Vingadores – Ultimato (2019)

Por André Dick

Em Vingadores – Guerra infinita, os  irmãos Joe e Anthony Russo não tinham tempo a perder: empregavam uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as suas consequências. Eles acreditavam oferecer um ar dramático e, apesar dos conflitos físicos, os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU, inclusive os anteriores de Joss Whedon, desapareciam.
Não havia a construção de um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, extraindo qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parecia ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredava por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, os Russo estavam interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo compartilhado da Marvel, uma falha de ignição notável, que sua bilheteria impressionante não conseguiu sobrepujar.

O que poderia acontecer em um ano, para a chegada de Vingadores – Ultimato? Primeiro, parece que os Russo fizeram concessões em Guerra infinita para realizarem este segundo com mais liberdade. Embora haja elementos do produtor Kevin Feige, ele não tem claramente a presença aqui como nos demais desse universo. Com exceção de alguns momentos de ação, da fantasia e do estilo narrativo em determinadas partes, é outro tipo de cinema. Apesar do tom de autoimportância, ele vai, aos poucos, se confirmando como plausível.
Ultimato tem um primeiro terço verdadeiramente dramático, com um cenário de terra arrasada literalmente, desde a primeira sequência com a família de Clint Barton/Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), notável na criação de um espaço de distância de tudo, apesar de elementos cômicos pontuais e cabíveis no contexto.

É o que a Marvel mais conseguiu fazer próximo da sua principal rival na área, mas com um sentido mais pop, embora não menos emocional. É delicado, simples e vai direto ao ponto, com Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Thor (Chris Hemsworth), Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), James Rhodes (Don Cheadle), Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), Rocket (Bradley Cooper) e o Gavião Arqueiro, além de Carol Denvers (Brie Larson) e Nebula (Karen Gillan), querendo arranjar uma solução para conseguirem rever alguns companheiros desaparecidos (para quem não viu Guerra infinita, deixo em suspenso). Também temos Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e o melhor acréscimo: Scott Lang/Homem-Formiga (o sempre efetivo Paul Rudd). Todos querem enfrentar novamente o temível Thanos (Josh Brolin). Não sem antes os irmãos Russo conseguirem reproduzir uma série de sequências cômicas com Thor e Bruce Banner que não têm o absurdo de Thor: Ragnarok, mas resoluções por vezes notáveis (e os efeitos especiais de Banner são ótimos).

Desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, os Russo não conseguiam fazer interação entre personagens como. Se em Guerra infinita os super-heróis apareciam e desapareciam sem criar o devido impacto, em Ultimato eles são devidamente considerados. Não há mais lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros e mesmo durante as batalhas os encontros se dão com uma sensação de vínculo ou proximidade. Se Bruce Banner pouco aparecia no último, aqui ele finalmente ganha um sentido narrativo. O mesmo se diz de Capitão América e Homem de Ferro, em atuações ótimas de Chris Evans e Robert Downey Jr. São personagens que pouco tinham a fazer em termos realmente dramáticos em Guerra infinita. Sobretudo o Capitão América, por ser o personagem mais dirigido pelos Russo, ganha um tom de serenidade empregado por Evans capaz de se contrapor aos episódios iniciais de maneira muito interessante, no entanto, ainda assim, evocando principalmente a obra inicial de sua história, dirigida por Joe Johnston. Ele representa os personagens principais do filme de 2012, cujo arco é fechado nesta peça de maneira muito competente e que recebem o destaque merecido em relação aos que tiveram seus filmes feitos depois.

Ao longo da narrativa, há uma sensação de passagem de tempo, de melancolia, que inexiste em qualquer outro filme da Marvel, pois a companhia, muito por causa de seu produtor, costuma padronizar algumas tramas. Os Russo estão mais interessados em sensações que não têm obrigatoriamente vínculo com uma franquia ou com ultrapassar bilheterias: eles conseguem desenhar um arco amplo sobre o universo compartilhado sem caírem na previsibilidade, inclusive com momentos-chave envolvendo personagens até mortos, criando uma redoma de tempo que não pode mais ser recuperado. Nesse sentido, elogiar Ultimato pelos pressupostos com os quais eram tecidos os comentários sobre Guerra infinita é estranho: ambos são quase totalmente diferentes. Mesmo visualmente, o quarto episódio com todos os heróis da Marvel é mais discreto, sem tanto CGI, focado em paisagens terrestres isoladas, ou casas campestres, criando uma ilusão de mundo distanciado. Os movimentos de câmera são mais dosados, não há uma necessidade de soar frenético e cada comportamento dos personagens parece ter uma explicação dentro da trama, fazendo com que a duração de 3 horas seja fluida, sem interrupções ou desvios tortuosos.

Vingadores – Ultimato tem referências a muitas obras sobre passagem do tempo, de forma mais destacada à trilogia referencial De volta para o futuro, porém apresenta ainda mais um diálogo implícito, ao final, com uma obra-prima de Stanley Kubrick sem diluir numa ideia de universo compartilhado, contudo conseguindo expandi-lo dentro do mundo do cinema. Nessa atemporalidade, vemos até Barton e Natasha em cenários que remetem a Encontros e desencontros, filme responsável por elevar a trajetória de Johansson no início deste século. São os últimos 10 minutos que asseguram o quanto, por mais que seja produto de um universo pop levado à exaustão, é possível fazer um grande cinema blockbuster sem esquecer o atrativo da história à margem de todos os personagens, lembrando a simples humanidade. Os irmãos Russo homenageiam a introdução heroica de Whedon a esses personagens, no entanto acrescentam um tom emocional incontornável e realmente infinito.

Avengers – Endgame, EUA, 2019 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle, Paul Rudd, Brie Larson, Karen Gillan, Danai Gurira, Bradley Cooper, Josh Brolin Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 181 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Capitã Marvel (2019)

Por André Dick

O mais recente filme do universo MCU, Capitã Marvel, foi lançado sob o manto da polêmica, desde as declarações de Brie Larson, vistas com desconfiança por alguns, até grupos mobilizados para baixar sua nota em sites de média agregadas – comportamento cada vez mais presente numa batalha entre companhias que veem seus super-heróis sustentarem praticamente toda realização cinematográfica que não se alimente de histórias em quadrinhos. Desde o lançamento de Mulher-Maravilha, o grande condutor no cinema da Marvel, Kevin Feige, queria levar a primeira super-heroína do seu grupo já conhecido às telas, sendo que talvez a primeira que suscitasse isso seria a Viúva Negra, de Scarlett Johansson, nunca tendo, porém, seu merecido filme solo.

Quem encarna a Capitã Marvel é Brie Larson, conhecida por projetos de origem indie, como O maravilhoso agora e, principalmente, Temporário 12, mas verdadeiramente reconhecida pelo primeiro Anjos da lei. Depois do Oscar de melhor atriz, merecido, por O quarto de Jack, ela se aventurou em Kong – A Ilha da Caveira, no belo drama O castelo de vidro e agora neste blockbuster, no qual faz Vers, que mora no planeta Kree e tem como mentor Yon-Rogg (Jude Law), enquanto surge em seus sonhos uma misteriosa mulher (Annette Benning). O seu planeta vive em guerra com os Skrulls, uma raça que passa por planetas tentando dizimá-los e determinado dia, numa das batalhas, Vers acaba parando na Terra, onde imediatamente chama a atenção de dois agentes da SHIELD, Nick Fury (Samuel L. Jacjkson) e Phil Coulson (Clark Gregg). A partir daí, ela passa a ter lembranças de quando era uma piloto da Força Aérea desaparecida anos antes, em 1989, num projeto da Dra. Wendy Lawson (novamente Bening). Vers obviamente se junta principalmente a Fury (e a um gato excêntrico), descobrindo ser, na realidade, Carol Danvers. Fury e ela acabam se deparando com Keller (Ben Mendelsohn, cada vez mais repetitivo), também integrante da SHIELD.

Talvez os melhores momentos do filme de Anna Boden e Ryan Fleck, parceiros de direção também em Se enlouquecer, não se apaixone, se concentrem na amizade que Danvers reencontra em Maria Rambeau (Lashana Lynch), uma companheira sua no tempo em que era piloto na Terra. São momentos nos quais Capitã Marvel se sente mais próxima de uma homenagem declarada ao filme Top Gun, dos anos 80, em cenas calcadas para dialogar com o filme estrelado por Tom Cruise, assim como em determinados instantes, por causa de um determinado personagem, lembra Inimigo meu. Ao lado do carisma de Lynch, e também o de Jackson, rejuvenescido digitalmente de forma muito competente (certamente o efeito visual mais interessante do projeto, quase levando-o à época de Pulp Fiction, de 1994, enquanto a narrativa de Capitã Marvel se movimenta em 1995), o filme se sustenta mais em suas tentativas do que numa possível efetividade. A atuação de Larson é muito limitada, assim como já se mostrava em Kong – A Ilha da Caveira, prejudicando a maior parte das sequências. No entanto, isso não se deve apenas a ela, e sim também ao roteiro concentrado em flashbacks, cenas de ação excessivamente apressadas e um elenco de vilões pouco proveitoso. Boden e Fleck haviam demonstrado especial talento em diálogos em Half Nelson – Encurralados, sobre um professor interpretado por Ryan Gosling, e visivelmente não se sentem confortáveis com este universo mais fantástico.

Capitã Marvel tenta se equilibrar entre um universo que remete mais a Guardiões da galáxia, porém não deixa de emular o design de produção de Mudo principalmente na primeira parte, assim como tenta manter um contato com o universo estendido de maneira menos direta, e cenas campestres, como naquele em que Danvers está na casa de Rambeau e vemos um clima quase indie, típico dos diretores. É esta tentativa de trazer elementos novos, mas sem de fato conseguir, que caracteriza em grande parte a produção, com sua trilha sonora curiosa (incluindo até Nirvana, com “Smells like teen spirit”, No Doubt, com “Just a Girl”, e Garbage, com “Special”, cujo videoclipe tem a vocalista numa espaçonave parecida com as desse filme). Mesmo em seus momentos de humor, que remetem a outros personagens da companhia, Capitã Marvel não deixa nunca de carregar um peso, o de não ter exatamente uma linha muito clara do que realmente deseja: como filme de origem, e referências a um objeto que vemos ser seguido desde Os vingadores, ele até funciona em parte, porém, quando precisa atrair o espectador para novos pontos, se compromete quase totalmente. De certo modo, isso se deve a uma narrativa incerta pela pouca afeição de seus diretores a este tipo de material, como também por uma qualificação pouco natural dada aos personagens centrais. É um tanto surpreendente, porém, este filme ser tão mal recebido de certo modo tendo os mesmos problemas de obras recentes do MCU vistas como obras-primas, principalmente ao se apontar seu uso realmente excessivo de CGI, mas que não foge à média do gênero. Trata-se de um universo que precisa se reinventar com diretores mais autorais e não controlados pelo mesmo produtor, que torna cada filme muito parecido um com o outro.

Captain Marvel, EUA, 2019 Diretores: Anna Boden e Ryan Fleck Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Djimon Hounsou, Lee Pace, Lashana Lynch, Gemma Chan, Annette Bening, Clark Gregg, Jude Law Roteiro: Anna Boden, Ryan Fleck, Geneva Robertson-Dworet Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Pinar Toprak Produção: Kevin Feige Duração: 124 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

O castelo de vidro (2017)

Por André Dick

O diretor Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham e Marti Noxon fizeram o roteiro desta aguardada adaptação de O castelo de vidro, de Jeanette Walls, com um elenco em alta conta e visando às premiações principais do fim do ano. Se não houve uma resposta à altura do esperado, o novo experimento do diretor de Temporário 12 tenta contar de maneira atrativa a história de Jeanette Walls (Brie Larson na versão adulta, Ella Anderson na versão jovem e Chandler Head na versão infantil), filha de Rex (Woody Harrelson) e Rose Mary (Naomi Watts), dois pais errantes.
Ela lembra do passado com os irmãos Lori (Sarah Snook na versão adulta, Sadie Sink na versão jovem e Olivia Kate Rice na versão infantil), Brian (Josh Caras na versão adulta, Charlie Stowell na versão jovem e Iain Armitage na infantil) e Maureen (Brigette Lundy-Paine na versão adulta, Shree Crooks na versão jovem e Eden Grace Redfield na versão infantil), enquanto está num compromisso sério com David (Max Greenfield).

Trata-se de uma história autobiográfica, sobre uma família disfuncional, em que o pai alcóolatra leva a família para viver a verdadeira liberdade pelas estradas dos Estados Unidos, alugando casas diferentes e fugindo de federais. Qualquer semelhança com Capitão Fantástico não é mera coincidência, mas aqui há uma base dramática mais acentuada, principalmente nos conflitos de Jeanette com seu pai. Como lidar com alguém que imagina não possuir o problema que de fato tem? Se no início Jeanette é tirada de um hospital com queimaduras no corpo porque não seria o ambiente propício para cuidá-la, como se sentir segura com alguém que não cumpre as promessas? O espectador lembra que Temporário 12, filme anterior de Cretton, mostrava crianças abandonadas recolhidas num abrigo, a partir das memórias do próprio diretor. Aqui essas crianças não estão abandonadas, mas inseridas num sistema em que não estão preparadas para se adaptar. Não fica muito claro por que Rex age desse modo, mas o momento em que volta à sua casa de origem pode oferecer explicações indiretas e não expositivas (o roteiro é muito bem pensado). Junto a isso, a fotografia de Brett Pawlak captura uma certa solidão impositiva.

O castelo de vidro é um filme muito interessante na maneira como apresenta seus personagens. Se Rex é um easy rider, a mãe é uma pintora (abstrata, como ela diz), tentando manter sua arte enquanto não há o que servir para os filhos. Há uma mescla de drama com moldes gregos aqui, mas sem acentuar a tragédia e sim mostrando conflitos dos pais com uma vida estruturada de forma previsível segundo eles. Claro que há um certo romantismo nesse olhar, mas Harrelson e Watts em seus papéis conseguem traduzir o conceito sem soarem pretensiosos ou deslocados. Harrelson vem se especializando em papéis à margem desde sempre (e neste ano aparece ótimo também em Quase 18Wilson), enquanto Watts foge ao seu estilo mais uma vez, fazendo uma mãe distante de qualquer diálogo real.
A personagem de Larson obviamente quer negar a sua origem e se adaptar a uma vida tranquila em Nova York, mas ela não consegue se libertar das amarras do passado. Nesse sentido, o corpo, vestido com roupas simples ou não, evita qualquer afastamento completo da infância, e isso se demonstra numa bela cena em que Jeannette o mostra a outro homem. O diretor, nisso, deseja contrastar o ambiente vazio do presente da personagem, com sua arquitetura exemplar, com a agitação da casa familiar no passado e sua desconjuntura, inclusive nas casas sem cuidado de limpeza ou simples organização – por vezes funciona, por vezes não. No momento em que essa família se reencontra não é para reparar o que aconteceu e sim acentuar as divergências, no entanto é quando Cretton se mostra mais sensível a alterações narrativas, não conseguindo prover cada personagem secundário de substância real.

A história se concentra em Jeannette e não em seus irmãos, embora eles apareçam também, e cresce à medida que mostra o relacionamento com o pai, desde a infância – e as atuações de Chandler Head e Ella Handerson talvez sejam até melhores que a de Brie Larson, que é boa e continua sua parceria iniciada com Cretton em Temporário 12. Há um momento levemente manipulador, quando ela e seu pai estão deitados olhando as estrelas, mas o diálogo funciona. Noxon, um dos roteiristas, dirigiu O mínimo para viver, sobre a anorexia, e acerta aqui no equilíbrio entre esses personagens como já acontecia em seu filme. Se Capitão Fantástico tentava demonstrar um discurso ideológico, em O castelo de vidro há uma discrição mais abrangente, sobretudo por meio da personagem de Rose Mary, mantendo a discussão mais no plano familiar. Cretton aborda de forma interessante as atitudes do pai que sempre fala em liberdade, mas tem um apego sentimental a Jeannette, não querendo que ela tenha uma vida própria ou mesmo um envolvimento sério com algum homem. Sua atitude é infantil, mas essa ligação é desenhada desde o momento em que ele tenta ensiná-la a nadar numa piscina pública, simplesmente jogando-a na água, sem saber boiar, ou quando ele volta para casa com um corte no braço e ela costura a ferida com uma agulha, no momento melhor desenvolvido e ressonante da narrativa. Em outros instantes, essa aproximação entre os dois não é calibrada o suficiente, mas quando Larson e Harrelson entregam sua melhor participação é quando a narrativa cresce e O castelo de vidro se mostra decisivamente belo.

The glass castle, EUA, 2017 Diretor: Destin Daniel Cretton Elenco: Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts, Max Greenfield, Ella Anderson, Chandler Head, Sarah Snook, Brigette Lundy-Paine, Josh Caras Roteiro: Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham, Marti Noxon Fotografia: Brett Pawlak Trilha Sonora: Joel P. West Produção: Gil Netter, Ken Kao Duração: 127 min. Estúdio: Gil Netter Productions Distribuidora: Lionsgate

Kong – A Ilha da Caveira (2017)

Por André Dick

O clássico King Kong de 1933 marcou não apenas sua época, como a história do cinema, e quando Dino De Laurentiis produziu uma refilmagem em 1976 foram poucos os que se atreveram a elogiá-la ou traçar comparações dela com o original. Obviamente, uma falha gigantesca: o King Kong dos anos 70, com sua crítica à indústria petrolífera, é, como diz Pauline Kael, um filme muito divertido. Em 2005, Peter Jackson fez a segunda refilmagem, numa obra grandiosa e com vigor incomum. O interessante é que as duas refilmagens ganharam o Oscar de efeitos visuais. Em Kong – A Ilha da Caveira não temos exatamente uma nova versão da mesma história. Pelo contrário.
Desde o início, quando se mostra uma queda em 1944 durante a Segunda Guerra Mundial de dois caças numa ilha do Pacífico Sul, temos uma liberdade histórica mais abrangente para a figura central.  Em 1973, James Conrad (Tom Hiddleston) é selecionado por um agente do governo norte-americano, Bill Randa (John Goodman), para ser guia de uma expedição exatamente a essa Ilha da Cavaleira, recém-localizada e que desperta o interesse governamental. Para a missão, também é chamado o Coronel Preston Packard (Samuel L. Jackson), com seu esquadrão Sky Devils, constituído por combatentes da Guerra do Vietnã, tendo como braço direito o major Chapman (Toby Kebbell). Junta-se ao grupo também Mason Weaver (Brie Larson), uma fotógrafa pacifista.

A chegada a ilha marca uma situação até então prevista, quando os personagens são lançados em meio a uma espécie de Apocalypse now, como muitos têm falado sobre o filme. Mas, desde o recrutamento de Conrad, num local conturbado, passando pelo soldado Reg Slivko (Thomas Mann), que usa uma bandana vermelha como Christopher Walken em O franco-atirador, este Kong é um subtexto do filme de Michael Cimino vencedor do Oscar principal em 1978. Com suas menções históricas a Richard Nixon, a história do monstro se confunde com a da própria América. A Ilha concentra não apenas King Kong, como também outros animais pré-históricos gigantes e muitas, muitas ossadas de animais já mortos, o que concede uma grande variedade de efeitos visuais e uma fotografia esplêndida de Larry Fong, habitual colaborador de Zack Snyder, com suas colorações destacando o criativo design de produção.
Na jornada, seguem Conrad, Weaver, os biólogos San Lin (Jing Tian), Houston Brooks (Corey Hawkins), os soldados Slivko e Cole (Shea Whigham) o empregado Victor Nieves (John Ortiz), entre outros, que encontram os indígenas do local – como de praxe nos outros da série – e a figura de Hank Marlow (John C. Reilly), um combatente de guerra que vive ali há anos com um aspecto de Capitão Ahab de Moby Dick.

O lugar onde eles vivem remetem claramente à aldeia administrada pelo personagem de Marlon Brando em Apocalypse now, e Marlow se torna a figura mais significativa e interessante da narrativa, graças à boa atuação de Reilly. Ele é como se fosse um elo de ligação entre a época das versões passadas nos anos 30 com a dos anos 70 – e mesmo a tribo não é mostrada como ameaçadora e sim pacífica, tanto que em certo momento se brinca com o lema “Paz e amor”, típico da década de 1970. É uma pena que, em meio a cenas realmente atrativas de ação e um fantástico arsenal de efeitos, os personagens de Conrad e Weaver se sintam tão fracos – ao contrário de Jeff Bridges e Jessica Lange no filme de 76 e de Naomi Watts e Adrien Brody no de 2005. Não porque Hiddleston e Larson não atuem bem, mas porque o arco deles não é suficientemente desenhado e deixe dois dos melhores nomes da atualidade com uma participação excessivamente discreta. Nesse sentido, esta nova obra envolvendo King Kong não prima exatamente pela faceta dramática ou elegância na construção dos personagens – como era o de Jackson principalmente –, sendo muito mais um blockbuster real e de peso, literalmente, o que não tira seus méritos, sobretudo aqueles que envolvem escolhas pessoais do diretor Jordan Vogt-Roberts em relação ao material de origem.

O filme cresce mais em sua analogia da Ilha da Caveira com a Guerra do Vietnã e o roteiro, escrito por Dan Gilroy, o diretor de O abutre, Max Borenstein, que escreveu o Godzilla de 2014, e Derek Connolly, responsável pela narrativa de Jurassic World, nunca deixa de encadear sequências com grande agilidade e ainda assim com lógica, sem quedas abruptas ou mudanças de rumo inaceitáveis. Quando Marlow faz um discurso sobre a onipresença de King Kong na ilha, ele parece estar se referindo ao que o exército dos Estados Unidos achou ser no Vietnã e, quando ele se refere aos pais mortos da criatura, parece delimitar uma época: algo aqui se perdeu. O exército de Packard chega à ilha com helicópteros e bombas, mas este é um novo lugar onde eles não conseguirão mudar o rumo da história. Tudo se sente como um início de franquia, o que, se por um lado incomoda quem gosta do personagem na roupagem mais clássica, por outro promete novos embates. Esses são claramente inspirados pela versão de Peter Jackson e, onde eram comparáveis quase a um video game de destruição, não deixam de ter uma textura verdadeira e até ameaçadora. Ou seja, o filme consegue lidar melhor com seus elementos de origem do que, por exemplo, Jurassic World em relação ao clássico de Spielberg. Quando vemos King Kong em ação, ele parece realmente uma figura em movimento, não um mero produto de efeitos visuais e CGI. É o que concede emoção particular a esta obra de Vogt-Roberts.

Kong: Skull Island, EUA, 2017 Direção: Jordan Vogt-Roberts Elenco: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, John Goodman, Brie Larson, Jing Tian, ​​Toby Kebbell, Corey Hawkins, Shea Whigham, Jason Mitchell Roteiro: Dan Gilroy, Max Borenstein, Derek Connolly Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Jon Jashni, Mary Parent, Thomas Tull, Alex Garcia Duração: 118 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Legendary Pictures / Warner Bros.

 

 

O quarto de Jack (2015)

Por André Dick

O quarto de Jack 3

O diretor irlandês Lenny Abrahamson vem construindo uma trajetória no cinema underground e fez especialmente dois grandes filmes, Garage e Frank. Numa época de filmes como isca para o Oscar, não se esperava que Abrahamson se tornasse uma espécie de Alexander Payne, ou seja, um diretor considerado do cinema dito indie recebido pela Academia de Hollywood com bastante entusiasmo. Com O quarto de Jack, ele apresenta uma história feita com uma certa agilidade narrativa cada vez mais rara diante de um tema nem um pouco leve. E talvez o melhor antes de assisti-lo seja ter menos informações possíveis, para que o impacto também seja diferente.
Joy Newsome (Brie Larson) e Jack (Jacob Tremblay) estão nas mãos de um sequestrador, Nick (Sean Bridgers), num pequeno quarto ao fundo de uma casa. Estão lá há 7 anos, sem nenhum contato com o mundo real. Joy e Jack tem uma determinada rotina, no entanto deve ser rompida, pelo desejo principalmente de a mãe poder ter seu filho inserido numa vida real. Tudo é desencadeado por mãe e filho fazendo um bolo de aniversário: seu desespero é não saber se o panorama irá mudar. A experiência do filho, para ela, não pode ser reduzida a olhar o céu por uma claraboia no alto do quarto, nem a dormir dentro do armário, tendo de se esconder quando chega Frank. Filmes sobre sequestradores costumam ter uma densidade complexa, o que leva o espectador a uma sensação de claustrofobia, e O quarto de Jack tem uma maneira muito impactante de lidar com o tema, mostrando a relação de uma mãe e de um filho confinados a um determinado espaço, sem poder reagir. Neste espaço, a supressão de liberdade constitui um universo em que eles precisam construir outra vida, o que se transforma numa realidade paralela à que transcorre do lado de fora.

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Abrahamson é um grande diretor de atores, como já mostrou em seus projetos anteriores, e aqui não é diferente. Larson, depois de ótimas participações em Anjos da lei, Temporário 12 e O maravilhoso agora, tem a grande oportunidade de sua carreira, trabalhando com nuances já reveladas nesses dois últimos filmes. Por sua vez, Tremblay é não menos do que excepcional com um roteiro bastante difícil, diante da situação. São raros os atores mirins que conseguem proporcionar uma emoção verdadeira como a dele. Num duo com Larson, no papel de uma mãe que teve sua vida desconstruída depois de ser enganada por um homem que tentava ajudar, Tremblay sustenta alguns dos grandes momentos de atuação (e DiCaprio deve ficar tranquilo ao não tê-lo como concorrente ao Oscar). O mais interessante é como Abrahamson adota o ponto de vista dele a fim de que o espectador tenha o seu sentimento pela mãe. Ele se indaga sobre o que acontece em sua vida, mas a rotina é tão forte que ele parece não perceber o que está passando ao seu redor. O quarto se torna, então, seu universo, no qual imagina cada circunstância do que vier a acontecer em sua vida (e as sequências iniciais, nesse sentido, sintetizam a narrativa). Sua distância do sequestrador é definidora para esta questão, e Abrahamson, como em Frank, deixa a critério do espectador identificar o modo como seu personagem vai evoluindo, principalmente num nível psicológico (e naquele filme o diretor contava com um ótimo Michael Fassbender escondido por baixo de uma máscara). Antes desse seu filme reconhecido, ele havia mostrado um homem solitário que trabalha num posto de gasolina em Garage, certamente um dos filmes mais incisivos sobre o isolamento de alguém em relação à sociedade e, ao mesmo tempo, muito comovente. Neste plano de análise sobre uma solidão (esta imposta por outra pessoa), O quarto de Frank dialoga de forma hábil tanto com Frank quanto com Garage, mostrando um estilo pessoal. Danny Cohen, colaborador habitual de Tom Hooper, apresenta um trabalho de imagens menos elaborado se compararmos com A garota dinamarquesa, mas deve-se destacar que ele pode trabalhar com diálogo entre cenário e figurino sempre com as mesmas cores, menos, digamos, pictórico. Ainda assim, sua presença por trás da câmera ajuda a captar de modo delicado o drama de mãe e filho, trabalhando com detalhes e enquadramentos.

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O roteiro, adaptado por Emma Donoghue do próprio romance, é bastante específico e nunca se distancia muito dos pontos-chave. Mesmo assim, o ponto principal de Abrahamson é a aproximação entre mãe e filho, a maneira como cada um ajuda ao outro a sustentar um momento perturbador de suas vidas. E os personagens são ao mesmo tempo bem desenhados e possuem um comportamento plausível, sem Abrahamson apelar a um exagerado drama que poderia conduzir a narrativa, inclusive usando uma trilha sonora discreta. Mesmo a ligação de Jack com o “mundo real” (como ele se refere) é feita por Abrahamson em momentos singelos (spoiler: quando ele é apresentado a um cão ou quando joga bola com uma vizinha). Interessante também a maneira como o cabelo comprido do menino é usado tanto como um símbolo (ele diz que representa sua força) quanto numa imagem à semelhança da mãe (pois é a única figura que realmente conhece e com que se identifica).
Abrahamson, do mesmo modo, lida bem com a oposição entre o escuro do quarto e a possível luminosidade do mundo. É como se tanto um novo mundo pudesse se descortinar como também os personagens precisassem enfrentar uma determinada verdade que os conduziu até ali. Neste ponto, Larson e Tremblay são cada vez melhores. O quarto de Jack passa a ser uma das obras de cinema independente com a indicação ao Oscar mais merecida nos últimos anos, pois não tenta emular uma determinada estética para agradar e sim mostrar um caso capaz de repercutir junto ao espectador, com um cuidado muito grande na maneira de expor suas ideias, além da sua clareza e notável sensibilidade.

Room, IRL/CAN, 2015 Diretor: Lenny Abrahamson Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, Joan Allen, William H. Macy Roteiro: Emma Donoghue Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Stephen Rennicks Produção: David Gross, Ed Guiney Duração: 118 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: A24 / Element Pictures / No Trace Camping / TG4 Films

Cotação 4 estrelas e meia