Terra selvagem (2017)

Por André Dick

Responsável pelo roteiro de dois filmes aclamados nos últimos anos, Sicario – Terra de ninguém e A qualquer custo (indicado ao Oscar de melhor filme), Taylor Sheridan faz sua segunda obra como diretor, depois do terror Vile, neste Terra selvagem. Pode-se perceber um estilo que une os dois filmes que escreveu: ambos tratam de figuras à margem da lei enfrentando policiais ou agentes, seja no México, seja no interior do Texas. Se Sicario tem uma visão familiar quase ausente, em A qualquer custo ela forma a condição dos personagens, mesmo que a certa distância. São dois trabalhos certamente interessantes e, mesmo com algumas facilitações (não tanto aquele dirigido por Villeneuve), importantes para o cinema norte-americano nos últimos anos por transcender a fronteira previsível do gênero policial.

Em Terra selvagem, durante o inverno, na reserva indígena Wind River, localizada no Wyoming, o corpo da jovem Natalie Hanson (Kelsey Chow) é descoberto no gelo por Cory Lambert (Jeremy Renner). A primeira sequência oferece uma grande vitalidade para essa atmosfera, com o luar iluminando uma planície gelada com montanhas ao fundo. Mistério desenhado, para investigar o crime, chega à reserva uma nova agente do FBI, Jane Banner (Elizabeth Olsen). Ela precisa determinar se foi um assassinato para que o governo seja responsável pela investigação e conhece o xerife Ben (Graham Greene), à frente de um departamento que precisa de ajuda.
Martin (Gil Birmingham), o pai da vítima, é amigo de Cory e ambos têm em comum o olhar distante para as montanhas. Nas investigações, descobre-se que um irmão de Natalie, Chip (Martin Sensmeier), está envolvido com drogas. Escolhido como um ajudante na procura ao culpado, Lambert foi casado com uma mulher de origem indígena, Wilma (Julia Jones), com quem teve um filho, Casey (Teo Briones) e o acontecimento o faz recordar de um momento definitivo de sua vida, capaz de acentuar ainda mais a tragédia acontecida na reserva. E, com o chapéu de cowboy num ambiente gelado, ele faz lembrar por que Sheridan escreveu A qualquer custo, com sua retomada de um gênero capaz de voltar em algumas obras com brilho disperso. No início, quando Cory aparece com seu filho andando a cavalo é possível lembrar de antigas obras.

Tudo em Terra selvagem converge para o fato de que os personagens estão inseridos num ambiente sem saída, em que, segundo um dos personagens, não há nada para fazer. Mais ainda: estão à espera de uma união familiar. A maneira como lidam com os fantasmas pessoais não foge a esse cenário, e a trama tradicional de investigação fica em segundo plano para exatamente configurar o cenário de modo intenso. Sheridan utiliza a câmera trêmula em muitos momentos para dar uma vitalidade especial à narrativa e, se lhe falta a simetria de Villeneuve, em Sicario, ele consegue extrair atuações raras de Renner e Olsen, mesmo com poucos diálogos. Particularmente, Renner é muito convincente, entregando sua melhor atuação desde Guerra ao terror e não tão discreto quanto em A chegada (no qual aparecia bem). O cenário do Wyoming remete a O portal do paraíso, o clássico de Michael Cimino, em que se tratava da disputa por territórios e perseguição a estrangeiros. Embora Sheridan não se centralize na questão de territórios indígenas, existe aqui um sentido de perseguição secular e de uma injustiça nunca possível de ser resolvida.
Em Terra selvagem, os personagens de origem indígena são muito bem desenhados e interpretados, por Greene (de Dança com lobos) e Birmingham, que já aparecia em A qualquer custo, no qual a amizade entre o personagem que esse ator fazia e o investigador feito por Jeff Bridges remete a alguns momentos deste. Há também uma influência nítida de À procura, de Atom Egoyan, principalmente na maneira como o cenário desolado, com a colaboração da fotografia de Ben Richardson (que já fez um trabalho ótimo em Indomável sonhadora e Castelo de areia), se mostra como uma extensão dos personagens. Sheridan usa panorâmicas para mostrar o isolamento dessa vida inóspita, porém com o objetivo final e acertado de nunca se aproximar demais dessas figuras. Elas se mantêm afastadas umas das outras e o que as aproxima não fica exatamente claro.Talvez o momento mais íntimo de Cory seja justamente aquele em que relata o passado e isso ajuda a explicar muitas de suas reações.

Sheridan recebeu o prêmio de melhor diretor na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes deste ano e certamente seu trabalho se expõe de maneira talentosa. Um dos melhores elementos para mostrar se estamos diante de um talento na direção é a maneira como ele insere o espectador na atmosfera do que mostra. Terra selvagem tem um certo impasse no início, mas, à medida que surge a agente do FBI, e ela dialoga com a personagem de Blunt em Sicario, um tanto desajeitada, embora não tão séria, sabemos que a narrativa segue um padrão mais original. E a maneira como Sheridan filma os tiroteios tem uma força inegável, trazendo impacto às sequências, com a colaboração da trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis. Apenas se lamenta que o arco dos personagens pareça um pouco incompleto, mas esta já era uma sensação dos outros filmes que Sheridan roteirizou. O  importante não seria exatamente o que veio fazer a agente no FBI na reserva indígena, e sim os temas por trás dessa vinda: a união familiar, o passado, a solidão, a angústia de conhecer um crime cometido de forma terrivelmente cruel. É uma sensação de incompletude que acaba dando uma ideia apenas de uma certa etapa na vida dessas figuras e não tira, de qualquer maneira, a beleza de um thriller filmado num lugar incomum e que lida com questões vitais de cada indivíduo.

Wind river, EUA, 2017 Diretor: Taylor Sheridan Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Gil Birmingham, Jon Bernthal, Julia Jones, Kelsey Chow, Graham Greene, Martin Sensmeier, Teo Briones Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Ben Richardson Trilha Sonora: Nick Cave, Warren Ellis Produção: Matthew George, Basil Iwanyk, Peter Berg, Wayne L. Rogers Duração: 111 min. Estúdio: Acacia Entertainment, Savvy Media Holdings, Thunder Road Pictures, Film 44 Distribuidora: The Weinstein Company

A qualquer custo (2016)

Por André Dick

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Há alguns filmes que procuram revitalizar um gênero nos tempos modernos, e A qualquer custo é um dos mais interessantes. Não parece, mas este é um legítimo faroeste. O que mais o aproxima deste gênero é certamente uma história que parece simples apenas na superfície, quando possui muitos detalhes narrativos capazes de mostrar personagens em evolução, com uma complexidade inesperada e por vezes comovente. Aqui, um pai divorciado, Toby Howard (Chris Pine), e seu irmão Tanner (Ben Foster), começam a roubar vários bancos no oeste do Texas. Enquanto Toby parece mais tranquilo, Tanner encarna uma faceta mais raivosa, tentando canalizar o que resolveria dívidas da família. Não se sabe muito bem por que eles agem desta maneira, sem procurar outra opção, mas esta passa a ser uma das qualidades de quem assiste à história.
Dois Texas Rangers, Marcus Hamilton (Jeff Bridges) e Alberto Parker (Gil Birmingham), saem à busca da dupla de assaltantes. De origem indígena, Parker é admirado por Hamilton de maneira que este é um faroeste moderno em que as figuras do homem branco e daquele que perseguiu durante um longo tempo se unem para tentar impedir a escalada de roubo e violência proporcionada por dois irmãos a princípio inofensivos.

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Pela amizade entre os rangers, há mesmo uma espécie de admiração no que se refere ao modo como os irmãos se dedicam a seus planos. Não chega a haver nenhum humor excessivo como existia em Arizona nunca mais e Coração selvagem, embora as ameaças aos caixas de banco soem mais do que verossímeis.
A história quase não possui diálogos e ainda assim todos funcionam exemplarmente, com cada cena construída de maneira que reflete na seguinte, sem deixar sobras, uma qualidade da direção de David Mackenzie, nunca dando a entender, por isso, que o filme é simplesmente rápido. A linguagem de cada personagem soa quase como específica, mesmo pertencendo a um lugar mais vasto: o modo como um se dirige ao outro caracteriza também suas ações. Por exemplo, a sequência em que Toby conversa com uma garçonete, Jenny Ann (Katy Mixon, mais conhecida por suas participações em séries de humor, numa bela atuação), antes de praticar um dos assaltos combinados com o irmão, mescla um desejo de fuga desse universo e um ingresso em outro ambiente, que não parece viável, porque, afinal, ele e seu irmão precisam fazer o que estão realizando. E o Texas é visto não como um lugar apenas semiabandonado, como também aquele em que as pessoas entram em ajuste umas com as outras de forma assustadora, ou mesmo entram em estado de negação diante de uma ameaça.

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A qualquer custo dialoga com Terra de ninguém e Onde os fracos não têm vez, com elementos ainda do grande Cianfrance de O lugar onde tudo termina – a agilidade com que são filmados os assaltos –, do setentista Corrida contra o destino e possui um ritmo quase perfeito, com atos bem definidos e ótimas atuações de todo o elenco, principalmente Pine, surpreendentemente numa atuação madura e envelhecida no bom sentido, e Bridges, este claramente revivendo o cowboy grosseiro de Bravura indômita, principalmente quando decide buscar algumas cervejas na geladeira. Ainda assim, Birmingham e Foster não ficam distantes dessas atuações: Foster consegue trabalhar mais ao final um traço de impacto nas ações de seu Tanner.
O roteirista Taylor Sheridan é o mesmo de Sicario e aqui a paisagem é tão deserta quanto no filme de Villeneuve, além do sentimento familiar ser acompanhado de certa melancolia. Esta é uma paisagem em que os poços de petróleo da comunidade não concedem imunidade contra ameaças econômicas externas, e onde os personagens tentam preservar suas famílias longe da violência, a qual, no entanto, jamais evitam em sua jornada. O tema das finanças familiares se estende ao longo de toda a narrativa, sempre acompanhado por uma dúvida: para que existe toda uma riqueza secular numa terra abandonada se ela não reverte para as pessoas da comunidade? Sheridan aproveita o roteiro para criar quase uma sátira ao sistema bancário, sem meios termos nem grandes explicações.

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Tudo é mostrado como uma grande sequência longa em que os acontecimentos se passam quase no tempo que concede o filme. Dificilmente há alguma pausa para descanso – o momento em que os acontecimentos são vistos parece ser o mesmo em que foram filmados. Para isso, os personagens de Pine e Bridges contribuem com eficácia, assim como a fotografia exuberante de Giles Nuttgens, embora a direção deixe o terceiro ato se tornar mais plano e o final, de certo modo, soe abrupto em demasia em comparação com o que acontece antes, de maneira tão fluida e intensiva. Talvez seja este o impasse trazido pela obra de Mackenzie: como ele aponta de forma direta o que está criticando, não resta muito espaço para possíveis nuances. Isso, de qualquer modo, não diminui os personagens ou os afasta de uma determinada combinação de fatores que os tornam, inclusive, complexos. As famílias aqui se mostram distantes entre si, mas é o núcleo para o qual esses personagens solitários se voltam no momento-chave. A investigação passa a ser não apenas de quem se saiu melhor num cenário em que os duelos predominam, nem quem conseguiu ganhar mais, e sim quem conseguiu sobreviver ao status de ser, afinal, um solitário.

Hell or high water, EUA, 2016 Diretor: David Mackenzie Elenco: Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges, Gil Birmingham, Katy Mixon Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Giles Nuttgens Trilha Sonora: Nick Cave, Warren Ellis Produção: Julie Yorn, Peter Berg, Sidney Kimmel Duração: 102 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Film 44 / Sidney Kimmel Entertainment

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