O outro lado da esperança (2017)

Por André Dick

O outro lado da esperança mostra a história de Khaled Ali (Sherwan Haji), um refugiado da Síria que escapou de Aleppo, fugindo num cargueiro de carvão, até chegar a Helsinque. Levado por funcionários da imigração, ele conhece o iraquiano Mazdak (Simon Hussein Al-Bazoon) e, mais tarde, a equipe de um restaurante, Golden Pint, coordenado por Wikström (Sakari Kuosmanen), o qual acabou de se separar de sua esposa (Kaija Pakarinen) e tem entre os seus empregados Lugbrious Greeter Calaminius (Ilkka Koivula), Nyrhinen (Janne Hyytiainen) e a garçonete Mirja (Nuppu Koivu), além de um cão. O segundo encontro (o primeiro é logo no início, imprevisto) entre Khaled e Wikström é, no mínimo, inusitado: se o segundo conseguiu o restaurante depois de várias rodadas de pôquer, seu jogo preferido, o primeiro poderia ser apenas mais uma parte do jogo em que poucos ganham.

Se a temática da imigração fica clara desde o início (o diretor já a havia utilizado no sua obra anterior, O porto), em que Ali chega à cidade com o rosto coberto de carvão depois da longa viagem, mais interessante é como o diretor Aki Kaurismäki conduz tudo para o ambiente cinza de uma delegacia de polícia. Esta jornada não pode ser interrompida como a de Oscar durante a noite em Holy Motors, nem possui os enigmas do recente Most beautiful island, sobre uma imigrante espanhola em Nova York, mas se reproduz em vários espelhos e pelas ruas de Helsinque.
Trata-se de uma mistura de David Lynch, Cristian Mungiu, Kiarostami e Ceylan com um humor enviesado capaz de dialogar com o melhor Wes Anderson e Jim Jarmusch, uma das grandes surpresas do ano, com fotografia repleta de nuances de Timo Salminen. Não raras vezes, parece que estamos acompanhando um filme antigo, o que se reproduz em seus traços e configurações mais próximos do cinema clássico dos anos 50. É curioso como o diretor nunca torna o peso dessa temática com tom grave, semelhante ao que Michael Haneke faz, por exemplo, na obra-prima Caché: seus personagens são leves e, por vezes, despretensiosos. Ele tem pontos muito mais claros com o ótimo A igualdade é branca, de Kieslowski, no qual um polonês se casa com uma francesa e se vê às voltas com a solidão.

O outro lado da esperança tem referências lynchianas determinadas, a começar por seu pôster, que lembra A estrada perdida, mas principalmente na trajetória errante de seu personagem central durante noites a fio, lembrando Veludo azul (principalmente na excentricidade do restaurante, com uma imagem de Jimi Hendrix), esperando por um raio de luz e encontrar a sua irmã, Miriam (Niroz Haji), da qual tanto gosta. Sua amizade com o dono do restaurante não tem nenhum movimento da loucura focada por Lynch em Lumbertown ou Twin Peaks, porém conserva um certo ar de deslocamento europeu e fraternidade insuspeita, precedida por uma briga de tom cômico. O restaurante Golden Pint conserva uma aura quase onírica, não apenas porque seus personagens parecem desconectados da realidade, como pela atenção ao aspecto visual que o diretor dá às mesas e aos quadros espalhados pelas paredes. Do mesmo modo, as caminhadas e viagens de ônibus que o personagem central tenta fazer sempre são interrompidas por um preconceito indisfarçável e brutal. Diante de tudo, a figura de um cão, pertencente ao restaurante, parece antecipar o que a humanidade em torno não empresta.

Há uma mistura entre sensibilidade, principalmente na maneira como o personagem enfrenta esse preconceito nas ruas de Helsinque, e a amizade com pessoas com quem, a princípio, se desentende. Em certos momentos, principalmente aqueles que mostram um cenário mais desolado, sem perder a esperança, o filme dialoga com O direito do mais forte, de Fassbinder, embora num tom menos pessimista e mais bem-humorado. No filme de Fassbinder, o personagem central, interpretado pelo próprio diretor, era explorado duplamente por causa de seu dinheiro; aqui, o personagem não possui recursos financeiros, porém é severamente perseguido por um passado nunca explicado. Também dialoga com outro filme do diretor alemão, O medo consome a alma, sem a carga de relacionamentos, por outro lado. Sherwan Haji tem uma atuação excepcional, ressonante, interligando todos os pontos. O que mais comove é seu otimismo mesmo diante das situações mais difíceis. Não há carga dramática para se tornar apelativo e mesmo a maneira como Wikström consegue seu restaurante parece apressada, mas Kaurismäki, de modo geral, desenha tudo de maneira fluida e atinge um final realmente emocionante.

Toivon tuolla puolen, Finlândia, 2017 Diretor: Aki Kaurismäki Elenco: Sakari Kuosmanen, Sherwan Haji, Simon Al-Bazoon, Kati Outinen, Ilkka Koivula, Janne Hyytiäinen, Tommi Korpela, Nuppu Koivu, Niroz Haji Roteiro: Aki Kaurismäki Fotografia: Timo Salminen Duração: 98 minutes Produção: Aki Kaurismäki Estúdio: Sputnik, Bufo, Pandora Film Distribuidora: B-Plan

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