80 anos de Ridley Scott

Por André Dick

O cineasta britânico Ridley Scott comemora hoje 80 anos de idade. Algumas críticas sobre filmes dele, publicadas no Cinematographe e no Letterboxd, como homenagem a um dos grandes cineastas da história.

Alien – O 8º passageiro (1979)

Blade Runner – O caçador de androides (1982)

Thelma & Louise (1991)

Gladiador (2000)

Cruzada (2005)

Um bom ano (2006)

Prometheus (2012)

O conselheiro do crime (2013)

Êxodo – Deuses e reis (2014)

Perdido em Marte (2015)

Alien: Covenant (2017)

Abaixo, um TOP 10 de sua carreira:

Anúncios

Liga da Justiça (2017)

Por André Dick

Com a recepção crítica de Batman vs Superman, logo antes de iniciarem as filmagens de Liga da Justiça as expectativas estavam voltadas para o fato de Zack Snyder continuar como diretor ou não. Ele realizou o filme, no entanto, antes da finalização, precisou se ausentar devido a uma tragédia pessoal: o suicídio de uma filha sua. Para refilmar cenas e escrever e dirigir outras, foi chamado Joss Whedon, responsável pelos dois Vingadores. Ele assina o roteiro ao lado de Chris Terrio (Argo), um dos roteiristas de Batman vs Superman. Ocorreram outras mudanças, como na trilha sonora – Danny Elfman substituiu Junkie XL –, e a discussão passou a ser, antes do lançamento: este seria um filme realmente de Snyder?
Liga da Justiça surge cinco anos depois do primeiro Os vingadores e nesse meio-tempo se acirrou a disputa entre a DC e a Marvel nas telas de cinema, cada uma com suas características. Este ano, porém, Mulher-Maravilha teria investido num otimismo a princípio ausente nas obras de Zack Snyder. O filme de Jenkins, junto com Batman vs Superman, serve como bom prenúncio da primeira reunião da Liga. Se no início a humanidade sente a morte do Superman – e a trilha, com “Everybody knows”, de Leonard Cohen na voz da cantora Sigrid, e a referência a David Bowie dialogam diretamente com Watchmen –, não há tempo para mais explicações.

Os novos personagens são apresentados com agilidade: Victor Stone, ou Ciborgue (Ray Fischer), ainda abalado por sua mudança física; Barry Allen, que tem os poderes de The Flash (Ezra Miller); e Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), herdeiro de Atlântida, são procurados por Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) e Diana Prince/Mulher-Maravilha (Gal Gadot) a fim de formar uma liga para combater a ameaça espacial de Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), atrás de três caixas maternas que podem lhe emprestar um poder inigualável. Ele surge na Terra acompanhado pelos terríveis parademônios, atraídos pelo medo alheio e vêm a ser as criaturas da necessária passagem “Knightmare” de Batman vs Superman, no qual usavam o símbolo de Superman, representando uma ameaça para Wayne. Lamentando a morte de Clark/Superman, uma conversa entre Martha Kent (Diane Lane) e Lois Lane (Amy Adams) no Daily Planet é tão cotidiana que faz lembrar algo que havia se perdido com Donner nos anos 80. Em meio a isso, Silas Stone (Joe Morton) tenta ajudar seu filho Victor, por ter se tornado metade homem, metade ciborgue, e Barry visita seu pai, Henry (Bill Crudrup), na cadeia. Também vemos rapidamente Mera (Amber Heard) em Atlântida e Hippolyta (Connie Nielsen) na ilha de Themyscira.

A interação entre esses personagens é bem conduzida desde o primeiro encontro entre Bruce Wayne e Curry, mediada a distância por Alfred (Jeremy Irons, novamente ótimo). No entanto, a narrativa realmente se fortalece quando Barry Allen entra em cena, e Ezra Miller tem a oportunidade de entregar uma interpretação cômica realmente bem dosada. Apenas uma determinada cena em que Snyder filma o olhar assustado de Flash em slow motion, com a habilidade de atuação de Miller, garante o movimento para o desenrolar da narrativa. Os demais crescem com esse ingresso: Affleck e Gadot pontuam boas cenas juntas – a melhor é aquela em que Diana, vendo uma nova criação de Wayne, lembra do amado Steve Trevor (Chris Pine), remetendo a seu filme solo – e Momoa e Fischer (este especialmente, pela inexperiência) são belos acréscimos. Quase em participação especial, J.K. Simmons também se mostra o novo Jim Gordon, com um bat-sinal no topo da delegacia esfumaçado, lembrando o Batman de Burton, e aqui a trilha sonora de Danny Elfman, num trabalho interessante, embora não brilhante, como poderia, tem sua melhor participação (spoiler até o fim do próximo parágrafo).
Por sua vez, a volta do Superman resulta numa das melhores sequências, quando, não lembrando de quem é, enfrenta os outros da Liga. Cavill está bem, numa mudança já aguardada de comportamento também em relação a Batman vs Superman, e o CGI usado nele chama mais a atenção de quem possui a informação (quando foi preciso regravar cenas, ele já filmava Missão impossível 6 e não podia tirar o bigode que usava com o personagem desse filme). Sua atuação é reforçada por uma sempre competente Amy Adams. Interessante também como o duelo que ele tem com os demais companheiros se dá em frente à sua estátua desmontada em Metrópolis, dialogando com a profissão de Diana. É como se, entre a vida e a morte, esses personagens estivessem sempre em reconstrução.

Em termos de estilo, ficam claras algumas diferenças entre o que foi rodado por Snyder e o que foi finalizado por Whedon. Snyder tem um senso estético quanto a design de produção e fotografia, por exemplo, que Whedon não possui, mas o filme nunca se sente dividido ou com a tentativa de romper a paleta do diretor oficial e de Fabian Wagner (Game of thrones), levando em conta que apenas 20% das cenas teriam sido feitas ou refeitas por Whedon. As cores se sobrepõem das mais diversas formas e mesmo assim se mantém uma unidade. Elas são mais vivas do que nas obras anteriores de Snyder, no entanto trazem uma tonalidade ainda melancólica, buscando um tom alaranjado. Mesmo os figurinos de cada super-herói se sentem ainda melhores do que vimos anteriormente em quadrinhos, filmes ou séries de TV. Com melhor ouvido para certo diálogo descompromissado, Liga da Justiça parece se fortalecer com a presença de Whedon, mas certamente perdeu em certos momentos a perícia de Snyder com certa antilinearidade (os pesadelos de Bruce Wayne em Batman vs Superman mostram bem isso) e um tom épico que é prejudicado pela curta duração, o que é sentido nos primeiros 15 minutos e nos 10 finais.

Ainda assim, Liga da Justiça, de modo geral, apresenta o estilo delirante de Snyder, capaz de transitar por batalhas gregas com uma atmosfera de Olimpo (300), mostrar um Superman com questionamentos existenciais (O homem de aço), encadear uma sequência de imaginações de uma menina num hospício (Sucker Punch) e apresentar uma animação em que duas corujas irmãs entram em conflito (A lenda dos guardiões), além de um épico sobre um grupo de super-heróis perseguido (Watchmen). Este é um filme visualmente fantástico, com efeitos especiais impressionantes, prejudicados apenas pelo CGI excessivo do duelo final, o que já acontecia em Batman vs Superman e Mulher-Maravilha (curiosamente não tão presente nos primeiros trailers). Os mais destacados são aqueles que envolvem a velocidade do Flash, que poderiam ser carregados, mas estão no tom certo. E, por mais que os cenários mudem abruptamente, há tons e cores que os unem, oferecendo uma real unidade.
Nota-se o cuidado de Snyder em enquadramentos, como a primeira sequência de Batman, que evoca o de Burton e tem um sentido físico real, homenageando, também, com as pombas no alto do prédio, o clássico Blade Runner. Mais: mesmo que de forma menos intensa do que certamente sua versão original (e fica evidente que Liga da Justiça tinha a metragem lançada nos cinemas de Batman vs Superman, pelo menos), a Liga não conserva muito de certo desencantamento de Snyder visto em obras como Watchmen. O vilão também não permite o que Snyder conseguiu com Zod e Lex Luthor: essa é uma ameaça para a humanidade com o objetivo de unir esses heróis em torno de uma determinada ação, não havendo grande elaboração dos seus motivos. Trata-se de uma ameaça secular (em certa narração sobre a sua história, há ecos de O senhor dos anéis, de Peter Jackson), envolvendo as amazonas e o povo de Atlântida, mas é preciso dizer, com ou sem o laço de Mulher-Maravilha, não totalmente elaborada. Em certo momento, é retomada uma referência às lendas do Rei Arthur, já devidamente lembradas tanto por meio do filme anunciado no cinema no início de Batman vs Superman (Excalibur) quanto pela arma usada pelo Superman na luta derradeira.

Liga da Justiça, por outro lado, continua investindo na emoção familiar de O homem de aço, na cena que se passa num milharal, em referência ao clássico Superman de 78 e a Campo dos sonhos, não por acaso com Kevin Costner, que faz o pai terráqueo do homem de aço e no filme de 89 era visitado por fantasmas em sua fazenda. É ressonante também o encontro dos Allen na prisão e uma discussão dos Stone. Também há mais bom humor. Contudo, pelos trailers iniciais, essa diferença já era evidente, então não se tem certeza do tom que Whedon empregou seja tão diferente do resultado inicial. Do mesmo modo, o estabelecimento de conexão com os filmes anteriores (pela nave de Zod, sobretudo, e pela Ilha de Themyscira), é muito bem desenhado, de modo discreto, assim como com os próximos (em duas boas cenas pós-créditos, a segunda especialmente reveladora do que virá).
Isso é beneficiado pelo verdadeiro sentimento de heroísmo vindo de cada personagem, assim como a compreensão em relação a cada um, especialmente de Mulher-Maravilha em relação ao Ciborgue e a amizade deste com o Flash, sendo dois deslocados, presos a um passado que ainda não conseguiram resolver. Esse heroísmo é colocado em avaliação sobre a idade pessoal por Bruce Wayne e uma brincadeira com uma fala do confronto anterior entre ele e Superman, que certamente é um toque refinado do roteiro de Terrio e Whedon. Todos esses personagens carregam alguma culpa (a de Batman em ter matado Superman, a de Mulher-Maravilha em não ter aparecido como uma heroína ao longo de décadas) e tentam usar seu vigor com o intuito de ajudar a humanidade. Apesar de não ter complementado seu trabalho, e de esta versão ser certamente mais curta do que eu gostaria – e o público, possivelmente, também –, Snyder firma, com Liga da Justiça, seu nome como o melhor diretor de fantasias provindas dos quadrinhos. Ele realmente torna emocionante ver esses personagens em ação.

Justice league, EUA, 2017 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, J. K. Simmons, Bill Crudup, Amber Heard Roteiro: Chris Terrio, Joss Whedon Fotografia: Fabian Wagner Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Charles Roven, Deborah Snyder, Jon Berg, Geoff Johns Duração: 121 min. Estúdio: DC Films, RatPac Entertainment, Atlas Entertainment, Cruel and Unusual Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

O outro lado da esperança (2017)

Por André Dick

O outro lado da esperança mostra a história de Khaled Ali (Sherwan Haji), um refugiado da Síria que escapou de Aleppo, fugindo num cargueiro de carvão, até chegar a Helsinque. Levado por funcionários da imigração, ele conhece o iraquiano Mazdak (Simon Hussein Al-Bazoon) e, mais tarde, a equipe de um restaurante, Golden Pint, coordenado por Wikström (Sakari Kuosmanen), o qual acabou de se separar de sua esposa (Kaija Pakarinen) e tem entre os seus empregados Lugbrious Greeter Calaminius (Ilkka Koivula), Nyrhinen (Janne Hyytiainen) e a garçonete Mirja (Nuppu Koivu), além de um cão. O segundo encontro (o primeiro é logo no início, imprevisto) entre Khaled e Wikström é, no mínimo, inusitado: se o segundo conseguiu o restaurante depois de várias rodadas de pôquer, seu jogo preferido, o primeiro poderia ser apenas mais uma parte do jogo em que poucos ganham.

Se a temática da imigração fica clara desde o início (o diretor já a havia utilizado no sua obra anterior, O porto), em que Ali chega à cidade com o rosto coberto de carvão depois da longa viagem, mais interessante é como o diretor Aki Kaurismäki conduz tudo para o ambiente cinza de uma delegacia de polícia. Esta jornada não pode ser interrompida como a de Oscar durante a noite em Holy Motors, nem possui os enigmas do recente Most beautiful island, sobre uma imigrante espanhola em Nova York, mas se reproduz em vários espelhos e pelas ruas de Helsinque.
Trata-se de uma mistura de David Lynch, Cristian Mungiu, Kiarostami e Ceylan com um humor enviesado capaz de dialogar com o melhor Wes Anderson e Jim Jarmusch, uma das grandes surpresas do ano, com fotografia repleta de nuances de Timo Salminen. Não raras vezes, parece que estamos acompanhando um filme antigo, o que se reproduz em seus traços e configurações mais próximos do cinema clássico dos anos 50. É curioso como o diretor nunca torna o peso dessa temática com tom grave, semelhante ao que Michael Haneke faz, por exemplo, na obra-prima Caché: seus personagens são leves e, por vezes, despretensiosos. Ele tem pontos muito mais claros com o ótimo A igualdade é branca, de Kieslowski, no qual um polonês se casa com uma francesa e se vê às voltas com a solidão.

O outro lado da esperança tem referências lynchianas determinadas, a começar por seu pôster, que lembra A estrada perdida, mas principalmente na trajetória errante de seu personagem central durante noites a fio, lembrando Veludo azul (principalmente na excentricidade do restaurante, com uma imagem de Jimi Hendrix), esperando por um raio de luz e encontrar a sua irmã, Miriam (Niroz Haji), da qual tanto gosta. Sua amizade com o dono do restaurante não tem nenhum movimento da loucura focada por Lynch em Lumbertown ou Twin Peaks, porém conserva um certo ar de deslocamento europeu e fraternidade insuspeita, precedida por uma briga de tom cômico. O restaurante Golden Pint conserva uma aura quase onírica, não apenas porque seus personagens parecem desconectados da realidade, como pela atenção ao aspecto visual que o diretor dá às mesas e aos quadros espalhados pelas paredes. Do mesmo modo, as caminhadas e viagens de ônibus que o personagem central tenta fazer sempre são interrompidas por um preconceito indisfarçável e brutal. Diante de tudo, a figura de um cão, pertencente ao restaurante, parece antecipar o que a humanidade em torno não empresta.

Há uma mistura entre sensibilidade, principalmente na maneira como o personagem enfrenta esse preconceito nas ruas de Helsinque, e a amizade com pessoas com quem, a princípio, se desentende. Em certos momentos, principalmente aqueles que mostram um cenário mais desolado, sem perder a esperança, o filme dialoga com O direito do mais forte, de Fassbinder, embora num tom menos pessimista e mais bem-humorado. No filme de Fassbinder, o personagem central, interpretado pelo próprio diretor, era explorado duplamente por causa de seu dinheiro; aqui, o personagem não possui recursos financeiros, porém é severamente perseguido por um passado nunca explicado. Também dialoga com outro filme do diretor alemão, O medo consome a alma, sem a carga de relacionamentos, por outro lado. Sherwan Haji tem uma atuação excepcional, ressonante, interligando todos os pontos. O que mais comove é seu otimismo mesmo diante das situações mais difíceis. Não há carga dramática para se tornar apelativo e mesmo a maneira como Wikström consegue seu restaurante parece apressada, mas Kaurismäki, de modo geral, desenha tudo de maneira fluida e atinge um final realmente emocionante.

Toivon tuolla puolen, Finlândia, 2017 Diretor: Aki Kaurismäki Elenco: Sakari Kuosmanen, Sherwan Haji, Simon Al-Bazoon, Kati Outinen, Ilkka Koivula, Janne Hyytiäinen, Tommi Korpela, Nuppu Koivu, Niroz Haji Roteiro: Aki Kaurismäki Fotografia: Timo Salminen Duração: 98 minutes Produção: Aki Kaurismäki Estúdio: Sputnik, Bufo, Pandora Film Distribuidora: B-Plan

Power Rangers (2017)

Por André Dick

Não acompanhei o fenômeno pop infantojuvenil dos Power Rangers, criados por Haim Saban, portanto cheguei a este filme sem as informações básicas que um fã certamente possui. Depois de fazer muito sucesso nos anos 90, ele tem novamente as atenções com essa produção que tenta engatilhar uma nova franquia. A história mostra cinco estudantes na pequena cidade de Angel Grove: Jason Scott (Dacre Montgomery, vilão da segunda temporada de Stranger things), um jogador de futebol promissor, mas que sofre um acidente; Kimberly Hart (Naomi Scott), uma rebelde do colégio, que acaba por se desentender com antigas colegas; Trini (Becky G.), a mais inteligente de todos, recém-chegada à cidade; William “Billy” Cranston (RJ Cyler), um tanto tímido e sempre perseguido, sendo protegido por Jason; e Zack Taylor (Ludi Lin), o mais descompromissado.
O roteiro assinado por John Gatins, de Gigantes de aço, O voo e do recente Kong – A Ilha da Caveira, tenta costurar os inter-relacionamentos de maneira muito rápida, mas não sem uma dose interessante de mistério. Ainda: apesar de lidar com temas previsíveis, sobre a maneira com que cada um é tratado no colégio, nada parece excessivamente disperso ou mal feito, como costuma acontecer numa produção do gênero. Há uma atmosfera bem construída de Angel Grove, com seus bosque, e mesmo o salto de uma personagem num lago remete ao filme A lenda, de Ridley Scott, com uma construção fotográfica dedicada.

Certo dia, quando estão andando, não exatamente juntos, por uma pedreira, eles entram em contato com um artefato alienígena. Nessa noite, cada um leva para casa um medalhão com cor diferente, que passa a conceder poderes especiais. No dia seguinte, quando voltam ao lugar para investigarem melhor o que pode ter acontecido, eles descobrem uma nave espacial, onde conhecem Zordon (Bryan Cranston) e seu ajudante robô, Alpha 5 (Bill Hader), sendo avisados de que formarão o grupo Power Rangers para combater uma ameaça alienígena, Rita Repulsa (Elizabeth Banks). Jason será o Ranger vermelho; Billy o Ranger azul; Kimberly a Ranger rosa; Zack o Ranger preto; e Trini, o Ranger amarelo. O interior dessa nave e a iluminação de luzes remete imediatamente ao nostálgico Invasores de Marte, refilmagem de Tobe Hopper para o clássico dos anos 50, realizado nos anos 80. E o visual de Zordon funciona muito bem, dando uma profundidade no cenário que torna o estilo realmente com senso estético personalizado. A ligação entre os jovens se sente estabelecida mais diretamente às vezes, outras vezes mais subescrita, alternando altos e baixos, mas os personagens, de modo geral, são interessantes.

Toda essa premissa do filme de Dean Israelite parece totalmente previsível e o é muitas vezes. Ainda assim, há a diversão e o colorido do design de produção, auxiliado pela fotografia competente de Matthew J. Lloyd, além de efeitos visuais e CGI acima da média, com um elenco de jovens não exatamente talentoso, mas eficaz (com destaque para RJ Cyler, numa atuação bem-humorada capaz de torná-lo o destaque da equipe), e Power Rangers consegue ser interessante na maior parte do tempo. Ele tem um direcionamento juvenil evidente, com várias referências a Super 8, Alguém muito especial e O clube dos cinco, e um humor despretensioso que faz valer várias sequências, principalmente até a primeira metade. Depois, sabe-se que é preciso mostrar batalhas, e Banks (boa atriz na série Jogos vorazes e Love & Mercy, por exemplo) se mostra uma vilã no mínimo curiosa, e a sua primeira aparição para uma das integrantes da equipe é claramente influenciada por Freddy Krueger em A hora do pesadelo, enquanto Hader rouba a cena fazendo a voz do robô Alpha 5. Lamenta-se que o personagem central, Jason, acabe ficando com o passar da narrativa um tanto subaproveitado, sem que sua relação com Kimberly seja suficientemente desenvolvida como o início subentende.

De forma surpreendente, o uniforme da equipe (cada um possui uma cor) não aparenta ser kitsch e os monstros poderiam servir de exemplo para alguns filmes de super-heróis bem mais estimados. Ao final do terceiro ato, falta, porém, para Israelite o mesmo empuxe divertido que guia o filme nas duas primeiras partes, de maneira descompromissada e suficientemente inteligente para o espectador se satisfazer. É como se um guia de referências precisasse ser atendido e ele não consegue estabelecer uma passagem dos personagens do seu início para uma roupagem de heróis. Num ano em que já tivemos filmes do gênero bastante elogiados (Logan, Mulher-Maravilha, Guardiões da galáxia Vol. 2) e filmes baseados em games e mangás (Assassin’s creed e A vigilante do amanhã), Power Rangers é, claramente, o menos pretensioso e mais deslocado. É isso que faz dele, no entanto, uma realização individual e mesmo com características excêntricas. Realizado com 100 milhões de dólares, não fez grande bilheteria, o que possivelmente compromete a franquia projetada, mas se sustenta por suas próprias qualidades.

Power Rangers, EUA, 2017 Diretor: Dean Israelite Elenco: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludi Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bryan Cranston, Bill Hader Roteiro: Ashley Miller, Burk Sharpless, Haim Saban, John Gatins, Matt Sazama, Max Landis, Shuki Levy, Zack Stentz Fotografia: Matthew J. Lloyd Trilha Sonora: Brian Tyler Produção: Brian Casentini, Haim Saban, Marty Bowen, Wyck Godfrey Duração: 124 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Lionsgate Films / Saban Brands / Saban Entertainment Inc

 

O castelo de vidro (2017)

Por André Dick

O diretor Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham e Marti Noxon fizeram o roteiro desta aguardada adaptação de O castelo de vidro, de Jeanette Walls, com um elenco em alta conta e visando às premiações principais do fim do ano. Se não houve uma resposta à altura do esperado, o novo experimento do diretor de Temporário 12 tenta contar de maneira atrativa a história de Jeanette Walls (Brie Larson na versão adulta, Ella Anderson na versão jovem e Chandler Head na versão infantil), filha de Rex (Woody Harrelson) e Rose Mary (Naomi Watts), dois pais errantes.
Ela lembra do passado com os irmãos Lori (Sarah Snook na versão adulta, Sadie Sink na versão jovem e Olivia Kate Rice na versão infantil), Brian (Josh Caras na versão adulta, Charlie Stowell na versão jovem e Iain Armitage na infantil) e Maureen (Brigette Lundy-Paine na versão adulta, Shree Crooks na versão jovem e Eden Grace Redfield na versão infantil), enquanto está num compromisso sério com David (Max Greenfield).

Trata-se de uma história autobiográfica, sobre uma família disfuncional, em que o pai alcóolatra leva a família para viver a verdadeira liberdade pelas estradas dos Estados Unidos, alugando casas diferentes e fugindo de federais. Qualquer semelhança com Capitão Fantástico não é mera coincidência, mas aqui há uma base dramática mais acentuada, principalmente nos conflitos de Jeanette com seu pai. Como lidar com alguém que imagina não possuir o problema que de fato tem? Se no início Jeanette é tirada de um hospital com queimaduras no corpo porque não seria o ambiente propício para cuidá-la, como se sentir segura com alguém que não cumpre as promessas? O espectador lembra que Temporário 12, filme anterior de Cretton, mostrava crianças abandonadas recolhidas num abrigo, a partir das memórias do próprio diretor. Aqui essas crianças não estão abandonadas, mas inseridas num sistema em que não estão preparadas para se adaptar. Não fica muito claro por que Rex age desse modo, mas o momento em que volta à sua casa de origem pode oferecer explicações indiretas e não expositivas (o roteiro é muito bem pensado). Junto a isso, a fotografia de Brett Pawlak captura uma certa solidão impositiva.

O castelo de vidro é um filme muito interessante na maneira como apresenta seus personagens. Se Rex é um easy rider, a mãe é uma pintora (abstrata, como ela diz), tentando manter sua arte enquanto não há o que servir para os filhos. Há uma mescla de drama com moldes gregos aqui, mas sem acentuar a tragédia e sim mostrando conflitos dos pais com uma vida estruturada de forma previsível segundo eles. Claro que há um certo romantismo nesse olhar, mas Harrelson e Watts em seus papéis conseguem traduzir o conceito sem soarem pretensiosos ou deslocados. Harrelson vem se especializando em papéis à margem desde sempre (e neste ano aparece ótimo também em Quase 18Wilson), enquanto Watts foge ao seu estilo mais uma vez, fazendo uma mãe distante de qualquer diálogo real.
A personagem de Larson obviamente quer negar a sua origem e se adaptar a uma vida tranquila em Nova York, mas ela não consegue se libertar das amarras do passado. Nesse sentido, o corpo, vestido com roupas simples ou não, evita qualquer afastamento completo da infância, e isso se demonstra numa bela cena em que Jeannette o mostra a outro homem. O diretor, nisso, deseja contrastar o ambiente vazio do presente da personagem, com sua arquitetura exemplar, com a agitação da casa familiar no passado e sua desconjuntura, inclusive nas casas sem cuidado de limpeza ou simples organização – por vezes funciona, por vezes não. No momento em que essa família se reencontra não é para reparar o que aconteceu e sim acentuar as divergências, no entanto é quando Cretton se mostra mais sensível a alterações narrativas, não conseguindo prover cada personagem secundário de substância real.

A história se concentra em Jeannette e não em seus irmãos, embora eles apareçam também, e cresce à medida que mostra o relacionamento com o pai, desde a infância – e as atuações de Chandler Head e Ella Handerson talvez sejam até melhores que a de Brie Larson, que é boa e continua sua parceria iniciada com Cretton em Temporário 12. Há um momento levemente manipulador, quando ela e seu pai estão deitados olhando as estrelas, mas o diálogo funciona. Noxon, um dos roteiristas, dirigiu O mínimo para viver, sobre a anorexia, e acerta aqui no equilíbrio entre esses personagens como já acontecia em seu filme. Se Capitão Fantástico tentava demonstrar um discurso ideológico, em O castelo de vidro há uma discrição mais abrangente, sobretudo por meio da personagem de Rose Mary, mantendo a discussão mais no plano familiar. Cretton aborda de forma interessante as atitudes do pai que sempre fala em liberdade, mas tem um apego sentimental a Jeannette, não querendo que ela tenha uma vida própria ou mesmo um envolvimento sério com algum homem. Sua atitude é infantil, mas essa ligação é desenhada desde o momento em que ele tenta ensiná-la a nadar numa piscina pública, simplesmente jogando-a na água, sem saber boiar, ou quando ele volta para casa com um corte no braço e ela costura a ferida com uma agulha, no momento melhor desenvolvido e ressonante da narrativa. Em outros instantes, essa aproximação entre os dois não é calibrada o suficiente, mas quando Larson e Harrelson entregam sua melhor participação é quando a narrativa cresce e O castelo de vidro se mostra decisivamente belo.

The glass castle, EUA, 2017 Diretor: Destin Daniel Cretton Elenco: Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts, Max Greenfield, Ella Anderson, Chandler Head, Sarah Snook, Brigette Lundy-Paine, Josh Caras Roteiro: Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham, Marti Noxon Fotografia: Brett Pawlak Trilha Sonora: Joel P. West Produção: Gil Netter, Ken Kao Duração: 127 min. Estúdio: Gil Netter Productions Distribuidora: Lionsgate

Terra selvagem (2017)

Por André Dick

Responsável pelo roteiro de dois filmes aclamados nos últimos anos, Sicario – Terra de ninguém e A qualquer custo (indicado ao Oscar de melhor filme), Taylor Sheridan faz sua segunda obra como diretor, depois do terror Vile, neste Terra selvagem. Pode-se perceber um estilo que une os dois filmes que escreveu: ambos tratam de figuras à margem da lei enfrentando policiais ou agentes, seja no México, seja no interior do Texas. Se Sicario tem uma visão familiar quase ausente, em A qualquer custo ela forma a condição dos personagens, mesmo que a certa distância. São dois trabalhos certamente interessantes e, mesmo com algumas facilitações (não tanto aquele dirigido por Villeneuve), importantes para o cinema norte-americano nos últimos anos por transcender a fronteira previsível do gênero policial.

Em Terra selvagem, durante o inverno, na reserva indígena Wind River, localizada no Wyoming, o corpo da jovem Natalie Hanson (Kelsey Chow) é descoberto no gelo por Cory Lambert (Jeremy Renner). A primeira sequência oferece uma grande vitalidade para essa atmosfera, com o luar iluminando uma planície gelada com montanhas ao fundo. Mistério desenhado, para investigar o crime, chega à reserva uma nova agente do FBI, Jane Banner (Elizabeth Olsen). Ela precisa determinar se foi um assassinato para que o governo seja responsável pela investigação e conhece o xerife Ben (Graham Greene), à frente de um departamento que precisa de ajuda.
Martin (Gil Birmingham), o pai da vítima, é amigo de Cory e ambos têm em comum o olhar distante para as montanhas. Nas investigações, descobre-se que um irmão de Natalie, Chip (Martin Sensmeier), está envolvido com drogas. Escolhido como um ajudante na procura ao culpado, Lambert foi casado com uma mulher de origem indígena, Wilma (Julia Jones), com quem teve um filho, Casey (Teo Briones) e o acontecimento o faz recordar de um momento definitivo de sua vida, capaz de acentuar ainda mais a tragédia acontecida na reserva. E, com o chapéu de cowboy num ambiente gelado, ele faz lembrar por que Sheridan escreveu A qualquer custo, com sua retomada de um gênero capaz de voltar em algumas obras com brilho disperso. No início, quando Cory aparece com seu filho andando a cavalo é possível lembrar de antigas obras.

Tudo em Terra selvagem converge para o fato de que os personagens estão inseridos num ambiente sem saída, em que, segundo um dos personagens, não há nada para fazer. Mais ainda: estão à espera de uma união familiar. A maneira como lidam com os fantasmas pessoais não foge a esse cenário, e a trama tradicional de investigação fica em segundo plano para exatamente configurar o cenário de modo intenso. Sheridan utiliza a câmera trêmula em muitos momentos para dar uma vitalidade especial à narrativa e, se lhe falta a simetria de Villeneuve, em Sicario, ele consegue extrair atuações raras de Renner e Olsen, mesmo com poucos diálogos. Particularmente, Renner é muito convincente, entregando sua melhor atuação desde Guerra ao terror e não tão discreto quanto em A chegada (no qual aparecia bem). O cenário do Wyoming remete a O portal do paraíso, o clássico de Michael Cimino, em que se tratava da disputa por territórios e perseguição a estrangeiros. Embora Sheridan não se centralize na questão de territórios indígenas, existe aqui um sentido de perseguição secular e de uma injustiça nunca possível de ser resolvida.
Em Terra selvagem, os personagens de origem indígena são muito bem desenhados e interpretados, por Greene (de Dança com lobos) e Birmingham, que já aparecia em A qualquer custo, no qual a amizade entre o personagem que esse ator fazia e o investigador feito por Jeff Bridges remete a alguns momentos deste. Há também uma influência nítida de À procura, de Atom Egoyan, principalmente na maneira como o cenário desolado, com a colaboração da fotografia de Ben Richardson (que já fez um trabalho ótimo em Indomável sonhadora e Castelo de areia), se mostra como uma extensão dos personagens. Sheridan usa panorâmicas para mostrar o isolamento dessa vida inóspita, porém com o objetivo final e acertado de nunca se aproximar demais dessas figuras. Elas se mantêm afastadas umas das outras e o que as aproxima não fica exatamente claro.Talvez o momento mais íntimo de Cory seja justamente aquele em que relata o passado e isso ajuda a explicar muitas de suas reações.

Sheridan recebeu o prêmio de melhor diretor na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes deste ano e certamente seu trabalho se expõe de maneira talentosa. Um dos melhores elementos para mostrar se estamos diante de um talento na direção é a maneira como ele insere o espectador na atmosfera do que mostra. Terra selvagem tem um certo impasse no início, mas, à medida que surge a agente do FBI, e ela dialoga com a personagem de Blunt em Sicario, um tanto desajeitada, embora não tão séria, sabemos que a narrativa segue um padrão mais original. E a maneira como Sheridan filma os tiroteios tem uma força inegável, trazendo impacto às sequências, com a colaboração da trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis. Apenas se lamenta que o arco dos personagens pareça um pouco incompleto, mas esta já era uma sensação dos outros filmes que Sheridan roteirizou. O  importante não seria exatamente o que veio fazer a agente no FBI na reserva indígena, e sim os temas por trás dessa vinda: a união familiar, o passado, a solidão, a angústia de conhecer um crime cometido de forma terrivelmente cruel. É uma sensação de incompletude que acaba dando uma ideia apenas de uma certa etapa na vida dessas figuras e não tira, de qualquer maneira, a beleza de um thriller filmado num lugar incomum e que lida com questões vitais de cada indivíduo.

Wind river, EUA, 2017 Diretor: Taylor Sheridan Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Gil Birmingham, Jon Bernthal, Julia Jones, Kelsey Chow, Graham Greene, Martin Sensmeier, Teo Briones Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Ben Richardson Trilha Sonora: Nick Cave, Warren Ellis Produção: Matthew George, Basil Iwanyk, Peter Berg, Wayne L. Rogers Duração: 111 min. Estúdio: Acacia Entertainment, Savvy Media Holdings, Thunder Road Pictures, Film 44 Distribuidora: The Weinstein Company