Lencquesaing Roteiro: François Ozon Fotografia: Pascal Marti Trilha Sonora: Philippe Rombi Produção: Eric Altmayer, Nicolas Altmayer, Stefan Arndt, Uwe Schott Duração: 113 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Mandarin Films

 

Na vertical (2017)

Por André Dick

Há três anos, o diretor francês Alain Guiraudie lançou no Festival de Cannes o badalado Um estranho no lago, um thriller de suspense que parecia misturar elementos de Zodíaco, de David Fincher, com Parceiros da noite, obra referencial dos anos 80. Agora, em Na vertical, que estreou no mesmo Festival, ele ingressa numa área de estranheza que vai de David Lynch a Leos Carax, passando por outros cineastas com toques de surrealismo, como Buñuel.
Um estranho no lago trazia uma narrativa tão pré-concebida, dirigida a um final em forma de esquema e simbologia, que às vezes dava impressão de falta de envolvimento sentimental do espectador com seus personagens. A solidão, as árvores, a tranquilidade do lago que pode esconder a morte, o cenário cercado por pedras e os faróis noturnos dos carros, tentando iluminar um cenário que parece tão claro durante o dia, indicavam que Guiraudie tentava criar subterfúgios para não explorar suficientemente os personagens, reduzindo suas experiências a trocas de diálogos não tão ousadas quanto as cenas de sexo. Parece que de Um estranho no lago para Na vertical houve um salto do cineasta, com novas escolhas, mais interessantes e mesmo ousadas tematicamente.

O roteirista Leo Breton (Damien Bonnard) caminha por um campo em Lozère, numa atmosfera que evoca algo de Michael Haneke em A fita branca e Caché, e de Bruno Dumont em A humanidade, quando se encontra com Marie (Indie Hair), mãe solteira de duas crianças, que trabalha como pastora na fazenda de seu pai, Jean-Louis (Raphaël Thiéry), com uma espingarda em mãos caso apareçam lobos. Eles logo se apaixonam, e não se deixa nada muito explicado. Na região, também mora Yoan (Basile Meilleurat), um jovem que vive com o velho Marcel (Christian Bouillette), com os quais Leo estabelece uma estranha ligação. Ele tenta convencer Yoan a participar de uma audição para se transformar em ator, mas não tem uma boa receptividade.
Marie tem um bebê com Leo, mas está sofrendo por uma depressão pós-parto, e ele não deseja assumi-la, preferindo ficar na cidade grande e indo ao campo apenas algumas vezes. Guiraudie mostra como todas essas ligações podem estabelecer um patamar cíclico à medida que podem esconder, na verdade, um desejo oculto pertencente a cada personagem. Para desenhar a presença do homem, Guiraudie recorre à figura do lobo e ele torna Leo numa espécie de representação daquele que tenta fugir de uma revelação, mas é levado a ela a cada momento – e os momentos em que ele procura terapia natural com uma médica (Laure Calamy) são os mais estranhos possíveis, assim como há algumas cenas de sexo nos moldes de Um estranho no lago. Guiraudie, a exemplo do que apresentou em seu filme anterior, mostra esse comportamento em geral próximo ao instinto selvagem, daí o roteiro nunca esclarecer muito bem a relação que Leo deseja estabelecer com outras pessoas.

Para tratar da paternidade, Guiraudie elege uma série de escolhas incomuns num filme, assim como para tratar da submissão da mulher em determinados momentos e da tentativa de agradar ao outro. No entanto, o tema em destaque, aqui, é o da fuga: quando Leo não consegue entregar o roteiro a seu produtor, quando se nega a morar com Marie, quando se nega a um comportamento familiar – tudo acaba indicando que ele terá de se dobrar. Guiraudie usa uma metalinguística muito comum a poetas que lidam com o surrealismo, desde Buñuel, passando por Lynch até Carax, para citar alguns dos mais conhecidos. Seu interesse é sempre situar os personagens no limite da convivência natural, para que eles possam ser extraídos dela e colocados numa espécie de universo paralelo, que não se afasta, no entanto, da realidade (e vemos isso claramente na nova temporada da série Twin Peaks, de Lynch). Para isso, o elenco é de suma importância e o destaque absoluto aqui é para a atuação de Damien Bonnard, uma das mais excêntricas do cinema recente. Ele representa o homem indefinido entre a carreira – ser roteirista – e se dedicar à família. Já Christian Bouillette está excepcional, num papel que exige um rigor descompromissado.

A maneira como Guiraudie mostra seu interesse em cuidar do filho, ao contrário de Marie, mostra um sentimento de fundo trágico. Há uma ideia familiar para ele, e suas tentativas de estabelecer contato com Marcel mostram isso, no entanto desequilibradas pela falta de clareza do que realmente almeja. É como se ele quisesse vivenciar a vida alheia, mas ao mesmo tempo não se conforma com isso.
Não que seja um mérito especial, mas Na vertical é um dos filmes mais originais dos últimos anos, mesmo que alguns temas ao final emerjam de maneira um pouco abrupta, devido ao pouco desenvolvimento adotado por Guiraudie para determinados personagens, embora Leo ingresse exatamente no universo ficcional que produz como roteirista, adentrando em sua própria criação. Há um sentimento permanente nele de deslocamento, assim como se mostra ao longo de toda a narrativa, seja caminhando por um campo aberto, seja caminhando embaixo de um viaduto na cidade. A fotografia de Claire Mathon cria uma sensação de distanciamento de tudo, principalmente quando mostra a fazenda durante a noite ou a estrada onde Leo se desloca constantemente. Isso funciona em combinação com a analogia estabelecida entre homens e lobos, extremamente funcional e impactante.

Rester vertical, FRA, 2017 Diretor: Alain Guiraudie Elenco: Damien Bonnard, India Hair, Raphaël Thiéry, Christian Bouillette, Basile Meilleurat, Sébastien Novac, Laure Calamy Roteiro: Alain Guiraudie Fotografia: Claire Mathon Produção: Benoît Quainon, Sylvie Pialat Duração: 100 min. Distribuidora: Zeta Filmes Estúdio: Les Films du Worso

 

A vigilante do amanhã – Ghost in the shell (2017)

Por André Dick

O diretor Rupert Sanders estreou com um grande blockbuster há alguns anos, Branca de neve e o caçador, um dos mais interessantes do gênero de fantasia, mesmo com sua má recepção em geral, com Kristen Stewart e Charlize Theron vivendo um duelo transposto do conto de fadas. Sanders já demonstrava um talento interessante para a composição de imagens diferenciadas, em que o fantástico se mesclava com um tom que remetia aos filmes dos anos 80, a exemplo de A lenda e Labirinto, e Cruzada e Gladiador, de Ridley Scott, principalmente na grandiosidade de algumas cenas de batalha.
Em seu novo filme, A vigilante do amanhã – Ghost in the shell, ele procura outro universo, baseado no mangá criado por Masamune Shirow. Num futuro não muito distante do Japão, a Hanka Robotics desenvolve o projeto de um corpo que, ao invés de simplesmente ser uma inteligência artificial, carrega um cérebro humano. No caso, Mira Killian (Scarlett Johansson) é um jovem sobrevivente de um ataque em que seus pais morreram. A Dra. Ouelet (Juliette Binoche) é a sua idealizadora e Cutter (Peter Ferdinando), o responsável pela Hanka, decide usá-la para combater o terrorismo.

Killian, depois de certo tempo, se torna uma major no Setor 9, trabalhando com Batou (Pilou Asbæk) e Togusa (Chin Han) sob as ordens de Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano). Killian, no entanto, como RoboCop, vem tendo lembranças do seu passado e quer descobrir, afinal, sua origem. Esta é a busca de Batty em Blade Runner, e A vigilante do amanhã trabalha no mesmo universo cyberpunk, em que o corpo humano é confrontado com o tecnológico – e muitos detalhes remetem também à adaptação do conto de Phillip K. Dick Minority Report, feita por Spielberg. Depois de uma determinada missão, Killian se depara com uma figura desconhecida chamada Hideo Kuze (Michael Pitt). Kuze e Killian podem ter mais algo em comum do que o aparente universo que os afasta.
O filme de Sanders tem um design de produção notável, influenciado tanto por Blade Runner quanto pela Seul futurista de Cloud Atlas, das irmãs Wachowski e Tom Tkywer, e pelo Japão psicodélico de Enter the void, embora seus temas possam dialogar mais com Matrix, a ficção científica referencial do final dos anos 90, e RoboCop, de Paul Verhoeven. O design funciona em conjunto com a narrativa, que parece às vezes contemplativa, em termos de ação e de envolvimento emocional. A escolha de Scarlett Johansson foi muito criticada por ela não ser uma atriz oriental, mas deve-se dizer que a figura original tinha traços ocidentais, e a atriz tenta utilizar a falta de emoção da personagem como resultado apenas de sua configuração tecnológica.

O segmento de Cloud Atlas em que se mostra Sonmi-451, interpretada por Doona Bae, dialoga aberta com A vigilante do amanhã. Bae era uma atriz que conseguia imprimir certa emoção mesmo com poucos gestos, já que lá também era um experimento tecnológico que estava à frente de uma revolução. Por sua vez, Johansson nunca transparece grandes sentimentos em suas personagens (curiosamente, aquele filme em que mais transpareceu afeto foi Ela, em que fazia um dispositivo virtual romântico) e aqui ela consegue transparecer uma humanidade diferente da superfície gelada – melhor do que em Lucy e Sob a pele, no qual fazia uma alienígena. Fala-se que esta escalação é o que levou o filme a uma dificuldade clara de obter uma bilheteria condizente com seu orçamento. Não se trata disso, e sim do fato de que o roteiro tem um rumo filosófico, embora alguns personagens não tenham o desenvolvimento adequado, principalmente da personagem de Binoche, excepcional atriz francesa, tão subaproveitada quanto em Godzilla e fazendo uma parceria indireta com a Marion Cotillard de Assassin’s creed.
Se já existia uma animação clássica baseada nesse mangá, dos anos 90, A vigilante do amanhã se sente bem feito em suas sequências de ação, lembrando Assassin’s creed, mas se equivoca em alguns momentos em depositar suas chances numa possível continuação, sem desenvolver suficientemente a história.

Ainda, assim a importância que dá ao visual – plano em que a atuação de Johansson ganha uma nuance de destaque, pelos efeitos visuais incríveis – se vê expandida por esta busca da personagem por seu eu verdadeiro e, mesmo que a trama principal seja simples, o que se passa na tela não necessariamente fica esclarecido, deixando uma sensação de mistério interessante. Há cenas que dialogam com o segundo John Wick, deste ano, com sua profusão de neons, porém A vigilante do amanhã desenvolve imagens simbólicas, como a da casa oriental que a personagem vislumbra e pode remeter a algo mais íntimo, assim como o mergulho na água pode representar tanto adentrar na vida quanto na mente alheia ou na morte. E Keanu Reeves, sendo seu personagem quase uma máquina, parecia ter um sentimento de angústia permanente, o que não acontece com Johansson.
O roteiro de Ehren Kruger, William Wheeler e Jamie Moss se sente lento e, ao mesmo tempo, apressado, dando ao filme uma camada existencial interessante. Enquanto não vemos todos os personagens se desenvolvendo, percebemos que o diretor não está também interessado em cobrir a lacuna do problema com ação ruidosa, que excluiria da história seu diferencial. O que torna o espetáculo mais atrativo ainda é, além do design de produção e dos efeitos visuais, a fotografia de Jess Hall, que colaborou em Transcendence. Hall tem um olhar interessante para a composição de cores e os enquadramentos. Veja-se o olhar que ele lança para uma repartição de edifícios visitada por Killian, com o céu ao alto. Dentro do material e da narrativa em que seu trabalho é inserido, ele se sente bem o quanto poderia: A vigilante do amanhã é surpreendentemente profundo.

Ghost in the shell, EUA, 2017 Diretor: Rupert Sanders Elenco: Scarlett Johansson, Takeshi Kitano, Michael Pitt, Pilou Asbæk, Chin Han, Juliette Binoche, Lasarus Ratuere, Danusia Samal, Yutaka Izumihara, Tawanda Manyimo, Peter Ferdinando, Pete Teo Roteiro: Jamie Moss, William Wheeler, Ehren Kruger Fotografia: Jess Hall Trilha Sonora: Lorne Balfe, Clint Mansell Produção: Avi Arad, Steven Paul, Michael Costigan Duração: 107 min. Estúdio: DreamWorks Pictures, Reliance Entertainment, Arad Productions, Shanghai Film Group Corporation, Huahua Media Distribuidora: Paramount Pictures

Twin Peaks – O retorno (Episódio 7) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

O sétimo episódio de Twin Peaks – O retorno (disponível na Netflix) marca o reencontro com alguns personagens de peças anteriores e a inclusão de novos. Se tudo começa com Jerry Horne (David Patrick Kelly) no bosque de Twin Peaks experimentando drogas enquanto fala ao telefone com o irmão Ben (Richard Beymer), no hotel, a história se transporta para a delegacia. Hawk (Michael Horse) conversa com o xerife Truman (Robert Forster) sobre os papéis que encontrou na porta do banheiro da delegacia. São páginas rasgadas do diário de Laura Palmer, que relatam um sonho que ela teve com Annie Blackburn (Heather Graham), a namorada de Cooper, no filme Twin Peaks – Fire walk with me. Neste sonho, Annie avisa que Cooper está preso no Black Lodge e que é para Laura anotar isso em seu diário. O xerife, depois de conversar com seu irmão ao telefone, entra em contato com o Doutor Hayward (Warren Frost, falecido no início deste ano), um dos últimos a ter visto Cooper décadas atrás. Esse ingresso do Dr. Hayward traz uma aura de conversas sobre pescaria que remete às primeiras temporadas da série, contrastando com a tecnologia campestre do computador do xerife.

O corpo sem cabeça que se encontra na delegacia de Buckhorn, Dakota do Sul, é identificado como sendo do major Garland Briggs, depois que a tenente Knox (Adele René) conversa com o detetive Dave Mackley (Brent Briscoe) e a legista Constance Talbot (Jane Adams). Esta sequência lembra muito aquela dos agentes Stanley e Desmond no filme Twin Peaks – Fire walk with me. No corredor em que ela liga para seu superior, Davis (Ernie Hudson), vemos passar o que se parece com o mendigo que se encontrava numa cela do segundo episódio. Há um momento de tensão e ameaça típico de Lynch que é cortado por Gordon Cole (David Lynch) assoviando com o retrato da bomba atômica ao fundo de sua sala (e repare-se que, antes, a câmera mostra outro quadro, com uma espiga de milho, remetendo ao “garmonbozia” do Black Lodge). Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) adentra a sala dizendo que tentou falar com Diane (Laura Dern), sem êxito: ambos, então, depois de um pedido engraçado de Albert, vão visitá-la, tentando convencê-la a interrogar o agente Cooper do mal, Mr. C., na prisão de Dakota do Sul. Seguem todos para Dakota junto com Tammy Preston (Chysta Bell).
Os desentendimentos de Diane com os ex-companheiros dão um indicativo que pode se confirmar ou não: Laura Dern será uma das personagens centrais dessa temporada. Apesar de apreciar Dern, suas cenas neste episódio são levemente inclinadas ao exagero, o que descaracteriza o surrealismo despropositado de muitas passagens. O figurino e a peruca, que envelhecem a atriz, não se sentem orgânicos nas cenas em que aparece, além de o roteiro aplicar a técnica do “F***” para tentar uma comicidade forçada, pouco utilizada por Lynch em sua carreira (perceba-se como ela surge bem no recente Wilson, ao lado de Woody Harrelson, ao natural). É Diane, no entanto, que parece prever o que o Cooper do mal (Kyle MacLachlan) pode fazer, tanto que, logo depois, ele consegue uma reunião com o diretor da prisão de Yankton, Warden Dwight Murphy (James Morrison), e parece saber segredos suficientes dele para conseguir uma liberdade incondicional para ele e o parceiro Ray Monroe (George Griffith). Esta sequência é bem feita, mas talvez muito direta para os simbolismos que Lynch costuma entregar, nunca tão evidenciados.

Lynch trafega entre esses espaços com naturalidade, porém o personagem do Cooper mal não parece o melhor indicativo para o que se pode extrair com esta nova temporada: sua presença já parece suficientemente aproveitada. Será uma presença ainda muito ativa?
Enquanto Andy (Harry Goaz) tenta descobrir, de maneira estranha, o que houve com o acidente no episódio anterior, Ben Horne flerta com sua secretária Beverly Page (Ashley Judd) ao mesmo tempo que procuram identificar de onde vem um estranho barulho na eletricidade do escritório. Ele também recebe das mãos dela a chave que chegou do correio, do quarto em que Cooper estava hospedado vinte anos antes, enviada por Jade (Nafessa Williams), no quinto episódio. Nada mais interessante que a câmera se direcionar a uma das tapeçarias indígenas do Great Northern – simbolizando os enigmas da série e do bosque. E a eletricidade estaria avisando sobre a volta de Cooper?
Já a brava Janey-E Jones (Naomi Watts, em tempo exato de humor novamente) vai buscar o marido Dougie (também MacLachlan) no trabalho, quando ele é visitado por três detetives, T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner), por causa do seu carro, que explodiu do outro lado da cidade. Ele também é ajudado pelo chefe Bushnell Mullins (Don Murray), depois de ignorar o colega Anthony Sinclair (Tom Sizemore), a quem acusou de mentiroso no capítulo 5.

Na saída do trabalho, ele precisa enfrentar Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), enquanto aparece a árvore do Black Lodge, o Braço, dizendo o que ele deve fazer. Essa cena mescla estranheza e surrealismo em doses desproporcionais, e o que mais a engrandece é Cooper/Dougie ouvindo as sirenes da polícia como se estivesse recordando do passado. Ainda assim, o que seria um humor calibrado acaba se perdendo um pouco.
Há uma cena executada de forma impecável no Roadhouse, quando um homem varre o salão por alguns minutos, juntando minuciosamente a sujeira deixada pelos clientes no chão, ao som de “Green Onions”, quando ao fundo o parente de Renault (feito pelo mesmo ator, Walter Olkewicz), atende ao telefone e fala sobre negócios ilegais – o que mostra novamente a podridão da pequena cidade embaixo da tentativa de limpá-la.
Neste universo, o duplo mal de Cooper é mais do que uma ameaça: ele é realmente algo a ser combatido. David Lynch até o momento expôs uma história muito bem trabalhada em partes e misteriosa até seu cerne: resta saber o que ele pretende daqui em diante, e até que ponto ele vai utilizar a figura do duplo mal de Cooper e, principalmente, de Diane, que se sente, pelo menos neste episódio, fora do tom. Lynch diz a ela: “O microfone e a cortina são seus”, antes de ela falar com o duplo mal de Cooper, numa cena que parece saída de Império dos sonhos, sobretudo na maneira como ela é enfocada. Esperamos que ele não esteja dizendo a Laura Dern que o espetáculo é dela, como pareceu nesses primeiros momentos.

Sabe-se que desde Veludo azul, passando por Coração selvagem, até Império dos sonhos, Dern é sua atriz favorita, mas desconfia-se o que ele está pretendendo destacar nela que destoe do restante da série. Além disso, os episódios anteriores continham longas sequências primorosas – neste, Lynch parece adotar uma narrativa mais entrecortada, que remete à série antiga, entretanto sem a mesma agilidade de ligação em alguns pontos. É a primeira vez na série que ele estabelece mais de duas passagens para os mesmos personagens, de forma mais definida, e talvez este episódio se sinta mais linear, o que não é a melhor qualidade. Ou seja, até então o diferencial era exatamente esse estilo mais vagaroso, o que muda aqui, e não se sabe ainda se é necessariamente de acordo com o que virá. Não é sem explicação que a melhor cena seja aquela do flerte de Ben Horne, com uma precisão de tempo e movimentos de câmera por parte de Lynch. Perceba-se também que Lynch, além de lidar com duplos, mostra vários irmãos (os Horne, os detetives, os Truman conversando ao telefone), como se a genealogia da série fosse se estendendo. Do mesmo modo, é interessante que o diretor consiga, nos próximos episódios, trazer de volta personagens que apareceram e sumiram, como James Hurley (que teve apenas uma breve aparição ao final do segundo), Bobby Briggs (que apareceu apenas no quarto) e Lucy (Kimmy Robertson), ausente nos dois últimos, para que não percamos de vista o que está ocorrendo a eles. Isso acontece aqui com Ben Horne, que não aparecia desde o primeiro episódio. Audrey, sua filha, desta vez é mencionada. Até agora, do elenco, MacLachlan e Naomi Watts são os dois destaques, seguidos pelo próprio David Lynch, e a fotografia de Peter Deming continua irretocável. Tudo faz parte da ideia de um filme dividido em 18 episódios, mas Lynch não deve destacar alguns do seu elenco para desviar o foco do que realmente nos interessa: os enigmas de Twin Peaks.

Twin Peaks – Episode 7, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Laura Dern, Robert Forster, Mädchen Amick, Ashley Judd, Larry Clarke, Eric Edelstein, David Koechner, Don Murray, Tom Sizemore, David Patrick Kelly, Richard Beymer, Miguel Ferrer, David Lynch, Christophe Zajac-Denek, Warren Frost, Adele René, Brent Briscoe, Ernie Hudson, Jane Adams, Walter Olkewicz Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

 

Rakka (2017)

Por André Dick

Em 2009, Neill Blomkamp surpreendeu o público com sua ficção científica Distrito 9, indicada ao Oscar de melhor filme, e passou a ser visto como uma das promessas entre os novos diretores. Com um orçamento maior e a presença de Matt Damon à frente do elenco, Blomkamp regressou com Elysium, um filme que apostava, como sua estreia, num cenário que mescla os elementos de ficção científica com favelas e exploração de seres humanos vivendo numa Terra combalida, em 2154, Nele, tínhamos no espaço a presença de Elysium, uma estação espacial com mansões e uma vegetação tropical, almejada sobretudo porque conta com um suporte tecnológico que não permite seus moradores terem qualquer tipo de doença. Em 2015, Blomkamp investiu num projeto que mesclava elementos de RoboCop e Short Circuit: Chappie, que conseguia desenvolver bem até a primeira metade os seus personagens para depois se perder em clichês, mesmo com boas atuações do elenco, uma das virtudes do trabalho desse cineasta.

Depois de tentar levar adiante o projeto de Alien 5, que iria ignorar a existência de Alien 3 e Alien – A ressurreição, continuando a história de Aliens – O resgate, Blomkamp não conseguiu fazer seu projeto vir à luz. Somou-se a isso o fato de Ridley Scott estar fazendo a trilogia inicial de Alien. Resolveu, então, desenvolver o Oats Studios para projetos de curta-metragem, a serem lançados pela página do estúdio e pelo YouTube. A tendência é que, a partir desses projetos, ele possa transformá-los em longas, com a ajuda do público.
O primeiro experimento é Rakka, passado em 2020, que mostra a Terra invadida por répteis alienígenas assustadores, levando a humanidade praticamente à extinção. Seria a ideia inicial de Blomkamp para o Alien 5? Eles destroem cidades e constroem sobre obras da humanidade, como a Torre Eiffel, compartimentos que as tornam quase espaçonaves. Blomkamp mostra que os alienígenas usam um líquido escuro e viscoso que transforma o que eles querem na estrutura pretendida e ainda exercem uma influência sobre o cérebro dos humanos. Também passaram a escravizar os humanos; os que escaparam estão escondidos embaixo da terra, num clima pós-apocalíptico nos moldes de Mad Max. No Texas em ruínas, há, porém, um grupo de soldados dos Estados Unidos liderados por Jasper (Sigourney Weaver). O que mais interessa no estilo de Blomkamp é a mescla entre fantasia e realismo, tão bem efetuada, por exemplo numa cena em que a líder visita um espaço cheio de velas, para homenagear a humanidade – tão realista que parece saída de Central do Brasil, na peregrinação dos personagens do filme de Walter Salles.

Jasper vai atrás de Nosh (Brandon Auret), um piromaníaco que constrói bombas e vive num ferro-velho, mas se encontra preso. Ele não tem interesse em ajudar a humanidade, e seu nome subentende o contrário de Noah/Noé. Ao mesmo tempo, a organização encontra Amir (Eugene Khumbanyiwa), que conseguiu escapar dos alienígenas sob efeito dos experimentos. Sarah (Carly Pope), da resistência, tenta convencê-lo a ajudar, levando em conta que ele guarda um segredo consigo. Neste espaço, Blomkamp concentra algumas imagens que dialogam com os filmes de Kathryn Bigelow, a exemplo de A hora mais escura. Se há um elogio maior que se possa fazer é que o espectador realmente gostaria de assistir a uma versão estendida desse curta-metragem, que talvez exista, esperando por uma verba de finalização.
Rakka em finlandês significa “afloramento de rocha no cume de uma colina” (certamente referência ao que fazem os invasores com a paisagem terráquea) e o que se tem aqui, na verdade, é o ressurgimento da carreira de Blomkamp. Com um design de produção fabuloso de Bobby Cardoso e uma bela fotografia de Mannie Ferreira, Rakka tem as principais obsessões do cineasta: a ligação entre homens e uma possível chegada de alienígenas, o interesse pela tecnologia, o clima de Apocalipse. Veja-se, por exemplo, a sequência do alienígena segurando uma caveira shakesperiana antes de lançá-la numa caverna repleta de ossadas: há toda uma tragédia embutida nessa breve sequência. Se Chappie tinha muito pouco dessa efetividade, as visões de Rakka se sentem impressionantes, mesmo com a curta-metragem, desenhando um dos cenários mais assustadores para a humanidade e mostrando que Blomkamp poderia, sem dúvida, acrescentar ao universo da série Alien, mas, ao que tudo indica, vai acrescentar mais ainda com este projeto inovador.

Rakka, EUA, 2017 Diretor: Neil Blomkamp Elenco: Sigourney Weaver, Brandon Auret, Eugene Khumbanyiwa, Carly Pope Roteiro: Neil Blomkamp e Thomas Sweterlitsch Fotografia: Mannie Ferreira Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Mike Blomkamp, Steven St. Arnaud Duração: 22 min. Distribuidora: Oats Estudio

 

Colossal (2017)

Por André Dick

São poucos os filmes que conseguem misturar gêneros diferentes, e Colossal está entre eles. No início, ele se equilibra entre o drama e o humor da vida de Gloria (Anne Hathaway), uma escritora sem emprego que enfrenta o alcoolismo, em Nova York. Seu namorado Tim (Dan Stevens) briga com ela, e Gloria acaba voltando para sua cidade do interior. Lá, ela encontra um amigo de infância, Oscar (Jason Sudeikis), cuja herança do pai foi um bar. A rotina de Gloria, portanto, continua a mesma. Oscar a ajuda a se estabelecer na sua casa de infância, ao mesmo tempo que Seul, na Coreia do Sul, passa a ser invadida por um monstro que lembra Godzilla, destruindo edifícios e que pode ter uma relação com a personagem central. Neste ponto, o filme avança no terreno do fantástico e da ficção científica. Como vender uma obra sem estilo pré-determinado? Com elementos claros de Godzilla e King Kong, é difícil encontrar um público determinado, principalmente porque o que se mostra na superfície não parece ser o mais importante e os personagens não se mostram exatamente como heróis ou vilões, com frases de efeito para provocar reação na plateia.

As noites de Gloria, imersa na bebida, junto com os amigos de Oscar, Garth (Tim Blake Nelson) e Joel (Austin Stowell), são interrompidas por uma sucessão de traços de absurdo. Um deles certamente é que, quando ela acorda de ressaca, percebe que está perdendo notícias importantes na televisão. Nada melhor do que prover um bar com mais bebida do que um assunto envolvendo tragédia e vários clientes querendo presenciá-la ao vivo. Contar mais é certamente tirar a graça deste filme dirigido pelo espanhol Nacho Vigalondo. É interessante como Hathaway, semidesaparecida desde o Oscar de atriz coadjuvante por Os miseráveis, tendo se destacado apenas em Interestelar e Um senhor estagiário, desde então, entrega aqui uma das melhores atuações de sua carreira. Ela consegue realmente mesclar o estilo cômico e dramático que a narrativa requisita. Sudeikis, conhecido por seus papéis bem-humorados, também se sai muito bem, ambos bem dirigidos por Vigalondo. Pode haver um interesse amoroso entre esses personagens interligados pela bebida? Este é outro elemento de Colossal: um possível romance. Mais uma vez, o gênero do filme se torna indefinido, à medida que a história vai retomando traços da infância dessa personagem para explicar sua condição atual diante de uma realidade. E o grande mérito de Vigalondo é a criação, pouco a pouco, de uma atmosfera mesclando sonho e realidade.

Se a bilheteria foi decepcionante (2 milhões nos EUA), Colossal conta pontos em sua matéria mais profunda do que aparenta. Trata-se de uma história realmente original e fora do esquema típico de produções de Hollywood. Numa época em que King Kong e Godzilla irão se conciliar numa franquia, os monstros de Colossal se mostram muito mais subjetivos, para além de qualquer explicação plausível. Em termos técnicos, o filme surpreende com a criação de cenários interessantes e efeitos visuais competentes. Tudo nele faz o espectador ficar imerso na história que está sendo contada. O bar onde a história se passa em grande parte tem um design atrativo, em que os personagens se confundem com neons ou a cor dos quadros de fundo, além das mesas que evocam um antigo estabelecimento do Velho Oeste, o que certamente é proposital para o desenlace que pretende mostrar. A cidadezinha de origem de Gloria tem um ar de que algo domina ali e não é certamente o entusiasmo, por isso a personagem central se concentrar exatamente nela para tentar crescer novamente, a partir de uma determinação em superar o que lhe aconteceu. Nesse sentido, Colossal tem muito mais relação com outro filme de kaijus, o já referencial Círculo de fogo, de Guillermo del Toro, em que o passado de uma menina e a tentativa de irmão vingar a morte de outro se convertia numa peça além da velha matéria de enfrentamento entre humanos (e sua tecnologia, no caso) e monstros.

O contraponto entre a cidade do interior, com suas ruas vazias e playgrounds sem crianças brincando, e a metrópole que é Seul parece significar também a divisão de Gloria entre Nova York e seu passado. É ela que faz a ligação simbólica entre esses universos, enquanto Oscar parece ser aquele que tenta convencê-la a permanecer ocupando sua casa com móveis antigos. É como se ela precisasse sempre não apenas regressar ao passado, como se manter nele. Esta é uma história sobre o indivíduo norte-americano paralisado por guerras e destruições e que acaba se entregando ao vício e ao passado, mas que dele procurar escapar de algum modo, nem que seja por meio da fantasia. Oscar representa, ao que tudo indica, a própria consciência de Gloria desejando permanecer nesse presente em que não se livra de algumas mágoas. Vigalondo, para isso, torna a casa onde fica Gloria e o bar de Oscar quase personagens da narrativa, que se estabelece de maneira interessante até o final imprevisível. Embora ele pareça por vezes forçado e abrupto, deve-se dizer que a obra ganha um significado ainda mais interessante depois do caminho adotado por Vigalondo. Isso faz de Colossal não apenas diferenciado, como também deslocado do que surge nas telas hoje em dia: só isso o torna mais interessante do que poderia.

Colossal, EUA, 2017 Diretor: Nacho Vigalondo Elenco: Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Dan Stevens, Tim Blake Nelson, Austin Stowell, Agam Darshi, Rukiya Bernard, Hannah Cheramy Roteiro: Nacho Vigalondo Fotografia: Eric Kress Trilha Sonora: Bear McCreary Produção: Dominic Rustam, Nahikari Ipiña, Russell Levine, Zev Foreman Duração: 110 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Brightlight Pictures / Sayaka Producciones Audiovisuales

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 6) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

No sexto episódio de Twin Peaks – O retorno (disponível na Netflix), David Lynch retoma a história mostrando Dougie Jones/Agente Cooper (Kyle MacLachlan) ainda observando a estátua do caubói na saída de seu trabalho, tentando identificar o que ela lhe lembra de outra vida, exatamente a de um agente do FBI. Abordado por um policial que pede para sair do lugar, acaba sendo levado para casa, onde reencontra sua esposa Janey-E Jones (Naomi Watts, novamente no tempo certo de humor). Ela pede que fale com seu filho, Sonny Jim (Pierce Gagnon) antes de este dormir, e Dougie mal consegue calcular os passos para subir até o segundo andar da casa. Comendo batata frita, é chamado de volta pela esposa para explicar algumas fotos que estavam dentro de um envelope entregue por baixo da porta de sua casa nas quais aparece ao lado de Jade (Nafessa Williams). Mais do que ver em Jade apenas quem lhe deu carona, Dougie Jones/Agente Cooper precisa fazer a tarefa de casa: analisar os arquivos passados por seu chefe da companhia de seguros, Lucky 7 Insurance, para identificar possíveis erros. Depois de visualizar no chão de sua casa o Homem de Um Braço Só (Al Strobel) dizendo que ele precisa despertar – uma alusão clara a Paul Atreides de Duna, também interpretado por MacLachlan – e não morrer, Dougie Jones/Cooper começa a ver pontos luminosos do que precisa marcar em seus arquivos, e interessante também é ele ver no 7 do nome da empresa a mesma curva do piso do Black Lodge.

Se a polícia recolhe os escombros do carro de Dougie Jones que explodiu do outro lado da cidade, de pessoas para quem ele deve, Lynch vai juntando outros: apresenta o novo traficante da cidade de Twin Peaks, Red (Balthazar Getty). Ele estava flertando com Shelly no Road House ao final do segundo episódio e agora mostra drogas a Richard Horne (Eamon Farren), parente dos Horne. Balthazar estrelou A cidade perdida, de Lynch, e a estranheza do ator se manifesta ainda em seu comportamento e o gesto de mágica com uma moeda, que lembra alguns dos momentos surrealistas de Cidade dos sonhos.
Situada entre a realidade e o surrealismo é a ida de Carl Rodd (Harry Dean Stanton) de van de seu Ice Trout Trailer Park em Deer Meadow, Oregon, para Twin Peaks. Lembre-se que esse parque de trailers é administrado por ele já na época em que o FBI vem investigar o assassinato de Teresa Banks em Twin Peaks – Fire walk with me. Na mesma ida, um amigo do local, Mickey (Jeremy Lindholm), ganha carona e fala da esposa Linda, que acabou de receber uma cadeira de rodas do governo. Seriam Linda e Richard (Horne) os nomes mencionados pelo gigante a Cooper no primeiro episódio desta terceira temporada? Em Twin Peaks, sentado num banco de parque, como Dorothy Vallens ao final de Veludo azul, Carl vê uma mãe (Lisa Coronado) brincando com seu filho (Hunter Sanchez), enquanto parece ficar mais calmo olhando a copa das árvores acima.

No entanto, no mesmo cruzamento em que o Homem de um Braço Só aborda Laura Palmer e seu pai, Leland, no filme realizado para o cinema, acontecerá a morte trágica dessa criança. Rodd corre para ver o que aconteceu e visualiza uma chama de fogo subindo ao céu, quando o espectador visualiza a placa de seu parque de trailers, que era mostrada em Twin Peaks – Fire walk with me com o som indígena feito pelo anão do Black Lodge. Lynch desenha essa metafísica de sensações por meio de imagens sensíveis e violentas, desde a beleza natural que Rodd presencia ao extremo oposto. Mais estranha ainda é a violência do motorista que atropela a criança. É como se tudo fosse interligado pela natureza e um sentimento que desequilibra isso remete à eletricidade que provém do Black Lodge. E perceba-se a falta de reação dos habitantes de Twin Peaks, como se não tivessem possibilidade de sequer amparar a mãe com seu filho, mostrando que a pequena cidade ainda vive sob um peso de ameaça inexplicável, mesmo com sua aparente tranquilidade.
Em algum lugar indeterminado, um rapaz quase anão, Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), recebe as fotos de Dougie Jones e da telefonista que aparece ao início do quinto episódio, Lorraine (Tammy Baird), e Lynch, de forma assustadora, já mostra a morte dela a facadas em seguida. E ainda temos Janey-E tentando fazer com que os perseguidores de Dougie Jones, Jimmy (Jeremy Davies) e Tommy (Ronnie Gene Blevins), deixem seu marido em paz, entregando um maço polpudo de dinheiro em troca.

Enquanto Hawk (Michael Horse), na delegacia, descobre algo na porta do banheiro, sob a preocupação de Chad Broxford (John Pirruccello), o xerife Truman (Robert Forster) volta a receber sua esposa, Doris (Candy Clark), revoltada com o não conserto do carro do pai. No Double R, a garçonete Heidi (Andrea Hays), das primeiras temporadas de Twin Peaks, com sua risada característica, atende uma professora, Miriam (Sarah Jean Long), antes de conversar com Shelly (Mädchen Amick).
No entanto, talvez a sequência mais enigmática seja a de Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), depois de passar por uma chuva pesada – bradando palavras contra Gene Kelly e Cantando na chuva –, entrando num bar, onde chama por uma mulher bebendo no balcão de costas: é Diane (Laura Dern), a secretária para quem Cooper fazia suas gravações. A entrada de Dern no elenco de Twin Peaks é uma nostalgia pura de Veludo azul – e Dern, com uma peruca platinada, lembra a musa de Lynch à época de Coração selvagem, Isabella Rossellini.
E o que esperar de Dougie Jones quando reencontra seu chefe depois de novamente experimentar um café no elevador na ida para seu trabalho, ajudado por Phil (o ótimo Josh Fadem)? Chamado a distância e assustado, em meio a um design da agência que remete a peças infantis, iguais a seus rascunhos, certamente, ele parece mais curioso com a imagem de seu chefe, Bushnell Mullins (Don Murray), como campeão de boxe quando mais jovem – o que remete ao agente Chester Desmond (Chris Isaak) vendo a imagem do xerife de Deer Meadow, Cable (Gary Bullock), dobrando um cabo de aço em Twin Peaks – Fire walk with me. Na hora do cumprimento, Lynch desliza sua nota cômica em um sentido mais surreal possível.

Lynch cada vez mais com a ajuda de uma fotografia belíssima de Peter Deming utiliza Kyle MacLachlan para extrair uma das atuações mais memoráveis que o espectador presencia nos últimos anos, mostrando o quanto este ator é subestimado, desde o início de sua trajetória, exatamente em Duna. Ele é impressionante na divisão entre Dougie e Agente Cooper, vivida a cada passo, literalmente, e cada gole de café. Tem a colaboração fundamental de coadjuvantes diretos, a exemplo de Watts e Murray, ou indiretos, como Dean Stanton numa participação extraordinária, com pausas no momento exato.
Em seu sexto episódio, David Lynch mostra mais uma vez que não está preocupado em contar uma história que se esclareça a cada sequência: este retorno precisa ser analisado em todos os pontos para ser essencialmente entendido. E mais: a cada episódio, expande a mitologia simbólica que era subentendida na série e explorada realmente no filme. No entanto, este episódio novamente se mantém com uma fascinação especial, com longas sequências, em que Lynch desenha um cinema de arte na televisão. É a verdadeira arthouse.

Twin Peaks – Episode 6, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Laura Dern, Robert Forster, Mädchen Amick, Eamon Farren, Miguel Ferrer, David Lynch, Pierce Gagnon, Al Strobel, Harry Dean Stanton, Candy Clark, Balthazar Getty, Sarah Jean Long, Christophe Zajac-Denek, Tammy Baird, Don Murray, Josh Fadem, John Pirruccello, Hunter Sanchez, Lisa Coronado, Jeremy Davies, Ronnie Gene Blevins, Jeremy Lindholm Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

 

Mulher-Maravilha (2017)

Por André Dick

O universo compartilhado da DC Comics no cinema teve início há quatro anos com O homem de aço, de Zack Snyder, seguido por Batman vs Superman, do mesmo diretor, e Esquadrão suicida, ambos lançados no ano passado. Em um ambiente no qual a disputa da companhia com a Marvel cresce a cada filme, Mulher-Maravilha, o primeiro blockbuster dirigido por uma cineasta, Patty Jenkins, parece trazer uma certa nostalgia em seu início principalmente.
Na ilha de Themyscira, Diana Prince (na infância Lilly Aspel e na adolescência Emily Carey) é educada e treinada para ser uma amazona guerreira pela tia Antiope (Robin Wright), com todo o conhecimento e preparo físico possíveis, mesmo contra a vontade de sua mãe, Hippolyta (Connie Nielsen). Essa premissa familiar já seria suficiente para ver no filme de Jenkins, diretora de Monster, pelo qual Charlize Theron ganhou o Oscar de melhor atriz, um dos fundamentos desse gênero: o respeito às HQs, e o roteiro aposta nisso, apropriadamente interessante. Há uma preocupação em contar a origem das amazonas, com uma volta à mitologia de Zeus, e fica clara a influência do Zack Snyder, que ajudou a escrever a história com Scott Heinberg (responsável pelo roteiro final) e Jason Fuchs, principalmente nas imagens e na tonalidade das figuras gregas, remetendo a 300.

Quando Diana já adulta (Gal Gadot) presencia a queda do avião do norte-americano Steve Trevor (Chris Pine), e imediatamente se depara com a Primeira Guerra Mundial, temos um exemplo de como abordar a história com elementos de fantasia. Ele é um espião que está atrás de informações relativas a alemães. Poucas vezes isso foi feito, mais exatamente naquela obra que serve de comparativo com este, Capitão América – O primeiro vingador, com elementos também de Rocketeer, em que o herói enfrentava nazistas na Hollywood dos anos 40. Se o filme de Johnston insistia em certa narrativa fragmentada, Mulher-Maravilha tenta ser mais completo: é visível que não há os saltos propostos na narrativa de Johnston, nem uma excessiva vontade de converter cada imagem num frame de HQ.
Para um filme que inicia com belíssimo visual da ilha, em trabalho de fotografia magistral de Matthew Jensen (Game of Thrones), repleto de cores, é de se imaginar que há um novo tom adotado para a DC. No entanto, esse novo tom não percorre toda a narrativa: na maior parte das tomadas de guerra, muito realistas e bem feitas por Jenkins, com uma aura de cinema antigo, a atmosfera é soturna. O design de produção de Aline Bonetto, colaboradora de Jean-Pierre Jeunet, em O fabuloso destino de Amélie Poulain e Estranho amor – que possui cenários de guerra parecidos com as de Mulher-Maravilha – e o figurino de Lindy Hemming, que recebeu um Oscar por Topsy-Turvy e participou da trilogia Batman de Nolan, são notáveis.

Ambos os trabalhos acrescentam ao universo da DC, porém não destoam, ou seja, nada aqui é tão claro que deixe de lado uma ambientação atmosférica densa. Não parece haver humor excessivo, de qualquer modo, a não ser quando Mulher-Maravilha entra em contato com Etta Candy (a simpática Lucy Davis, subaproveitada) e a Londres de 1918, que remete à Nova York de Animais fantásticos e onde habitam, com seus detalhes inumeráveis, ou quando procura “guerreiros” para acompanhá-la no front de batalha – momentos em que o filme tenta agradar excessivamente ao público. Os personagens do general alemão Ludendorff (Danny Huston, na atuação problemática do elenco) e uma colega (Elena Anaya) dialogam mais com o universo de Harry Potter e Animais fantásticos e se sentem um pouco deslocados aqui. Nesse contexto, a figura da Mulher-Maravilha se dá com certa desenvoltura, principalmente quando em Londres se mostra intelectualmente já à frente de seu tempo. Há um subtexto claro aqui de temas voltados ao feminismo, com a determinação de Jenkins em lidar com eles de forma interessante e não pretensiosa.
Além disso, o século de distância que afasta essa Diana de Batman vs Superman, tendo Bruce Wayne em seu encalço, é exatamente aquele em que a heroína fica mais experiente e a mitologia se transforma em fantasia: a Primeira Guerra é o verdadeiro apocalipse que se materializa em Gotham City no filme de Snyder. A ilha Themyscira representa o oposto do mundo masculino, que seria exatamente o da guerra sem nenhuma razão: a oposição se dá não apenas pelo uso das cores na primeira parte em oposição aos momentos em que Diana sai do lugar onde nasceu. A Ilha Paraíso, como também é conhecido o lugar, presencia a queda da humanidade com a chegada do homem. E este, segundo Diana Prince, precisa ser salvo. Mas, no momento em que ela realmente conhece os horrores da guerra, talvez ele não queira exatamente isso. Jenkins procura fazer quase uma análise da guerra à parte de seu filme – que tem o foco evidente na fantasia. Isso por vezes engrandece a temática e por outras desvia o foco do que apresenta em cenas-chave. Já o discurso sobre deuses e humanos e a tentativa de Jenkins em representá-los como pinturas em movimento – quando Snyder expunha o tema por meio da pintura na sala de Lex Luthor em Batman vs Superman – é um tema que vem desde O homem de aço no universo compartilhado da DC.

Com um personagem fundamental criado em 1941 por William Moulton Marston, mesmo com essa parcela de mostrar o primeiro filme grande com uma super-heroína, Mulher-Maravilha não parece carregar o risco de Batman vs Superman e mesmo O homem de aço. Trata-se de uma aventura com elementos clássicos, apresentando um um otimismo mais evidente, na construção que ele faz da relação entre os super-heróis mostrados e suas famílias e na esperança de um mundo melhor, mesmo que de maneira conflituosa – o que é base desses personagens nas HQs e animações contemporâneas. Em Mulher-Maravilha, essa relação se dá desde o início, na ilha de Themyscira e forma a personalidade de Diana, mas, ao contrário de Batman e Superman, ela se sente um tanto desprendida do seu passado, e daí a principal diferença de enfoque. Além de tudo, situado durante os anos 1910, não seria possível Jenkins aplicar em sua personagem o mesmo nervosismo da modernidade em que Batman e Superman estão inseridos, com suas guerras a serem enfrentadas a partir de invasões alienígenas ou psicopatas com acesso à mais recente tecnologia para manipular o governo.

Há méritos evidentes para Jenkins em extrair uma boa atuação de Gal Gadot, que se sentia com uma participação tímida em Batman vs Superman e aqui realmente se encaixa no papel, fazendo uma boa parceria com um Chris Pine à vontade, como se estivesse a bordo da Enterprise, assim como na construção de algumas cenas de ação, em que os efeitos visuais são balanceados entre elementos de realismo e fantasia (o laço da Mulher-Maravilha é especialmente bem feito e confere impacto às cenas em que surge). Lamenta-se que Pine não seja suficientemente aproveitado da metade para o final, o que prejudica bastante a fluidez até então da narrativa, e é justamente ele que provoca uma cena antes do final emocionante.
Mais conhecida antes por participar da série Velozes e furiosos, Gadot apresenta um crescimento dramático, mesmo que não completo, principalmente no terceiro ato, que reduz de forma significativa as qualidades do filme (e a metragem se excede em pelo menos 15 minutos). Ela já havia se mostrado uma boa comediante em Vizinhos nada secretos, ao lado de Zach Galifianakis, e aqui novamente seu timing para humor é muito bom. No entanto, o discurso que ela apresenta sente-se didático demais, mesmo expositivo, pois Jenkins naturalmente está aproveitando a figura da Mulher-Maravilha mais para simbolizar um discurso bem dosado à guerra do que para inseri-la numa trama distribuída em camadas. No entanto, para quem está desconfiado de quem forma a opinião de alguns espectadores, não se engane: é tudo o que eles querem. Nada decisivamente melhorou ou piorou: tudo voa ao sabor das circunstâncias, assim como a Mulher-Maravilha em muitas sequências, desta vez sendo recebida em geral não com uma dose tendenciosa de ver apenas falhas onde há verdadeiros méritos.

Wonder woman, EUA, 2017 Direção: Patty Jenkins Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Connie Nielsen, Elena Anaya, Lucy Davis, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremmer, Eugene Brave Rock Roteiro: Allan Heinberg Fotografia: Matthew Jensen Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams Produção: Charles Roven, Deborah Snyder, Zack Snyder, Richard Suckle Duração: 140 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / Cruel & Unusual Films / DC Entertainment