Vingadores – Ultimato (2019)

Por André Dick

Em Vingadores – Guerra infinita, os  irmãos Joe e Anthony Russo não tinham tempo a perder: empregavam uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as suas consequências. Eles acreditavam oferecer um ar dramático e, apesar dos conflitos físicos, os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU, inclusive os anteriores de Joss Whedon, desapareciam.
Não havia a construção de um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, extraindo qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parecia ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredava por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, os Russo estavam interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo compartilhado da Marvel, uma falha de ignição notável, que sua bilheteria impressionante não conseguiu sobrepujar.

O que poderia acontecer em um ano, para a chegada de Vingadores – Ultimato? Primeiro, parece que os Russo fizeram concessões em Guerra infinita para realizarem este segundo com mais liberdade. Embora haja elementos do produtor Kevin Feige, ele não tem claramente a presença aqui como nos demais desse universo. Com exceção de alguns momentos de ação, da fantasia e do estilo narrativo em determinadas partes, é outro tipo de cinema. Apesar do tom de autoimportância, ele vai, aos poucos, se confirmando como plausível.
Ultimato tem um primeiro terço verdadeiramente dramático, com um cenário de terra arrasada literalmente, desde a primeira sequência com a família de Clint Barton/Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), notável na criação de um espaço de distância de tudo, apesar de elementos cômicos pontuais e cabíveis no contexto.

É o que a Marvel mais conseguiu fazer próximo da sua principal rival na área, mas com um sentido mais pop, embora não menos emocional. É delicado, simples e vai direto ao ponto, com Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Thor (Chris Hemsworth), Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), James Rhodes (Don Cheadle), Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), Rocket (Bradley Cooper) e o Gavião Arqueiro, além de Carol Denvers (Brie Larson) e Nebula (Karen Gillan), querendo arranjar uma solução para conseguirem rever alguns companheiros desaparecidos (para quem não viu Guerra infinita, deixo em suspenso). Também temos Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e o melhor acréscimo: Scott Lang/Homem-Formiga (o sempre efetivo Paul Rudd). Todos querem enfrentar novamente o temível Thanos (Josh Brolin). Não sem antes os irmãos Russo conseguirem reproduzir uma série de sequências cômicas com Thor e Bruce Banner que não têm o absurdo de Thor: Ragnarok, mas resoluções por vezes notáveis (e os efeitos especiais de Banner são ótimos).

Desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, os Russo não conseguiam fazer interação entre personagens como. Se em Guerra infinita os super-heróis apareciam e desapareciam sem criar o devido impacto, em Ultimato eles são devidamente considerados. Não há mais lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros e mesmo durante as batalhas os encontros se dão com uma sensação de vínculo ou proximidade. Se Bruce Banner pouco aparecia no último, aqui ele finalmente ganha um sentido narrativo. O mesmo se diz de Capitão América e Homem de Ferro, em atuações ótimas de Chris Evans e Robert Downey Jr. São personagens que pouco tinham a fazer em termos realmente dramáticos em Guerra infinita. Sobretudo o Capitão América, por ser o personagem mais dirigido pelos Russo, ganha um tom de serenidade empregado por Evans capaz de se contrapor aos episódios iniciais de maneira muito interessante, no entanto, ainda assim, evocando principalmente a obra inicial de sua história, dirigida por Joe Johnston. Ele representa os personagens principais do filme de 2012, cujo arco é fechado nesta peça de maneira muito competente e que recebem o destaque merecido em relação aos que tiveram seus filmes feitos depois.

Ao longo da narrativa, há uma sensação de passagem de tempo, de melancolia, que inexiste em qualquer outro filme da Marvel, pois a companhia, muito por causa de seu produtor, costuma padronizar algumas tramas. Os Russo estão mais interessados em sensações que não têm obrigatoriamente vínculo com uma franquia ou com ultrapassar bilheterias: eles conseguem desenhar um arco amplo sobre o universo compartilhado sem caírem na previsibilidade, inclusive com momentos-chave envolvendo personagens até mortos, criando uma redoma de tempo que não pode mais ser recuperado. Nesse sentido, elogiar Ultimato pelos pressupostos com os quais eram tecidos os comentários sobre Guerra infinita é estranho: ambos são quase totalmente diferentes. Mesmo visualmente, o quarto episódio com todos os heróis da Marvel é mais discreto, sem tanto CGI, focado em paisagens terrestres isoladas, ou casas campestres, criando uma ilusão de mundo distanciado. Os movimentos de câmera são mais dosados, não há uma necessidade de soar frenético e cada comportamento dos personagens parece ter uma explicação dentro da trama, fazendo com que a duração de 3 horas seja fluida, sem interrupções ou desvios tortuosos.

Vingadores – Ultimato tem referências a muitas obras sobre passagem do tempo, de forma mais destacada à trilogia referencial De volta para o futuro, porém apresenta ainda mais um diálogo implícito, ao final, com uma obra-prima de Stanley Kubrick sem diluir numa ideia de universo compartilhado, contudo conseguindo expandi-lo dentro do mundo do cinema. Nessa atemporalidade, vemos até Barton e Natasha em cenários que remetem a Encontros e desencontros, filme responsável por elevar a trajetória de Johansson no início deste século. São os últimos 10 minutos que asseguram o quanto, por mais que seja produto de um universo pop levado à exaustão, é possível fazer um grande cinema blockbuster sem esquecer o atrativo da história à margem de todos os personagens, lembrando a simples humanidade. Os irmãos Russo homenageiam a introdução heroica de Whedon a esses personagens, no entanto acrescentam um tom emocional incontornável e realmente infinito.

Avengers – Endgame, EUA, 2019 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle, Paul Rudd, Brie Larson, Karen Gillan, Danai Gurira, Bradley Cooper, Josh Brolin Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 181 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Vingadores – Guerra infinita (2018)

Por André Dick

Se  há uma qualidade que já havia ficado clara nos dois Os vingadores anteriores é que Joss Whedon tinha uma disposição de desenvolver esses super-heróis em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. No segundo, havia imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remetia a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los. Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses serviam como impulso para uma das melhores sequências, ligada a um ambiente campestre e no qual podíamos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação.

Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não ficava a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato preparava a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais eram tão boas ou ainda melhores do que as do original, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas situações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco.
Em Vingadores – Guerra infinita, os irmãos Anthony e Joe Russo, responsáveis por Capitão América – O soldado invernal e Capitão América – Guerra Civil, assumiram o lugar de Whedon. A história começa com Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) enfrentando o temível Thanos (Josh Brolin), desde sempre atrás das Joias do Infinito. Localizados no espaço, não por acaso logo teremos a presença dos guardiões da galáxia: Peter Quill/Starlord (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), acompanhados de Mantis (Pom Klementieff).

Em meio a tudo, aparecem Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Stephen Strange/Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch) e Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland), com a companhia de T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman). Muitos outros personagens adentram em cena: Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) estão de volta, assim como Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), além de James Rhodes (Don Cheadle), Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow).
Em seus Vingadores, Whedon os desenvolve como seres mitológicos e trabalhava com emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como todos ganham em seus filmes linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark, sempre, de certo modo, ligados ao passado. Se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais é obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.

Não há nenhuma discussão no plano conceitual em Vingadores – Guerra infinita. Trata-se apenas do embate de um vilão literalmente sem traços próprios – com a colaboração de um CGI perturbador – contra os vingadores, que parecem unidos apenas na campanha de marketing. Há pelo menos dois anos o universo MCU vem tendo dificuldades de unir seus traços de humor e drama em filmes irregulares como Doutor Estranho, Thor: Ragnarok, Capitão América – Guerra Civil e Pantera Negra. Todos parecem parte de uma linha de produção sem nenhuma tentativa de inovar, sob a liderança de Kevin Feige, o produtor que planifica histórias para encaixar sua visão de cinema.
Desde a saída de Whedon, o MCU só contou com três momentos muito bons: Homem-Formiga, Guardiões da galáxia 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar. Até certo ponto, como Guerra Civil não era um filme do Capitão América, este novo Vingadores parece um Guardiões da galáxia 3. Os irmãos Russo, no entanto, não têm o olho para o visual dinâmico de James Gunn e desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, não sabem identificar interação entre personagens. Todos em Guerra infinita aparecem e desaparecem sem criar o devido impacto. Há lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros, nunca formando uma unidade, e mesmo durante as batalhas os encontros se dão sem nenhuma sensação de vínculo ou proximidade. Não há uma ligação clara entre os diferentes grupos enfocados, embora um dos méritos desse universo compartilhado seja exatamente sabermos em que ponto da história desses personagens nos encontramos, o que, por outro lado, não acrescenta qualidade especial. Filmes devem se manter por si só e construir relações entre os personagens, mesmo que já hajam outros a apresentá-los, mesmo porque a reunião deles é inédita.

O mais afetado pela história apressada, mesmo com os 149 minutos de duração, é Banner, numa participação não apenas distinta daquela de Thor: Ragnarok, basicamente humorística, cuja relação com a Viúva Negra não se estabelece sequer com uma conversa, apenas um olhar distanciado (isso desde o afastamento da obra de Whedon há três anos). Talvez Quill se destaque, junto com Thor e o Rocket; de resto, nem o carisma de Downey Jr. consegue dar sentido ao fato de o Homem de Ferro estar aqui, e Holland, que demonstrou ser um bom Homem-Aranha, é subutilizado de maneira inegavelmente injusta. Os diretores não têm tempo a perder: Guerra infinita é uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as consequências do que fazem.
Os Russo acreditam oferecer um ar dramático ao vilão Thanos, mas se trata de uma figura tão carregada digitalmente (e que nem as expressões de Brolin conseguem realçar, ao contrário de Serkis ao interpretar Cesar em Planeta dos macacos) que soa, a cada instante em que aparece, artificial como a história que o cerca. Existem os conflitos físicos, no entanto os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU desaparecem, em virtude do roteiro limitado de Christopher Markus e Stephen McFeely, que tenta passar do trágico para o cômico de forma tragicômica.

Uma caminhada no parque de Stark e Pepper, lembrando a comicidade saudável dos dois primeiros Homem de Ferro, é interrompida por um inesperadamente denso Doutor Estranho, sem mais tempo para piadas com os livros da biblioteca. Os Russo não possuem a menor ideia de constituir um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, que extrai qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parece ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredavam por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, eles parecem interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo MCU, uma falha de ignição notável, que nenhuma bilheteria conseguirá sobrepujar. Talvez a quarta parte, já em realização, com um pré-aviso: os Russo são novamente os diretores.

Avengers – Infinity war, EUA, 2018 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Benedict Cumberbatch, Don Cheadle, Tom Holland, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Danai Gurira, Letitia Wright, Dave Bautista, Gwyneth Palthrow, Zoe Saldana, Idris Elba, Josh Brolin, Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 149 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

Capitão América – Guerra Civil (2016)

Por André Dick

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Se o primeiro filme da nova fase de Capitão América era dirigido pelo competente Joe Johnston, um especialista em obras de fantasia, com uma ótima ambientação e uma atuação excelente de Stanley Tucci, a sua continuação, Capitão América 2 – O soldado invernal, parecia indicar realmente uma narrativa diferenciada, com toques de thriller de espionagem e uma cena de luta coreografada num elevador. Chris Evans se tornou uma boa referência para o personagem depois do primeiro filme de Joe Johnston – em que o destaque era o início, mostrando o surgimento do personagem – e Scarlett Johansson novamente tinha boa presença.
Apesar de ótimas cenas de ação, há uma sensação incômoda de que o visual da segunda parte de Capitão América tende a lembrar mais a de um telefilme do que a imaginação do primeiro, claramente causado pela mudança de cenário; no entanto, ela é brusca e o design de produção não é atraente para os olhos, assim como a fotografia. Ao final, os efeitos especiais e as cenas de ação lembravam Os vingadores de forma demasiada para dar a sensação de que havia realmente algo original a ser visto nele – embora tivéssemos a atuação de Robert Redford e Samuel L. Jackson cumprindo bem o seu papel.

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No entanto, o que realmente decepciona no segundo filme é a direção dos irmãos Joe e Anthony Russo, mais interessada em seguir o roteiro da Marvel do que investir naquele caminho que apresentam na primeira hora – quando há até um pouco de elementos autorais. Nesta terceira parte, Capitão América – Guerra Civil, novamente dirigida por eles, temos já desenhado o duelo – demarcado principalmente por certa cota da crítica – entre o que seria o estilo da Marvel e o da DC Comics. Mesmo com os três Homem de Ferro, os dois Hulk e Thor, é este o momento em que Batman enfrenta Superman no cinema e as comparações passam a ser do filme de Snyder com a obra dos irmãos Russo. E um fato notável: cada peça lançada de super-heróis da Marvel passa a ser a maior já feita no gênero, parecendo ignorar o que já fizeram cineastas como Tim Burton, Richard Donner, Richard Lester, Ang Lee, Edgar Wright, Jon Favreau, Kenneth Branagh, Sam Raimi, Cristopher Nolan e aquele ao qual foi entregue, inadvertidamente, a placa de prepotência desse universo: Zack Snyder. Não passa a ser desconhecimento, e sim uma consciente e infeliz falta de memória.
Nos dois primeiros Capitão América, faltava uma ligação mais interessante do personagem com os outros; ele se sentia sempre isolado, em conflito, mesmo como Steve Rogers, afora seu interessante contato com o criador feito por Stanley Tucci – e a série passa de uma quase fantasia do primeiro para um thriller no segundo. É um personagem sem o carisma dos outros, principalmente Stark, embora Evans faça o possível para tornar seus diálogos ágeis e seja, digamos, a parte mais melancólica do grupo, devido a ser alguém do passado vivendo numa época turbulenta.

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Aqui os irmãos Russo colocam o personagem numa situação delicada: ele quer defender seu amigo de longa data, Bucky Barnes (Sebastian Stan), o soldado invernal, capturado e transformado pela Hydra em assassino, do que ele imagina ser uma conspiração. Para complicar, houve um problema num país no Quênia, África do Sul, provocado tanto pelo Capitão América quanto pelo Falcão (Anthony Mackie), Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e a Viúva Negra (Scarlett Johansson).  Causam um certo alvoroço e o governo dos Estados Unidos, pela figura do secretário de Estado Thaddeus Ross (William Hurt), ex-general e inimigo de Hulk, deseja enquadrar os vingadores. A partir daí, o mote é a lembrança do que eles já fizeram nos filmes anteriores – sobretudo em Nova York e em Sarkovia. Stark se encontra num momento particularmente difícil e parece longe seu desafio às autoridades sobretudo de Homem do ferro 2, quando ele pretende privatizar a paz mundial. Aqui, ele parece mais preocupado em acertar um determinado acordo com a ONU e convencer o Capitão América – com quem se desentende desde o primeiro Os vingadores – que surge principalmente nas figuras de T’Chaka (John Kani) e seu filho T’Challa (Chadwick Boseman). Em meio a tudo, surge uma figura chamada Helmut Zemo (o talentoso Daniel Brühl, inevitavelmente desperdiçado).
Os irmãos Russo, como no segundo filme, apresentam uma primeira hora de grande qualidade, com uma colocação acertada dos personagens e uma trama misteriosa que está no nível dos bons thrillers. Eles sabem fazer cenas de contato físico aproximado, o que não é uma especialidade de Joss Whedon, mais interessado na grandiosidade dos cenários, principalmente nas batalhas finais dos dois Os vingadores. Os irmãos Russo também possuem um bom ouvido para o diálogo; ele não soa forçado, mesmo que as situações pareçam excessivamente implausíveis. Porém, eles não apresentam o que seria um diferencial no gênero da fantasia: a ambientação.

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Tudo neste Capitão América, como no anterior, se passa em cenários duramente reais, sem um design de produção atraente. Por isso, a comparação deste estilo com o de Zack Snyder – o diretor que, junto a Nolan, projetou o visual dos filmes da DC Comics –, um criador com toque visual delirante, é improvável e deslocada. O que eles mostram aqui é uma deliberada ponte entre o humor e a ação, a especialidade de Joss Whedon, ou seja, não há evolução aqui como deseja parte da crítica e do público, aceitem ou não seus críticos, e um interesse em tratar da política e do modo como a segurança é vista – ou deve ser vista – em relação ao ser humano, embora esse tema não chegue a ser original.
Por estarem incumbidos de apresentar um filme com uma quantidade insuspeita de heróis – e talvez falar neles possa remeter a spoilers –, eles tentam facilitar as coisas assumindo tudo numa única sequência que surpreende pela coreografia impecável das lutas e por um efeito visual específico, mesmo que sem nenhum tom de ameaça (pelo contrário, os personagens parecem apenas se apresentar para o próximo episódio) e cujo cenário é absolutamente comum, sem nenhuma criatividade. Se é isso que certa crítica aponta como sendo o problema de Snyder (o CGI), pode-se dizer que estamos falando de outra coisa: a decisão da Marvel de fazer uma ambientação seca, sem, inclusive, o que víamos nos dois Thor, torna suas produções visualmente muito limitadas. Tanto que, quando em determinado momento (spoiler), surge uma prisão marítima espetacular, parece que o espectador adentra em outro filme (se fosse em Snyder, certamente a concepção da prisão seria excessivamente dark).

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Em termos de simbologia, também não há qualquer semelhança dos irmãos Russo com Snyder. Capitão América é um personagem envolvido com corporações, mas sua dedicação à amizade coloca em xeque sua amizade exatamente com alguns companheiros de batalha. No entanto, enquanto Snyder aprofunda o fato de que os heróis não são assim porque querem, a alegria dos heróis da Marvel é justamente serem o que são. Não ver essas diferenças é uma desonestidade consciente, quando Capitão América, em seus melhores momentos, entrega um ritmo não no nível de Whedon ou mesmo do Homem-formiga – particularmente o maior acerto da companhia –, mas de um filme de ação muito bem feito. Ainda assim, faltam motivações claras por parte do vilão, além de ele se distanciar da narrativa com um tempo considerável para quase ser esquecido, e nenhum até agora conseguiu se equivaler ou superar o Loki de Tom Hiddleston – e William Hurt, com sua habitual competência, acaba assumindo às vezes o posto de forma involuntária. Isso é contrabalançado por Chris Evans e por um ótimo Robert Downey Jr., em participação superior às que apresenta no terceiro Homem de Ferro e no segundo Os vingadores – e o ator aparece no início do filme em versão jovem revolucionária, como se estivesse em De volta às aulas ou Mulher nota mil.
Embora Capitão América – Guerra Civil sobreviva muito bem às duas primeiras partes, sendo o melhor por diferença considerável, há alguns elementos que poderiam ser melhor trabalhados no sentido, principalmente, psicológico. A maneira como Stark se aprofunda em sua memória poderia ser melhor trabalhada, em relação como a maneira que o Capitão América tenta proteger um amigo por ser, na verdade, seu único elo vivo com o passado. Stark é o homem da modernidade e o Capitão América se conserva com certo classicismo. A Viúva Negra fica procurando por uma conciliação, mas é difícil quando os comportamentos são opostos. Isso não fica empregado do melhor modo pelos irmãos Russo, pela necessidade de incluir tantos super-heróis, embora eles consigam delinear as relações entre os personagens com desenvoltura, tudo acaba parecendo disperso, mesmo que em ritmo adequado (poucas vezes se repara na excessiva metragem) e com um final realmente surpreendente e que costura algumas tramas paralelas do melhor modo. No entanto, o que é um filme divertido não significa ser de fato superior aos outros, mesmo aos da Marvel, apenas para os que não viram (realmente) os de Whedon, Branagh, Ang Lee: como a presença de Stan Lee, as cartas estão sempre marcadas.

Captain America: War civil, EUA, 2016 Diretores: Anthony Russo, Joe Russo Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Don Cheadle, Jeremy Renner, Chadwick Boseman, Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Daniel Brühl, Paul Rudd, William Hurt  Roteiro: Christopher Markus, Jack Kirby, Joe Simon, Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Kevin Feige Duração: 146 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Entertainment / Marvel Studios

Cotação 3 estrelas

 

Vingadores – Era de Ultron (2015)

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Desde o grande sucesso do primeiro Os vingadores, a mobilização dos estúdios Disney e da Marvel para os filmes dos super-heróis ligados a esta franquia tem sido mais assídua. Logo após os acontecimentos que colocaram Nova York em estado de alerta para possíveis invasões vindas do espaço, foi lançado Homem de ferro 3, seguido por Thor – O mundo sombrio e, no ano passado, Capitão América 2 – O soldado invernal, com a presença também da Viúva Negra. Além desta e do Gavião Arqueiro, Hulk também continua ainda sem o filme próprio com Mark Ruffalo, levando em conta que tem as versões com Eric Bana e Edward Norton. Se Os vingadores continua ainda sendo confundido com uma marca, mais do que uma obra ou adaptação de história em quadrinhos de Stan Lee, e se queira às vezes considerá-lo como mais um blockbuster, deve-se dizer que Vingadores – Era de Ultron traz Joss Whedon ainda tentando lidar com suas primeiras impressões como diretor, mesmo que nesse intervalo tenha feito Muito barulho por nada, uma adaptação moderna de Shakespeare e em preto e branco. Whedon, antes de ganhar esta oportunidade, era mais conhecido como o criador da série Buffy – A caça-vampiros e roteirista de Toy Story, e, de certo modo, tem um manancial de escolhas depois de realizar a primeira parte, entre elas a de lidar com atores que possuem uma carreira própria e mesmo em filmes ditos de público mais restrito, como Scarlett Johansson em Ela e Sob a pele; Ruffalo em Margaret e Mesmo se nada der certo; e Hemsworth em Rush e Hacker. Isso oferece a ele um caminho interessante, de colocar atores não normalmente vistos neste gênero – apesar de também terem suas trajetórias ligadas a ele, como Hemsworth – no centro da ação.

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Na primeira parte de Vingadores, Whedon revela uma determinada tentativa de já colocar todos os personagens em ação, literalmente invadindo a tela num salto em conjunto, numa missão a Sokovia, país fictício do leste europeu, em combate ao Barão Wolfhang von Strucker (Thomas Kretschmann). Ao invés de coordenar um grupo de experiência com outro intuito – político –, o barão Strucker está à frente de uma equipe que tem usado o cetro usado por Loki e como resultado de sua experiência com humanos, ligada à Hydra, os gêmeos Pietro (Aaron Taylor-Johnson) e Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) adquirem super-poderes. Esta passagem por Sokovia antecede uma série de experiências que o próprio Stark tentará fazer, com a ajuda do Dr. Banner, o que pode colocar em risco não apenas o seu grupo, como a própria humanidade – e aqui Whedon desliza para uma discussão que vem desde o primeiro filme de Homem de ferro: até onde pode ir a ciência para que não se coloque em risco a humanidade, envolvendo Jarvis (Paul Bettany), o sistema com inteligência artificial de Stark.
No entanto, os vingadores estão dispostos a fazer uma pausa, e compartilham uma festa na mansão de Stark; nesta longa sequência, desenham-se alguns caminhos tanto para a narrativa presente quanto para os próximos, que incluem não apenas Steve Rogers, o Capitão América, com seu amigo Sam Wilson (Anthony Mackie), que aparece em O soldado invernal, como também a relação entre Bruce Banner e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), e a amizade de Stark por James Rhodes (Don Cheadle). Há uma tentativa clara de Whedon, também, em esclarecer o paradeiro de outros personagens que não aparecem aqui, como Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e Jane (Natalie Portman) e, nessa preocupação, se esvaem alguns minutos que certamente não compreenderiam a história, pois se trata de uma explicação estranha, à medida que, por um lado, pode não ter havido espaço no roteiro ou simplesmente as duas atrizes não puderam interpretá-las.

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Essas explicações, ao mesmo tempo que soam necessárias para quem acompanha todos os filmes de Marvel, fazem com que o roteiro se desvie em alguns momentos de seu foco principal. Mas, se há uma qualidade que já havia ficado clara com o primeiro Os vingadores é que Whedon tem uma disposição de desenvolver esses personagens em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. Desta vez, ele coloca os heróis não apenas diante de uma ameaça enigmática, que pode colocar a ciência em xeque, como também em contrapor e unir todos em relação aos gêmeos. Nisso, há imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remete a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los, o que era incentivado no primeiro filme por Philip Coulson (Clark Gregg). Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses acabam servindo como impulso para uma das melhores sequências, que se liga a um ambiente campestre e no qual podemos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação (além de criar um diálogo com a ficção científica Interestelar, em que um aviador se escondia na pele de um fazendeiro e poderia ajudar a humanidade a se salvar de um desastre). Se as cenas de ação dos filmes dos heróis isolados parecem interessantes, nenhuma soa tão grandiosa quanto aquelas que víamos em Os vingadores.
Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não fica a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato parece preparar a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais soam tão boas ou ainda melhores do que as da primeira parte, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas sitações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, que soa original e espetacular, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco,

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Em meio às sequências de ação, há uma sucessão contínua de traços de humor, no entanto, pendendo mais para a série Thor do que para o terceiro Homem de ferro, eles conseguem dar uma solidez para a narrativa. Whedon tem uma agilidade grande em captar essas cenas sem que elas pareçam exageradas ou desprovidas de algum elemento humano, e neste ponto o que poderia ser apontado como desconexão entre algumas linhas de roteiro se transforma naquilo que é essência: esses heróis, para Whedon, são mitológicos e trabalham com as mesmas emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como, aqui, todos ganham linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark: eles estão, de certo modo, sempre ligados ao passado – e a única maneira apontada para uma condição de satisfação humana é aquela do Arqueiro. Este, inclusive, ressoa uma fala de Coulson do primeiro Os vingadores quando trata do uniforme feito para Steve Rogers. Mas, se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais foi obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.
Todos os super-heróis conseguiram desenvolver também, com a ajuda dos filmes próprios, uma personalidade características, e são auxiliados pelas atuações de Johansson, Hemsworth e Evans, além de Ruffalo e Renner (que no anterior passava quase toda a metragem sob domínio de Loki). Downey Jr. não desaponta no papel, entretanto é cada vez mais visível seu desconforto, assim como no terceiro Homem de ferro. Não apenas pelo roteiro, é exatamente o personagem de Banner que mais se destaca, muito pela presença de Ruffalo, cuja atuação mais interessante é aquele empregada em Zodíaco, mas que consegue, aqui, seguir na linha de Bill Bixby, da série de TV.

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Embora faça falta exatamente Loki (em razão do ótimo ator Tom Hiddleston), o vilão deste filme, por causa da voz de James Spader, soa com um fundo ameaçador, ainda que não totalmente desenvolvido por causa da quantidade de perspectivas que a narrativa adota, com ações ocorrendo ao mesmo tempo e em lugares diferentes, com vários personagens. Ainda assim, mesmo os coadjuvantes, como o próprio Aaron Taylor-Johnson, Olsen, Claudia Kim (como a cientista Helen Cho), Andy Serkis (como o traficante de armas Ulysses Klaw) e Cobie Smulers (como Maria Hill) estão bem em seus respectivos papéis, além de uma inesperada Linda Cardellini (da saudosa série Freaks and geeks) num papel discreto, mas eficiente. Este conjunto muitas vezes consegue levar o roteiro de Whedon para um estágio em que os vínculos entre as pessoas podem ser o único motivo, como no primeiro Os vingadores, de a humanidade ter, realmente, a sua sobrevivência. E, como o primeiro, o fato de este ter quase duas horas e meia não registra o tempo transcorrido: se o espectador está disposto a se entregar a um universo desta espécie, verá um grande encontro, já desde a primeira sequência.

Avengers: age of Ultron, EUA, 2015 Diretor: Joss Whedon Elenco: Robert Downey Jr.,  Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Mark Ruffalo, Chris Evans, Chris Hemsworth, Aaron Taylor-Johnson, Andy Serkis, Anthony Mackie, Claudia Kim, Cobie Smulders, Don Cheadle, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson, Idris Elba, James Spader,  Linda Cardellini, Paul Bettany, Stan Lee, Stellan Skarsgård Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman e Brian Tyler Produção: Kevin Feige Duração: 141 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

Homem de ferro 3 (2013)

Por André Dick

Homem de ferro 3.Filme 4

Em 2008, Robert Downey Jr., como o Homem de Ferro, enfrentou um grande vilão, Obadiah Stane (Jeff Bridges). Em 2010, novamente sob a direção de Jon Favreau, ele regressou ao papel de herói, tendo como rivais dois vilões interessantes, Ivan Vanko (Mickey Rourke) e Justin Hammer (Sam Rockwell). Ainda assim, o que se destacava, ainda mais do que o primeiro, era o bom humor de Downey Jr., além da aparição de Samuel L. Jackson e da cena de boxe com a personagem de Scarlett Johansson.
Se este segundo filme subestimado já começava no tribunal, com o Homem de Ferro sendo pressionado a dividir os segredos de sua invenção com o Estado, aqui o herói, já estabelecido e fazendo novos experimentos com sua armadura, começa se lembrando de um episódio ocorrido em 1999 (daqui em diante, spoilers) quando dormiu com uma bióloga, Maya Hansen (Rebecca Hall), na virada do ano em Berna, depois de ser abordado por um homem estranho, Aldrich Killian (Guy Pearce), a fim de tratar de negócios.
Com coadjuvantes de luxo, Favreau se saiu bem nos dois filmes que dirigiu, aliando técnica nos efeitos visuais e uma montagem eficiente, enquanto neste terceiro Shane Black tem uma dificuldade especial de dosar o ritmo. Com essa questão episódica demais – o passado que retorna com todos os seus problemas –, ele parece não conseguir, como Favreau, inserir os personagens em conjunto, apesar de a primeira meia hora ser agradável, e afasta alguns deles da trama durante muito tempo. A relação entre o Homem de Ferro e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow, eficiente como nos outros filmes) parece ter congelado no final do segundo filme. Ela está à frente, nas empresas, enquanto ele está em sua mansão, trabalhando no porão, escondido. Ele também não conversa pessoalmente uma vez sequer com aquele que, em determinado momento, de modo irônico, vai provocar nele um espírito de revanche (nem conversará no fim, o que parece indicar problemas no roteiro).

Homem de ferro 3

Homem de ferro 3.Filme 3

Desta vez, ele guarda pesadelos da batalha de Nova York de Os vingadores, mas o afastamento continua o mesmo, e não há exatamente um aprofundamento em sua psicologia, o que havia antes do clímax do segundo. Ou seja, se antes Stark e Pepper estavam quase sempre juntos, aqui parece que eles não têm vínculo estabelecido, apenas uma necessidade de dividir diversas piadas na sala de estar e no quarto. Nesse sentido, o filme não deixa a desejar.
A vida do Homem de Ferro começa a ser ameaçada quando surge um terrorista, Mandarim (Ben Kingsley, que parece saído diretamente do set de O ditador), que remete sobretudo a Bin Laden, e ele consegue invadir, com seus vídeos, todas as redes de televisão, depois de atentados em que não se consegue descobrir a origem das bombas. Embora aqui não estejamos tratando de A hora mais escura, e sua polêmica com as cenas de tortura, há cenas de humor um tanto estranhas (sobretudo aquelas que acontecem no Paquistão), pois trata-se de um filme de diversão que evoca diretamente um contexto muito mais sério. O aspecto cômico do filme acaba abalado por sua tentativa de estabelecer um contato com acontecimentos reais, que não são divertidos. Em algumas dessas sequências, entra em cena aquele que se denomina Patriota de Ferro, que na verdade é Jim Rhodes (Don Cheadle, menos efetivo do que no segundo filme).
Depois de uma catarse sonora e de efeitos especiais, é preciso, para Black, dar vazão ao filme e cultivar seus elementos externos, colocando o Homem de Ferro como amigo de um menino, Harley (Ty Simpkins, bom ator), o que, apesar de soar simpático e render momentos divertidos (sobretudo um diálogo que deve ter sido feito de forma improvisada por Downey Jr.), acaba extraindo boa parte do núcleo do filme e parece querer agradar, de forma apressada, o público infantil. O herói precisa recuperar-se para enfrentar o vilão: porém, o que ele faz é decorar uma garagem como laboratório. Claro que não se deseja achar que filmes que almejam o divertimento têm necessariamente uma faceta dramática, mas pode haver uma pausa para recuperar as ações. Quando acontece a catarse com sua mansão – e ela aparece no trailer –, tratando-se de uma sequência impressionante, com a ótima fotografia de John Toll (Cloud Atlas), onde ele, afinal, abrigava seus projetos, parece não haver a justa medida de sofrimento.

Homem de ferro 3.Filme

Homem de ferro 3.Filme 2

Num filme de ação, é preciso temer os vilões e se torcer para o herói superar suas dificuldades. Quando o herói parece não sentir dificuldades nem tem desejo de reparar a realidade em que vivia, a tensão, em boa parte, se perde (evidente no fato de que muitas vezes ele não está diretamente envolvido na ação e na conversa final, depois dos créditos). E quando o vilão, Mandarim, revela sua verdadeira faceta, vemos um lado de Kingsley constrangido (o extraordinário ator não escapa ileso da brincadeira).
Black, que fez o roteiro de todos os filmes da série Máquina mortífera (os dois primeiros são especialmente bons), mas também dos fracos O último boy scout e O último grande herói, e antes fez apenas um filme, justamente com Downey Jr., Beijos e tiros, que brincava com o cinema noir e tinha um estilo interessante, demonstra mais competência do que o esperado para cenas de ação grandiosas (e há pelo menos três no filme que parecem superar qualquer outra da série), mas acaba destoando justamente onde se esperava mais: no roteiro bem delineado e com diálogos eficientes. O que se vê é uma sucessão de gags, de todos os estilos, algumas delas divertidas, sobretudo pela atuação de Downey Jr. E, vendo de forma distanciada, um diretor que fez apenas um filme e não dirigia há oito anos não seria a melhor alternativa para imprimir ritmo.
O Homem de Ferro de Downey Jr. não pode ser levado totalmente a sério, mas tampouco soa sem elementos dramáticos ou sem uma relação paterna que o acompanha na criação da própria empresa. Aqui, a porção dramática diminui consideravelmente em passagens com maior tendência à autossátira, quase como o que fez Richard Lester em Superman III, e a crise de ansiedade inventada para Stark parece aleatória. Existe, inclusive, uma sequência que lembra a do personagem de Tom Cruise em Encontro explosivo, satirizando ele próprio em Missão impossível. Pelos trailers, parecia, inclusive, que haveria uma espécie de influência do terceiro Batman pela escuridão das imagens. Não é o que acontece (nem deveria), mas trailers certamente ajudam a estabelecer uma concepção visual prévia para o que irá se assistir. Não se espere, portanto, nenhum traço sombrio. Mas, particularmente, o que tira a energia que deveria haver no duelo entre Homem de Ferro e o empresário Killian é justamente Guy Pearce, ator que tem dificuldade de estebelecer uma ligação com a plateia e parece soar em muitos momentos exagerado. Sua atuação é, particularmente, equivocada, ainda mais por causa do roteiro e quando comparada às de Jeff Bridges, no primeiro, e de Rourke e Rockwell no segundo.
Existe emoção em Homem de ferro 3 quando Downey Jr. consegue mesclar o elemento do bom humor com o drama, quando ele está numa situação delicada e percebe que Pepper pode correr um perigo indesejado. É justamente quando estabelece ligações humanas que Homem de ferro 3 cresce. Quando ele soa com elementos de sátira a outros filmes, inclusive aos da série, ele acaba por não conseguir fazer o que mais quer: divertir.

Iron man 3, EUA, 2013 Diretor: Shane Black Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Ben Kingsley, Paul Bettany, Rebecca Hall, Jon Favreau, Don Cheadle, James Badge Dale, Ashley Hamilton, Yvonne Zima, William Sadler, Ty Simpkins, Miguel Ferrer Produção: Kevin Feige Roteiro: Shane Black, Drew Pearce Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Brian Tyler Duração: 130 min. Distribuidora: Disney Estúdio: DMG Entertainment / Marvel Studios / Paramount Pictures

Cotação 2 estrelas e meia

O voo (2012)

Por André Dick

O voo.Filme.Imagem

Demasiada carga leva o diretor Robert Zemeckis, depois de receber o Oscar de melhor filme e diretor por Forrest Gump em vez de Tarantino e seu Pulp Fiction. Zemeckis é, antes de tudo, um artesão descoberto por Steven Spielberg sobretudo depois de sua joia Febre da juventude, em homenagem aos Beatles, e que nos anos 80 voltou a capturar parte da juventude e da infância na trilogia De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, projetos de ponta. Se depois de Forrest Gump, o diretor só voltaria a acertar novamente em Contato e Náufrago, dedicando-se por um tempo a animações um tanto desajeitadas (como O expresso polar e Beowulf), desta vez ele retoma a agilidade da ação exibida em seus melhores momentos nos anos 80 e 90 em O voo, o filme que também marca a maior atuação de Denzel Washington desde Dia de treinamento, pelo qual recebeu o Oscar de melhor ator.
Ele interpreta Whip Whitaker, um piloto de avião movido a drogas, cocaína e álcool, principalmente (daqui em diante, possíveis spoilers). Inicia-se o filme com ele dividindo a cama com uma aeromoça, Katerina Márquez (Nadina Velazquez), colega de trabalho, num hotel perto de um aeroporto. Com voo marcado para a manhã, Whitaker não parece tão alterado como deveria, apesar do copiloto, Ken (Brian Geraghty), e de outra aeromoça, Margaret (Tamara Tunie), perceberem algo estranho. Depois de enfrentar uma tempestade na decolagem, o percurso fica mais tranquilo, até o surgimento de um problema técnico. Zemeckis filma esta sequência com perícia, colocando o espectador no meio de uma manobra arriscada para Whitaker tentar salvar sua tripulação. Com o feito realizado, ele acorda numa cama de hospital, sendo logo cercado por policiais e por Charlie (Bruce Greenwood), amigo que trabalha no Sindicato. No hospital, além de receber a visita do amigo traficante Harling Mays (John Goodman, divertido), ele conhece Nicole (Kelly Reilly), cuja ação na primeira parte divide as atenções com as manobras de Whitaker. É esse encontro entre os personagens que Zemeckis pretende filmar e o que o personagem precisa perder para que haja um reencontro com a sua fazenda de infância. Diante do seu estado físico e emocional, ele precisará explicar, com a ajuda do advogado Hugh Lang (Don Cheadle), como conseguiu pilotar se estava sob efeito de drogas. E, aos poucos, como o personagem de Tom Hanks, em Náufrago (com o qual O voo, não só pelo diretor, tem semelhanças, também por seu início), ele irá valorizar determinadas coisas para as quais não dava importância.

O voo.Imagem 4

A princípio, O voo está situado num limiar entre a investigação de um acidente e a procura de provas, de ambos os lados, do sindicato e da National Transportation Safety Board (NTSB), que investiga a ação dos pilotos, para se provar ou negar determinadas situações examinadas, e a compreensão de que o personagem de Washington tem problemas alcóolicos que o imobilizam tanto diante de uma nova relação quanto com sua família, que não deseja vê-lo. Parece ser apenas uma recorrência a velhos clichês, mas Zemeckis não verte isso de maneira fácil e o personagem sendo um piloto de avião não se apresenta de maneira tão óbvia. O diálogo entre Whitaker, Nicole e um jovem acometido pelo câncer na escadaria do hospital é especialmente bem construída, com suas peças sendo jogadas aos poucos, até que se convença o espectador sobre cada personagem. No meio de toda sua situação pessoal trágica, encontra-se a crença ou não em Deus e na religiosidade.
Whitaker tenta convencer a todos que só ele poderia realizar a manobra feita e que dependeu apenas de si mesmo, sem nenhuma ajuda divina. Os laudos técnicos lhe dão razão. Mas como Whitaker pode entrar numa reunião de alcóolicos anônimos se ele, na verdade, se considera um herói inatingível, capaz de superar tudo o que pode ser crença pessoal, mesmo independente da religião? É esta medida que o roteiro de John Gatins, indicado ao Oscar, faz de maneira sensível. Neste sentido, O voo não está centrado apenas numa cena jurídica, que pode inocentar ou culpabilizar o personagem central, e sim numa cena de dilemas, ética e crença naquilo que não pode ser rapidamente entendido e no vício que não pode ser enfrentado sem o enfrentamento pessoal e do que ele mesmo próprio acredita (lamenta-se que, nesta etapa, a participação de Kelly Reilly diminua).

O voo.Filme

Washington atua de modo excepcional como Whitaker, revelando minúcias e relutâncias de um verdadeiro personagem, pois O voo é um estudo sobre seus movimentos e sobre sua percepção da realidade. Ele é um ator completo num momento especialmente talentoso: seu trabalho com o olhar, demonstrando sua insegurança e angústia, e, ao mesmo tempo, sua raiva contida, é apenas para grandes performances. Num ano com Day-Lewis e Phoenix em grande forma, Washington mostra que não fica nada a dever, construindo um personagem enigmático. Não se trata exatamente de um personagem exatamente confiável, mas com falhas, com problemas na relação com o filho e a ex-mulher e na sua dificuldade de lidar com o que deve ser revisto na sua passagem pelo avião antes do acidente, o que faz com que o espectador se aproxime dele – e em momentos cruciais passe a querer que ele de fato consiga se estabelecer de forma mais equilibrada, sem que isso soe afetado. Sua tentativa de se inserir no meio político para tentar fugir de suas responsabilidades e suas relações atribuladas com o advogado que tenta representá-lo do melhor modo, e no entanto é ignorado quase sempre em cena, são algumas das características que se inserem no trabalho de Zemeckis para demonstrar que na verdade estamos diante de um personagem absolutamente solitário, mas por seu próprio desinteresse em se modificar diante de seu passado.
Lamenta-se apenas que O voo não desenvolva alguns relacionamentos e personagens da melhor forma e insista, ao final, com uma espécie de mensagem para tudo o que aconteceu, menosprezando um pouco a compreensão do espectador e sua liberdade de imaginar que o personagem de Whitaker não é um molde feito para indicar determinados caminhos ou não. Este final é apontado, de fato, como seu grande problema. No entanto, não apaga o que vem antes: O voo é um filme dramático, com ótimo elenco, capaz de prender a atenção e mesmo apresentar uma discussão interessante por trás de sua narrativa.

Flight, EUA, 2012 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo, Nadine Velázquez, Tamara Tunie Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis Roteiro: John Gatins Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Duração: 138 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Paramount Pictures / Parkes/MacDonald Productions

Cotação 3 estrelas e meia