It – Capítulo 2 (2019)

Por André Dick

Depois do grande sucesso de It – A coisa, já era previsível sua sequência. Na verdade, ele foi concebido para que ela existisse, dividindo o romance com mais de mil páginas de Stephen King entre as fases infantil e adulta, ao contrário da série em dois capítulos distribuída nas locadoras como filme em 1990, e muito assustadora, dirigida por Tommy Lee Wallace. Em It – Capítulo 2, do Clube dos Perdedores original, Mike Hanlon (Isaiah Mustafa quando adulto e Chosen Jacobs quando criança) foi o único a ficar em sua cidade, Derry, Maine, trabalhando como bibliotecário, além de ter problemas com drogas, por causa dos traumas com o palhaço Pennywise (Bill Skarsgård). Ele percebe, vinte e sete anos depois, que aos poucos a criatura está voltando à pequena comunidade para criar terror entre os habitantes, depois de um acontecimento com Adrian Mellon (o cineasta e ator Xavier Dolan).

Ele, então, avisa os antigos amigos. Bill Denbrough (James McAvoy e Jaeden Lieberher) tornou-se um escritor e é casado com uma atriz de destaque (Jess Weixler). Beverly Marsh (Jessica Chastain e Sophia Lillis) tem um casamento infeliz com Tom Rogan; Ben Hanscom (Jay Ryan e Jeremy Ray Taylor), que era perseguido pelo excesso de peso, trabalha como arquiteto renomado; Richie Tozier (Bill Hader e Finn Wolfhard) é um DJ de Los Angeles; Eddie Kaspbrak (James Ransone e Jack Dylan Grazer) continua um hipocondríaco à frente de uma empresa de limusines; e Stanley Uris (Andy Bean e Wyatt Oleff) virou sócio de uma firma de contabilidade. A primeira reunião se dá num restaurante chinês, com uma iluminação que cria, ao mesmo tempo, toda uma atmosfera de acolhimento e insegurança, com um desfecho surpreendente – e talvez seja a melhor sequência, aquele que melhor separa o que seria esta segunda parte da primeira. A fotografia de Checco Varese é grande, conseguindo inserir o espectador dentro da história, colhendo inspiração em George Romero (especialmente Creepshow) e Dario Argento, e a trilha sonora de Benjamin Wallfisch não se sente mais diluída de John Williams.

Também regressa Henry Bowers (Teach Grant), que perseguia o Clube dos Perdedores e está numa clínica, quando se sente estranho ao ver um balão vermelho flutuando em frente a uma das janelas do lugar – e balões vermelhos em It significam a presença de algo muito amedrontador.
Convencionou-se dizer que esta sequência é muito inferior ao original. Pode-se dizer que ele é realmente diferente – para melhor. O bom momento do primeiro filme de Amdy Muschietti, também responsável por este segundo capítulo, é quando a turma descobre que, além da amizade, tem em comum essa ameaça do palhaço. Até aí, a narrativa já construiu uma atmosfera eficiente e envolvente, o que significa que temos também pelo menos três cenas assustadoras e uma analogia com a violência paterna por meio de um banho de sangue que faz lembrar O iluminado.

Mesmo Bill Skarsgård funciona até este momento em que aparece mais discretamente. No entanto, aos poucos, percebe-se como o diretor na verdade se apoia demais em experimentos de nostalgia, como Os Goonies e Super 8, além de Stranger things (utilizando até mesmo seu ator principal, Wolfhard), para pretensamente fazer uma peça de terror que, a cada passo, aparenta ter sido realizada e decidida por um grupo de executivos em busca de uma franquia da maneira mais previsível e sintomática.  Ele salta do horror e do suspense para a comédia e depois para o drama não porque deseja uma síntese desses gêneros e sim porque deseja apenas agradar ao espectador, não de maneira criativa e sim apenas procurando seu desejo de rever imagens de crianças andando de bicicleta.
O que não existe em It – Capítulo 2 é essa atmosfera de filme infantojuvenil, que não combina com os elementos mais pesados. Enquanto no elenco original apenas dois atores se saíam bem (Jaeden Lieberher e Sophia Lillis), o elenco adulto é muito superior, a começar por McAvoy e Jessica Chastain, seguidos por Bill Hader e Jay Ryan. São atuações conflitantes, de pessoas que representam adultos abalados por um trauma de infância e que precisam voltar a locais marcantes do passado para tentar uma reviravolta contra Pennywise. E funciona. Muschietti empreende uma espécie de clima épico, sugerido pela extensa duração (quase 3 horas), para mostrar um clima de reunião que retoma flashbacks da infância, mas é, sobretudo, assustador, com diversas sequências realmente de terror, e não de diversão para contentar as plateias menos interessadas por isso e mais por ação disfarçada de suspense.

Trata-se de uma espécie de Linha mortal ou de Sobre meninos e lobos, com os adultos tentando entender o que ocorreu na infância, em sequências menos óbvias e visualmente mais ousadas, como aquela em que Beverly fica trancada num banheiro, com influência de Kubrick, remetendo a uma passagem da infância. Há outra em que Bill Denbrough entra numa espécie de mansão mal-assombrada num parque de diversões – e se trata de uma verdadeira composição aterradora que talvez gostaria de ter sido apresentada este ano em Nós. As bicicletas são substituídas por adultos se sentindo perdidos num ambiente antes familiar, e o bosque se mostra um espaço para a expectativa criada de que algo pode realmente acontecer. Apesar de incorrer em certos exageros próprios de sua filmografia, desde Mama, Mushiettetti tem aqui um olhar muito mais interessado por nuances. É isso que torna esta sequência muito superior ao filme de 2017.

It – Chapter Two, EUA, 2019 Diretor: Andy Muschietti Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, Bill Hader, Isaiah Mustafa, Jay Ryan, James Ransone, Andy Bean, Bill Skarsgård, Chosen Jacobs, Jaeden Lieberher, Sophia Lillis, Jeremy Ray Taylor, Finn Wolfhard, Jack Dylan Grazer Wyatt Oleff Roteiro: Gary Dauberman Fotografia: Checco Varese Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Barbara Muschietti, Dan Lin, Roy Lee Duração: 169 min.  Estúdio: New Line Cinema, Double Dream, Vertigo Entertainment, Rideback Distribuidora: Warner Bros. Pictures

 

Power Rangers (2017)

Por André Dick

Não acompanhei o fenômeno pop infantojuvenil dos Power Rangers, criados por Haim Saban, portanto cheguei a este filme sem as informações básicas que um fã certamente possui. Depois de fazer muito sucesso nos anos 90, ele tem novamente as atenções com essa produção que tenta engatilhar uma nova franquia. A história mostra cinco estudantes na pequena cidade de Angel Grove: Jason Scott (Dacre Montgomery, vilão da segunda temporada de Stranger things), um jogador de futebol promissor, mas que sofre um acidente; Kimberly Hart (Naomi Scott), uma rebelde do colégio, que acaba por se desentender com antigas colegas; Trini (Becky G.), a mais inteligente de todos, recém-chegada à cidade; William “Billy” Cranston (RJ Cyler), um tanto tímido e sempre perseguido, sendo protegido por Jason; e Zack Taylor (Ludi Lin), o mais descompromissado.
O roteiro assinado por John Gatins, de Gigantes de aço, O voo e do recente Kong – A Ilha da Caveira, tenta costurar os inter-relacionamentos de maneira muito rápida, mas não sem uma dose interessante de mistério. Ainda: apesar de lidar com temas previsíveis, sobre a maneira com que cada um é tratado no colégio, nada parece excessivamente disperso ou mal feito, como costuma acontecer numa produção do gênero. Há uma atmosfera bem construída de Angel Grove, com seus bosque, e mesmo o salto de uma personagem num lago remete ao filme A lenda, de Ridley Scott, com uma construção fotográfica dedicada.

Certo dia, quando estão andando, não exatamente juntos, por uma pedreira, eles entram em contato com um artefato alienígena. Nessa noite, cada um leva para casa um medalhão com cor diferente, que passa a conceder poderes especiais. No dia seguinte, quando voltam ao lugar para investigarem melhor o que pode ter acontecido, eles descobrem uma nave espacial, onde conhecem Zordon (Bryan Cranston) e seu ajudante robô, Alpha 5 (Bill Hader), sendo avisados de que formarão o grupo Power Rangers para combater uma ameaça alienígena, Rita Repulsa (Elizabeth Banks). Jason será o Ranger vermelho; Billy o Ranger azul; Kimberly a Ranger rosa; Zack o Ranger preto; e Trini, o Ranger amarelo. O interior dessa nave e a iluminação de luzes remete imediatamente ao nostálgico Invasores de Marte, refilmagem de Tobe Hopper para o clássico dos anos 50, realizado nos anos 80. E o visual de Zordon funciona muito bem, dando uma profundidade no cenário que torna o estilo realmente com senso estético personalizado. A ligação entre os jovens se sente estabelecida mais diretamente às vezes, outras vezes mais subescrita, alternando altos e baixos, mas os personagens, de modo geral, são interessantes.

Toda essa premissa do filme de Dean Israelite parece totalmente previsível e o é muitas vezes. Ainda assim, há a diversão e o colorido do design de produção, auxiliado pela fotografia competente de Matthew J. Lloyd, além de efeitos visuais e CGI acima da média, com um elenco de jovens não exatamente talentoso, mas eficaz (com destaque para RJ Cyler, numa atuação bem-humorada capaz de torná-lo o destaque da equipe), e Power Rangers consegue ser interessante na maior parte do tempo. Ele tem um direcionamento juvenil evidente, com várias referências a Super 8, Alguém muito especial e O clube dos cinco, e um humor despretensioso que faz valer várias sequências, principalmente até a primeira metade. Depois, sabe-se que é preciso mostrar batalhas, e Banks (boa atriz na série Jogos vorazes e Love & Mercy, por exemplo) se mostra uma vilã no mínimo curiosa, e a sua primeira aparição para uma das integrantes da equipe é claramente influenciada por Freddy Krueger em A hora do pesadelo, enquanto Hader rouba a cena fazendo a voz do robô Alpha 5. Lamenta-se que o personagem central, Jason, acabe ficando com o passar da narrativa um tanto subaproveitado, sem que sua relação com Kimberly seja suficientemente desenvolvida como o início subentende.

De forma surpreendente, o uniforme da equipe (cada um possui uma cor) não aparenta ser kitsch e os monstros poderiam servir de exemplo para alguns filmes de super-heróis bem mais estimados. Ao final do terceiro ato, falta, porém, para Israelite o mesmo empuxe divertido que guia o filme nas duas primeiras partes, de maneira descompromissada e suficientemente inteligente para o espectador se satisfazer. É como se um guia de referências precisasse ser atendido e ele não consegue estabelecer uma passagem dos personagens do seu início para uma roupagem de heróis. Num ano em que já tivemos filmes do gênero bastante elogiados (Logan, Mulher-Maravilha, Guardiões da galáxia Vol. 2) e filmes baseados em games e mangás (Assassin’s creed e A vigilante do amanhã), Power Rangers é, claramente, o menos pretensioso e mais deslocado. É isso que faz dele, no entanto, uma realização individual e mesmo com características excêntricas. Realizado com 100 milhões de dólares, não fez grande bilheteria, o que possivelmente compromete a franquia projetada, mas se sustenta por suas próprias qualidades.

Power Rangers, EUA, 2017 Diretor: Dean Israelite Elenco: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludi Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bryan Cranston, Bill Hader Roteiro: Ashley Miller, Burk Sharpless, Haim Saban, John Gatins, Matt Sazama, Max Landis, Shuki Levy, Zack Stentz Fotografia: Matthew J. Lloyd Trilha Sonora: Brian Tyler Produção: Brian Casentini, Haim Saban, Marty Bowen, Wyck Godfrey Duração: 124 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Lionsgate Films / Saban Brands / Saban Entertainment Inc

 

O bom gigante amigo (2016)

Por André Dick

O bom gigante amigo 19Há cinco anos, Steven Spielberg realizou sua primeira animação, As aventuras de Tintim, baseado no personagem de Hergé, e obteve sucesso com um realismo atípico para o gênero, mesmo com sua revolução contínua. Depois de uma série de filmes baseados na história, a exemplo de Cavalo de guerra, Lincoln e Ponte dos espiões, ele regressa com uma animação mesclada com humanos intitulada O bom gigante amigo, com base num livro de Roald Dahl, o mesmo de O fantástico Sr. Raposo e A fantástica fábrica de chocolate. A adaptação do livro de Dahl, publicado em 1982, foi o último trabalho de Melissa Mathison, a autora de E.T. – O extraterrestre, também desse ano, e Spielberg utiliza seu manancial de imagens para compor uma história melancólica, talvez a mais intensa sua desde A.I. – Inteligência artificial.
Sophie (Ruby Barnhill) é uma jovem que mora num orfanato de Londres e determinada noite ela ouve barulhos da rua, vendo um gigante idoso (Mark Rylance), que a leva para seu país onde há inúmeros gigantes ameaçadores. O gigante, que se intitula Big Friendly Giant (no Brasil, BGA), avisa a Sophie que ela deve ficar no lugar, pois caso contrário poderia contar aos outros sobre a sua existência. Quando um dos gigantes maus, Bloodbottler (Bill Hader), entra em sua casa, Sophie é obrigada a se esconder num vegetal chamado de snozzcumber.

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BFG conta à menina que ele captura sonhos em forma de vaga-lumes num determinado lugar – que parece uma mescla das árvores de Guerra dos mundos com as de Inteligência artificial, além de evocar a majestosa nave de Contatos imediatos do terceiro grau – e os leva para casa, trabalhando-os como poções. Depois, o gigante espalha esses sonhos luminosos com um trompete gigante enquanto as crianças dormem. No entanto, o grande inconveniente da vida de BFG é enfrentar esses gigantes: além de Bloodbottler, há Bonecruncher (Michael David Adamthwaite), Gizzardgulper (Chris Gibbs), Manhugger (Adam Godley), Childchewer (Jonathan Holmes) e Butcher Boy (Daniel Bacon), entre outros. A história vai guiar BFG e Sophie a Elizabeth II (Penelope Wilton), Rainha do Reino Unido, no Palácio de Buckingham, com sua empregada Maria (Rebecca Hall) e seu mordomo, Mr. Tibbs (Rafe Spall).
Com a trilha incessante de John Williams, o início de O bom gigante amigo lembra bastante a adaptação de Spielberg para Peter Pan, Hook – A volta do Capitão Gancho e o episódio que ele dirigiu para No limite da realidade (sendo que neste o espaço era um asilo em que os idosos queriam se transformar novamente em crianças), também escrito por Mathison. Em razão da fraca interpretação de Barnhill, Spielberg não consegue desenvolver o arco da personagem de Sophie de modo a princípio envolvente, mesmo com a boa atuação de Rylance como o gigante e uma sequência irrepreensível em que ele vai se ocultando nas ruas de Londres, passando-se por postes de luz, para não chamar a atenção de moradores.

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À medida que a fotografia de Janusz Kaminski começa a se destacar, Spielberg desenha um universo atrativo: a habitação de BFG é um primor de concepção visual e remete a detalhes de Indiana Jones e o templo da perdição, enquanto sua caminhada atrás de sonhos no lado invertido de uma árvore dialoga com o melhor da animação japonesa e com a parte final de A.I., misturando cores vivas e um tom mais sóbrio. Para um cineasta, no entanto, sempre interessado no universo infantil, é de se surpreender com o fato de que ele não selecionou uma boa atriz para o papel central nem trabalha com o sentimento de solidão da infância como em Império do sol, independente de o tom da história ser mais infantil. Spielberg prefere, aqui, mostrar uma espécie de amargo envelhecimento, por meio da figura do gigante, sempre sendo importunado pelos companheiros com quem não se identifica, inclusive porque perto deles tem um tamanho quase minúsculo e porque, principalmente, ele não devora humanos (a quem os gigantes maus se referem como feijões). O trecho em que ele tenta expulsá-los de sua casa é certamente um dos mais angustiantes da carreira de Spielberg, como se não houvesse tranquilidade aparente à vista. O Palácio de Buckingham se torna aquele espaço em que o gigante se torna ao mesmo tempo admirado e acolhido, e pode-se dizer que é o filme do diretor de Indiana Jones que mais presta tributo a uma certa devoção à tradição real inglesa (spoiler: se, em certo momento, há a presença de militares é porque, para os desavisados, isso já aparece no texto original). E Dahl sempre esteve sob observação de Spielberg, tendo escrito nos anos 40 um livro chamado The Gremlins, sobre criaturas que sabotavam aviões britânicos.

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Pela atuação de Rylance, cujo Oscar de ator coadjuvante por Ponte dos espiões, no lugar de Stallone, foi a surpresa deste ano, BFG é certamente o personagem mais triste da exitosa carreira de Spielberg. Ele tem uma sensação de estar sempre deslocado não apenas pelo tamanho como também pelo que parece ter insegurança para dizer, a exemplo do que acontece no encontro com a rainha, e é isso que mais realça esta obra que se transformou numa das piores bilheterias da carreira do diretor (para um orçamento de 140 milhões de dólares, ele recuperou até agora a metade). Misturando animação e atores reais, o que faz lembrar obras como Uma cilada para Roger Rabbit e Se minha cama voasse, no entanto com uma estranha indeterminação, nesse sentido, O bom gigante amigo não se destina nem especialmente a crianças, e talvez sua história não seja a mais adequada para um público adulto interessado por uma trama mais desenvolvida. A sua autenticidade se localiza num meio-termo entre o talento de Spielberg para compor imagens e sua habilidade em mostrar seres deslocados no espaço. No roteiro, também é possível ver elementos que interessam a Mathison, que escreveu nos anos 90 o filme Kundun para Scorsese, sobre o Buda, uma espécie de solidão cósmica que já se entrevia no seu grande sucesso E.T. No entanto, falta um elo de ligação entre as camadas do filme que poderiam aproximá-lo ainda mais do espectador, que, no entanto, é recompensado por sua beleza plástica de evidente talento e um traço mais contemplativo que pouco lembra outras animações mais comerciais.

The BFG, EUA, 2016 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Mark Rylance, Ruby Barnhill, Jemaine Clement, Rebecca Hall, Penelope Wilton, Bill Hader, Rafe Spall Roteiro: Melissa Mathison Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 117 min. Produção: Frank Marshall, Sam Mercer, Steven Spielberg Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / Kennedy/Marshall Company, The / Reliance Entertainment / Walt Disney Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

Divertida mente (2015)

Por André Dick

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A nova animação da Pixar Divertida mente tem uma das premissas mais originais já vistas, capaz de agradar a todas as idades. Vemos, desde o nascimento de Riley Andersen (Kaitlyn Dias), as suas emoções representadas por personagens em sua mente. Elas são a Alegria (Amy Poehler), a Tristeza (Phyllis Smith), o Medo (Bill Hader), a Raiva (Lewis Black) e o Nojinho (Mindy Kaling). Esses sentimentos são responsáveis também por suas memórias, que habitam esferas coloridas, como se fossem bolas de gude agrupadas dentro de sua mente, rolando como as de boliche. Ao chegar aos 11 anos de idade, os pais de Riley (Diane Lane e Kyle MacLachlan) se mudam com ela de Minnesota para San Francisco. Insegura e nem um pouco confortável em seu novo ambiente, Riley acaba chorando diante dos novos colegas de aula, o que afeta as emoções em sua mente, colocando em risco sua personalidade, sua maneira de agir, à medida que Tristeza e Alegria dão espaço apenas ao Medo, à Raiva e ao Nojinho, e são eles que passam a dizer como Riley deve se comportar. Esse processo é visualizado em pouco mais de 30 minutos, e neles é possível dizer que os diretores Pete Docter, também responsável por Up e Monstros S/A, além de autor da história de Wall-E e roteirista de Toy Story, e Ronaldo del Carmen mostram uma sensibilidade única, capaz de aliar a narração de A árvore da vida (quando um dos filhos de Brad Pitt e Jessica Chastain está crescendo) com a melancolia de um filme como Ponyo, de Miyazaki. Lá estão todos os sentimentos e conflitos da infância, capazes de dar alívio ou tormento ao próprio comportamento.

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A Pixar tem histórico do que se consideram desenhos inteligentes: Divertida mente entra, para a recepção, no mesmo grupo de Wall-E, Toy Story, Os incríveis, Up etc. Enquanto particularmente não sejam as obras-primas anunciadas, há, sem dúvida, um elemento melancólico nessas histórias, que adaptam um pouco de Miyazaki para o padrão de animações dos Estados Unidos. Dessas animações, especialmente Procurando Nemo e Ratatouille puxam o carro, e mesmo o quase esquecido Universidade monstos. Divertida mente se encaixa num grupo de acertos relativos da Pixar.
Isso porque o diretor não consegue aliar a vida de Riley com as emoções que habitam sua mente, fazendo com que essas ganhem um papel maior. A partir desse momento, não há o mesmo conflito de Riley com quem a cerca ou mesmo com seus pais, fazendo a história, no início ágil, andar em círculos ou, literalmente, dentro de um mesmo sonho. Quando se nota que os roteiristas utilizam a ideia apenas para empregar os mesmos movimentos vistos em animações mais superficiais, percebe-se a qualidade diminuir e as caracterizações dos personagens, apesar de originais, tornam-se frágeis. Em meio a essas caracterizações, o filme cresce e se acentua como conceito quando a Alegria e a Tristeza se deparam com em Bing Bong (Richard Kind), um amigo imaginário de infância de Riley; é ele que costura a ligação sentimental existente no início do filme com o próprio espectador. Mas, enquanto a Alegria é extremamente animadora, a Tristeza, com sua baixa autoestima, se sente incomodamente repetitiva. E nisso, enquanto a trilha de Michael Giacchino é esplêndida, as imagens de Divertida mente não são criativas quanto o tema poderia deixar subentender.

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Filmes como Divertida mente parecem trazer algo substancialmente especial, o que os torna, sem dúvida, importantes. Ainda assim, é de se questionar se o que mais tem Divertida mente não seria exatamente a caracterização de rótulos; como o filme compõe o ser humano como uma série de pensamentos mecanizados, de acordo com seus sentimentos, despertados por personagens dentro da mente, parece, a partir de determinado momento, não existir um roteiro independente do conceito, apenas um motivo para exibir uma possível inteligência artística dos roteiristas (quando se mostra o campo abstrato do cérebro, por exemplo). Se por um lado isso parece fascinante, e os diretores conseguem suscitar a emoção do espectador em diversos momentos, por outro, Divertida mente acaba ficando nos mesmos temas já abordados em outras animações, e de maneira tão previsível quanto: a presença da família e a amizade como ilhas dentro da mente e que se elas estão bem tudo está em paz. É preciso correr contra o tempo para Riley voltar ao normal – e essa ação repete a mesma linearidade de outras narrativas desgastadas.
Talvez ele esteja dizendo para o espectador como é fácil manipular cada uma de suas sensações, de alegria, tristeza e raiva. Embora isso não seja necessariamente importante nem para o público infantil nem para o adulto, ele imagina o comportamento como algo em suma previsível, ao separar os sentimentos como rótulos, como se a tristeza, por exemplo, estivesse ligada apenas a situações desgostosas e a alegria apenas a situações sem conflito, quando o ser humano é mais complexo. Não que Divertida mente não tenha outras singularidades: quando as ilhas de segurança de Riley desabam há uma estranha sensação de vazio, apresentando de maneira impactante os conflitos internos dela e dialogando diretamente com a arquitetura do planeta Krypton do Superman de 1978.

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É claro que o desenho evita essas nuances, no entanto, ao criar camadas de referências artísticas e psicológicas (quando os personagens tentam modificar um sonho de Riley ou tentam acordá-la), Divertida mente se põe como um acesso das crianças ao seu pensamento. Ele realmente acredita que a mente se movimenta por referências extremas, e isso cria uma pré-programação para cada um ser entendido em seu comportamento. O grande feito de Pete Docter é ter selecionado um grande elenco para dar voz a esses personagens. Amy Poehler, como a Alegria, é o ponto que anima o filme e o leva para frente, enquanto Bill Hader (do Saturday Night Live e de Superbad) sabe como fazer a faceta do Medo. Já Diane Lane e Kyle MacLachlan (o agente Cooper de Twin Peaks) oferecem vozes agradáveis aos pais de Riley. E Doctor consegue acertar ao transformar Alegria numa espécie de Sininho de Peter Pan, com sua cor amarela, e Tristeza num tom azul.
Ainda assim, uma ideia extraordinária – e não se tem dúvida de que o início anuncia isso –, que poderia avançar em vários anos da vida de Riley, se o roteiro não quisesse, enfim, oferecer uma lição de moral para crianças, acaba se restringindo a ser um passatempo e uma análise terapêutica de uma determinada situação desse personagem quando poderia abarcar sensações diversas. No final, a impressão é que o diretor está diante de um painel, lidando com os sentimentos também do espectador. Quando se percebe a manipulação, talvez Divertida mente, mesmo tocando o espectador em alguns instantes com emoção verdadeira, não tenha tanto a dizer quanto imagina.

Inside out, EUA, 2015 Diretor: Pete Docter, Ronaldo Del Carmen Elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Mindy Kaling, Lewis Black, Bill Hader, Kyle MacLachlan, Diane Lane, Richard Kind, Kaitlyn Dias Roteiro: Josh Cooley, Meg LeFauve, Pete Docter Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Jonas Rivera Duração: 102 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures

Cotação 3 estrelas