Kong – A Ilha da Caveira (2017)

Por André Dick

O clássico King Kong de 1933 marcou não apenas sua época, como a história do cinema, e quando Dino De Laurentiis produziu uma refilmagem em 1976 foram poucos os que se atreveram a elogiá-la ou traçar comparações dela com o original. Obviamente, uma falha gigantesca: o King Kong dos anos 70, com sua crítica à indústria petrolífera, é, como diz Pauline Kael, um filme muito divertido. Em 2005, Peter Jackson fez a segunda refilmagem, numa obra grandiosa e com vigor incomum. O interessante é que as duas refilmagens ganharam o Oscar de efeitos visuais. Em Kong – A Ilha da Caveira não temos exatamente uma nova versão da mesma história. Pelo contrário.
Desde o início, quando se mostra uma queda em 1944 durante a Segunda Guerra Mundial de dois caças numa ilha do Pacífico Sul, temos uma liberdade histórica mais abrangente para a figura central.  Em 1973, James Conrad (Tom Hiddleston) é selecionado por um agente do governo norte-americano, Bill Randa (John Goodman), para ser guia de uma expedição exatamente a essa Ilha da Cavaleira, recém-localizada e que desperta o interesse governamental. Para a missão, também é chamado o Coronel Preston Packard (Samuel L. Jackson), com seu esquadrão Sky Devils, constituído por combatentes da Guerra do Vietnã, tendo como braço direito o major Chapman (Toby Kebbell). Junta-se ao grupo também Mason Weaver (Brie Larson), uma fotógrafa pacifista.

A chegada a ilha marca uma situação até então prevista, quando os personagens são lançados em meio a uma espécie de Apocalypse now, como muitos têm falado sobre o filme. Mas, desde o recrutamento de Conrad, num local conturbado, passando pelo soldado Reg Slivko (Thomas Mann), que usa uma bandana vermelha como Christopher Walken em O franco-atirador, este Kong é um subtexto do filme de Michael Cimino vencedor do Oscar principal em 1978. Com suas menções históricas a Richard Nixon, a história do monstro se confunde com a da própria América. A Ilha concentra não apenas King Kong, como também outros animais pré-históricos gigantes e muitas, muitas ossadas de animais já mortos, o que concede uma grande variedade de efeitos visuais e uma fotografia esplêndida de Larry Fong, habitual colaborador de Zack Snyder, com suas colorações destacando o criativo design de produção.
Na jornada, seguem Conrad, Weaver, os biólogos San Lin (Jing Tian), Houston Brooks (Corey Hawkins), os soldados Slivko e Cole (Shea Whigham) o empregado Victor Nieves (John Ortiz), entre outros, que encontram os indígenas do local – como de praxe nos outros da série – e a figura de Hank Marlow (John C. Reilly), um combatente de guerra que vive ali há anos com um aspecto de Capitão Ahab de Moby Dick.

O lugar onde eles vivem remetem claramente à aldeia administrada pelo personagem de Marlon Brando em Apocalypse now, e Marlow se torna a figura mais significativa e interessante da narrativa, graças à boa atuação de Reilly. Ele é como se fosse um elo de ligação entre a época das versões passadas nos anos 30 com a dos anos 70 – e mesmo a tribo não é mostrada como ameaçadora e sim pacífica, tanto que em certo momento se brinca com o lema “Paz e amor”, típico da década de 1970. É uma pena que, em meio a cenas realmente atrativas de ação e um fantástico arsenal de efeitos, os personagens de Conrad e Weaver se sintam tão fracos – ao contrário de Jeff Bridges e Jessica Lange no filme de 76 e de Naomi Watts e Adrien Brody no de 2005. Não porque Hiddleston e Larson não atuem bem, mas porque o arco deles não é suficientemente desenhado e deixe dois dos melhores nomes da atualidade com uma participação excessivamente discreta. Nesse sentido, esta nova obra envolvendo King Kong não prima exatamente pela faceta dramática ou elegância na construção dos personagens – como era o de Jackson principalmente –, sendo muito mais um blockbuster real e de peso, literalmente, o que não tira seus méritos, sobretudo aqueles que envolvem escolhas pessoais do diretor Jordan Vogt-Roberts em relação ao material de origem.

O filme cresce mais em sua analogia da Ilha da Caveira com a Guerra do Vietnã e o roteiro, escrito por Dan Gilroy, o diretor de O abutre, Max Borenstein, que escreveu o Godzilla de 2014, e Derek Connolly, responsável pela narrativa de Jurassic World, nunca deixa de encadear sequências com grande agilidade e ainda assim com lógica, sem quedas abruptas ou mudanças de rumo inaceitáveis. Quando Marlow faz um discurso sobre a onipresença de King Kong na ilha, ele parece estar se referindo ao que o exército dos Estados Unidos achou ser no Vietnã e, quando ele se refere aos pais mortos da criatura, parece delimitar uma época: algo aqui se perdeu. O exército de Packard chega à ilha com helicópteros e bombas, mas este é um novo lugar onde eles não conseguirão mudar o rumo da história. Tudo se sente como um início de franquia, o que, se por um lado incomoda quem gosta do personagem na roupagem mais clássica, por outro promete novos embates. Esses são claramente inspirados pela versão de Peter Jackson e, onde eram comparáveis quase a um video game de destruição, não deixam de ter uma textura verdadeira e até ameaçadora. Ou seja, o filme consegue lidar melhor com seus elementos de origem do que, por exemplo, Jurassic World em relação ao clássico de Spielberg. Quando vemos King Kong em ação, ele parece realmente uma figura em movimento, não um mero produto de efeitos visuais e CGI. É o que concede emoção particular a esta obra de Vogt-Roberts.

Kong: Skull Island, EUA, 2017 Direção: Jordan Vogt-Roberts Elenco: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, John Goodman, Brie Larson, Jing Tian, ​​Toby Kebbell, Corey Hawkins, Shea Whigham, Jason Mitchell Roteiro: Dan Gilroy, Max Borenstein, Derek Connolly Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Jon Jashni, Mary Parent, Thomas Tull, Alex Garcia Duração: 118 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Legendary Pictures / Warner Bros.

 

 

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