Luta por justiça (2019)

Por André Dick

Os filmes sobre prisão se tornaram muito populares para o público contemporâneo com Frank Darabont, por meio de Um sonho de liberdade e À espera de um milagre. No segundo, especificamente, era mostrado um homem afrodescendente com alguns poderes capazes de trazer alívio às dores da humanidade de modo muito sensível. A situação de encarcerados pode ser vista em alguns muitos outros filmes feitos desde então, mas poucos com a relação entre prisioneiro e o seu advogado. É o que Luta por justiça traz.
Em nova obra de Destin Daniel Cretton, autor de O castelo de vidro e Temporário 12, o advogado Bryan Stevenson (Michael B. Jordan) é um jovem formado em Harvard que se desloca para Monroeville, no Alabama, a fim de defender os injustamente condenados, tendo a seu lado, entre outros, Eva Ansley (Brie Larson). Um deles é Walter McMillian (Jamie Foxx), ou “Johnny D.”, preso injustamente pela morte de uma mulher e colocado no corredor de morte sem obter um julgamento capaz de analisar as provas. Outro é Herb Richardson (Rob Morgan)., um veterano do Vietnã. Com uma participação menor, está Anthony (O’Shea Jackson Jr).  A narrativa de Cretton se baseia mais no caso de McMillan.

Ele teria cometido um assassinato, no entanto, segundo testemunhas, não estaria sequer perto do local onde ele ocorreu.  Foi em Monroeville que Harper Lee escreveu O sol é para todos, que deu origem ao filme homônimo, no qual um advogado interpretado por Gregory Peck, Atticus Finch, fazia a defesa de um afrodescendente. E este filme é referenciado em alguns momentos desta obra de Cretton.
A história inicia com McMillan sendo preso na estrada por policiais. Depois, ao encadear a história mostrando o jovem advogado, ele já coloca a importância dessa função para que um erro possa ser revisto, não antes sem ele passar também por uma situação de preconceito por meio de um guarda da prisão (Hayes Mercure). McMillan não tem esperanças em seu caso, mas Bryan Stevenson vai até sua família, conhecendo sua esposa, Minnie (Karan Kendrick), e seus amigos, criando uma aproximação.  Sua figura cria polêmica, pois as famílias envolvidas nos casos não querem que eles sejam reabertos – e para isso o advogado precisa enfrentar o promotor público Tommy Chapman (Rafe Spall) e o xerife xerife Tate (Michael Harding).

Tanto Jordan quanto Foxx fazem um grande trabalho nesse sentido: a obra constrói uma expectativa. Cretton é um diretor interessado em figuras à margem, o que já mostrava com os jovens abandonados pela família em Temporário 12 e a família de O castelo de vidro, que viajava sem nunca conseguir se inserir direito na sociedade. Nos três filmes, ele conta com a presença de Brie Larson, que aqui tem uma presença rápida, mas efetiva. O roteirista Andrew Lanham, em parceria com Cretton, desenha bem os personagens, adaptando o livro de Bryan Stevenson, o advogado retratado aqui.
Entre as principais testemunhas do caso McMillan está Ralph Myers (Tim Blake Nelson) – e Cretton sabe utilizar esse ator, num momento fantástico, que dialoga com os melhores interrogatórios de Mindhunter. No entanto, cresce a emoção quando surge a atuação de Rob Morgan, como um homem preso depois de ter preparado uma bomba. A maneira como o ator distribui a culpa em camadas de fala mostra por que Mudbound, do qual ele fazia parte, era um filme tão denso. Sua participação, incluindo uma conversa com o advogado feito por Jordan, é extraordinária na sua contenção.

Cretton não tem até agora sido lembrado pela Academia de Hollywood, no entanto costuma apresentar excelente trabalho de direção de atores e histórias profundamente humanas. Luta por justiça é em boa parte uma história tanto sobre prisioneiros quanto a função jurídica e a investigação. Apenas se lamenta a fotografia de Brett Pawlak ser tão realista, parecendo às vezes um documentário, sem uma atmosfera mais trabalhada, porém isso é uma característica que Cretton apresentava anteriormente em Temporário 12, reproduzida aqui e, dentro do seu objetivo, funcional. Se dois primeiros atos mostram como é o Alabama no final dos anos 80, o racismo contra figuras presas injustamente, o ato final expande seu diálogo para a situação contemporânea. Embora suas soluções não sejam complexas, o tratamento dado ao tema, por causa da profundidade de seus atores, principalmente Foxx, Jordan, Morgan e Nelson, é notável.

Just mercy, EUA, 2019  Diretor:  Destin Daniel Cretton Elenco: Michael B. Jordan, Jamie Foxx, Rob Morgan, Tim Blake Nelson, Rafe Spall, Brie Larson Roteiro: Destin Daniel Cretton e Andrew Lanham Fotografia: Brett Pawlak Trilha Sonora:  Joel P. West Produção: Gil Netter, Asher Goldstein, Michael B. Jordan Duração: 136 min. Estúdio: Endeavor Content, One Community, Participant Media, Macro Media, Gil Netter Productions, Outlier Society Distribuidora:  Warner Bros. Pictures

O castelo de vidro (2017)

Por André Dick

O diretor Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham e Marti Noxon fizeram o roteiro desta aguardada adaptação de O castelo de vidro, de Jeanette Walls, com um elenco em alta conta e visando às premiações principais do fim do ano. Se não houve uma resposta à altura do esperado, o novo experimento do diretor de Temporário 12 tenta contar de maneira atrativa a história de Jeanette Walls (Brie Larson na versão adulta, Ella Anderson na versão jovem e Chandler Head na versão infantil), filha de Rex (Woody Harrelson) e Rose Mary (Naomi Watts), dois pais errantes.
Ela lembra do passado com os irmãos Lori (Sarah Snook na versão adulta, Sadie Sink na versão jovem e Olivia Kate Rice na versão infantil), Brian (Josh Caras na versão adulta, Charlie Stowell na versão jovem e Iain Armitage na infantil) e Maureen (Brigette Lundy-Paine na versão adulta, Shree Crooks na versão jovem e Eden Grace Redfield na versão infantil), enquanto está num compromisso sério com David (Max Greenfield).

Trata-se de uma história autobiográfica, sobre uma família disfuncional, em que o pai alcóolatra leva a família para viver a verdadeira liberdade pelas estradas dos Estados Unidos, alugando casas diferentes e fugindo de federais. Qualquer semelhança com Capitão Fantástico não é mera coincidência, mas aqui há uma base dramática mais acentuada, principalmente nos conflitos de Jeanette com seu pai. Como lidar com alguém que imagina não possuir o problema que de fato tem? Se no início Jeanette é tirada de um hospital com queimaduras no corpo porque não seria o ambiente propício para cuidá-la, como se sentir segura com alguém que não cumpre as promessas? O espectador lembra que Temporário 12, filme anterior de Cretton, mostrava crianças abandonadas recolhidas num abrigo, a partir das memórias do próprio diretor. Aqui essas crianças não estão abandonadas, mas inseridas num sistema em que não estão preparadas para se adaptar. Não fica muito claro por que Rex age desse modo, mas o momento em que volta à sua casa de origem pode oferecer explicações indiretas e não expositivas (o roteiro é muito bem pensado). Junto a isso, a fotografia de Brett Pawlak captura uma certa solidão impositiva.

O castelo de vidro é um filme muito interessante na maneira como apresenta seus personagens. Se Rex é um easy rider, a mãe é uma pintora (abstrata, como ela diz), tentando manter sua arte enquanto não há o que servir para os filhos. Há uma mescla de drama com moldes gregos aqui, mas sem acentuar a tragédia e sim mostrando conflitos dos pais com uma vida estruturada de forma previsível segundo eles. Claro que há um certo romantismo nesse olhar, mas Harrelson e Watts em seus papéis conseguem traduzir o conceito sem soarem pretensiosos ou deslocados. Harrelson vem se especializando em papéis à margem desde sempre (e neste ano aparece ótimo também em Quase 18Wilson), enquanto Watts foge ao seu estilo mais uma vez, fazendo uma mãe distante de qualquer diálogo real.
A personagem de Larson obviamente quer negar a sua origem e se adaptar a uma vida tranquila em Nova York, mas ela não consegue se libertar das amarras do passado. Nesse sentido, o corpo, vestido com roupas simples ou não, evita qualquer afastamento completo da infância, e isso se demonstra numa bela cena em que Jeannette o mostra a outro homem. O diretor, nisso, deseja contrastar o ambiente vazio do presente da personagem, com sua arquitetura exemplar, com a agitação da casa familiar no passado e sua desconjuntura, inclusive nas casas sem cuidado de limpeza ou simples organização – por vezes funciona, por vezes não. No momento em que essa família se reencontra não é para reparar o que aconteceu e sim acentuar as divergências, no entanto é quando Cretton se mostra mais sensível a alterações narrativas, não conseguindo prover cada personagem secundário de substância real.

A história se concentra em Jeannette e não em seus irmãos, embora eles apareçam também, e cresce à medida que mostra o relacionamento com o pai, desde a infância – e as atuações de Chandler Head e Ella Handerson talvez sejam até melhores que a de Brie Larson, que é boa e continua sua parceria iniciada com Cretton em Temporário 12. Há um momento levemente manipulador, quando ela e seu pai estão deitados olhando as estrelas, mas o diálogo funciona. Noxon, um dos roteiristas, dirigiu O mínimo para viver, sobre a anorexia, e acerta aqui no equilíbrio entre esses personagens como já acontecia em seu filme. Se Capitão Fantástico tentava demonstrar um discurso ideológico, em O castelo de vidro há uma discrição mais abrangente, sobretudo por meio da personagem de Rose Mary, mantendo a discussão mais no plano familiar. Cretton aborda de forma interessante as atitudes do pai que sempre fala em liberdade, mas tem um apego sentimental a Jeannette, não querendo que ela tenha uma vida própria ou mesmo um envolvimento sério com algum homem. Sua atitude é infantil, mas essa ligação é desenhada desde o momento em que ele tenta ensiná-la a nadar numa piscina pública, simplesmente jogando-a na água, sem saber boiar, ou quando ele volta para casa com um corte no braço e ela costura a ferida com uma agulha, no momento melhor desenvolvido e ressonante da narrativa. Em outros instantes, essa aproximação entre os dois não é calibrada o suficiente, mas quando Larson e Harrelson entregam sua melhor participação é quando a narrativa cresce e O castelo de vidro se mostra decisivamente belo.

The glass castle, EUA, 2017 Diretor: Destin Daniel Cretton Elenco: Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts, Max Greenfield, Ella Anderson, Chandler Head, Sarah Snook, Brigette Lundy-Paine, Josh Caras Roteiro: Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham, Marti Noxon Fotografia: Brett Pawlak Trilha Sonora: Joel P. West Produção: Gil Netter, Ken Kao Duração: 127 min. Estúdio: Gil Netter Productions Distribuidora: Lionsgate