Aquaman (2018)

Por André Dick

Não é preciso fazer um prólogo para concluir que hoje as adaptações de HQs se transformaram num grande duelo entre duas companhias, acarretando fãs de um lado ou de outro, ou de admiradores de ambos os trabalhos. A sucessão de lançamentos de filmes do gênero não deixa mais órfãos admiradores de inúmeros personagens, que antes só possuíam os quadrinhos de fato ou as animações televisivas para apreciá-los em movimento. E, cada vez mais, se espera que um filme consiga superar o outro, não tanto em termos de qualidade, mas de bilheteria. Aguardado e divulgado há muitos meses, Aquaman é lançado num ano em que a Marvel teve duas bilheterias bilionárias, com Pantera Negra e Vingadores – Guerra infinita, e ainda surge depois de uma obra polêmica da DC, Liga da Justiça.

O roteiro de David Leslie Johnson-McGoldrick e Will Beall, baseado em história de Geoff Johns, James Wan e Beall, mostra um homem que cuida de um farol, no Maine, Thomas Curry (Temuera Morrison), que salva Atlanna (Nicole Kidman), princesa de Atlantis, de uma tempestade. Ambos se apaixonam e ela dá à luz Arthur Curry. Feito de idas e vindas, Arthur, já adulto (Jason Momoa), tenta salvar um submarino nuclear de piratas, liderados por Jesse Kane (Michael Beach), pai de David, o Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), que deseja vingá-lo. Esse ataque ao submarino é pretexto para Orm (Patrick Wilson), meio-irmão de Artur e rei de Atlântida, invocar uma guerra contra os humanos. Rei Nereus de Xebel (Dolph Lundgren) tenta seguir Orm, e sua filha prometida a ele, Mera (Amber Heard), pede ajuda a Arthur. Em seguida, ambos vão encontrar Vulko (Willem Dafoe), que treinou Arthur em sua infância e juventude (quando ele é interpretado por Kaan Guldur e Otis Dhanji, respectivamente) em passagens que remetem a Mulher-Maravilha (há cenas claramente feitas antes e outras depois do filme de Jenkins).

O roteiro lida com o fato de o herói, nomeado Aquaman, uma criação de Mort Weisinger, ser filho de um humano e uma deusa como um decréscimo dele, principalmente em suas conversas com Orm, e isso se revela interessante principalmente em como Arthur se junta a Mera, indo ambos parar no Saara, em que Wan homenageia O céu que nos protege, fazendo uso da cor do cabelo de Mera para criar um diálogo com a luz solar, e depois na Sicília, aqui evocando a ilha de Themyscira, das amazonas, atrás do tridente que pode dar o poder sobre Atlântida a Curry. Nesses momentos, o diretor de fotografia Don Burgess comprova seu talento, exibido já em obras como Contato, Forrest Gump e Náufrago, além de Os Muppets. E, se as gags não funcionam, pois na verdade não se encaixam tão bem no universo da DC, a bela trilha sonora de Rupert Gregson-Williams faz esquecer algumas canções mal selecionadas. Talvez a montagem até a primeira metade seja o maior problema, de qualquer modo, da obra da Wan, com excessiva exposição e flashbacks desnecessários, fazendo a metragem ultrapassar pelo menos 15 minutos.

E, apesar da assinatura de Wan e da concepção menos sombria, Aquaman, de modo geral, apresenta o estilo delirante de Snyder, capaz de transitar por batalhas gregas com uma atmosfera de Olimpo (300), mostrar um Superman com questionamentos existenciais (O homem de aço), encadear uma sequência de imaginações de uma menina num hospício (Sucker Punch) e apresentar uma animação em que duas corujas irmãs entram em conflito (A lenda dos guardiões), além de um épico sobre um grupo de super-heróis perseguido (Watchmen), trazendo a paleta de variação de cores já vista em Liga da Justiça. Reúna tubarões montados por seres aquáticos e leões-marinhos prontos para uma batalha que se terá, no mínimo, cenas inusitadas. Foi Snyder quem criou os elementos para esse personagem ter sua estreia solo no cinema, depois da boa participação em Liga da Justiça, com um estilo roqueiro, trabalho de pescador e tendência a doses etílicas em algum bar na costa marítima. E, se Clark Kent tem o pai Jonathan (Kevin Costner), em seus sonhos, e Martha (Diane Lane) sob ameaça de Zod e Luthor, além de sua fuga da realidade de Metrópolis para o Kansas, Arthur também precisa lidar com a dualidade e com o passado: seus pais e o comportamento humano, literalmente, representam seu porto. Apenas se lamenta que, mesmo com mais tempo, o personagem não se mostre tão eficaz quanto em Liga da Justiça.

Momoa é um ator limitado dramaticamente, no entanto entrega bem seu personagem, enquanto Heard está um pouco deslocada, sem prejudicar, e Kidman sempre talentosa, independente do papel, além de Dafoe estar discreto e Wilson, apesar do rosto computadorizado, efetivo. O melhor, porém, é Morrison, numa breve participação como o pai. Aquaman, além disso, é visualmente fantástico, com ótimos efeitos especiais, prejudicados apenas pelo CGI excessivo de algumas linhas do horizonte, sendo, no entanto, a batalha final um grande momento, misturando em suas referências imagens tanto de O segredo do abismo quanto o recente Valerian e a cidade dos mil planetas e Star Wars – A vingança dos Sith, no trabalho de uma cor alaranjada, simbolizando a guerra no fundo do mar. Há cenas plásticas especialmente belas, como aquela em que o menino Arthur fica à frente de um aquário em que os peixes visualizam as demais crianças. Sem tentativa de ser épico ou revolucionar as adaptações de quadrinhos, Aquaman se caracteriza pelo interesse com que dispõe suas ideias.

Aquaman, EUA, 2018 Diretor: James Wan Elenco: Jason Momoa, Amber Heard, Willem Dafoe, Patrick Wilson, Dolph Lundgren, Yahya Abdul-Mateen II, Nicole Kidman, Kaan Guldur, Otis Dhanji Roteiro: David Leslie Johnson-McGoldrick, Will Beall Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams Produção: Peter Safran, Rob Cowan Duração: 143 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, DC Films, The Safran Company, Cruel and Unusual Films, Mad Ghost Productions Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Liga da Justiça (2017)

Por André Dick

Com a recepção crítica de Batman vs Superman, logo antes de iniciarem as filmagens de Liga da Justiça as expectativas estavam voltadas para o fato de Zack Snyder continuar como diretor ou não. Ele realizou o filme, no entanto, antes da finalização, precisou se ausentar devido a uma tragédia pessoal: o suicídio de uma filha sua. Para refilmar cenas e escrever e dirigir outras, foi chamado Joss Whedon, responsável pelos dois Vingadores. Ele assina o roteiro ao lado de Chris Terrio (Argo), um dos roteiristas de Batman vs Superman. Ocorreram outras mudanças, como na trilha sonora – Danny Elfman substituiu Junkie XL –, e a discussão passou a ser, antes do lançamento: este seria um filme realmente de Snyder?
Liga da Justiça surge cinco anos depois do primeiro Os vingadores e nesse meio-tempo se acirrou a disputa entre a DC e a Marvel nas telas de cinema, cada uma com suas características. Este ano, porém, Mulher-Maravilha teria investido num otimismo a princípio ausente nas obras de Zack Snyder. O filme de Jenkins, junto com Batman vs Superman, serve como bom prenúncio da primeira reunião da Liga. Se no início a humanidade sente a morte do Superman – e a trilha, com “Everybody knows”, de Leonard Cohen na voz da cantora Sigrid, e a referência a David Bowie dialogam diretamente com Watchmen –, não há tempo para mais explicações.

Os novos personagens são apresentados com agilidade: Victor Stone, ou Ciborgue (Ray Fischer), ainda abalado por sua mudança física; Barry Allen, que tem os poderes de The Flash (Ezra Miller); e Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), herdeiro de Atlântida, são procurados por Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) e Diana Prince/Mulher-Maravilha (Gal Gadot) a fim de formar uma liga para combater a ameaça espacial de Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), atrás de três caixas maternas que podem lhe emprestar um poder inigualável. Ele surge na Terra acompanhado pelos terríveis parademônios, atraídos pelo medo alheio e vêm a ser as criaturas da necessária passagem “Knightmare” de Batman vs Superman, no qual usavam o símbolo de Superman, representando uma ameaça para Wayne. Lamentando a morte de Clark/Superman, uma conversa entre Martha Kent (Diane Lane) e Lois Lane (Amy Adams) no Daily Planet é tão cotidiana que faz lembrar algo que havia se perdido com Donner nos anos 80. Em meio a isso, Silas Stone (Joe Morton) tenta ajudar seu filho Victor, por ter se tornado metade homem, metade ciborgue, e Barry visita seu pai, Henry (Bill Crudrup), na cadeia. Também vemos rapidamente Mera (Amber Heard) em Atlântida e Hippolyta (Connie Nielsen) na ilha de Themyscira.

A interação entre esses personagens é bem conduzida desde o primeiro encontro entre Bruce Wayne e Curry, mediada a distância por Alfred (Jeremy Irons, novamente ótimo). No entanto, a narrativa realmente se fortalece quando Barry Allen entra em cena, e Ezra Miller tem a oportunidade de entregar uma interpretação cômica realmente bem dosada. Apenas uma determinada cena em que Snyder filma o olhar assustado de Flash em slow motion, com a habilidade de atuação de Miller, garante o movimento para o desenrolar da narrativa. Os demais crescem com esse ingresso: Affleck e Gadot pontuam boas cenas juntas – a melhor é aquela em que Diana, vendo uma nova criação de Wayne, lembra do amado Steve Trevor (Chris Pine), remetendo a seu filme solo – e Momoa e Fischer (este especialmente, pela inexperiência) são belos acréscimos. Quase em participação especial, J.K. Simmons também se mostra o novo Jim Gordon, com um bat-sinal no topo da delegacia esfumaçado, lembrando o Batman de Burton, e aqui a trilha sonora de Danny Elfman, num trabalho interessante, embora não brilhante, como poderia, tem sua melhor participação (spoiler até o fim do próximo parágrafo).
Por sua vez, a volta do Superman resulta numa das melhores sequências, quando, não lembrando de quem é, enfrenta os outros da Liga. Cavill está bem, numa mudança já aguardada de comportamento também em relação a Batman vs Superman, e o CGI usado nele chama mais a atenção de quem possui a informação (quando foi preciso regravar cenas, ele já filmava Missão impossível 6 e não podia tirar o bigode que usava com o personagem desse filme). Sua atuação é reforçada por uma sempre competente Amy Adams. Interessante também como o duelo que ele tem com os demais companheiros se dá em frente à sua estátua desmontada em Metrópolis, dialogando com a profissão de Diana. É como se, entre a vida e a morte, esses personagens estivessem sempre em reconstrução.

Em termos de estilo, ficam claras algumas diferenças entre o que foi rodado por Snyder e o que foi finalizado por Whedon. Snyder tem um senso estético quanto a design de produção e fotografia, por exemplo, que Whedon não possui, mas o filme nunca se sente dividido ou com a tentativa de romper a paleta do diretor oficial e de Fabian Wagner (Game of thrones), levando em conta que apenas 20% das cenas teriam sido feitas ou refeitas por Whedon. As cores se sobrepõem das mais diversas formas e mesmo assim se mantém uma unidade. Elas são mais vivas do que nas obras anteriores de Snyder, no entanto trazem uma tonalidade ainda melancólica, buscando um tom alaranjado. Mesmo os figurinos de cada super-herói se sentem ainda melhores do que vimos anteriormente em quadrinhos, filmes ou séries de TV. Com melhor ouvido para certo diálogo descompromissado, Liga da Justiça parece se fortalecer com a presença de Whedon, mas certamente perdeu em certos momentos a perícia de Snyder com certa antilinearidade (os pesadelos de Bruce Wayne em Batman vs Superman mostram bem isso) e um tom épico que é prejudicado pela curta duração, o que é sentido nos primeiros 15 minutos e nos 10 finais.

Ainda assim, Liga da Justiça, de modo geral, apresenta o estilo delirante de Snyder, capaz de transitar por batalhas gregas com uma atmosfera de Olimpo (300), mostrar um Superman com questionamentos existenciais (O homem de aço), encadear uma sequência de imaginações de uma menina num hospício (Sucker Punch) e apresentar uma animação em que duas corujas irmãs entram em conflito (A lenda dos guardiões), além de um épico sobre um grupo de super-heróis perseguido (Watchmen). Este é um filme visualmente fantástico, com efeitos especiais impressionantes, prejudicados apenas pelo CGI excessivo do duelo final, o que já acontecia em Batman vs Superman e Mulher-Maravilha (curiosamente não tão presente nos primeiros trailers). Os mais destacados são aqueles que envolvem a velocidade do Flash, que poderiam ser carregados, mas estão no tom certo. E, por mais que os cenários mudem abruptamente, há tons e cores que os unem, oferecendo uma real unidade.
Nota-se o cuidado de Snyder em enquadramentos, como a primeira sequência de Batman, que evoca o de Burton e tem um sentido físico real, homenageando, também, com as pombas no alto do prédio, o clássico Blade Runner. Mais: mesmo que de forma menos intensa do que certamente sua versão original (e fica evidente que Liga da Justiça tinha a metragem lançada nos cinemas de Batman vs Superman, pelo menos), a Liga não conserva muito de certo desencantamento de Snyder visto em obras como Watchmen. O vilão também não permite o que Snyder conseguiu com Zod e Lex Luthor: essa é uma ameaça para a humanidade com o objetivo de unir esses heróis em torno de uma determinada ação, não havendo grande elaboração dos seus motivos. Trata-se de uma ameaça secular (em certa narração sobre a sua história, há ecos de O senhor dos anéis, de Peter Jackson), envolvendo as amazonas e o povo de Atlântida, mas é preciso dizer, com ou sem o laço de Mulher-Maravilha, não totalmente elaborada. Em certo momento, é retomada uma referência às lendas do Rei Arthur, já devidamente lembradas tanto por meio do filme anunciado no cinema no início de Batman vs Superman (Excalibur) quanto pela arma usada pelo Superman na luta derradeira.

Liga da Justiça, por outro lado, continua investindo na emoção familiar de O homem de aço, na cena que se passa num milharal, em referência ao clássico Superman de 78 e a Campo dos sonhos, não por acaso com Kevin Costner, que faz o pai terráqueo do homem de aço e no filme de 89 era visitado por fantasmas em sua fazenda. É ressonante também o encontro dos Allen na prisão e uma discussão dos Stone. Também há mais bom humor. Contudo, pelos trailers iniciais, essa diferença já era evidente, então não se tem certeza do tom que Whedon empregou seja tão diferente do resultado inicial. Do mesmo modo, o estabelecimento de conexão com os filmes anteriores (pela nave de Zod, sobretudo, e pela Ilha de Themyscira), é muito bem desenhado, de modo discreto, assim como com os próximos (em duas boas cenas pós-créditos, a segunda especialmente reveladora do que virá).
Isso é beneficiado pelo verdadeiro sentimento de heroísmo vindo de cada personagem, assim como a compreensão em relação a cada um, especialmente de Mulher-Maravilha em relação ao Ciborgue e a amizade deste com o Flash, sendo dois deslocados, presos a um passado que ainda não conseguiram resolver. Esse heroísmo é colocado em avaliação sobre a idade pessoal por Bruce Wayne e uma brincadeira com uma fala do confronto anterior entre ele e Superman, que certamente é um toque refinado do roteiro de Terrio e Whedon. Todos esses personagens carregam alguma culpa (a de Batman em ter matado Superman, a de Mulher-Maravilha em não ter aparecido como uma heroína ao longo de décadas) e tentam usar seu vigor com o intuito de ajudar a humanidade. Apesar de não ter complementado seu trabalho, e de esta versão ser certamente mais curta do que eu gostaria – e o público, possivelmente, também –, Snyder firma, com Liga da Justiça, seu nome como o melhor diretor de fantasias provindas dos quadrinhos. Ele realmente torna emocionante ver esses personagens em ação.

Justice league, EUA, 2017 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, J. K. Simmons, Bill Crudup, Amber Heard Roteiro: Chris Terrio, Joss Whedon Fotografia: Fabian Wagner Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Charles Roven, Deborah Snyder, Jon Berg, Geoff Johns Duração: 121 min. Estúdio: DC Films, RatPac Entertainment, Atlas Entertainment, Cruel and Unusual Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures